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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Dia 12 [Novembro de 2009]

Sobre Maria João Pires
Maria João Pires não teve muita sorte com o país em que nasceu. Sessenta anos de carreira (e que extraordinária carreira a sua) justificariam uma homenagem de âmbito nacional capaz de expressar a nossa gratidão por pisarmos o mesmo chão e respirarmos o mesmo ar. Não será assim, pelos vistos, ainda que não lhe venham a faltar na terra portuguesa outras manifestações de admiração e respeito. Foi em casa de uns amigos que a ouvi pela primeira vez, quando ela não passava de uma adolescente que, com o seu frágil corpo, mal parecia haver saído da infância, e que me fez temer se os braços e as mãos lhe chegariam para enfrentar-se ao gigantesco teclado. O piano familiar, vertical, talvez não estivesse em perfeito estado de afinação, mas as primeiras notas saltaram límpidas, cristalinas, dando-me a sensação, não de serem a mera consequência do choque dos martelos com as cordas, mas de haverem brotado directamente dos dedos da própria pianista. Foi o meu baptismo na arte de Maria João Pires. Depois, ao longo dos anos, sempre que ela, já viajante emérita, aparecia por Lisboa a dar os seus recitais, eu lá estava, rogando às potestades celestes que a protegessem do mau-olhado, de um simples sopro de ar que a perturbasse. Talvez por efeito das minhas petições e do crédito que tenho no céu, todos os concertos e recitais de Maria João Pires a que assisti chegaram felizmente ao seu termo. Desta vez, por razões de distância e também de saúde, não poderei estar presente, dar palmas e beijar as suas mãos tão cheias de música, de humanidade, de beleza. Por tudo o que me fez ouvir e sentir, Maria João, obrigado.
José Saramago, O CADERNO

sábado, 10 de novembro de 2012

Dia 10 [Novembro de 2009]

Não ao Desemprego
Diante das manifestações que se estão preparando em toda a Europa, de protesto contra o desemprego, escrevi, a pedido de um grupo de sindicalistas, o texto que a seguir se reproduz.

Não ao Desemprego

A gravíssima crise económica e financeira que está convulsionando o mundo traz-nos a angustiante sensação de que chegámos ao final de uma época sem que se consiga vislumbrar o que e como será o que virá de seguida.
Que fazemos nós, que assistimos, impotentes, ao avanço esmagador dos grandes potentados económicos e financeiros, loucos por conquistar mais e mais dinheiro, mais e mais poder, com todos os meios legais ou ilegais ao seu alcance, limpos ou sujos, regulares ou criminais?
Podemos deixar a saída da crise nas mãos dos peritos? Não são eles precisamente, os banqueiros, os políticos de máximo nível mundial, os directores das grandes multinacionais, os especuladores, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, os que, com a soberba de quem se considera possuidor da última sabedoria, nos mandavam calar quando, nos últimos trinta anos, timidamente protestávamos, dizendo que não sabíamos nada, e por isso nos ridicularizavam? Era o tempo do império absoluto do Mercado, essa entidade presunçosamente auto-reformável e auto-regulável encarregada pelo imutável destino de preparar e defender para sempre e jamais a nossa felicidade pessoal e colectiva, ainda que a realidade se encarregasse de desmenti-lo a cada hora que passava.
E agora, quando cada dia aumenta o número de desempregados? Vão acabar por fim os paraísos fiscais e as contas numeradas? Será implacavelmente investigada a origem de gigantescos depósitos bancários, de engenharias financeiras claramente delitivas, de inversões opacas que, em muitos casos, mais não são que massivas lavagens de dinheiro negro, do narcotráfico e outras actividades canalhas? E os expedientes de crise, habilmente preparados para benefício dos conselhos de administração e contra os trabalhadores?
Quem resolve o problema dos desempregados, milhões de vítimas da chamada crise, que pela avareza, a maldade ou a estupidez dos poderosos vão continuar desempregados, mal-vivendo temporariamente de míseros subsídios do Estado, enquanto os grandes executivos e administradores de empresas deliberadamente conduzidas à falência gozam de quantias milionárias cobertas por contratos blindados?
O que se está a passar é, em todos os aspectos, um crime contra a humanidade e desde esta perspectiva deve ser analisado nos fóruns públicos e nas consciências. Não é exagero. Crimes contra a humanidade não são apenas os genocídios, os etnocídios, os campos de morte, as torturas, os assassinatos selectivos, as fomes deliberadamente provocadas, as contaminações maciças, as humilhações como método repressivo da identidade das vítimas. Crime contra a humanidade é também o que os poderes financeiros e económicos, com a cumplicidade efectiva ou tácita de os governos, friamente perpetraram contra milhões de pessoas em todo o mundo, ameaçadas de perder o que lhes resta, a sua casa e as suas poupanças, depois de terem perdido a única e tantas vezes escassa fonte de rendimiento, quer dizer, o seu trabalho.
Dizer «Não ao Desemprego» é um dever ético, um imperativo moral. Como o é denunciar que esta situação não a geraram os trabalhadores, que não são eles os que devem pagar a estultícia e os erros do sistema.
Dizer «Não ao Desemprego» é travar o genocídio lento mas implacável a que o sistema condena milhões de pessoas. Sabemos que podemos sair desta crise, sabemos que não pedimos a lua. E sabemos que temos voz para usá-la. Frente à soberba do sistema, invoquemos o nosso direito à crítica e ao nosso protesto. Eles não sabem tudo. Equivocaram-se. Enganaram-nos. Não aceitaremos ser suas vítimas.
José Saramago, O CADERNO

domingo, 7 de outubro de 2012

Dia 7 [Outubro de 2009]

Dias felizes
       O excelente artigo de Umberto Eco intitulado «Um blogger chamado Saramago» que havia sido publicado há alguns dias no La Repubblica, apareceu hoje no El País e aparecerá amanhã nas páginas do Diário de Notícias. Esse conjunto de textos breves, baptizado por mim para a edição em livro com o nome discreto de O Caderno, nasceu com sorte. Passado já ao castelhano, ao catalão e ao italiano, encontrou agora o melhor dos valedores possíveis na pessoa de Umberto Eco, cuja perspicaz análise vem sabiamente temperada pela graça da escrita e pela subtileza do humor. Não tenho o direito de alongar-me, muito menos comentar o que Eco escreveu. Basta-me a felicidade que sinto. Ao correr de todos estes anos, outros livros meus foram acolhidos com generosidade e simpatia, mas nenhum como este. Sou, neste momento, o mais grato dos escritores.
       06 de Outubro de 2009
José Saramago, O CADERNO

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Dia 28 [Setembro de 2009]

Formentor
O homem põe, porém são as circunstâncias as que dispõem. Depois de tantos meses saboreando por antecipação a projectada viagem a Mallorca, o encontro com amigos, o debate anunciado, eis que as razões de uma saúde que necessita ser vigiada vieram desaconselhar a deslocação: as já citadas circunstâncias e acasos determinaram que alguns exames que devo fazer coincidissem com as datas do encontro. Paciência. Haverá outros Formentor e em algum deles estarei. Estas palavras dirijo-as a todos os participantes do encontro, conferencistas e público. Exprimem o meu pesar pela forçada ausência, mas, ao mesmo tempo, querem dar testemunho da importância da continuidade de Formentor, tanto pelas obrigações contraídas no passado como pelas esperanças que o seu regresso vai trazer à definição de novas estratégias no plano da acção cultural. O espírito livre de Formentor dos anos 60 deve ser revivificado, e este é o momento exacto para fazê-lo. Todos sentimos que soou a hora de levantar outra vez a palavra para promover a reflexão livre e, que não se escandalizem os ouvidos castos, a justa dissidência. Disso se trata: dissentir é um dos dois direitos que faltam à Declaração dos Direitos Humanos. O outro é o direito à heresia. Os participantes do «velho» Formentor, entre os quais, além de Carlos Barral, me apraz recordar o meu colega José Cardoso Pires, sabiam-no, todo o seu empenho se orientou no sentido de uma necessária desmitificação de conceitos e na aclaração da função social do escritor, com independência de laços ideológicos ou partidários. Falemos claro e entender-nos-emos uns aos outros. A todos saúdo, amigos e desconhecidos, a Perfecto Cuadrado, e também a Juan Goytisolo a quem quero deixar expressos nesta breve declaração todo o meu respeito e toda a minha admiração.
José Saramago, O CADERNO

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Dia 11 [Setembro de 2009]

O regresso
A sessão de evocação da obra e da figura de Jorge de Sena, realizada no Teatro de São Carlos em 10 de Julho de 2008, teve um título que a esta distância facilmente parecerá premonitório: Jorge de Sena – Um regresso. Para falar do autor de Sinais de Fogo reunimos ali, além de um representante da Fundação, para o caso o seu patrono, algumas das pessoas mais qualificadas do pensamento literário e critico português: Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva, Jorge Fazenda Lourenço e António Mega Ferreira, cujas participações contaram com a inteligente moderação do ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro. A sala do São Carlos estava cheia até às torrinhas, o que mostra que a premonição, se o era, estava a ser partilhada por umas quantas centenas de pessoas. Houve leitura de poemas por Jorge Vaz de Carvalho e o pianista António Rosado interpretou composições sobre as quais Sena havia escrito. Quem esteve lá não esquecerá nunca. No final a Fundação ofereceu a cada um dos participantes um estojo com chaves: as que deveriam abrir as portas necessárias para que Jorge de Sena regressasse definitivamente ao seu país. Não, não foi premonição. Simplesmente, o que tem de ser, tem de ser e tem muita força. A força de todas aquelas pessoas, quase um milhar, unidas no mesmo pensamento: que volte Jorge de Sena, que volte já. Voltou, enfim. Não sei se ficámos mais ricos. Mais conscientes das nossas responsabilidades, sim. Poucas coisas agradariam tanto a Jorge de Sena. 
José Saramago, O CADERNO

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Dia 31 [Agosto de 2009]

Despedida
Diz o refrão que não há bem que sempre dure nem mal que ature, o que vem assentar como uma luva no trabalho de escrita que acaba aqui e em quem o fez. Algo de bom se encontrará nestes textos, e por eles, sem vaidade, me felicito, algo de mal terei feito noutros e por esse defeito me desculpo, mas só por não tê-los feito melhor, que diferentes, com perdão, não poderiam eles ser. Às despedidas sempre conveio que fossem breves. Não é isto uma ária de ópera para lhe meter agora um interminável adio, adio. Adeus, portanto. Até outro dia? Sinceramente, não creio. Comecei outro livro e quero dedicar-lhe todo o meu tempo. Já se verá porquê, se tudo correr bem. Entretanto, terão aí o Caim.

P. S – Pensando melhor, não há que ser tão radical. Se alguma vez sentir necessidade de comentar ou opinar sobre algo, virei bater à porta do Caderno, que é o lugar onde mais a gosto poderei expressar-me.
José Saramago, O CADERNO

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Dia 28 [Agosto de 2009]

A junta do motor
Desde há mais de sessenta anos que eu deveria saber conduzir um automóvel. Conhecia bem, naqueles remotos tempos, o funcionamento de tão generosas máquinas de trabalho e de passeio, desmontava e montava motores, limpava carburadores, afinava válvulas, investigava diferenciais e caixas de mudanças, instalava calços de travões, remendava câmaras de ar furadas, enfim, sob a precária protecção do meu fato-macaco azul que me defendia o melhor que podia das nódoas de óleo, efectuei com razoável eficiência quase todas as operações por que é obrigado a passar um automóvel ou um camião a partir do momento em que entra numa oficina para recuperar a saúde, tanto a mecânica como a eléctrica. Só faltava que me sentasse um dia atrás do volante a fim de receber do instrutor as lições práticas que deveriam culminar no exame e na sonhada aprovação que me permitiria ingressar na ordem social cada vez mais numerosa dos automobilistas encartados. Contudo, esse dia maravilhoso nunca chegou. Não são apenas os traumas infantis que condicionam e influem a idade adulta, também os que se sofrem na adolescência podem vir a ter consequências desastrosas e, como no presente caso sucedeu, determinar de maneira radicalmente negativa a futura relação do traumatizado com algo tão quotidiano e banal como é um veículo automóvel. Tenho sólidas razões para crer que sou o deplorável resultado de um desses traumas. Mais ainda: por muito paradoxal que a afirmação vá parecer a quem das íntimas conexões entre as causas e os efeitos somente tiver ideias elementares, se nos meu verdes anos não tivesse trabalhado como serralheiro-mecânico numa oficina de automóveis, hoje, provavelmente, saberia conduzir um carro, seria um orgulhoso transportador em lugar de um humilde transportado. Além das operações que comecei por referir, e como parte obrigatória de algumas delas, também substituía as juntas dos motores, essas finas placas forradas de folha de cobre sem as quais seria impossível evitar fugas da mistura gasosa de combustível e ar entre a cabeça do motor e o bloco dos cilindros. (Se a linguagem que estou a usar parecer ridiculamente arcaica aos entendidos em automóveis modernos, mais governados por computadores do que pela cabeça de quem os conduz, a culpa não é minha: falo do que conheci, não do que desconheço, e muita sorte que não me ponha aqui a descrever a estrutura das rodas dos carros de bois e a maneira de atrelar estes animais ao jugo. É matéria igualmente arcaica em que também tive alguma competência). Ora, um dia, depois de ter acabado o trabalho e colocado a junta no seu sítio, depois de ter apertado com a força dos meus dezanove anos as porcas que sujeitavam a cabeça do motor ao bloco, dispus-me a realizar a última fase da operação, isto é, encher de água o radiador. Desenrosquei pois o tampão e comecei a deitar para a boca do radiador a água com que tinha enchido o velho regador que para esse e outros efeitos havia na oficina. Um radiador é um depósito, tem uma capacidade limitada e não aceita nem um mililitro mais do que a quantidade de água que lá caiba. Água que continue a deitar-se-lhe é água que transborda. Algo de estranho, porém, se estava a passar com aquele radiador, a água entrava, entrava, e por mais água que lhe metesse não a via subir dançando até à boca, que seria o sinal de estar acabado o enchimento. A água que já vertera por aquela insaciável garganta abaixo teria bastado para satisfazer dois ou três radiadores de camião, e era como se nada. Às vezes penso que, sessenta e muitos anos passados, ainda hoje estaria a tentar encher aquele tonel das Danaides se em certa altura não me tivesse apercebido de um rumor de água a cair, como se dentro da oficina houvesse uma pequena cascata. Fui ver. Pelo tubo de escape do carro saía um avultado jorro de água que, pouco a pouco, diante dos meus olhos estupefactos, foi diminuindo de caudal até ficar reduzido a umas derradeiras e melancólicas gotas. Que se passara? Tinha colocado mal a junta, tapara entre a cabeça do motor e o bloco o que deveria ter aberto, e, muito mais grave do que isso, facilitara passagens e comunicações onde não deveria havê-las. Nunca cheguei a saber que voltas teve de dar a pobre água para ir sair ao tubo de escape. Nem quero que mo digam agora. Para vergonha bastou. Possivelmente terá sido nesse dia que comecei a pensar em tornar-me escritor. É um ofício em que somos ao mesmo tempo motor, água, volante, mudanças de velocidade e tubo de escape. Talvez, afinal, o trauma tenha valido a pena.
José Saramago, O CADERNO

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Dia 27 [Agosto de 2009]

República
Vai para cem anos, em 5 de Outubro de 1910, uma revolução em Portugal derrubou a velha e caduca monarquia para proclamar uma república que, entre acertos e erros, entre promessas e malogros, passando pelos sofrimentos e humilhações de quase cinquenta anos de ditadura fascista, sobreviveu até aos nossos dias. Durante os enfrentamentos, os mortos, militares e civis, foram 76, e os feridos 364. Nessa revolução de um pequeno país situado no extremo ocidental da Europa, sobre a qual já a poeira de um século assentou, sucedeu algo que a minha memória, memória de leituras antigas, guardou e que não resisto a evocar. Ferido de morte, um revolucionário civil agonizava na rua, junto a um prédio do Rossio, a praça principal de Lisboa. Estava só, sabia que não tinha qualquer possibilidade de salvação, nenhuma ambulância se atreveria a ir recolhê-lo, pois o tiroteio cruzado impedia a chegada de socorros. Então esse homem humilde, cujo nome, que eu saiba, a história não registou, com uns dedos que tremiam, quase desfalecido, traçou na parede, conforme pôde, com o seu próprio sangue, com o sangue que lhe corria dos ferimentos, estas palavras: «Viva a república». Escreveu república e morreu, e foi o mesmo que tivesse escrito: esperança, futuro, paz. Não tinha outro testamento, não deixava riquezas no mundo, apenas uma palavra que para ele, naquele momento, significaria talvez dignidade, isso que não se vende nem se deixa comprar, e que é no ser humano o grau supremo.
José Saramago, O CADERNO

domingo, 26 de agosto de 2012

Dia 26 [Agosto de 2009]


Dois escritores
Chamam-se Ramón Lobo e Enric González. Exercem de jornalistas e são-no de facto, do melhor que se pode encontrar nas páginas de um jornal, mas eu prefiro vê-los como escritores, não porque considere hierarquizáveis as duas profissões, mas porque na leitura do que escrevem colho emoções e defino sentimentos que, ao menos em princípio, mais naturalmente são mostráveis numa obra literária de qualidade. A Ramón Lobo já levo alguns anos lendo-o, Enric González é um descobrimento recente. Como correspondente de guerra, Ramón tem a superior qualidade de pôr cada palavra, em sua exacta medida expressiva, sem retórica nem deslizamentos sensacionalistas, ao serviço do que vê, ouve e sente. Parece óbvio, mas não o é tanto, só o permitiria um domínio excepcionalmente seguro da linguagem a utilizar, e ele tem-no. De Enric González não era leitor. Via as suas colunas no El País, mas a minha curiosidade não era bastante forte para me levar a integrar os seus escritos na minha leitura habitual. Até ao dia em que me veio às mãos o seu livro Historias de Nueva York. A palavra deslumbramento não é exagerada. Livros sobre cidades são quase tantos como as estrelas no céu, mas, que eu conheça, nenhum o é como este. Julgava eu que conhecia satisfatoriamente Manhattan e os seus arredores, mas a dimensão do meu engano tornou-se-me clara logo às primeiras páginas do livro. Poucas leituras me deram tanto prazer nestes últimos anos. Tome-se este breve texto como uma homenagem e uma manifestação de gratidão a dois excepcionais jornalistas que são, ao mesmo tempo, dois notáveis escritores.
José Saramago, O CADERNO

sábado, 25 de agosto de 2012

Dia 25 [Agosto de 2009]


Jogo sujo
Jovem e ingénuo era quando há muitos, muitíssimos anos, alguém me convenceu a fazer um seguro de vida, sem dúvida do mais rudimentar que então se praticaria, vinte contos que me seriam entregues passados vinte anos no caso de não ter morrido, claro está, não ficando a companhia obrigada a prestar-me contas dos eventuais lucros do minúsculo investimento e suas aplicações e muito menos fazer-me participar deles. Ai de mim, porém, se não pagasse os prémios respectivos. Nessa época, os vinte contos eram muito dinheiro para mim, necessitava trabalhar quase um ano para ganhá-los, e portanto fizeram-me bom arranjo quando mos pagaram, mas o que não pude foi evitar um desagradável sentimento de desconfiança que me dizia, e insistia, que eu havia sido prejudicado, embora não soubesse exactamente como. Nessa altura não era só a chamada letra pequena que nos enganava, a própria letra grande já era um punhado de poeira atirada aos olhos. Eram outros tempos, a gente comum, na qual eu me incluía, sabia pouco da vida e mesmo esse pouco de pouco lhe servia. Quem se atreveria a discutir, já não digo com o actuário, mas com o próprio angariador de seguros, que tinha a lábia toda? Hoje já não é assim, perdemos a inocência e não fugimos a discutir com a maior das convicções até mesmo aquilo de que só temos uma pálida ideia. Que não nos venham pois com histórias, bem te conheço, ó máscara. O mau é que se as máscaras mudam, e mudam muitíssimo, o que está por baixo delas mantém-se inalterável. E nem sequer é certo que tenhamos perdido a inocência. Quando Barack Obama, no calor da campanha para a presidência, anunciou uma reforma sanitária que permitisse proteger os 46 milhões de norte-americanos não abrangidos pelo sistema em vigor para os restantes, isto é, aqueles que, directa ou indirectamente, pagam os seguros respectivos, esperávamos que uma onda de entusiasmo varresse os Estados Unidos. Tal não sucedeu e hoje sabemos porquê. Mal se iniciaram os trâmites que levarão (levarão?) ao estabelecimento da reforma, o dragão despertou. Como escreveu Augusto Monterroso: o dinossauro ainda estava ali. Não foram só as cinquenta companhias de seguros norte-americanas que controlam o actual sistema a abrir fogo contra o projecto, fê-lo também a totalidade dos senadores e deputados republicanos, e igualmente um apreciável número de representantes democratas, quer no congresso quer no senado. Nunca como neste caso a filosofia prática dos Estados Unidos esteve tão à vista: se não és rico, a culpa é tua. São 46 milhões os norte-americanos que não têm cobertura sanitária, 46 milhões de pessoas que não têm dinheiro para pagar seguros, 46 milhões de pobres que, pelos vistos, não têm onde cair mortos. Quantos Barack Obama ainda vão ser necessários para que o escândalo termine?
José Saramago, O CADERNO

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Dia 21 [Agosto de 2009]

Um terceiro deus
Creio que as teses de Huntington sobre o «choque de civilizações», atacadas por uns e celebradas por outros aquando do seu aparecimento, mereceriam agora um estudo mais atento e menos apaixonado. Temo-nos habituado à ideia de que a cultura é uma espécie de panaceia universal e de que os intercâmbios culturais são o melhor caminho para a solução dos conflitos. Sou menos optimista. Creio que só uma manifesta e activa vontade de paz poderia abrir a porta a esse fluxo cultural multidireccional, sem ânimo de domínio de qualquer das suas partes. Essa vontade talvez exista por aí, mas não os meios para a concretizar. Cristianismo e islamismo continuam a comportar-se como inconciliáveis irmãos inimigos incapazes de chegar ao desejado pacto de não agressão que talvez trouxesse alguma paz ao mundo. Ora, já que inventámos Deus e Alá, com os desastrosos resultados conhecidos, a solução talvez estivesse em criar um terceiro deus com poderes suficientes para obrigar os impertinentes desavindos a depor as armas e deixar a humanidade em paz. E que depois esse terceiro deus nos fizesse o favor de retirar-se do cenário onde se vem desenrolando a tragédia de um inventor, o homem, escravizado pela sua própria criação, deus. O mais provável, porém, é que isto não tenha remédio e que as civilizações continuem a chocar-se umas com as outras.
José Saramago, O CADERNO

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Dia 20 [Agosto de 2009]

Tristeza
Uma irresistível e já automática associação de ideias faz-me sempre recordar a Melancolia de Dürer quando penso na obra de Eduardo Lourenço. Se o de António Nobre é o livro mais triste que alguma vez se escreveu em Portugal, faltava-nos quem sobre essa tristeza reflectisse e meditasse. Veio Eduardo Lourenço e explicou-nos quem somos e porque o somos. Abriu-nos os olhos, mas a luz era demasiado forte. Por isso, tornámos a fechá-los.
José Saramago, O CADERNO

domingo, 19 de agosto de 2012

Dia 19 [Agosto de 2009]

O sangue em Chiapas
Todo o sangue tem a sua história. Corre sem descanso no interior labiríntico do corpo e não perde o rumo nem o sentido, enrubesce de súbito o rosto e empalidece-o fugindo dele, irrompe bruscamente de um rasgão da pele, torna-se capa protectora de uma ferida, encharca campos de batalha e lugares de tortura, transforma-se em rio sobre o asfalto de uma estrada. O sangue nos guia, o sangue nos levanta, com o sangue dormimos e com o sangue despertamos, com o sangue nos perdemos e salvamos, com o sangue vivemos, com o sangue morremos. Torna-se leite e alimenta as crianças ao colo das mães, torna-se lágrima e chora sobre os assassinados, torna-se revolta e levanta um punho fechado e uma arma. O sangue serve-se dos olhos para ver, entender e julgar, serve-se das mãos para o trabalho e para o afago, serve-se dos pés para ir aonde o dever o mandou. O sangue é homem e é mulher, cobre-se de luto ou de festa, põe uma flor na cintura, e quando toma nomes que não são os seus é porque esses nomes pertencem a todos os que são do mesmo sangue. O sangue sabe muito, o sangue sabe o sangue que tem. Às vezes o sangue monta a cavalo e fuma cachimbo, às vezes olha com olhos secos porque a dor lhos secou, às vezes sorri com uma boca de longe e um sorriso de perto, às vezes esconde a cara mas deixa que a alma se mostre, às vezes implora a misericórdia de um muro mudo e cego, às vezes é um menino sangrando que vai levado em braços, às vezes desenha figuras vigilantes nas paredes das casas, às vezes é o olhar fixo dessas figuras, às vezes atam-no, às vezes desata-se, às vezes faz-se gigante para subir às muralhas, às vezes ferve, às vezes acalma-se, às vezes é como um incêndio que tudo abrasa, às vezes é uma luz quase suave, um suspiro, um sonho, um descansar a cabeça no ombro do sangue que está ao lado. Há sangues que até quando estão frios queimam. Esses sangues são eternos como a esperança.
José Saramago, O CADERNO

sábado, 18 de agosto de 2012

Dia 18 [Agosto de 2009]

Carlos Paredes
Não o pensava antes, quando escutava a guitarra de Carlos Paredes, mas hoje, recordando-a, compreendo que aquela música era feita de alvoradas, canto de pássaros anunciando o sol. Ainda tivemos de esperar uma década antes que outra madrugada viesse abrir-se para a liberdade, mas o inesquecível tema de Verdes Anos, esse cantar de extática alegria que ao mesmo tempo se entretece em harpejos de uma surda e irreprimível melancolia, tornou-se para nós numa espécie de oração laica, um toque a reunir de esperanças e vontades. Já seria muito, mas ainda não era tudo. O resto que ainda faltava conhecer era o homem de dedos geniais, o homem que nos mostrava como podia ser belo e robusto o som de uma guitarra, e que era, a par de músico e intérprete excepcional, um exemplo extraordinário de simplicidade e grandeza de carácter. A Carlos Paredes não era preciso pedir que nos franqueasse as portas do seu coração. Estavam sempre abertas.
José Saramago, O CADERNO

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Dia 17 [Agosto de 2009]

Acteal
Quase doze anos são passados já sobre a matança de Acteal, no sudeste do Estado mexicano de Chiapas. No dia 22 de Dezembro de 1997, quando os membros da comunidade tzotzil de Las Abejas se encontravam reunidos para rezar na sua humilde capela, uma construção rústica de tábuas mal aparelhadas e sem pintura, noventa paramilitares do grupo Máscara Roja, expressamente levados ali, munidos de armas de fogo e machetes, num ataque que durou sete horas, deixaram no terreno, entre homens, crianças e mulheres, algumas delas grávidas, 45 mortos. A culpa destes mortos havia sido terem apoiado o Exército Zapatista de Libertação Nacional. A 200 metros do local, um controle de polícias não moveu um pé para ir ver o que se passava. Demasiado o saberiam eles. Estivemos em Acteal, Pilar e eu, pouco tempo depois, falámos e chorámos com alguns dos sobreviventes que tinham conseguido escapar, vimos os sinais das balas nas paredes da capela, os lugares das sepulturas, assomámos à entrada de uma cavidade na encosta onde umas quantas mulheres haviam tentado esconder-se com os filhos e onde foram assassinadas com eles a golpes de machete e rajadas à queima-roupa. Voltámos a Acteal uns meses mais tarde, o horror ainda se respirava no ar, mas justiça iria ser feita.
Afinal, não. Alegando erros de processo, o Supremo Tribunal de Justiça mexicano acaba de pôr em liberdade quase vinte dos membros de Máscara Roja que cumpriam pena (imagine-se) por porte ilegal de armas, deliberadamente se ignorando que essas armas tinham disparado e assassinado. À meia dúzia deles que ainda estão na prisão, não tardará muito que os soltem também. Mas aos 45 tzotiles mortos com extremos de crueldade, a esses é que não haverá maneira de os fazer ressuscitar. Ainda há poucos dias tinha escrito aqui que o problema de justiça não é a justiça, mas os juízes. Acteal é uma prova mais.
José Saramago, O CADERNO

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Dia 14 [Agosto de 2009]

Jean Giono
Imagino que Jean Giono haverá plantado não poucas árvores durante a sua vida. Só quem cavou a terra para acomodar uma raiz ou a esperança dela poderia ter escrito a singularíssima narrativa que é O homem que plantava árvores, uma indiscutível obra-prima da arte de contar. Claro que para que tal sucedesse era necessário que existisse um Jean Giono, mas essa condição básica, felizmente para todos nós, era já um dado adquirido e confirmado: o autor existia, só faltava que se pusesse a escrever a obra. Também faltava que o tempo decorresse, que a velhice se apresentasse para dizer: «Aqui estou», pois só talvez numa idade avançada, como já então era a de Giono, seria possível escrever com as cores do real físico, como ele o fez, uma história concebida no mais secreto da elaboração ficcional. O plantador de árvores Elzéard Bouffier, que nunca existiu, é simplesmente uma personagem feita com os dois ingredientes mágicos da criação literária, o papel e a tinta com que nele se escreve. E contudo, ficamos a conhecê-lo logo à primeira referência que se lhe faz, como alguém a quem estivéssemos esperando há muito tempo. Plantou milhares de árvores nos Alpes franceses, depois esses milhares, por acção da própria natureza assim ajudada, multiplicaram-se em milhões, com elas regressaram as aves, regressaram os animais dos bosques, regressou a água, ali onde não tinha havido mais que secura. Em verdade, estamos esperando o aparecimento de uns quantos Elzéard Bouffier reais. Antes que seja demasiado tarde para o mundo.

P.S. Tem razão o Sr. D. Duarte de Bragança, tratava-se do Evangelho, não do Memorial, mas já não a tem quando diz que eu atribuo a paternidade de Jesus a um soldado romano. Nenhum dos milhões de leitores que o livro teve até hoje lho confirmaria. Conheço a tese, mas, creio que por uma questão de bom gosto, não a utilizei na história que escrevi. Em compensação, dediquei umas quantas páginas à concepção de Jesus por José e Maria, seus pais. Permito-me sugerir ao Sr. D. Duarte de Bragança que leia o meu Evangelho. Atreva-se, não seja tímido, garanto-lhe que aproveitará com a leitura.
José Saramago, O CADERNO

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Dia 13 [Agosto de 2009]

Guatemala
Cada dia se vai tornando mais claro em todo o mundo que o problema da justiça não é da justiça, mas dos juízes. A justiça está nas leis, nos códigos, portanto deveria ser fácil aplicá-la. Bastaria saber ler, entender o que está escrito, escutar de maneira isenta as alegações do acusador e do acusado, as testemunhas, se as houver, e finalmente, em consciência, julgar. A corrupção tem mil caras e a pior delas, neste particular, talvez seja, em qualquer sentido, a natureza da relação entre quem julga e quem é julgado. Um caso típico de perversão julgadora ocorreu muito recentemente na Guatemala onde o editor Raúl Figueroa Sarti da Casa F&G Editores foi condenado a um ano de prisão comutável à razão de 25 quetzales diários e ao pagamento de uma multa de cinquenta mil quetzales, mais as custas do processo. Qual foi o crime de Raúl Figueroa? Haver publicado, a solicitação e com o conhecimento do seu respectivo autor, Mardo Arturo Escobar, uma fotografia que veio a ser inserida em um livro editado por F&G. Desse livro foram entregues ao agora acusador alguns exemplares da obra em questão. Aos juízes não importou nada que o próprio Mardo Escobar tivesse reconhecido que havia entregado voluntariamente uma fotografia a Raúl Figueroa, a quem deu autorização verbal para a usar numa publicação. Importou, sim, que o acusador fosse seu colega: Mardo Arturo Escobar trabalha no Quarto Juízo de Sentença Penal, sendo, portanto, companheiro de actividades de juízes, oficiais e magistrados... Mas este caso não é um simples episódio de baixa corrupção. O acosso de que, desde há dois anos, tem sido alvo F&G Editores, enquadra-se na situação repressiva que se está vivendo na Guatemala, onde o poder oficial tem vindo a perseguir e a tentar calar as vozes discordantes, essas que, sem desânimo, continuam a denunciar as violações dos Direitos Humanos no país. Pelos vistos, tinha razão aquele já velho jogo de palavras entre Guatemala e Guatepior. Dos cidadãos guatemaltecos se espera que o inocente jogo não se transforme em triste realidade.
José Saramago, O CADERNO

domingo, 12 de agosto de 2012

Dia 12 [Agosto de 2009]

Um rei assim
O rei assim é o Sr. D. Duarte de Bragança, pessoa medianamente instruída graças aos preceptores que lhe puseram logo à nascença, mas que, não obstante, detesta a literatura em geral e o que escrevo em particular, primeiramente porque considera que no Memorial do Convento lhe insultei a família e em segundo lugar porque a dita obra é, de acordo com o seu requintado linguajar de pretendente ao trono, uma «grande merda». Não leu o livro, mas é evidente que o cheirou. Compreende-se, portanto, que, durante todos estes anos, eu não tenha incluído o Sr. D. Duarte, de Bragança, note-se, na escolhida lista dos meus amigos políticos. Não me importo de levar uma bofetada de vez em quando, mas a virtude cristã de oferecer ao agressor a outra face é virtude que não cultivo. Tenho-me desforrado apreciando devidamente as qualidades de humorista involuntário que este neto do senhor D. João V manifesta sempre que tem de abrir a boca. Devo-lhe algumas das mais saborosas gargalhadas da minha vida. Isso acabou, a monarquia foi restaurada e há que ter muito cuidado com as palavras, não vão aparecer por aí, redivivos, o intendente Pina Manique ou o inspector Rosa Casaco. Como que restaurada a monarquia?, perguntarão os meus leitores, estupefactos. Sim senhor, restaurada, afirmou-o quem tem as melhores razões para dizê-lo, o próprio pretendente. Que já não é pretendente, uma vez que a monarquia acaba de ser-nos restituída pelo drapejar da bandeira azul e branca na varanda da Câmara Municipal de Lisboa. Os moços do 31 da Armada (assim os escaladores se designam a si mesmos) têm já o seu lugar assegurado na História de Portugal, ao lado da padeira de Aljubarrota de quem se desconfia que afinal não matou castelhano nenhum. Não é o caso de agora, a bandeira esteve lá durante alguma horas (haverá um monárquico infiltrado na Câmara para ter impedido a retirada imediata?), pretende-se averiguar quem foram os autores da façanha, e isto acabará como sempre, em comédia, em farsa, em chacota. O Sr. D. Duarte não tem estaleca para exigir na praça pública, perante a população reunida, que lhe sejam entregues a coroa, o ceptro e o trono. É pena que uma tão gloriosa acção vá acabar assim. Mas como, no fundo, sou uma pessoa cordata, amiga de ajudar o próximo, deixo aqui uma sugestão para o Sr. D. Duarte de Bragança. Crie já uma equipa de futebol, uma equipa toda de jogadores monárquicos, treinador monárquico, massagista monárquico, todos monárquicos e, se possível, de sangue azul. Garanto-lhe que se chega a ganhar a liga, o país, este país que tão bem conhecemos se ajoelhará a seus pés.
José Saramago, O CADERNO

sábado, 11 de agosto de 2012

Dia 11 [Agosto de 2009]

África
Em África, disse alguém, os mortos são negros e as armas são brancas. Seria difícil encontrar uma síntese mais perfeita da sucessão de desastres que foi e continua a ser, desde há séculos, a existência no continente africano. O lugar do mundo onde se crê que a humanidade nasceu não era certamente o paraíso terrestre quando os primeiros «descobridores» europeus ali desembarcaram (ao contrário do que diz o mito bíblico, Adão não foi expulso do éden, simplesmente nunca nele entrou), mas, com a chegada do homem branco abriram-se de par em par, para os negros, as portas do inferno. Essas portas continuam implacavelmente abertas, gerações e gerações de africanos têm sido lançados à fogueira perante a mal disfarçada indiferença ou a impudente cumplicidade da opinião pública mundial. Um milhão de negros mortos pela guerra, pela fome ou por doenças que poderiam ter sido curadas, pesará sempre na balança de qualquer país dominador e ocupará menos espaço nos noticiários que as quinze vítimas de um serial killer. Sabemos que o horror, em todas as suas manifestações, as mais cruéis, as mais atrozes e infames, varre e assombra todos os dias, como uma maldição, o nosso desgraçado planeta, mas África parece ter-se tornado no seu espaço preferido, no seu laboratório experimental, o lugar onde o horror mais à vontade se sente para cometer ofensas que julgaríamos inconcebíveis, como se as populações africanas tivessem sido assinaladas ao nascer com um destino de cobaias, sobre as quais, por definição, todas as violências seriam permitidas, todas as torturas justificadas, todos os crimes absolvidos. Contra o que ingenuamente muitos se obstinam em crer não haverá um tribunal de Deus ou da História para julgar as atrocidades cometidas por homens sobre outros homens. O futuro, sempre tão disponível para decretar essa modalidade de amnistia geral que é o esquecimento disfarçado de perdão, também é hábil em homologar, tácita ou explicitamente, quando tal convenha aos novos arranjos económicos, militares ou políticos, a impunidade por toda a vida aos autores directos e indirectos das mais monstruosas acções contra a carne e o espírito. É um erro entregar ao futuro o encargo de julgar os responsáveis pelo sofrimento das vítimas de agora, porque esse futuro não deixará de fazer também as suas vítimas e igualmente não resistirá à tentação de pospor para um outro futuro ainda mais longínquo o mirífico momento da justiça universal em que muitos de nós fingimos acreditar como a maneira mais fácil, e também a mais hipócrita, de eludir responsabilidades que só a nós nos cabem, a este presente que somos. Pode-se compreender que alguém se desculpe alegando: «Não sabia», mas é inaceitável que digamos: «Prefiro não saber». O funcionamento do mundo deixou de ser o completo mistério que foi, as alavancas do mal encontram-se à vista de todos, para as mãos que as manejam já não há luvas bastantes que lhes escondam as manchas de sangue. Deveria portanto ser fácil a qualquer um escolher entre o lado da verdade e o lado da mentira, entre o respeito humano e o desprezo pelo outro, entre os que são pela vida e os que estão contra ela. Infelizmente as coisas nem sempre se passam assim. O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses. Em tais casos não podemos desejar senão que a consciência nos venha sacudir urgentemente por um braço e nos pergunte à queima-roupa: «Aonde vais? Que fazes? Quem julgas tu que és?». Uma insurreição das consciências livres é o que necessitaríamos. Será ainda possível?
José Saramago, O CADERNO

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Dia 10 [Agosto de 2009]

Yemen
À escritora colombiana Laura Restrepo, nossa amiga pelo coração e pelas ideias, encarregou-a Médicos sem Fronteiras que viajasse ao Yemen para depois contar o que lá tivesse visto, ouvido e sentido. O relato dessa experiência foi agora publicado no El País semanal, uma reportagem impressionante como, em princípio, qualquer outra que se faça em África, mas que a arte de narrar de Laura, ao recusar, como é próprio da sua natureza de escritora, os efeitos emotivos de uma escrita que intencionalmente apelasse à sensibilidade do leitor, prefere expressar por uma obstinada procura de realidade directa ao alcance de poucos. As descrições da chegada dos barcos que vêm da Somália, sobrecarregados de fugitivos que esperam encontrar no Yemen a solução das dificuldades que os empurraram para o mar, são de uma rara eficácia informativa. Vêm neles os homens, as mulheres e as crianças do costume, mas Laura Restrepo não tarda a mostrar-nos como é possível falar de homens sem estar obrigado a falar das mulheres e das crianças que com eles vieram, mas que das crianças seria impossível falar se não se falasse também, e sobretudo, das mães que os trazem, às vezes ainda na barriga. As situações em que essas mulheres vão encontrar-se depois de desembarcarem no Yemen constituem um catálogo completo das humilhações morais e físicas a que estão sujeitas só pelo facto de terem nascido mulheres. Por trás de cada palavra escrita por Laura há lágrimas, gemidos e gritos que seriam capazes de nos tirar o sono se a nossa flexível consciência não se tivesse acomodado à ideia de que o mundo vai aonde querem os que o dominam e que para nós já será bastante cultivar o nosso quintal o melhor que soubermos, sem que tenhamos de preocupar-nos com o que se passa do outro lado do muro. Esta, sim, é a mais velha história do mundo.
José Saramago, O CADERNO