sexta-feira, 18 de abril de 2014

O PÉ DESCALÇO


Há dias, estando eu a arrumar uns livros na estante, deparei com um datado de 1956 e o seguinte título: «O PÉ DESCALÇO — Uma Vergonha Nacional que Urge Extirpar». Fiz com ele o que as máquinas de contar dinheiro fazem com as notas de cem euros. Premi-o de encontro ao dedo e deixei deslizar as páginas. O suficiente para ficar a saber que, à data do meu nascimento, dois terços dos portugueses andavam descalços. E que, em 1928, a «Liga Portuguesa de Profilaxia Social», com sede no Porto, lançou uma campanha com o título supracitado.
Os argumentos eram de peso. Que «só em 1927 foram socorridas na Cruz Vermelha da Cidade Invicta, 600 pessoas com ferimentos nos pés», grande número das quais veio a morrer de tétano.
Que o vergonhoso hábito de andar descalço estava tão arreigado, que se viam raparigas com boas roupas, cordões de oiro ao pescoço e arrecadas nas orelhas e os pés nus. O mesmo nos rapazes. Bons fatos, gravata, correntes com grilhão no colete e pata ao léu.
Que o grande número de pessoas descalças por essas ruas e praças causava espanto e comentários desagradáveis nos estrangeiros que nos visitavam. Que só em Portugal e na África se viam coisas destas. Guerra ao pé descalço.
Lentamente, como quem rola um penedo encosta arriba, a «Liga» foi levando a cruz ao Calvário. Primeiro o governador civil do Porto, depois o de Lisboa, a seguir o de Coimbra, proibiram, sob pena de multa e cadeia, o pé descalço na rua. Os tribunais começaram a ficar entupidos com tanta gente levada a juízo. E o mais estranho é que, pelos relatos desses julgamentos, ficamos a saber que nas grandes cidades se andava descalço durante todo o ano.
Eu, por acaso, só andava descalço no Verão. Para o Inverno sempre havia uns tamancos amanhados pelo meu pai, a quem a necessidade obrigava às mais variadas artes, entre elas a de soqueiro. E francamente lhes digo que até gostava de andar descalço. Ao arrepio da sensação de grilheta causada pelo tamanco, a pata ao léu transmitia-me na rua, nos caminhos e nos montes, a sensação de leveza e graciosidade dum bailarino no palco. Só não gostava de duas coisas. Esborrachar o dedo grande de encontro às pedras e abrir gretas nas pregas interdigitais. Já viram o que era andar sobre lameiros de feno cortados de fresco? Os caules, rijos e feros como as cerdas da escova de ferro com que o Tomé da Volta, picador de burros afamado, almofaçava o fouveiro, enfiavam-se-me pelas gretas e punham-me a dançar o saricoté num pé. Valia-me então uma vizinha de porta a quem eu suplicava que me fizesse chichi nos pés. Ardia mas aliviava.
Chamava-se ela Marcelina e era dada na cédula de nascimento como nascida no mesmo ano que eu, e filha de pai incógnito e da cabaneira Ana Garcia, mais conhecida por Descalça.
Esta Descalça tinha apenas a casita, um hortejo, meia dúzia de galinhas e uma burra parideira.
As galinhas andavam por aí à vontade. A burra apascentava-a a filha pelos baldios da povoação. Eu, na altura pastor de vacas, repartia com ela a merenda e os brinquedos. Corríamos por aqueles campos, rebolávamo-nos na relva, riamo-nos muito. Não sei como é que os pardais escolhem companheira. Mas deve ser por qualquer coisa muito parecida com aquilo que me atraía para a Lina, a Descalça, antonomásia herdada da mãe, mas que na filha assentava a primor, uma vez que, da minha lembrança, nunca lhe conheci qualquer espécie de calçado. E o que ainda hoje me causa espanto é nunca ter visto nos pés da minha companheira de infância qualquer dedo esborrachado ou greta interdigital. À força de andar sempre descalça, criara na planta dos pés uma verdadeira sola, que lhe permitia correr por cima das pedras, tojos, silvas, ou qualquer outro obstáculo, sem se magoar.
O livro citado afirma que o pé da mulher descalço se esparrama, alarga, masculiniza, se torna nodoso, feio. Não é verdade. Pelo menos a meus olhos, o pé da Lina continuava bonito, harmonioso, elegante, feminino a mais não poder ser.
Com ele a minha amiga se sentiu feliz até aos catorze anos. Por essa altura sobreveio-lhe uma doença muito comum nas mulheres: a inveja. Via as filhas dos lavradores de sapatos na missa e nas festas e meteu-se-lhe na cabeça que também tinha direito a uns. Pediu-os à mãe:
— Oh, filha! E dinheiro?
— Deixe-me ir às segadas.
— Vou falar com o Marcelino.
O Marcelino era tio materno da Lina e capataz de seitoiras. Comprometeu-se a levar a sobrinha à Terra Quente. Partiram em fins de Maio e regressaram em meados de Julho. Graças à protecção do tio, a jovem Descalça foi e veio sem ter perdido a inocência e a alegria.
Juntara à volta de 500$00 de jeiras. Comprou sapatos, meias de vidro, vestido, arrecadas e deu o resto à mãe. Entretanto chegou a Senhora da Livração e Lina resolveu ir à festa e estrear os sapatos. Fui com ela. À pata e descalços, ela com os sapatos numa saca, à cabeça, e eu com os meus enfiados num pau, ao ombro. Entre Peireses e as Boticas medeiam uns bons quinze quilómetros de caminhos poeirentos. Chegámos num estado lastimável.
— Calçamo-nos Lina? — perguntei eu à entrada da vila.
— Mas eu queria lavar os pés para não sujar os sapatos. Não sabes onde haja por aí um tanque ou um rego?
Levei-a lá para uma represa onde, durante a festa, costumam colocar um São Cristóvão gigante com uma tranca nas unhas e o Menino Jesus ao ombro.
Desencardimos os pés, enfiámos os sapatos, corremos para o arraial. De repente a Lina levou as mãos ao peito e disse:
— Ai Jesus!
— Que foi?
— Falta-me o ar...
— Não me digas que respiras pelos pés?!
— Ai Jesus! — voltou ela, sentando-se no passeio.
Estava coberta de suores frios, lívida, mesmo aflita. Afligi-me também:
— Queres que te vá buscar um copo de água?
— Liberta-me dos sapatos se não abafo.
Retirei-lhe rapidamente os sapatos e as meias. Ela respirou fundo:
— Ai que alívio! Deus te pague.
Ficou um momento a olhar para mim com aqueles seus olhinhos garços, tão luminosos, expressivos e promissores como as mais belas manhãs de Abril. Depois começou a chorar.
— De que choras?
— Lá se foi a festa...
— Porquê?
— Já viste a figura? Tu de sapatos e eu descalça?
— Isso tem bom remédio.
Descalcei-me também e estendi-lhe a mão:
— Anda.
E começámos de novo a correr de mãos dadas, alegres, felizes e inocentes como dois pardais acabados de sair do ninho.

Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 118 e ss.)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Coimbra, 16 de Abril de 1979.


ROGO

Não, não rezes por mim.
Nenhum deus me perdoa a humanidade.
Vim sem vontade
E vou desesperado.
Mas assinei a vida que vivi.
Doeu-me o que sofri.
Fui sempre o senhorio do meu fado.

Por isso, quero a morte que mereço.
A morte natural,
Solitária e maldita
De quem não acredita
Em nenhuma oração
De salvação.
De quem sabe que nunca ressuscita.

MIGUEL TORGADIÁRIO XIII 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O XAQUIM E A LIBRA

Antigamente, cá pelas nossas aldeias, tal dia como hoje, 11 de Novembro, aceivavam-se os castanheiros. Quer isto dizer que, a partir do S. Martinho, as cabaneiras podiam rebuscar à vontade nos soutos dos lavradores.
Os dicionários de português de que disponho, não registam o termo aceivar. Mas admitem ceive, no sentido de livre, sem vedações.
Já os Galegos, a ajuizar pelo nome de numerosas associações cívicas, tais como: «Fala Ceive», «Asociación Cultural de Fala Ceive», «Exército Guerrillero do Povo Galego Ceive», «Galiza Ceive», «Aparcamento Ceive»: o utilizam muito. E eu sou levado a crer, embora me recuse a pôr as mãos no lume pelo meu juízo, que em Barroso se dizia aceivar por influência galega.
E digo dizia, porque hoje já ninguém diz. A castanha perdeu o peso que outrora tinha nos hábitos alimentares dos barrosões. Tal era ele, que eles, não contentes com os castanheiros de Barroso, adquiriam soutos na Ribeira. Passavam o ano a rilhar castanhas. Cruas, cozidas, assadas, secas, no caldo, com o presigo, ao postre. No fundo, a castanha era o substituto do pão. Em vês de saírem para a rua, para o monte ou para a feira com os bolsos cheios de broa, saíam com eles cheios de bilhós.
Hoje, com a abundância, para não dizer desperdício, de pão que por aí vai, ninguém se preocupa com as castanhas. Apodrecem por aí ao Deus dará debaixo dos castanheiros.
Outrora dizia-se: “A castanha tem manha; quem a vê apanha-a». Hoje podíamos dizer: “Para a castanha, todos se queixam das costas, ninguém a apanha.» O mais absurdo de tudo isto, é que ela se vende no Porto a 4 e 5 euros o quilo e em Peireses ninguém dá um cêntimo por ela. Venha o Diabo e explique o que se passa, que eu não sei.
Mas vinha eu dizendo, e, decerto, asneando, que os barrosões empregavam o verbo aceivar e o adjectivo aceivado, influenciados pelos galegos, com quem diariamente conviviam nos campos, nas feiras, nas romarias e, acima de tudo, no contrabando. Desta convivência diária se engendravam, com relativa frequência, casamentos transfronteiriços.
Dos galegos casados na minha aldeia, não digo o mais famoso, mas pelo menos o mais falado, foi o Xaquim, do qual ainda hoje se contam histórias de ouvir e pasmar. Estou a lembrar-me de uma.
O Xaquim era natural de Rubiás dos Mixtos e filho único dum casal cuja fazenda se resumia a um macho.
Pela ordem natural das coisas, o pai foi o primeiro a morrer, pela simples razão de que também era o mais velho. Então a nai mandou dizer ao filho que, se queria o macho, o fosse buscar.
O Xaquim não se fez rogado. Correu ao posto da guarda-fiscal de Padroso e obteve licença para ir buscar a herança.
Era realmente uma estampa, o raio do macho. Apareceram logo meia dúzia de ciganos e alguns lavradores a quererem comprá-lo. O Xaquim, porém, não cedia. Nem que lho pesassem a oiro, jurava.
Mas quando o padre João, o tal que, na voz do povo, que nem sempre é a voz de Deus, media as libras a rasas, lhe alumiou com uma de cavalinho, o Xaquim não resistiu. Entrou em casa aos pulos, olhinhos de riso, moeda ao alto, entre o polegar e o indicador da mão direita:
— Ó Ana? Ó Ana? Mira o que eu aqui che trago!
E a cara-metade, que também era da borga e nunca havia tido uma libra na mão, correu a ele para lha tirar:
— Dá cá.
— Não dou.
— Eu tiro-ta.
— Tiras nada.
E o Xaquim, perdido de riso, passava a libra de mão em mão, de bolso em bolso, até que se lembrou de a meter na boca. No melhor da gargalhada, descuidou-se, engoliu-a. Quedaram ambos aterrados.
— Vês o que tu fizeste? — disse ele.
— Eu?
— Se não fossem as tuas brincadeiras...
— Oh, homem! Não te aflijas. Que eu saiba, uma libra de oiro não é absorvida pelos intestinos. Entrou por um lado, sai pelo outro. Quando é que foste a campo?
— Hoje de manhã.
O Xaquim armava às raposas de três em três dias. Faltavam portanto dois.
Ao terceiro, acordaram ambos expectantes como em casa onde se aguarda o nascimento dum filho. E quando as dores chegaram, o Xaquim correu para a horta e a Ana para o adro da capela que lhe ficava contígua. Ia ela na terceira volta da novena a Santantoninho de Lisboa, grita-lhe o Xaquim do meio das couves:
— Ó Ana? Ó Ana? Xá cá 'stá!
E ainda com uma das mãos a segurar as calças, exibia a libra na outra, feliz da vida. E não obstante a moeda estar a pedir o banho ritual dos recém-nascidos, o Xaquim recomeçava a brincadeira de a meter à boca. Grita-lhe a mulher:
— Está quieto, pantomineiro... «Com coisas sérias não se brinca...»

Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 115 e ss.)

sábado, 12 de abril de 2014

Coimbra, 12 de Abril de 1978.

AGENDA

Sonhar que sonho, agora?
Tempo já sem amor,
Ou dele envergonhado,
Tudo é pecado,
Mesmo imaginar.
A vida insiste
Mas a hora é triste.
Crepuscular,
Cansada,
A durar por durar,
Apenas mede
Esta desgraça
Humana,
Baça,
Quotidiana,
De quem da própria sombra se despede.

Miguel Torga, DIÁRIO XIII

sexta-feira, 11 de abril de 2014

S. Martinho de Anta, 11 de Abril de 1979

A casa vasculhada por uma objectiva cinematográfica. Custou-me os olhos da cara consentir na devassa, mas a tenacidade paciente do realizador e um estranho sentimento de fim próximo venceram os meus escrúpulos. Pois que fique escancarada pela imagem a intimidade de um homem que se rodeou de símbolos íntimos: a balança de meu Pai, a roca de minha Mãe, uma bandeira das almas, um calvário de pedra, um juízo final de barro, um almofariz, um búzio… Poderá ser que um leitor futuro assim se aproxime mais simpaticamente da minha memória, perante a realidade que apenas lhe mostrei por escrito. A evidência das coisas é diferente da evidência das palavras. Aquelas são, estas dizem. E o homem de hoje só quer fazer fé no que vê. A sua dimensão judicativa é visual, plástica. Inverteu o dom de imaginar.

MIGUEL TORGADIÁRIO XIII 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

S. Martinho de Anta, 10 de Abril de 1979.


LAVOURA

Lanço os versos à terra.
A lua é boa e o suor honrado.
E no chão semeado
Ergo uma negra cruz da minha altura.
Cruz tosca e sibilina
Que esconjura
E assina…

MIGUEL TORGADIÁRIO XIII 

terça-feira, 8 de abril de 2014

Coimbra, 8 de Abril de 1981.

  
SONAMBULISMO

Não me perguntem pela alma, agora,
Que não sei responder.
Mesmo o poema tem de ser sucinto.
Nestes dias assim,
Baços, horizontais,
Em que a terra é de cinza e o céu de fumo,
Ou a vida me mente,
Ou eu lhe minto.
Sofro como que ausente
Da própria dor que sinto.

Miguel Torga

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O VALOR DUM OVO

Quando o escudo foi desbancado pelo euro, circularam por aí calculadoras de bolso de vários tamanhos e feitios as quais, a um leve toque de dedo, faziam a correspondência entre as duas moedas. Desconfio que uma delas me foi parar à cabeça. E agora, sempre que me falam em euros, eu penso em escudos e recuo: «Tanto dinheiro?!»
Eu já sou do tempo do meio tostão e posso garantir que ninguém o desprezava. Quem é que hoje faz caso dum cêntimo? Todos o reputam coisa minúscula, insignificante, desprezível.
Pois a mim, se me pedem um cêntimo, a tal maquineta que me foi parar à cabeça, dispara: «Atenção! Dois escudos» E eu repito: «Dois escudos? Mas isso são para aí cinco ovos?!»
Esta mania de calcular o preço das coisas em ovos, ficou-me do tempo em que minha mãe me entregava um e dizia:
— Vai ali à loja e traz uma quarta de açúcar.
E eu corria à venda, entregava o ovo e trazia a quarta de açúcar. E até de uma vez parti o ovo à ida e de outra derramei o açúcar à vinda. E de ambas apanhei daquelas de que os cães não gostam. Falo nisto para dizer que, na minha infância, os ovos eram a moeda de troca mais corrente na minha aldeia. Um ovo valia uma entrada no teatro.
Nesse tempo, não havia feira ou festa que não metesse marionetas. E como nem todos os dias há feira ou festa e todos os dias um fabiano precisa de comer, esses audaciosos artistas ambulantes faziam «tournées» pelas aldeias.
Um dia apareceu um em Peireses e anunciou, rua abaixo, rua acima, ao som dum pandeiro, que logo, depois de ceia, havia teatro em casa da senhora Adelina Vitala. Entrada, um ovo por adulto. Menores de sete anos, desde que ao colo das respectivas mães, não pagavam nada.
Eu, na altura já matolote, surripiei um ovo em casa. Mas não cheguei a entregá-lo ao empresário. Pelo caminho encontrei a Perrona que me perguntou:
— Trazes o ovo?
— Não sei. Meta aqui o dedo a ver...
— Já sabes mais do que eu te ensinei... Responde ao que te pergunto: trazes o ovo ou não?
— Trago.
— Dá-mo cá.
— E depois como entro?
— Já vais ver.
Era Inverno e a Perrona trazia uma capa de burel. Pegou em mim ao colo e entrámos ambos por um ovo. O mais espantoso é que atrás de nós entraram várias matronas com os respectivos maridos, e outros que nem maridos eram, aconchegados ao seio.
O empresário, que também servia de porteiro, fechava os olhos e ria-se. Devia ser um desses génios artísticos que trabalham por amor à arte e não aos ovos. Pelas minhas contas, deve ter apurado, naquela noite, uma dúzia deles ou nem tanto. Dum modo ou doutro, quer os comesse, quer os utilizasse como moeda de troca na venda, tinha subsistência garantida para as próximas vinte e quatro horas. Depois Tália, protectora dos comediantes, providenciaria.
Resta-me dizer que a sala de espectáculos era uma corte na altura devoluta por falta de ovelha ou burro que a ocupasse. Por cima, a cozinha.
Casa cheia, porta fechada, começou o espectáculo. Espectadores, uns cinquenta. Os da frente acocorados no chão, os de trás de pé. Ao fundo, de parede a parede, um pano preto. Por detrás, à luz dum lampião, os bonecos.
A farsada metia partes gagas de muita e fina graça. A malta ria a bandeiras despregadas. No melhor da festa, grande reboliça por cima, na cozinha.
Os que estávamos mais perto da porta corremos escaleiras arriba a ver o que era. A Pinta e a Fecha, ambas já em idade de ter juízo mas desde há muito de candeias às avessas por questões amorosas, engalfinhadas uma na outra. As vizinhas tentavam separá-las. Mas elas, mutuamente catrafiladas pelos cabelos, não largavam. Aquilo choviam ali couces, murros, pragas e insultos que era um louvar ao Senhor e a Sua Mãe Maria Santíssima.
Por fim, ou por esgotamento das lutadoras ou imposição das árbitras, a contenda terminou. Alguém acendeu uma luz. A Fecha exibia a mão cheia de madeixas:
— Olhai onde a bruxa deixou o guedelho...
A Pinta exibia a mão cheia de pêlos:
— Olhai onde a puta deixou o pen...
Qualquer coisa a rimar com guedelho mas que eu não escrevo por extenso por respeito à moral pública.
— Mas porque é que elas se pegaram? — perguntei a uma das presentes mais ou menos da minha idade.
— A Pinta estava a espreitar por uma frincha. Vai a Fecha empurra-a: «Chega-te para lá que também quero ver.» A Pinta espetou-lhe uma bofetada. A Fecha atirou-se a ela. O resto, o que tu viste.
Vinha isto a propósito do valor dos ovos. Tal era ele que, por um, via um homem dois entremezes na mesma noite. 

Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 112 e ss.)

quinta-feira, 13 de março de 2014

BALADA DO CAIXÃO


O meu vizinho é carpinteiro,
Algibebe de Dona Morte,
Ponteia e cose, o dia inteiro,
Fatos de pau de toda a sorte:
Mogno, debruados de veludo,
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vai a aborrecer,
Fui-me lá, ontem: (era Entrudo,
Havia imenso que fazer...)
- Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva? - Vamos ver...
Olhou, mexeu na casa toda.
- Eis aqui um e bem barato.
- Está na moda? - Está na moda.
(Gostei e nem quis apreçá-lo:
Muito justinho, pouca roda...)
- Quando posso mandar buscá-lo?
- Ao pôr-do-Sol. Vou dá-lo a ferro:
(Pôs-se o bom homem a aplainá-lo...)

Ó meus Amigos! salvo erro,
Juro-o pela alma, pelo Céu:
Nenhum de vós, ao meu enterro,
Irá mais dândi, olhai! do que eu!

Paris, 1891.


António Nobre nasceu no Porto em 1867. Após uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, entre 1888 e 1890, seguiu para Paris, onde concluiu os estudos de Ciências Políticas em 1895. Aí escreveu a maior parte dos poemas que viriam a constituir o Só. Publicado em Paris, em 1892, num período em que o simbolismo era a corrente dominante, o Só pouco tem a ver com esta corrente, o que poderá explicar as críticas geralmente negativas com que a obra foi recebida em Portugal. António Nobre colaborou em revistas como A Mocidade de Hoje (1883) e Boémia Nova (1889). Marcantes na sua obra são o seu pessimismo e a obsessão da morte (como em Balada do Caixão) o fatalismo com a sua predestinação para a infelicidade e o apreço pela paisagem e pelos tipos pitorescos portugueses. O seu único livro publicado em vida, Só (1892) foi um dos grandes marcos da poesia do século XIX. Na reedição de 1898, Nobre dividiu o livro em secções, construindo o percurso de vida de uma personagem. Faleceu, vítima de tuberculose, no ano de 1900. »

terça-feira, 11 de março de 2014

LUTA


O que eu sonho!
A fé que ponho
Na imaginação!
Digo à razão
Que sim, que desvario
Nesta humana aventura,
E ergo mais a lança em desafio
E desço mais o elmo da loucura.

Nada conquisto, porque são moinhos
Os gigantes que encontro nos caminhos
Das minhas digressões.
Mas combato,
Combato
E desbarato
As próprias ilusões.

Coimbra, 11 de Março de 1981.
DIÁRIO (XIII), Miguel Torga

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O RESPONSO

Comemorou-se ontem, 1 de Outubro, o «Dia Mundial do Idoso». Ficámos então a saber, pelos variados simpósios e areópagos sobre o tema, e as variadas reportagens televisivas e escritas que lhes deram cobertura, que 40% dos idosos portugueses vivem no «limiar da pobreza» e o dobro destes na solidão.
Partindo do princípio de que os fazedores de estatísticas não contaram comigo, vou dar-lhes conta do meu caso.
É verdade que vivo no tal «limiar da pobreza». Quanto a solidão, é mal de que me não queixo. Estou sempre rodeado dum bando de fantasmas. Agora mesmo um deles se sentou aqui à minha ilharga, nesta velha poltrona onde costumo reclinar-me quando me sinto mais cansado, e me está a espremer a bossa das recordações com relatos de aventuras que ambos vivemos pelos montes atrás das cabras.
Era muito vaidoso e muito crendeiro o meu compincha de gandaia.
Por vaidade, não largava uma caneta de tinta permanente que a mãe lhe dera por ter feito exame de terceira.
Por crendice, um dia em que a perdeu, foi pedir à Tia Ermelinda que lha responsasse.
Antes de se concentrar, a velha pitonisa inquiriu:
— E quando deste pela falta da caneta?
— Hoje ao vir do monte com a rês.
— E tens a certeza que a levaste contigo?
— Certezinha! Trago-a sempre no bolso de fora do casaco, bem à vista de toda a gente…
— Então conta-me tudo o que fizeste hoje. Passos que deste, pessoas com quem falaste...
— Ó Tia Ermelinda? Mas isto é algum exame de consciência? Eu não venho pedir que me confesse. Venho pedir que me response a caneta!
— Eu sei, meu filho. Mas preciso de dar algumas pistas a Sant'António. Também não vamos exigir que o Santinho adivinhe tudo, não te parece?
— Bem. Se assim é, tome nota.
E o Liró, que assim se chamou em vida o meu fantasma de agora, deu ali conta minuciosa de tudo quanto fizera naquele dia, não esquecendo que, durante a tarde, bebera água na fontela da Corga de Sebastião Fernandes.
A Tia Ermelinda ouviu, bichanou o responso e disse:
— A caneta não está perdida, quero dizer, ainda ninguém a encontrou. De modo que, amanhã vais procurá-la, começando pela fontela da Corga de Sebastião Fernandes.
Liró não pregou olho. E, mal luziu o buraco, saltou do ninho e correu à Corga de Sebastião Fernandes. Lá estava a caneta à borda da fontela. Veio ter comigo:
— Vou dar umas arrochadas à Ermelinda.
— Porquê?
— Para ela ver que não lhe tenho medo.
— E porque é que lhe havias de ter medo?
— Porque é bruxa... Não vês com que limpeza ela adivinhou onde estava a caneta?
— Isso também eu adivinhava e mais não sou bruxo.
— Não acredito.
— Ó lorpa? Pensa um pouco. Trazias a caneta no bolso de fora do casaco. Debruçaste-te para beber, caiu-te. Nada mais natural.
— És capaz de ter razão.
— Claro que tenho. Deixa a mulher em paz.
Adiante, estava eu a meter a rês, aparece-me o Liró meio espavorido:
— Ó Marinheiro? Ó Marinheiro acode-me que estou perdido.
Não te preocupes. Alguém te há-de achar.
— Perdi cinco ovelhas. Se o meu pai dá por ela, mata-me!
— Não se perdia grande coisa.
— Ai tu ainda brincas?
— Que queres que te faça?
— Me venhas ajudar a procurá-las.
— Ainda não merendei.
— Também eu não. Mas temos de aproveitar enquanto se vê. Em caindo a noite, berimbau é gaita...
Fomos à procura das ovelhas. O Liró bem gritava: «Rata cá rabona? Mé!... mé!...» Mas só o eco lhe respondia na desoladora solidão do crepúsculo e dos montes.
— Bem — disse eu. — Só te resta uma coisa.
— O quê?
— Pedires à Tia Ermelinda que tas response.
O Liró foi ter com a vizinha. A velha pitonisa mastigou o responso e disse:
— As ovelhas estão bem. Não te sei dizer onde, mas estão bem.
— Ó Tia Ermelinda, response-mas outra vez, por favor.
— Vai descansado. Enquanto elas não aparecerem, vou-tas responsar todos os dias.
O Liró apanhou uma tareia do pai que lhe ficou de lembrança. As ovelhas só apareceram oito dias depois no meio dum giestal. Interim, uma delas, que andava prenha, dera à luz.
Vinha o Liró com elas, feliz da vida, rua acima, diz-lhe a Tia Ermelinda, da soleira da porta:
— Vês, como valeu a pena responsá-las?
— E bem responsadas Tia Ermelinda! Eram cinco, vieram seis...

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Au jardin

Au jardin

Léon DIERX
Le soir fait palpiter plus mollement les plantes
Autour d’un groupe assis de femmes indolentes
Dont les robes, ainsi que d’amples floraisons,
D’une blanche harmonie argentent les gazons.
Une ombre par degrés baigne ces formes vagues :
Et sur les bracelets, les colliers et les bagues
Qui chargent les poignets, les poitrines, les doigts,
Avec le luxe lourd des femmes d’autrefois,
Du haut d’un ciel profond d’azur pâle et sans voiles
L’étoile qui s’allume, allume mille étoiles.
Le jet d’eau dans la vasque au murmure discret
Retombe en brouillard fin sur les bords ; l’on dirait
Qu’arrêtant les rumeurs de la ville au passage
Les arbres agrandis rapprochent leur feuillage.
Pour recueillir l’écho d’une mer qui s’endort
Très loin, au fond d’un golfe où fut jadis un port.
Elles ont alangui leurs regards et leurs poses
Au silence divin qui les unit aux choses.
Et qui fait, sur leur sein qu’il gonfle, par moment
Passer un fraternel et doux frémissement.
Chacune dans son cœur laisse en un rêve tendre
La candeur et la nuit par souffles lents descendre ;
Et toutes respirant ensemble dans l’air bleu
La jeune âme des fleurs dont il leur reste un peu,
Exhalent en retour leurs âmes confondues
Dans des parfums où vit 1’âme des fleurs perdues.
 Léon DIERX (1838-1912)

Sa biographie

Portrait de Léon DIERX
Léon Dierx, né à Saint-Denis de La Réunion le 31 mars 1838 et mort à Paris le 12 juin 1912, est un poète parnassien et peintre académique français.
Léon Dierx naît dans la villa de Saint-Denis aujourd’hui appelée villa Déramond-Barre, que son grand-père a rachetée en 1830. Il y vit jusqu’en 1860, année de son installation en France métropolitaine.
Après une enfance passée sur l’Ile de la Réunion, Léon Dierx gagne la France pour y faire ses études. A Paris, il rencontre Emile Bellier, étudiant créole exilé comme lui. Dierx délaisse peu à peu l’Université, au profit de la lecture et de l’écriture. Il décide de devenir poète.
En 1858, son premier recueil, ‘Aspirations’, est publié. Avec Bellier, Léon Dierx voyage. A partir de 1963, le réunionnais côtoie Leconte de Lisle, chef de file des Parnassiens.
En 1864, il fait partie des poètes parnassiens qui se réunissent autour de Catulle Mendès, avec Sully Prudhomme, Villiers de L’Isle-Adam, José-Maria de Heredia, Albert Glatigny, quand Paul Verlaine, âgé de 20 ans, fait la connaissance de ce groupe.
Mais Dierx ne peut plus vivre à la charge de sa famille, car la situation économique de la Réunion est déplorable. Il doit alors retrouver les bancs de l’école. Reçu à l’Ecole Centrale, il ne finira pas son cursus. Léon Dierx devient alors un modeste employé de bureaux. En 1867, son recueil ‘Les lèvres closes’ est publié, œuvre qui est considérée comme sa plus aboutie. Dès lors, Dierx écrit moins. A partir de 1879, il est employé au Ministère de l’instruction publique, avec l’aide de Guy de Maupassant. En octobre 1898, à la mort de Mallarmé, Dierx est désigné comme nouveau ‘prince des poètes’. Le XXème siècle le célèbre comme un grand poète, et le réunionnais s’éteint heureux de son parcours.
Le peintre Paul Chabas (1869-1937) le représente sur un grand tableau commandé par l’éditeur Alphonse Lemerre aux côtés de Jules Claretie, Paul Arène, Paul Bourget, José-Maria de Heredia, Auguste Dorchain ou Marcel Prévost. Ce tableau, Chez Alphonse Lemerre, à Ville D’Avray a été présenté au salon de 1895 et représente le souhait de l’éditeur des poètes parnassiens de les immortaliser dans le jardin de sa propriété.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Coimbra, 1 de Fevereiro de 1979.


ESPELHO

Ah, olhos da velhice
Cheios de sol passado
E de sombra futura!
Ah, faróis de lonjura
Sem luz de esperança!
Meus olhos de criança
Cansados de o não ser.
Meus olhos de vidente
Condenados a ter
A bruma do presente
Como razão de ver.

MIGUEL TORGADIÁRIO XIII

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

MEAUS DOS MIXTOS

Hoje, terceiro domingo de Setembro, fui à missa a Meaus dos Mixtos, aldeia galega hoje pouco menos que deserta, mas ainda em meados do século passado um centro comercial florescente e muito concorrido. «Vinham gentes de Zamora abastecer-se em Meaus! –, gostam de sublinhar os poucos residentes que ainda por lá resistem. E apontam a dedo as belas casas de cantaria, hoje fechadas, outrora grandes comércios, desde uma agência bancária à farmácia.
Comecei a familiarizar-me com Meaus na imprensa montalegrense da Primeira República, a propósito da tomadia (por contrabando) do administrador do concelho, na altura a autoridade máxima cá dos sítios, por um guarda-fiscal do posto de Padroso. Procurem no jornal “O Combate» que vale a pena.
A missa era às onze. Cheguei sobre a hora e corri para a igreja.
É um templo pequeno. Mesmo assim, não estava cheio. Uns vinte fiéis, se tanto, e todos maiores de sessenta anos. Notei que todos me olhavam e sorriam com simpatia, satisfeitos e agradecidos por eu ir compartilhar com eles aquela confraternização dominical.
Acompanhei-os o melhor que pude nos sinais exteriores, mas, quanto a orações, não abri a boca. Primeiro por não estar muito seguro da cartilha. Segundo porque, rezando eles em galego, tive medo de destoar.
Acabada a missa, fui à sacristia pedir a bênção ao senhor abade, um rapaz novo e simpático, e aproveitei para uma vista de olhos pelos santos.
Novidade, apenas um busto, cabeça ou retrato dum Santo Cristo de terracota numa peanha de madeira embutida na parede, entre o púlpito e o arco-cruzeiro, coisa recente, assim me pareceu. Todos os outros, uns nove, se não errei na conta, num tríptico de talha antiga, atrás do altar. Identifiquei S. Brás, S. Bento, S. Domingos, duas Nossas Senhoras, S. António de Lisboa. Gostei de ver um santo português em terra estranha. «Olá, patrício?», cumprimentei, no silêncio do meu coração. E olhando para ele, assim de pé rosado, túnica pelo artelho, cintura quebrada pelo cordão, rostinho mimoso, Menino ao colo, com o seu quê de feminino, lembrei-me duma história de galegos que eu ouvia contar quando garoto. Perguntava um deles:
— Mira? Santo António é santo ou santa?
— Num che sei dicir se Santo António é santo ou santa. O que che sei dicir é que Santo António é madre de Nossa Senhora.
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 107 e s.)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

EUGÉNIO

Eugénio de Andrade fez na semana passada 82 anos. A partir de certa altura, os aniversários são crepusculares rituais contra o esquecimento. Mas este era especial. Eugénio está doente, muito doente, e festejar o seu aniversário era um pouco como ficar algum tempo a seu lado segurando-lhe a cabeça na mão. Por isso os amigos decidiram juntar-se na sua casa do Passeio Alegre (a casa que Eugénio sempre quis que fosse, mais do que sua, a casa da própria poesia encheu-se de gente) para escutar de novo a voz dos seus versos. Eugénio não se sentou nessa noite no lugar da primeira fila onde sempre nos habituámos a vê-lo. No seu quarto do andar de cima, talvez dormisse. E, como num sonho, talvez, quem sabe?, distantemente lhe chegasse através das paredes translúcidas da doença o murmúrio de palavras antigas e perfeitas: mãe, mar, verão, memória. Ou o ruído caloroso das palmas no final de cada leitura. Nunca uma distância foi tão grande e tão intransponível como aquela, de alguns poucos imensos metros, separando o poeta da sua poesia, que é como quem diz separando-o de si mesmo.
Há no sofrimento algo de profundamente imoral. E algo de humilhante na luta da vida para negar a morte. «Tudo o que faz o verão subir a prumo / chegou ao fim. / / O frio, a sua teia branca, (...) não tardará», e, no entanto, a existência obstina-se contra a obscuridade, o corpo contra a sua própria determinação. «Fora / do corpo haverá alguma coisa?», algum móbil, alguma grande razão para além da razão?
A vida de Eugénio, ou a parte mais vital e, como dizer?, mais intransigente dela, foi, toda a gente o sabe, a sua poesia. Desapossado da poesia (Eugénio já não escreve; qualquer que seja o exasperado desígnio que move a vida contra a morte, o corpo contra o tempo, a poesia já não é para aí chamada), há algo que nem a doença nem o sofrimento podem tirar-lhe: aquilo que (a desperta luz dos sentidos, o fulgor rumoroso dos seres e das coisas) nos deu. Mas mesmo isso, mesmo a memória da infância ou, mais sombria e espessa, a memória dos amigos mortos, mesmo aquela passagem da Ilíada em que Príamo suplica a Aquiles que lhe entregue o corpo exangue de Heitor, mesmo os asfódelos em flor de Corfu, as maçãs verdes de Cézanne, os primeiros compassos da Lacrimosa, pouca coisa agora são.
O homem despojadamente frágil e humano que jaz no leito de Eugénio ou que paradamente se senta no sofá perto da janela (que pensará ele de nós quando nos olha sem nos ver ou quando, vindo de longínquos lugares, regressa de súbito ao nosso lúcido convívio e às nossas preocupações?) é hoje o palco extremo de um milagre mais fundo e mais inquieto do que o da poesia. E nenhuma palavra, nenhum poema é suficientemente grave para falar disso. Porque estamos todos sós. E porque não temos respostas. Provavelmente nem as perguntas certas temos, quanto mais respostas!
Uma grande ausência, um segredo que ninguém pronunciava em voz alta, asfixiava a casa, os móveis, os retratos na parede. Era talvez contra a ausência e contra a solidão que nesse dia de aniversário se erguiam, dizendo versos, as vozes dos amigos. Como se cada uma dissesse: «Tanta palavra para chegar a ti, / tanta palavra, / sem nenhuma alcançar / entre as ruínas (...)».

Visão, 27/01/2005 (Manuel António Pina)