Jean Giono
Imagino que Jean Giono haverá plantado
não poucas árvores durante a sua vida. Só quem cavou a terra para acomodar uma
raiz ou a esperança dela poderia ter escrito a singularíssima narrativa que é O homem que plantava árvores, uma
indiscutível obra-prima da arte de contar. Claro que para que tal sucedesse era
necessário que existisse um Jean Giono, mas essa condição básica, felizmente
para todos nós, era já um dado adquirido e confirmado: o autor existia, só
faltava que se pusesse a escrever a obra. Também faltava que o tempo
decorresse, que a velhice se apresentasse para dizer: «Aqui estou», pois só
talvez numa idade avançada, como já então era a de Giono, seria possível
escrever com as cores do real físico, como ele o fez, uma história concebida no
mais secreto da elaboração ficcional. O plantador de árvores Elzéard Bouffier,
que nunca existiu, é simplesmente uma personagem feita com os dois ingredientes
mágicos da criação literária, o papel e a tinta com que nele se escreve. E
contudo, ficamos a conhecê-lo logo à primeira referência que se lhe faz, como
alguém a quem estivéssemos esperando há muito tempo. Plantou milhares de
árvores nos Alpes franceses,
depois esses milhares, por acção da própria natureza assim ajudada,
multiplicaram-se em milhões, com elas regressaram as aves, regressaram os
animais dos bosques, regressou a água, ali onde não tinha havido mais que
secura. Em verdade, estamos esperando o aparecimento de uns quantos Elzéard
Bouffier reais. Antes que seja demasiado tarde para o mundo.
P.S. Tem
razão o Sr. D.
Duarte de Bragança, tratava-se do Evangelho,
não do Memorial,
mas já não a tem quando diz que eu atribuo a paternidade de Jesus a um soldado
romano. Nenhum dos milhões de leitores que o livro teve até hoje lho
confirmaria. Conheço a tese, mas, creio que por uma questão de bom gosto, não a
utilizei na história que escrevi. Em compensação, dediquei umas quantas páginas
à concepção de Jesus por José e Maria, seus pais. Permito-me sugerir ao Sr. D.
Duarte de Bragança que leia o meu Evangelho. Atreva-se, não seja tímido,
garanto-lhe que aproveitará com a leitura.
Sem comentários:
Enviar um comentário