quarta-feira, 4 de maio de 2011

O COW-BOY E A VELHA

A velha e muito leal e invicta cidade do Porto, outrora tão simpática, é hoje um burgo intolerável, uma barafunda, uma babilónia.
Caso mores na Alta e trabalhes ou tenhas necessidade de ir à Baixa, estás desgraçado.
Se optas pelo autocarro dos Transportes Públicos, morres na paragem à espera dele. Se tens carro e optas por ele, morres à mesma de desespero ou de intoxicação no engarrafamento da primeira vicia. Se vais a pé, depende. Se chove, apanhas com as enxurradas de todas as caleiras na cabeça. Se está sol, sacodem-te lodos os tapetes dos andares superiores no topete. Se tiras os olhos do chão, derrapas nos dejectos dos cães e muita sorte se ficares com alguma costela direita. Se os não tiras, levas encontrão de meia-noite. Se pões o pé fora do passeio, vem um carro e leva-te a perna. Se o não liras, não sais do sítio. Um inferno.
Aos domingos, porém, com o comércio fechado, as ruas livres de carros e os passeios livres de basbaques, o velho burgo volta a ser uma cidade simpática.
Por isso quando, aos fins-de-semana, me é, de todo em todo, impossível refugiar-me em Peireses, gosto de, aos domingos, pela tardinha, descer até à Baixa. Mãos atrás das costas, passo mesurado, olhos absortos nas belezas do céu e da terra, deambulo por ali tão recolhido e meditativo como outra coisa não seria de esperar do frade que em mim se gorou. E quase sempre dou comigo numa esquina à qual me ligam recordações e hábitos da minha juventude.
Às recordações mando-as calar a caixa, por estarem sempre a lembrar-me que estou velho. Dos hábitos conservo alguns, entre eles, engraxar os sapatos. Aprecio sobremaneira meter conversa com o engraxador, enquanto ele me limpa os butes e eu observo os passantes.
Assim aconteceu num dos primeiros domingos deste Março de verão antecipado. Há sempre dois ou três profissionais à esquina. Mas estava apenas um. Tomei o meu lugar na bicha, aliás pequena. Um a ser servido e outro à espera.
Fixei o reparo no primeiro. Um sujeito dos seus cinquenta anos bem conservados, morenaço, poupa abundante e luzidia de brilhantina, tipo «cow-boy», texanas de salto alto e biqueira mais arrebitada do que proa de barco rabelo, calças de ganga ajustadas à perna, cinturão de boxista premiado, camisa de seda escura, peitaça ao léu, grosso cordão de oiro com seu pingente de cruz do mesmo quilate, anéis de brilhante em todos os dedos, a sacudir a cinza da cigarrilha com unha de tangedor de guitarra chuleira. Julguei-o carrejão ou estivador em dia de folga. Mas ele conversava com o profissional:
– E o Gumersindo?
– Reformou-se.
– Qualquer dia também me reformo. Trezentos e cinquenta contos chegam bem para a vida que faço.
A prosa começou a interessar-me. Que raio de profissão seria a do «cow-boy» para se reformar com trezentos e cinquenta contos?
Nisto, avança da esquina uma velha mendiga a quem eu, desde há muitos anos, costumo dar cem escuditos de quando em vez. É uma velha pequenina, mirrada, andrajosa, repelente, duma humildade rafeira, puxavante à comiseração.
– Isso. Pede para o chulo... – atira-lhe o «cow-boy».
– Vai-te...
E a velha, de repente assanhada como um ouriço-cacheiro, despejou ali palavrões e insultos que chegavam para um regimenta de franceses.
O «cow-boy» mirava-a de alto, entre gozão e ameaçador:
– Hoje é que estou de folga e não me quero chatear. Mas amanhã apareço por aqui fardado e ainda quero ver se tu estendes a língua... Badalhoca!
– Diz que é filho... – interveio o engraxador.
– Filho? Um chulo, um drogado que lhe apanha quantos tostões ela amealha. Ainda há bocado a vi a passar-lhe as moedas, à socapa. Grande burra...
O «cow-boy» narcisou-se, por momentos, no espelho das botas e estendeu a mão que parecia vergar ao peso das moedas – quatro de cem, segundo me apercebi.
– Fica assim.
E afastou-se a bater o tacão fadista no empedrado da rua.
O segundo cliente era um mulato de físico impressionante. Eu via-lhe os ombros largos, a cachaceira de cónego da Sé, a carapinha cerrada. Calçava botas pretas. O engraxador passou a tinta, a escova, o pano. Ia a passar a graxa.
– Não tens graxa preta? – interveio o mulato.
– Tanto faz. Graxa preta em calçado branco, não dá. Mas graxa branca em calçado preto, dá perfeitamente.
– Deixa-te de tretas. Quero graxa preta.
– Não tenho. Esqueci-me de a comprar.
– Vai comprá-la. Eu espero.
– Aonde? Hoje está tudo fechado.
O mulato retirou o pé. O engraxador puxou-lho para a peanha.
– Vai ver que não se nota.
O mulato anuiu mas continuou a resmungar:
– A tua obrigação era teres graxa preta. Um homem sempre vê cada urna...
O profissional não retorquiu mas acelerou o vaivém da escova e do pano. Notava-se o desejo de ver o cliente pelas costas.
– Pronto! – disse por fim, dando-lhe um piparote na ponta da bola no jeito de quem o imponta.
Com um gesto de enfado e de descontentamento, o mulato olhou para as botas e estendeu uma cédula de quinhentos escudos.
– Pica assim? – disse o graxa em tom provocatório.
– Não. Não! Quero o troco.
O profissional deu-lho o troco. O mulato recolheu-o e afastou-se rapidamente.
– Odeio pretos! – cuspinhou o engraxador. – Qualquer dia deixo de os servir. Filhos duma... Nunca estão contentes. Quem os chamou cá? Vão para a terra deles.
– Está um lindo dia – disse eu para mudar de conversa.
– É o que me vale. Já viu, eu aqui de manhã à noite, com chuva e vento?
– Mas há ali uma engraxadoria coberta?
– Mas ficam-me com metade. Já viu? Ganhar dez e só trazer cinco?
– Ganha dez contos por dia?
– Quem dera! Metade...
– Nada mau.
– E ao que eu me sujeito, aqui exposto à chuva e ao vento? O que a médica mais me recomendou foi que tivesse cautela com as correntes de ar.
– Sofre dos pulmões?
– Do corpo todo.
– Reumatismo?
Olhou para mim e disse:
– Eu não gosto de falar nisso. Mas apanhei a SIDA.
Encolheu os ombros:
– Paciência. Não me vou matar por isso.
– Claro que não. Qualquer dia os cientistas descobrem um remédio. Você é novo, forte.
– Forte? Aqui onde me vê, eu pesava oitenta e sete quilos. Não é para me gabar, mas eu era dos tipos mais fortes que por aí andavam. E hoje? Olhe para mim.
Olhei. Realmente tinha o rosto macilento, os olhos encovados, as costas precocemente abauladas. Os músculos flácidos. Menti-lhe:
– Olhe que não se nota muito. O seu aspecto não é mau. Ninguém há-de dizer.
De súbito, senti que não estava a ser honesto e calei-me. Ele continuou a limpar-me os sapatos aparentemente sem grande esforço.
– Quanto é?
– Duzentos e cinquenta.
Contei as moedas e deixei-lhas cair de alto, de modo a não lhe tocar na mão. Ele fez o gesto de me dar troco. Acudi.
– Fica assim.
– Obrigado.
– De nada. As melhoras. E até qualquer dia.
Ontem, domingo, voltei à esquina. À procura do profissional. Mas não o encontrei.
E agora para aqui estou eu a pensar na coragem dum homem que, no melhor da idade, apanha a SIDA e continua a engraxar sapatos ao ar livre como se nada fosse.
Surpresas desta negra vida e deste velho burgo ao qual me ligam recordações da minha mocidade distante.
VIVA O PORTO!
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS – Crónicas de Barroso (p. 74 e ss.)

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