quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

[1989] – 24 - Fevereiro (sexta).

O Expresso de sábado passado trazia uma referência azeda que me era dirigida. Foi o caso que alguns jornalistas foram a Melo não sei bem porquê. E o presidente da Junta aproveitou para me insultar uma vez mais por eu ter legado ao Município, e não à aldeia, o meu espólio literário. Naturalmente legar o meu espólio à aldeia era legá-lo à rataria. Além de que o sujeito da Junta, dado aos copos, não deve saber bem o que é isso de literatura. Foi assim pena que os jornalistas lhe não tivessem explicado que uma biblioteca não se confunde com uma adega e que vai certa diferença de um livro a um copo de três.
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E neste instante telefona-nos a Dora a comunicar que «morreu a Josete». Assim. Era a mulher do Alberto Silva e formavam ambos em Évora o centro de convergência do nosso grupo de amigos. A primeira a partir foi a Alice, mãe da Dora, e depois o André Infante, o pai. Quem se segue? Nada mais a dizer.
Mas insensivelmente deslizei para a memória de então. Não bem disto ou daquilo, mas apenas da memória feita tempo. Porque é isso o fundamental do incerto vaguear da melancolia. O mais são pontos incertos que se iluminam aqui e além como indicativos casuais desse estar absortos em nós. Há trinta anos que saímos de Évora e a memória desse tempo ainda se não dissipou. Ficou-me ligada a emoção à cidade, ao descampado em redor, aos amigos. E é-me grato pensar que Aparição, o meu livro mais lido, lhe está intimamente ligado. Gente vária tem ido à cidade por causa dele e a notícia de Évora levei-a à URSS, à Polónia, a Espanha, ao Brasil e este ano chegará mesmo a França. Mas Évora, nas suas gentes oficiais, nunca me estimou. Primeiro os fascistas, sobretudo através dos padres, depois os comunistas, que ainda lá estão, e jamais tiveram um gesto de simpatia. Creio que mo deviam, ao menos por lhe aumentar o turismo. Aqui há anos o Francisco José Viegas, então professor na que é agora universidade e foi liceu no meu tempo, movimentou-me uma pequena homenagem, mesmo com uma lápide, que não houve, na casa da rua da Mesquita, 28 em que vivi de ’49 a ’59 e onde escrevi Aparição. Mas Francisco José Viegas não era de lá. Há mães-madrastas, é o caso. Mas eu fiquei a amar a cidade como se fosse mãe por inteiro. Que os deuses lhe perdoem. E é só. 

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