segunda-feira, 28 de março de 2011

OS VÂNDALOS DO PATRIMÓNIO

Costumo acordar com o gorjeio dos pássaros na horta. Ontem, Sábado de Aleluia, acordei mergulhado num silêncio tumular. «Quereis ver?...» Abri a janela. Dois palmos de neve no muro da horta. Os campos, a perder de vista, um deslumbramento de brancura.
Saí para a eira de codaque em riste. O beiral da casa rendilhado de candeeiros. Coisa bonita!
Julguei que tínhamos para oito dias. Mas eis que o sol começa a subir, a neve a derreter, o beiral a despejar água em catadupa. Em poucas horas, casas e árvores despiram a alva. Ficaram apenas as serras coroadas de arminho. Fui vê-Ias de perto.
No cotovelo duma calhelha, encontrei o meu velho e particular amigo Rodrigues.
– Já foste ver que pedra estão a tirar em Penas-Covas? – perguntou-me.
Nos meus tempos de escolaridade, saudosos tempos em que reinava a soberana e crudelíssima Santa-Luzia-dos-Cinco-Olhos, ensinaram-me que nunca se responde a uma pergunta com outra pergunta. Mas não resisti e contra-ataquei:
– Sabes o que quer dizer Penas?
– Home…
– Eu te explico. Pena, de acordo com o radical ou étimo latino, pode significar três coisas. De poena, deu: tristeza, castigo, dó, compaixão, saudade; de penna, deu pluma, pena de ave, pena de escrever, asa de rodízio; de pinna deu rocha, fraguedo. Não tens lá um dicionário?
- Nem cabeça para essas coisas.
– Mas já tinhas idade para perceberes que as Penas-Covas eram os penedos maiores e mais bonitos do termo de Peireses e arredores. Por isso os nossos antepassados os cognominaram de Penas: as rochas por excelência.
– E tinham razão. Que pedra lá deram!
– E tu a dares-lhe e a burra a fugir. Os penedos não estavam em terrenos teus?
– E dos meus cunhados.
– Ao todo, quantos herdeiros?
– Quatro.
– E quanto recebeu cada um?
– Uns cinquenta contitos.
– E vós não tendes vergonha de, por uma insignificância dessas, deixares destruir um monumento?
– E ó rapaz que bela pedra lá deu!
– Chiça! Cala-te lá com a beleza da pedra. Belos eram os penedos e a paisagem de que eles eram o melhor ornamente. Agora parece que passou por lá uma bomba atómica …
– Olha que a do Crasto não lhes agradou …
– Han?!
– Palavra! Fui eu lá com eles. Já tinham licença do engenheiro da floresta e do Presidente da Junta.
Fiquei siderado!
No termo de Peireses há um castro com três lanços de muralhas, a que o povo chama Muradal. Nasceram-me por lá os dentes atrás das vacas e das cabras. Muitas cortes e palheiros da minha aldeia foram construídos com pedra do Muradal. Sou testemunha disso. Nos meus tempos de estudante gostava de ir espairecer até ao Crasto. Um dia reparei que tinham andado a tirar pedra de fresco. Ia a passar um meu vizinho caçador. Chamei por ele:
– Ó Tizé? Venha cá. Olhe para esta pouca vergonha… A roubarem a pedra das muralhas!
Eu estava rubro de cólera e de indignação. E quando julguei que o meu vizinhe ia fazer coro comigo nos impropérios aos vândalos do monumento, ele limitou-se a olhar indiferentemente para o rombo nas muralhas e a dizer:
– Quer não que não é grande cantaria…
Oh! Céus! Na minha ingenuidade e entusiasmo de aprendiz de história, estava à espera que o meu vizinho, ante a cividade adormecida, exclamasse para mim, como Napoleão para os soldados ante as pirâmides do Egipto:
– Do alto destas ruínas, quarenta séculos te contemplam!
Mas o meu vizinho tinha mais espírito de pedreiro do que de Bonaparte. E a única observação que lhe ocorreu foi a de que os Celtas não eram grandes canteiros…
Mas deixaram monumentos que resistem há cinco mil anos! E continuarão a resistir indefinidamente.
A não ser que a ganância e o diabólico poder da técnica os destruam.
O meu amigo Rodrigues garantiu-me que não. Que os empreiteiros não gostaram da pedra.
Mas fiquei horrorizado. Tão horrorizado, que peguei no carro e fugi para o Porto.
Ao chegar aos Pisões, reparei que os carros que me precediam, bem como os que vinham em sentido oposto, encostavam à berma. Que foi que não foi, coisa sem importância de maior: uma carrinha que, no cruzamento de Friães, tocara de raspão num autocarro.
Em breves segundos, tive ensejo de cumprimentar ali numerosos amigos, entre eles, o Presidente da Junta de Freguesia de Salto. Que vinha da Câmara, onde passara a tarde a discutir e assentar os termos de concessões de pedreiras ao ar livre no termo de Salto…
Atei as mãos à cabeça. Eu não sou de modo algum contra as pedreiras. Sou até adepto incondicional das casas de pedra. Mas acho que a pedra deve ser explorada no subsolo, em zonas bem delimitadas, sem grandes estragos ambientais. Os penedos, como as árvores, fazem parte integrante da paisagem, Com uma diferença: as árvores, cortadas umas, plantam-se outras: os penedos, destruídos uma vez, nunca mais voltam.
Que o Ministério do Ambiente, a Quercus e organismos similares venham em meu auxílio.
Que, pelo exposto, com os Barrosões, escuso de contar.


Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS – Crónicas de Barroso (p. 36 e ss.)

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