Mostrar mensagens com a etiqueta PROLEGÓMENOS II. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta PROLEGÓMENOS II. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 25 de junho de 2014

NINGUÉM AS VESTE QUE AS NÃO BORRE...


Após um mês de sol apareceram os nevoeiros. A exemplo da Primeira República Francesa, também em Barroso se podia chamar Brumário ao segundo mês do ano.
Brumário por causa das brumas do «nosso descontentamento». Embirro sobremaneira com os dias em que a aldeia acorda envolta em nevoeiro. Era a coberto dele que, outrora, os lobos desciam dos montes e atacavam os cães nas eiras.
O medo que nós tínhamos aos lobos! Nós, os pequenos pastores. «Viste lobos?» — perguntávamos, na galhofa, àqueles que, por resfriado ou qualquer outra patologia das cordas vocais, apareciam afónicos. Isto porque, quem visse lobo, perdia a fala.
A mim, em boa hora o diga, nunca me aconteceu. Mas fartei-me de berrar a lobo.
Um dia por outro, no relativo silêncio dos montes, ecoava o alarme: «Lobo! Aí vai Lobo! — E logo de todos os pontos apareciam vozes: «Cerque, Ti António!» «Dá-lhe fogo, Joaquim!» — «Agarra cão!»
Por vezes não se via lobo nenhum. Outras, lá ia ele, disparado como uma seta, em diagonal, direito à serra.
Eu, em garoto, nunca arrostei com um lobo. E foi pena. Foi pena porque, assim, nunca tive ensejo de pôr em prática a teoria que o Avô me ensinara. Um dia fui dar com ele sentado no escano a calçar-se para ir à caça.
— O Paizinho não tem medo aos lobos? — perguntei.
E o Avô, que era muito divertido, respondeu:
— Tenho lá algum medo aos lobos? Sabes o que lhes faço?
— Não.
— Repara.
E o Avô, enfiando a mão no carpim, virou-o do avesso. Depois, arregaçando a manga do braço direito, exemplificou:
— Enfio-lhes a mão goelas abaixo, agarro-os gela tripa do cu e viro-os com o de dentro para fora.
No dia seguinte, estando eu à lareira a ensaiar a manobra numa peúga: «Eh, lobo!» vem de lá a mãe e espeta-me dois tabefes:
— Mas tu calças-te para ires com o gadinho, ou estás de pantomina?
Doutra feita, andando eu com as vacas em Fontefria, aparece o Barrolo com a rês. Pusemo-nos a jogar a choca e o rebanho foi andando até desaparecer para além dum cômoro de maninho. Nisto, passa a caminheta das cinco da tarde. Diz o Barrolo:
— Tenho de ir virar a rês, se não ainda vem algum carro e desgraça-me.
E mete a correr, pau no ar e goelas abertas:
— Chiba aí ei... ei... i.
Ainda mal tinha desaparecido, reaparece, a tropeçar nas próprias pernas, cabelos no ar, olhos esbugalhados, boca aberta.
— Que foi, Barrolo? Viste lobo?
Ele abria e fechava a mandíbula, como sapo das hortas em dias de calor ou náufrago de água doce que perde o pé, mas não dizia nada.
— Levou-te algum richelo?
Numa voz roufenha, de cartilagens secas, o Barrolo lá conseguiu articular:
— Uma ovelha!
— Rais-ta parta! Porque não chamaste por mim?
— Que é que tu lhe fazias?
Eu exemplifiquei a manobra do Avô:
— Virava-o com o de dentro para fora.
— Fia-te. Se o visses acontecia-te o mesmo que a mim.
Olhei para ele com mais atenção:
— Não me digas que borraste as calças?
— Ó Marinheiro? Não fales nisto a ninguém, que é uma vergonha...
— Oh, Barrolo? Não faças caso. Isso acontece a qualquer um. «Ninguém as veste que as não borre... É dos livros.»

Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 128 e s.)

quinta-feira, 5 de junho de 2014

TRÊS COELHOS DUMA CAJATADA


Quando um homem está a contar com uma coisa e lhe sai outra, fica sempre desconsolado. Foi o que aconteceu comigo nesta quadra natalícia. Estava a contar com neve. Afinal, o céu teimou em manter-se limpo, o sol a brilhar, a geada a cair. Uma espécie de Janeiro antecipado. Nos meus tempos de garoto, dias destes, só a partir do Ano Novo. Era então que o sol se tornava álgido, a lua altaneira, as geadas de palmo.
Foi por dias desses que eu aprendi a patinar no gelo. Nos lameiros onde eu guardava as vacas, nessa época do ano sempre encharcados, formavam-se grandes lagos de carambelo, verdadeiras tentações para umas acrobacias de patinagem artística, as quais, no meu caso, não tinham arte nenhuma. Aquilo era tombo que te parte, com grandes mossas no esqueleto, dum modo particular nas partes mais salientes, género cóccix e cotovelos. Por amor ao esqueleto, mudei de táctica. Em vez de esqui, passei a fazer escu. Consistia ele em cavalgar molhos de urzes ou giestas e descer as encostas vidradas a grande velocidade, rédea firme, tronco inclinado para trás, pernas em estradiota, goelas abertas, numa atitude selvagem, nem mais nem menos ridícula do que aquela que mais tarde vi fazer a pessoas mais civilizadas na montanha russa da Feira popular de Lisboa.
A brincadeira valeu-me alguns rasgões nos fundilhos, outras tantas bofetadas de minha mãe e ordens expressas de meu pai para me deixar de cavalgadas no gelo. E dado que meu pai não era de brincadeiras, eu passei a esconder-me para as fazer. Ia lá para uma touça com uma fonte e uma lameira em plano inclinado, sempre coberta de gelo e tão recatada entre urzeiras como o toucador duma gueixa entre biombos. Era aí que eu cavalgava matões a meu bel-prazer e à rédea solta.
Ora uma tarde em que eu me entregava ao meu desporto favorito e proibido, sai-me dentre as urzes o meu cão com um coelho na boca. Isto não teria nada de anormal se, atrás do coelho, não viesse uma ratoeira a rastos. Recolhi o coelho ao bornal, fiz umas festas ao Dezoito, que assim se chamava o cão, atirei com a ratoeira à lura dum carvalho antigo e com o assunto para trás das costas.
Era isto a um domingo e eu aluno da quarta classe. Vim para casa, meti as vacas, ceei mais cedo e fui dormir a S. Vicente, onde, segunda-feira, a professora exigia a nossa presença logo ao romper o dia. À hora do recreio, estava o meu vizinho Joaquim do Fontenova, praça velha, direito comigo. Pelos vistos, a ratoeira era dele. Neguei, claro.
— Ai sim? E onde foste tu pelo coelho que ontem trouxeste para casa?
— Agarrou-o o meu Dezoito.
— Na minha ratoeira?
— Não vi ratoeira nenhuma, já te disse!
— Acuso-te à professora.
— Acusa. Quero lá saber.
Nesta altura da discussão já estávamos rodeados por todos os alunos das quatro classes e uma boa parte dos vizinhos de S. Vicente. E até o senhor abade, que regressava do passal de cabeção, batina, tamancos e sacho às costas, quis saber que galega parira ali? Inteirado, pôs aquela cara de bondade e riso que era a dele e disse:
— Vá. Ide à vossa vida. Deixai-me aqui só com o Fontenova e o Marinheiro que lhes quero um segredo.
A malta dispersou. O pároco voltou-se para o Fontenova e inquiriu:
— Quantos coelhos tens em casa?
— Um.
— Não. Tu, às ratoeiras que armas todas as noites, deves ter mais?
— Bem. Se o senhor abade tem alguma incumbência, podem-se arranjar mais alguns.
— Quantos?
— Uns quatro ou cinco.
— Preciso apenas de dois.
— Onde quer que lhos deixe?
— Entrega-los aqui ao Marinheiro.
— Para quê?!
— Ele te dizer onde está a ratoeira.
— E o senhor abade fica por ele? — atalhei eu a rir-me.
Ele ameaçou-me com um tabefe:
— Anda, que tu és malandro, mas desta já eu te safei.
No domingo seguinte, estando eu no adro entre um ror de rapazes e homens à espera do toque de entrada para a missa, vem de lá o Faia de Travassos, sempre pantomineiro, bate-me duas palmadinhas nas costas e exclama:
— Ora aqui está o homem que matou três coelhos duma cajatada...


Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 122 e ss.)

quarta-feira, 7 de maio de 2014

SE TE NÃO PODES DESFAZER DOS INIMIGOS, JUNTA-TE A ELES


Se os dias, como os substantivos, se classificassem pelo género, incluiria o de hoje entre os neutros. De manhã choveu e de tarde fez sol. Embora não seja homem de grandes afazeres, só pela noitinha pude sair de casa. O Outono está quase no fim, as árvores quase nuas e os caminhos atapetados de folhas. Gosto de as sentir debaixo dos pés. Criam-me a ilusão de passear por sobre as alfombras das salas, corredores e jardins privativos do sultanesco palácio que um dia o génio da lâmpada de Aladino me prometeu e até hoje ainda não cumpriu.
A quinhentos metros da aldeia, caí na solidão absoluta. Apenas um leve pipilar de aves que dir-se-ia vir ou fazer parte da terra. O poente enrubescia e a lua navegava alta por entre nuvens cor de chocolate com pinceladas laranja. Um fim de tarde de pastores enamorados, cavaleiros andantes, menestréis a dedilhar a tiorba e princesas elanguescidas ao balcão.
Vinha já de regresso, a pensar na morte da bezerra ou na minha, já me não lembro, surge-me pelas costas o Anacleto.
— Que andas por aqui a fazer a esta hora? — perguntou.
— Nada que me envergonhe. E tu?
— Venho ali do lameiro. E sabes o que fui lá fazer?
— Tornar a água.
— Mandinga aos porcos-bravos.
— Algum laço?
— Roupa velha.
— Restos de comida? É isso?
— Não.
— Homem explica-te por uma vez.
— Os tipos levam-me o lameiro virado. Vêm ao vezo dos niscros e da bolota e viram tudo. Se eu lá esconder umas peças de roupa usada, os gajos cheira-lhes a homem e fogem.
— Ora aí está um truque que eu desconhecia.
— Ficas a saber.
— Por falar em porcos. Já mataste?
— Eu agora já não mato. Os filhos estão todos para a França. A mulher não come carne de porco. Eu também não.
— Não gostas?
— Gostar, gosto. Mas o médico proibiu-ma. E olha que bem saudades tenho das matanças de antigamente. Aquilo é que eram festas! Ainda me lembro da primeira vez que matei. Como sabes, eu era um criado de servir. Não tinha onde cair morto, como se costuma dizer. Mas era apaixonadiço, namorei a minha Rosa e não tive outro remédio se não casar com ela. Fomos viver para uma corte cedida de esmola pela Viúva, boa mulher, Deus a tenha em bom lugar, que bem o mereceu. O espaço não era muito, mas a minha Rosa tanto insistiu que eu improvisei lá um cortelho para ela criar um reco. À força de leitugas e labrestos apanhados por esses lameiros de pasto e terras de centeio, castanhas, bolotas e batatas do rebusco, erva dessas bordas e o suprimento dumas malgas de grão e outras de farelo mendigadas pela minha Rosa por casa das lavradeiras a quem ajudava nas lides de casa, pudemos chegar ao São Martinho em condições de matar o nosso porquinho. Convidámos os meus sogros e quatro amigos para a matança. Fizemos tudo o que havia a fazer da parte da manhã e, ao meio-dia, estávamos à mesa. Julguei que os tipos, barba untada, barriga cheia, se fossem embora. Mas não. Só os meus sogros é que se retiraram. Os outros quatro puseram-se a jogar as cartas. Veio a merenda, veio a ceia, e os tipos não largavam. Acabaram-se as filhós de sangue, o sarrabulho, a coiracha, o fígado, os rins, o gorgomilo, tudo o que era do dia, e os tipos sempre a reclamar: «Então não há mais nada que se coma?» Comecei a desmanchar no porco. Lá para a meia-noite, rosnei ao ouvido da minha Rosa: «Vamo-nos deitar a ver se os alarves ganham vergonha e se vão embora.» E depois, em voz alta: «Bem, rapazes, desculpai lá, mas eu e a Rosa vamo-nos deitar.» «Ide. Ide, que nós cá nos arranjamos» — respondeu o que embaralhava. A minha Rosa, coitada, morta de fadiga, adormeceu logo. Mas eu não havia maneira de pregar olho. De golpe, saltei da cama, fui para junto deles e toca a dar ao dente... Não carai... E com esta me vou. Até logo.


Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 122 e ss.)

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O PÉ DESCALÇO


Há dias, estando eu a arrumar uns livros na estante, deparei com um datado de 1956 e o seguinte título: «O PÉ DESCALÇO — Uma Vergonha Nacional que Urge Extirpar». Fiz com ele o que as máquinas de contar dinheiro fazem com as notas de cem euros. Premi-o de encontro ao dedo e deixei deslizar as páginas. O suficiente para ficar a saber que, à data do meu nascimento, dois terços dos portugueses andavam descalços. E que, em 1928, a «Liga Portuguesa de Profilaxia Social», com sede no Porto, lançou uma campanha com o título supracitado.
Os argumentos eram de peso. Que «só em 1927 foram socorridas na Cruz Vermelha da Cidade Invicta, 600 pessoas com ferimentos nos pés», grande número das quais veio a morrer de tétano.
Que o vergonhoso hábito de andar descalço estava tão arreigado, que se viam raparigas com boas roupas, cordões de oiro ao pescoço e arrecadas nas orelhas e os pés nus. O mesmo nos rapazes. Bons fatos, gravata, correntes com grilhão no colete e pata ao léu.
Que o grande número de pessoas descalças por essas ruas e praças causava espanto e comentários desagradáveis nos estrangeiros que nos visitavam. Que só em Portugal e na África se viam coisas destas. Guerra ao pé descalço.
Lentamente, como quem rola um penedo encosta arriba, a «Liga» foi levando a cruz ao Calvário. Primeiro o governador civil do Porto, depois o de Lisboa, a seguir o de Coimbra, proibiram, sob pena de multa e cadeia, o pé descalço na rua. Os tribunais começaram a ficar entupidos com tanta gente levada a juízo. E o mais estranho é que, pelos relatos desses julgamentos, ficamos a saber que nas grandes cidades se andava descalço durante todo o ano.
Eu, por acaso, só andava descalço no Verão. Para o Inverno sempre havia uns tamancos amanhados pelo meu pai, a quem a necessidade obrigava às mais variadas artes, entre elas a de soqueiro. E francamente lhes digo que até gostava de andar descalço. Ao arrepio da sensação de grilheta causada pelo tamanco, a pata ao léu transmitia-me na rua, nos caminhos e nos montes, a sensação de leveza e graciosidade dum bailarino no palco. Só não gostava de duas coisas. Esborrachar o dedo grande de encontro às pedras e abrir gretas nas pregas interdigitais. Já viram o que era andar sobre lameiros de feno cortados de fresco? Os caules, rijos e feros como as cerdas da escova de ferro com que o Tomé da Volta, picador de burros afamado, almofaçava o fouveiro, enfiavam-se-me pelas gretas e punham-me a dançar o saricoté num pé. Valia-me então uma vizinha de porta a quem eu suplicava que me fizesse chichi nos pés. Ardia mas aliviava.
Chamava-se ela Marcelina e era dada na cédula de nascimento como nascida no mesmo ano que eu, e filha de pai incógnito e da cabaneira Ana Garcia, mais conhecida por Descalça.
Esta Descalça tinha apenas a casita, um hortejo, meia dúzia de galinhas e uma burra parideira.
As galinhas andavam por aí à vontade. A burra apascentava-a a filha pelos baldios da povoação. Eu, na altura pastor de vacas, repartia com ela a merenda e os brinquedos. Corríamos por aqueles campos, rebolávamo-nos na relva, riamo-nos muito. Não sei como é que os pardais escolhem companheira. Mas deve ser por qualquer coisa muito parecida com aquilo que me atraía para a Lina, a Descalça, antonomásia herdada da mãe, mas que na filha assentava a primor, uma vez que, da minha lembrança, nunca lhe conheci qualquer espécie de calçado. E o que ainda hoje me causa espanto é nunca ter visto nos pés da minha companheira de infância qualquer dedo esborrachado ou greta interdigital. À força de andar sempre descalça, criara na planta dos pés uma verdadeira sola, que lhe permitia correr por cima das pedras, tojos, silvas, ou qualquer outro obstáculo, sem se magoar.
O livro citado afirma que o pé da mulher descalço se esparrama, alarga, masculiniza, se torna nodoso, feio. Não é verdade. Pelo menos a meus olhos, o pé da Lina continuava bonito, harmonioso, elegante, feminino a mais não poder ser.
Com ele a minha amiga se sentiu feliz até aos catorze anos. Por essa altura sobreveio-lhe uma doença muito comum nas mulheres: a inveja. Via as filhas dos lavradores de sapatos na missa e nas festas e meteu-se-lhe na cabeça que também tinha direito a uns. Pediu-os à mãe:
— Oh, filha! E dinheiro?
— Deixe-me ir às segadas.
— Vou falar com o Marcelino.
O Marcelino era tio materno da Lina e capataz de seitoiras. Comprometeu-se a levar a sobrinha à Terra Quente. Partiram em fins de Maio e regressaram em meados de Julho. Graças à protecção do tio, a jovem Descalça foi e veio sem ter perdido a inocência e a alegria.
Juntara à volta de 500$00 de jeiras. Comprou sapatos, meias de vidro, vestido, arrecadas e deu o resto à mãe. Entretanto chegou a Senhora da Livração e Lina resolveu ir à festa e estrear os sapatos. Fui com ela. À pata e descalços, ela com os sapatos numa saca, à cabeça, e eu com os meus enfiados num pau, ao ombro. Entre Peireses e as Boticas medeiam uns bons quinze quilómetros de caminhos poeirentos. Chegámos num estado lastimável.
— Calçamo-nos Lina? — perguntei eu à entrada da vila.
— Mas eu queria lavar os pés para não sujar os sapatos. Não sabes onde haja por aí um tanque ou um rego?
Levei-a lá para uma represa onde, durante a festa, costumam colocar um São Cristóvão gigante com uma tranca nas unhas e o Menino Jesus ao ombro.
Desencardimos os pés, enfiámos os sapatos, corremos para o arraial. De repente a Lina levou as mãos ao peito e disse:
— Ai Jesus!
— Que foi?
— Falta-me o ar...
— Não me digas que respiras pelos pés?!
— Ai Jesus! — voltou ela, sentando-se no passeio.
Estava coberta de suores frios, lívida, mesmo aflita. Afligi-me também:
— Queres que te vá buscar um copo de água?
— Liberta-me dos sapatos se não abafo.
Retirei-lhe rapidamente os sapatos e as meias. Ela respirou fundo:
— Ai que alívio! Deus te pague.
Ficou um momento a olhar para mim com aqueles seus olhinhos garços, tão luminosos, expressivos e promissores como as mais belas manhãs de Abril. Depois começou a chorar.
— De que choras?
— Lá se foi a festa...
— Porquê?
— Já viste a figura? Tu de sapatos e eu descalça?
— Isso tem bom remédio.
Descalcei-me também e estendi-lhe a mão:
— Anda.
E começámos de novo a correr de mãos dadas, alegres, felizes e inocentes como dois pardais acabados de sair do ninho.

Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 118 e ss.)

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O XAQUIM E A LIBRA

Antigamente, cá pelas nossas aldeias, tal dia como hoje, 11 de Novembro, aceivavam-se os castanheiros. Quer isto dizer que, a partir do S. Martinho, as cabaneiras podiam rebuscar à vontade nos soutos dos lavradores.
Os dicionários de português de que disponho, não registam o termo aceivar. Mas admitem ceive, no sentido de livre, sem vedações.
Já os Galegos, a ajuizar pelo nome de numerosas associações cívicas, tais como: «Fala Ceive», «Asociación Cultural de Fala Ceive», «Exército Guerrillero do Povo Galego Ceive», «Galiza Ceive», «Aparcamento Ceive»: o utilizam muito. E eu sou levado a crer, embora me recuse a pôr as mãos no lume pelo meu juízo, que em Barroso se dizia aceivar por influência galega.
E digo dizia, porque hoje já ninguém diz. A castanha perdeu o peso que outrora tinha nos hábitos alimentares dos barrosões. Tal era ele, que eles, não contentes com os castanheiros de Barroso, adquiriam soutos na Ribeira. Passavam o ano a rilhar castanhas. Cruas, cozidas, assadas, secas, no caldo, com o presigo, ao postre. No fundo, a castanha era o substituto do pão. Em vês de saírem para a rua, para o monte ou para a feira com os bolsos cheios de broa, saíam com eles cheios de bilhós.
Hoje, com a abundância, para não dizer desperdício, de pão que por aí vai, ninguém se preocupa com as castanhas. Apodrecem por aí ao Deus dará debaixo dos castanheiros.
Outrora dizia-se: “A castanha tem manha; quem a vê apanha-a». Hoje podíamos dizer: “Para a castanha, todos se queixam das costas, ninguém a apanha.» O mais absurdo de tudo isto, é que ela se vende no Porto a 4 e 5 euros o quilo e em Peireses ninguém dá um cêntimo por ela. Venha o Diabo e explique o que se passa, que eu não sei.
Mas vinha eu dizendo, e, decerto, asneando, que os barrosões empregavam o verbo aceivar e o adjectivo aceivado, influenciados pelos galegos, com quem diariamente conviviam nos campos, nas feiras, nas romarias e, acima de tudo, no contrabando. Desta convivência diária se engendravam, com relativa frequência, casamentos transfronteiriços.
Dos galegos casados na minha aldeia, não digo o mais famoso, mas pelo menos o mais falado, foi o Xaquim, do qual ainda hoje se contam histórias de ouvir e pasmar. Estou a lembrar-me de uma.
O Xaquim era natural de Rubiás dos Mixtos e filho único dum casal cuja fazenda se resumia a um macho.
Pela ordem natural das coisas, o pai foi o primeiro a morrer, pela simples razão de que também era o mais velho. Então a nai mandou dizer ao filho que, se queria o macho, o fosse buscar.
O Xaquim não se fez rogado. Correu ao posto da guarda-fiscal de Padroso e obteve licença para ir buscar a herança.
Era realmente uma estampa, o raio do macho. Apareceram logo meia dúzia de ciganos e alguns lavradores a quererem comprá-lo. O Xaquim, porém, não cedia. Nem que lho pesassem a oiro, jurava.
Mas quando o padre João, o tal que, na voz do povo, que nem sempre é a voz de Deus, media as libras a rasas, lhe alumiou com uma de cavalinho, o Xaquim não resistiu. Entrou em casa aos pulos, olhinhos de riso, moeda ao alto, entre o polegar e o indicador da mão direita:
— Ó Ana? Ó Ana? Mira o que eu aqui che trago!
E a cara-metade, que também era da borga e nunca havia tido uma libra na mão, correu a ele para lha tirar:
— Dá cá.
— Não dou.
— Eu tiro-ta.
— Tiras nada.
E o Xaquim, perdido de riso, passava a libra de mão em mão, de bolso em bolso, até que se lembrou de a meter na boca. No melhor da gargalhada, descuidou-se, engoliu-a. Quedaram ambos aterrados.
— Vês o que tu fizeste? — disse ele.
— Eu?
— Se não fossem as tuas brincadeiras...
— Oh, homem! Não te aflijas. Que eu saiba, uma libra de oiro não é absorvida pelos intestinos. Entrou por um lado, sai pelo outro. Quando é que foste a campo?
— Hoje de manhã.
O Xaquim armava às raposas de três em três dias. Faltavam portanto dois.
Ao terceiro, acordaram ambos expectantes como em casa onde se aguarda o nascimento dum filho. E quando as dores chegaram, o Xaquim correu para a horta e a Ana para o adro da capela que lhe ficava contígua. Ia ela na terceira volta da novena a Santantoninho de Lisboa, grita-lhe o Xaquim do meio das couves:
— Ó Ana? Ó Ana? Xá cá 'stá!
E ainda com uma das mãos a segurar as calças, exibia a libra na outra, feliz da vida. E não obstante a moeda estar a pedir o banho ritual dos recém-nascidos, o Xaquim recomeçava a brincadeira de a meter à boca. Grita-lhe a mulher:
— Está quieto, pantomineiro... «Com coisas sérias não se brinca...»

Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 115 e ss.)

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O VALOR DUM OVO

Quando o escudo foi desbancado pelo euro, circularam por aí calculadoras de bolso de vários tamanhos e feitios as quais, a um leve toque de dedo, faziam a correspondência entre as duas moedas. Desconfio que uma delas me foi parar à cabeça. E agora, sempre que me falam em euros, eu penso em escudos e recuo: «Tanto dinheiro?!»
Eu já sou do tempo do meio tostão e posso garantir que ninguém o desprezava. Quem é que hoje faz caso dum cêntimo? Todos o reputam coisa minúscula, insignificante, desprezível.
Pois a mim, se me pedem um cêntimo, a tal maquineta que me foi parar à cabeça, dispara: «Atenção! Dois escudos» E eu repito: «Dois escudos? Mas isso são para aí cinco ovos?!»
Esta mania de calcular o preço das coisas em ovos, ficou-me do tempo em que minha mãe me entregava um e dizia:
— Vai ali à loja e traz uma quarta de açúcar.
E eu corria à venda, entregava o ovo e trazia a quarta de açúcar. E até de uma vez parti o ovo à ida e de outra derramei o açúcar à vinda. E de ambas apanhei daquelas de que os cães não gostam. Falo nisto para dizer que, na minha infância, os ovos eram a moeda de troca mais corrente na minha aldeia. Um ovo valia uma entrada no teatro.
Nesse tempo, não havia feira ou festa que não metesse marionetas. E como nem todos os dias há feira ou festa e todos os dias um fabiano precisa de comer, esses audaciosos artistas ambulantes faziam «tournées» pelas aldeias.
Um dia apareceu um em Peireses e anunciou, rua abaixo, rua acima, ao som dum pandeiro, que logo, depois de ceia, havia teatro em casa da senhora Adelina Vitala. Entrada, um ovo por adulto. Menores de sete anos, desde que ao colo das respectivas mães, não pagavam nada.
Eu, na altura já matolote, surripiei um ovo em casa. Mas não cheguei a entregá-lo ao empresário. Pelo caminho encontrei a Perrona que me perguntou:
— Trazes o ovo?
— Não sei. Meta aqui o dedo a ver...
— Já sabes mais do que eu te ensinei... Responde ao que te pergunto: trazes o ovo ou não?
— Trago.
— Dá-mo cá.
— E depois como entro?
— Já vais ver.
Era Inverno e a Perrona trazia uma capa de burel. Pegou em mim ao colo e entrámos ambos por um ovo. O mais espantoso é que atrás de nós entraram várias matronas com os respectivos maridos, e outros que nem maridos eram, aconchegados ao seio.
O empresário, que também servia de porteiro, fechava os olhos e ria-se. Devia ser um desses génios artísticos que trabalham por amor à arte e não aos ovos. Pelas minhas contas, deve ter apurado, naquela noite, uma dúzia deles ou nem tanto. Dum modo ou doutro, quer os comesse, quer os utilizasse como moeda de troca na venda, tinha subsistência garantida para as próximas vinte e quatro horas. Depois Tália, protectora dos comediantes, providenciaria.
Resta-me dizer que a sala de espectáculos era uma corte na altura devoluta por falta de ovelha ou burro que a ocupasse. Por cima, a cozinha.
Casa cheia, porta fechada, começou o espectáculo. Espectadores, uns cinquenta. Os da frente acocorados no chão, os de trás de pé. Ao fundo, de parede a parede, um pano preto. Por detrás, à luz dum lampião, os bonecos.
A farsada metia partes gagas de muita e fina graça. A malta ria a bandeiras despregadas. No melhor da festa, grande reboliça por cima, na cozinha.
Os que estávamos mais perto da porta corremos escaleiras arriba a ver o que era. A Pinta e a Fecha, ambas já em idade de ter juízo mas desde há muito de candeias às avessas por questões amorosas, engalfinhadas uma na outra. As vizinhas tentavam separá-las. Mas elas, mutuamente catrafiladas pelos cabelos, não largavam. Aquilo choviam ali couces, murros, pragas e insultos que era um louvar ao Senhor e a Sua Mãe Maria Santíssima.
Por fim, ou por esgotamento das lutadoras ou imposição das árbitras, a contenda terminou. Alguém acendeu uma luz. A Fecha exibia a mão cheia de madeixas:
— Olhai onde a bruxa deixou o guedelho...
A Pinta exibia a mão cheia de pêlos:
— Olhai onde a puta deixou o pen...
Qualquer coisa a rimar com guedelho mas que eu não escrevo por extenso por respeito à moral pública.
— Mas porque é que elas se pegaram? — perguntei a uma das presentes mais ou menos da minha idade.
— A Pinta estava a espreitar por uma frincha. Vai a Fecha empurra-a: «Chega-te para lá que também quero ver.» A Pinta espetou-lhe uma bofetada. A Fecha atirou-se a ela. O resto, o que tu viste.
Vinha isto a propósito do valor dos ovos. Tal era ele que, por um, via um homem dois entremezes na mesma noite. 

Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 112 e ss.)

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O RESPONSO

Comemorou-se ontem, 1 de Outubro, o «Dia Mundial do Idoso». Ficámos então a saber, pelos variados simpósios e areópagos sobre o tema, e as variadas reportagens televisivas e escritas que lhes deram cobertura, que 40% dos idosos portugueses vivem no «limiar da pobreza» e o dobro destes na solidão.
Partindo do princípio de que os fazedores de estatísticas não contaram comigo, vou dar-lhes conta do meu caso.
É verdade que vivo no tal «limiar da pobreza». Quanto a solidão, é mal de que me não queixo. Estou sempre rodeado dum bando de fantasmas. Agora mesmo um deles se sentou aqui à minha ilharga, nesta velha poltrona onde costumo reclinar-me quando me sinto mais cansado, e me está a espremer a bossa das recordações com relatos de aventuras que ambos vivemos pelos montes atrás das cabras.
Era muito vaidoso e muito crendeiro o meu compincha de gandaia.
Por vaidade, não largava uma caneta de tinta permanente que a mãe lhe dera por ter feito exame de terceira.
Por crendice, um dia em que a perdeu, foi pedir à Tia Ermelinda que lha responsasse.
Antes de se concentrar, a velha pitonisa inquiriu:
— E quando deste pela falta da caneta?
— Hoje ao vir do monte com a rês.
— E tens a certeza que a levaste contigo?
— Certezinha! Trago-a sempre no bolso de fora do casaco, bem à vista de toda a gente…
— Então conta-me tudo o que fizeste hoje. Passos que deste, pessoas com quem falaste...
— Ó Tia Ermelinda? Mas isto é algum exame de consciência? Eu não venho pedir que me confesse. Venho pedir que me response a caneta!
— Eu sei, meu filho. Mas preciso de dar algumas pistas a Sant'António. Também não vamos exigir que o Santinho adivinhe tudo, não te parece?
— Bem. Se assim é, tome nota.
E o Liró, que assim se chamou em vida o meu fantasma de agora, deu ali conta minuciosa de tudo quanto fizera naquele dia, não esquecendo que, durante a tarde, bebera água na fontela da Corga de Sebastião Fernandes.
A Tia Ermelinda ouviu, bichanou o responso e disse:
— A caneta não está perdida, quero dizer, ainda ninguém a encontrou. De modo que, amanhã vais procurá-la, começando pela fontela da Corga de Sebastião Fernandes.
Liró não pregou olho. E, mal luziu o buraco, saltou do ninho e correu à Corga de Sebastião Fernandes. Lá estava a caneta à borda da fontela. Veio ter comigo:
— Vou dar umas arrochadas à Ermelinda.
— Porquê?
— Para ela ver que não lhe tenho medo.
— E porque é que lhe havias de ter medo?
— Porque é bruxa... Não vês com que limpeza ela adivinhou onde estava a caneta?
— Isso também eu adivinhava e mais não sou bruxo.
— Não acredito.
— Ó lorpa? Pensa um pouco. Trazias a caneta no bolso de fora do casaco. Debruçaste-te para beber, caiu-te. Nada mais natural.
— És capaz de ter razão.
— Claro que tenho. Deixa a mulher em paz.
Adiante, estava eu a meter a rês, aparece-me o Liró meio espavorido:
— Ó Marinheiro? Ó Marinheiro acode-me que estou perdido.
Não te preocupes. Alguém te há-de achar.
— Perdi cinco ovelhas. Se o meu pai dá por ela, mata-me!
— Não se perdia grande coisa.
— Ai tu ainda brincas?
— Que queres que te faça?
— Me venhas ajudar a procurá-las.
— Ainda não merendei.
— Também eu não. Mas temos de aproveitar enquanto se vê. Em caindo a noite, berimbau é gaita...
Fomos à procura das ovelhas. O Liró bem gritava: «Rata cá rabona? Mé!... mé!...» Mas só o eco lhe respondia na desoladora solidão do crepúsculo e dos montes.
— Bem — disse eu. — Só te resta uma coisa.
— O quê?
— Pedires à Tia Ermelinda que tas response.
O Liró foi ter com a vizinha. A velha pitonisa mastigou o responso e disse:
— As ovelhas estão bem. Não te sei dizer onde, mas estão bem.
— Ó Tia Ermelinda, response-mas outra vez, por favor.
— Vai descansado. Enquanto elas não aparecerem, vou-tas responsar todos os dias.
O Liró apanhou uma tareia do pai que lhe ficou de lembrança. As ovelhas só apareceram oito dias depois no meio dum giestal. Interim, uma delas, que andava prenha, dera à luz.
Vinha o Liró com elas, feliz da vida, rua acima, diz-lhe a Tia Ermelinda, da soleira da porta:
— Vês, como valeu a pena responsá-las?
— E bem responsadas Tia Ermelinda! Eram cinco, vieram seis...