sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

MEAUS DOS MIXTOS

Hoje, terceiro domingo de Setembro, fui à missa a Meaus dos Mixtos, aldeia galega hoje pouco menos que deserta, mas ainda em meados do século passado um centro comercial florescente e muito concorrido. «Vinham gentes de Zamora abastecer-se em Meaus! –, gostam de sublinhar os poucos residentes que ainda por lá resistem. E apontam a dedo as belas casas de cantaria, hoje fechadas, outrora grandes comércios, desde uma agência bancária à farmácia.
Comecei a familiarizar-me com Meaus na imprensa montalegrense da Primeira República, a propósito da tomadia (por contrabando) do administrador do concelho, na altura a autoridade máxima cá dos sítios, por um guarda-fiscal do posto de Padroso. Procurem no jornal “O Combate» que vale a pena.
A missa era às onze. Cheguei sobre a hora e corri para a igreja.
É um templo pequeno. Mesmo assim, não estava cheio. Uns vinte fiéis, se tanto, e todos maiores de sessenta anos. Notei que todos me olhavam e sorriam com simpatia, satisfeitos e agradecidos por eu ir compartilhar com eles aquela confraternização dominical.
Acompanhei-os o melhor que pude nos sinais exteriores, mas, quanto a orações, não abri a boca. Primeiro por não estar muito seguro da cartilha. Segundo porque, rezando eles em galego, tive medo de destoar.
Acabada a missa, fui à sacristia pedir a bênção ao senhor abade, um rapaz novo e simpático, e aproveitei para uma vista de olhos pelos santos.
Novidade, apenas um busto, cabeça ou retrato dum Santo Cristo de terracota numa peanha de madeira embutida na parede, entre o púlpito e o arco-cruzeiro, coisa recente, assim me pareceu. Todos os outros, uns nove, se não errei na conta, num tríptico de talha antiga, atrás do altar. Identifiquei S. Brás, S. Bento, S. Domingos, duas Nossas Senhoras, S. António de Lisboa. Gostei de ver um santo português em terra estranha. «Olá, patrício?», cumprimentei, no silêncio do meu coração. E olhando para ele, assim de pé rosado, túnica pelo artelho, cintura quebrada pelo cordão, rostinho mimoso, Menino ao colo, com o seu quê de feminino, lembrei-me duma história de galegos que eu ouvia contar quando garoto. Perguntava um deles:
— Mira? Santo António é santo ou santa?
— Num che sei dicir se Santo António é santo ou santa. O que che sei dicir é que Santo António é madre de Nossa Senhora.
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 107 e s.)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

EUGÉNIO

Eugénio de Andrade fez na semana passada 82 anos. A partir de certa altura, os aniversários são crepusculares rituais contra o esquecimento. Mas este era especial. Eugénio está doente, muito doente, e festejar o seu aniversário era um pouco como ficar algum tempo a seu lado segurando-lhe a cabeça na mão. Por isso os amigos decidiram juntar-se na sua casa do Passeio Alegre (a casa que Eugénio sempre quis que fosse, mais do que sua, a casa da própria poesia encheu-se de gente) para escutar de novo a voz dos seus versos. Eugénio não se sentou nessa noite no lugar da primeira fila onde sempre nos habituámos a vê-lo. No seu quarto do andar de cima, talvez dormisse. E, como num sonho, talvez, quem sabe?, distantemente lhe chegasse através das paredes translúcidas da doença o murmúrio de palavras antigas e perfeitas: mãe, mar, verão, memória. Ou o ruído caloroso das palmas no final de cada leitura. Nunca uma distância foi tão grande e tão intransponível como aquela, de alguns poucos imensos metros, separando o poeta da sua poesia, que é como quem diz separando-o de si mesmo.
Há no sofrimento algo de profundamente imoral. E algo de humilhante na luta da vida para negar a morte. «Tudo o que faz o verão subir a prumo / chegou ao fim. / / O frio, a sua teia branca, (...) não tardará», e, no entanto, a existência obstina-se contra a obscuridade, o corpo contra a sua própria determinação. «Fora / do corpo haverá alguma coisa?», algum móbil, alguma grande razão para além da razão?
A vida de Eugénio, ou a parte mais vital e, como dizer?, mais intransigente dela, foi, toda a gente o sabe, a sua poesia. Desapossado da poesia (Eugénio já não escreve; qualquer que seja o exasperado desígnio que move a vida contra a morte, o corpo contra o tempo, a poesia já não é para aí chamada), há algo que nem a doença nem o sofrimento podem tirar-lhe: aquilo que (a desperta luz dos sentidos, o fulgor rumoroso dos seres e das coisas) nos deu. Mas mesmo isso, mesmo a memória da infância ou, mais sombria e espessa, a memória dos amigos mortos, mesmo aquela passagem da Ilíada em que Príamo suplica a Aquiles que lhe entregue o corpo exangue de Heitor, mesmo os asfódelos em flor de Corfu, as maçãs verdes de Cézanne, os primeiros compassos da Lacrimosa, pouca coisa agora são.
O homem despojadamente frágil e humano que jaz no leito de Eugénio ou que paradamente se senta no sofá perto da janela (que pensará ele de nós quando nos olha sem nos ver ou quando, vindo de longínquos lugares, regressa de súbito ao nosso lúcido convívio e às nossas preocupações?) é hoje o palco extremo de um milagre mais fundo e mais inquieto do que o da poesia. E nenhuma palavra, nenhum poema é suficientemente grave para falar disso. Porque estamos todos sós. E porque não temos respostas. Provavelmente nem as perguntas certas temos, quanto mais respostas!
Uma grande ausência, um segredo que ninguém pronunciava em voz alta, asfixiava a casa, os móveis, os retratos na parede. Era talvez contra a ausência e contra a solidão que nesse dia de aniversário se erguiam, dizendo versos, as vozes dos amigos. Como se cada uma dissesse: «Tanta palavra para chegar a ti, / tanta palavra, / sem nenhuma alcançar / entre as ruínas (...)».

Visão, 27/01/2005 (Manuel António Pina)

domingo, 26 de janeiro de 2014

La jeune fille et le ramier

Les rumeurs du jardin disent qu’il va pleuvoir ;
Tout tressaille, averti de la prochaine ondée :
Et toi qui ne lis plus, sur ton livre accoudée,
Plains-tu l’absent aimé qui ne pourra te voir ?
Là-bas, pliant son aile et mouillé sous l’ombrage,
Banni de l’horizon qu’il n’atteint que des yeux,
Appelant sa compagne et regardant les cieux,
Un ramier, comme toi, soupire de l’orage.
Laissez pleuvoir, ô coeurs solitaires et doux !
Sous l’orage qui passe il renaît tant de choses.
Le soleil sans la pluie ouvrirait-il les roses ?
Amants, vous attendez, de quoi vous plaignez-vous ?

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Coimbra, 22 de Janeiro de 1979.


SOLIDÃO

Não aprendo a lição.
A vida bem me ensina
Mas a minha atenção
Perde-se em cada esquina
Do caminho.
Adivinho
O que sei.
E nunca sei senão que me enganei
E que vou mais sozinho.

Por isso canto a dar sinal de mim
E a exorcizar o medo.
Este medo
Em segredo
Que me atormenta.
Medo animal,
Primordial,
Carnal,
Que quanto mais avanço mais aumenta.

MIGUEL TORGADIÁRIO XIII

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

TRÊS COELHOS DUMA CAJATADA

Quando um homem está a contar com uma coisa e lhe sai outra, fica sempre desconsolado. Foi o que aconteceu comigo nesta quadra natalícia. Estava a contar com neve. Afinal, o céu teimou em manter-se limpo, o sol a brilhar, a geada a cair. Uma espécie de Janeiro antecipado. Nos meus tempos de garoto, dias destes, só a partir do Ano Novo. Era então que o sol se tornava álgido, a lua altaneira, as geadas de palmo.
Foi por dias desses que eu aprendi a patinar no gelo. Nos lameiros onde eu guardava as vacas, nessa época do ano sempre encharcados, formavam-se grandes lagos de carambelo, verdadeiras tentações para umas acrobacias de patinagem artística, as quais, no meu caso, não tinham arte nenhuma. Aquilo era tombo que te parte, com grandes mossas no esqueleto, dum modo particular nas partes mais salientes, género cóccix e cotovelos. Por amor ao esqueleto, mudei de táctica. Em vez de esqui, passei a fazer escu. Consistia ele em cavalgar molhos de urzes ou giestas e descer as encostas vidradas a grande velocidade, rédea firme, tronco inclinado para trás, pernas em estradiota, goelas abertas, numa atitude selvagem, nem mais nem menos ridícula do que aquela que mais tarde vi fazer a pessoas mais civilizadas na montanha russa da Feira popular de Lisboa.
A brincadeira valeu-me alguns rasgões nos fundilhos, outras tantas bofetadas de minha mãe e ordens expressas de meu pai para me deixar de cavalgadas no gelo. E dado que meu pai não era de brincadeiras, eu passei a esconder-me para as fazer. Ia lá para uma touça com uma fonte e uma lameira em plano inclinado, sempre coberta de gelo e tão recatada entre urzeiras como o toucador duma gueixa entre biombos. Era aí que eu cavalgava matões a meu bel-prazer e à rédea solta.
Ora uma tarde em que eu me entregava ao meu desporto favorito e proibido, sai-me dentre as urzes o meu cão com um coelho na boca. Isto não teria nada de anormal se, atrás do coelho, não viesse uma ratoeira a rastos. Recolhi o coelho ao bornal, fiz umas festas ao Dezoito, que assim se chamava o cão, atirei com a ratoeira à lura dum carvalho antigo e com o assunto para trás das costas.
Era isto a um domingo e eu aluno da quarta classe. Vim para casa, meti as vacas, ceei mais cedo e fui dormir a S. Vicente, onde, segunda-feira, a professora exigia a nossa presença logo ao romper o dia. À hora do recreio, estava o meu vizinho Joaquim do Fontenova, praça velha, direito comigo. Pelos vistos, a ratoeira era dele. Neguei, claro.
— Ai sim? E onde foste tu pelo coelho que ontem trouxeste para casa?
— Agarrou-o o meu Dezoito.
— Na minha ratoeira?
— Não vi ratoeira nenhuma, já te disse!
— Acuso-te à professora.
— Acusa. Quero lá saber.
Nesta altura da discussão já estávamos rodeados por todos os alunos das quatro classes e uma boa parte dos vizinhos de S. Vicente. E até o senhor abade, que regressava do passal de cabeção, batina, tamancos e sacho às costas, quis saber que galega parira ali? Inteirado, pôs aquela cara de bondade e riso que era a dele e disse:
— Vá. Ide à vossa vida. Deixai-me aqui só com o Fontenova e o Marinheiro que lhes quero um segredo.
A malta dispersou. O pároco voltou-se para o Fontenova e inquiriu:
— Quantos coelhos tens em casa?
— Um.
— Não. Tu, às ratoeiras que armas todas as noites, deves ter mais?
— Bem. Se o senhor abade tem alguma incumbência, podem-se arranjar mais alguns.
— Quantos?
— Uns quatro ou cinco.
— Preciso apenas de dois.
— Onde quer que lhos deixe?
— Entrega-los aqui ao Marinheiro.
— Para quê?!
— Ele te dizer onde está a ratoeira.
— E o senhor abade fica por ele? — atalhei eu a rir-me.
Ele ameaçou-me com um tabefe:
— Anda, que tu és malandro, mas desta já eu te safei.
No domingo seguinte, estando eu no adro entre um ror de rapazes e homens à espera do toque de entrada para a missa, vem de lá o Faia de Travassos, sempre pantomineiro, bate-me duas palmadinhas nas costas e exclama:
— Ora aqui está o homem que matou três coelhos duma cajatada...

Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II — Crónicas de Barroso (p. 125 e ss.)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Coimbra, 17 de Janeiro de 1978.


INVERNO

Apagou-se a fogueira.
Que frio na lareira
Do coração!
Neva
Na solidão
Da vida.
E o vento traz e leva
Um recado de eterna despedida.

Amor! Amor!
Sei ainda o teu nome redentor,
Chamo ainda por ti a cada hora!
Arde outra vez em mim
Como ardias outrora,
Os dias de ventura.
Não me deixes assim
Nesta algidez de morte prematura.

Miguel Torga, DIÁRIO XIII
 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

UM FUMADOR CONFESSA-SE

Eu sei que «fumar mata», que «bloqueia as artérias e provoca ataques cardíacos e enfartes», que «prejudica o esperma e reduz a fertilidade», não tenho dúvida nenhuma de que «o fumo contém benzeno, nitrosaminas, formaldeído e cianeto de hidrogénio» e que palavras tão ameaçadoras hão-de decerto causar doenças esquisitas e terríveis. Perguntar-me-ão então por que fumo. E a única resposta que tenho, não sendo talvez satisfatória para algumas pessoas, é: « porque quero».
Como não pretendo (sou um tipo sociável) matar, bloquear as artérias ou prejudicar o esperma «dos que me rodeiam», evito fumar perto de quem não queira (pois tem todo o direito de não querer) fumar o meu fumo, mesmo respirando eu diariamente o fumo dos seus escapes e o perfume das suas águas-de-colónia (gasto fortunas em anti-histamínicos para tratar alergias apanhadas em elevadores!).
E aceito com toda a condescendência de que sou capaz que me expulsem dos seus, dos não-fumadores, restaurantes e dos seus «locais fechados» (na verdade nem aprecio especialmente «locais fechados», cabeças fechadas incluídas). Já me é mais difícil aceitar as suas, e as do director-geral de Saúde, lições de moral, e o seu paternalismo, até porque as artérias e o esperma são (perdoe-se-me o pretensiosismo) meus, e enquanto não entrarem em autogestão sou eu quem os representa. É certo que, se o tabaco um dia me causar um AVC ou outro tanglomanglo qualquer, os não-fumadores irão pagar com os seus impostos o meu internamento, mas também eu pagarei com os meus o seu e ninguém me vê a proibi-los de se atafulharem de macburgers e de álcool (no caso do álcool, os meus impostos - eu, que não bebo - andam há anos a pagar, além do internamento, a fisioterapia dos estropiados que diariamente quem bebe, fumador e não-fumador, provoca na estrada).
Vendo bem as coisas, em vez de pôr-me uma estrela amarela ao peito e me encerrar em gafarias com exaustão de fumos, o Estado deveria atribuir-me subsídio de risco e o Dr. Teixeira dos Santos condecorar-me pela minha contribuição para a redução do défice e para a sustentabilidade da Segurança Social. De facto, pago mais impostos que os não-fumadores e, além disso, morrerei cedo (e nem sequer de rosas coroado), em vez de me arrastar por aí cheio de saúde até aos 100 anos, a receber pensão.
Reconheço que tusso como Lee Marvin em Cat Ballou, que, se calha ter que subir a pé um lanço de escadas ou correr atrás de um autocarro, chego ao fim com os bofes de fora e o coração aos pinotes, e admito que os meus pulmões, outrora belissimamente cor-de-rosa, se assemelhem hoje a um saco de borras de café, mas ninguém tem nada a ver com o preço que pago para fruir o prazer de um Cohiba ou de um Romeu e Julieta. Não tenho a mínima intenção de ser o morto mais saudável do meu cemitério e agora, «when I'm sixty four», aos que lamentam, ó Nise, o meu estado (mesmo assim, podia ser pior...), respondo, com Humphrey Bogart, o óbvio: quanto pior se acorda de manhã melhor se passou a noite.

NM, 13/01/2008

sábado, 11 de janeiro de 2014

Coimbra, 11 de Janeiro de 1980.


LÁPIDE

Luís Vaz de Camões.
Poeta infortunado e tutelar.
Fez o milagre de ressuscitar
A Pátria em que nasceu.
Quando, vidente, a viu
A caminho da negra sepultura,
Num poema de amor e de aventura
Deu-lhe a vida
Perdida.
E agora,
Nesta segunda hora
De vil tristeza,
Imortal,
É ele ainda a única certeza
De Portugal.


Miguel TorgaDIÁRIO (XIII)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Coimbra, 9 de Janeiro de 1979.


MUSA

Se vens, perco a razão
E digo o que não quero.
Se não vens, desespero
E gasto o coração
A desejar-te.
Ah, como é difícil a arte
De te ser fiel!
E como é cruel
A tua tirania!
Noite e dia
Pregado
A um madeiro sagrado
De amargura.
Duramente sujeito,
Ou então contrafeito
Na minha liberdade sem loucura.

MIGUEL TORGADIÁRIO (XIII)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

MEAUS DOS MIXTOS

Hoje, terceiro domingo de Setembro, fui à missa a Meaus dos Mixtos, aldeia galega hoje pouco menos que deserta, mas ainda em meados do século passado um centro comercial florescente e muito concorrido. «Vinham gentes de Zamora abastecer-se em Meaus! –, gostam de sublinhar os poucos residentes que ainda por lá resistem. E apontam a dedo as belas casas de cantaria, hoje fechadas, outrora grandes comércios, desde uma agência bancária à farmácia.
Comecei a familiarizar-me com Meaus na imprensa montalegrense da Primeira República, a propósito da tomadia (por contrabando) do administrador do concelho, na altura a autoridade máxima cá dos sítios, por um guarda-fiscal do posto de Padroso. Procurem no jornal “O Combate» que vale a pena.
A missa era às onze. Cheguei sobre a hora e corri para a igreja.
É um templo pequeno. Mesmo assim, não estava cheio. Uns vinte fiéis, se tanto, e todos maiores de sessenta anos. Notei que todos me olhavam e sorriam com simpatia, satisfeitos e agradecidos por eu ir compartilhar com eles aquela confraternização dominical.
Acompanhei-os o melhor que pude nos sinais exteriores, mas, quanto a orações, não abri a boca. Primeiro por não estar muito seguro da cartilha. Segundo porque, rezando eles em galego, tive medo de destoar.
Acabada a missa, fui à sacristia pedir a bênção ao senhor abade, um rapaz novo e simpático, e aproveitei para uma vista de olhos pelos santos.
Novidade, apenas um busto, cabeça ou retrato dum Santo Cristo de terracota numa peanha de madeira embutida na parede, entre o púlpito e o arco-cruzeiro, coisa recente, assim me pareceu. Todos os outros, uns nove, se não errei na conta, num tríptico de talha antiga, atrás do altar. Identifiquei S. Brás, S. Bento, S. Domingos, duas Nossas Senhoras, S. António de Lisboa. Gostei de ver um santo português em terra estranha. «Olá, patrício?», cumprimentei, no silêncio do meu coração. E olhando para ele, assim de pé rosado, túnica pelo artelho, cintura quebrada pelo cordão, rostinho mimoso, Menino ao colo, com o seu quê de feminino, lembrei-me duma história de galegos que eu ouvia contar quando garoto. Perguntava um deles:
– Mira? Santo António é santo ou santa?
– Num che sei dicir se Santo António é santo ou santa. O que che sei dicir é que Santo António é madre de Nossa Senhora.
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 107 e s.)

domingo, 29 de dezembro de 2013

Crise Securitária

Correio da Manhã - 28 Dezembro 2013 - 21h33

Sentir o Direito
A crise e o desespero social não têm produzido um efeito multiplicador da criminalidade
A crise e o desespero social não têm produzido, aparentemente, um efeito multiplicador da criminalidade. Em Portugal, à imagem do que acontece noutros países caídos em recessão, as estatísticas oficiais têm revelado uma diminuição da criminalidade, incluindo a violenta. Os homicídios, cujo número subiu, representam a principal exceção a esta tendência.
Duas inquietações irrompem neste contexto. Por um lado, é necessário averiguar se as estatísticas encontram alguma explicação conjuntural, escondendo, por exemplo, variações das "cifras negras". Por outro lado, é preciso compreender se esta evolução comprova uma adequação da política criminal seguida nos últimos anos à realidade da criminalidade atual.
Os fenómenos de deslocalização podem explicar picos de criminalidade. A instalação de sistemas de videovigilância ou a reabilitação de bairros frequentados por delinquentes não eliminam, por si só, a criminalidade – afastam-na. E o aumento da criminalidade pode estar associado à previsão de novos crimes e a uma maior intolerância na perseguição de outros.
Pelo contrário, a crise e a recessão não determinam, necessariamente, o aumento dos crimes contra a propriedade. Os estudos criminológicos publicados por David Cantor e Keneth Land, em 1985, referentes à evolução registada nos Estados Unidos após a II Grande Guerra, revelam que a subida da taxa de desemprego não implica o aumento da criminalidade.
Tal como vaticinei, nas páginas do CM, em 2010, pode haver menos bens em circulação e uma consequente redução das oportunidades de praticar o crime num contexto recessivo. A explosão do consumo, diferentemente, conduz a um aumento dos crimes contra a propriedade, como aconteceu na Europa do pós-guerra ou, entre nós, após o 25 de Abril.
Mas a questão fundamental que a redução da criminalidade suscita é a justificação das políticas securitárias. Aumentar as penas, restringir a liberdade condicional, investir em mais prisões e reforçar as polícias parece ter perdido, de repente, o sentido. O discurso securitário de há alguns anos atrás, apoiado no sentimento de (in)segurança, não tem fundamento.
Como nada mudou de significativo na política criminal, perguntar-se-á se a redução da criminalidade não justificará, afinal, uma reorientação dos esforços para a reinserção social e para outras áreas preventivas do sistema. Os frutos da política criminal aferem-se a médio e longo prazo e é desta reorientação que vai depender a redução da criminalidade no futuro.

Fernanda Palma, Professora catedrática de Direito Penal

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Coimbra, 27 de Dezembro de 1977.


SÍSIFO

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, DIÁRIO (XIII)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

PROVAVELMENTE NATAL

Há algo de cerimonioso no Natal que irrita e seduz: a iconografia kitsch, a simbologia (no entanto vasta: um deus nascendo, menino, entre os homens e, ao mesmo tempo, um homem nascendo humanamente entre os deuses, um vértice vertiginoso em que, por um momento, divindade e humanidade se tocam) reduzida à extrema literal idade por séculos de púlpito, o comércio dos presentes.
E o melancólico ritual das crónicas natalícias. Em mais de trinta anos de jornais, devo ter escrito, pelo menos, duas dúzias delas. E de todas as vezes me sentei diante da máquina de escrever (agora diante do insondável écran do computador) com a inquieta sensação de ter sido, também eu, apanhado (e como poderia não o ser?) numa amável armadilha.
Rubem Braga repetiu uma vez no Cruzeiro uma crónica que já publicara antes, justificando-se com a desconcertada circunstância de Van Gogh não ter pintado os Girassóis (cito de cor, os exemplos podem ter sido outros) para serem olhados apenas uma vez, nem Beethoven composto a Pastoral para uma única audição. Fosse eu Rubem Braga e, provavelmente, escreveria hoje, de novo, uma crónica já longínqua intitulada «Os dois natais». Assim resta-me a memória.
Porque tudo é memória. Alguém – talvez eu, mas quem? – lembrando-se de mim. A mãe, na cozinha, fazia os fritos e eu punha a mesa. Do candeeiro da sala pendiam fitas douradas e estrelas de papel de lustro e tínhamos colocado raminhos de azevinho nos espelhos do louceiro. No presépio, minuciosamente construído com musgo, serradura, algodão em rama, palhinhas, faltava o rei mago preto, que caíra e se quebrara no ano anterior, e, no seu lugar, avultava insolentemente, por birra do meu irmão mais novo, um jogador do Sporting, com bola e tudo!
Em que lugar o passado permanece imovelmente passado, passando para sempre? Quem, como num sonho, se lembra agora de tudo isto?
O Natal era então tempo de solidão. Uma brevíssima eternidade parava, sem eu saber, a meu lado, muito perto de mim, tão perto que quase podia tocá-la. E, contudo, ocultamente e culpadamente, como se pecasse, eu sentia-me infeliz sem motivo. Às vezes fechava-me no quarto a chorar em silêncio, até que a mãe vinha bater à porta chamando para o jantar. Depois, à meia-noite, abria um a um os coloridos embrulhos dos presentes, pressentindo confusamente que, ao recebê-los, os perdia para sempre. Da mesma forma inconcreta como o Natal e eu próprio nos perdíamos também.
Por alguma grande razão me recordo destas coisas. Ou se recordam elas de mim: a mãe, a sala, a toalha bordada sobre a mesa, o cão ladrando lá fora no quintal. Talvez, quem sabe?, seja preciso arrancar as raízes, «cortar a árvore, fazer uma cruz e levá-la às costas». Talvez seja preciso criar raízes na ausência de tudo. Mas para que?, para que?
Hoje sinto-me como um intruso nesse secreto Natal infantil passado. As minhas palavras perturbam o seu silêncio, o meu olhar cega-o, a minha memória afasta-o irremediavelmente de mim. Dele apenas imagens dispersas ficaram: fitas, estrelas, figurinhas de barro. O resto já não me pertence. Ou (como posso sabê-le?) pertence-me num sítio que já não me pertence. E onde não me é dado, nem às minhas palavras, alcançar.

Visão, 26/12/2002
Manuel António Pina

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

OS DOIS NATAIS


O Menino Jesus, deitado, olhava em volta e não compreendia. Entrevia difusamente o rosto fatigado da mãe, o vulto de S. José mais atrás, os olhos grandes da vaca e do burro fitando-o. Chegavam-lhe de forma obscura o murmúrio das vozes e o cheiro dos animais; tinha frio. Via também, em qualquer sítio, como num sonho, rostos disformes, punhos, gente gritando, a enorme sombra de uma cruz, e não compreendia.
A dor, quando as mãos trémulas da mãe cortaram o cordão umbilical, o sabor do sangue dela na boca, as primeiras lágrimas, a primeira carícia, o corpo de Nossa Senhora, branco e transido, era tudo tão estranho! Um deus, sobre húmidas palhas, coberto de trapos, aprendia naquele instante coisas graves e essenciais: o frio, a dor, o mistério dos sentidos, o medo indistinto de algo que ainda não podia saber.
O deus transformara-se num frágil e confuso ser de sangue e de músculos, tocado por um dom extraordinário e novo, o da vida. Os pulmões do Menino enchiam-se de áspero ar, os olhos de incompreensíveis imagens do mundo vasto e profundo do estábulo, e o sangue corria violentamente nas suas veias, líquido e quente, ruborizando-lhe as faces. E quando os seus pequenos dedos afloraram pela primeira vez o rosto próximo da mãe, o deus aprendeu subitamente, com uma alegria desconhecida, qualquer coisa densa e maravilhosa inacessível aos deuses.
Por um singular milagre repetido, um homem igual aos outros homens jazia imensamente numa tosca manjedoura, no fim de uma longa viagem interior. Um homem condenado a viver uma tragédia absurda, como a de todos os outros homens, um homem solitário e ferido de brusca e humana vida, tocado pela glória extrema da transformação e da morte. Os seus olhos olhavam pela primeira vez tudo, incapazes talvez de compreender o íntimo desígnio divino que o movia. Em algum improvável lugar, no entanto, os deuses conheciam agora algo único e absoluto sobre os homens e sobre si mesmos.
Pelo segredo essencial da infância, da «balya», por onde passa o caminho dos homens para o reino dos céus, passava também, naquele dia distante, o caminho dos deuses para a terra dos homens. Um deus nascera entre os homens, mas um homem como todos os outros nascera igualmente entre os deuses. E enquanto no estábulo de Belém a mãe dava o peito ao menino deus, noutro estábulo, noutro sítio, Adão menino estendia os braços e chegava sem pecado aos ramos altos da árvore proibida.

Manuel António Pina - JN, 25/12/1984

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1977

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1977 – A braços com os meus fantasmas, que nunca deixam de estar presentes nesta data, vou atiçando o lume na lareira. É meu Pai, é minha Mãe, é meu Avô… Estão sentados a meu lado, calados, num recolhimento letal. Vieram porque eu vim, e como há muito me disseram tudo o quem tinha a dizer, fazem-me apenas companhia. É uma consoada suplementar, consecutiva à outra, mas silenciosa e abstinente, de que não compartilha o resto da família, que já dorme. A noite é comprida, e nenhum de nós tem pressa. E vamos deixando correr as horas sacrais, à espera da luz da manhã. Nela, eles regressarão discretamente ao mundo tranquilo dos mortos e eu acordarei estremunhado no mundo inquietante dos vivos. Até que outro Natal nos junte de novo, aqui ainda, unidos pela minha memória, ou lá onde os imagino lembrados de mim no eterno esquecimento.
Miguel Torga, DIÁRIO (XIII)

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1976

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1976 – São tantas da noite. Sentado à lareira, com o rádio aberto a transmitir os gorjeios de uma senhora que me parecem um comentário escarninho ao que escrevo, medito na minha vida, cada vez mais perto do fim. O que fiz e não fiz, o peso que tiveram em tudo quanto realizei literariamente, e até humanamente, esta paisagem e as sombras que a habitam, a distância a que fiquei da meta que me propus ou que as circunstâncias me iam propondo, a luta que travei para ser convivente até ao limite da dignidade, e como foram catastróficos certos desfechos afectivos. Poucos quiseram compreender que um poeta nem pode deixar de ser rebelde, nem ceder à tentação de se ver transformado em bandeira. Que o seu destino não é sentir-se identificado. Mas que, embora isolado do semelhante, não está obrigatoriamente separado dele. E que, faça o que fizer, fica sempre fora da expectativa dos outros e da sua própria. Tão desencontrado consigo mesmo, que só se encontra para se perder ainda mais.
E, a pôr destas achas na fogueira, aqui estou à espera que o Menino Jesus nasça e que o seu divino desamparo dê lenitivo ao meu. Só que ele tem mil Natais para recomeçar. E eu não.

DIÁRIO (XII), Miguel Torga

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1975.


NATAL

Outro Natal.
Outra comprida noite
De consoada,
Fria,
Vazia,
Bonita só de ser imaginada.

Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve,
Recitado
Pela neve
A cair, ao de leve,
No telhado.

Miguel Torga: DIÁRIO (XII)

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1973.


NATAL

Todos os anos, nesta data exacta,
Momentos antes
De fechar o cartório
De poeta
– Um registo civil ultra-real –,
O mago desse arquivo de presságios
Regista de antemão o mesmo nome
No seu livro de assentos:
– Jesus… – repete com melancolia,
A consumar a morte prematura
Do nascituro,
E a lamentar que a mãe, Virgem Maria,
Humana criatura,
Continue a ter filhos no futuro
Condenados à mesma desventura.

Miguel Torga, DIÁRIO (XII) 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ofélia e a eternidade


Quem amamos nasce antes de haver o tempo. Passou o tempo e Ofélia era ainda a única mulher no mundo. Eu a via passar na rua, afastava os cortinados e o universo ganhava súbita explicação. Ela parava no passeio, sentindo que estava sendo contemplada. Meus olhos a tornavam sagrada. E não havia palavra.
Passou o tempo mas a cintura dela se conservava menininha, convidando as mãos a circum-navegarem seu corpo.
– Você é linda, Ofélia.
Mas ela! Não eram essas as palavras que mexiam em sua alma.
– Diga que sou eterna – pedia.
Eu não era capaz de cumprir aquele pedido. Algum senão me desviava a voz. E nunca repeti tão solicitadas palavras.
Afinal, o destino nos separou. Único culpado dessa pequena morte: o tempo, esse animal que defeca memórias. Eu fui para a cidade, ela permaneceu onde sempre existira. No último momento, afastei a cortina e a vi sob a árvore. Saí para me despedir:
– Está apanhando sombra?
– Estou sendo sombra, eu.
Ela se entregava a enigmas, frases desfeitas. Anunciei:
– Vou para o litoral.
– Vai ver o mar?
– Certamente.
Antes de eu desaparecer ela me pediu outra vez. Não queria eu proclamar sua eternidade? Abanei a cabeça. Dessa vez até aceitei um esforço. Mas, debaldemente. Aquelas palavras me pareciam uma heresia, coisa demasiado excessiva. Eternidade é assunto divino. Mais sagrado que a morte.
Saí por anos. Foi mais a ausência que o afastamento. Regressei à pequena vila para a reencontrar. Ofélia já reeditara sua existência. Tivera seis filhos. Dois que já não constavam, vencidos por um correr das águas. Dizem. Naquelas mortes de seus meninos ela morrera também. Ela fora comeles. Para esse inominável lá.
– De lá já voltei ninguém – disse ela, pedindo desculpas de sua tristeza quando nos reencontrámos.
Atacada de incorrigível melancolia. Agora, ela se tinha toda convertido em sombra. E nenhuma luz lhe dava alento. O luto em seus olhos me avisou: os cortinados de meu quarto se fechariam sobre todas as ruas onde ela passasse.
Sugeri-lhe que nos déssemos encontro. Breve, sem consequência. Marcámos nas traseiras dos Correios. Cheguei-me e não soube que palavras escolher. O momento pedia-me um idioma que não há. Eu me faltava. Ela me olhou como se eu fosse quem tivesse demorado. Como se eu fosse culpado.
– Vou-lhe contar uma história – disse eu apenas para amachucar o silêncio.
Ela reagiu prontamente:
– Nunca, mas nunca, me conte histórias.
Era tanta a veemência que eu me atrapalhei com o sem-querer da minha ofensa.
– Odeio história – rematou ela.
Deixou uma pausa, esperando em pose e apelo. Aguardava, quem sabe, que eu perguntasse porquê. Como eu me mantivesse mudo, ela somou:
– História é contra a eternidade.
Acenei com a cabeça. Perdera os filhos, não perdera aquela viciada ideia.
– Sou eterna, não lembra?
Depois ela me segurou na mão e me perguntou:
– Me trouxe um mar?
– Sim.
Mentira. Eu só podia mentir perante o pedido. Ela ficou, imóvel, esperando. Esperava? Que mar lhe havia eu de dar, se nenhum me coubera, nem grão de areia, nem concha, nem búzio. E, no entanto, ela estava defronte a mim como se aquele momento resumisse toda nossa existência. Fiquei tão desarmado que uma lágrima desaflorou em meus olhos. Depois aconteceu, sem decisão pensada. Aquilo me saiu, à parte de minha vontade. De repente, quase impercetíveis, as palavras me afluíram:
– Você é eterna, Ofélia.
Ela levantou o rosto e me enfrentou como se me descobrisse em primeira vez. Se aproximou e me beijou. Estendeu os dedos e recolheu esse esboço de água em meus olhos. Depois, com voz sumida:
– Obrigada por este mar.
Desde aquele momento, nunca mais voltaram a morrer seus dois filhos falecidos. Que eu diria: meus dois filhos de lá. Porque sou Ofélia, eu mesmo que desfolho esta estória. Sim, sou a mulher a quem, certa vez, na ponta dos dedos, foi oferecido o mar. O resto é a minha eternidade contra a história. Pois nunca existiu homem nenhum que me tivesse amado e empreendesse, alguma vez, viagem alguma para além deste lugar.

Mia Couto | na berma de nenhuma estrada e outros contos

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

AS VACAS, O RAPAZ E O BURRO


Após longas vigílias e apurados cálculos, os sábios chegaram à conclusão de que o homem apareceu à face da terra há 3 000 000 de anos. Eu, sem queimar muito as pestanas, cheguei facilmente à descoberta de que os meus antepassados se fixaram em Peireses durante o período da Idade da Pedra Lascada, aí pelo ano 200 000 a. C.
Eram muito religiosos os meus antepassados. Estou a vê-los de joelhos e mãos postas, rosto virado a oriente, em adoração ao Sol. Para eles, o Sol era o deus do bem, da luz, do calor. O único verdadeiro e origem de todas as coisas.
Imaginem agora a angústia dos meus antepassados quando, por esta altura do ano, viam o Sol a descair no horizonte, dia a dia mais baixo, mais oblíquo, mais frio. O terror de que o Sol caísse no buraco, morresse, não voltasse. O pânico da Lua, das trevas, do mal.
Como os meus antepassados do Paleolítico, também eu odeio o solstício do Inverno. Às cinco horas é noite… Quem pode aguentar uma coisa destas?
Na cidade, com as ruas bem iluminadas e cheias de gente, o dia prolonga-se até às seis, às sete, às oito. Aqui na aldeia, mal desce o crepúsculo, recolhe tudo a penates. Foi o que eu hoje fiz. E agora aqui estou eu de pés à lareira e olhos de cavernícola na vidraça. Lá fora começa a nevar. É a primeira nevada deste ano. Nevada, se continuar a cair. Que, por enquanto, são apenas uns farrapitos raros, leves como penas de pardal caídas do beirado.
Porque será que agora neva tão pouco? No meu tempo, caía nevão de meter medo. Lembro-me.
Um dia a neve atingiu um metro à porta de casa. Que, na serra, devia ter o dobro ou mais. Nem os penedos se viam. Tudo liso.
Após oito dias de prisão domiciliária, meu pai abriu a porta às vacas, pôs-me a cavalo do burro e disse-me:
– Vai-as chegar a beber.
– Aonde?
– Elas quiserem. Toca aí pela calhelha de Vale-da-Ponte.
Vacas e burro não pareciam muito afoitos. Eu ainda menos. Por fim a Formosa, que tinha sangue na guelra, tomou a dianteira. Parecia um navio quebra-gelos. A Castanha seguiu-lhe o rasto. O burro atrás da Castanha. Eu a cavalo do burro.
Dum lado e doutro do caminho, a toda a largura do horizonte, tudo branco e liso. Nem pio de ave, nem latido de cão. Um silêncio de planeta sem vida.
Eu ia fiado em que a Formosa, chegada a uma pipela onde costumava beber, matasse a sede e retrocedesse. Mas a pipela estava oculta pela neve. A vaca prosseguiu. Gritei-lhe:
Formosa? Volta ao rego Formosa! Vaca?
Pois sim. Peito em quilha aproado à neve, a Formosa parecia decidida a escalar o Evereste.
Ainda tentei deitar o burro fora da rota, ultrapassar as vacas, obriga-las a inverter a marcha. Mas o sendeiro não me obedeceu. Eu bem lhe vergastava as orelhas com o cajado e as ilhargas com os socos fechados. O tipo espirrava pelas ventas, batia o fandango com as patas, mas lá atirar-se à neve, está quieto. Botei-me abaixo, disposto a ir eu. Mas depressa recuei, com a neve pelos peitos. Voltei a cavalgar e: «Seja o que Deus quiser…»
Fomos ter a Gralhós. A meio da povoação, havia um tanque com o seu chafariz. À volta do tanque uma boa mancha de neve derretida. As vacas pararam a beber. Os de Gralhós acorreram, surpresos e intrigados:
– Onde vais com as vacas, Marinheiro?
– Chegá-las a beber.
– E então em Peireses não há água?
– Elas gostam mais desta.
Eles riam-se:
– Está bem, rapaz. Que lhes faça bom proveito.
As vacas beberam e regressaram pela mesma rota. Voltei a não encontrar vivalma pelo caminho. Meu pai perguntou-me:
– As vacas beberam?
– Beberam sim senhor.
– E o burro?
– Também.
– E tu?
– Não me apeteceu.
– Então mete-as à corte e anda para o lume qu’inda obreijas.
Como vêem, eu tive aventuras dignas de Ulisses.
O que não tive foi um Homero que dignamente as cantasse.

 Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 73 e ss.)