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segunda-feira, 8 de julho de 2013

8 – Julho (domingo). [1990]

Creio que estou em «contagem decrescente», como se diz em astronáutica. A cabeça desconjuntada. Os guinchos nos ouvidos. Hoje de manhã acordei tonto. Fui à casa de banho e depois à cozinha beber água das Pedras. Mas quando voltei a deitar-me, de novo me tomou a vontade de vomitar. Sossegou.
E tomado o café, saí a buscar o jornal. Tudo fechado. Tive de ir à avenida da Igreja. E ao regressar, no largo da Caixa aqui ao pé, vi dois jovens acocorados a calcetar o pavimento. Um teria uns vinte anos, outro uns dezasseis. O de vinte anos era louro e trabalhava de tronco nu. Tinha a pele queimada. E eu pensei – é a praia que te cabe. E reconfortado na consciência por este pensamento progressista, regressei a casa abrasado de calor. As ruas desertas. Só o sol pesado no asfalto.
*
Foi bom, como disse, não ter recebido o convite de Mário Soares para o jantar de Coimbra. Estou destruído, não me tenho em mim. Mas também foi pena por não ler revisto a minha cidade mítica. Quanto a lembro. Mas onde ela me é um mito é aí, no lembrar. E no que converge para essa lembrança até ao seu ponto mais alto de esplendor. Coimbra, aliás, está morta, mesmo no que foi vivo nela, quando lá estive. Em todo o caso. Ainda lá está o sítio junto ao gradeamento no pátio da Universidade, donde se via o rio, Santa Clara e o que de lá devia acenar-me desde o tempo perdido. Mas já lá não está o banco para um devaneio repousado. Never more. Quem vem escolher-me os lugares da minha evocação? Não me foi favorável, Coimbra. Nem a sei dos lugares estabelecidos para a memória e o turismo. Toda a cidade me ficou no banco junto ao gradeamento e na volta rápida junto ao murete, à entrada da Faculdade. Tudo tão pouco. Tudo tão tanto.
*
Cada época tem a sua personagem típica, a que a resume e define. No 25 de Abril essa figura era um tipo de ar possante, alastrado de barbas, camisa aberta sem gravata, uma aparência agradavelmente suja, uns braços titanescos para erguerem o Mundo a pulso. No tempo de Salazar a personagem típica era um sujeito asséptico, sem contactos visíveis com as coisas materiais mas apenas com as ideias ou no máximo com os relatórios de um banco. Na Primeira República, o que a resumia era um tipo tribunício, de pera e bigode no momento de falar às turbas indisciplinadas e toscas, de fatos grosseiros e empenados. E por aí fora. E no nosso tempo? No nosso tempo, desde há uns cinco ou seis anos, o tipo mais representativo é um sujeito seco, austero, também asséptico à sua maneira, suspendendo uma pasta de papéis e que é uma espécie de caixa espalmada, aliás de mais peso que uma pasta tradicional, engravatado, mesmo em mangas de camisa, o ar complacente e breve mas sempre na vertical, e cuja missão ou vocação é lidar com finanças e economia ou ser, já mais abaixo, um gestor de empresas. Que é que passará na cabeça deste sujeito, além de cifrões? Que é que significará para ele, por exemplo, a família, fora das recepções mundanas ou das férias no estrangeiro? Quais as relações com os filhos a não ser as que passam pelos cheques? Como encara a hipótese de a mulher ter o seu amante privativo ou mesmo o aleatório de uma aventura? Lerá alguma coisa além dos livros técnicos ou das revistas de economia ou do movimento do câmbio e das acções? Para elucidação dos vindouros, faz falta hoje uma estética à Eça que nos deu do seu tempo a Imagem do político. Sobretudo faz falta quem um pouco reflicta sobre o que une esta figura ao vazio do nosso tempo. Porque são tão afins.
*
Senta-te a meu lado e dá-me a tua mão. Entardece devagar, um cinzento ténue estende-se pelo céu. Não digas nada, olha apenas. E ouve a balada que diz todo o possível dizer. Vem nela o aceno vão do que será um dia a memória da eternidade deste instante. É uma balada longínqua, insinuada ao silêncio que nos cobre, como uma saudação à noite. Estou tão cansado. E tão só. Senta-te ao meu lado e dá-me a tua mão. É frágil como a ternura. E violenta como a ameaça de um choro. Senta-te e olha e sê o absoluto da tua graça irreal no absoluto da minha solidão.

Vergílio Ferreira

domingo, 7 de julho de 2013

7 – Julho (sábado). [1990]

Gostava tanto de poder escrever outra vez o Para Sempre. Não digo escrever outro, mas sim escrever o mesmo. Poder revisitar a minha juventude e o que foi nela agora a sua imagem terna. Não sei se este é o meu melhor romance – creio que não. Mas é o que mais amo. O que equilibra a minha emoção afectiva com discrição que a não deixa transbordar. O que de longe mais me encanta. E entrelaçado ao encantamento, há o grave problema de hoje que é o da «palavra». E há o riso. Gostaria de poder inventar o livro outra vez. Releio aqui ou ali alguns trechos e o encantamento abre-se loga de novo em mim. Nunca mais.
*
Sinto-me doente. A cabeça e os seus zumbidos. Um enorme mal-estar. A ameaça de que o cérebro me estoire com um derrame. Estou bem só. On mourra seul.
*
De Coimbra telefonam-me, da parte do Presidente, a perguntarem se recebi um convite para estar lá hoje a um jantar que ele oferece a «personalidades». Não recebi. E foi bom não ter recebido. Como iria aguentar-me em sociabilidade, ameaçado como me sinto de me desmoronar?
*
O Lúcio foi à praia de tarde. Tem o carro que a mãe lhe deu, é para o usar. E está calor. E está farto de estudar. E há a alegria marítima que lhe está prometida. E está vivo.
*
Que semana horrível aí me vem. Almoço com os Llansois (Gabriela e Augusto) que vêm gentilmente para me fazerem um pouco de companhia. De tarde, ida à Bertrand para acerto de contas a fazer ao cimo do calvário do Chiado. Na quarta, almoço com as amigas e colegas e jantar no Palácio de Belém para despedida do embaixador do Brasil, o Alberto da Costa e Silva. Na terça há qualquer coisa também, mas não consigo lembrar-me o que é. E há logo na terça seguinte o lançamento do livro da Rosa Maria. E durante todo este tempo há a minha saúde de miséria com a minha cabeça desvairada de guinchos e a minha aflição até ao limite do rebentar. Como a vida me é difícil. Sem a harmonia disponível para traçar uma linha. Estas que traço o demonstram.


Vergílio Ferreira

sábado, 6 de julho de 2013

6 – Julho (sexta). [1990]

Há vários anos disse eu que se um dia viessem a extirpar-se as raízes do comunismo soviético, o Mundo seria coberto por um enorme pivete. Hoje o Público traz uma reportagem sobre o que se passa agora nesse paraíso perdido. Que coisa incrível. Assaltos, prostituição, miséria, um horror. Entretanto, onde quer que os comunas consigam ainda alojar-se, como em certo jornal da província, a música continua a mesma. Aqui há tempos uma fúfia que aí colabora, indignada com o anticomunismo, pedia que lhe mostrassem exemplos de miséria na União Soviética. Já largamente foram mostrados – pedintes de lata de esmolas na rua, vistos na TV e jornais. Julgam que a fúfia se deu por achada? No jornal de hoje falava-se de um filme exibido em Moscovo em que se mostra a podridão dos grandes senhores soviéticos e em que se pede para os comunistas um castigo igual ao que foi dado aos nazis em Nuremberga. Ovação geral do pagode que assistia.
O pior de tudo é que ainda se podia até hoje «dizer mal» do comunismo. Dizer mal agora de quê? Que ponto de referência para a organização do meu sentir? O jornal Le Monde trazia há dias uma larga referência aos meus livros traduzidos com uma grande fotografia minha e (Interrompido).

Vergílio Ferreira

quinta-feira, 4 de julho de 2013

4 – Julho (quarta). [1990]

Ontem e hoje a rever a tradução francesa de Até ao Fim. Como me senti mal no livro, exceptuadas algumas cenas. Estará falhado? Entretanto saíram ontem dois artigos sobre o Em Nome da Terra – da Silvina Rodrigues Lopes (no Público) e da Maria Joaquina Nobre Júlio (no JL). Gostei muito. O da Joaquina já o conhecia. Mas reli-o e achei-o de novo muito bom. Faltou-lhe apenas propor uma explicação para a minha quase obsessão dos «velhos». E mostra-se perplexa sobre o «papel» do Salus na economia do livro. Tenho a minha explicação mas não a dou porque pode estar errada. De início pensei num «tema». Depois noutro. Depois lembrei-me de juntar os dois. Terão ficado mal encaixados? De todo o modo o livro tem sido muito bem aceite. E isso ajuda-me, ao folheá-lo, a aceitá-lo também.
E hoje tenho aí um francês a cuja visita e razão dela me tinha já comprometido, mas não sei agora qual é. Queria era o meu equilíbrio em ordem para poder cortar com tudo e ter apenas o meu tédio. Cansado. E tudo é pretexto bom para o estar. Ontem por exemplo fui ao dentista remendar os buracos do sorriso. Pôs-me na boca um trambolho com dentes desalinhados e é extremamente difícil pô-los a trabalhar à mesa. Então retirei o trambolho e comi com os outros restantes e que lá se iam despachando. Triste. Sucumbido. O único remédio plausível, para isso quando a chatice não exagera, é partir pela estrada real da memória-evocação. Há lá imagens ternas. E uma ainda mais por sobre essas.
*
O Aníbal Alcino (terei falado nisso?) enviou-me um livro giríssimo das suas memórias alentejanas. Conheci-o e à sua pintura em Viana do Alentejo, onde era professor e onde estivera também com as mesmas funções o Júlio Resende. Quanto me ri e enterneci. Ele é um belo pintor um pouco à margem de escolas e currículo nas artes plásticas. O seu toque de autenticidade ingénua produziu uma pintura que então me excitava e de que não conheço a continuação. Fez um retrato da Regina cheio de cor que tenho aqui. Nós íamos a Viana visitá-lo. Mas havia lá uma taberna com um chouriço muito propício a dois copos e eu logo encaminhava os meus passos para lá. E ele enfurecia-se:
– Mas então vens-me visitar a mim ou ao taberneiro?
Ia visitar um e outro para benefício do corpo e do espírito com o vinho a fazer ponte de um ao outro… Há quarenta anos. É assim.

Vergílio Ferreira

domingo, 30 de junho de 2013

Vergílio Ferreira [1990]

30 – Junho (sábado). Hoje é dia de ler muito papel de jornal. Que desorientação em todo o Mundo. Há muito que eu já o sabia. Mas havia quem estivesse orientado e isso me desarrumava e sobretudo, por reflexo, me dava paradoxalmente alguma calma. Eram tipos iluminados que faziam peso do seu lado para equilibrar. Mas agora desse lado também não há nada. É aflitivo pensar o vazio. Alguém disse em França do Para Sempre que era «à l’évidence un des grands textes de la nostalgie européenne d’aujourd’hui». Li-o na contracapa da tradução de Manhã Submersa («Matin Perdu»). E essa melancolia cai sobre mim e arrasa-me de desamparo. Estou triste, é isso. É uma tristeza que vai do que me é difícil na vida e cobre tudo o mais da sua sombra. Há os que fogem desvairados para o abrigo de uma religião. Há os que se riem infantilmente, ingenuamente, desengraçadamente. Que espectáculo de ruínas. Então volto-me para o irreal do que foi e é só a realidade do meu imaginar. Pessoas que amei. Horas da minha impossível quietude. Não ler. Não pensar. Que é que posso ler ou pensar? Horas da nulidade de mim. Suave resignação no aceno longínquo do que morreu. Triste. Quanto. Mundo da desagregação, da arte em farrapos, da política em ruínas, da religião sem fé como lareira sem fogo, da moral incompreensível e amoralidade normalizada, do fútil e efémero, do presente rápido sem futuro nem passado, dos filhos sem pais que não tiveram tempo para isso, do lixo, do estrume, da grande manta de caca a envolver e preencher tudo quanto foi um dia o lugar de se ser homem em arte, em cultura, em tudo o que foi razão de o ser. Estou triste e cheio de pressa de dormir. De esquecer. 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Vergílio Ferreira: 26 – Junho (terça). [1990]

26 – Junho (terça). Vivi sempre exilado no meu país. Exílio político, entalado entre o fascismo de Salazar e o comunismo do Cunhal. Exílio cultural, porque a cultura portuguesa, exceptuando a literatura, em pouco me entusiasmou. Exílio de companheirismo, porque os companheiros tinham o seu redil político onde eu não entrava até porque a saúde me mandava estai quieto e não andar em borgas, que é onde se é realmente compincha. Do que no meu país não fui exilado foi do meu país. Ou seja, da minha língua, do meu ar, da minha paisagem, da minha alma, do meu ser. Respiro o meu país decerto no que é o seu espírito e eu não conheço por ser o meu. Mas ignoro-o ou conheço-o menos ou afectou-me menos no que é matéria de aprendizagem, de reflexão, de conteúdo decerto para preencher esse espírito. Eu sinto como português mas o meu pensar emigrou. De todas as formas de exílio, porem, a que sempre mais me tem doído é o meu destino de patinho feio, de ovelha negra em rebanho branco, de olhar disponível em olhos com testeiras. O que mais me doeu sempre foi não me reconhecerem, de me expulsarem de (Interrompido). 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Vergílio Ferreira: 25 – Junho (segunda). [1990]

25 – Junho (segunda). Fui ao correio da Praia das Maçãs. Estava fechado. Havia um empregado que se aposentou. Veio substituí-lo creio que interinamente uma senhora ainda viável, mas já pousada. E hoje não apareceu. À porta havia outros necessitados e cavaqueámos um pouco. Estaria a senhora no choco? Fora transferida? Estaria em reunião a preparar uma greve? Tudo eram hipóteses plausíveis para uma situação real. Passava mais de meia hora do horário que estava à porta. E desandei.
E chegado a casa pus-me a pensar se devia reflectir sobre a minha cabeça em desalinho ou sobre o estado de coisas da cultura em tremor de terra. Sobre a cabeça concluí uma vez mais que devia deixar de beber, mesmo o inocente copo às refeições. Porque tudo o mais vem em cadeia. Fumei um cigarro, que é como meter o termómetro. Não aumentou a febre, ou seja o desarranjo. E tento agora pensar o meu país com a tremenda desorientação vinda de Leste. O jornal comuna O Diário fechou para arranjos das finanças e dos comissários. E foi tudo para a rua. No Expresso de ontem lá os vi, a esses jornalistas despedidos, todos como órfãos em abandono, murchos, o ar enrascado. E à frente deles, de perfil, com o lacinho em asa de borboleta, o Bau-Bau com o ar idiota, no meio de toda aquela orfandade. Estes doces comunas quando alguém era despedido nas empresas capitalistas, aumentavam enormemente os decibéis com protestos de atroar. E agora, ó divas do protesto e da desordem? Com os outros a falta de «bago» não era razão bastante para se pôr alguém na rua. E agora? Como ides vós acertar as contas da vossa conta justiceira? Mas o problema é mais vasto e mais grave. O problema é que, já desde o 25 de Abril, ou antes, do 25 de Novembro, muitos e muitos que viviam à vossa sombra ficaram no desemprego. Sobretudo agora que o Leste abriu falência. Pois em nome de quê esses muitos e muitos sacanóides vão agora justificar as sacanices? Já no tempo do defunto Salazar eles viviam bem. Tinham boa reputação, eram gajos porreiros, tinham talento e encosto nos jornais, editoras, passa-palavra dos cafés, editoras estrangeiras – formavam uma rede mais forte e extensa do que os judeus, a maçonaria, a Opus Dei e os panascas. E agora como é que é? Que vão eles fazer da farrapada dos seus autores e dos seus livros? (Interrompido).
*
Como é que o fanatismo exacerba tanto o ódio? Ou como é que, para justificar-se o ódio, se exacerba o fanatismo? É fabuloso até onde pode ir o desejo de odiar, a paralela e exaltada alegria com a tragédia do inimigo. O ódio que se deseja e ama, funda a sua dimensão na dimensão do que se pretende que o justifique. Por isso o absoluto da religião é o que de melhor serve o absoluto do ódio. E à falta disso, a política serve perfeitamente. Quando o Sá-Carneiro morreu de desastre, houve quem rebentasse numa alegria imensa e bebesse champanhe para comemorar. Já devo ter falado no livro sobre Malraux, escrito pelo sobrinho-enteado (filho da cunhada, casada com o meio-irmão Roland, assassinado pelos alemães, e com quem veio a casar por sua vez). Nesse livro conta-se que tendo morrido em desastre de automóvel os dois filhos de Malraux (da ligação com Josette Clotis), houve quem lhe manifestasse a alegria por isso, em razão de ódio político. Não é isto tenebroso? O homem não tem limites. Para o bem e para o mal. Assim ele se mede com Deus e com o mais infame dos diabos. Aliás, agrada-me acrescentar, a propósito de Malraux, se o não disse ainda, que no dia seguinte ao do enterro dos seus filhos, que acompanhou, compareceu a um conselho de ministros com o espanto e consternação de todos eles.
*

Toda a obra de arte nasce de um acordo entre o artista e o real. É um real, que a si mesmo muitas vezes se desconhece, mas que está lá. Senão, como poderia amanhã reconhecer-se a validade da obra? Mas o real de hoje não existe para que a obra exista também. O real de hoje é o seu impossível de ser. E é esse o impossível da obra. 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Vergílio Ferreira: 24 – Junho (domingo). [1990]

24 – Junho (domingo). Dia de S. João. Évora, Évora. O calor alentejano, as noites sufocantes na nossa casa da rua da Mesquita, 28. Abríamos a janela de sacada do nosso quarto, a Regina às vezes levantava-se e ia para aí tomar o fresco. Do Rossio vinha-nos em revoadas pela noite dentro o rumor da feira. Depois ia arrefecendo para a madrugada. Évora, S. João, memória ardente do Alentejo. Nunca mais.
*
Vieram aí os Bragas e fomos almoçar a Janas. O Mário Braga dá apoio para uma conversa. Mas quando tem a bola, atrapalha-se para no-la passar. Em todo o caso, passa. E depois do almoço e um passeio a ver o mar, regressámos a tempo de eu ver o Brasil-Argentina em futebol. Mas antes de virmos, quero ver ainda o mar. Que fascinação ele exerce sobre mim, nascido entre as pedras da montanha. É a fascinação do incomensurável e majestoso e potente, a sedução do sem-limite, da sua infinitude, o absurdo do incansável das suas ondas, a beleza irrepresentável da sua alvura, a doce e larga dormência do seu rumor. Bom, mas visto o mar na minha lembrança, vou ver enfim o jogo. Fiquei furioso contra o Brasil, o seu azar, a injustiça imensa do destino. O Brasil jogou infinitamente melhor que a Argentina, teve oportunidades sem conta de marcar, encheu o campo de espectáculo. Mas foram os outros que de três únicas boas aproveitaram logo uma e ficaram apurados. Fui ver o desafio a casa do Vasco por ser no Canal 2 e a minha caixa podre de TV só dá o 1. A propósito, o Vasco é pai há poucos dias de uma ainda minúscula e perfeitinha miúda. Vão-lhe chamar Joana, decerto para emparelhar com o mano já crescidinho que se chama João.
Portanto, o futebol. Um azar clamoroso. E quando vinha para casa, surgiu-me uma ideia curiosa. É frequente, falar-se na influência do cinema ou da música etc. na arte literária. Ninguém que eu saiba aproximou um certo tipo de escrita do futebol. Mas aproximam-se. A escrita hoje não caminha a direito ou mesmo na precisão de uma linha quebrada, mas em interrupções, desvios, ziguezagues, com avanços e recuos, retomados da progressão até ao disparo final. Creio que a minha escrita é um pouco isso.

E foi surpreso desta ideia que eu regressei a casa mais recomposto do desastre brasileiro. 

domingo, 23 de junho de 2013

Vergílio Ferreira: 23 – Junho (sábado). [1990]

23 – Junho (sábado). Estava com vontade de me queixar. Mas não o posso fazer porque os outros estão fartos. Em princípio não gosto muito porque é como se me estivesse a queixar para mim mesmo e este eu mesmo se sentisse incomodado comigo. De um lado o queixoso e do outro o que tinha de o gramar. Não entenderam? Nem eu. Mas é assim. Em todo o raso, ser capaz de me lamuriar não tem um sinal totalmente negativo. Porque o máximo da queixa é o silêncio com uma corda ao pescoço. Mas o apetite é realmente grande. A sensação triste do fim. É a paisagem que se me abre em frente, para qualquer lado que me vire. Que é que quer dizer eu ter publicado um livro mesmo assim? Está-se a vender mal e é bem feito. As pessoas que o lêem têm mordido nele com avidez. Mas isso passa à margem do grande público. Que é que hoje se pode ler além do que dizem os noticiários? Para diversão, está aí o campeonato do mundo de futebol. E o meu livro não é divertido. Sinto a vida escoar-se – a do meu físico e psíquico, a de tudo e todos que me rodeiam, a da própria cultura, que era o que sustentava o mais. A ameaça não da morte mas a de ir morrendo põe-me em pânico. Não no pânico abrupto como em face de um perigo súbito, mas no pânico de desamparo, de abandono e afundamento. Cumpriu-se o que eu previra há muito tempo, mas prever não é estar metido no que se previu. E, no entanto, as pessoas em geral não se dão conta disso. Estarei eu taralhouco? Estou cansado, desarranjado dos nervos, seguro de que isto está por pouco, sem um futuro plausível que me recrie um projecto. É duro não ter projectos. Porque um projecto estende-me a vida até à possibilidade de o realizar. Estou tremendamente em baixo. E acabou a conversa.
*

Que me resta dizer e valha a pena dizer? Porque é limitado o que há a dizer, mesmo para os que têm um largo reservatório. O meu não o é. E uma ideia que se exprima entra logo em declínio, assim que for entendida. Algumas levam tempo a sê-lo e isso é o melhor para durarem. Às vezes essa duração, após mesmo o seu entendimento, não é já bem a delas mas das que nelas se geraram. E aí a obra de arte é a que menos se desgasta como a de tudo o que apenas é. Não tenho mais nada a dizer e isso mo fazem sentir os que de um novo livro meu o registam como remake. Mas toda a obra é um remake das que um dia se escreveram, porque o inevitável num artista – num homem que se afirmou seja no que for – é a repetição. E todavia é invencível a necessidade de nos não repetirmos. Uma obra que se multiplica não pode deixar de ser o diverso no igual. Sinto no entanto a evidência de que tudo o que disse está a mais. Contei no meu último romance a história de um velho que para o fim da vida passava os seus dias a olhar para a parede. Aflige-me a ideia e sinto-lhe a fatalidade. A minha parede é o estar sem mais. Ver, ouvir. E recuperar aí uma inocência perdida. 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

21– Junho (quinta). [1990]

21– Junho (quinta). Não passes mais na minha memória, não passes. Aquieta-te no sem-fim do lembrar. Para invenção de mim nas horas difíceis de abandono ao impossível que está sempre na minha memória sem razão. Não há realidade no real que relembro, porque essa realidade sou eu. Sossega no teu nada, não voltes mais. O que escrevo não foi, é o absoluto do meu imaginar. Esfuma-te na balada que eu ouça, está só na sua música de pobreza e sê lá só a ficção de ti. Que a sombra que te trouxe te leve de novo para sempre. E a melancolia que nela vive seja a razão verdadeira de te esquecer.
*
Dentro de dias a Regina parte de novo num grupo excursionista para um longe e incerto de legenda. Índia, suponho, ou arredores desse longe. Há dois prazeres nela irreprimíveis que é viajar e falar. E eu apenas me reencontro na quietude e silêncio.
– Está quieto e calado.
Vem-me a ordem desde a infância. E ficou-me até hoje o jeito de obedecer.
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Não passes mais no meu imaginar. Aquieta-te para sempre no sem-fim da memória.
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Outra vez a contas com os sacanas dos dentes. De vez em quando levanta-se um vendaval e lá se vai mais um. Estou agora com o sorriso todo esburacado. Mas vou acrescentar a prótese para tapar os buracos. Não quero apresentar-me diante do Padre Eterno em condições estéticas desagradáveis.
*
Esquecia-me. Hoje começou o Verão. Mas o céu fez-lhe um manguito. Faço-o eu também para acompanhar. E há uma morte a registar, ocorrida a 19. Era a de um pintor «abstracto» da família do Rotko, talvez Nicholson, e de outros que deve ter vindo a haver e já desisti de saber quem são. Tinha 55 anos. Morreu de cancro, essa tuberculose moderna. Tinha boa qualidade na sua pintura. Conhecia-me desde há uns trinta anos ou quarenta. Mas nunca mais quis continuar ou renovar esse conhecimento. Foi meu aluno uns dois anos (bom, mas não brilhante) em Évora como o seu companheiro nas lides artísticas Álvaro Lapa, que também foi meu aluno aí durante uns quatro ou cinco anos (brilhante) e que também mandou a minha memória às malvas e fez bem. Chamava-se Joaquim Bravo. Paz à sua alma e glória à sua arte.

terça-feira, 18 de junho de 2013

18 – Junho (segunda). [1990]

18 – Junho (segunda). Ontem foi um dia «não» com o estupor da saúde (cabeça, tronco e membros, mas sobretudo a cabeça). Espessura cerebral, mal-estar, tonturas, difícil trânsito de mim à realidade, subtil ameaça de ir mesmo abaixo de vez.
Mas assim mesmo, em desconforto corporal, esteve aí o António Paixão e fui convivente. Trazia ele um aparelhómetro nipónico e um cão. O aparelho era uma coisa sofisticada, cheia de botões e vidros e destinava-se a filmar como já se não diz, ou a gravar, como é já de dizer. Creio que por já não ficar na fita uma imagem mas uma sinalização electrónica para dar imagem depois na TV. Gravou-se mas depois, mesmo sem TV, pudemos ver-nos, ainda a preto e branco, espreitando por um certo buraquinho. Lá estávamos a Regina e eu, em suficiente fotogenia. Eu sobretudo, se mo permitem com as minhas cãs. Quanto ao cão, é um bicho antediluviano de uma raça castiça que o Paixão nos disse ser um boxer. Bicho feio mas da raça das classes exploradoras e por isso caríssimo. Tinha duas beiçorras caídas de pessimismo, o olho turvo e sanguinolento. Paixão informou-nos sobre os métodos da sua criação que são complicadíssimos com horário de refeições comestíveis seleccionadas e decerto mais tarde uma escolha de parceira para o matrimónio. Chazou-se e falatou-se, o monstrozinho sempre amarrado à perna do dono por uma arreata que lhe travasse algum apetite de má-educação. Havia bolachas na mesa que aí ficaram como restos da cerimónia. Mas a certa altura houve um descuido com a trela e quando démos por nós estava o bicho atrombado às bolachas com uma voracidade própria de quem cometia um pecado e não queria que o apanhassem em flagrante. Paixão saltou sobre ele, arrebatou-o à sedução pecaminosa e deu-lhe nalgadas. Foi difícil convencê-lo de que tinha o seu horário e comestíveis de cão racista. Porque não queria largar o prazer proibido. Na sua fúria libertária deixou a mesa num chavascal. Queria comer as bolachas todas de uma vez e largou a mesa toda espalhada de selvajaria. E quando o Paixão o arrancou ao prazer, ainda mastigava no vazio do que já não comia ou apurava alguns restos nas pelangas dos beiços. Paixão explicou-nos: não pode comer açúcar. Teria diabetes? Não perguntei por civilidade. Mas soube de não sei que incompatibilidade entre a raça apurada do cão e a gulodice que ele apetecia. E lá o levou amarrado ao dever. E a Regina fartou-se de limpar os destroços das bolachas, espalhadas pela mesa e pelo chão e que um boxer que se preza não deve comer como um qualquer rafeiro proletário.

domingo, 16 de junho de 2013

16 – Junho (sábado). [1990]

16 – Junho (sábado). Escrevo um pouco para pôr em movimento o mecanismo de escrever. Porque me vai faltando. O escrever foi sempre para mim uma necessidade. Não bem por ter coisas para dizer mas para dar vazão ao impulso que me vinha de dentro e precisava de chegar ao terminal, que era o acto de escrita. Assim o que havia a dizer nascia um tanto do próprio acto da escrita em que os movimentos que a traçavam geravam em si aquilo mesmo que escrevia. Em todo o caso o fundamental era a mistura do que precisava de dizer, o acto em que isso era a realidade traduzida. Estou bastante paralítico não bem por não ter coisas a dizer, mas porque o dizê-las me é pouco necessário. Porquê? Não sei. Há o desagradável da repetição, mesmo que me não repita, porque ser eu o mesmo que as diz, as toma mesmas a elas. E há o desencorajamento nascido do vazio do Mundo de hoje em que o dizer esse vazio é já um vazio. E há o cansaço de viajar sozinho nesta estúpida aventura de escrever. Os meus confrades em escrita não me aceitam na sua generalidade. Porque a literatura do meu tempo só é reconhecida na medida em que retoma e remói e glosa a herança do «Orpheu». Eu também passo por lá – mas só pelo que é menos aceite em Pessoa e que é o que remonta a Dostoievski, Pascal, Santo Agostinho, Marco Aurélio, Sófocles… Do Orpheu o que veio até nós e é entronizado é o que se concretizou na palhacice do Almada e floresceu no surrealismo de alguns. A gravidade da vida, a vertigem da nossa desorientação não tem o aval da opinião oficializada. O riso intrometeu-se-me na escrita não sei como. E é o que me recolhe alguma tolerância dos meus inquisidores.
Mas banda de lamúria que me é um vício insuportável. Está um belo dia de sol com pássaros a explica-lo, como diabo o não aprendo? São pássaros que cumprem o seu horário sobretudo pela manhã. Decerto para criarmos embalagem para o resto do dia. E há o monte de jornais a desbastar. Num semanário tiro os meus apontamentos mentais sobre o grande arraial que vai pelos profissionais da filosofia. É um saber que eu não sabia ser de saber na maior parte dos currículos secundários dos países europeus. Isto constitui um argumento de autoridade para o regime de dieta que ainda se nos consente. E porque é que esse argumento não funciona por exemplo para o caso do Latim? Porque nesses tais países latiniza-se com aplicação. Mas acabou-se: num país sem filósofos não é justificável que se filosofe em excesso. Há em todo o caso um pormenor que me entala o pensar e é que o programa proposto aposta na contemporaneidade. E a contemporaneidade que se topou foi a da filosofia analítica. Ora se uma questão primordial é o problema da «verdade», porque é que a fenomenologia e sobretudo um Heidegger não são chamados à conversa? Por mim, aliás, também tentei dar um contributo à contenda. Mas sou, como se sabe, um tipo doentiamente modesto e não vou repetir-me. Estes filósofos magistrais. Eles ainda não descobriram que toda a doutrinação filosófica é de um equilíbrio original que parte. E que não há assim «contradição» entre as várias «filosofias» como a não há entre as várias correntes estéticas, devendo, aliás, se se defende a eliminação da História da Filosofia nos liceus, eliminar-se também a da Literatura, se ainda se não eliminou (como a História tout court) ou como nas várias religiões ou nas várias políticas. E mais chegados para cá, é isso que torna compreensível o que separa o pobre do Cunhal do emérito Diogo. Mas acabou a conversa.

sábado, 15 de junho de 2013

15 – Junho (sexta). [1990]

15 – Junho (sexta). Ontem estiveram aí os Bragas (Helena e Mário) e fomos almoçar a Janas. E depois do almoço o Mário Braga rompeu estrada fora em digressão digestiva. Onde é que vais? perguntei-lhe eu, já inquieto de insegurança doméstica. Não sei, disse ele, vamos por aí, talvez a Mafra. A Mafra? A ver o quê? O Saramago? Vamos à Ericeira e depois a Mafra? Fomos, quero dizer, íamos indo. E chegados à Ericeira, senti-me logo abafado de betão armado e multidão. Subitamente o país pôs-se a viver a cem graus. E a qualquer ponto a que se chegue é assim. Houve uma longa hibernação e agora tudo disparou para o frenesim. Já o tinha verificado há pouco em Évora, vi-o há uns dois anos na Guarda, vi-o mesmo na minha aldeia de Melo. A Guarda do meu tempo vivia no seu ninho ao cimo do monte. Hoje alastrou por toda a encosta até cá baixo à Estação. Melo estava quase morta e foi isso, aliás, que me levou a interromper Alegria Breve, que já ia a meio, e recomeçar o livro para o que ficou. Portanto, a Ericeira. Prédios altos de cimento, ruas coalhadas de carros, e gente e gente. Mas demorámo-nos um pouco para visitarmos uma espécie de aldeia miniatura e uma «cascata», ou seja uma multiplicada panorâmica de homens em movimento na prática de vários mesteres – serrar lenha, puxar água à manivela e por aí – uma engenhoca de um inventor popular cheio de jeito e paciência. À passagem dos visitantes estava um homem na pedincha, mas era horroroso. Tinha uma saca imensa pendente do queixo, de um bócio horrendo. Porque é que se não opera? perguntei-lhe. Porque os médicos lhe dizem que a operação o mataria. Verdade? Porque eu já o vira em Lisboa, ao fundo da rua do Carmo, com a saca do bócio e a mão estendida. Sim, era ele, o homem confirmou. Eu, horrorizado, meti ainda a mão no bolso para a espórtula, mas houve em mim não sei que entrave de repugnância, vindo do horror do homem e do horror da esmola. Mas o Mário Braga, rápido, meteu-lhe na mão uma nota de cem paus e eu aproveitei para não dar. Relembro isto aqui e de novo sobe em mim uma repulsa de vómito que deve ter que ver com o inimaginável da degradação e deformidade na imagem estável em nós de um corpo normal. Como esta normalidade possibilita a repugnância mais incrível. Rompemos enfim para Mafra, mas não chegámos a parar e apenas rasámos de lado o mosteiro. Regressámos a Fontanelas, estendemo-nos ao sol da mata. Estava áspero, o sol. Depois chazou-se. Disse-se mal, naturalmente, mas já não sei de quê. Depois foram-se embora. Dei-lhes o Em Nome da Terra. Iam ler, diriam coisas quando lessem. Estou, aliás, bem precisado de que me digam. Tudo calado. Mas também não quero perguntar.
E restabelecida a paz doméstica, pude enfim ler o jornal. Naturalmente o que mais me importa é o que vai pelo Leste – que é o que reflexamente vai de importante em todo o Mundo. A Leste as coisas não estão claras. Na Bulgária e sobretudo na Roménia acontece uma coisa curiosa e é que os comunas não despegam. Dir-se-á depressa que é isso a prova de que o comunismo afinal tinha alguma razão. E os que a isso se opõem respondem que o medo é ainda muito grande. E é ou deve ser. Pois como ter a certeza de não haver uma reviravolta? E como pagar depois as contas? Muito bem. Mas como explicar que nas eleições livres promovidas pelo Marcelo a oposição não ganhou? Medo? Não me digam. Meio século de um qualquer regime cria o hábito do conformismo e do gosto da estabilidade. Para que assim não fosse era necessário que o povo fosse o mito com que o mitificam. Coitado do povo. Bom. Mas eu tenho que me despachar para arrumar os papéis. E anoto portanto apenas um pequeno pormenor. Mas antes disso já pus aqui em reflexão a espantosa ideia de Ieltsine ter separado da União Soviética a Grande Rússia? Estão a ver a jogada? Tomar independente o próprio núcleo do país? Imaginem que o nosso continente se «separava» do todo nacional em que entram também os Açores e a Madeira. Paremos. O pormenor que eu quero anotar é só este: a União Soviética acaba de renunciar ao socialismo e adoptar uma economia de mercado. E depois disso o Gorbatchev declara que continua visceralmente a ser comunista [1]. Há cerca de 40 anos eu escrevi um conto sobre isto. Chama-se «linha Quebrada». Não me digam que sou profeta, que os racho. Porque tenho é apenas uma vista razoável sem precisar ainda de óculos e uma coisa que antigamente se chamava consciência e que ainda não usa testeiras.
*
Esteve aqui há pouco a Brígida, minha colega dos tempos de Faro e aí professora de Educação Física. Deu-me algumas explicações para a Mónica do meu romance e veio aqui a casa para me falar do livro. Leu-o de enfiada, mas com um certo acabrunhamento em saldo. Gostou mas com um certo gosto amargo. Escreva agora um livro alegre, disse-me. Mas esse livro é alegre, disse eu, porque o resultado final deve ser um maior amor à vida. De resto, não escreverei romance. Três anos me levou este, quatro me levaria talvez outro e na aritmética da minha idade a conta já não dá para isso. Como não dá? contrapôs. Você tem já a máquina montada, é só meter-lhe outra história. Que podia eu dizer-lhe? Há os escritores felizes que em duas ou três semanas despacham um livro como esse que há dias ganhou o prémio do Notícias. Não me fizeram os deuses assim abonado. Você leu o livro de um jacto. Mas um simples almoço que se come em meia hora leva muitas mais a fabricar.



[1] Ontem na TV C9.3.93) em entrevista, a propósito do Mário Soares, dizia-se profundamente social-democrata. 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

13 – Junho (quarta). [1990]

13 – Junho (quarta). Fui a Lisboa tirar os alinhavos da gengiva costurada no vazio do dente que andou, e regressámos logo a Fontanelas. Era para regressarmos ainda ontem mas o Gilo quis-nos lá a jantar e ficámos. A soldagem da clavícula que se lhe partiu no desastre não resultou, a liga metálica quebrou-se e teve de se submeter a mais uma intervenção. Regina bramiu contra a inoperância e mesmo incompetência dos médicos de que ele estava a ponto de sofrer os efeitos graves, mas o Gilo, por defesa da classe, lá desculpou a maladresse de quem o tinha operado. O resultado foi não poder conduzir um mês e em casa andar de braço ao peito. Todo o problema portanto voltou à estaca zero.
Entretanto, no domínio político houve o caso interessante do encerramento do jornal comuna O Diário e o subsequente despedimento de dezenas de trabalhadores «sem justa causa». Que vai fazer agora o amigo Cunhal? Logicamente deveria incitar os pobres dos trabalhadores a vociferarem o seu protesto contra a entidade patronal, ou seja contra ele próprio. É a táctica usual em casos semelhantes, não se percebe que o bom costume revolucionário não seja cumprido. Coitado do Cunhal e de toda a cunhalada à sua roda. E coitados afinal de todos nós nesta confusão infernal sem deuses nem diabos para um equilíbrio ecológico. Eu fico varado de estupefacção ao ver que pouca gente se dá conta da convulsão mundial. O descalabro comunista foi o remate visível de uma revolução incomensurável em todos os domínios de se ser humano no Mundo. Sinto isso profundamente em todos os modos de me pensar e sentir. E de tal modo que me sinto ridículo ao pôr sequer a hipótese de vir a pensar romance na hipótese retroactiva de ter tempo, ou seja vida para fazê-lo. Como é que se sentem os meus confrades mais jovens, cheios ainda de disponibilidade no organismo? Que é que eles poderão pensar ao pensarem escrever? Pois escrever o quê? A que propósito? Com que intenções pias de progressismo? Com que desplante num mundo em decomposição? Com que lata de não parecerem parvos? Ou serei eu apenas tarado? O que não se entende na pretensa confusão ou o que não é apenas confusão mas claro como uma régua? Será uma sandice o meu Em Nome da Terra que fala de desagregação e de morte e de detritos humanos e culturais? Vou interrogar-me a sério para ser menos sandeu. Vou pôr a hipótese de ser eu o parvo para que a Humanidade em maioria seja sensata e harmoniosa. Vou, vou.
Enquanto olho o sol da tarde que me ilumina o escritório com a mesma inocência e verdade prática com que iluminou a terra dos dinossauros e ilumina as bolas de pedra cheias de buracos, que são os outros planetas.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

10 – Junho (domingo). [1990]

Que dia triste hoje se pôs. Quando me levantei previ chuva no empastado e rebaixado das nuvens. Mas as nuvens altearam e adelgaçaram de modo que uma claridade a querer abrir as atravessa. Tudo isto deve ter que ver com ser dia de Camões e da pátria expatriada. Cego já de um olho, o outro deve funcionar mal com o crepúsculo das nossas glórias que ele via já pouco bem no tempo em que as cantou. Que é que vai querer dizer o quem somos quando o rasoiro europeu nos nivelar? Mas a morte pode chorar-se – não discutir-se. Abeiramo-nos de uma nova época histórica e nela decerto a grande quantidade do que acumulámos já não funciona. Vale a pena lacrimejar? Em todo o caso o céu parece inclinado a essa opinião. Céu baço em dia de haver pátria e uma grande lira a cantá-la. Também o céu assim não está mentalizado para um novo arranque histórico e nova pedalada.
Mas são horas de irmos almoçar e ficam as lágrimas para outra ocasião.
*
A propósito de lágrimas – a Regina acabou a leitura do Em Nome da Terra e disse-me que o livro despertou-lhe foi riso. Ou seja, o humor com que o polvilhei para temperar a tragédia não era afinal «negro» mas colorido. E aqui estou eu agora sem saber se afinal tenho a vista normal ou se sou daltónico.
*
Porque me diminui dia a dia o interesse pela escrita e pela leitura? Há o que se pretende ou pode escrever, como há o que num livro espera pela nossa leitura. Mas há atrás disso o que em nós é aquilo que há-de ser em escrita e em leitura. Ou seja a parte que nos cabe no existir escrita e leitura. Um livro faz-se não apenas com aquilo com que se faz e é o que nele fica escrito, como se lê com aquilo com que se lê e que não é apenas o que há nele para ler. Escrita e leitura fazem-se com o impulso para o serem, ou seja com o que leva a ser criatividade no que se escreve e no que se lê. E é o que me vai faltando cada vez mais. Um livro a fazer ou feito pode estar bem. Mas necessita, para que exista para nós, da necessidade de que exista e que se determina pela força criativa para o criar (que não tem que ver com a matéria para a criação e capacidade de que se realize) e para o recriar (que é o que vai de nós para a obra, a fim de ela não ser a matéria morta que lá está). Estou cansado é isso. Esgota-se-me a possibilidade de a literatura ter razão. Para a ter apenas a minha fadiga, desinteresse e abandono à passiva nulidade. E é só.

domingo, 9 de junho de 2013

9 – Junho (sábado). [1990]

Sinto cada vez menos gosto em vir aqui assinar o ponto. É esse um sinal de que já vão sendo horas de apenas existir e ser analfabeto. Mas há que combater o analfabetismo e aqui estou. Aliás, um sinal de que a invenção da escrita foi uma aberração do homem, tive-a hoje no facto pela primeira vez, desde que tenho autoconsciência, vir de Lisboa para Fontanelas sem trazer a minha pasta de folhas em branco para lavrar. Valeu-me ter cá esta para ser lavrador.
Ora bem, e para dizer o quê? Naturalmente para me cumprir como sub-humano pela forma mais vocacionada de o ser que é sê-lo pela lágrima. E porque choro? Que pergunta. Motivos são aos centos como em quem é desgraçado. Desta vez foi a surpressão de mais um dente lá para trás. Resta-me aí agora só um como um poste telegráfico num descampado. Mas sem mensagens para transmitir. E há mais candidatos à aposentação. Porque não ser antes careca do que desdentado? Que nojo uma boca sem dentes. E que coisa tão parecida com a morte. Acabou-se, menos um dente.
E cheio de dores ainda no sítio do infortúnio, fui almoçar com a Teresa Gouveia, que é hoje administradora da Bertrand. Gostei. Dela, não do almoço pela minha quase invalidez almoçadeira. Creio que percebi qual era o seu intuito. A ver se lhe dou uma volta. Houve um convite para assistir à reunião da Administração nova e folclórica da casa, mas eu tinha um compromisso poético a cumprir e abstive-me. Era o caso que a minha afilhada Arnalda, filha de uma minha prima direita, lançava um seu livro lírico e era da minha obrigação e devoção assistir. Pertence ela a um grupo de poetas que não giram na órbita dos compêndios literários mas que se parecem imenso com os poetas profissionais, com as suas edições, o seu órgão poético, a sua confraternização e decerto rivalidade de vates, os seus recitais e o mais que pertence aos poetas que jogam na primeira divisão. Mas não vou alongar-me porque estou fatigado. Hoje viemos para Fontanelas. Trouxe comigo a notícia de alguns amigos que já leram o meu livro e morderam nele com voracidade. Um disse-me:
– Li o primeiro capítulo e achei tão belo, que não tenho coragem de ler mais nada.
Lá o animei como pude a prosseguir. Talvez houvesse ainda mais coisas comestíveis. Trouxe também algumas rosas de um ramo delas que me enviou a Maria Cavaco Silva em agradecimento do romance que lhe mandei a ela e ao marido. E pronto. Agora estamos aqui a vegetalizar um pouco. Não está frio. Não está calor. Almoçámos em Janas porque o restaurante do Zé está fechado para restauração do pessoal. Depois fomos abastecer-nos. No quintal de uma casa que dá para o coreto, há um cão perdigueiro, preso à sua corrente, e que vem empinar-se para o muro a ladrar ao Universo. E eu esperava que a Regina voltasse da loja e pus-me a olhar o cão. E foi minha ideia que ele sofria de clausura e da necessidade de comunicação humana. E fui até ele que estava empinado no muro. E cocei-lhe a cabeça. E ele deixou de ladrar e deitou a cabeça de lado numa paz de adormecer. Depois interrompi a coçadeira e ele voltou a ladrar. E eu cocei-lhe outra vez o crânio e ele deitou outra vez de lado a cabeça como quem achou sossego na alma. E eu disse-lhe – aguenta! Tu ao menos podes ladrar e clamar alto o teu protesto. Mas e eu? Não me posso pôr para aqui a ladrar senão metem-me num manicómio. Tu és feliz. A única coisa que te põem é uma corrente ao pescoço. E há sempre a hipótese de uma alma caridosa te coçar o toutiço. E a mim quem é que mo coça? E eu sou o rei da criação que sempre está acima de um canídeo. Ladra, ladra, que és feliz.
E foi quando a Regina voltou com as cargas merceeiras e acabou-se a conversa.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

6 – Junho (quarta). [1990]

Fui levar uma carga de livros ao correio da Avenida de Roma. Era a segunda dose de ofertas do romance que (quase) todos os conhecidos, com uma fracção mínima, de relacionamento, se julgam no direito de receber. E com dedicatória, que é o mais detestável da operação. E com um mínimo de prosa especial, fora do formulário convencional, para que a oferta seja especialmente confeccionada para o receptor da dádiva. E tudo isto com molho de pragas e injúrias ao meu destino de «escritor». Mas enfim, lá fui com o carrego aos correios. E como ficam perto da Barata e da Bertrand, entrei cheio de proa na alma, já que no corpo ouço os rangidos dos ossos. E isto porque levava a basófia de pôr a hipótese de que o meu livro se tinha vendido aos montes como a insensatez. Aos montes, sim, estavam eram os exemplares à espera. Então isto não anda? perguntei a um funcionário. Torceu-me o nariz com desânimo e mau agoiro. Fiquei sucumbido. Pois então o nosso luso alfabeto não petiscou ainda o livro, que até é, palavra de honra, uma obra da altura? Mas era assim. O Barata tem expostos os «best-sellers» que vão do número um ao vinte, suponho. O meu, muito encolhido, lá estava cheio de vergonha no 12. Valerá a pena ser escritor em vida neste país, quando se não é Paço d’Arcos ou Lobo Antunes? Não valerá mais a pena sê-lo só depois de morto? Vou decidir-me a isso. Vou ser aplicado e produtivo só depois de esticado na cova. Mas sabeis uma coisa, ó patifórios que esfregais as mãos de contentes? A França está a descobrir-me. E pergunta surpresa como é que Aparição lá chegou tão tarde. E diz que é uma «obra-prima». E reeditou Alegria Breve. E. Mas calo-me porque a minha modéstia me trava a língua. É o que vos vale para não vos dizer tudo. E nem imaginais o que teríeis de ouvir. Sa(ca)nitas de caca.
E já agora para chatear os sacanóides, registo que a tradução alemã do Até ao Fim está a ter uma imprensa bonita. E a Aparição em França continua a dar no goto. Há dias um crítico chamava-lhe um très grand livre. E hoje outro chama-lhe chef-d’œuvre. Assim. Ah, esquecia-me. Saiu a 2.ª edição da tradução francesa de Alegria Breve. Saiu a tradução de Manhã Submersa (Matin perdu), já vi um terço das folhas da tradução de Até ao Fim. Uma pequena laranja azeda: o Pour toujours já não entra na colecção 10/18 em Setembro, mas em Janeiro do próximo ano. Tão longe.
*
De vez em quando aparece um gracioso a largar piadas e tem logo um sucesso garantido. Porque é que o riso seduz tanto? Bom. Antes de mais há que ver que nem todos têm o dente pronto para a exibição. Mesmo os que o têm apto e exibível. São os que têm o espírito severo, vacinado no eterno contra os macacos do gracejo. Mas há os outros, massa imensa sempre pronta à gargalhada chalaceira, logo que alguém lhes faça cócegas no umbigo. Esquecia-me: os de espírito grave, nascidos para a fundura das coisas, concedem às vezes um sorriso a meio dente por tolerância e sociabilidade. Normalmente sorriem de coisas parvas que quando era rapaz me deixavam parvo a mim por não ver onde é que estava a piada. Mas voltando ao princípio: porque é que o riso agrada tanto quando, é claro, se está disponível? Em primeiro lugar agrada porque ele se fabrica no disponível? Em primeiro lugar agrada porque ele se fabrica no dizer mal e dizer mal dá-nos uma alegria imensa por sermos nós geniais e os outros uns imbecis. Ora é de uma justiça elementar que os imbecis apanhem. Tanto mais que às vezes são imbecis e é de todo o ponto que o sejam para todo o brilho ser nosso. Por outro lado acontece que nós próprios, não sendo destituídos desse dom de obter efeito na coçagem do umbigo alheio, podemos não ser reconhecidos na eficiência da chalaça ou simplesmente metermo-nos nas encolhas por decoro. Porque é evidente que tendo nós conquistado uma imagem pública de seriedade, não vamos comprometê-la a fazer palhaçadas. Para isso lá estão os palhaços profissionais a tanto a chalaça quadrada. Finalmente o riso seduz-nos porque a vida, como distracção e pagode, é uma merda. O inconveniente de tudo isto é que o chalaceiro profissional não tem a infinitude de Deus e postas a uso meia dúzia de piadas que trazia no fígado, esgota-se e torna-se insuportável como o cheiro a chulé de quem não muda de peúgas.
*
Como me é incómodo ler histórias estudantis sobre Coimbra. Porque é raríssimo que essas histórias passem. Coimbra é do imaginário e só assim depois de morrer ela nasce. Há portanto que recriá-la no irreal que é o seu. É um irreal que pode torná-la compreensível, ou seja recuperável até mesmo para os que a viveram e lhe conhecem o seu real. Mas o que normalmente acontece é que os que a viveram a traduzem ou rememoram não no seu passado que é de nunca, mas no real que é só do seu tempo. É o que pode talvez ser eficaz entre as confraternizações e nos copos que a aquecem – mas não na transposição à escrita, que se deve desenvolver num outro plano. O que é preciso é fingi-la, como recomenda o poeta, e não descrevê-la na sua pretensa realidade. Eis porque falar de Coimbra é quase sempre detestável. A sua realidade, aliás, é em tal caso quase sempre convencional, estereotipada já no que outros lhe inventaram ou terão mesmo vivido nela. São histórias picarescas de boémia fictícia, rapinanço de galinhas que já nem têm capoeira, assaltos ao peru do bispo que piedosamente o oferece com uma compreensão eclesiástica da folia estudantil, lances estafados de praxes avoengas e o mais assim. Mesmo a transposição de tudo isso para uma pretensa universalidade que isso consinta ou aceite, é largamente problemática pela ingenuidade e provincianismo que isso sustenta. Ora o que mais fala a uma memória de curto alcance é o que se refere a um imediatismo confrangedor que é recompensado, quando muito, por um sorriso discreto e tolerante. Mas Coimbra tem um repositório mais variado para quem nela viveu. Pelo que se me refere, o seu limite para uma possível evocação é o que ressoa no timbre do seu nome, que é o de uma guitarra. Mas a ignorância disso continua a ingenuidade nas letras dos fados ou baladas, como prefiro chamar-lhes e que são normalmente detestáveis – desde a «capa velhinha» (com cinco anos…) às mágoas e prantos despejados no Mondego. Há no entanto a música dolente e longínqua e terrivelmente evocadora do nunca mais de uma juventude perdida, e isso é bastante para Coimbra existir em quem nela existiu. Não foi o ter lá existido que existe agora na sua evocação – o que existe na Coimbra legendária é o seu impossível, a eternidade da memória, o imóvel desse passado que é a transcendência do passado real que nunca existiu. É o que explica o logro de quem aí volta, à procura dessa irrealidade. É o que explica a estranha revelação desse logro por mim sentido e decerto por outros, quando a chegada à cidade nos dá logo, por revelado imediata, o que dela ainda não vimos e é quase como se imediatamente já tivéssemos visto e nos desencoraja o entusiasmo para a irmos rever. Lembro-me de uma amiga que da última vez que aí fui quis ser amável e me levou ao Penedo. E eu não quis estragar-lhe a amabilidade e fui. E houve logo a inquietante sensação de que não havia lá nada do que eu procurava. Como não houve de outra vez quando fui à rua do Loureiro, onde morei (e o Eça, um pouco mais para baixo da minha casa), porque a rua era só o que eu já tinha em mim quando lá fui e nada ou pouco tinha a ver com o seu ar velho e sombrio. Aliás, só então reparei em duas igrejas renascentistas que eu nunca vira das inúmeras vezes que por elas passei. Como suponho já ter dito não sei onde.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

5 – Junho (terça). [1990]

Saíu enfim na semana passada o Em Nome da Terra. E ontem e hoje tenho passado o meu tempo a autografar livros. Trabalho irritante porque me obriga a inventar frasezinhas especiais para cada destinatário. Porque cada um quer ali a sua oferenda em tipo único e irrepetível, consagrado especialmente à sua pessoa. E a mim também me chatearia bater a chapa em cada exemplar. Uma estopada. Por sobre tudo, porém, e ao contrário de todos os outros meus livros, este não me desassossegou a alma. Um pouco nas tintas, é o caso. Mas no fundo talvez a minha inconsciência me faça admitir que o livro é bom. Há todavia um pormenor desagradável com que não contava e ê a rejeição do que no romance há de desagradável. Sobretudo pelos leitores que me rondam a idade. Eu sempre tenho dito que o livro não é aconselhável a maiores de 60 anos. Mas digo isto para fazer piada. E não é que é mesmo verdade? Ainda há pouco a Mariberta telefonou lá do Porto para me dizer que o livro lhe dá uma terrível depressão. E eu disse-lhe:
– Deite-o fora.
É que não sei mesmo que outra coisa aconselhar. Já os jovens aguentam melhor. A verdade é que também para eles não há morte. Em todo o caso o Lúcio – não o disse já? – declarou-me que após a leitura do livro ficou a amar mais a vida. Aí está.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

3 –Junho (domingo). [1990]

Exerço sobre mim uma enorme violência para me pôr para aqui a escrever. Porque estou tão em baixo no meu psiquismo, que a única reacção plausível era pôr-me de mono com a vida, enrolado a um canto dela e ficar para ali a apodrecer. Estou farto. De quê? Farto. Das sacanices do corpo, das sacanices dos meus irmãos em humanidade, de olhar para o futuro e não haver lá futuro, de tudo o que fiz, do que já não posso fazer, do peso do fim que se abate sobre mim como uma laje. Ainda agora, para me dar também um beliscão, a merdícola de mais um dente. O filho da puta está a abanar e estou agora sempre à espera que ele caia de podre. Como é terrível de humilhação ver o corpo a degradar-se. Eu tenho um longo treino disso desde a juventude, mas o resultado não é a resignação – é rebentar de já não poder mais. E como fica já longe, mesmo a gloríola que sempre foi de dar-me um afago na alma. Ontem estive a rever a tradução francesa de Até ao Fim. Com que tédio e fadiga e desinteresse. Tudo se quer no seu tempo e os nabos pelo Advento – dizia-se em Melo na minha infância. A glorícula era quando me achavascavam de todos os lados os comunas e os seus fâmulos. O meu país literário só agora parece resignado com eu existir. Mas na realidade, que é que eu tenho a ver com o meu país literário? Só lhe devo insultos porque somos dois estranhos. Em abastecimento de cultura, de gosto, de interesse para o que me interessa, mesmo de parceiros para encostar, o meu país deu-me muito pouco. Ponto final, está bem? 
*
Ontem o Lúcio, quando do seu telefonema diário aqui para Fontanelas, disse-me muito excitado que um dente fóssil de um dinossauro que tenho no escritório, somava não sei quantos milhões de anos. Estava a ouvir um programa de TV e ouviu. Tenho realmente um dente de dinossauro [1] de milimétrica perfeição: o triângulo do dente e um rendilhado finíssimo na aresta, decerto para melhor poder serrilhar os vegetais. Milhões de anos. Mas o dente-fóssil é tão exacto e presente ali na sua realidade objectiva, que nunca me dei à vibração sensível de reflectir que ele tinha funcionado muitos milhões de anos antes de aparecer o primeiro homem e de partir da Andrómeda a luz com que a estamos a ver. Vou retomar o dente quando voltar a Lisboa. E talvez me reconforte a ideia do nada que é a minha preocupação com o dente que é meu e está a cair. Ou mais por largo, a ideia de como é nada o acidente intervalar de haver depois dos dinossauros a esquírola raspada no grande tronco das espécies e que e a humana…
*
E de novo me volta a questão fundamental que melhor toma clamoroso o absurdo de uma religião: no tempo dos dinossauros, que poderia significar a palavra «Deus»? Num suposto universo feito de bolas de pedra cheias de buracos, que é queria dizer a criação divina? Para os milhões e milhões de anos anteriores à espécie humana e para os milhões e milhões que se lhe seguirão, que é que quer dizer o ápice instantâneo da sua duração e o que durante ela inventou de deuses e religiões?


[1] É de um tubarão. Tem seis (?) milhões de anos. Disse-mo o Galopim de Carvalho há dias (Fev. 93) que é autoridade em dinossáurios e foi aluno da Regina. Lá lho deixei. 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

30 – Maio (quarta). [1990]

Chegámos hoje de manhã de uma ida a Évora. A grande razão da ida era uma visita a Olivença, há muitas anos engatilhada na alma – a ida. Antes de a morte me pôr o pé em cima, queria eu pô-lo na terra que o castelhano nos rapinou. E a razão do constante adiamento é que a viagem é bastante longa, pois que a ponte de ligação imediata às terras do lado de lá foi dinamitada aquando do rapinanço e nunca mais reconstruída para arrefecer as tentações. Falei no caso ao Alberto Silva, centro de convergência amiga do nosso grupo de Évora, e ele agarrou logo a mãos ambas o nosso intento para nos ver lá e um pouco talvez recuperar o tempo perdido, agora que a Josete morreu. Se a gente se atrasava a andar com o projecto para a frente, ele aí estava a perguntar-nos quando é que. E de semana em semana de adiamento, a coisa foi de vez e aí fomos nós ontem disparados a patriotismo. Mas antes de sermos patriotas, há que registar o terrível embate com a cidade de Évora a sua transferência para o nosso puro imaginário. Porque está irreconhecível. Intransitável, coalhada de carros e de gente, com regras inimagináveis para a deslocação dentro dela, Évora transbordou para uma cidade imensa fora das muralhas onde nunca morou, com bairros imensos de grandes prédios de habitação e de comércio ou mesmo indústria que agridem alegremente o tempo e o silêncio da cidade antiga. O quarto único da única pensão que o Alberto Silva nos conseguiu fica na Rua da Selaria, fechada ao trânsito do meio para a Sé, com a praga das discotecas estendida até lá perto e que nos rendeu uma quase insónia com os selvagens dos jovens que se abatem aos muitos milhares sobre as escolas que há hoje aí e dos quais um grupo deve ter sido destacado para nos atormentar o sono de velhos excedentários. E assim, antes de mais, reparei que tinha cortado com a Évora profanada, sevandijada, assolada de uma praga selvática e a tinha recolhido na sua imagem de há 30 anos para o que em mim perdura como memória e emoção. Mas eu não queria falar de Évora e foi ela que se me meteu na conversa. Portanto – Espanha. O Alberto Silva ficou surpreendido porque o projecto da ida lá era para hoje. Mas as minhas contas do cansaço e o mais com o regresso a Lisboa logo após o de Espanha levou-me a propor a expedição para logo depois de termos chegado. E assim se fez. Metemo-nos no carro dele, almoçámos em Elvas e chegados pouco depois a Badajoz, derivámos para o sul. E algum tempo depois pude ler à entrada da cidade o nome parecido de «Olivenza». Parámos o carro para tirar uma foto panorâmica da cidade e senti uma tentação de logo emendar o seu nome no seu erro de ortografia… A cidade é grande e toda branca de leite como as do Alentejo. Mas com grande surpresa nossa e desgosto meu, toda a cidade estava a dormir. E isto é dito em sentido quase literal, porque atravessávamos ruas e ruas quase sem vivalma. A memória alentejana das suas casas estava já bastante pervertida com o gradeamento andaluz e mouro das janelas, como o íamos verificando na cidade adormecida. Porque na realidade toda a cidade dormia. E isso não era já bem português, que mesmo no Alentejo tem-se sempre um olho aberto. Olivença praticava o que Unamuno chamava o ioga ibérico, ou seja batia a sua sorna após o almoço. Tirei as fotos clássicas da lembrança portuguesa e quando finalmente apanhei um adulto sentado numa praça, fui-me a ele. Falava português? Sim, e muita gente falava ainda. Aldrabice, pensei, não porque o verificasse mas porque o tom de voz do homem era o de quem farejou em nós o desejo de que fosse assim – e fora amável por desfastio. Adiantei a questão da passagem de Olivença para o lado de lã, ele disse que fora há muitos anos e derivou de uma troca com Campo Maior. Deve ser a galga adiantada às crianças nas escolas. Porque o que aconteceu, como se não conta às crianças do lado de cá, não fora bem uma questão de troca e destroca sobre compromisso (teria de ir reler para saber se foi assim). O que aconteceu foi que Godoy, amante da rainha – parecida com a do nosso João VI – fez mão baixa à cidade e seu termo após as guerras napoleónicas, faltou ao compromisso de devolver o roubo sob o pretexto de que aquilo era um valhacouto de ladrões e contrabandistas e havia o Guadiana a jeito para fazer fronteira. A Espanha vendeu Gibraltar e pretende recuperá-lo. Portugal foi rapinado em Olivença e ninguém ousa tocar no assunto. Mas o Guadiana. Lá o fomos ver com a sua ponte destruída, com sinais de que mais parecem uma dinamitação, para evitar tentações. Creio, todavia, que se pensa em reconstruí-la. Sinal triste de que o problema está morto. Do lado de lá do rio havia um grupo de portugueses a fazer sinais de mãos agitadas. Seria talvez, e apesar de tudo uma saudação à memória dos portugueses que se sonhavam existir ainda do outro lado, após quase duzentos anos de terem emigrado com a terra para Espanha e o desejo obstinadamente vivo de que regressem a casa…