quarta-feira, 21 de maio de 2014

Skaters (2011)



Descrição: Óleo sobre placa
Localização: colecção privada 
Autor: Manuel Alcorlo

sábado, 17 de maio de 2014

um homem sorri a morte -com meia cara


JOSÉ RODRIGUES MIGUEIS

um homem
sorri a morte

-com meia cara



 Editorial Estampa





IN MEMORIAM

DO

DOUTOR FRANCISCO PULIDO VALENTE,

mestre de médico e de homem,

E DO

DOUTOR Luís NAVARRO SOEIRO,

grande coração ao serviço das almas

J. R. M.






Ao traçar estas páginas de memória duma crise, entre tantas que talvez um dia reúna em maior tomo, punha-se-me este problema: até que ponto pode um escritor falar das suas experiências pessoais, sem incorrer na pecha de subjectivismo e sem ser indiscreto a respeito de si próprio? Será possível, nesta época e num meio como o nosso, avesso por tradição e preconceito à literatura de confissões, que tem enriquecido e ajudado a esclarecer tantas outras culturas, usar da franqueza de um Rousseau, de um Stendhal, de uma Bashkírtseva, para não dizer já de um De Quincey ou Baudelaire? Flaubert deixou-nos documentada a crise inicial de epilepsia, que tanto faz pensar na do Jean-Jacques das Confessions; de James Joyce esforçam-se os biógrafos por descrever-nos a cegueira e a úlcera gástrica; e Uriel da Costa, e Scott Fitzgerald? Indo ao extremo da indiscrição, quanto se não tem especulado sobre a «necrofilia» de Camilo ou a castidade de Júlio Dinis! Já houve quem «explicasse» a angústia de Antero pelo aperto do piloro ou do cárdia, não sei bem, e o seu suicídio — ó céus! — pelo aumento da pressão atmosférica. O sofrimento, como parte tecidual da existência, é um enigma que empolga os homens.
Mas, independentemente da desproporção dos casos, a questão peca pela base, pois não é do autor que aqui se trata, essencialmente, mas sim do que, na sua experiência pessoal, possa ser comum, comunicável, útil até, como exemplo e lição, aos demais homens. Estas não são confissões de egotismo, nem de actos ou pensamentos secretos, nem sondagens do «eu odioso», mas um caso humano narrado em primeira mão pela sua mais próxima testemunha, com a objectividade de um romance, e pretexto para agitar certos problemas tão gerais como a inquietação da doença e da morte, ou a atitude do indivíduo perante o sofrimento físico e o destino pessoal.
Sim, foi sobretudo para os hipocondríacos — os aterrados da doença, os obcecados do fim — que eu escrevi estas páginas de jornal; depois, para os que queiram saber como se reage num leito de hospital, quando a morte ronda; e talvez também para aqueles médicos a quem interesse saber como os vêem os seus doentes.
Procurei pintar um ambiente real: o dos hospitais numa grande metrópole moderna, onde a dor e a brutalidade, a doçura e o humor, e em particular a devoção dos médicos e das enfermeiras põem traços de tragédia e de epopeia, diante das quais o tema pessoal se apaga e some.
Que escritor, dispondo deste material de experiência vivida, recusaria tratá-lo com objectividade, pintando o cenário e os actores dum drama que diariamente se desenrola a nosso lado, mas ignorado ou esquecido, ou pudicamente velado pelos preconceitos? Não se escrevem porventura memórias de guerra, de masmorras e campos de concentração? E não será também saudável mostrar em que lamas o homem se arrasta ou mergulha por vezes, para delas se erguer e libertar, purificado?
O que importa ao escritor, subjectivador do objectivo, intérprete das reacções do indivíduo em face das calamidades que de todos os lados nos ameaçam, é recriar para os leitores o quadro das experiências de que foi o centro, dando-lhes a ilusão, porventura instrutiva, de serem eles os actores do drama.
Se, ao traçar alguns destes episódios, roço aqui além pela ironia, é sempre com profundo respeito e comovida gratidão que me refiro aos autênticos apóstolos da medicina que tenho conhecido. Os erros são de todos nós, humanos, e não seria de esperar que deles estivessem isentos os homens da bata branca. Nem de longe tentei reincidir na sátira de que há milénios eles têm sido alvo. Pode-se dizer dos médicos o mesmo que das mulheres e dos judeus: crivados, eles e elas, de epigramas e ataques, a humanidade não saberia nem poderia viver sem a sua presença.

J.R.M.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Coimbra, 15 de Maio de 1979.


UM POEMA DE AMOR

É um poema de amor.
Começa num sorriso promissor
E acaba num soluço
De saudade.
Entre essas duas margens,
Um rio de silêncio.
Um rio largo, onde se espelha, baça,
A paisagem severa de uma vida,
A que faltou a graça
Dessa remota hora repetida.

MIGUEL TORGADIÁRIO XIII

quarta-feira, 7 de maio de 2014

SE TE NÃO PODES DESFAZER DOS INIMIGOS, JUNTA-TE A ELES


Se os dias, como os substantivos, se classificassem pelo género, incluiria o de hoje entre os neutros. De manhã choveu e de tarde fez sol. Embora não seja homem de grandes afazeres, só pela noitinha pude sair de casa. O Outono está quase no fim, as árvores quase nuas e os caminhos atapetados de folhas. Gosto de as sentir debaixo dos pés. Criam-me a ilusão de passear por sobre as alfombras das salas, corredores e jardins privativos do sultanesco palácio que um dia o génio da lâmpada de Aladino me prometeu e até hoje ainda não cumpriu.
A quinhentos metros da aldeia, caí na solidão absoluta. Apenas um leve pipilar de aves que dir-se-ia vir ou fazer parte da terra. O poente enrubescia e a lua navegava alta por entre nuvens cor de chocolate com pinceladas laranja. Um fim de tarde de pastores enamorados, cavaleiros andantes, menestréis a dedilhar a tiorba e princesas elanguescidas ao balcão.
Vinha já de regresso, a pensar na morte da bezerra ou na minha, já me não lembro, surge-me pelas costas o Anacleto.
— Que andas por aqui a fazer a esta hora? — perguntou.
— Nada que me envergonhe. E tu?
— Venho ali do lameiro. E sabes o que fui lá fazer?
— Tornar a água.
— Mandinga aos porcos-bravos.
— Algum laço?
— Roupa velha.
— Restos de comida? É isso?
— Não.
— Homem explica-te por uma vez.
— Os tipos levam-me o lameiro virado. Vêm ao vezo dos niscros e da bolota e viram tudo. Se eu lá esconder umas peças de roupa usada, os gajos cheira-lhes a homem e fogem.
— Ora aí está um truque que eu desconhecia.
— Ficas a saber.
— Por falar em porcos. Já mataste?
— Eu agora já não mato. Os filhos estão todos para a França. A mulher não come carne de porco. Eu também não.
— Não gostas?
— Gostar, gosto. Mas o médico proibiu-ma. E olha que bem saudades tenho das matanças de antigamente. Aquilo é que eram festas! Ainda me lembro da primeira vez que matei. Como sabes, eu era um criado de servir. Não tinha onde cair morto, como se costuma dizer. Mas era apaixonadiço, namorei a minha Rosa e não tive outro remédio se não casar com ela. Fomos viver para uma corte cedida de esmola pela Viúva, boa mulher, Deus a tenha em bom lugar, que bem o mereceu. O espaço não era muito, mas a minha Rosa tanto insistiu que eu improvisei lá um cortelho para ela criar um reco. À força de leitugas e labrestos apanhados por esses lameiros de pasto e terras de centeio, castanhas, bolotas e batatas do rebusco, erva dessas bordas e o suprimento dumas malgas de grão e outras de farelo mendigadas pela minha Rosa por casa das lavradeiras a quem ajudava nas lides de casa, pudemos chegar ao São Martinho em condições de matar o nosso porquinho. Convidámos os meus sogros e quatro amigos para a matança. Fizemos tudo o que havia a fazer da parte da manhã e, ao meio-dia, estávamos à mesa. Julguei que os tipos, barba untada, barriga cheia, se fossem embora. Mas não. Só os meus sogros é que se retiraram. Os outros quatro puseram-se a jogar as cartas. Veio a merenda, veio a ceia, e os tipos não largavam. Acabaram-se as filhós de sangue, o sarrabulho, a coiracha, o fígado, os rins, o gorgomilo, tudo o que era do dia, e os tipos sempre a reclamar: «Então não há mais nada que se coma?» Comecei a desmanchar no porco. Lá para a meia-noite, rosnei ao ouvido da minha Rosa: «Vamo-nos deitar a ver se os alarves ganham vergonha e se vão embora.» E depois, em voz alta: «Bem, rapazes, desculpai lá, mas eu e a Rosa vamo-nos deitar.» «Ide. Ide, que nós cá nos arranjamos» — respondeu o que embaralhava. A minha Rosa, coitada, morta de fadiga, adormeceu logo. Mas eu não havia maneira de pregar olho. De golpe, saltei da cama, fui para junto deles e toca a dar ao dente... Não carai... E com esta me vou. Até logo.


Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 122 e ss.)

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O PÉ DESCALÇO


Há dias, estando eu a arrumar uns livros na estante, deparei com um datado de 1956 e o seguinte título: «O PÉ DESCALÇO — Uma Vergonha Nacional que Urge Extirpar». Fiz com ele o que as máquinas de contar dinheiro fazem com as notas de cem euros. Premi-o de encontro ao dedo e deixei deslizar as páginas. O suficiente para ficar a saber que, à data do meu nascimento, dois terços dos portugueses andavam descalços. E que, em 1928, a «Liga Portuguesa de Profilaxia Social», com sede no Porto, lançou uma campanha com o título supracitado.
Os argumentos eram de peso. Que «só em 1927 foram socorridas na Cruz Vermelha da Cidade Invicta, 600 pessoas com ferimentos nos pés», grande número das quais veio a morrer de tétano.
Que o vergonhoso hábito de andar descalço estava tão arreigado, que se viam raparigas com boas roupas, cordões de oiro ao pescoço e arrecadas nas orelhas e os pés nus. O mesmo nos rapazes. Bons fatos, gravata, correntes com grilhão no colete e pata ao léu.
Que o grande número de pessoas descalças por essas ruas e praças causava espanto e comentários desagradáveis nos estrangeiros que nos visitavam. Que só em Portugal e na África se viam coisas destas. Guerra ao pé descalço.
Lentamente, como quem rola um penedo encosta arriba, a «Liga» foi levando a cruz ao Calvário. Primeiro o governador civil do Porto, depois o de Lisboa, a seguir o de Coimbra, proibiram, sob pena de multa e cadeia, o pé descalço na rua. Os tribunais começaram a ficar entupidos com tanta gente levada a juízo. E o mais estranho é que, pelos relatos desses julgamentos, ficamos a saber que nas grandes cidades se andava descalço durante todo o ano.
Eu, por acaso, só andava descalço no Verão. Para o Inverno sempre havia uns tamancos amanhados pelo meu pai, a quem a necessidade obrigava às mais variadas artes, entre elas a de soqueiro. E francamente lhes digo que até gostava de andar descalço. Ao arrepio da sensação de grilheta causada pelo tamanco, a pata ao léu transmitia-me na rua, nos caminhos e nos montes, a sensação de leveza e graciosidade dum bailarino no palco. Só não gostava de duas coisas. Esborrachar o dedo grande de encontro às pedras e abrir gretas nas pregas interdigitais. Já viram o que era andar sobre lameiros de feno cortados de fresco? Os caules, rijos e feros como as cerdas da escova de ferro com que o Tomé da Volta, picador de burros afamado, almofaçava o fouveiro, enfiavam-se-me pelas gretas e punham-me a dançar o saricoté num pé. Valia-me então uma vizinha de porta a quem eu suplicava que me fizesse chichi nos pés. Ardia mas aliviava.
Chamava-se ela Marcelina e era dada na cédula de nascimento como nascida no mesmo ano que eu, e filha de pai incógnito e da cabaneira Ana Garcia, mais conhecida por Descalça.
Esta Descalça tinha apenas a casita, um hortejo, meia dúzia de galinhas e uma burra parideira.
As galinhas andavam por aí à vontade. A burra apascentava-a a filha pelos baldios da povoação. Eu, na altura pastor de vacas, repartia com ela a merenda e os brinquedos. Corríamos por aqueles campos, rebolávamo-nos na relva, riamo-nos muito. Não sei como é que os pardais escolhem companheira. Mas deve ser por qualquer coisa muito parecida com aquilo que me atraía para a Lina, a Descalça, antonomásia herdada da mãe, mas que na filha assentava a primor, uma vez que, da minha lembrança, nunca lhe conheci qualquer espécie de calçado. E o que ainda hoje me causa espanto é nunca ter visto nos pés da minha companheira de infância qualquer dedo esborrachado ou greta interdigital. À força de andar sempre descalça, criara na planta dos pés uma verdadeira sola, que lhe permitia correr por cima das pedras, tojos, silvas, ou qualquer outro obstáculo, sem se magoar.
O livro citado afirma que o pé da mulher descalço se esparrama, alarga, masculiniza, se torna nodoso, feio. Não é verdade. Pelo menos a meus olhos, o pé da Lina continuava bonito, harmonioso, elegante, feminino a mais não poder ser.
Com ele a minha amiga se sentiu feliz até aos catorze anos. Por essa altura sobreveio-lhe uma doença muito comum nas mulheres: a inveja. Via as filhas dos lavradores de sapatos na missa e nas festas e meteu-se-lhe na cabeça que também tinha direito a uns. Pediu-os à mãe:
— Oh, filha! E dinheiro?
— Deixe-me ir às segadas.
— Vou falar com o Marcelino.
O Marcelino era tio materno da Lina e capataz de seitoiras. Comprometeu-se a levar a sobrinha à Terra Quente. Partiram em fins de Maio e regressaram em meados de Julho. Graças à protecção do tio, a jovem Descalça foi e veio sem ter perdido a inocência e a alegria.
Juntara à volta de 500$00 de jeiras. Comprou sapatos, meias de vidro, vestido, arrecadas e deu o resto à mãe. Entretanto chegou a Senhora da Livração e Lina resolveu ir à festa e estrear os sapatos. Fui com ela. À pata e descalços, ela com os sapatos numa saca, à cabeça, e eu com os meus enfiados num pau, ao ombro. Entre Peireses e as Boticas medeiam uns bons quinze quilómetros de caminhos poeirentos. Chegámos num estado lastimável.
— Calçamo-nos Lina? — perguntei eu à entrada da vila.
— Mas eu queria lavar os pés para não sujar os sapatos. Não sabes onde haja por aí um tanque ou um rego?
Levei-a lá para uma represa onde, durante a festa, costumam colocar um São Cristóvão gigante com uma tranca nas unhas e o Menino Jesus ao ombro.
Desencardimos os pés, enfiámos os sapatos, corremos para o arraial. De repente a Lina levou as mãos ao peito e disse:
— Ai Jesus!
— Que foi?
— Falta-me o ar...
— Não me digas que respiras pelos pés?!
— Ai Jesus! — voltou ela, sentando-se no passeio.
Estava coberta de suores frios, lívida, mesmo aflita. Afligi-me também:
— Queres que te vá buscar um copo de água?
— Liberta-me dos sapatos se não abafo.
Retirei-lhe rapidamente os sapatos e as meias. Ela respirou fundo:
— Ai que alívio! Deus te pague.
Ficou um momento a olhar para mim com aqueles seus olhinhos garços, tão luminosos, expressivos e promissores como as mais belas manhãs de Abril. Depois começou a chorar.
— De que choras?
— Lá se foi a festa...
— Porquê?
— Já viste a figura? Tu de sapatos e eu descalça?
— Isso tem bom remédio.
Descalcei-me também e estendi-lhe a mão:
— Anda.
E começámos de novo a correr de mãos dadas, alegres, felizes e inocentes como dois pardais acabados de sair do ninho.

Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 118 e ss.)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Coimbra, 16 de Abril de 1979.


ROGO

Não, não rezes por mim.
Nenhum deus me perdoa a humanidade.
Vim sem vontade
E vou desesperado.
Mas assinei a vida que vivi.
Doeu-me o que sofri.
Fui sempre o senhorio do meu fado.

Por isso, quero a morte que mereço.
A morte natural,
Solitária e maldita
De quem não acredita
Em nenhuma oração
De salvação.
De quem sabe que nunca ressuscita.

MIGUEL TORGADIÁRIO XIII 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O XAQUIM E A LIBRA

Antigamente, cá pelas nossas aldeias, tal dia como hoje, 11 de Novembro, aceivavam-se os castanheiros. Quer isto dizer que, a partir do S. Martinho, as cabaneiras podiam rebuscar à vontade nos soutos dos lavradores.
Os dicionários de português de que disponho, não registam o termo aceivar. Mas admitem ceive, no sentido de livre, sem vedações.
Já os Galegos, a ajuizar pelo nome de numerosas associações cívicas, tais como: «Fala Ceive», «Asociación Cultural de Fala Ceive», «Exército Guerrillero do Povo Galego Ceive», «Galiza Ceive», «Aparcamento Ceive»: o utilizam muito. E eu sou levado a crer, embora me recuse a pôr as mãos no lume pelo meu juízo, que em Barroso se dizia aceivar por influência galega.
E digo dizia, porque hoje já ninguém diz. A castanha perdeu o peso que outrora tinha nos hábitos alimentares dos barrosões. Tal era ele, que eles, não contentes com os castanheiros de Barroso, adquiriam soutos na Ribeira. Passavam o ano a rilhar castanhas. Cruas, cozidas, assadas, secas, no caldo, com o presigo, ao postre. No fundo, a castanha era o substituto do pão. Em vês de saírem para a rua, para o monte ou para a feira com os bolsos cheios de broa, saíam com eles cheios de bilhós.
Hoje, com a abundância, para não dizer desperdício, de pão que por aí vai, ninguém se preocupa com as castanhas. Apodrecem por aí ao Deus dará debaixo dos castanheiros.
Outrora dizia-se: “A castanha tem manha; quem a vê apanha-a». Hoje podíamos dizer: “Para a castanha, todos se queixam das costas, ninguém a apanha.» O mais absurdo de tudo isto, é que ela se vende no Porto a 4 e 5 euros o quilo e em Peireses ninguém dá um cêntimo por ela. Venha o Diabo e explique o que se passa, que eu não sei.
Mas vinha eu dizendo, e, decerto, asneando, que os barrosões empregavam o verbo aceivar e o adjectivo aceivado, influenciados pelos galegos, com quem diariamente conviviam nos campos, nas feiras, nas romarias e, acima de tudo, no contrabando. Desta convivência diária se engendravam, com relativa frequência, casamentos transfronteiriços.
Dos galegos casados na minha aldeia, não digo o mais famoso, mas pelo menos o mais falado, foi o Xaquim, do qual ainda hoje se contam histórias de ouvir e pasmar. Estou a lembrar-me de uma.
O Xaquim era natural de Rubiás dos Mixtos e filho único dum casal cuja fazenda se resumia a um macho.
Pela ordem natural das coisas, o pai foi o primeiro a morrer, pela simples razão de que também era o mais velho. Então a nai mandou dizer ao filho que, se queria o macho, o fosse buscar.
O Xaquim não se fez rogado. Correu ao posto da guarda-fiscal de Padroso e obteve licença para ir buscar a herança.
Era realmente uma estampa, o raio do macho. Apareceram logo meia dúzia de ciganos e alguns lavradores a quererem comprá-lo. O Xaquim, porém, não cedia. Nem que lho pesassem a oiro, jurava.
Mas quando o padre João, o tal que, na voz do povo, que nem sempre é a voz de Deus, media as libras a rasas, lhe alumiou com uma de cavalinho, o Xaquim não resistiu. Entrou em casa aos pulos, olhinhos de riso, moeda ao alto, entre o polegar e o indicador da mão direita:
— Ó Ana? Ó Ana? Mira o que eu aqui che trago!
E a cara-metade, que também era da borga e nunca havia tido uma libra na mão, correu a ele para lha tirar:
— Dá cá.
— Não dou.
— Eu tiro-ta.
— Tiras nada.
E o Xaquim, perdido de riso, passava a libra de mão em mão, de bolso em bolso, até que se lembrou de a meter na boca. No melhor da gargalhada, descuidou-se, engoliu-a. Quedaram ambos aterrados.
— Vês o que tu fizeste? — disse ele.
— Eu?
— Se não fossem as tuas brincadeiras...
— Oh, homem! Não te aflijas. Que eu saiba, uma libra de oiro não é absorvida pelos intestinos. Entrou por um lado, sai pelo outro. Quando é que foste a campo?
— Hoje de manhã.
O Xaquim armava às raposas de três em três dias. Faltavam portanto dois.
Ao terceiro, acordaram ambos expectantes como em casa onde se aguarda o nascimento dum filho. E quando as dores chegaram, o Xaquim correu para a horta e a Ana para o adro da capela que lhe ficava contígua. Ia ela na terceira volta da novena a Santantoninho de Lisboa, grita-lhe o Xaquim do meio das couves:
— Ó Ana? Ó Ana? Xá cá 'stá!
E ainda com uma das mãos a segurar as calças, exibia a libra na outra, feliz da vida. E não obstante a moeda estar a pedir o banho ritual dos recém-nascidos, o Xaquim recomeçava a brincadeira de a meter à boca. Grita-lhe a mulher:
— Está quieto, pantomineiro... «Com coisas sérias não se brinca...»

Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 115 e ss.)

sábado, 12 de abril de 2014

Coimbra, 12 de Abril de 1978.

AGENDA

Sonhar que sonho, agora?
Tempo já sem amor,
Ou dele envergonhado,
Tudo é pecado,
Mesmo imaginar.
A vida insiste
Mas a hora é triste.
Crepuscular,
Cansada,
A durar por durar,
Apenas mede
Esta desgraça
Humana,
Baça,
Quotidiana,
De quem da própria sombra se despede.

Miguel Torga, DIÁRIO XIII

sexta-feira, 11 de abril de 2014

S. Martinho de Anta, 11 de Abril de 1979

A casa vasculhada por uma objectiva cinematográfica. Custou-me os olhos da cara consentir na devassa, mas a tenacidade paciente do realizador e um estranho sentimento de fim próximo venceram os meus escrúpulos. Pois que fique escancarada pela imagem a intimidade de um homem que se rodeou de símbolos íntimos: a balança de meu Pai, a roca de minha Mãe, uma bandeira das almas, um calvário de pedra, um juízo final de barro, um almofariz, um búzio… Poderá ser que um leitor futuro assim se aproxime mais simpaticamente da minha memória, perante a realidade que apenas lhe mostrei por escrito. A evidência das coisas é diferente da evidência das palavras. Aquelas são, estas dizem. E o homem de hoje só quer fazer fé no que vê. A sua dimensão judicativa é visual, plástica. Inverteu o dom de imaginar.

MIGUEL TORGADIÁRIO XIII 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

S. Martinho de Anta, 10 de Abril de 1979.


LAVOURA

Lanço os versos à terra.
A lua é boa e o suor honrado.
E no chão semeado
Ergo uma negra cruz da minha altura.
Cruz tosca e sibilina
Que esconjura
E assina…

MIGUEL TORGADIÁRIO XIII 

terça-feira, 8 de abril de 2014

Coimbra, 8 de Abril de 1981.

  
SONAMBULISMO

Não me perguntem pela alma, agora,
Que não sei responder.
Mesmo o poema tem de ser sucinto.
Nestes dias assim,
Baços, horizontais,
Em que a terra é de cinza e o céu de fumo,
Ou a vida me mente,
Ou eu lhe minto.
Sofro como que ausente
Da própria dor que sinto.

Miguel Torga

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O VALOR DUM OVO

Quando o escudo foi desbancado pelo euro, circularam por aí calculadoras de bolso de vários tamanhos e feitios as quais, a um leve toque de dedo, faziam a correspondência entre as duas moedas. Desconfio que uma delas me foi parar à cabeça. E agora, sempre que me falam em euros, eu penso em escudos e recuo: «Tanto dinheiro?!»
Eu já sou do tempo do meio tostão e posso garantir que ninguém o desprezava. Quem é que hoje faz caso dum cêntimo? Todos o reputam coisa minúscula, insignificante, desprezível.
Pois a mim, se me pedem um cêntimo, a tal maquineta que me foi parar à cabeça, dispara: «Atenção! Dois escudos» E eu repito: «Dois escudos? Mas isso são para aí cinco ovos?!»
Esta mania de calcular o preço das coisas em ovos, ficou-me do tempo em que minha mãe me entregava um e dizia:
— Vai ali à loja e traz uma quarta de açúcar.
E eu corria à venda, entregava o ovo e trazia a quarta de açúcar. E até de uma vez parti o ovo à ida e de outra derramei o açúcar à vinda. E de ambas apanhei daquelas de que os cães não gostam. Falo nisto para dizer que, na minha infância, os ovos eram a moeda de troca mais corrente na minha aldeia. Um ovo valia uma entrada no teatro.
Nesse tempo, não havia feira ou festa que não metesse marionetas. E como nem todos os dias há feira ou festa e todos os dias um fabiano precisa de comer, esses audaciosos artistas ambulantes faziam «tournées» pelas aldeias.
Um dia apareceu um em Peireses e anunciou, rua abaixo, rua acima, ao som dum pandeiro, que logo, depois de ceia, havia teatro em casa da senhora Adelina Vitala. Entrada, um ovo por adulto. Menores de sete anos, desde que ao colo das respectivas mães, não pagavam nada.
Eu, na altura já matolote, surripiei um ovo em casa. Mas não cheguei a entregá-lo ao empresário. Pelo caminho encontrei a Perrona que me perguntou:
— Trazes o ovo?
— Não sei. Meta aqui o dedo a ver...
— Já sabes mais do que eu te ensinei... Responde ao que te pergunto: trazes o ovo ou não?
— Trago.
— Dá-mo cá.
— E depois como entro?
— Já vais ver.
Era Inverno e a Perrona trazia uma capa de burel. Pegou em mim ao colo e entrámos ambos por um ovo. O mais espantoso é que atrás de nós entraram várias matronas com os respectivos maridos, e outros que nem maridos eram, aconchegados ao seio.
O empresário, que também servia de porteiro, fechava os olhos e ria-se. Devia ser um desses génios artísticos que trabalham por amor à arte e não aos ovos. Pelas minhas contas, deve ter apurado, naquela noite, uma dúzia deles ou nem tanto. Dum modo ou doutro, quer os comesse, quer os utilizasse como moeda de troca na venda, tinha subsistência garantida para as próximas vinte e quatro horas. Depois Tália, protectora dos comediantes, providenciaria.
Resta-me dizer que a sala de espectáculos era uma corte na altura devoluta por falta de ovelha ou burro que a ocupasse. Por cima, a cozinha.
Casa cheia, porta fechada, começou o espectáculo. Espectadores, uns cinquenta. Os da frente acocorados no chão, os de trás de pé. Ao fundo, de parede a parede, um pano preto. Por detrás, à luz dum lampião, os bonecos.
A farsada metia partes gagas de muita e fina graça. A malta ria a bandeiras despregadas. No melhor da festa, grande reboliça por cima, na cozinha.
Os que estávamos mais perto da porta corremos escaleiras arriba a ver o que era. A Pinta e a Fecha, ambas já em idade de ter juízo mas desde há muito de candeias às avessas por questões amorosas, engalfinhadas uma na outra. As vizinhas tentavam separá-las. Mas elas, mutuamente catrafiladas pelos cabelos, não largavam. Aquilo choviam ali couces, murros, pragas e insultos que era um louvar ao Senhor e a Sua Mãe Maria Santíssima.
Por fim, ou por esgotamento das lutadoras ou imposição das árbitras, a contenda terminou. Alguém acendeu uma luz. A Fecha exibia a mão cheia de madeixas:
— Olhai onde a bruxa deixou o guedelho...
A Pinta exibia a mão cheia de pêlos:
— Olhai onde a puta deixou o pen...
Qualquer coisa a rimar com guedelho mas que eu não escrevo por extenso por respeito à moral pública.
— Mas porque é que elas se pegaram? — perguntei a uma das presentes mais ou menos da minha idade.
— A Pinta estava a espreitar por uma frincha. Vai a Fecha empurra-a: «Chega-te para lá que também quero ver.» A Pinta espetou-lhe uma bofetada. A Fecha atirou-se a ela. O resto, o que tu viste.
Vinha isto a propósito do valor dos ovos. Tal era ele que, por um, via um homem dois entremezes na mesma noite. 

Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 112 e ss.)

quinta-feira, 13 de março de 2014

BALADA DO CAIXÃO


O meu vizinho é carpinteiro,
Algibebe de Dona Morte,
Ponteia e cose, o dia inteiro,
Fatos de pau de toda a sorte:
Mogno, debruados de veludo,
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vai a aborrecer,
Fui-me lá, ontem: (era Entrudo,
Havia imenso que fazer...)
- Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva? - Vamos ver...
Olhou, mexeu na casa toda.
- Eis aqui um e bem barato.
- Está na moda? - Está na moda.
(Gostei e nem quis apreçá-lo:
Muito justinho, pouca roda...)
- Quando posso mandar buscá-lo?
- Ao pôr-do-Sol. Vou dá-lo a ferro:
(Pôs-se o bom homem a aplainá-lo...)

Ó meus Amigos! salvo erro,
Juro-o pela alma, pelo Céu:
Nenhum de vós, ao meu enterro,
Irá mais dândi, olhai! do que eu!

Paris, 1891.


António Nobre nasceu no Porto em 1867. Após uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, entre 1888 e 1890, seguiu para Paris, onde concluiu os estudos de Ciências Políticas em 1895. Aí escreveu a maior parte dos poemas que viriam a constituir o Só. Publicado em Paris, em 1892, num período em que o simbolismo era a corrente dominante, o Só pouco tem a ver com esta corrente, o que poderá explicar as críticas geralmente negativas com que a obra foi recebida em Portugal. António Nobre colaborou em revistas como A Mocidade de Hoje (1883) e Boémia Nova (1889). Marcantes na sua obra são o seu pessimismo e a obsessão da morte (como em Balada do Caixão) o fatalismo com a sua predestinação para a infelicidade e o apreço pela paisagem e pelos tipos pitorescos portugueses. O seu único livro publicado em vida, Só (1892) foi um dos grandes marcos da poesia do século XIX. Na reedição de 1898, Nobre dividiu o livro em secções, construindo o percurso de vida de uma personagem. Faleceu, vítima de tuberculose, no ano de 1900. »

terça-feira, 11 de março de 2014

LUTA


O que eu sonho!
A fé que ponho
Na imaginação!
Digo à razão
Que sim, que desvario
Nesta humana aventura,
E ergo mais a lança em desafio
E desço mais o elmo da loucura.

Nada conquisto, porque são moinhos
Os gigantes que encontro nos caminhos
Das minhas digressões.
Mas combato,
Combato
E desbarato
As próprias ilusões.

Coimbra, 11 de Março de 1981.
DIÁRIO (XIII), Miguel Torga

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O RESPONSO

Comemorou-se ontem, 1 de Outubro, o «Dia Mundial do Idoso». Ficámos então a saber, pelos variados simpósios e areópagos sobre o tema, e as variadas reportagens televisivas e escritas que lhes deram cobertura, que 40% dos idosos portugueses vivem no «limiar da pobreza» e o dobro destes na solidão.
Partindo do princípio de que os fazedores de estatísticas não contaram comigo, vou dar-lhes conta do meu caso.
É verdade que vivo no tal «limiar da pobreza». Quanto a solidão, é mal de que me não queixo. Estou sempre rodeado dum bando de fantasmas. Agora mesmo um deles se sentou aqui à minha ilharga, nesta velha poltrona onde costumo reclinar-me quando me sinto mais cansado, e me está a espremer a bossa das recordações com relatos de aventuras que ambos vivemos pelos montes atrás das cabras.
Era muito vaidoso e muito crendeiro o meu compincha de gandaia.
Por vaidade, não largava uma caneta de tinta permanente que a mãe lhe dera por ter feito exame de terceira.
Por crendice, um dia em que a perdeu, foi pedir à Tia Ermelinda que lha responsasse.
Antes de se concentrar, a velha pitonisa inquiriu:
— E quando deste pela falta da caneta?
— Hoje ao vir do monte com a rês.
— E tens a certeza que a levaste contigo?
— Certezinha! Trago-a sempre no bolso de fora do casaco, bem à vista de toda a gente…
— Então conta-me tudo o que fizeste hoje. Passos que deste, pessoas com quem falaste...
— Ó Tia Ermelinda? Mas isto é algum exame de consciência? Eu não venho pedir que me confesse. Venho pedir que me response a caneta!
— Eu sei, meu filho. Mas preciso de dar algumas pistas a Sant'António. Também não vamos exigir que o Santinho adivinhe tudo, não te parece?
— Bem. Se assim é, tome nota.
E o Liró, que assim se chamou em vida o meu fantasma de agora, deu ali conta minuciosa de tudo quanto fizera naquele dia, não esquecendo que, durante a tarde, bebera água na fontela da Corga de Sebastião Fernandes.
A Tia Ermelinda ouviu, bichanou o responso e disse:
— A caneta não está perdida, quero dizer, ainda ninguém a encontrou. De modo que, amanhã vais procurá-la, começando pela fontela da Corga de Sebastião Fernandes.
Liró não pregou olho. E, mal luziu o buraco, saltou do ninho e correu à Corga de Sebastião Fernandes. Lá estava a caneta à borda da fontela. Veio ter comigo:
— Vou dar umas arrochadas à Ermelinda.
— Porquê?
— Para ela ver que não lhe tenho medo.
— E porque é que lhe havias de ter medo?
— Porque é bruxa... Não vês com que limpeza ela adivinhou onde estava a caneta?
— Isso também eu adivinhava e mais não sou bruxo.
— Não acredito.
— Ó lorpa? Pensa um pouco. Trazias a caneta no bolso de fora do casaco. Debruçaste-te para beber, caiu-te. Nada mais natural.
— És capaz de ter razão.
— Claro que tenho. Deixa a mulher em paz.
Adiante, estava eu a meter a rês, aparece-me o Liró meio espavorido:
— Ó Marinheiro? Ó Marinheiro acode-me que estou perdido.
Não te preocupes. Alguém te há-de achar.
— Perdi cinco ovelhas. Se o meu pai dá por ela, mata-me!
— Não se perdia grande coisa.
— Ai tu ainda brincas?
— Que queres que te faça?
— Me venhas ajudar a procurá-las.
— Ainda não merendei.
— Também eu não. Mas temos de aproveitar enquanto se vê. Em caindo a noite, berimbau é gaita...
Fomos à procura das ovelhas. O Liró bem gritava: «Rata cá rabona? Mé!... mé!...» Mas só o eco lhe respondia na desoladora solidão do crepúsculo e dos montes.
— Bem — disse eu. — Só te resta uma coisa.
— O quê?
— Pedires à Tia Ermelinda que tas response.
O Liró foi ter com a vizinha. A velha pitonisa mastigou o responso e disse:
— As ovelhas estão bem. Não te sei dizer onde, mas estão bem.
— Ó Tia Ermelinda, response-mas outra vez, por favor.
— Vai descansado. Enquanto elas não aparecerem, vou-tas responsar todos os dias.
O Liró apanhou uma tareia do pai que lhe ficou de lembrança. As ovelhas só apareceram oito dias depois no meio dum giestal. Interim, uma delas, que andava prenha, dera à luz.
Vinha o Liró com elas, feliz da vida, rua acima, diz-lhe a Tia Ermelinda, da soleira da porta:
— Vês, como valeu a pena responsá-las?
— E bem responsadas Tia Ermelinda! Eram cinco, vieram seis...