Creio que estou em «contagem decrescente», como se diz em astronáutica. A
cabeça desconjuntada. Os guinchos nos ouvidos. Hoje de manhã acordei tonto. Fui
à casa de banho e depois à cozinha beber água das Pedras. Mas quando voltei a
deitar-me, de novo me tomou a vontade de vomitar. Sossegou.
E tomado o café, saí a buscar o jornal. Tudo fechado. Tive de ir à avenida
da Igreja. E ao regressar, no largo da Caixa aqui ao pé, vi dois jovens
acocorados a calcetar o pavimento. Um teria uns vinte anos, outro uns
dezasseis. O de vinte anos era louro e trabalhava de tronco nu. Tinha a pele
queimada. E eu pensei – é a praia que te cabe. E reconfortado na consciência
por este pensamento progressista, regressei a casa abrasado de calor. As ruas
desertas. Só o sol pesado no asfalto.
*
Foi bom, como disse, não ter recebido o convite de Mário Soares para o
jantar de Coimbra. Estou destruído, não me tenho em mim. Mas também foi pena por
não ler revisto a minha cidade mítica. Quanto a lembro. Mas onde ela me é um
mito é aí, no lembrar. E no que converge para essa lembrança até ao seu ponto
mais alto de esplendor. Coimbra, aliás, está morta, mesmo no que foi vivo nela,
quando lá estive. Em todo o caso. Ainda lá está o sítio junto ao gradeamento no
pátio da Universidade, donde se via o rio, Santa Clara e o que de lá devia acenar-me
desde o tempo perdido. Mas já lá não está o banco para um devaneio repousado. Never more. Quem vem escolher-me os lugares
da minha evocação? Não me foi favorável, Coimbra. Nem a sei dos lugares estabelecidos
para a memória e o turismo. Toda a cidade me ficou no banco junto ao gradeamento
e na volta rápida junto ao murete, à entrada da Faculdade. Tudo tão pouco. Tudo
tão tanto.
*
Cada época tem a sua personagem típica, a que a resume e define. No 25 de
Abril essa figura era um tipo de ar possante, alastrado de barbas, camisa
aberta sem gravata, uma aparência agradavelmente suja, uns braços titanescos
para erguerem o Mundo a pulso. No tempo de Salazar a personagem típica era um
sujeito asséptico, sem contactos visíveis com as coisas materiais mas apenas
com as ideias ou no máximo com os relatórios de um banco. Na Primeira
República, o que a resumia era um tipo tribunício, de pera e bigode no momento
de falar às turbas indisciplinadas e toscas, de fatos grosseiros e empenados. E
por aí fora. E no nosso tempo? No nosso tempo, desde há uns cinco ou seis anos,
o tipo mais representativo é um sujeito seco, austero, também asséptico à sua
maneira, suspendendo uma pasta de papéis e que é uma espécie de caixa
espalmada, aliás de mais peso que uma pasta tradicional, engravatado, mesmo em
mangas de camisa, o ar complacente e breve mas sempre na vertical, e cuja
missão ou vocação é lidar com finanças e economia ou ser, já mais abaixo, um
gestor de empresas. Que é que passará na cabeça deste sujeito, além de cifrões?
Que é que significará para ele, por exemplo, a família, fora das recepções
mundanas ou das férias no estrangeiro? Quais as relações com os filhos a não
ser as que passam pelos cheques? Como encara a hipótese de a mulher ter o seu
amante privativo ou mesmo o aleatório de uma aventura? Lerá alguma coisa além
dos livros técnicos ou das revistas de economia ou do movimento do câmbio e das
acções? Para elucidação dos vindouros, faz falta hoje uma estética à Eça que
nos deu do seu tempo a Imagem do político. Sobretudo faz falta quem um pouco
reflicta sobre o que une esta figura ao vazio do nosso tempo. Porque são tão
afins.
*
Senta-te a meu lado e dá-me a tua mão. Entardece devagar, um cinzento ténue
estende-se pelo céu. Não digas nada, olha apenas. E ouve a balada que diz todo
o possível dizer. Vem nela o aceno vão do que será um dia a memória da
eternidade deste instante. É uma balada longínqua, insinuada ao silêncio que
nos cobre, como uma saudação à noite. Estou tão cansado. E tão só. Senta-te ao
meu lado e dá-me a tua mão. É frágil como a ternura. E violenta como a ameaça
de um choro. Senta-te e olha e sê o absoluto da tua graça irreal no absoluto da
minha solidão.
Vergílio Ferreira
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