sexta-feira, 8 de abril de 2011

Vergílio Ferreira (8 de Abril de 1989)

8 – Abril (sábado). Fomos à Gulbenkian ouvir um concerto de um jovem violinista – Pedro Teixeira da Silva – acompanhado ao piano pela Dora. Mas fomos sobretudo por causa da acompanhante. Quando ela era miúda e já tocava piano, disse-lhe que já tinha um belo nome de artista, sempre útil para fazer impressão, pois que se chamava Dora, que era o nome que eu lhe inventara, e Infante, que era o sobrenome que lhe passara o pai. Mas não sei se o belo nome artístico já tinha tido o seu préstimo. Teve-o agora, se não. Vieram à conversa, quero dizer à música, do violino e piano, Tartini, Vitali, Bloch e Beethoven. Dois deles não eram das minhas relações ou se nos encontrámos foi em encontro de acaso, sem consequências. Mas achei-os simpáticos, favoráveis a um bocado de convívio. O violinista é um jovem cheio de destreza, em vias de vencer todas as perrices ou caprichos do violino – que é um instrumento quase intratável. Dora igualmente esteve bem. Falta-lhe ainda, parece-me, um entendimento humilde e profundo do que está atrás da música, o espírito do autor, o seu modo de ser alma antes de ser o que é em expressão – ou o que nessa expressão é a alma a exprimir-se. Mas ela está a ponto de abandonar a sua actividade de engenheira química para viver só para a música. E isso significa estar aí a sua grande razão de ser. E uma razão de ser na música tem que ver com a sua parte de dentro. Dora deve lá chegar. E será então uma excelente pianista. Como nós lhe augurávamos quando era a altura de se augurar. Ou seja quando ainda não havia e já havia.

conta-corrente - nova série I (1989), p. 62

Sem comentários:

Enviar um comentário