sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Amanhã é Natal
Amanhã, no Semanário Grande Porto, será publicado este texto que João Baptista Vasconcelos Magalhães escreveu:
A festa de Natal é uma das mais belas e fraternais celebrações da humanidade: é a festa dos afectos, do encontro com a saudade da família, dos amigos e até dos locais por onde crescemos, amamos e nos tornamos homens.
Tem origem na distante Idade Média, por volta do séc. III. O dia terá sido fixado pelo Papa Júlio I, contrapondo a celebração do nascimento de Jesus à festa pagã do solstício de Inverno, a festa do deus Mitra. Esta divindade, de origem persa, era muito popular. Acreditava-se que se tinha aliado ao Sol para obter o calor e a luz que faziam com que as raízes das plantas rompessem a terra e florissem.
É um pouco o que representa o Natal. Conta a Bíblia que um anjo anunciou a Maria que daria à luz Jesus, o filho de Deus, que viria ao mundo para salvar os homens. Tal como a terra tem de proporcionar boas condições para permitir que a semente floresça, a Mãe de Jesus teria de garantir as condições necessárias ao crescimento do seu Menino, para que Ele fosse, como refere a Bíblia, exemplo, caminho e vida de um mundo mais justo e mais humano. E este horizonte de sentido é vivido em cada Natal como um mistério insondável, pois, como dizia Leonardo Coimbra na sua obra “Jesus”: «Ele sabe esperar, fazer-se oculto, pequeno, humilde, companheiro e amigo, para dar às almas o exemplo da sua vida, o calor das suas certezas, o infinito afago do seu coração transbordante».
O Natal ganhou, assim, um significado de incomensurável riqueza. Associa-se à ideia de luz que dá esperança ao futuro, de mãe que sabe proteger os seus filhos, de espírito de solidariedade que vive da rede de afectos e de magnanimidade que nos torna humildes, generosos, autênticos e justos. E Natal é tudo isto, quando significa romagem à Terra que nos viu nascer, crescer e fazer amigos; quando nos abre aos valores da família, da solidariedade, da generosidade e da justiça; e quando nos faz magnânimos perante adversários e desprotegidos.
Vivemos uma época contrária ao espírito do Natal e essa é a nossa maior crise. Valoriza-se mais o dinheiro que o ser humano. Surgem bolsas de miséria no coração da abundância, o egoísmo cavou a indiferença pelo bem-comum e a hipocrisia, a arrogância e a venialidade moldaram o homem de sucesso do nosso tempo: o chico-esperto.
Precisamos de renovar o significado do Natal para reencontrar o rumo que humanize as nossas vidas, nos torne autênticos, faça luz sobre o nosso futuro colectivo e dê esperança aos mais desprotegidos, aos que vivem numa “miséria imerecida”.
São estes os nossos votos no dia de Natal.
O Natal...
... nos cristãos do Iraque... e do A.R.
Uma manhã perfeita...
Nazaré, 20 de Abril [1947] — Uma manhã perfeita, de um bucolismo quase rural. O mar parece um lameiro de erva de lima. Por ele a cabo, as lanchas lembram rezes a pastar. E na praia, as mulheres, vestidas de negro, ou dormitam acocoradas como galinhas chocas, ou cacarejam a espezinhar a lisura da areia.
De repente, um barco é apanhado de través. De um golpe, o mar leva a rede, os remos, e põe uma dúzia de homens à sua mercê, impotentes e acobardados como crianças.
Ergue-se um clamor. À gárrula dobadoira de há pouco é agora uma estática maceração aos gritos. Mãos convulsas arrancam madeixas de cabelos, arranham os peitos, levantam-se em protesto contra Deus, em gestos de dor secular.
A nado e aos tombos, numa espécie de benevolência do mar que os empurra, os homens chegam finalmente à praia. À rede, à tona das vagas, esfarrapada, perdida, é uma renda de noivado desfeito.
Volta a serenidade e a paz. Foi como se o mar quisesse apenas quebrar por um instante a sua monótona existência.
Miguel Torga, Diário IV, p. 32
23 de Dezembro
Em Lisboa, em 1734, nasceu Filinto Elísio, um dos mais importantes poetas do Neoclassicismo português. | |
O NATAL DO DR. CROSBY (4)
(Do Diário dum expatriado)
( – de Dezembro)
Tivemos esta tarde cá em casa a vizinha do último andar, Swissabelle ou coisa assim; a Betsy encontrou-a à porta e convidou-a a entrar. Sem ser bonita, é um amor de rapariga. Grandes olhos escuros, redondos e expressivos na cara branca sem maquilhagem, a boca saliente e cheia de movimento. Um pouquinho cheia, nada de americana standard, só osso e sex-appeal, mas a cintura duma delgadeza quase inverosímil, entre os seios afirmativos e as ancas robustas. Pernas fortes, admiravelmente torneadas, pernas de danseuse que ela não esconde, ao contrário.
Exuberante, impulsiva, à primeira vista um quase nada de pancada na mola: conversa (ou representa?) sentada, em pé, erguendo-se nos bicos dos sapatos rasos, fazendo piruetas, e caindo escanchada no parquê. Abre os olhos redondos e as mãos espalmadas. Parece que está no tablado, e no entanto encontro nela a naturalidade e a candura duma infância madura e extrovertida.
Rimo-nos a perder com a história do Crosby, que ela nos conta com muitos pormenores edificantes e grande poder mímico: parece que os hábitos do sujeito, «os musicais e os outros», datam de longe, do tempo da Princeton. Até já foi corrido dum college onde ensinava. A gente que aqui morava antes de nós mudou-se por não poder aturar mais o escândalo. «Mas porque é que não chamam a polícia?», pergunto. Nem falar nisso. Casa onde entra a polícia fica desacreditada. Só mesmo em caso de morte, crime ou incêndio. Essa agora! Mas ultimamente isto tem piorado imenso. O homem parece querer viver em guerra aberta com todo o mundo. Além de misógíno, é misantropo. Estamos servidos! Olho para a Betsy: Onde nós nos viemos meter! Parece que não há remédio senão recorrer aos tribunais. Com as Festas vai ser o bonito!
Com este meu jeito de transfigurar em humor tudo o que me faz doer, conto-lhe no meu inglês atrapalhado as experiências destes primeiros tempos, e ela ri coreograficamente, quer dizer, com o corpo inteiro. Ficamos muito amigos. (Aqui as amizades fazem-se e desfazem-se depressa.) Como a Betsy está fora todo o dia, a Swissabelle promete vir fazer-me companhia uma vez por outra. Escusado será dizer que aceito com alvoroço, e acrescento: «Pode vir dançar aqui quando os vizinhos fizerem música: espaço não falta!» A querida Betsy olha-me com fingida severidade. Mas ela bem sabe que a minha curiosidade tem tanto de honesta como de ilimitada. É um anjo duma pequena, nada ciumenta. – Ficou tudo combinado: se as coisas continuam assim por mais alguns dias, vamos todos unir-nos. Ou ele entra nos eixos, ou vai para a rua. O advogado cá de cima toma conta do caso.
( – de Dezembro)
O que vale é que o meu inglês melhora a olhos vistos. O Nathan tem-me sido muito dedicado. Para estarmos mais perto um do outro, mudou-se para um quarto quase aqui ao lado. Agora, quando volta do serviço, pelas quatro e meia, bate-me ao ferrolho. Eu faço café de saco (diz ele que não se bebe outro assim, nem no Village) e ficamos a dar à língua. Conto-lhe histórias, falo-lhe dos meus projectos, fazemos planos. Sinto-me feliz e ele fica contente. Disse-me há dias: «Esqueça que fala outra língua, e atire-se já a escrever isso tudo em inglês, esta mesma noite. Não altere uma palavra, conserve-lhe o sabor da espontaneidade. Vá, que eu depois dou-lhe uma ajuda, tempo não me falta – infelizmente!» Sim, mas há que ganhar o pão de cada dia, e depois o Espinosa, e eu ando mal dormido... Desculpas de mau pagador. A vida ainda exerce sobre mim uma fascinação demasiado grande para me permitir consagrar-me com paciência beneditina a uma «obra»... O facto é que, graças ao Nathan, nestes últimos dias o meu inglês desabrochou: parece que se rompeu cá por dentro uma casquinha de ovo, e que a expressão me saiu toda feita, como um pinto!
Nevou a noite inteira, e o seminário está lindo. Os relvados são um tapete de alvura deslumbrante, e as árvores, carregadas deste cimento imponderável que brandamente cai do céu, parecem de bronze negro. A neve dá um relevo, uma pureza e um recolhimento indescritíveis a todas as coisas. As cornijas e saliências dos edifícios, com a sua sobrecarga de neve, ganham outro poder decorativo. Redobra o silêncio, há no ar um não-sei-quê de festivo. A alvura dos telhados reflecte o azul do céu, mas onde o sol bate é tudo rosado e espumoso. A neve faz literatura... Acendo um lume na lareira, e é um regalo ficar aqui a trabalhar. Ah, será possível ser pobre e viver contente? – Não tenho ouvido os vizinhos de baixo, talvez estejam para fora a gozar férias. Se por lá ficassem! Só lá em cima a Swissabelle toca o seu Debussy com aplicação e compreensão: La neige tombe... Mesmo próprio para esta atmosfera irreal, quase de submersão. Há momentos em que todos os homens sentem a necessidade dum refúgio, dum momentâneo escape: talvez para melhor se concentrarem na luta? Se isto durasse, seria bom de mais, quase mentira, o Paraíso! – Entretanto, trabalho mecanicamente pelo ganha-pão. Com as idas à Biblioteca, as voltas a dar, ver gente, o tempo vai-se. Acabarei por me resignar a tudo isto? Há uma coisa mais alta ou profunda que nos prende em toda a parte...
Seis da tarde, nem tanto, truz-truz: vou abrir e empalideço. É o vizinho de baixo! Calculou apanhar-me sozinho em casa, e prega-me a surpresa. Mas então sempre cá estava! Tão calado, aqui há coisa. Olho-o da cabeça aos pés, na sua elegância descuidada de anglo-saxão, que não me esconde seja o que for de inquietante. E eu que hoje ainda nem fiz a barba! Fita-me com mal disfarçado desdém, e torce a boca no tal sorriso que a Betsy chamou de «enguia»: sorriso amarelo, que pretende passar por correcto e cordial. Faz um gesto como se tencionasse entrar, mas eu finjo que não percebo e atravesso-me na abertura da porta, com a mão direita no alizar. Fale aqui mesmo, se quiser. Ele fica lívido. Depois, fazendo esforços visíveis para manter o aprumo e o sorriso, falsos ambos como Judas, declara ao que vem: Se não haveria maneira de chegarmos a acordo, as minhas «represálias» estão-no incomodando. E porque é que eu não mando forrar o parquê com tapetes, para abafar o rumor dos passos!
Esta dos tapetes faz-me transbordar as medidas. Como a Betsy está fora, aproveito o ensejo e faço o gosto ao dedo: «Não há nada a conversar. Ou o senhor modera o seu monstro musical, e passa a tocar a horas mais humanas, ou vamos para a frente com a queixa colectiva. Na guerra como na guerra. Já temos advogado. O resto é consigo.»
Vinha pedir batatinhas, levou pelas ventas. Erguemos a voz, ele recuou um passo, verde, já com espuma aos cantos da boca, as mãos em garra, e a certa altura tratou-me de «estrangeiro» e «hipocondríaco». Dominei-me para não lhe ir aos queixos ali mesmo e, pensando que os outros vizinhos deviam estar lá em cima a gozar a cena, ri-me: «Eu é que não preciso de lhe dizer o bonito nome que todos aqui lhe dão!» Foi um arraial no vestíbulo. Ele não quis ouvir mais: disparou por ali fora, arrastando a perna odiosa no mosaico, e de longe ainda me xingou de «judeu» e outras finezas. (Quando querem ofender um estranho chamam-lhe logo judeu.) Fechei a porta, com o pulso acelerado, mas gozei o meu migalho. Vê-se logo que a conversa com o Nathan me tem desenferrujado a língua. Judeu. Deixa que hei-de contar esta ao Nathan. Ele é que diz que por cá não há anti-semitismo! Se o Crosby não dá o fora tão depressa, tinha havido banzé.
A Betsy volta e alarma-se com a minha narração do incidente: «Olhe que estes sujeitos às vezes têm impulsos criminosos. Capaz é ele de pegar fogo à casa!» Não te rales, filha: ele tem demasiado amor à sua discoteca.
À noite vamos a casa da Swissabelle. Serão bem passado. Conversamos e rimos até às onze e meia. Ela tocou, depois dançou para nós ao som da grafonola. O marido, um rapaz seco, arruivado e simples, mostrou-nos os seus cartões; comerciais, é claro, que remédio senão ganhar a vida. Mas nada maus. Voltei para baixo contente. Que genuíno e gostoso é por vezes o convívio desta gente que trabalha duro pelo pão: tão sem veneno, sem falsas complicações de estetas nem má fé! Uma independência tocada de responsabilidade, uma exuberância restringida na disciplina da criação. Se todos fossem assim, se não houvesse os Crosby e os outros!
( – de Dezembro)
Há dias que nem tomo notas. Música de dia e de noite. Tenho os nervos num rolo de arame farpado. Nunca vou tranquilo para a cama: se a música não vem, impaciento-me como um condenado à morte que espera a descarga eléctrica; se ela vem, irrito-me, salto da cama abaixo, faço um barulho dos demónios. A Betsy, coitada, esforça-se por conservar a calma. Mas nestas condições é difícil; já não tem o mesmo sono sossegado. Serei eu a causa disto? Às vezes penso nas dificuldades que lhe vim trazer, e assalta-me uma espécie de remorso.
Mas ainda temos algumas consolações: a Mina e o Nathan jantaram ontem connosco, à noite veio o poeta I. com a mulher e um jornalista amigo. O nosso pequeno círculo vai-se alargando, sinto-me apesar de tudo mais optimista e confiante. Esta manhã, no fervor do ambiente cheio de antecipações de tragédia, acordei com um poema na boca e corri a escrevê-lo... Ainda não secou de todo a minha fonte!
José Rodrigues Miguéis
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Os Cordoeiros: Segunda-feira, Dezembro 22 [2003]
Dominici ou le triomphe de la littérature
Tout le procès Dominici s’est joué sur une certaine idée de la psychologie, qui se trouve être comme par hasard celle de la Littérature bien-pensante. Les preuves matérielles étant incertaines ou contradictoires, on a eu recours aux preuves mentales; et où les prendre sinon dans la mentalité même des accusateurs? On a donc reconstitué de chic mais sans l’ombre d’un doute, les mobiles et l’enchaînement des actes; on a fait comme ces archéologues qui vont ramasser de vieilles pierres aux quatre coins du champ de fouille, et avec leur ciment tout moderne mettent debout un délicat reposoir de Sésostris, ou encore qui reconstituent une religion morte il y a deux mille ans en puisant au vieux fonds de la sagesse universelle, qui n’est en fait que leur sagesse à eux, élaborée dans les écoles de la III’ République.
De même pour la psychologie » du vieux Dominici. Est-ce vraiment la sienne? On n’en sait rien. Mais on peut être sûr que c’est bien la psychologie du président d’assises ou de l’avocat général. Ces deux mentalités, celle du vieux rural alpin et celle du personnel justicier, ont-elles la même mécanique? Rien n’est moins sûr. C’est pourtant au nom d’une psychologie universelle» que le vieux Dominici a été condamné: descendue de l’empyrée charmant des romans bourgeois et de la psychologie essentialiste, la Littérature vient de condamner un homme à l’échafaud. Ecoutez l’avocat général : « Sir Jack Drummond, je vous l’ai dit, avait peur. Mais il sait que la meilleure façon de se défendre, c’est encore d’attaquer. II se précipite donc sur cet homme farouche et prend le vieil homme à la gorge. Il n’y a pas un mot d’échangé. Mais pour Gaston Dominici, le simple fait qu’on veuille lui faire toucher terre des épaules est impensable. Il n’a pas pu, physiquement, supporter cette force qui soudain s’opposait à lui. » C’est plausible comme le temple de Sésostris, comme la Littérature de M. Genevoix. Seulement, fonder l’archéologie ou le roman sur un « Pourquoi pas? », cela ne fait de mal à personne. Mais la Justice? Périodiquement, quelque procès, et pas forcément fictif comme celui de l’Etranger, vient vous rappeler qu’elle est toujours disposée à vous prêter un cerveau de rechange pour vous condamner sans remords, et que, cornélienne, elle vous peint tel que vous devriez être et non tel que vous êtes.
Ce transport de Justice dans le monde de l’accusé est possible grâce à un mythe intermédiaire, dont l’officialité fait toujours grand usage, que ce soit celle des cours d’assises ou celle des tribunes littéraires, et qui est la transparence et l’universalité du langage. Le président d’assises, qui lit le Figaro, n’éprouve visiblement aucun scrupule à dialoguer avec le vieux chevrier « illettré ». N’ont-ils pas en commun une même langue et la plus claire qui soit, le français? Merveilleuse assurance de l’éducation classique, où les bergers conversent sans gêne avec les juges! Mais ici encore, derrière la morale prestigieuse (et grotesque) des versions latines et des dissertations françaises, c’est la tête d’un homme qui est en jeu.
La disparité des langages, leur clôture impénétrable, ont pourtant été soulignées par quelques journalistes, et Giono en a donné de nombreux exemples dans ses comptes rendus d’audience. On y constate qu’il n’est pas besoin d’imaginer des barrières mystérieuses, des malentendus à la Kafka. Non, la syntaxe, le vocabulaire, la plupart des matériaux élémentaires, analytiques, du langage se cherchent aveuglément sans se joindre, mais nul n’en a scrupule: « Etes-vous allé au pont? — Allée? il n’y a pas d’allée, je le sais, j’y suis été. » Naturellement tout le monde feint de croire que c’est le langage officiel qui est de sens commun, celui de Dominici n’étant qu’une variété ethnologique, pittoresque par son indigence. Pourtant, ce langage présidentiel est tout aussi particulier, chargé de clichés irréels, langage de rédaction scolaire, non de psychologie concrète (à moins que la plupart des hommes ne soient obligés, hélas, d’avoir la psychologie du langage qu’on leur apprend). Ce sont tout simplement deux particularités qui s’affrontent. Mais l’une a les honneurs, la loi, la force pour soi.
Et ce langage « universel » vient relancer à point la psychologie des maîtres : elle lui permet de prendre toujours autrui pour un objet, de décrire et de condamner en même temps. C’est une psychologie adjective, elle ne sait que pourvoir ses victimes d’attributs, ignore tout de l’acte en dehors de la catégorie coupable où on le fait entrer de force. Ces catégories, œ sont celles de la comédie classique ou d’un traité de graphologie : vantard, coléreux, égoïste, rusé, paillard, dur, l’homme n’existe à ses yeux que par les « caractères » qui le désignent à la société comme objet d’une assimilation plus ou moins facile, comme sujet d’une soumission plus ou moins respectueuse. Utilitaire, mettant entre parenthèses tout état de conscience, cette psychologie prétend cependant fonder l’acte sur une intériorité préalable, elle postule « l’âme »; elle juge l’homme comme une « conscience », sans s’embarrasser de l’avoir premièrement décrit comme un objet.
Or cette psychologie-là, au nom de quoi on peut très bien aujourd’hui vous couper la tête, elle vient en droite ligne de notre littérature traditionnelle, qu’on appelle en style bourgeois, littérature du Document humain. C’est au nom du document humain que le vieux Dominici a été condamné. Justice et littérature sont entrées en alliance, ont échangé leurs vieilles techniques, dévoilant ainsi leur identité profonde, se compromettant impudemment l’une par l’autre. Derrière les juges, dans des fauteuils curules, les écrivains (Giono, Salacrou). Au pupitre de l’accusation, un magistrat? Non, un conteur extraordinaire », doué d’un « esprit incontestable » et d’une « verve éblouissante »(selon le satisfecit choquant accordé par le Monde à l’avocat général). La police elle-même fait ici ses gammes d’écriture. (Un commissaire divisionnaire: « Jamais je n’ai vu menteur plus comédien, joueur plus méfiant, conteur plus plaisant, finaud plus matois, septuagénaire plus gaillard, despote plus sûr de lui, calculateur plus retors, dissimulateur plus rusé... Gaston Dominici, c’est un étonnant Frégoli d’âmes humaines, et de pensées animales. Il n’a pas plusieurs visages, le faux patriarche de la Grand’Terre, il en a cent !) Les antithèses, les métaphores, les envolées, c’est toute la rhétorique classique qui accuse ici le vieux berger. La justice a pris le masque de la littérature réaliste, du conte rural, cependant que la littérature elle-même venait au prétoire chercher de nouveaux documents « humains », cueillir innocemment sur le visage de l’accusé et des suspects, le reflet d’une psychologie que pourtant, par voie de justice, elle avait été la première à lui imposer.
Seulement, en face de la littérature de réplétion (donnée toujours comme littérature du « réel » et de I’ humain), il y a une littérature du déchirement : le procès Dominici a été aussi cette littérature-là. II n’y a pas eu ici que des écrivains affamés de réel et des conteurs brillants dont la verve éblouissante emporte la tête d’un homme ; quel que soit le degré de culpabilité de l’accusé, il y a eu aussi le spectacle d’une terreur dont nous sommes tous menacés. celle d’être jugés par un pouvoir qui ne veut entendre que le langage qu’il nous prête. Nous sommes tous Dominici en puissance, non meurtriers, mais accusés privés de langage, ou pire, affublés, humiliés, condamnés sous celui de nos accusateurs. Voler son langage à un homme au nom même du langage, tous les meurtres légaux commencent par là.
- Roland Barthes, in Mythologies, Editions du seuil, Paris 1987, p. 50 et sq.
De même pour la psychologie » du vieux Dominici. Est-ce vraiment la sienne? On n’en sait rien. Mais on peut être sûr que c’est bien la psychologie du président d’assises ou de l’avocat général. Ces deux mentalités, celle du vieux rural alpin et celle du personnel justicier, ont-elles la même mécanique? Rien n’est moins sûr. C’est pourtant au nom d’une psychologie universelle» que le vieux Dominici a été condamné: descendue de l’empyrée charmant des romans bourgeois et de la psychologie essentialiste, la Littérature vient de condamner un homme à l’échafaud. Ecoutez l’avocat général : « Sir Jack Drummond, je vous l’ai dit, avait peur. Mais il sait que la meilleure façon de se défendre, c’est encore d’attaquer. II se précipite donc sur cet homme farouche et prend le vieil homme à la gorge. Il n’y a pas un mot d’échangé. Mais pour Gaston Dominici, le simple fait qu’on veuille lui faire toucher terre des épaules est impensable. Il n’a pas pu, physiquement, supporter cette force qui soudain s’opposait à lui. » C’est plausible comme le temple de Sésostris, comme la Littérature de M. Genevoix. Seulement, fonder l’archéologie ou le roman sur un « Pourquoi pas? », cela ne fait de mal à personne. Mais la Justice? Périodiquement, quelque procès, et pas forcément fictif comme celui de l’Etranger, vient vous rappeler qu’elle est toujours disposée à vous prêter un cerveau de rechange pour vous condamner sans remords, et que, cornélienne, elle vous peint tel que vous devriez être et non tel que vous êtes.
Ce transport de Justice dans le monde de l’accusé est possible grâce à un mythe intermédiaire, dont l’officialité fait toujours grand usage, que ce soit celle des cours d’assises ou celle des tribunes littéraires, et qui est la transparence et l’universalité du langage. Le président d’assises, qui lit le Figaro, n’éprouve visiblement aucun scrupule à dialoguer avec le vieux chevrier « illettré ». N’ont-ils pas en commun une même langue et la plus claire qui soit, le français? Merveilleuse assurance de l’éducation classique, où les bergers conversent sans gêne avec les juges! Mais ici encore, derrière la morale prestigieuse (et grotesque) des versions latines et des dissertations françaises, c’est la tête d’un homme qui est en jeu.
La disparité des langages, leur clôture impénétrable, ont pourtant été soulignées par quelques journalistes, et Giono en a donné de nombreux exemples dans ses comptes rendus d’audience. On y constate qu’il n’est pas besoin d’imaginer des barrières mystérieuses, des malentendus à la Kafka. Non, la syntaxe, le vocabulaire, la plupart des matériaux élémentaires, analytiques, du langage se cherchent aveuglément sans se joindre, mais nul n’en a scrupule: « Etes-vous allé au pont? — Allée? il n’y a pas d’allée, je le sais, j’y suis été. » Naturellement tout le monde feint de croire que c’est le langage officiel qui est de sens commun, celui de Dominici n’étant qu’une variété ethnologique, pittoresque par son indigence. Pourtant, ce langage présidentiel est tout aussi particulier, chargé de clichés irréels, langage de rédaction scolaire, non de psychologie concrète (à moins que la plupart des hommes ne soient obligés, hélas, d’avoir la psychologie du langage qu’on leur apprend). Ce sont tout simplement deux particularités qui s’affrontent. Mais l’une a les honneurs, la loi, la force pour soi.
Et ce langage « universel » vient relancer à point la psychologie des maîtres : elle lui permet de prendre toujours autrui pour un objet, de décrire et de condamner en même temps. C’est une psychologie adjective, elle ne sait que pourvoir ses victimes d’attributs, ignore tout de l’acte en dehors de la catégorie coupable où on le fait entrer de force. Ces catégories, œ sont celles de la comédie classique ou d’un traité de graphologie : vantard, coléreux, égoïste, rusé, paillard, dur, l’homme n’existe à ses yeux que par les « caractères » qui le désignent à la société comme objet d’une assimilation plus ou moins facile, comme sujet d’une soumission plus ou moins respectueuse. Utilitaire, mettant entre parenthèses tout état de conscience, cette psychologie prétend cependant fonder l’acte sur une intériorité préalable, elle postule « l’âme »; elle juge l’homme comme une « conscience », sans s’embarrasser de l’avoir premièrement décrit comme un objet.
Or cette psychologie-là, au nom de quoi on peut très bien aujourd’hui vous couper la tête, elle vient en droite ligne de notre littérature traditionnelle, qu’on appelle en style bourgeois, littérature du Document humain. C’est au nom du document humain que le vieux Dominici a été condamné. Justice et littérature sont entrées en alliance, ont échangé leurs vieilles techniques, dévoilant ainsi leur identité profonde, se compromettant impudemment l’une par l’autre. Derrière les juges, dans des fauteuils curules, les écrivains (Giono, Salacrou). Au pupitre de l’accusation, un magistrat? Non, un conteur extraordinaire », doué d’un « esprit incontestable » et d’une « verve éblouissante »(selon le satisfecit choquant accordé par le Monde à l’avocat général). La police elle-même fait ici ses gammes d’écriture. (Un commissaire divisionnaire: « Jamais je n’ai vu menteur plus comédien, joueur plus méfiant, conteur plus plaisant, finaud plus matois, septuagénaire plus gaillard, despote plus sûr de lui, calculateur plus retors, dissimulateur plus rusé... Gaston Dominici, c’est un étonnant Frégoli d’âmes humaines, et de pensées animales. Il n’a pas plusieurs visages, le faux patriarche de la Grand’Terre, il en a cent !) Les antithèses, les métaphores, les envolées, c’est toute la rhétorique classique qui accuse ici le vieux berger. La justice a pris le masque de la littérature réaliste, du conte rural, cependant que la littérature elle-même venait au prétoire chercher de nouveaux documents « humains », cueillir innocemment sur le visage de l’accusé et des suspects, le reflet d’une psychologie que pourtant, par voie de justice, elle avait été la première à lui imposer.
Seulement, en face de la littérature de réplétion (donnée toujours comme littérature du « réel » et de I’ humain), il y a une littérature du déchirement : le procès Dominici a été aussi cette littérature-là. II n’y a pas eu ici que des écrivains affamés de réel et des conteurs brillants dont la verve éblouissante emporte la tête d’un homme ; quel que soit le degré de culpabilité de l’accusé, il y a eu aussi le spectacle d’une terreur dont nous sommes tous menacés. celle d’être jugés par un pouvoir qui ne veut entendre que le langage qu’il nous prête. Nous sommes tous Dominici en puissance, non meurtriers, mais accusés privés de langage, ou pire, affublés, humiliés, condamnés sous celui de nos accusateurs. Voler son langage à un homme au nom même du langage, tous les meurtres légaux commencent par là.
- Roland Barthes, in Mythologies, Editions du seuil, Paris 1987, p. 50 et sq.
# posto por Rato da Costa @ 22.12.03
22 de Dezembro
José Régio, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, faleceu a 22 de Dezembro de 1969, em Vila do Conde, vítima de ataque cardíaco. | |
O NATAL DO DR. CROSBY (3)
(Do Diário dum expatriado)
( – de Dezembro)
Hoje, em plena tarde, Grieg. Sentado à mesa, a pôr em ordem as minhas notas, dei um pulo. Grieg! Se ao menos fosse a torch-singer! Devem talvez achar o Grieg adequado à estação festiva. A casa vibra e estremece, ecoa como uma caixa de ressonância à Marcha dos Anões, tocada com fôlego, como se estivéssemos num concerto popular do Hipódromo. Agora que eu começava a enfronhar-me no Espinosa! Assim é impossível a gente concentrar-se, trabalhar. Grieg. Não há nada que eu adore tanto como a música, mas nada pode perturbar tanto a minha atenção, paralisando-me para qualquer esforço mental. É outro ópio. Começo a andar inquieto com isto. Há três ou quatro dias que pouco faço. Música, música... Nem sempre galinha! E depois há as preferências de cada um, ou a disposição que é necessária para a gente se concentrar a ouvir Beethoven ou a «Maria Cachucha». A música, tão profundamente subjectiva nos seus efeitos, só se ouve bem colectivamente: uma coisa é ouvir uma sinfonia enterrado numa poltrona, ou empoleirado no galinheiro duma sala de concertos, e outra, muito diferente, é teimar em pensar, dormir ou trabalhar (ou mesmo ouvir música!) sentado em cima dum órgão gigantesco, com esta comichão nas solas dos sapatos e o corpo todo numa espécie de dança de S. Vito ou paralisia agitante. É-me impossível meditar esta passagem da Ética com a casa inteira a trepidar debaixo dos pés, tomada do divino fervor sensual de Schubert... Sim, porque agora é Schubert! Suspendo o trabalho e vou-me deitar de papo para o ar, até que isto passe. Tchaikovsky, Brahms, Vila-Lobos...
Resultado: não fiz mais nada. Fumei, dei voltas pela casa, saí danado para tomar um whisky abominável num bar da Nona. Uma tarde tão boa, tão disposta ao trabalho, vejam lá vocês que estragos pode fazer o génio (mau) da música. Ao sair cruzei-me com a vizinha do último andar: cumprimentos muito efusivos, ela subiu assobiando, em passo de dança, com uma ligeireza de ave. (Estou a ter umas imagens bem originais!) Bonita perna. Não a tenho ouvido tocar piano. Talvez ela não queira entrar em concorrência com a gente cá de baixo. O que mais me intriga é ainda não ter dado de cara com estes vizinhos. Só o dono da casa, de fugida, o tal que arrasta a perna, Crosley ou Crosby, não sei ao certo.
( – de Dezembro)
Enquanto eu grelhava o bife do jantar, a Betsy foi lá baixo reclamar cortesmente contra a inflação musical que nos está dando uma existência de pombos de coreto; e indagar se não seria possível tocarem um pouco mais de manso e a horas menos desumanas. (Nesta terra são sempre as mulheres que se encarregam destas missões espinhosas; os homens, rudes entre si, são atenciosos e galantes com elas, e isso, evitando os conflitos, ajuda a resolver muita coisa.) A Betsy volta com uma expressão de espanto divertido.
– E então?
Ela fecha a porta e sussurra:
– Surpresa!
Em resumo: o Crosley ou Crosby mandou-a logo entrar, com um sorriso de enguia, e explicou que não há tal «orquestra» nem «cantores» na casa: é tudo música de conserva! Bem me queria parecer. Mostrou-lhe as duas salas completamente forradas duma discoteca fabulosa, até dois terços de altura das paredes. «Música para cem anos!», diz ela. Têm no fundo da casa uns aparelhos de lâmpadas, complicados, pick-ups, e alto-falantes montados pela casa toda. Uma destas instalações capazes de encher de sons uma catedral ou um estádio. Parece um estúdio de rádio. O Crosby (afinal é Crosby, como o Bing) é professor dum liceu da vizinhança, e vive na companhia dum rapaz mais novo do que ele, loiro e rosado, o Gaylord, verdadeiro playboy saído como ele da madre Princeton. Não há mais ninguém na casa, a não ser os dois gatos siameses que nos espreitam da marquise.
– Vê-se logo que são um casal de pombinhos! – diz a Betsy com uma careta e metendo a faca no bife. – O Gaylord parece amável; mas o Crosby é azedo e escarninho. Quando fala torce a boca, não sei se é tique se desdém. Devem-se ter rido à nossa custa.
– Fala mais baixo, filha. Eles podem-te ouvir.
– Que lhe importa a você? Não estamos na terra da liberdade? O Crosby irritou-se logo, declarou que está na sua casa, é amador de boa música, e quem não gostar que se mude. Os que cá moravam antes de nós foram-se embora por causa disso. O outro ainda quis deitar água na fervura, mas nada feito. Ouviste-o bater com a porta?
– Estamos fritos. Por que diabo é que o janitor não nos preveniu?
Fico mal-humorado, amargado, parece que nem o bife me assenta. Desato logo a pensar em represálias: bater com os pés, entornar águas, fazer barulho às horas a que eles dormem, se dormem... O curioso é que, enquanto julguei que eram músicos a valer, isto foi-me tolerável e até gostei; mas agora, quando penso que em vez duma torch-singer era um disco, sinto-me vexado, logrado, como se me tivessem impingido o conto do vigário. Onde a gente se veio meter! No antro dum melómano, e além disso maricas. – Furioso, agarro o Pirilau (é o meu gato amarelo) pelo cachaço e atiro com ele para o quintal, a miar de desespero.
Por sinal, a noite pôs-se de chuva, e ele só reapareceu depois das onze: acompanhado de outro gato amarelo, exactamente igual, ambos com o pêlo empastado de água. Correram juntos para o prato da comida. De começo não fui capaz de os distinguir: foi preciso a Betsy mostrar-me que o Pirilau tem os olhos verdes, e o outro tem-nos dourados. Deve haver uma solidariedade misteriosa entre os tarecos amarelos, talvez repudiados como «inferiores» pela sociedade dos gatos de boa família!
( – de Dezembro)
Parece que a reclamação, feita nos termos da melhor vizinhança, teve resultado contraproducente: agora tocam a todas as horas, sem programa definido, e com mais fuoco do que nunca. Vê-se perfeitamente que estão no propósito de nos irritar. E ainda a Betsy não quer que eu lhe vá para a cara! Este homem estranho, lívido, com a perna arrastada, ainda nos vai dar que fazer. Sinto que põe em perigo os meus planos de trabalho. Detesto viver em guerra surda seja com quem for, prefiro o conflito declarado. Habitualmente, ou me submeto ou dou pancada. «Manias», diz a Betsy. «É por ser tão tímido, um atado, que você vai logo às do cabo. Aguenta tudo, rói-se lá por dentro, deixa-se humilhar, e quando não pode mais consigo mesmo, então quer partir caras. Faça como eu, leve isto a rir. Deixe-se de cumprimentos, para que é que você quer viver de bem com os vizinhos? Cada um na sua casa. Se eles teimarem, vamos para a Justiça.»
Mas eu é que não quero nada com a Justiça, não quero complicações. Quero a minha paz. E quem tem que meditar o Espinosa, e aturar esta sinfonia a todas as horas sou eu. Alta noite, quando eles fazem música e eu dou voltas na cama sem poder conciliar o sono, você dorme como um anjo que é! – e beijo-a. Também é o que nos vale: unidos.
A noite passada, música até depois das três. Conversa em altos brados, tinir de copos, cheiro de café fervido, fumo de cigarros a sair por todas as fendas e buracos, e grande iluminação a jorrar para o quintal. Até houve berros da vizinhança lá daquele lado, arremessaram garrafas vazias cá para o quintal, como no Village. Ando a dormir mal, o Natal à porta, e o meu trabalho quase parado. Desconfio que já criei um complexo (tudo agora por cá são «complexos»): quando ouço os passos do professor no mosaico do hall, um tacão irritado, o outro a arrastar, sinto ganas de ir lá fora insultá-lo, empalideço, tenho palpitações, vivo enfim na expectativa da agressão. Mas que remédio senão aguentar e calar. Um estrangeiro... O sujeito deve ser bom psicólogo: sabe que cheguei há pouco tempo e que me exprimo com dificuldade, e tira partido, abusa, procura intimidar-me. É um chauvinista. Já por cá tenho visto outros...
É um homem estranho e furtivo, cuja presença basta para criar um constrangimento. Tenho a impressão de que o Gaylord, o amigo, quando entra em casa pelo fim da tarde, abaixa o registo do som. Depois ouço discussões abafadas, brados irritados – é o Crosby –, um bater exasperado de portas, passos rápidos na escada. Corro à janela e vejo-o sair: atira-me um olhar de ódio. Coxeia um pouco, arrasta a perna, bate os tacões sem borracha. Não tenho dúvida de que as represálias vêm dele.
O seminário continua a guardar a sua impassibilidade. Em tudo isto uma subtil contradição... Há dias (passou-me registá-lo) houve grande cerimónia, talvez encerramento de aulas: muitos automóveis na rua, convidados em trajos de gala, música sacra e cantoria, paramentos solenes, procissão no relvado com pálio e cruzes alçadas, até parecia uma festa lá na minha aldeia. Veio a chuva afugentá-los para dentro do edifício.
José Rodrigues Miguéis
Venham Mais Cinco - Zeca Afonso
Venham mais cinco, duma assentada que eu pago jáDo branco ou tinto, se o velho estica eu fico por cá
Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar
De espada à cinta, já crê que é rei d’aquém e além-mar
Não me obriguem a vir para a rua
Gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa
E zarpar
Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, 2X
Tiiiiiiiiiiiiii paraburibaie ...
Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, 2X
A gente ajuda, havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira, deitar abaixo
O que eu levantei
A bucha é dura, mais dura é a razão
Que a sustem só nesta rusga
Não há lugar prós filhos da mãe
Não me obriguem a vir para a rua
Gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa
E zarpar
Bem me diziam, bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra, quem trepa
No coqueiro é o rei
A bucha é dura, mais dura é a razão
Que a sustem só nesta rusga
Não há lugar prós filhos da mãe
Não me obriguem a vir para a rua
Gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa
E zarpar
Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar
De espada à cinta, já crê que é rei d’aquém e além-mar
Gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa
E zarpar
Tiiiiiiiiiiiiii paraburibaie ...
Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, 2X
Eu bem sei
Mas há quem queira, deitar abaixo
O que eu levantei
Que a sustem só nesta rusga
Não há lugar prós filhos da mãe
Gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa
E zarpar
Como era a lei
Na minha terra, quem trepa
No coqueiro é o rei
Que a sustem só nesta rusga
Não há lugar prós filhos da mãe
Gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa
E zarpar
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
UM NATAL EM BARROSO
Antes da cerimónia de apresentação do livro Prolegómenos II, de Bento da Cruz, foi exibido o filme “Um Natal em Barroso”. Realizado em finais de 1974, encomendado pela RTP como uma produção especial para a noite de Natal desse ano, só foi divulgado no dia de reis de 1975 devido à neve que atrasou as filmagens. O filme teve como cenários lugares como Negrões, Morgade, S. Vicente da Chã, Aldeia Nova e Montalegre (Corujeira).
Com argumento de António Chaves, o filme, que emocionou a plateia, foi realizado por João Roque tendo como artista convidada Fernanda Alves e com participações, entre outros, do saudoso Dr. António Loureiro.
Finda a projecção da película, seguiu-se ainda uma breve apresentação do escritor e médico Bento da Cruz que incluiu a narração de alguns textos inseridos nos Prolegómenos II.
Finda a projecção da película, seguiu-se ainda uma breve apresentação do escritor e médico Bento da Cruz que incluiu a narração de alguns textos inseridos nos Prolegómenos II.
*
Em 1940 ingressou na Escola Claustral de Singeverga, dirigida por monges beneditinos.
Em 1946, após o noviciado, abandonou, de motu proprio, a vida religiosa.
Em 1948 matriculou-se em medicina na Universidade de Coimbra, onde se licenciou.
Em 1955 abriu consultório de clínica geral em Souselas.
De 1956 a 1970 trabalhou em Barroso, acumulando a clínica geral com a estomatologia.
Em 1971 fixou-se no Porto.
Logo após o 25 de Abril, fundou o quinzenário regionalista Correio do Planalto que ainda hoje dirige.
*
Para além de colaboração dispersa por revistas e jornais, é autor de basta obra literária, com destaque para:
Planalto do Gostofrio,
Filhas de Loth,
O Lobo Guerrilheiro,
Cantos Gostofrio e Lamalonga,
Histórias da Vermelhinha,
O Retábulo das Viagens Loucas,
Histórias de Lana-Caprina,
A Loba,
Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes,
A Lenda de Hiran e Belkiss
Prolegómenos (Crónicas de Barroso) – 2 volumes, e
A Fárria.
Os Cordoeiros: Domingo, Dezembro 21 [2003]
Déjeuner du matin
Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Il a mis le sucre
Dans le café au lait
Avec la petite cuiller
Il a tourné
Il a bu le café au lait
Et il a reposé la tasse
Sans me parler
Il a allumé
Une cigarette
Il a fait des ronds
Avec la fumée
Il a mis les cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder
Il s'est levé
Il a mis
Son chapeau sur sa tête
Il a mis
Son manteau de pluie
Parce qu'il pleuvait
Et il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder
Et moi j'ai pris
Ma tête dans ma main
Et j'ai pleuré.
Extraído de "Paroles", Jacques Prévert
# posto por Rato da Costa @ 21.12.03
Respondendo...
Os mitos parecem ser diversos, mas os interesses que os mitos servem são, sempre, os mesmos. A forma de reagir contra os mitos é diversa, e depende não só das pessoas, das suas inteligências, da sua cultura, mas também, da forma da sua organização.
Concordo com o comentário 2, deixemo-nos de tratas. Sejamos claros a agir e rápidos a actuar.
Não esperemos pelos ovnis para resolverem os nossos problemas.(Barthes trata disso).
Fechar os olhos aos problemas é clonarmo-nos em macacos. e fecharmo-nos até que a morte nos alivie.
Falo para pessoas vivas, cuidado com os médicos que frequenta.
As chefias não são tudo na vida.
Jacobo Vanzetti
# posto por Rato da Costa @ 21.12.03
Um riso divino na coisa escura
Narra uma velha história que, durante aceso debate a propósito de um certo problema levantado pela interpretação do Talmude e sobre o qual nenhum consenso havia sido conseguido, o rabino Eliezer, cujo pensamento jurídico rigoroso e elegante não era seguido-pela maioria dos presentes, afirmou que, se o seu raciocínio fosse correcto, um ulmeiro situado fora da sinagoga se deslocaria. Quando a árvore se moveu de facto, os restantes rabinos não pareceram impressionados. Eliezer vaticinou então que, caso estivesse com a razão, o curso de um rio vizinho inverteria a sua direcção, o que efectivamente aconteceu; acrescentou ainda que os muros da escola rabínica se desmoronariam, o que de novo sucedeu. Estas maravilhas não convenceram, no entanto, os rabinos. Por fim, proclamou solenemente que o próprio Céu faria a prova da sua razão. Foi então que uma voz celeste confirmou a opinião de Eliezer. Todavia, até mesmo desta voz os rabinos discordaram, dizendo: "Não podemos dar atenção à voz divina porque Tu mesmo escreveste na Torah, no Monte Sinai, que nos devemos inclinar perante a opinião da maioria". E Deus riu então, repetindo: "Os meus filhos venceram-me, os meus filhos venceram-me" (Talmude da Babilónia, Baba Mezia, 59b).[1]
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[1] cf. capitulo I da obra de Gunther Tewubner - O Direito como sistema autopoiético, "E Deus Riu..." Indeterminação, Auto-Referência e Paradoxo no Direito
P. B.
# posto por Rato da Costa @ 21.12.03Direito de resposta judicial
O Conselheiro Pires Salpico respondeu, na última edição do Público, taco a taco, ao Bastonário da Ordem dos Advogados. Que me lembre, é a primeira vez que um magistrado usa do direito de defesa em relação a críticas públicas sobre decisão judicial por si proferida, o que poderá causar engulhos a certas consciências mais recatadas.
Porque não? Não será altura de usar as mesmas armas (igualdade de armas) e acabar com o monopólio de que certas entidades gozam na utilização da comunicação social?
# posto por Rato da Costa @ 21.12.03
O NATAL DO DR. CROSBY (2)
(Do Diário dum expatriado)
Esta manhã, assim que abri os olhos, ouvi um piano que enchia a casa de sonoridade: Chopin, uma mazurca, e tocada por mão de mestre. Foi uma coisa que sempre me dispôs bem para todo o dia, acordar a ouvir música. Eu, que passei a infância e a mocidade entre harmonias, tenho vivido aqui tão sedento delas (se nem rádio pudemos ainda comprar!), que, ao ouvir aqueles acordes vigorosos, senti os olhos rasos de água. Assaltou-me logo o desejo de dançar, de cantar, de fazer versos. A Betsy, madrugadora, veio da cozinha a sorrir, com um ovo na mão (já cheirava a café):
– Bonito, hã? Mas um bocado «forte».
– Será cá do prédio?
– Deve ser a pequena do quarto andar. É pianista e faz ballet.
Vejo luzir o sol ainda fresco nas traseiras dos prédios para lá do quintal. A Betsy faz correr a grande porta de mogno que separa as duas salas, e levanta os estores das janelas da frente: o sol entra num jorro vivo e alegre, que atravessa a casa de lado a lado. Avisto a massa dum vermelho-escuro do seminário. Uma grande paz enche a rua, e esta amplidão tépida e vazia alegra-me o coração exilado. Quando penso no quartinho escuro do Village, onde nos inaugurámos!... Tudo isto é obra dela. Querida! Levanto-me e beijo-a com amor e gratidão.
A meio da tarde vejo entrar cá para baixo, pela porta gradeada sob a escada, um sujeito magro e lívido, que arrasta um pouco a perna. Olha-me com estranheza, nem corresponde ao meu leve cumprimento de cabeça. (Idiota, que tenho eu que estar a cumprimentar!) Quem será o bicho? – Dia de actividade intensa, pôr ordem nas minhas coisas, arrumar papéis. À uma saio para almoçar ao balcão dum coffee-shop, e regresso ao trabalho. Pela tarde vou esperar a Betsy. Voltamos para dar à casa os pequenos retoques necessários à nossa mais do que sóbria felicidade.
Seis, seis e meia, torno a ouvir música e apuro o ouvido: desta vez é cá em baixo. Uma voz quente, grave e sugestiva, lamento de mulher sem lágrimas, acompanhada ao piano. «Uma torch-singer!», diz a Betsy arregalando os olhos e soltando um assobio. E de truz que ela é, com o seu queixume e desafio um nada vicioso, de macha com cabelo na venta ou faca na liga. É a canção dos bas-fonds cá da terra. Nada mau, gozamos a ouvi-la. A casa cheia duma branda e surda vibração. Ainda não sabemos quem mora cá em baixo. Volta-me a imagem antipática do homem pálido: fiquei despeitado, mal comigo por ter cumprimentado sem conhecer.
À noite aparece por aqui o janitor, de óculos e poucas palavras, alemão, ares de juiz de paz. Indagamos a respeito dos vizinhos: diz vagamente que são professores, artistas... Imaginamos logo que são gente que ganha a vida a tocar e a cantar nos cabarés. Aquilo estavam a ensaiar-se para o floor-show desta noite. Que sorte, hã! Vamos ter de graça, ao vivo, um género que ainda conserva para mim a irresistível atracção do novo, embora um quase-nada louche. Nova Iorque excita-me com a sua trágica e convulsiva agitação. Oxalá isto dure... Vamos cedo para a cama. A Betsy, com bom senso: «Não se entusiasme de mais, que esta gente dos night-clubs às vezes tem uns hábitos um bocado...» E não termina a frase.
( – de Dezembro)
Às duas da manhã acordo sobressaltado: Que é isto, ouço uma orquestra? Sento-me na cama a escutar, de boca aberta. A Betsy dorme; esta pequena tem um sono capaz de resistir a um terremoto, é da consciência tranquila. O som vem de baixo, firme, grave, abafado, forte o bastante para me ter despertado. A casa vibra surdamente. Diacho, parece-me um bocado cedo (ou demasiado tarde) para este género de ensaios. Terão voltado do...? Mas espera, isto é Wagner! Diabo, artistas de cabaré e tocam Wagner? Hum, talvez para variar... Artistas com outras aspirações. Mas senhor, quantos são precisos, para produzir assim o efeito duma orquestra? A casa é vasta, cabem nela vinte ou mais pessoas à vontade. Uma orquestra pode tocar, mas é positivo que não pode morar num apartamento deste tamanho! Não sei que pensar. O concerto dura até às três e tal da madrugada, depois a música extingue-se e fico a ouvir um murmúrio de vozes: estão a discutir talvez a execução. Adormeço sem conseguir saber se saiu alguém da casa. Lá que eles tocam na perfeição, disso não há dúvida.
( – de Dezembro)
Estamos a dois passos do Natal, O céu toldou-se, foi-se embora o sol que gozámos quase durante duas semanas, mas em compensação o frio abateu. Veio a chuva, e os dias, mais curtos, estão fuscos. No lento escurecer destas tardes grisalhas, vejo os transeuntes apressados que voltam das docas ou do emprego, a caminho das sopas, sombras anónimas curvadas debaixo do vento e do aguaceiro. Uma paz irreal parece escorrer do céu, misto de azul-pálido e rosa-diluído, com a chuva. O seminário cresce, avulta no crepúsculo; e de súbito os vitrais da igreja acendem-se lá em baixo, luz frouxa, de caleidoscópio, com predomínios de ouro. Dão quase a ilusão... No silêncio atapetado de verdura e humidade, por entre o sussurro distante e ameaçador da metrópole, chega até mim a ressonância grave dos cânticos e a voz abafada do órgão. Lá adiante, na Nona Avenida, acendem-se as insígnias a gás néon das tabernas e bares, que enchem a névoa dum fulgor de lareiras acesas. Mais longe são os cinemas que espalham no ar uma trepidação multicor. E só agora eu compreendo a atracção de todos estes ópios sobre a gente que passa nas ruas molhadas e hostis, sob o peso dum dia de fadigas e na perspectiva talvez dum serão solitário e angustioso. Os homens procuram os seus narcóticos.
Altas horas da noite, findo o meu trabalho, ergo-me da mesa e vou até à janela olhar a grande massa escura do seminário: telhados, torres, coruchéus, recortam-se na névoa ensanguentada de clarões. A paz de Deus no tumulto incessante. Vejo uma luz acender-se numa distante mansarda Tudor: alguém que estuda ou reza. Os grandes olmeiros da cerca recortam-se até aos raminhos mais altos, todos nus, com a precisão duma miniatura japonesa na laca do céu de incêndio. Os troncos enormes escorrem água, reluzem sinistramente à passagem dos faróis dum auto. E a cidade exala de repente uma solidão que me sufoca. Sinto o desejo de fugir antes que isto se apodere de mim... só poderia libertar-me se escrevesse um poema.
José Rodrigues Miguéis
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