segunda-feira, 15 de abril de 2013

15 – Abril (domingo de Páscoa). [1990]


       Tento reinventar este dia de festa e não é fácil. Porque todos os dias marcantes do ano tenho eu de os recriar, eles são já apenas um sinal a apagar-se e nada deles é ainda o que fossem por si como foram. Páscoa da ressurreição, do retorno da terra à sua força germinativa, às flores silvestres, à água que transborda pelas encostas da serra, das camélias de um jardim de outrora, da alegria sem razão que é a única que a tem. Mas sobretudo é um dia de grandes dobres de sinos, ampliados em ecos pela distância. Dão a volta à montanha, despertam-na em todos os recantos, dão a volta ao Mundo todo, dão a volta à vida toda. Os mortos calam-se na sua humilhação, é a hora do triunfo sobre eles e a memória do fim. Aleluia. Ouço na rádio os cânticos de exaltação e de glória. Mas numa breve inflexão do ondeado da alegria, há insinuada e de novo a memória da morte. E a alegria fecha um círculo em que a vida e a morte se envolvem uma na outra e são apenas a verdade do homem. Aleluia. Dobre de sinos da ressurreição. Mas as raízes dela estão no túmulo donde se ressurgiu…
*
       Pois. A glória, o ser falado, o «vir nos jornais». Melhor, porém, que ser «falado» é ser «pensado». Porque ser falado é ser posto a nu. E eu sou muito friorento.
*
       Que aridez me alastra na alma. Essa desertificação progressiva, não é fácil saber porquê. Ler, escrever, pensar, que é que isso quer dizer? A idade, eu sei. O esgotamento do que nos fez vibrar e seria agora coisa vã. Mas que outros motivos para a vibração alheia? Porque os não vejo ou imagino. A suspensão da História fez-me escrever sobre ela. Mas agora apenas me dá jeito vivê-la. O Mundo inteiro sofre de paralisia e os que ainda mexem têm a doença atrasada. Aliás, o único motivo que os faz ser pensantes é a ruína do Leste. Leio tudo o que fala disso, mas já sei o que vou ler. Regressar à filosofia, para quê? A grande fase da literatura é apenas o comércio. Traduções. Encontros para venda de traduções. Mas não se imagina o que escrever hoje para ser traduzido amanhã. Escrever sobre quê? Tenho a alma mais seca do que um caroço. Tenho nela mais vazio do que. A sensação tremenda que se tem é a de que tudo de súbito envelheceu. Mesmo o que amanhã poderá renascer, de momento sentimo-lo ridiculamente inútil. Enquanto me queixava da desagregação do Mundo, tinha esse mesmo motivo para pensar e ser em escrita. Mas agora o que estamos é a viver esse momento e queixarmo-nos disso já vai atrasado. Nada agora entra a tempo, é suportável que se diga, é aceitável falar-se sobre. O que leio nos jornais é-me extremamente frívolo e ridículo. Nada vale a pena dizer-se, há só que esperar em silêncio. Como é que há tipos possíveis na dimensão da sensatez informada a escrever um romance? Que pode dizer-se além de que nada pode dizer-se? Mas como isso já foi viável dizer-se, que pode mais dizer-se que nada dizer? A desertificação alastra e a tudo foi secando. No deserto universal há só oportunidade para os salteadores. São os literatos da literatura de consumo, os obstinados até à morte na ideia de que Aristóteles é que tem razão, a politiqueirada larápia, os poetas incompreendidos e atrasados com as suas edições «de autor», os mastigadores do já mastigado em ensaísmo e filosofia, os charlatães da parolice da TV, os videiras do jogo da bolsa, os vigaristas de todos os vigários.
       A tarde apaga-se nas janelas da sala. Para a aldeia estoiram foguetes, em honra da Senhora da Esperança. Estoiro eu aqui também o meu foguete pela Esperança de que não tenho Senhora alguma. É a esperança de nada, a esperança em si. E o mais que posso esperar é só estar à espera. Terei ainda vida para saber de quê?
VF 

domingo, 14 de abril de 2013

14 de Abril [1966]

O espelho ficou a sangrar. Mas podia lá esconder de mim mesmo esta verdade de lucidez terrível!: sim, preciso de voltar ao princípio. Preciso de recomeçar. De recomeçar sempre! Eu que desprezo, como leviandades jornalísticas, tudo o que escreveram até hoje a respeito da minha Poesia.
Chora, espelho, chora!
JGF

14 – Abril (sábado). [1990]


       Ontem esteve aqui a Gabriela Llansol e o Augusto, o marido. Tínhamos combinado a vinda aqui (fui, aliás, busca-los no carro ao Banzão, onde moram) e não podia anular o encontro, já proposto há largo tempo. Mas eu estava terrivelmente mal-disposto, com o meu acesso de histeria nervosa (náusea, tontura e o mais do ramalhete) de modo que não pude cumprir a minha sociabilidade. Gabriela é uma escritora singular. Fechada no seu mundo sem portas, a gente lê-a e pressente o seu aviso de «pegar ou largar». Não faz concessões. A dimensão desse seu mundo é o do insólito, do mistério visível, de um impossível possibilitado pela nudez à vista, sem sombras, sem estranheza que se diga estranha, realizada no coração das coisas, mas tangível, sem subentendidos, imediato, real. Ela exige pois uma óptica que não temos e há que inventar. Gabriela diz-me que vários leitores a lêem com entusiasmo. Sinal de que já têm essa óptica. Por mim, não a tenho ainda afinada. O que sinto e vejo é que o seu mundo é coerente, é pois uno, autêntico, não sustentado por qualquer mistificação. E esse é um sinal seguro da sua qualidade. E de que é profundamente original. E de que o alimenta uma segura consciência do que é.
       Conversou-se bastante, apesar de eu estar em dia negativo. (Talvez que se pusesse de parte o tabaco e sobretudo o vinho… Fígado a fazer-me manguitos?). Mas em toda a conversa, pouco me esclareci sobre o seu projecto literário. Suponho mesmo que, fechada nele, pouquíssimo lerá. Pois ler o quê? para quê? Armou a sua tenda no deserto. E os outros escritores moram em casas urbanas. É assim.
*
       Estou sentado ao lado do fogão, olho o lume, ouço o seu rumor. A Regina foi a casa da Titilde, deve estender a conversa até à hora de jantar. Telefonou o Miguel Oliveira da Silva, que está na Praia Grande, a perguntar se podia cá dar uma saltada. Eu estava a acabar o suplício das provas dos ensaios, disse que sim. Mas ele então adiantou a proposta de vir com umas «pessoas amigas» que gostariam de me conhecer ao natural. Disse que não. Estou pois só eu e o fogão. É uma companhia mais agradável que uma qualquer visita ou mesmo um animal doméstico cuja função é essa de estar connosco e aliviar-nos um pouco o peso de estarmos a sós connosco. O lume. Está lá tudo. A música do seu rumor que nos vem do fundo da memória, e o encanto de suas chamas que nos inventa qualquer imagem. Está lá tudo. Mas esse tudo, como o de uma música, o pacto que nos estabelece é com o passado, ou antes com o seu imemorial. E para quê um pacto com o futuro? O futuro é a morte. Mesmo o presente reconverte-se em memória, que é o seu estar-sendo. A memória. No meu caso de pensar nela e de ela me pensar o seu nada. Tão pouco de recordação por e de ela me pensar o seu nada. Tão pouco de recordação por ela passa. Iluminação dispersa no ar, pontos breves de referência para à sua volta se abrir a irradiação até ao incognoscível. Aura mágica, auréola. E a suspensão em mim do encantamento. Todos os factos concretos, imagens concretas, são um erro do meu imaginar. Tudo o que recordo é inútil e vão. Ou amargo como um vexame. Olhar o lume. Queimar nele todas as recordações. E ver só, no trémulo das chamas, as sombras que me oscilam na lembrança, ver só na sua iluminação o sorriso breve do que me iluminou…
VF 

sábado, 13 de abril de 2013

Carrazedo do Alvão, 13 de Abril de 1974

        Dólmens. Tento ler neles não sei que recado dos antepassados. Não é impunemente que se nasce em S. Martinho de Anta, ou das Antas, como às vezes vem escrito. A minha memória arcaica exige-me de quando em quando estas visitas tumulares. São os meus dias de fiéis defuntos.
Miguel Torga

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Coimbra, 12 de Abril de 1977


REBATE

Minha terra,
Meu povo,
Dizei-me nesta hora de aflição
Que sempre vos amei,
Que sempre vos cantei,
E que nunca jurei
O vosso nome em vão.

Minha terra,
Meu povo,
Dizei-me nesta hora de agonia
Que essa fidelidade
Desafia
Quem à sombra da noite e à luz do dia
Negue no mundo a vossa eternidade.  
Miguel Torga

12 de Abril [1966]

O trabalho que os fabricantes do mundo positivo têm tido em dar linhas, e muros, e aparência de eternidade domesticada a esta pobre coisa movediça (para lhe poderem chamar realidade) – e vocês a teimarem em diluir tudo, em tornar a Terra num sonho ilógico, onde as mãos escorregam nos contornos desfeitos…
JGF

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Curral de Vacas, Chaves, 11 de Abril de 1974

        O auto da Paixão num pobre lugarejo transmontano transfigurado numa Galileia imaginária, a fonte de Jacob, o Jardim das Oliveiras e o Sinédrio reduzidos a uma bacia cheia de água, a meia dúzia de ramos espetados no chão, a um palanque de feira. Mas nesse cenário ingénuo e sumário, tudo se passou como no verdadeiro – um Cristo do mundo a sofrer as injustiças e agruras do mundo. Pilatos era qualquer regedor, presidente da Câmara ou juiz poltrão a lavar as mãos na hora da verdade; Caifás, o influente poderoso e rancoroso, quem não é por nós é contra nós; Judas, o mau vizinho que muda os marcos e jura peitado; e a turba judaica, a multidão que assistia, mata, queima, esfola, conforme a onda emotiva. Não havia vedetas. Nem o próprio Redentor tentava ultrapassar a medida humana. Todos faziam diligentemente o seu papel, a debitar o texto e a gesticular como a rudeza era servida. A tarde estava de rosas, e essa doçura da natureza emoldurava harmoniosamente aquela lúdica catarse colectiva, teatro e realidade misturados, festa e pesadelo, agonia fingida e vivida. O povo tem isso: sabe encontrar o meio termo feliz, o equilíbrio entre as exigências da alma e as fraquezas do corpo. A tragédia do Calvário é a nossa própria tragédia. Mas Deus é Deus, um ser absoluto. Pode sofrer absolutamente. Nós somos criaturas relativas… Por isso, a esponja de fel que desta vez o Centurião chegou aos lábios de Cristo era um naco de pão de ló ensopado em vinho fino…
Miguel Torga

Coimbra, 11 de Abril de 1977

        Quatro dias de férias que me pareceram fora da realidade nacional, de tão longe que fiquei desta alucinação crispada que continua a ser o nosso quotidiano citadino. Bendita paz transmontana onde as pessoas se mantêm no seu juízo perfeito. Mas regressei, e aqui estou de novo mergulhado na leitura de entrevistas, crónicas, discursos e o mais de que se nutre o sadismo das gazetas. O país alfabeto ainda não deu conta que delira. Que uma febre surda o faz desvairar conforme o capricho da hora. Generalizou-se de tal maneira a tolice, que até dos mais sisudos e sensatos tememos um súbito destempero. Nunca, através da História, as circunstâncias tinham propiciado uma tão extensa e intensa manifestação das nossas qualidades negativas. Os defeitos vinham à tona, mas salteadamente, agora uns, logo outros, e neste e naquele. Desta feita, porém, foi uma explosão maciça que não poupou ninguém. Contagiados do mesmo mal – o da irreflexão e do descomando –, estamos todos convulsivamente a tremer não sei que maleita social e a dizer coisas sem tino. 
Miguel Torga

11 de Abril [1966]

Não há país onde se fale tanto em espírito como em Portugal. O espírito, a vitória do espírito, a juventude do espírito, a política do espírito. Chove espírito de todas as bandas! Ora como entre nós a vida material prima pela desorganização e pela miséria, não me admira que muitos considerem o espírito como uma espécie de resultante da decomposição da matéria. Ainda mais explicitamente: da podridão deste ninho de talos de couve para galinhas e galos tontos de pouca crista.
JGF

11 de Abril de 1978

Segundo Aldous Huxley, as opiniões do escritor (como as do jornalista) não valem mais que as do «homem da rua» (the man in the street). A não ser, digo eu, que eles tenham a cultura, a inteligência, e a autoridade das obras, para não dizer já a competência profissional, para influir na opinião pública. Se isto é «elitismo» consinto que me cortem a cabeça!
Ao técnico eficiente que, não há dez anos, me afirmava em altos berros que «não só o povo português não é inferior, mas eu sustento que ele é o maior e o mais inteligente do mundo!», pergunto eu se ele ainda hoje será dessa opinião?
Este bom homem viu tanto strip-tease, que acabou por ficar strip-tísico!
Estas personagens de Pavese (escritor que tanto admiro) tinham muito em comum com os cínicos, «chateados» e incoerentes dos filmes de Antonioni e Fellini. Mas as minúcias da acção e dos diálogos, e a beleza plástica destes caracteres, do estilo mesmo, dá-nos o autêntico «viver com os outros» – que a nossa literatura infelizmente não consegue sequer sugerir.
JRM 

11 – Abril (quarta). [1990]

       Viemos para Fontanelas sofrer a semana da Paixão. Mas o tempo já sabe que a aleluia vem logo depois e abriu o sol que lá tinha para então e estreou-o já sem paciência para esperar. Paciência tenho eu de ter para desbastar as provas da 3.ª edição do Espaço do Invisível-I, já revistas pelo Luís Amaro. Como é incomodativo reler o que escrevi há 30 anos. As ideias aceito-as, mas não o modo como as escrevo e valorizo. Porque são ideias «cerebrais» e eu já não sou «cerebral». Houve mesmo um certo recuo em relação ao último ensaio Do Mundo Original e que dá o título ao livro. São ensaios «didácticos» quase sempre, explicativos, enredados, escritos com o sangue de um batráquio que se calhar nem é sangue. Uma «ideia» tem de travar-se antes de chegar ao cérebro, ou seja antes de ser «ideia». Eu estou farto da literatura e sinto-me inclinado a remergulhar na filosofia. Mas de uma para a outra interessa-me que passe a emoção que é da arte, sem a secura anatómica mais própria da filosofia. Estou a reler Heidegger como julgo já ter dito, e suponho ter-lhe enfim reconhecido a «alma», depois de lhe saber apenas o «corpo». Cansado da literatura, trespassado um pouco da incerta certeza de que já (agora) não vem a tempo no nosso tempo. A filosofia. A actividade cultural talvez, apesar de tudo, menos contaminada de consumismo, de um modo de estar na cultura quase como numa telenovela brasileira. É uma forma de estar na serenidade da velhice como é próprio de se ser velho. E é tudo.
VF 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

S. Martinho de Anta, 10 de Abril de 1976

        As voltas que a vida dá! O itinerário de um poeta! Acabo de discursar na escola de Sabrosa onde na meninice fiz o exame da quarta classe. Do mesmíssimo estrado que o júri ocupava quando, de sobrolho carregado, apertava o torniquete do interrogatório, falei eu hoje a uma assembleia de cavadores, alguns meus companheiros de então. E o coração ainda me dói da sensação penosa que tive de estar novamente a prestar provas, agora não do que sabia, mas do que era. Do que era num plano humano, cultural e social que estivesse certo no mundo e ali.
Miguel Torga

Coimbra, 10 de Abril de 1977

        Um dia de Páscoa passado no comboio, a ver deslizar, na fascinação e na melancolia de sempre, o microcosmo português. Morro com duas convicções arreigadas: a de que não há terra mais bela do que a lusitana e outra tão infeliz. Cheia de graças naturais, ao nível da compreensão nunca teve da maioria dos filhos o desvelo devido. O camponês dignifica-a como pode, instintivamente, de enxada e charrua na mão. Mas, acima dele, muito poucos souberam merecê-la. Há sempre em todas as nossas manifestações para além da cava e da redra qualquer coisa de falhado, de falso, de traído. As pontes não estão no sítio, as leis são inadequadas, as fábricas insólitas. E, à luz deste Domingo de ressurreição, cada monte, cada planície, cada cidade e cada aldeia parecem reclamar uma aleluia nacional que desgraçadamente não se vislumbra em nenhum horizonte, por muito que os vários messias do momento a garantam do alto das tribunas demagógicas. Pelo contrário: quanto mais pregam, mais a pedra do sepulcro pesa. A pedra do sepulcro da alma desta pátria que, paradoxalmente, sucumbiu num corpo que continua a pulsar exuberante de vida.
Miguel Torga

10 de Abril [1966]

A pedido de Gastão Cruz, mandei para o Diário de Lisboa o seguinte depoimento destinado a uma página central, do suplemento literário, dedicada ao Graça:
«Pertenço àquele grupinho tenaz que sempre acompanhou Fernando Lopes-Graça desde os tempos do Desdém, quando admirá-lo constituía um privilégio de meia dúzia de teimosos.
Pouco a pouco, porém, como era inevitável, o talento desse homem, monge laico que se entregou por completo à sua Arte e fez da música do povo português o sangue que lhe corre nas veias, acabou por se impor, contra tudo e a favor de todos, como uma grande verdade nacional.
Felizmente o Destino – que tantas aspirações doces me tem recusado – não me negou esta: a de assistir ao triunfo perfeito do grande músico europeu do Canto de Amor e de Morte, que é também (não nos esqueçamos) um escritor de primeira água e um exemplo de orgulhosa inteireza moral.»
JGF

terça-feira, 9 de abril de 2013

Coimbra, 9 de Abril de 1975

        Cansado. Não de lutar, mas de lutar contra fantasmas. Cada português é um espantalho vestido de gente. Se uma pessoa lhe dá um tiro, fura uma ficção.
Miguel Torga

9 – Abril (segunda). [1990]

        Não sei porquê, pus-me a reler Heidegger. Não, não foi por causa dessa mixórdia do nazismo em que dizem se atascou. Não li ainda o livro do Farias em que isso dizem demonstrar-se. Isto porque, em primeiro lugar, há que provar-se que a sua filosofia implica realmente o nazismo. Em segundo lugar, há que explicar porque é que todos os progressistas admiram Céline ou Nietzsche em que houve um nazismo expresso e um pré-nazismo (com racismo e tudo). Finalmente, não se percebe porque é execrável um Heidegger nazi e não um Neruda, Éluard e tutti quanti estalinistas, quando Estaline foi um criminoso maior do que Hitler – nos milhões de vítimas, no racismo encoberto (na URSS um soviético não podia andar com uma preta ou uma com um) e ainda ou sobretudo porque vigarizou todo o mundo progressista. Passons. Não, voltei a Heidegger nem sei porquê. E relendo alguns comentadores, descobri (suponho) a razão por que ele foi tão incompreendido e combatido. E a razão fundamental é que ele pôs em termos de rigor filosófico o que estava mais certo em poesia. Isto para o segundo Heidegger, já que Ser e Tempo é legível num domínio estritamente filosófico. E que é que passou da poesia para a filosofia? Passou fundamentalmente a grande questão do Ser. Porque o Ser é o indizível de tudo e ele tentou dizê-lo. O Ser é o inominável, o incoercível, a radicalidade do irreal de todo o real que não pode mencionar-se e muito menos demonstrar-se e apenas se revela no que eu afinal vim a chamar (sem dar conta de que se ligavam) a aparição. Porque eu li também Heidegger em termos concretos, racionais, filosoficamente dizíveis. E ele transformou a dimensão do que ele chama o Ser, para lá de toda a positivação filosófica, que o foi a partir de Platão. Por isso ele ama particularmente os pré-socráticos porque aí domina o indizível, o poético, o irredutível à nomeação concreta. Assim ele por vezes (ou já no fim?), em vez de se referir ao Ser, refere-se ao il y a, ao começo dissipado desse Ser. O Ser é o milagre de tudo o que existe, o remoto fundamenta que só vem à luz por um nosso especial estado de graça, como Deus aos místicos. Por isso ele recusa a identificação de Deus com o Ser. Mas eu penso que ele a não recusaria, se não se tratasse de Deus mas da transcendência dele próprio, ou seja o sagrado. Ser e Sagrado já creio mais identificáveis. Por isso às vezes o Ser nos parece Deus – e é quando esse Deus é o inominável, o «eu sou quem sou», ou seja o sem nome. Um dia eu disse que Heidegger foi o racionalista do a-racional. Ele foi o poeta do filosófico. E pensado assim, o seu Ser já não inquieta, como nos não inquieta o (ir)racional poético. O Ser é o limite, ou seja o sem-limite, do pensar. Compreendemos assim melhor que ele identifique a verdade com a «desocultação». Há o mistério universal, o sem fim do mundo inteligível, e «desocultação» é o deixar que se opere a revelação ou talvez a aparição, que só pode operar-se em inteira liberdade (disponibilidade) nossa. Eu defini ou determinei a verdade de uma forma mais imediata, mas creio que acabei por dizer uma coisa parecida. Para mim a verdade é uma harmonização do todo que somos com o que verificamos ser verdade. Ou seja, a verdade é uma resultante do que chamo o nosso «equilíbrio interno» no qual cabe (a verdade) ou não cabe (o erro) – ou seja aquilo que se nos propõe ou candidata a ser verdadeiro. Assim a verdade é uma aparição, o que se revela na directa relação com o real. Em todo o caso para mim a «aparição» tem que ver com a revelação do irreal do real ou da sua verdade que o hábito endureceu, normalizou, neutralizou. É o que acontece com o nosso «eu», a nossa condição, ou com uma simples flor que em certos momentos vemos no seu ser original ou miraculoso. Tenho assim duas verdades: a que diz respeito ao quotidiano (ser crente ou descrente, pertencer a esta ou àquela política, achar ou não graça a esta ou àquela anedota) e a que se refere à profundidade do mistério de nós e do Mundo. (Interrompido).
VF 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A batalha dos príncipes de Saturno III (1939)


Localização: Coleção Particular

S. Leonardo de Galafura, 8 de Abril de 1977

        O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.
Miguel Torga

Coimbra, 8 de Abril de 1975


CREPÚSCULO

Caiu a tarde, e nem sequer ficou
A colorir a talha de alguns versos
Uma réstia do sol que o dia inteiro
Iluminou a praça.
Foi-se a graça
De tudo.
E uma sombra de mudo
Desalento
Começa a desfazer as rugas animadas
Do próprio sofrimento
Cada vez mais informe nas calçadas.

Miguel Torga

8 – Abril (domingo de Ramos). [1990]

       Depois do almoço patriarcal, hoje para os lados da Penitenciária, um pouco entontecido do vinho de Reguengos, abro o rádio, mas o que ele tem para me dar é uma estrídula e antipática cantora de ópera. Ponho então um disco para a render – e saem os Salmos de Stravinski. Que música bela. Mas o que mais me chama a atenção é a luta do compositor entre a sua música bárbara, excessiva de metais estridentes e a gravidade dos salmos que falam do mais grave da vida. E verifico então que Stravinski se dobra de humildade perante a seriedade da morte. Não sei quando ele compôs os seus Salmos nem estou com pachorra de ir ver. Mas se não foi num momento de suspensão da sua agressividade e vitalização, foi decerto já no fim da vida, quando a morte começa a ser muito provável. De vez em quando a mão foge-lhe para a dissonância da sua ferocidade. Mas é raro. O que é normal e se estende por toda a música é uma meditação profunda sob a nulidade de toda a ambição e agitação mundana. E então reconheço-me nela e nela reconheço a extensão imensa do que em nós fala a voz da eternidade.
*
       Recebi de França a tradução de Aparição – não falei nisso? Recebi. Ou antes, a minha agente literária Marie-Ange veio a Lisboa mas não me encontrou e deixou um exemplar ao Almeida Faria que mo veio trazer. E a primeira ideia que me surge é a de que tal tradução é mais equilibrada que o original que nela perde uma certa pieguice ou lamechice de certos passos que me aflige na altura apaziguada a que suponho já cheguei. Mas mesmo assim não sei se o cartesianismo francês não irá protestar. Acabou-se. Sei no entanto que a escrever hoje o romance – nem era preciso «escrevê-lo», bastava «redigi-lo» – ele baixaria de temperatura e de pulsações por minuto. Não precisava de alterar nada do que lá está – bastava acalmá-lo e arrefece-lo. E tenho a certeza de que ficava um bom livro. Aliás, o que nele insisto em considerar muito original – que é a auto-evidência do «eu», a sua realidade metafísica – seria dificilmente modificável para lhe manter o sobressalto, a revelação. Em todo o caso. E de resto essa originalidade não há modos de ninguém mas reconhecer, decerto porque não fui capaz de transmitir a experiência que eu próprio fiz e tentei transpor ao romance. Porque foi a partir dessa experiência que o livro me surgiu. E essa experiência, além de ter sido para mim uma revelação, é muito difícil repeti-la – e portanto explica-la a outrem e levar esse outrem a fazê-la. Tenho-me esfalfado a falar disto. Mas sempre em vão. É como ter a revelação de uma crença e tentar evidenciá-la a alguém e sobretudo esclarecê-la, explica-la. Não é possível. Em dado momento um indivíduo crê. Como outro que não há razão para ser crente. Como se há-de explicar uma coisa ou outra? Ali a «aparição» de um «eu» é a mesma de uma crença como de uma simples singularidade de uma coisa: posso olhar uma flor com indiferença ou em certos momentos ver o milagre de ser uma flor. Como transmitir a revelação? É o mesmo que pretender «explicar» uma dor de dentes a quem nunca a teve, ou uma cor a um cego de nascença. De todo o modo, tentei-o. De todo o modo, como é difícil ou impossível, ninguém achar que eu tenha dito algo de original. Não terei mesmo?
*
       Mas ia-me a esquecer que hoje é Domingo de Ramos. É o domingo de (quase) todos os triunfadores. Sei que poucos Cristas voltam a triunfar depois da Paixão. Porque poucos tinham antes dela a justiça para depois dela. Mas só nesse caso se sofre a Paixão – nos outros sofre-se apenas o Castigo.
Relembro o Domingo de Ramos da minha infância. E o pouco lembrado nele é o das mulheres que levavam braçadas de ramos de oliveira para os distribuírem pela casa e a livrarem assim dos raios e outros flagelos, a troca do ramo pelos presentes dos padrinhos e sobretudo recordo os valentaços da freguesia que carregavam até à igreja com enormes ramos de loureiro ou mesmo com loureiros inteiros, dependurados de pães, chouriços e mesmo garrafas de vinho para que tudo fosse benzido e pudessem talvez apanhar depois uma grande bebedeira na graça de Deus.
VF 

domingo, 7 de abril de 2013

S. Martinho de Anta, 7 de Abril de 1977


O poder da palavra! Morreu a Maria da Purificação, que até no nome era eloquente, e o povo, sem outra santa mulher que lhe soubesse perpetuar o apostolado, ficou, pela primeira vez na vida, privado de purgar a alma atribulada na Via Sacra tradicional.
– Sete foram as quedas que deu o nosso amorosíssimo Jesus, desde o horto até casa de Annaz
– Louvado seja tão bom Senhor!
– Os açoutes que lhe deram passaram de cinco mil; e três vezes chegou ao trânsito da morte, quando o açoutaram…
– Louvado seja tão bom Senhor!
As cruzes das várias estações lá estão erguidas no comprido caminho do Calvário. Mas este ano ninguém se vai ajoelhar contrito diante delas. Falta a voz que chamava as consciências à contemplação do sofrimento exemplar de Cristo. E o dia de Páscoa que se aproxima, como não teve a vivência explicitada da Paixão divina, parece já desesperançado nos olhos de todos. Sem verbo não há catarse. E sem catarse não há ressurreição.
Miguel Torga

Coimbra, 7 de Abril de 1975

       Os estrebuchões que a pátria dá no hospital revolucionário a que a reduziram! Necessitada de uma clarividente terapêutica revitalizadora, ninguém esperava vê-la do pé para a mão transformada de norte a sul num desesperado corpo convulsivo. Mas somos assim: ou tudo, ou nada. Ou amodorrados numa sonolência de morte, ou possuídos de uma agitação frenética. Ou catalépticos, ou atacados da doença de S. Vito. O espectáculo que damos neste momento ao mundo não é o de um povo que se esforça por actualizar ousada e sensatamente a sua vida retrógrada. É o de um manicómio territorial onde enfermeiros improvisados e atrevidos submetem nove milhões de concidadãos a um electro-choque aberrante e desumano.
Miguel Torga

7 – Abril (sábado). [1990]

        No tempo em que eu andava em Coimbra havia (ou tinha havido?) um grupo que pretendia defender o cultivo do fado e se chamava assim mesmo o «Fado». A princípio acorreram vários adeptos que se organizaram como toda a colectividade com corpos directivos – direcção, assembleia geral, etc. Mas pouco a pouco os militantes foram-se sumindo e a dada altura eram tantos os associados como os corpos gerentes. Com a progressiva redução, havia já só um corpo directivo. E agravando-se a redução, ficou só o presidente. Mas este resistiu. E então ele próprio reunia só consigo, redigia a acta da reunião que depois de lida e aprovada ia ser assinada nos termos legais. E lia, aprovava e assinava. Até que deu por finda a aventura. Fazer disto um conto.
VF 

sábado, 6 de abril de 2013

Coimbra, 6 de Abril de 1973.


MISSÃO

«Deixem passar…»
Havia sentinelas a guardar
A fronteira do sonho proibido.
Mas ergui, atrevido,
A voz de sonhador,
E passei
Como um rei,
Sem dar mostras do íntimo terror.

E cá vou, a passar,
Aterrado e sozinho,
A lembrar
O Santo e Senha com que abri caminho…

Miguel Torga

6 de Abril [1966]

Entreguei-me à leitura de As Imagens Destruídas do excelente Faure da Rosa, convencido de que iria encontrar as habituais virtudes de fina observação psicológica a par dos defeitos já reconhecidos. (v.g. o estilo, cujas palavras parecem por vezes desarrumadas por um vento especial que as mistura no papel…)
Afinal, com alta surpresa minha, deparou-se-me um romance empolgante, em que as qualidades se apuraram até à obliteração dos defeitos. Ou com mais propriedade: em que o ímpeto febril da leitura faz esquecer os possíveis defeitos. Um belo livro e um belo exemplo da Arte Mortal do nosso tempo – que despreza orgulhosamente o Futuro. Até porque o Futuro é, quase sempre, um «presente» parvo!
JGF

6 de Abril de 1978

Esta de que «a mordedura do cão se cura com o pêlo do mesmo cão» sempre me deu que pensar: porquê o pêlo? e como, e onde? Talvez aplicado à mordedura? Só tarde me ocorreu que «pêlo» está aqui por «coiro»: o remédio é esfolá-lo, isto é, tirar-lhe a vida. O meu espanto! Bom juízo o do povo, quando sabe.
Um destes intriguistas que abundam no meio literário veio confiar-lhe em segredo que o escritor X. lhe dissera, indignado: «Fulano?... Não leio! Nunca o pude gramar!» Ao que o visado contrapôs: «Óptimo! Não tenho então remorsos de nunca ter lido um livro dele!»
O grande «segredo» ou fórmula de Hollywood foi, desde sempre, fabricar e vender felicidade em massa ilusória, claro está. A cada qual a sua dose, como nos velhos romances de assinatura. Torná-la acessível às multidões, como o pronto-a-vestir a baixo preço, outra invenção dos bons judeus do Lower East-Side de Nova Iorque. Daí o seu triunfo universal, que tantos engulhos tem dado a críticos e outros intelectuais que dele viveram. Não há celebridade que, tendo ganho regiamente a vida a serviço dos estúdios de Hollywood, não tenha escrito um ou dois livros contra aquele negócio de fancaria. Mas não se disse sempre que o mundo vive de ilusão?... O caso é que esse conceito da felicidade pela imagem se esgotou, ingénuo ou mercenário como era, e veio a Erótica tomar-lhe o lugar, em muito mais baixa escala e a vil preço. Que ganhámos nós com isso”
JRM 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Coimbra, 5 de Abril de 1975


Fazem-se eco os jornais das palavras de um intelectual francês que veio espairecer o seu tédio vanguardista e bem pensante por estas buliçosas paragens. Parece que vai daqui consolado e nos deixou consolados também. Pobre português! Quer queira, quer não, está sempre de cócoras diante de qualquer estrangeiro. O mais pundonoroso, curva-se reverentemente perante o estatuto de superioridade que de longa data outorgamos aos de fora. Todos nós nos pomos nos bicos dos pés para que o mundo nos veja. Escrevemos para os outros, conspiramos para os outros, fazemos revoluções para os outros. E os outros, naturalmente, procedem em conformidade, dignando-se olhar-nos com a magnanimidade de um soberano que desce à rua e aperta a mão do manifestante.
Miguel Torga

Coimbra, 5 de Abril de 1973


Uma rasgada manhã de primavera, com olaias de semblante rosado estampadas na luz imaculada, cachos de glicínias túmidas a vergar os muros, e o resto da natureza a explodir nos gomos ou a latejar, contida, à espera de vez. Larga e aberta ao aceno ondulado da paisagem, a rua parecia uma extensão urbana da simpatia universal.
Depois de ser par num encontro tão feliz e lavado como a hora distraída que nos prendeu, acompanhou e soltou no mesmo acaso despreconcebido, não sei que voz intima e atrevida que levedava por dentro da minha atenção pôs-se a erguer, no silêncio do resto do caminho, um cântico desatinado ao valor teleológico da vida. Era um surto indomável, súbita tentação de imortalidade induzida pelo arrebatamento dos sentidos, que se rendiam, num tropismo irresistível, ao feitiço da glória ambiente. Confiado na sua lucidez, o próprio demónio da dúvida se entregava, curioso, à expectativa do milagre. Abandonei-me então preguiçosamente àquele ímpeto que me arrastava consigo e me inseria em corpo inteiro na ilusão da eternidade, mercê da simples graça dum instante sem medida.
Mesmo absurda, a esperança é sagrada. Quem alguma vez teve nos olhos a evidência do seu rosto natural, jamais se consolará com a precária sugestão das suas aparências. Mas são essas miragens acidentais que trazem à mem6ria do náufrago dos dias o verdadeiro nome do movimento que o devolve dos abismos à tona do desespero.
Miguel Torga

5 de Abril [1966]

Nunca encontrei um pássaro morto na floresta!… assim começa um poema meu escrito há mais de trinta anos…
Pois agora, quando entro na minha casa de Albarraque (onde vou passar os fins-de-semana) deparam-se-me com frequência cadáveres de pardais dispersos pelos quartos.
Pobres aves! Penetram pela chaminé do escritório e, antes de morrerem de sede e de fome, sujam tudo de branco por vingança!
Uma vez, até, cobriram de esterco de protesto lírico o meu retrato pintado pelo Nikias Skapinakis.
Este, quando lhe contei o episódio, ficou ofendidíssimo com a colaboração.
JGF

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Coimbra, 4 de Abril de 1975

       O Arquipélago de Goulag. Uma angústia concentracionária do tamanho da Rússia. Igualmente vítima da violência repressiva e seu denunciador, quase que fiquei envergonhado do meu testemunho diante de um monumento acusatório daquele tamanho. Valeu-me a razão afectiva, a exigir à mental a clarificação do constrangimento. Só no plano expressivo e quantitativo ele era legítimo. Porque, no mais, todas as cadeias do mundo se equivalem, todas as lágrimas têm o mesmo sal, todas as feridas abertas sangram da mesma maneira, todos os gemidos merecem a mesma piedade, sejam de poucos ou muitos condenados e consigam ou não fazer-se ouvir para além das paredes da agonia.
Miguel Torga

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Vila Real, 3 de Abril de 1976

       Ainda não foi desta. A velha carcaça parece que vai resistir mais uma vez às facadas da cirurgia. E, sinceramente, para que hei-de continuar no mundo, se o meu tempo já está preenchido, ou gasto, ou fixado? Se já desci aos infernos e desobedeci ao mandamento de não fitar o rosto de Eurídice?
Miguel Torga

Coimbra, 3 de Abril de 1975

       Henry Miller. Sexus. Mas não gosto. Sade fez melhor e para sempre. E com a vantagem de o fazer por conta da imaginação. Passou tanto tempo na cadeia, que certamente não praticou a milésima parte do que descreve. E a melhor maneira de ser Robinson é sê-lo em Londres. Miller e os da sua estirpe são adoradores concretos do próprio falo, cantam a glória da sua real potência. Exibem a virilidade em cada página. E não há nada mais repugnante do que um escritor a ejacular pela caneta.
Miguel Torga

3 de Abril [1966]

Ocasiões há em que enjoado de literatura, de literatos e das pequeninas intrigas do mundo exíguo em que todos nos reduzimos ao tamanho dos comentários do Café, penso: «Não! Vou arranjar amigos menos preocupados com a posteridade… Contemplar o planeta com olhos diferentes nas órbitas… Medir os sentimentos com outra régua…»
Mas quando tento isso, que acontece? Por mais que me esforce, não consigo furtar-me ao velho vício de espiar os candidatos ao renovo da minha intimidade – observador-inimigo  registar como falam, como franzem o nariz, como bocejam, como suspiram…
Continuo, em resumo, a reagir como literato – impossibilitado de viver como toda a gente e de cortar as raízes de quase sessenta anos que me ligam aos livros e ao papel rabiscado.
E então, melancólico e contente, regresso ao Café.
JGF

3 – Abril (terça). [1990]

       Leio sempre vários livros ao mesmo tempo. Às vezes estou mergulhado a fundo num, quando aparece outro mais urgente a meter o cotovelo, depois outro que se mete à frente desse e assim acontece que um dos primeiros fica esquecido no montículo que se vai formando. Foi o que me aconteceu com um livro fortemente incomodativo sobre O Cérebro Humano, porque depois dele veio o número da revista dedicada a Heidegger, um outro sobre o Eça, romances, livros de poesia. Mas o cérebro humano. Li ainda pouco. Mas que perturbante. Então não é que o mínimo agir humano até aos seus sentimentos tem um lugarzinho marcado na massa cerebral? Houve um tipo que no tempo da omnipotente ciência e laicismo veio cheio de farófia dizer-nos que nas múltiplas dissecações que fizera nunca encontrara a alma. Isto é ridículo e extremamente sério. Porque a alma não existe, mas existe a vida no estarem vivos os centros do nosso ser. E sobretudo existe a consciência que tenho de mim próprio, o sentir-me eu, e que estando naquilo que sou, não está senão no sentir-me existir. A gente pensa no Condillac, que pensava o homem como uma máquina (Interrompido).
VF 

terça-feira, 2 de abril de 2013

Grátis Horizon (1980)


Localização: Coleção Particular 
Autor: Georges Roudneff

2 de Abril [1966]

Transcrevo do Vértice, de Agosto de 1956, estes trechos de Imitação dos Dias que não inseri na compilação definitiva do meu Diário Inventado:
«Em cada milhão de portugueses existem apenas 50 indivíduos que lêem poesia ou julgam, pelo menos, que merece a pena simular esse interesse, por afirmação de personalidade. Fado a que só logra talvez eximir-se o Grande Camões – e mesmo esse graças à sua ínclita condição de zarolho.
Quanto aos mais, incluindo o Afonso Duarte (maior poeta do que ele próprio supõe ou alguns contemporâneos receiam por despeito), apenas lhes resta o recurso de se curvarem diante dos tais 50 por milhão, realidade aristocrática que tanto dói e ofende (até os aristocratas), mais por se tratar duma aristocracia do avesso, de número, do que por obstinação de obediência a qualquer ideário democrático. E no entanto (classificada, embora em meu entender, por equivoco de qualitativo) é esta geralmente a solução adoptada com enlevo pelos escritores nas entrevistas solenes fornecidas aos jornais.
O divino qualitativo! Que sempre me cheirou a consolação bera, e ainda por cima falsa, pois na prática se resume ao reconhecimento da existência duma minoria linfática, de poucos mas maus, sem a virtude sequer de fabricar ecos como a turba.
No fundo, creio-o bem, todos os artistas prefeririam, a esse escol caricatural, o quantitativo, o reles quantitativo tão desdenhado dos estetas, mesmo em plena pureza sórdida dum estádio de futebol, ululante e fantástico – com um Poeta, ao centro, a revelar em voz alta tudo o que a maioria dos homens normais esconde por vergonha e covardia, e outros em vão buscam em si mesmos, no oco dos corações musgosos…»
JGF

2 – Abril (segunda). [1990]

       Que tenho ainda a pensar? Sobre quê? Onde a coragem inumana para escrever ficção? Como é possível a literatura ou mesmo a filosofia? Que tens ainda a ser em escrita? Não, não é a velhice, que é realmente uma razão considerável. É o meu tempo, a hora suspensa da História, que pude anunciar, mas não tinha vivido. É o súbito vazio que nos desorientou, a anulação de qualquer impulso que nos movimente, seja por si razão bastante para a nossa decisão. Nós não damos conta de um acerto do que fazemos com o que nos envolve e muitas vezes ignoramos. O impulso vem daí e a obra que realizamos é o ponto terminal de uma harmonia desconhecida. Há um acordo entre o que fazemos e o todo de que fazemos parte e em que isso que fazemos se insere por uma certa necessidade ou justificação ignorada. Como o ar que respiramos e em que somos viventes sem pensarmos nesse ar. A união de uma obra com o seu tempo é isso – uma harmonia desconhecida que a tomou justificável e de algum modo necessária. Pelo acordo ou oposição, concordância ou discordância agressiva, tudo é um todo numa harmonia final. Mas de repente faltou-nos o ar e sabemos então que não podemos respirar, que uma razão de fundo e profunda nos faltou para agir. Aí estamos. Aí nos debatemos com a injustificabilidade, a pertinência de qualquer coisa que façamos. A História está em suspenso – como o suspeitei no meu livro Signo Sinal. À superfície das razões como razão imediata e visível, a base de apoio para nos erguermos sobre nós foi a razão quase ridícula do desmoronamento do comunismo. Porque os comunistas, para-comunistas e anticomunistas e mesmo os quase indiferentes, ficaram todos de súbito órfãos sem a sua base de apoio. O comunismo foi o grande ordenador da vida de todo o Mundo. Mas havia atrás dele uma outra razão de se ser, cujas raízes se perdem já no incognoscível. É o «desconcerto do mundo» cuja razão está antes de todas as razões e é o que para ter um nome poderemos chamar o espírito da História, o arranjo oculto da sua orientação, o signo que a marcou e de que a desorganização visível é o sinal. Não é assim de estranhar que as religiões venham ao de cima com a sua fácil redenção ou sedução. É à hora da morte que há mais conversões. Mas elas têm a debilidade de se resolverem num ser débil. Débil está o Mundo inteiro – a emergência da religião é a prova da debilidade desse Mundo. O moribundo aferra-se ao que tiver à mão, nem que sejam as dobras do lençol. Não prova isso que a salvação esteja lá.
*
       Mas queria registar uma série de coisas que se me atropelam umas nas outras – terei estilo para serem escrita? Ontem fomos a casa do Gilo ver uma emissão francesa de três entrevistas feitas o ano passado à TV suíça. Sophia de Mello Breyner Andresen abriu o cortejo. Falou do povo, do fado (para lhe arrear um pouco), leu necessariamente um poema e teve sempre um estranho tremor nos dedos. Depois seguiu-se o sorriso urbano do Urbano e o seu elogio do socialismo (antes do rebentamento a Leste). Depois falei eu do Para Sempre com muitos gestos e muitos tiques que me não caíram bem no simpático. Mas tudo isto foi bom para dar aos franceses a notícia de que há escritores em Portugal e não apenas a grande Amália e o enorme Eusébio.
       Queria depois registar que estou a ler o número da revista (nossa) «Filosofia» dedicado a Heidegger. Fui reler o meu texto de há quase 30 anos sobre o Existencialismo em que falo do grande filósofo e ver se tal texto estava parecido com o dos refinados especialistas. Estava. E nalguns casos mais parecido com o filósofo do que os textos especializados, pela razão de ter tentado não apenas recitar os dados do filósofo mas ainda assumi-los e trespassá-los de uma explicação plausível. Quando o escrevi, pouca gente sabia entre nós qual a problemática não apenas de Heidegger (Husserl, Jaspers, etc.) mas do próprio Sartre. Gostaria de reeditar o meu texto, já esgotadíssimo e que funcionou como prefácio à conferência O Existencialismo é um Humanismo. Mas o director da editora «Presença» mandou-me um secretário telefonar-me a dizer que me davam 200 contos de caras e não se falava mais nisso. Achei curto. Queria o que dava a outros ensaístas publicados na casa. Achou comprido. E acabou-se a conversa. Pelas minhas contas, os 200 contos da isca não davam talvez um por cento. Já é querer pertencer às classes exploradoras. Uma outra coisa foi a vinda aqui a casa do Almeida Faria que veio trazer-me um exemplar da tradução francesa de Aparição. Folheei. Pareceu-me apetecível. Traz um prefácio do Robert Bréchon cheio de simpatia. Mas na fotocópia que já me enviara, por entre a comovedora amabilidade, diz Bréchon que Aparição não é o meu livro mais original. Quanto à estrutura, personagens, etc. tem bastante (não toda) razão. Mas dá-me voltas ao juízo o facto de ninguém reparar no que há de fortemente original na concepção do «eu» que é um «eu» metafísico e de dificílima explicação, mas que é real porque o experimentei, tive dele a experiência certo dia em Évora, mas não sou capaz de transmitir à intelecção dos outros. Almeida Faria está contente, nada perturbado pela tremenda convulsão que trouxe ao Mundo o estoiro a Leste de que falei atrás. Estarei eu na mesma situação de não poder explicar o caso, como não expliquei o do «eu»? A propósito ainda, o Ed. Lourenço remeteu-me para o Ortega y Gasset onde já vinha tudo. Em que livro e passo dele? quis eu saber. Não me disse. Outros falam-me das «epifanias» do Joyce. Mas não é isso! A Aparição, aliás, não diz respeito apenas ao «eu», mas a toda a revelação não das «essências» joycianas, mas do mistério, alarme do já sabido. De quem devo estar mais próximo é de Heidegger para o sentido originário de tudo (não do «eu», que ele recusa e reduz a uma ek-stase, a um estar-aí, fundido ao mundo, às coisas, onde realmente vem a descobrir o «mistério», que é o lado de lá do que é verdade visível. Mas (Interrompido)
VF 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Coimbra, 1 de Abril de 1973

       A ironia dos actos praticados! Estúpidos quase todos, e são eles que nos dão a inteligência da vida. Uns, fruto do acaso, outros deliberadamente consumados, numa visão retrospectiva dir-se-ia que se articulam num plano de coerência intrínseca tão alheio à vítima e tão inexorável que o sentido das opções mal se distingue do império das circunstâncias. Das circunstâncias que os precedem e lhes sucedem, de tal forma encadeadas, que a personalidade, perplexa, se sente abolida. Mas onde teria corpo o drama de ser homem, sem a trama dos actos? Só diante da sua irreversibilidade no perfil biográfico é que se vê até que ponto eles foram igualmente absurdos e necessários para que acontecesse, no tempo, esta aventura inédita de nascer com data, ter um nome próprio, e morrer.
Miguel Torga

1 de Abril [1966]

Desde mocinho que mantenho diários íntimos… E assisto ao repetir da eterna história… A este sentir fugir-me a sinceridade… Pois, sem pretender construir paradoxos, só consigo ser sincero, quando escrevo para o público.
Sozinho comigo, faço cerimónia com os pensamentos que, com as vénias cortesãs da Solidão, incham qualquer lugar-comum banal até à transcendência de se desligarem das minhas pequeninas verdades sangrentas…
JGF

1 – Abril (domingo). [1990]

          Quando estávamos em Évora e celebrávamos o Natal em casa do Alberto Silva – mas não falei já disto? – entre os discos que se tocavam sempre havia um do trio Odemira que nunca mais esqueci. Lembrava-me mesmo que era da Columbia e tinha o rótulo verde. E tantas vezes falei nele, que o Alberto Silva mo trouxe há dias. Lá estava o rótulo verde e o nome da editora. Pedi então ao Lúcio que mo passasse a cassete para mais fácil utilização. E agora, de vez em quando, volto a ouvi-lo. Que estranho poder de encantamento e a paralela impossibilidade de o dizer. Não ouço música alguma sem um enquadramento imaginário qualquer, o que deve ser um sinal de inferioridade para um ouvinte encartado. A música deve ouvir-se por si, na pura organização dos sons, na essência de si própria que é o ser música sem mais. Isto o penso eu porque jamais ouvi esta blasfémia a um perito nessa arte. Mas eu confesso que música por música, só a dissonância moderna ou mais ainda a música desconexa ou sobretudo a dita «concreta». A música é-me o transporte para o que não sei mas vou imaginando enquanto a ouço. Às vezes não há um referente dizível. Mas há sempre alguma coisa mais para que aponta, nem que seja o próprio encantamento em si em que a música já se não ouve. Há a música dos longes infinitos, como certas aberturas de Wagner ou naturalmente o Novo Mundo de Dvorak. Há a dos grandes espaços cósmicos como a de Bach, etc. Este Natal do trio Odemira funciona como certos aromas ou paladares em Proust. E o Natal de há trinta anos recupera-se-me inteiro à evocação comovida. Há um grande apaziguamento na alma, um certo calor brando de um conforto e abandono para todo o sempre, um desejo intenso de desistência, um esquecimento do que se agita no vento e frio lá de fora. E insinuadamente, um a um vêm vindo à memória os amigos que morreram. Nunca mais. É uma melancolia calma de aceitação e passividade. Não pessimismo ou mesmo tristeza ou doença. Aceitação. Serenidade. E no meio uma alegria que não chega a ser alegre e deve parecer-se com o que se diz de uma sabedoria final. Nunca mais. Tentar reconstituir esse passado, mesmo com a presença dos que morreram, seria um logro incomensurável. Não é o passado que importa, mas só o encantamento que há nele, à memória longínqua de ter sido. Uma paz que não houve, senão no podê-la haver um dia e que é hoje. E uma beatitude infinita no absoluto de a poder inventar.
VF