terça-feira, 3 de maio de 2011

17 - José Rodrigues Miguéis / José Saramago

Lisboa, 22 de Março de 60

Meu caro Amigo:

Desta vez não haverá demora: carta recebida, carta respondida. Poupo-lhe assim uns dias de inquietação e fico eu com a consciência em paz. A Escola chegou intacta e perfeita, pela mão do seu amigo; as folhas da especial já cá estão, em boa ordem e daqui a pouco transformadas em livros.
Vou ler a Escola desde o princípio, regaladamente, com vagares de sibarita. Sem intenções de crítico, que o não sou, mas com os olhos mais atentos que puder arranjar, lerei – e direi o que me parecer: tome a minha futura apreciação pelo que vale. Quanto ao Mário Dionísio, nós não temos de estar de acordo, uma vez que o nosso desacordo seria estulto e um pouco impertinente. O meu caro Amigo é que dirá se efectivamente deseja que outros olhos leiam o seu trabalho: de antemão concordamos com o seu desejo.
Seguem os cheques de Março: pouco a pouco vamo-nos reaproximando duma data razoável de pagamento. E a propósito: Quero esclarecer a minha informação de que a Léa [sic] III ainda não está praticamente à venda. É claro que já há exemplares desta edição nas livrarias, mas só naquelas que já não tinham livros da II, pois, como julgo ter-lhe dito, não retirámos as consignações da II e temo-nos servido da III somente para satisfazer os pedidos que nos têm sido feitos.
A sua Peça não vai: está! Mas por pouco tempo, espero. O Correia atirar-se-á a ela com unhas e dentes logo que acabe de preparar o lançamento duma nova obra em fascículos que vamos publicar. E já que falo em teatro: sabe que a «rapaziada» do Tempo Presente fez escândalo no Capitólio durante as representações da Alma Boa de Se-Tsuan, do Brecht, pela Maria della Costa? Garrafinhas de mau cheiro, gritos de «fora!» e «abaixo!», intervenção da autoridade – um encanto! O cabecilha era o Goulart Nogueira, nazista honrado e confesso, que tem chorado amargas lágrimas pela morte de S. Hitler, principal santo do seu (dele) agiológio. Conseguiram o que queriam: a peça foi retirada...
Uma novidade: telefonou-nos uma senhora, Berta Silva (conhece?), falando em nome do Dr. Erwin Meyenburg (tradutor e encenador de algumas peças representadas no Nacional) e a dizer que este senhor estaria interessado em traduzir para um editor alemão (cujo nome não disse) a sua Páscoa Feliz. Em que condições deseja o meu Amigo ceder os direitos? Decida e diga-nos, pois a questão parece ter certa urgência.
Seguiram já os fascículos do Dicionário das Literaturas que aqui estavam. A Sr.ª D. Idalina não soube dizer-me se os fascículos que enviou (ontem) são o 15 e o 16 ou o 16 e o 17. Veja e diga-mo, para acertar se houver desacerto.
Não sei se poderei hoje juntar a esta carta a nota das últimas vendas. Se não for possível, irão proximamente. Uma coisa continua a ser verdadeira: para best-seller só lhe falta que Portugal tenha 80 milhões de habitantes, em vez dos escassos 8 milhões, com 50% de analfabetos e 45% de leitores de letras gordas…
Abraça-o em nome pessoal e colectivo o seu dedicado amigo

Saramago

Neste mesmo momento me acaba de telefonar a D. Idalina a esclarecer o caso do Dicionário. Só saíram o 15 e o 16, este último em Dezembro. Quando receber estes fascículos, ficará em dia. E desculpe esta confusão gráfica!

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