Depois da
visita a lugares de interesse vário, ao Teatro Valle Occupato, à
livraria Fahrenheit do Campo
de Fiori, à Casa Internazionale
della Donna (antiga prisão de mulheres), às ruínas de Caracala, à Piazza Navona, fomos hoje
visitar a casa do poeta John
Keats e o cemitério
protestante onde estão os túmulos de Shelley e Keats. Ali lemos, na
tradução de Fernando
Guimarães (Relógio
d’Água), o poema Adonais
de Shelley escrito em
1821 em honra do jovem Keats:
“É por Adonais que choro – ele está morto!/ Chorai por Adonais, ainda que as
lágrimas/ Não libertem do gelo essa cabeça amada!”
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quinta-feira, 13 de setembro de 2012
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Veneza, 29 de maio de 21012
Ninguém pode
morrer sem visitar Veneza
pelo menos uma vez. Encontrar os espaços de silêncio e de poesia nesta cidade
sem carros é uma arte no meio de milhares de turistas. Mas consegue-se, a pé,
por pontes, becos, ruas estreitas e canais. Instalámo-nos no velho Palazzo
Mocenigo, o mesmo onde Byron
viveu, perto da Ponte
Accademia. Hoje é possível, embora difícil, alugar naquele edifício um
estúdio no rés-do-chão encostado ao Grande Canal.
Sai mais barato do que um hotel. Sente-se que se está em casa própria, vendo o
espelho de água, os vaporettos,
os cais, as gôndolas,
as luzes, o movimento. Hoje de manhã fomos apanhados pelo terramoto e a casa
dançou levemente como se estivesse em cima de uma jangada, sobre lamas e
estacas. Ontem estivemos no caríssimo e emblemático café literário Florian, na Piazza S. Marco.
Imperdível.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Lucca, 20 de maio de 2012
Dia de chuva,
para contentamento da Hélia. Uma pausa no calor de final de Maio. Estamos na
bela Toscana dos bosques,
das aldeias, dos vales, das Villas e dos Alpes Apuanos. Bom ar
fresco, respiração aberta, paisagem verdíssima e forte, arvoredo denso que
constrói túneis enormes. A natureza fascina-nos. Por alguma razão, para os
italianos da classe média e para os estrangeiros ricos é “bem” ter uma casa na
Toscana.
Lucca fica a poucas
dezenas de quilómetros de Pisa.
Conhecida pelas ruas estreitas e pela antiga praça principal de magnifica arquitectura
– praça do Teatro
Romano, redonda, pequena, com o casario cheio de janelas e portadas, com
entradas em arco. Lucca possui também umas termas famosas, os Bagni de Lucca,
igualmente frequentadas pelos Shelley.
Após umas
corridas, já que dispenso chuva pesada e fria, chegamos ao antigo e lindíssimo
Caffé Literário Caselli, hoje chamado Simo,
na via Fillungo. Mantém a
traça com balcões, vidraças, espelhos, cadeiras de madeira, salas, mesas de
tampo de mármore, muitas luzes e um piano. Existe uma placa evocativa do senhor
Caselli, amigo de escritores
e pintores, e um mural onde se pode ver as caras de Quasimodo, Benedetti, Ungaretti, Mancini, Magri, entre outros. Uma foto de Puccini com a
dedicatória a Caselli assinala no alto da parede a presença do músico.
Com a roupa
num pingo, a Hélia percorreu o café deslumbrada. Pareceu-me que ia dançar. O
empregado de mesa ia no seu encalço, mas era difícil escolher um lugar, tanta era
a euforia. Pedida uma bebida quente, a Hélia protestou contra o preço invulgarmente
alto dos bolinhos secos. Não havia mais nada para comer, o pão esgotara. Ficámos
pelas bebidas. Passados minutos, o gerente do café presenteou-nos com um prato
de bolinhos. Uma oferta da casa.
Deverá ter
suposto – e acertaria – que éramos uns pobres escritores a viver um sonho
qualquer, uma memória literária que ali está guardada, uma coisa de algum modo
sagrada. Riu-se. Por momentos, os seus olhos pareceram felizes.
domingo, 9 de setembro de 2012
Golfo dos Poetas, 19 de maio de 2012
Foi fácil
chegar a Lerici, um pequeno
porto com um imponente castelo empoleirado na ponta que inspirou o pintor Arnold Bocklin, o
autor do quadro “A Ilha dos Mortos”. Bocklin viveu ao lado da Casa Magni, a
casa branca onde habitavam os Shelley, uma mansão de
dois andares e colunas, à beira-mar, que Mary odiava porque naquele tempo era
tudo mato, escuro e lixo à volta e as pessoas eram extremamente pobres e sujas.
Esse local
chama-se San Terenzo, um
minúsculo porto de pesca com os barcos recolhidos nos passeios debaixo dos pinheiros
e também com o seu pequeno castelo que contem memorabilia de Mary Shelley e se
confunde com as casas em redor,
Shelley
chamava à paisagem que avistava em frente à casa, a “Baía
Divina de Lerici”. As casas em Lerici sobem pelas colinas, disfarçadas pelo
arvoredo e rodeadas de laranjais. A paisagem é verde e azul, salpicada pelo
amarelo e cor de tijolo das moradias.
Um passeio
pedestre liga Lerici a San Terenzo, numa inesquecível viagem a pé de uma hora.
Ao longe, para lá das águas, vê-se a aldeia de Portovenere onde vivia Byron e onde tinha a sua
gruta pessoal na qual escreveu a peça The Corsair.
Conta-se que Byron vinha visitar os Shelley a nado, assim como se fosse do Cais
das Colunas ao Barreiro,
o que para o exímio nadador não era nada. Uma horita para cada lado. Levaria
certamente menos tempo do que se viesse em diligência ou a cavalo pela montanha
até La Spezzia, seguindo
depois em subidas e descidas para Lerici.
sábado, 8 de setembro de 2012
Viareggio, 18 de maio de 2012
O mar bate
devagar na praia de Viareggio.
À beira da água, um amontoado de canas, conchas e cortiças estende-se pela
costa. Naquele lugar, em 18 de Julho de 1822, há precisamente 190 anos, onde
agora os banheiros montam os estrados e os toldos para o Verão, apareceu o
corpo naufragado de Shelley.
O naufrágio do “Don Juan” dera-se no percurso entre os portos de Lerici e Livorno.
Algum tempo
depois, na presença de Byron,
o seu corpo foi cremado numa fogueira na praia. Era o que se fazia aos
náufragos na altura. Byron, não suportando o desgosto, lançou-se ao mar e nadou
até ao seu próprio barco. Agora, neste 18 de Maio de 2012, no silêncio da praia,
reparo nas gaivotas e nos corvachos que devoram os restos de comida como se
devorassem as vísceras de Shelley. A sua alma e os seus poemas estão ali, misturados
com as canas molhadas.
Estamos no Golfo dos Poetas, entre
Livorno e Génova ou seja, na costa
banhada pelo grande Golfo
de Génova e pelo Mar
Ligúrio. Ainda em Viareggio, no antigo II Gran Caffe Margherita,
na marginal, no enfiamento da Praça Shelley, pode beber-se um óptimo cappuccino imaginando as
tertúlias do primeiro quartel do séc. XX, frequentadas por Ungaretti, Puccini, D’Annunzio, Toscanini, entre outros,
tertúlias que se transferiam depois do Verão para o famoso Caffè Caselli, em Lucca.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Pisa, 17 de maio 2012
O rio Arno atravessa Pisa, em semicírculo, enquadrado
por uma dezena de pontes. O autocarro deixou-nos na Ponte della Citadella,
vindo de San Giuliano
Terme, uma vilazinha termal da Toscana, onde viveu a família Shelley. Caminhar
à beira do Arno pela Via Lungarno e
contemplar a água e a velha arquitectura de Pisa é um bem-estar poético. Ali
ficam os antigos Palazzos Toscanelli
e Chiesa.
O primeiro foi morada de Byron e é hoje o Arquivo da Cidade. No meio dos
investigadores circunspectos que lá dentro devoram calhamaços seculares, pode
ver-se o tecto onde sobressai uma pintura com Byron em cima de um cavalo
branco.
Diz-se que,
após as suas conhecidas caçadas e outras aventuras pisanas, Byron subia as
escadarias de pedra do palácio montado a cavalo, em triunfo. Das janelas do Toscanelli via do outro lado
do rio o Palazzo Chiesa (hoje um edifício particular) que era a casa onde viviam
Mary e Percy Shelley. Acenavam-se,
cumprimentavam-se e combinavam encontros. Shelley perdia-se em grandes
caminhadas pelos arredores, muitas vezes até à exaustão, tendo que ser
procurado por criados e autoridades locais.
Continuando
pela margem do Arno, logo a seguir à praça Garibaldi deparamos com o mais
antigo café de Pisa e um dos cafés literários mais conhecidos de Itália, o Caffè dell’Ussero
incrustado, desde 1775, no barroco Palazzo Agostini
(séc. XV), mesmo ao lado do Royal
Victoria Hotel, poiso do ensaísta e crítico pré- rafaelita John Ruskin. Este café,
frequentado por Byron e Shelley era, no séc. XIX, o local preferido dos estudantes
revolucionários liberais e jacobinistas e esteve ligado aos carbonários. Byron
inscreveu-se mesmo na Carbonária em Pisa, apoiando com dinheiro a compra de
armas. E Shelley projectou fundar ali um jornal intitulado The Liberal.
Lutava-se
então pela unificação da Itália. Por ali andou disfarçado Giuseppe Mazzini, o
revolucionário contemporâneo de Garibaldi ao lado do
qual lutou pela democracia popular num estado uno e republicano. Lá está ainda
hoje a portinha clandestina, no interior do Ussero, por onde os estudantes
fugiam quando a polícia do regime investia por ali adentro. Comi ao almoço uma
bela e atomatada sanduiche
italiana, à espera dos novos revolucionários do séc. XXI, mas ninguém apareceu,
não foi por enquanto preciso abrir a porta clandestina. À saída de Pisa, em
queda lenta, vê-se a Torre
Pendente, mas deixemos isso para as invasões de asiáticos, espanhóis,
franceses e brasileiros que rumam de férias a Itália.
Jaime Rocha
A Itália de Byron, Shelley e Keats
Jaime Rocha, 63 anos,
poeta, ficcionista, dramaturgo e jornalista. Autor de, entre outros livros, Melânquico, Beber a Cor, Tonho e as Almas, A Loucura
Branca, Os Que Vão Morrer, Zona de Caça, Lacrimatória e Necrophilia. Recebeu o Grande Prémio APE de Teatro com
a peça O Terceiro Andar
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