quinta-feira, 13 de março de 2014

BALADA DO CAIXÃO


O meu vizinho é carpinteiro,
Algibebe de Dona Morte,
Ponteia e cose, o dia inteiro,
Fatos de pau de toda a sorte:
Mogno, debruados de veludo,
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vai a aborrecer,
Fui-me lá, ontem: (era Entrudo,
Havia imenso que fazer...)
- Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva? - Vamos ver...
Olhou, mexeu na casa toda.
- Eis aqui um e bem barato.
- Está na moda? - Está na moda.
(Gostei e nem quis apreçá-lo:
Muito justinho, pouca roda...)
- Quando posso mandar buscá-lo?
- Ao pôr-do-Sol. Vou dá-lo a ferro:
(Pôs-se o bom homem a aplainá-lo...)

Ó meus Amigos! salvo erro,
Juro-o pela alma, pelo Céu:
Nenhum de vós, ao meu enterro,
Irá mais dândi, olhai! do que eu!

Paris, 1891.


António Nobre nasceu no Porto em 1867. Após uma passagem pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, entre 1888 e 1890, seguiu para Paris, onde concluiu os estudos de Ciências Políticas em 1895. Aí escreveu a maior parte dos poemas que viriam a constituir o Só. Publicado em Paris, em 1892, num período em que o simbolismo era a corrente dominante, o Só pouco tem a ver com esta corrente, o que poderá explicar as críticas geralmente negativas com que a obra foi recebida em Portugal. António Nobre colaborou em revistas como A Mocidade de Hoje (1883) e Boémia Nova (1889). Marcantes na sua obra são o seu pessimismo e a obsessão da morte (como em Balada do Caixão) o fatalismo com a sua predestinação para a infelicidade e o apreço pela paisagem e pelos tipos pitorescos portugueses. O seu único livro publicado em vida, Só (1892) foi um dos grandes marcos da poesia do século XIX. Na reedição de 1898, Nobre dividiu o livro em secções, construindo o percurso de vida de uma personagem. Faleceu, vítima de tuberculose, no ano de 1900. »

terça-feira, 11 de março de 2014

LUTA


O que eu sonho!
A fé que ponho
Na imaginação!
Digo à razão
Que sim, que desvario
Nesta humana aventura,
E ergo mais a lança em desafio
E desço mais o elmo da loucura.

Nada conquisto, porque são moinhos
Os gigantes que encontro nos caminhos
Das minhas digressões.
Mas combato,
Combato
E desbarato
As próprias ilusões.

Coimbra, 11 de Março de 1981.
DIÁRIO (XIII), Miguel Torga

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O RESPONSO

Comemorou-se ontem, 1 de Outubro, o «Dia Mundial do Idoso». Ficámos então a saber, pelos variados simpósios e areópagos sobre o tema, e as variadas reportagens televisivas e escritas que lhes deram cobertura, que 40% dos idosos portugueses vivem no «limiar da pobreza» e o dobro destes na solidão.
Partindo do princípio de que os fazedores de estatísticas não contaram comigo, vou dar-lhes conta do meu caso.
É verdade que vivo no tal «limiar da pobreza». Quanto a solidão, é mal de que me não queixo. Estou sempre rodeado dum bando de fantasmas. Agora mesmo um deles se sentou aqui à minha ilharga, nesta velha poltrona onde costumo reclinar-me quando me sinto mais cansado, e me está a espremer a bossa das recordações com relatos de aventuras que ambos vivemos pelos montes atrás das cabras.
Era muito vaidoso e muito crendeiro o meu compincha de gandaia.
Por vaidade, não largava uma caneta de tinta permanente que a mãe lhe dera por ter feito exame de terceira.
Por crendice, um dia em que a perdeu, foi pedir à Tia Ermelinda que lha responsasse.
Antes de se concentrar, a velha pitonisa inquiriu:
— E quando deste pela falta da caneta?
— Hoje ao vir do monte com a rês.
— E tens a certeza que a levaste contigo?
— Certezinha! Trago-a sempre no bolso de fora do casaco, bem à vista de toda a gente…
— Então conta-me tudo o que fizeste hoje. Passos que deste, pessoas com quem falaste...
— Ó Tia Ermelinda? Mas isto é algum exame de consciência? Eu não venho pedir que me confesse. Venho pedir que me response a caneta!
— Eu sei, meu filho. Mas preciso de dar algumas pistas a Sant'António. Também não vamos exigir que o Santinho adivinhe tudo, não te parece?
— Bem. Se assim é, tome nota.
E o Liró, que assim se chamou em vida o meu fantasma de agora, deu ali conta minuciosa de tudo quanto fizera naquele dia, não esquecendo que, durante a tarde, bebera água na fontela da Corga de Sebastião Fernandes.
A Tia Ermelinda ouviu, bichanou o responso e disse:
— A caneta não está perdida, quero dizer, ainda ninguém a encontrou. De modo que, amanhã vais procurá-la, começando pela fontela da Corga de Sebastião Fernandes.
Liró não pregou olho. E, mal luziu o buraco, saltou do ninho e correu à Corga de Sebastião Fernandes. Lá estava a caneta à borda da fontela. Veio ter comigo:
— Vou dar umas arrochadas à Ermelinda.
— Porquê?
— Para ela ver que não lhe tenho medo.
— E porque é que lhe havias de ter medo?
— Porque é bruxa... Não vês com que limpeza ela adivinhou onde estava a caneta?
— Isso também eu adivinhava e mais não sou bruxo.
— Não acredito.
— Ó lorpa? Pensa um pouco. Trazias a caneta no bolso de fora do casaco. Debruçaste-te para beber, caiu-te. Nada mais natural.
— És capaz de ter razão.
— Claro que tenho. Deixa a mulher em paz.
Adiante, estava eu a meter a rês, aparece-me o Liró meio espavorido:
— Ó Marinheiro? Ó Marinheiro acode-me que estou perdido.
Não te preocupes. Alguém te há-de achar.
— Perdi cinco ovelhas. Se o meu pai dá por ela, mata-me!
— Não se perdia grande coisa.
— Ai tu ainda brincas?
— Que queres que te faça?
— Me venhas ajudar a procurá-las.
— Ainda não merendei.
— Também eu não. Mas temos de aproveitar enquanto se vê. Em caindo a noite, berimbau é gaita...
Fomos à procura das ovelhas. O Liró bem gritava: «Rata cá rabona? Mé!... mé!...» Mas só o eco lhe respondia na desoladora solidão do crepúsculo e dos montes.
— Bem — disse eu. — Só te resta uma coisa.
— O quê?
— Pedires à Tia Ermelinda que tas response.
O Liró foi ter com a vizinha. A velha pitonisa mastigou o responso e disse:
— As ovelhas estão bem. Não te sei dizer onde, mas estão bem.
— Ó Tia Ermelinda, response-mas outra vez, por favor.
— Vai descansado. Enquanto elas não aparecerem, vou-tas responsar todos os dias.
O Liró apanhou uma tareia do pai que lhe ficou de lembrança. As ovelhas só apareceram oito dias depois no meio dum giestal. Interim, uma delas, que andava prenha, dera à luz.
Vinha o Liró com elas, feliz da vida, rua acima, diz-lhe a Tia Ermelinda, da soleira da porta:
— Vês, como valeu a pena responsá-las?
— E bem responsadas Tia Ermelinda! Eram cinco, vieram seis...

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Au jardin

Au jardin

Léon DIERX
Le soir fait palpiter plus mollement les plantes
Autour d’un groupe assis de femmes indolentes
Dont les robes, ainsi que d’amples floraisons,
D’une blanche harmonie argentent les gazons.
Une ombre par degrés baigne ces formes vagues :
Et sur les bracelets, les colliers et les bagues
Qui chargent les poignets, les poitrines, les doigts,
Avec le luxe lourd des femmes d’autrefois,
Du haut d’un ciel profond d’azur pâle et sans voiles
L’étoile qui s’allume, allume mille étoiles.
Le jet d’eau dans la vasque au murmure discret
Retombe en brouillard fin sur les bords ; l’on dirait
Qu’arrêtant les rumeurs de la ville au passage
Les arbres agrandis rapprochent leur feuillage.
Pour recueillir l’écho d’une mer qui s’endort
Très loin, au fond d’un golfe où fut jadis un port.
Elles ont alangui leurs regards et leurs poses
Au silence divin qui les unit aux choses.
Et qui fait, sur leur sein qu’il gonfle, par moment
Passer un fraternel et doux frémissement.
Chacune dans son cœur laisse en un rêve tendre
La candeur et la nuit par souffles lents descendre ;
Et toutes respirant ensemble dans l’air bleu
La jeune âme des fleurs dont il leur reste un peu,
Exhalent en retour leurs âmes confondues
Dans des parfums où vit 1’âme des fleurs perdues.
 Léon DIERX (1838-1912)

Sa biographie

Portrait de Léon DIERX
Léon Dierx, né à Saint-Denis de La Réunion le 31 mars 1838 et mort à Paris le 12 juin 1912, est un poète parnassien et peintre académique français.
Léon Dierx naît dans la villa de Saint-Denis aujourd’hui appelée villa Déramond-Barre, que son grand-père a rachetée en 1830. Il y vit jusqu’en 1860, année de son installation en France métropolitaine.
Après une enfance passée sur l’Ile de la Réunion, Léon Dierx gagne la France pour y faire ses études. A Paris, il rencontre Emile Bellier, étudiant créole exilé comme lui. Dierx délaisse peu à peu l’Université, au profit de la lecture et de l’écriture. Il décide de devenir poète.
En 1858, son premier recueil, ‘Aspirations’, est publié. Avec Bellier, Léon Dierx voyage. A partir de 1963, le réunionnais côtoie Leconte de Lisle, chef de file des Parnassiens.
En 1864, il fait partie des poètes parnassiens qui se réunissent autour de Catulle Mendès, avec Sully Prudhomme, Villiers de L’Isle-Adam, José-Maria de Heredia, Albert Glatigny, quand Paul Verlaine, âgé de 20 ans, fait la connaissance de ce groupe.
Mais Dierx ne peut plus vivre à la charge de sa famille, car la situation économique de la Réunion est déplorable. Il doit alors retrouver les bancs de l’école. Reçu à l’Ecole Centrale, il ne finira pas son cursus. Léon Dierx devient alors un modeste employé de bureaux. En 1867, son recueil ‘Les lèvres closes’ est publié, œuvre qui est considérée comme sa plus aboutie. Dès lors, Dierx écrit moins. A partir de 1879, il est employé au Ministère de l’instruction publique, avec l’aide de Guy de Maupassant. En octobre 1898, à la mort de Mallarmé, Dierx est désigné comme nouveau ‘prince des poètes’. Le XXème siècle le célèbre comme un grand poète, et le réunionnais s’éteint heureux de son parcours.
Le peintre Paul Chabas (1869-1937) le représente sur un grand tableau commandé par l’éditeur Alphonse Lemerre aux côtés de Jules Claretie, Paul Arène, Paul Bourget, José-Maria de Heredia, Auguste Dorchain ou Marcel Prévost. Ce tableau, Chez Alphonse Lemerre, à Ville D’Avray a été présenté au salon de 1895 et représente le souhait de l’éditeur des poètes parnassiens de les immortaliser dans le jardin de sa propriété.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Coimbra, 1 de Fevereiro de 1979.


ESPELHO

Ah, olhos da velhice
Cheios de sol passado
E de sombra futura!
Ah, faróis de lonjura
Sem luz de esperança!
Meus olhos de criança
Cansados de o não ser.
Meus olhos de vidente
Condenados a ter
A bruma do presente
Como razão de ver.

MIGUEL TORGADIÁRIO XIII

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

MEAUS DOS MIXTOS

Hoje, terceiro domingo de Setembro, fui à missa a Meaus dos Mixtos, aldeia galega hoje pouco menos que deserta, mas ainda em meados do século passado um centro comercial florescente e muito concorrido. «Vinham gentes de Zamora abastecer-se em Meaus! –, gostam de sublinhar os poucos residentes que ainda por lá resistem. E apontam a dedo as belas casas de cantaria, hoje fechadas, outrora grandes comércios, desde uma agência bancária à farmácia.
Comecei a familiarizar-me com Meaus na imprensa montalegrense da Primeira República, a propósito da tomadia (por contrabando) do administrador do concelho, na altura a autoridade máxima cá dos sítios, por um guarda-fiscal do posto de Padroso. Procurem no jornal “O Combate» que vale a pena.
A missa era às onze. Cheguei sobre a hora e corri para a igreja.
É um templo pequeno. Mesmo assim, não estava cheio. Uns vinte fiéis, se tanto, e todos maiores de sessenta anos. Notei que todos me olhavam e sorriam com simpatia, satisfeitos e agradecidos por eu ir compartilhar com eles aquela confraternização dominical.
Acompanhei-os o melhor que pude nos sinais exteriores, mas, quanto a orações, não abri a boca. Primeiro por não estar muito seguro da cartilha. Segundo porque, rezando eles em galego, tive medo de destoar.
Acabada a missa, fui à sacristia pedir a bênção ao senhor abade, um rapaz novo e simpático, e aproveitei para uma vista de olhos pelos santos.
Novidade, apenas um busto, cabeça ou retrato dum Santo Cristo de terracota numa peanha de madeira embutida na parede, entre o púlpito e o arco-cruzeiro, coisa recente, assim me pareceu. Todos os outros, uns nove, se não errei na conta, num tríptico de talha antiga, atrás do altar. Identifiquei S. Brás, S. Bento, S. Domingos, duas Nossas Senhoras, S. António de Lisboa. Gostei de ver um santo português em terra estranha. «Olá, patrício?», cumprimentei, no silêncio do meu coração. E olhando para ele, assim de pé rosado, túnica pelo artelho, cintura quebrada pelo cordão, rostinho mimoso, Menino ao colo, com o seu quê de feminino, lembrei-me duma história de galegos que eu ouvia contar quando garoto. Perguntava um deles:
— Mira? Santo António é santo ou santa?
— Num che sei dicir se Santo António é santo ou santa. O que che sei dicir é que Santo António é madre de Nossa Senhora.
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 107 e s.)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

EUGÉNIO

Eugénio de Andrade fez na semana passada 82 anos. A partir de certa altura, os aniversários são crepusculares rituais contra o esquecimento. Mas este era especial. Eugénio está doente, muito doente, e festejar o seu aniversário era um pouco como ficar algum tempo a seu lado segurando-lhe a cabeça na mão. Por isso os amigos decidiram juntar-se na sua casa do Passeio Alegre (a casa que Eugénio sempre quis que fosse, mais do que sua, a casa da própria poesia encheu-se de gente) para escutar de novo a voz dos seus versos. Eugénio não se sentou nessa noite no lugar da primeira fila onde sempre nos habituámos a vê-lo. No seu quarto do andar de cima, talvez dormisse. E, como num sonho, talvez, quem sabe?, distantemente lhe chegasse através das paredes translúcidas da doença o murmúrio de palavras antigas e perfeitas: mãe, mar, verão, memória. Ou o ruído caloroso das palmas no final de cada leitura. Nunca uma distância foi tão grande e tão intransponível como aquela, de alguns poucos imensos metros, separando o poeta da sua poesia, que é como quem diz separando-o de si mesmo.
Há no sofrimento algo de profundamente imoral. E algo de humilhante na luta da vida para negar a morte. «Tudo o que faz o verão subir a prumo / chegou ao fim. / / O frio, a sua teia branca, (...) não tardará», e, no entanto, a existência obstina-se contra a obscuridade, o corpo contra a sua própria determinação. «Fora / do corpo haverá alguma coisa?», algum móbil, alguma grande razão para além da razão?
A vida de Eugénio, ou a parte mais vital e, como dizer?, mais intransigente dela, foi, toda a gente o sabe, a sua poesia. Desapossado da poesia (Eugénio já não escreve; qualquer que seja o exasperado desígnio que move a vida contra a morte, o corpo contra o tempo, a poesia já não é para aí chamada), há algo que nem a doença nem o sofrimento podem tirar-lhe: aquilo que (a desperta luz dos sentidos, o fulgor rumoroso dos seres e das coisas) nos deu. Mas mesmo isso, mesmo a memória da infância ou, mais sombria e espessa, a memória dos amigos mortos, mesmo aquela passagem da Ilíada em que Príamo suplica a Aquiles que lhe entregue o corpo exangue de Heitor, mesmo os asfódelos em flor de Corfu, as maçãs verdes de Cézanne, os primeiros compassos da Lacrimosa, pouca coisa agora são.
O homem despojadamente frágil e humano que jaz no leito de Eugénio ou que paradamente se senta no sofá perto da janela (que pensará ele de nós quando nos olha sem nos ver ou quando, vindo de longínquos lugares, regressa de súbito ao nosso lúcido convívio e às nossas preocupações?) é hoje o palco extremo de um milagre mais fundo e mais inquieto do que o da poesia. E nenhuma palavra, nenhum poema é suficientemente grave para falar disso. Porque estamos todos sós. E porque não temos respostas. Provavelmente nem as perguntas certas temos, quanto mais respostas!
Uma grande ausência, um segredo que ninguém pronunciava em voz alta, asfixiava a casa, os móveis, os retratos na parede. Era talvez contra a ausência e contra a solidão que nesse dia de aniversário se erguiam, dizendo versos, as vozes dos amigos. Como se cada uma dissesse: «Tanta palavra para chegar a ti, / tanta palavra, / sem nenhuma alcançar / entre as ruínas (...)».

Visão, 27/01/2005 (Manuel António Pina)

domingo, 26 de janeiro de 2014

La jeune fille et le ramier

Les rumeurs du jardin disent qu’il va pleuvoir ;
Tout tressaille, averti de la prochaine ondée :
Et toi qui ne lis plus, sur ton livre accoudée,
Plains-tu l’absent aimé qui ne pourra te voir ?
Là-bas, pliant son aile et mouillé sous l’ombrage,
Banni de l’horizon qu’il n’atteint que des yeux,
Appelant sa compagne et regardant les cieux,
Un ramier, comme toi, soupire de l’orage.
Laissez pleuvoir, ô coeurs solitaires et doux !
Sous l’orage qui passe il renaît tant de choses.
Le soleil sans la pluie ouvrirait-il les roses ?
Amants, vous attendez, de quoi vous plaignez-vous ?

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Coimbra, 22 de Janeiro de 1979.


SOLIDÃO

Não aprendo a lição.
A vida bem me ensina
Mas a minha atenção
Perde-se em cada esquina
Do caminho.
Adivinho
O que sei.
E nunca sei senão que me enganei
E que vou mais sozinho.

Por isso canto a dar sinal de mim
E a exorcizar o medo.
Este medo
Em segredo
Que me atormenta.
Medo animal,
Primordial,
Carnal,
Que quanto mais avanço mais aumenta.

MIGUEL TORGADIÁRIO XIII

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

TRÊS COELHOS DUMA CAJATADA

Quando um homem está a contar com uma coisa e lhe sai outra, fica sempre desconsolado. Foi o que aconteceu comigo nesta quadra natalícia. Estava a contar com neve. Afinal, o céu teimou em manter-se limpo, o sol a brilhar, a geada a cair. Uma espécie de Janeiro antecipado. Nos meus tempos de garoto, dias destes, só a partir do Ano Novo. Era então que o sol se tornava álgido, a lua altaneira, as geadas de palmo.
Foi por dias desses que eu aprendi a patinar no gelo. Nos lameiros onde eu guardava as vacas, nessa época do ano sempre encharcados, formavam-se grandes lagos de carambelo, verdadeiras tentações para umas acrobacias de patinagem artística, as quais, no meu caso, não tinham arte nenhuma. Aquilo era tombo que te parte, com grandes mossas no esqueleto, dum modo particular nas partes mais salientes, género cóccix e cotovelos. Por amor ao esqueleto, mudei de táctica. Em vez de esqui, passei a fazer escu. Consistia ele em cavalgar molhos de urzes ou giestas e descer as encostas vidradas a grande velocidade, rédea firme, tronco inclinado para trás, pernas em estradiota, goelas abertas, numa atitude selvagem, nem mais nem menos ridícula do que aquela que mais tarde vi fazer a pessoas mais civilizadas na montanha russa da Feira popular de Lisboa.
A brincadeira valeu-me alguns rasgões nos fundilhos, outras tantas bofetadas de minha mãe e ordens expressas de meu pai para me deixar de cavalgadas no gelo. E dado que meu pai não era de brincadeiras, eu passei a esconder-me para as fazer. Ia lá para uma touça com uma fonte e uma lameira em plano inclinado, sempre coberta de gelo e tão recatada entre urzeiras como o toucador duma gueixa entre biombos. Era aí que eu cavalgava matões a meu bel-prazer e à rédea solta.
Ora uma tarde em que eu me entregava ao meu desporto favorito e proibido, sai-me dentre as urzes o meu cão com um coelho na boca. Isto não teria nada de anormal se, atrás do coelho, não viesse uma ratoeira a rastos. Recolhi o coelho ao bornal, fiz umas festas ao Dezoito, que assim se chamava o cão, atirei com a ratoeira à lura dum carvalho antigo e com o assunto para trás das costas.
Era isto a um domingo e eu aluno da quarta classe. Vim para casa, meti as vacas, ceei mais cedo e fui dormir a S. Vicente, onde, segunda-feira, a professora exigia a nossa presença logo ao romper o dia. À hora do recreio, estava o meu vizinho Joaquim do Fontenova, praça velha, direito comigo. Pelos vistos, a ratoeira era dele. Neguei, claro.
— Ai sim? E onde foste tu pelo coelho que ontem trouxeste para casa?
— Agarrou-o o meu Dezoito.
— Na minha ratoeira?
— Não vi ratoeira nenhuma, já te disse!
— Acuso-te à professora.
— Acusa. Quero lá saber.
Nesta altura da discussão já estávamos rodeados por todos os alunos das quatro classes e uma boa parte dos vizinhos de S. Vicente. E até o senhor abade, que regressava do passal de cabeção, batina, tamancos e sacho às costas, quis saber que galega parira ali? Inteirado, pôs aquela cara de bondade e riso que era a dele e disse:
— Vá. Ide à vossa vida. Deixai-me aqui só com o Fontenova e o Marinheiro que lhes quero um segredo.
A malta dispersou. O pároco voltou-se para o Fontenova e inquiriu:
— Quantos coelhos tens em casa?
— Um.
— Não. Tu, às ratoeiras que armas todas as noites, deves ter mais?
— Bem. Se o senhor abade tem alguma incumbência, podem-se arranjar mais alguns.
— Quantos?
— Uns quatro ou cinco.
— Preciso apenas de dois.
— Onde quer que lhos deixe?
— Entrega-los aqui ao Marinheiro.
— Para quê?!
— Ele te dizer onde está a ratoeira.
— E o senhor abade fica por ele? — atalhei eu a rir-me.
Ele ameaçou-me com um tabefe:
— Anda, que tu és malandro, mas desta já eu te safei.
No domingo seguinte, estando eu no adro entre um ror de rapazes e homens à espera do toque de entrada para a missa, vem de lá o Faia de Travassos, sempre pantomineiro, bate-me duas palmadinhas nas costas e exclama:
— Ora aqui está o homem que matou três coelhos duma cajatada...

Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 125 e ss.)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Coimbra, 17 de Janeiro de 1978.


INVERNO

Apagou-se a fogueira.
Que frio na lareira
Do coração!
Neva
Na solidão
Da vida.
E o vento traz e leva
Um recado de eterna despedida.

Amor! Amor!
Sei ainda o teu nome redentor,
Chamo ainda por ti a cada hora!
Arde outra vez em mim
Como ardias outrora,
Os dias de ventura.
Não me deixes assim
Nesta algidez de morte prematura.

Miguel Torga, DIÁRIO XIII
 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

UM FUMADOR CONFESSA-SE

Eu sei que «fumar mata», que «bloqueia as artérias e provoca ataques cardíacos e enfartes», que «prejudica o esperma e reduz a fertilidade», não tenho dúvida nenhuma de que «o fumo contém benzeno, nitrosaminas, formaldeído e cianeto de hidrogénio» e que palavras tão ameaçadoras hão-de decerto causar doenças esquisitas e terríveis. Perguntar-me-ão então por que fumo. E a única resposta que tenho, não sendo talvez satisfatória para algumas pessoas, é: « porque quero».
Como não pretendo (sou um tipo sociável) matar, bloquear as artérias ou prejudicar o esperma «dos que me rodeiam», evito fumar perto de quem não queira (pois tem todo o direito de não querer) fumar o meu fumo, mesmo respirando eu diariamente o fumo dos seus escapes e o perfume das suas águas-de-colónia (gasto fortunas em anti-histamínicos para tratar alergias apanhadas em elevadores!).
E aceito com toda a condescendência de que sou capaz que me expulsem dos seus, dos não-fumadores, restaurantes e dos seus «locais fechados» (na verdade nem aprecio especialmente «locais fechados», cabeças fechadas incluídas). Já me é mais difícil aceitar as suas, e as do director-geral de Saúde, lições de moral, e o seu paternalismo, até porque as artérias e o esperma são (perdoe-se-me o pretensiosismo) meus, e enquanto não entrarem em autogestão sou eu quem os representa. É certo que, se o tabaco um dia me causar um AVC ou outro tanglomanglo qualquer, os não-fumadores irão pagar com os seus impostos o meu internamento, mas também eu pagarei com os meus o seu e ninguém me vê a proibi-los de se atafulharem de macburgers e de álcool (no caso do álcool, os meus impostos - eu, que não bebo - andam há anos a pagar, além do internamento, a fisioterapia dos estropiados que diariamente quem bebe, fumador e não-fumador, provoca na estrada).
Vendo bem as coisas, em vez de pôr-me uma estrela amarela ao peito e me encerrar em gafarias com exaustão de fumos, o Estado deveria atribuir-me subsídio de risco e o Dr. Teixeira dos Santos condecorar-me pela minha contribuição para a redução do défice e para a sustentabilidade da Segurança Social. De facto, pago mais impostos que os não-fumadores e, além disso, morrerei cedo (e nem sequer de rosas coroado), em vez de me arrastar por aí cheio de saúde até aos 100 anos, a receber pensão.
Reconheço que tusso como Lee Marvin em Cat Ballou, que, se calha ter que subir a pé um lanço de escadas ou correr atrás de um autocarro, chego ao fim com os bofes de fora e o coração aos pinotes, e admito que os meus pulmões, outrora belissimamente cor-de-rosa, se assemelhem hoje a um saco de borras de café, mas ninguém tem nada a ver com o preço que pago para fruir o prazer de um Cohiba ou de um Romeu e Julieta. Não tenho a mínima intenção de ser o morto mais saudável do meu cemitério e agora, «when I'm sixty four», aos que lamentam, ó Nise, o meu estado (mesmo assim, podia ser pior...), respondo, com Humphrey Bogart, o óbvio: quanto pior se acorda de manhã melhor se passou a noite.

NM, 13/01/2008

sábado, 11 de janeiro de 2014

Coimbra, 11 de Janeiro de 1980.


LÁPIDE

Luís Vaz de Camões.
Poeta infortunado e tutelar.
Fez o milagre de ressuscitar
A Pátria em que nasceu.
Quando, vidente, a viu
A caminho da negra sepultura,
Num poema de amor e de aventura
Deu-lhe a vida
Perdida.
E agora,
Nesta segunda hora
De vil tristeza,
Imortal,
É ele ainda a única certeza
De Portugal.


Miguel TorgaDIÁRIO (XIII)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Coimbra, 9 de Janeiro de 1979.


MUSA

Se vens, perco a razão
E digo o que não quero.
Se não vens, desespero
E gasto o coração
A desejar-te.
Ah, como é difícil a arte
De te ser fiel!
E como é cruel
A tua tirania!
Noite e dia
Pregado
A um madeiro sagrado
De amargura.
Duramente sujeito,
Ou então contrafeito
Na minha liberdade sem loucura.

MIGUEL TORGADIÁRIO (XIII)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

MEAUS DOS MIXTOS

Hoje, terceiro domingo de Setembro, fui à missa a Meaus dos Mixtos, aldeia galega hoje pouco menos que deserta, mas ainda em meados do século passado um centro comercial florescente e muito concorrido. «Vinham gentes de Zamora abastecer-se em Meaus! –, gostam de sublinhar os poucos residentes que ainda por lá resistem. E apontam a dedo as belas casas de cantaria, hoje fechadas, outrora grandes comércios, desde uma agência bancária à farmácia.
Comecei a familiarizar-me com Meaus na imprensa montalegrense da Primeira República, a propósito da tomadia (por contrabando) do administrador do concelho, na altura a autoridade máxima cá dos sítios, por um guarda-fiscal do posto de Padroso. Procurem no jornal “O Combate» que vale a pena.
A missa era às onze. Cheguei sobre a hora e corri para a igreja.
É um templo pequeno. Mesmo assim, não estava cheio. Uns vinte fiéis, se tanto, e todos maiores de sessenta anos. Notei que todos me olhavam e sorriam com simpatia, satisfeitos e agradecidos por eu ir compartilhar com eles aquela confraternização dominical.
Acompanhei-os o melhor que pude nos sinais exteriores, mas, quanto a orações, não abri a boca. Primeiro por não estar muito seguro da cartilha. Segundo porque, rezando eles em galego, tive medo de destoar.
Acabada a missa, fui à sacristia pedir a bênção ao senhor abade, um rapaz novo e simpático, e aproveitei para uma vista de olhos pelos santos.
Novidade, apenas um busto, cabeça ou retrato dum Santo Cristo de terracota numa peanha de madeira embutida na parede, entre o púlpito e o arco-cruzeiro, coisa recente, assim me pareceu. Todos os outros, uns nove, se não errei na conta, num tríptico de talha antiga, atrás do altar. Identifiquei S. Brás, S. Bento, S. Domingos, duas Nossas Senhoras, S. António de Lisboa. Gostei de ver um santo português em terra estranha. «Olá, patrício?», cumprimentei, no silêncio do meu coração. E olhando para ele, assim de pé rosado, túnica pelo artelho, cintura quebrada pelo cordão, rostinho mimoso, Menino ao colo, com o seu quê de feminino, lembrei-me duma história de galegos que eu ouvia contar quando garoto. Perguntava um deles:
– Mira? Santo António é santo ou santa?
– Num che sei dicir se Santo António é santo ou santa. O que che sei dicir é que Santo António é madre de Nossa Senhora.
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 107 e s.)

domingo, 29 de dezembro de 2013

Crise Securitária

Correio da Manhã - 28 Dezembro 2013 - 21h33

Sentir o Direito
A crise e o desespero social não têm produzido um efeito multiplicador da criminalidade
A crise e o desespero social não têm produzido, aparentemente, um efeito multiplicador da criminalidade. Em Portugal, à imagem do que acontece noutros países caídos em recessão, as estatísticas oficiais têm revelado uma diminuição da criminalidade, incluindo a violenta. Os homicídios, cujo número subiu, representam a principal exceção a esta tendência.
Duas inquietações irrompem neste contexto. Por um lado, é necessário averiguar se as estatísticas encontram alguma explicação conjuntural, escondendo, por exemplo, variações das "cifras negras". Por outro lado, é preciso compreender se esta evolução comprova uma adequação da política criminal seguida nos últimos anos à realidade da criminalidade atual.
Os fenómenos de deslocalização podem explicar picos de criminalidade. A instalação de sistemas de videovigilância ou a reabilitação de bairros frequentados por delinquentes não eliminam, por si só, a criminalidade – afastam-na. E o aumento da criminalidade pode estar associado à previsão de novos crimes e a uma maior intolerância na perseguição de outros.
Pelo contrário, a crise e a recessão não determinam, necessariamente, o aumento dos crimes contra a propriedade. Os estudos criminológicos publicados por David Cantor e Keneth Land, em 1985, referentes à evolução registada nos Estados Unidos após a II Grande Guerra, revelam que a subida da taxa de desemprego não implica o aumento da criminalidade.
Tal como vaticinei, nas páginas do CM, em 2010, pode haver menos bens em circulação e uma consequente redução das oportunidades de praticar o crime num contexto recessivo. A explosão do consumo, diferentemente, conduz a um aumento dos crimes contra a propriedade, como aconteceu na Europa do pós-guerra ou, entre nós, após o 25 de Abril.
Mas a questão fundamental que a redução da criminalidade suscita é a justificação das políticas securitárias. Aumentar as penas, restringir a liberdade condicional, investir em mais prisões e reforçar as polícias parece ter perdido, de repente, o sentido. O discurso securitário de há alguns anos atrás, apoiado no sentimento de (in)segurança, não tem fundamento.
Como nada mudou de significativo na política criminal, perguntar-se-á se a redução da criminalidade não justificará, afinal, uma reorientação dos esforços para a reinserção social e para outras áreas preventivas do sistema. Os frutos da política criminal aferem-se a médio e longo prazo e é desta reorientação que vai depender a redução da criminalidade no futuro.

Fernanda Palma, Professora catedrática de Direito Penal

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Coimbra, 27 de Dezembro de 1977.


SÍSIFO

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, DIÁRIO (XIII)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

PROVAVELMENTE NATAL

Há algo de cerimonioso no Natal que irrita e seduz: a iconografia kitsch, a simbologia (no entanto vasta: um deus nascendo, menino, entre os homens e, ao mesmo tempo, um homem nascendo humanamente entre os deuses, um vértice vertiginoso em que, por um momento, divindade e humanidade se tocam) reduzida à extrema literal idade por séculos de púlpito, o comércio dos presentes.
E o melancólico ritual das crónicas natalícias. Em mais de trinta anos de jornais, devo ter escrito, pelo menos, duas dúzias delas. E de todas as vezes me sentei diante da máquina de escrever (agora diante do insondável écran do computador) com a inquieta sensação de ter sido, também eu, apanhado (e como poderia não o ser?) numa amável armadilha.
Rubem Braga repetiu uma vez no Cruzeiro uma crónica que já publicara antes, justificando-se com a desconcertada circunstância de Van Gogh não ter pintado os Girassóis (cito de cor, os exemplos podem ter sido outros) para serem olhados apenas uma vez, nem Beethoven composto a Pastoral para uma única audição. Fosse eu Rubem Braga e, provavelmente, escreveria hoje, de novo, uma crónica já longínqua intitulada «Os dois natais». Assim resta-me a memória.
Porque tudo é memória. Alguém – talvez eu, mas quem? – lembrando-se de mim. A mãe, na cozinha, fazia os fritos e eu punha a mesa. Do candeeiro da sala pendiam fitas douradas e estrelas de papel de lustro e tínhamos colocado raminhos de azevinho nos espelhos do louceiro. No presépio, minuciosamente construído com musgo, serradura, algodão em rama, palhinhas, faltava o rei mago preto, que caíra e se quebrara no ano anterior, e, no seu lugar, avultava insolentemente, por birra do meu irmão mais novo, um jogador do Sporting, com bola e tudo!
Em que lugar o passado permanece imovelmente passado, passando para sempre? Quem, como num sonho, se lembra agora de tudo isto?
O Natal era então tempo de solidão. Uma brevíssima eternidade parava, sem eu saber, a meu lado, muito perto de mim, tão perto que quase podia tocá-la. E, contudo, ocultamente e culpadamente, como se pecasse, eu sentia-me infeliz sem motivo. Às vezes fechava-me no quarto a chorar em silêncio, até que a mãe vinha bater à porta chamando para o jantar. Depois, à meia-noite, abria um a um os coloridos embrulhos dos presentes, pressentindo confusamente que, ao recebê-los, os perdia para sempre. Da mesma forma inconcreta como o Natal e eu próprio nos perdíamos também.
Por alguma grande razão me recordo destas coisas. Ou se recordam elas de mim: a mãe, a sala, a toalha bordada sobre a mesa, o cão ladrando lá fora no quintal. Talvez, quem sabe?, seja preciso arrancar as raízes, «cortar a árvore, fazer uma cruz e levá-la às costas». Talvez seja preciso criar raízes na ausência de tudo. Mas para que?, para que?
Hoje sinto-me como um intruso nesse secreto Natal infantil passado. As minhas palavras perturbam o seu silêncio, o meu olhar cega-o, a minha memória afasta-o irremediavelmente de mim. Dele apenas imagens dispersas ficaram: fitas, estrelas, figurinhas de barro. O resto já não me pertence. Ou (como posso sabê-le?) pertence-me num sítio que já não me pertence. E onde não me é dado, nem às minhas palavras, alcançar.

Visão, 26/12/2002
Manuel António Pina