domingo, 26 de junho de 2011

REMÉDIOS PARA A GRIPE

Há por aí um ditado que diz: quem anda à chuva molha-se. Eu andei à chuva, gripei-me. Uma gripe de má casta, que ia atirando comigo à sepultura. Que era uma virose. Sei lá o que era. O que sei é que tinha as mucosas congestionadas, os brônquios encharcados, as orelhas transparentes, o nariz vermelhusco, à força de tanto o espremer. Uma tosse que mais parecia esgana de cão, salvo seja. Noites inteiras sem dormir. Um mal-estar que nem sei que mais lhes diga.
Familiares e amigos começaram a visitar-me. Cada qual com seu palpite. Toma isto, toma aquilo. Principalmente chás. Chá de cidreira, chá de laranja, chá de limão, chá de figos, chá de cebola, chá de salgueiro, chá de carqueja... chá de arestas, chá de moca... Fiquei com o fígado numa lástima. Nem quero que me lembre.
Mas lembrei-me. De quando era garoto e toda a gente se curava com um suadoiro. À mais pequena, ou grande, camoeca: gripe, constipação, anginas, coqueluche, trasorelho, sarampo, varicela, antraz, cefaleia: a receita era sempre a mesma: suadoiro.
Metia-se o desgraçado na cama e vá de deitar-lhe para riba mantelas, cobertores, colchas, tudo de lã de ovelha, tecido no tear caseiro. Apenas um respiráculo para o nariz. O resto, tudo atabafado, desde a ponta dos pés ao cocuruto da cabeça.
Breve o enfermo destilava por todos os poros. Ali, durante horas, até deitar os maus humores fora. Depois era só uma fricção com uma toalha de estopa ou linho e estava são como um pero.
Ainda pedi à patroa que me fizesse um suadoiro. Ela riu-se. Que tivesse juízo.
Juízo tinha eu. O que não tinha era saúde.
Passei horas em frente ao espelho, à espera de que o sangue me voltasse às orelhas. E as orelhas cada vez mais brancas. «Desta sempre vou...» E comecei a ter pena. Sabem de quê? De já não ouvir cantar o cuco...
Tenho por hábito aguentar o Inverno na esperança de ouvir cantar o cuco. Quando ele começa a tocar a flauta, a natureza desperta: árvores, flores, pássaros, bichos, gentes.
O cuco é o arauto do sol, da Primavera, da Páscoa, da ressurreição, da alegria. Quando o ouço cantar pela primeira vez, algo dentro de mim refloresce.
No Porto, não se ouve cantar o cuco. Por isso isto é uma terra triste.
Vou fugir para Barroso.
Lá o cuco flauteia de manhã à noite.
Muito gosto eu de o ouvir.

Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS – Crónicas de Barroso (p. 119 e s.)

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