4 de Maio
Conferência de Alfredo Bryce Echenique em Arrecife. O lugar do acto foi o auditório da Sociedade Democracia, fundada em 1858 por gente de trabalho, operários e pescadores. Tanto quanto pude concluir da breve explicação que me foi dada por um dos directores, as suas origens tiveram raiz maçónica. A Sociedade foi obrigada a mudar de nome durante o franquismo – passou-se a chamar-lhe Mercantil – porque, segundo consta da acta onde a mudança ficou registada, a denominação de origem ia contra os princípios do Movimento Nacional... A conferência – «A dificuldade de ser latino-americano» -, trabalho académico, e não literário, segundo as palavras iniciais de Bryce Echenique, foi interessante de seguir, sobretudo enquanto relação e interpretação dos factos históricos, sociais e culturais decorrentes dos Descobrimentos, mas, na sua parte final, apresentou-se como uma demonstração daquela mesma «dificuldade», quando o conferencista manifestou a convicção de que os meios de comunicação de massa e a abertura a uma modernidade veiculada pelo Norte (entenda-se: Estados Unidos) estão servindo para a formação e consolidação de uma identidade latino-americana geral e comum, portanto uniformizadora e supranacionaI. Curioso é que, não tendo Alfredo feito antes qualquer tentativa para integrar o Brasil colonial e pós-independência no quadro das transformações sociais, económicas e políticas da «restante» América, foi com o Brasil que ele exemplificou essa suposta nova identidade: o urbanismo e a arquitectura de Lúcio Costa e Oscar Nyemeyer (pela luminosidade e pela transparência, pelo uso de formas abertas) aparecem-lhe como expressões plásticas próprias da América Latina, sem determinantes exteriores. Independentemente duma reflexão (não possível aqui, nem por quem isto escreve) sobre a pertinência de tal afirmação, quer dizer, saber até que ponto aquele urbanismo e aquela arquitectura serão, de facto, em termos de identidade cultural, uma expressão latino-americana, parece-me manifestar-se aqui, uma vez mais, a complexa e dramática relação que os intelectuais do outro lado do Atlântico mantêm, ainda hoje, com a Europa. Na sua maioria filhos espirituais dela, pelo menos até esta última geração, tentam despejá-la na razão directa da sua própria dificuldade em se reconhecer como latino-americanos. Afirmar que a obra de um Lúcio Costa e de um Oscar Nyemeyer (cuja importância aqui não se discute) é, por definição, finalmente latino-americana, é uma maneira, entre tantas, de dizer algo muito diferente: «Não queremos ter nada que ver com a Europa, a ela devemos a nossa dificuldade de ser» – mesmo que o passo seguinte seja cair, e não só culturalmente, nos braços dos Estados Unidos. O mais provável, vendo bem as coisas, é que a América Latina não alcance nunca a ser América Latina...
José Saramago (1922/11/16 – 2010/06/18)
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