terça-feira, 15 de novembro de 2011

GRAVIEL? Ó GRAVIEL?

Lá nos meus princípios, era a Feira dos Santos. Com ela aprendi que o mundo era grande e tinha coisas maravilhosas. Dela me ficou o gosto pelas feiras em Montalegre. Não falho uma. Assim aconteceu com a «Feira do Fumeiro e do Presunto», largamente propagada por todos os meios escritos e audiovisuais. Não pude ir no primeiro dia, fui no segundo.
Mal transpus as fronteiras de Barroso, pela Venda Nova, comecei a notar um movimento desusado na estrada. E ao entrar em Montalegre, caí numa bicha de dois quilómetros.
Ainda aguentei o pára-arranca um bom quarto de hora. Cansado daquilo, deixei o carro e fui a pé.
Estava sol, mas uma grande e espessa nuvem branca sobre o Larouco e um vento norte capaz de arrepiar o pêlo a um lobo, anunciavam neve próxima. Os forasteiros vindos de terras mais quentes, encolhiam as orelhas e soltavam a língua em pselónes dos gordos:
– F... que frio!
Uma velhota de pronúncia minhota, embiocada num xaile de merino preto e encolhida de encontro a uma parede, gritava:
Graviel? Ó Graviel?
Lembrava uma ovelha obrijada a berrar pelo dono.
A guarda republicana esforçava-se por pôr alguma ordem no trânsito. Mas os automobilistas não largavam o volante. Pareciam muito desapontados por não os deixarem entrar de carro no pavilhão.
Acossado pelo chiasco, estuguei o passo em direcção à entrada. Caí logo nos braços dos amigos.
– Fulano?
– Vem a caminho.
Vinha tudo a caminho. Festa é festa...
Um arlequim numas andas, distribuia balões coloridos às crianças. Outro, num dominó de porco bísaro, fazia negaças aos adultos.
Toda a minha gente dava ao dente.
Um dos produtos mais procurados e consumidos de imediato, era a bica de carne:
– Tira um bocado. Ainda vem quente.
Mas havia ali de tudo.
– Olha castanhas piladas!
Afinal eram bilhós. Meia dúzia deles num saquito de plástico, dois euros.
– Tão caros?!
– Ah! Só o trabalho que me deram a descascar?
– Tem razão. Tome Já.
Calculei que uns noventa por cento dos visitantes, entravam e saíam de mãos vazias. Transmiti esse reparo ao Dr. Domingos Moura, Presidente da Comissão de Controlo.
– Está enganado. Entraram 53 toneladas de produtos e receio bem que não cheguem para as encomendas.
– Ponho as minhas dúvidas.
– Passe por cá amanhã e fica sem elas.
– Cá estarei.
Uma senhora de Gralhós, trajada à antiga, acenou-me detrás dum balcão ricamente decorado com fumeiro e presuntos.
– Que tal vai o negócio? – perguntei-lhe.
– Mais fraco do que noutros anos. O euro anda muito vasqueiro...
– A quem o diz.
Como o euro anda vasqueiro, gastei apenas uma nota de cinquenta. E como não estou habituado a regressar da feira sem um «último copo para o caminho», dirigi-me ao pavilhão das tasquinhas, anexo ao dos expositores.
A meio dum amplo terreiro adrede atapetado com areão, uma grande fogueira de cepos de carvalho em bruto. Do outro lado, uma desgarrada de cantadores ao desafio ao som de concertinas.
Ia a parar para os ouvir, quando um forte odor a chouriça assada me bateu em cheio na venta.
Avancei para as tasquinhas.
Em todas elas uma barafunda que ninguém se entendia.
Depois de muito porfiar, lá consegui que me servissem.
Por quatro bocadilhos de chouriça, dois de pão e um copo de vinho, cinco euros...
Já me lembro de fazer a festa por cinco tostões.
Mais tarde por cinco escudos.
Mas nós agora estamos na Europa...
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS – Crónicas de Barroso (p. 192 e s.)

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