terça-feira, 19 de março de 2013

19 – Março (sexta). [1990]

Estamos em Fontanelas (regressamos amanhã) e não registar o facto seria atestar-me uma insensibilidade córnea ou uma desatenção de parvo. Porque está um tempo de verão engrinaldado de primavera. A glicínia coroou o portão da entrada com o seu ar festivo dos seus cachos de azul quase roxo e com um perfume perceptível ao meu nariz azul quase roxo e com um perfume perceptível ao meu nariz de cortiça. É o sinal de boas-vindas que se estende mesmo até Lisboa onde tivemos ontem a visita do Laura António com o seu rancho e hoje do Alberto Silva que fora a Lisboa de Évora. Mas todo o ar se perfuma de flores invisíveis e sobretudo de uma alegria feita de luz. Mas eu pouco tenho aproveitado da festa, porque trouxe comigo as provas do romance e nos intervalas de não haver visitantes amarro-me à banca com o meu dever de escritor. O bom Luís Amaro deu-lhe a primeira vista de olhos, que é uma vista inquisitorial como eu preciso. E lá me moveu uma caça implacável às vírgulas, às repetições de palavras, a algumas regras de concordância. Afora, já se vê, às gralhas da composição. O mais tormentoso para mim foi a repetição de alguns termos. Porque o estilo coloquial do livro, que é uma «carta», não me dava margem fácil para sinónimos. Por exemplo, a adversativa «mas». Porque era extremamente problemático deitá-la fora e promover ao seu lugar um «porém» ou «contudo» ou mesmo «todavia». Outro tormento, talvez mais sádico, foi a substituição do «ainda». Uma ou outra vez fiz concessões à minha fraqueza e deixei ficar. De todo o modo isso foi bastante para me não poder rever com vaidade na minha glória de criador. Quando o Luís Amaro era mais tolerante e me deixava passar uma ou outra página certeira, lá se dava o caso de eu me espanejar na alma e não achar mal. Mas foi raro. De todo o modo, um ou outro trecho, com ou sem tratos de polé, não me pôs contentamento na minha presunção. E o mais doloroso foi eu perceber como deveria ter feito. Mas basta às vez uma frase ou outra para se ir abaixo todo o baralho. E haveria então que voltar ao princípio. Mas, que diabo, também lá há coisas muito aceitáveis, mesmo para a escrita gloriosa dos meus irmãos em escrita. E se eles disserem ou pensarem o contrário, são mentirosos ou têm o gosto de uma galinha – que em todo o caso não é tão estúpida como isso. E disse.
Mas amanhã temos de regressar a Lisboa. Em primeiro lugar porque vou tomar posse de um carro novo. Sim, sim. Novo. E com o aparato dos de um senhor dos petróleos da Arábia. Palavra. É largo como a minha grandeza, é branco como a minha alma e é remansoso como o meu sedentarismo. E não digo a marca porque publicidade sim, mas à borla não. Espero agora viajar mais por largo e não no raio de acção galináceo, que é o do percurso Lisboa-Fontanelas. E dar-lhe com isso a liberdade de fazer os seus exercícios de velocidade para manter em forma os seus cavalos – que são bastantes e davam quase para encher uma cavalariça.
E aqui está como nesta escrita desenfastiada, eu próprio dei exercício à minha perna ligeira, descansada assim a outra, mais grave no seu pé de chumbo.
*
E os estupores dos pássaros que se estão nas tintas para as flores e a alegria, só porque o seu cronómetro já electrónico lhes diz que ainda não é tempo disso? Dá-me vontade de lhes berrar – mandai à merda o cronómetro e vinde ver a festa que por aqui vai. Mas não digo porque se calhar mandavam-me eles a mim. E eu não estou muito inclinado a ir.
*
Que linda tarde de êxtase e de luz. Os pinheiros imóveis olham o pôr-do-sol até onde lhes é visível. E eu olho neles a minha longa meditação. Alegria serena, a beatitude. A mais vasta e profunda. Porque é a do universo no seu ser.
VF 

segunda-feira, 18 de março de 2013

Les hiercheuses (1890)


Localização: Colecção Particular 
Autor: Constantin Meunier

18 de Março [1966]

Esta definição de Arte como fixadora da Realidade e a única memória viva dos homens explica medularmente a minha literatura, sempre com sabor autobiográfico.
Arte – verónica do sangue dos factos da minha experiência. Principalmente da esquecida – e, portanto, tenho de inventá-la.
JGF

sábado, 16 de março de 2013

16 de Março [1966]

Arte, para mim, é este arrancar dum poço de nuvens as linhas de contorno a que chamamos realidade e constantemente se esvai, e perde e desvanece.
Fora dessa memória (no papel, no mármore, nas paredes das cavernas…) que existe? Sim, que existe para nós, os agnósticos, que não acreditamos na memória das estrelas nem nas balanças de luz do Outro Mundo (com letra grande)?
JGF

16 – Março (sexta). [1990]

Que é que me atrai e repele em Nietzsche? Não sei. Li muito. Devia portanto interessar-me bastante. Primeiro houve naturalmente que cumprir os meus deveres culturais. Mas isso não contava. Há outros filósofos importantes que passei por alto. A morte de Deus foi para mim um assunto nobre. A destruição do «sistema» e um modo novo de filosofar que tem que ver com o ensaísmo ou mesmo a literatura, também. Mas tudo o que remete para uma certa sobranceria onde entreluz um prenúncio de racismo e mesmo nazismo, o seu desprezo pelos fracos, a imortalidade, tudo o que humaniza o cristianismo irrita-me. E há o enigmático «eterno retorno», que ele não expôs detalhadamente mas ao qual apenas alude às vezes no Zaratustra e na sua Gaia Ciência (§ 341) e que me intriga como a toda a gente. Numa interpretação imediata, ele é absurdo como suponho se não costuma admitir. Para se repetir o passado temos de saber qual o período repetível: um ano? mil anos? cem mil anos? Não está estabelecido. Ora bem, se não está, então não pode haver eterno retorno. O meu acto presente de escrever repete que outro acto passado? Porque se não há uma demarcação do período em que me repito, então este acto de escrever repete este actual acto de escrever, ou seja não saio dele. Se o de hoje repete o de ontem, então, decerto, houve um retorno do que aconteceu ontem. Se o de há um ano, então, decerto, repito o de há um ano. Mas se não há um período demarcado para a repetição, então o acto presente de escrever é ele próprio a repetição de si mesmo, ou seja, não há repetição. Em tal caso é mais lógica a interpretação de Klossowski e Deleuze segundo a qual o eterno retorno é a repetição do mesmo com uma variação que o retoma e aperfeiçoa. Repetir é não sair do que se é com o processo de uma reactivação desse mesmo que o melhora. O super-homem seria o homem que se supera nesse aperfeiçoamento (se estou bem lembrado da interpretação referida),
Mas quantos problemas Nietzsche levanta aos seus hermeneutas. Assim, a morte de Deus implica a morte da nossa individualidade. Nietzsche quer matar realmente o «sujeito». Mas a destruição da individualidade de cada um é um absurdo incomensurável. Porque é como pretender cortar uma mão com essa própria mão. Quem nega o sujeito é o próprio sujeito. E que tem Deus que fazer no meu auto-reconhecimento como indivíduo ou pessoa que sou? É «lógico» derivar-se a «morte do homem» da «morte de Deus» apenas num sentido bíblico, ou seja no da morte do «rei da criação» pelo seu nivelamento com todos os animais e mais extensamente com toda a Natureza. Mas eu não mudo de consciência de mim com ou sem Deus.
Mas estou cansado e vou-me estender um pouco. Com Deus ou sem ele – estender-me e amolecer.
*
Afinal veio o fotógrafo para a revista Ler do Círculo de Leitores e cá estou a fazer de escritor. Que extraordinária a ficção com que se faz a verdade. É verdade que escrevo e fumo durante, se os nervos me não dizem que não. Mas é mentira que escrevo, para ser fotografado em ficção para o ser. Acabou-se. Acabou-se-me é a paciência para continuar a fingir, mas o fotógrafo não é de opinião que se acabe. Entretanto acabou-se-me o papel antes de se acabar o resto. E o cigarro que ajuda a compor o resto não me está a saber bem aos nervos. E não posso parar – vou escrever no vazio do espaço que já não tenho. E o assalto que não cessa? O Luís Amaro chegou com as provas do livro e não me é possível (Interrompido).
VF 

sexta-feira, 15 de março de 2013

Neve e neblina sobre o Grande Canal (1840)


Localização: Museu de Arte Moderna, Pesaro Ca '. Veneza

15 – Março (quinta). [1990]

Quando vou buscar o jornal, encontro com frequência um casal, de idade próxima da minha, que um pouco sempre me emociona e intriga. De braço dado, muito compostos, muito integrados nessa compostura, lembram-me um casal romano no tempo de Augusto, exemplo de um certo ideal de uma união honesta. Será verdade? Nós temos desde a nascença quem nos ensine a ser gente. São os pais para a revelação do Mundo, é a escola para a infância, a adolescência e a juventude. É depois a própria vida que vai fazendo o que pode para a nossa formação de adultos, e depois acabou. A velhice ninguém a ensina e a sua aprendizagem temos de fazê-la nós até à indiferença. Todo o ser vivo tem uma pele ou uma casca a defendê-lo. Mas ele é permeável a uma emoção, a um descascar de um fruto ou a um martelo para o partir quando é preciso. A pele do velho endurece para a sua defesa, que é o que sobretudo tem de aprender. Até que nenhum martelo a possa já partir, a não ser o da morte, que parte tudo. 
*
O arquitecto Campos Matos, que é um fanático admirador do Eça como eu (embora o meu fanatismo vá tendo já as suas quebras) publicou no JL da outra semana (o 400.º) um artigo sobre o nosso grande homem e a filosofia. E escreve-me hoje a pedir a minha opinião. Procurei o número para o reler, mas já o não encontrei. De quando em quando, para baixar o nível da montanha dos periódicos, a Regina leva uma braçada deles aos nossos vizinhos, como em Fontanelas os transporta para a senhora Joana que nos vendia o leite, agora comprado na loja empacotado. De modo que não pude reler o artigo em questão. Mas pelo telefone, e apoiado na memória que dele me ficou, respondi ao arquitecto que
Toda a época tem a sua óptica com que lê toda a contemporaneidade. E o que não cabe nessa óptica, é mais ou menos invisível. Assim se explica, por exemplo, que Eça não tivesse reparado na revolução das artes plásticas desencadeada pelo impressionismo. Mas quanto à filosofia acontece que ela não tem feito parte dos nossos hábitos culturais, mormente dos literatos. Antero é uma excepção. E relidas há pouco as Tendências, não me tomou o grande entusiasmo em que têm sido lidas, apesar de elas terem qualidade q.b. Para mais, Eça, por desconfiança ou temperamento, nunca se deu a grandes trabalhos de erudição e foi-se governando como pôde com o razoável que foi sabendo. O tipo de cultura de muitos de então era o histórico-político (além do literário, obviamente), como hoje é o filosófico-político (além de, etc.). Mas mesmo o domínio literário não se estenderia muito além do romantismo. O resto procurava-o ainda, se possível, nas informações do seu tempo. Ainda há pouco o Prof. Santos Alves demonstrou que a informação para o seu conto «A Perfeição», com a sua história de Ulisses e Calipso, não a procurou Eça em Homero mas em Lecomte de Lisle. Fradique lia Sófocles «no original»? É imensamente duvidoso. Conhecia-o Eça em tradução? É bastante duvidoso. Mas o que não tem dúvida é que mencionar Sófocles faz o seu efeito. Conhecia Eça os filósofos que menciona? Leu Schopenhauer? Terá mesmo lido Comte? Mesmíssimo Taine? Calo-me na minha dúvida. Falo de Taine filósofo, não do Taine ensaísta literário. E quando sugiro o filósofo, penso mesmo no da Filosofia da Arte, mais chegado aos seus interesses. É possível que Eça duvidasse do interesse da filosofia, por ela conduzir pretensamente ao cepticismo pela diversidade ou antagonismo de opiniões. E isto era mais sensível nesse tempo em que a ciência era um Absoluto pela confiança que merecia – com efeitos em múltiplos domínios (religioso, ético, estético, etc.). Compreende-se tal cepticismo porque ele perdurou até nós. A filosofia – dizia um gracioso, como é sabido – é um saber «com o qual ou sem o qual se fica sempre tal e qual». Isto tem piada, mas é absurdo. Tão absurdo como dizer-se que se não ama tal mulher, porque milhentas pessoas a acham detestável ou desinteressante. Tão absurdo com não aderir a nenhum partido político porque eles se contradizem uns aos outros. Tão absurdo como negar o interesse da arte do passado, porque ela se não parece com a nossa. O valor da filosofia está aqui – em reconhecermo-nos a nós próprios na proposta que nos faz (e é assim para nós a revelação do que não sabíamos que sabíamos). O valor da filosofia está na emoção original de quem filosófa, como a emoção do poeta.
Mas isto não tive tempo de o dizer ao Campos Matos quando ele me admitiu o desinteresse do Eça pela filosofia em virtude do seu cepticismo em face da controvérsia implícita às suas proposições. E eu também não digo mais nada porque me acabou a tinta na caneta.
*
E agora que já tenho tinta, queria só dizer que está calor.
VF 

quinta-feira, 14 de março de 2013

14 de Março [1966]

Devíamos nascer velhos e, a pouco e pouco, tornarmo-nos mais novos, até atingirmos a juventude dos deuses. (Quem não teve já este sonho? Teve-o, por exemplo, o meu filho Alexandre aos 8 anos.)
Que bom ter 20 anos – com a ronha da velhice!
JGF

14 – Março (quarta). [1990]

E de súbito a gente repara que entrámos em défice de – como dizer? Daquilo que envolve uma data de coisas que vão desde o heroísmo, idealismo, motivação para agirmos e mesmo sermos diferentes, até ao que nos trabalhou a «espiritualidade», onde cabe toda a realidade do espírito em que se incluía a vivência interior das emoções, ideias, modo de se ser humano. A derrocada do Leste arrastou consigo uma fracção enorme de sermos uns com os outros, de termos uma motivação para sermos em grupo, termos motivos para nos diferençarmos, nos congregarmos ou opormos, pensarmo-nos em função de quaisquer projectos políticos. E o conhecimento de que o cérebro é em alterações que «explicam» as nossas emoções (o medo, a personalidade, o «stress», etc.) reduz a uma certa materialidade o que era da nossa vivência espiritual. A consciência do nosso «eu» fica indemne na sua autonomia, no absoluto de nos sabermos ser. Mas o facto de sabermos como uma simples experiência anatómica perverte tudo o que a isso agregamos, perturba imensamente a verdade do que sentíamos e pensávamos. A «engenharia genética» travou a sua investigação no limiar de uma subversão total do nosso ser humano. Mas sabemos que esse limiar pode ser transposto e desmoronar todo o edifício do que é o nosso modo de ser-se homem. Assim tudo isto abre diante de nós um futuro possível de desertificação. Haverá sempre um abismo entre tudo o que nos demonstram sermos em termos materiais e a imperativa verdade de nos sabermos ser nós. Pode ser-se laboratorialmente outra coisa. Mas a assumpção consciente disso que formos instaura em nós inexoravelmente a consciência desse absoluto de sermos.
Resta no entanto a vida política, o relacionamento dos homens à dimensão mundial. Que monstruosa construção de ideias, sistemas, projectos para se ser humano em ideal de justiça e o mais, a ruir subitamente diante de nós até a um estendal de escombros. Quanta ambição, ódios pessoais fundamentados no pretexto de um projecto político, obras de arte, mormente literárias, fundamentação mesmo da sua dignidade, sonhos de se estar com a História, quantas ilusões desmoronadas com o terramoto. O Mundo inteiro diverte-se a esta hora sobre si para (Interrompido).
VF 

quarta-feira, 13 de março de 2013

13 de Março [1966]

Para acreditar no mal que me contam dos outros, para ao menos averiguar se a calúnia é lógica – que remédio senão remexer no meu lixo de mau cheiro secreto. 
JGF

13 – Março (terça). [1990]

In illo tempore, quando eu andava em Coimbra, um dos passeios favoritos do meu grupo, pelo tempo já quente de Maio ou Junho, era ir até ao pátio da Universidade ver a tarde morrer na curva «sumptuosa» do Mondego e na maravilhosa panorâmica de Santa Clara. Havia aí um banco ao lado do Observatório e lá nos sentávamos com cigarros e paleio. A noite ia descendo sobre a conversa e nós banhávamo-nos na sua frescura. Ora aconteceu um dia que um de nós sentiu a pressão hidráulica que se tornou mais urgente por ter reparado nela. Mas onde dar-lhe vazão? E logo lhe ocorreu que o mais prático e higiénico era chegar-se ao gradeamento e aliviar para a rua em baixo de que já não sei o nome. Mas aconteceu que passava justamente nessa rua um transeunte que ao ver aquele chuveiro intempestivo que vinha de cima, se deteve à espera que passasse. Mas como havia o ditado segundo o qual «quando mija um português, mijam logo dois ou três», nós não quisemos contrariar o provérbio. Éramos justamente três ou quatro e pusemo-nos em fila de espera. De modo que logo que acabava um começava o outro. O transeunte ainda aguentou o segundo chuveiro, admitindo a hipótese de uma pressão excepcional ou uma bexiga excessiva. Mas quando o terceiro ou o quarto avançou para a sua vez, o homem bramou furioso:
Se mijas mais, chamo a polícia.
Era o último, não mijou. Apertou a braguilha e sentámo-nos de novo a continuar a conversa. E como o chuveiro acabou, o homem deve ter ficado contente porque a sua ameaça tinha surtido efeito.
*
Perdoai-me, ó homens solidificados a cimento, espiritualizados a electrónica, mas há uma guitarra que ressoa no fundo do tempo e eu tenho de ouvir. Vibra na eternidade da minha emoção desamparada e eu tenho de me comover. É uma voz que me não fala de parte alguma, do absoluto que não tem uma referenciação a não ser em si mesmo. Porque o lugar a que poderei referenciá-la não é esse, nem outro que o pode render, nem outro que se lhe possa adiantar. Tudo isso são pretextos para que não faltem pretextos. Há outra coisa para lá delas e é da minha dimensão humana, feita do excesso que de mim transborda. Como o impossível do amor, que possibilitado morreu. O passado? Ele abre-se no acorde da guitarra, mas apenas porque nunca existiu e a minha emoção ao ouvi-la é daí, da impossibilidade de existir. Ela vai assim desse passado ao futuro, porque todo o tempo é do incrível de nós. O futuro só nos ilude nisso, porque o imaginamos realizável quando se realizar. Mas ele também se não realiza nunca, porque o que dele se realizar não o vamos reconhecer como a sua realização. Uma guitarra ondeia no espaço da minha emoção. É de lá. Não é de parte alguma. É só da eternidade de nós, que é o instante em que a nossa vida se cumpre…
VF 

terça-feira, 12 de março de 2013

12 – Março (segunda). [1990]

Hoje é dia não. Sinto-o logo ao acordar, na perturbação nervosa que me põe doido de mal-estar angustiado. E estou sem ter que fazer. E sinto que a Regina se altera de um modo alarmante. Decisões bruscas, inesperadas. Desajustamentos. Faltas de memória. Irritações longas.
Entretanto leio os livrinhos da rapariga que conheci na homenagem ao Rosa. Livros esquisitos. Amontoado insólito de detritos, coisas desconexas. Toda a obra exige uma óptica para ser lida. Vista numa óptica desajustada, quase tudo fica de fora nas zonas da cegueira. Aplico-me à leitura e tudo me foge ou desaparece na minha desatenção.
Entretanto ainda, há sol. Está mesmo quente. Fui buscar o jornal com os agasalhos do costume e tive calor. Ao meu olhar desatento, reparei hoje que há muito não vejo a farrapeira. Via-a todos os dias transportando uma fila enorme de mercadoria, que eram sacos de cartão, lixo apanhado decerto nos caixotes das portas. Não podendo logo com a carga toda, ia-se deslocando às porções pela avenida abaixo até ao poiso do seu comércio. Terá morrido? Terá ido comerciar para o paraíso? De vez em quando é assim – um elemento do meu quotidiano desaparece do meu convívio.
Estou cansado. Revoluteado nos nervos. Fico aqui.
*
O Listopad telefonou-me (o Lúcio atendeu) a dizer-me que publicara ontem no Notícias um artigo sobre a morte das ideologias que me era dedicado, tendo sido a dedicatória cortada pelo jornal. É o que se chama a liberdade de imprensa. Porque essa tão falada e exigida liberdade é a dos senhores dos jornais cortarem, acrescentarem, enxovalharem e se for possível difamarem quem lhes não cai no goto. A outra, a liberdade de imprensa do Estado, ou seja a de quem está no (outro) poder, tem o nome infame de ditadura, prepotência, censura, monopólio da informação e outros nomes execráveis. Ora a liberdade de imprensa é só a liberdade de os senhores jornalistas dizerem o que lhes vai a peito e dá na gana. E quando alguém humildemente reponta contra esta (nova) prepotência, suas excelências enrouquecem a protestar contra os que lhes negam o direito de informarem, ou seja de informarem o que lhes apetece. Porque é que os mandões do Notícias cortaram o meu nome numa singela dedicatória? Ora. Por falta de espaço, por descuido, por se não ver a necessidade dela, por. Mas seria interessante saber-se que antes disso houve a minha recusa, por motivos de saúde, de ser instrumentalizado, no nome «do prestígio», para fazer parte do júri do Prémio a que o jornal dá o nome e o bago. Simples, não é? Mas vá lá alguém dizer-lhes isso, que o queimam logo em efígie.
Mas o artigo. Listopad está de acordo com o que eu disse e já antes tinha dito num ensaio publicado no Comércio do Porto e incluído no Espaço do Invisível-II. Com a pequenina diferença de que para mim as ideologias se não impõem, se não criam à força, mas dimanam necessariamente do estado de coisas do Mundo. Os valores têm de nascer, porque o homem é de sua natureza um ser de projectos. Mas não se projecta o que nos dá na real gana e é antes, não uma causa de se valorizar, mas um efeito disso. Por enquanto não temos nada a promover a «valor». Mas havemos de ter, sem sabermos que os vamos ter, antes de já os termos. O mito orienta-nos depois de o ser. Mas antes, no irmos sendo, o mito mitifica-se. E é do que estamos à espera. E a História connosco.
*
A luz, a luz. Ela já me deslumbra o escritório e acende os livros das estantes até às sombras que houver neles. E eu sou contente com a verdade de uma criança, que é não ser no que é, que é ser fora de si. A luz. A alegria. A vertigem da criação. O incêndio de Deus.
VF 

segunda-feira, 11 de março de 2013

Coimbra, 11 de Março de 1990

Coimbra, 11 de Março de 1990 – A Lituânia proclamou a independência. Um frágil David báltico, de funda na mão, a desafiar os tanques do Golias eslavo.
Miguel Torga

Coimbra, 11 de Março de 1981


                                       LUTA


O que eu sonho!
A fé que ponho
Na imaginação!
Digo à razão
Que sim, que desvario
Nesta humana aventura,
E ergo mais a lança em desafio
E desço mais o elmo da loucura.

Nada conquisto, porque são moinhos
Os gigantes que encontro nos caminhos
Das minhas digressões.
Mas combato,
Combato
E desbarato
As próprias ilusões.
Miguel Torga

11 – Março (domingo). [1990]

A Rita fez ontem vinte anos. É uma conta redonda que como todas elas tem o sinal de um fechar de contas e de um abrir de conta nova. Rita não me pareceu sentir isso. Com estranheza minha, da do que eu fui quando cheguei aos vinte, ela apenas sentia que estava velha. Vinte anos eram outrora o começo triunfal da nossa maioridade ou seja de um verdadeiro começo de se ser gente. Mas hoje a juventude acelera as coisas e sente-se gente mais cedo. De modo que as contas têm um outro acerto. A Regina sugeriu-me que eu fizesse uns versos para a cerimónia de investidura. Tenho feito um pouco disso a vários propósitos. É um jogo de diversão como a sueca ou o dominó em tempos de isso se usar. Mas aborreceu-me ser instrumentalizado como um macaquinho a quem se pede uma habilidade. E recusei-me. Em todo o caso, já a sós comigo e como se fosse eu a ter a lembrança, lá versejei. Rita gostou com o seu gostar já um pouco cansado das brincadeiras juvenis. E como a minha habilidade não me acrescenta glória visível, não reproduzo os versos aqui. Coisa curiosa no entanto a anotar: em três cópias que fiz dos meus versos, cometo o mesmo erro de escrever «fizeste» por «somaste» para rimar com «tiraste». E sempre que reli essas cópias o que reli foi «somaste» onde escrevera «fizeste». Tal é a força subjectiva a sobrepor-se e a dominar a força da objectividade.
E pronto. Almoçámos no «Caleidoscópio», no Campo Grande, e como eu tinha sido acometido de uma fome invencível de que já nem tinha memória, comi bem e bebi melhor. E à pergunta formal de «como está isso»? – ou seja o manjar que escolhi – achei-a absurda e sem sentido, porque o bom apetite, como sabemos, come pedras e acha bom. Depois é que reconsiderei que afinal o porco, de que eu manducara uma costeleta, devia ser outro viúvo da porca de Murça…
*
Gostava tanto de saber o que não sei. Não para o saber, porque e depois? Como iria mover-me com tanta carga? Para o ter passado ao meu sangue no que é o seu espírito e leveza. Para o guardar numa arca, no que é a sua matéria e carrego.
*
Como estou triste. E porque é que estou triste? Não sei. Estou. Há-de haver razões, porque eu prezo-me de ser um animal racional. Mas elas devem vir desde o meu berro ao nascer e já agora não vale a pena saber. Estou triste. E não me macem com porquês. É aliás uma tristeza calma e tépida. Não se está lá mal. Vou mesmo na corrente.
*
Aceito cada vez mais a morte como quem fecha à noite a porta de casa. Mas assusto-me sempre, quando se me solta a ameaça de uma morte súbita, como quem ouve pela noite baterem-lhe à porta. Onde está o que é mais verdade?
VF 

domingo, 10 de março de 2013

10 de Março [1966]

Além disso, os amigos têm a obrigação de ser deuses. Os seus defeitos afiguram-se-nos uma espécie de traição.
JGF

Lisboa, 10 de Março de 1981


O destino não me dá tréguas. Aqui fica a espada de pau com que o enfrentei mais uma vez.

«Quando fui informado de que o júri do prémio Montaigne me tinha atribuído o galardão fiquei em pânico. E ainda estou. Pela distinção em si e pelo nome que a tutela.
Receber um prémio é sempre um risco. Ou porque se não merece ou porque é muito difícil saber recebê-lo. Mas se ele é outorgado sob a égide do autor glorioso dos Ensaios, o caso torna-se ainda mais delicado. Montaigne foi um grande senhor do espírito, um dos divinos do renascimento, o mais paradigmático dos fundadores do pensamento moderno, que nele encontra o modelo de um incansável esforço de objectividade crítica. E o laureado de hoje é um atribulado poeta que, em vez de se recrear, isolado numa torre de marfim, a reflectir ociosamente sobre os mistérios da alma em longas análises sábias e cépticas, teve de pagar à vida todos os tributos e de lhe prestar contas, em cada página, dos passos rebeldes que deu. Daí a ironia perturbante desta hora que, apesar de lisonjeira, me não deixa em paz. É inseguro e confuso que aqui estou, obrigado por uma decisão que só acatei na medida em que me transcendia. Humilde servidor da literatura portuguesa, é sempre ela que me condiciona nestes momentos cruciais. Credora, pela sua riqueza singular, de uma atenção mais demorada e profunda da curiosidade do mundo, nunca me perdoaria se de alguma maneira contrariasse qualquer sinal de apreço que, mesmo através dos meus versos, ele lhe quisesse testemunhar. É minha velha convicção de que a cultura universal tem de ser o somatório de todas as culturas nacionais. E que basta que falte uma parcela na adição para que a conta esteja errada. Foi, de resto, Montaigne que assim no-lo ensinou, redigindo a sua obra monumental no idioma materno, ele que o aprendera só depois de conhecer o latim cosmopolita. A França primeiro, e o orbe depois. O geral, sim, mas a partir do particular. Ora o particular lusitano tem sido lamentavelmente ignorado, e génios seus, que podiam alargar a polifonia planetária, ou são meramente conhecidos de nome, ou nem isso. O próprio Camões merecia melhor sorte do que ser apenas lembrado em toda a Europa letrada por ocasião da efeméride multissecular da sua morte. Contemporâneo, neste extremo do Ocidente, do humanista gaulês, foi como ele uma consciência pioneira da imagem restaurada do homem universal. Acrescentando ao convívio erudito dos clássicos um saber de experiência feito, deixou-nos também o testemunho, decerto menos sereno, mas por isso mesmo mais patético, do fluxo e refluxo das paixões que fazem de cada criatura uma encruzilhada de perplexidades. Ambos legitimaram a originalidade da sua arte no culto da tradição greco-latina, que foi o esplendor matinal da nossa civilização. Mas enquanto que um é uma presença viva em qualquer latitude da inquietação intelectual, o outro, nessas mesmas paragens, está reduzido a um registo identificador nas folhas tumulares das enciclopédias. É, pois, movido por um indeclinável sentimento de dever que mais uma vez me submeto à dura prova de representar a voz criadora da língua pátria, enquanto ela não é ouvida em toda a sua plenitude. No caso presente, embora a responsabilidade seja pesada demais para os meus ombros, ajuda-me uma circunstância feliz. O patrono da honra que me é concedida amava, como deixou dito, l’allure poétique à sauts et gambades. Era também poeta à sua maneira. E essa particularidade do seu estio sossega-me um pouco. Ao fim e ao cabo, os poetas, grandes ou pequenos, estão sempre bem uns ao pé dos outros. Com mais ou menos sede, todos bebem nas mesmas fontes primordiais. E todos comungam na alegria de saber que nunca faltará quem vele pela pureza das nascentes e que sem a frescura limpa das suas águas não haveria vida nem esperança à tona árida dos tempos».
Miguel Torga

sábado, 9 de março de 2013

9 de Março [1966]

As observações brutais que eu tantas vezes poderia escrever a respeito dos amigos! (E eles de mim!) Mas resisto sempre. Até porque, se cedesse a essa tentação, acabaria por colaborar numa injustiça diabólica, como que engendrada de propósito em louvor dos inimigos. Pois não há dúvida de que, por circunstâncias de convívio, apreendemos mais intimamente os defeitos dos nossos amigos (de carácter privado, logo mais graves) do que os dos inimigos – públicos e por consequência de sabor social atenuado.
JGF

9 – Março (sexta). [1990]

Ontem fui com a Lídia a uma homenagem ao Ramos Rosa na Gulbenkian. Mas já de véspera houvera festa pelo mesmo motivo. A coisa começou num número de uma revista belga, todo ele dedicado ao nosso poeta. Mas a isso não fui. Era de noite e homenagem a dobrar era muito para os meus nervos sensíveis.
Fui ontem. Lá estava uma mesa cheia de oradores e o auditório cheio de público ouvinte. Havia poucos poetas de tamanho visível e de prosadores não havia mais.
Mas de intelectuais de outras áreas, a colheita fora razoável. Os oradores falaram todos em francês, o que me feriu um pouco a lusitanidade. Porque de fala natural nessa língua havia apenas dois belgas (ou um belga e outro não, já não sei). Pedro Tamen era o «moderador» e disse porque estávamos ali, para a hipótese de alguém não saber, e deu a identidade de cada orador, excepto do Eduardo Lourenço, pressupostamente sabida. E depois cada um pôs uma rosa ao peito do Rosa. O primeiro, aliás, falou foi da revista em irreprimível publicidade. O segundo fez distinções poéticas à prosa dos ouvintes que obviamente as confundiam, e disse que a poesia era pela face e não pela surface, que era pelo milieu e não pelo espace (seria) e que era por não sei quê e não por não sei quê. Depois voltou à outra ponta da mesa e levou a eito os portugueses. No fim o Rosa também quis dizer. Disse em português. E estava escarolado, aperaltado com gravata e tudo. A meio da sua oratória, a Lídia e eu fomo-nos raspando estrategicamente para a hipótese de atropelo apoteótico. Entretanto, quero dizer durante, conheci a jovem escritora e ensaísta Silvina Rodrigues Lopes. Ela mostrou à Lídia desejo de me conhecer. E eu a ela. Foi uma vontade cruzada, não sei porquê. É uma rapariga estranha que tem uns textos muito breves e um ensaio sobre a Agustina, sua tese de mestrado. Disse-lhe do meu interesse em conhecê-la. Disse-me que lhe telefonasse. Disse-lhe que não tinha o número. Disse-me que mo enviaria. Ficou assim formalizado o anteprojecto de um encontro. À saída (ou à entrada?) Lídia mostrou-me o seu pânico com a anulação do significado de muitas obras literárias com o rebentamento a Leste do grande logro comunista. E eu disse-lhe:
– Já a tinha alertado há muito tempo. Lembra-se?
Ela disse que sim. Aliás o seu caso pessoal, disse eu ainda, não é grave, porque está ainda em começo de carreira. Não o dos outros, que ficaram no vazadoiro da História com a farrapada dos seus livros.
*
O Hegel. Sinto-me razoavelmente bem instalado no seu sistema, disse eu. Aponto pequenos arranjos, inclusive a jigajoga dos três tempos do progresso. E à parte evidentemente o que nos diz sobre o destino da arte – não o que diz sobre ela, que é quase sempre maravilhoso. Muito bem. E então o «eu»? Que fez ele para se safar desta trituração, que tudo mastiga? Como é que o pobre Kierkegaard vai aguentar, sem me cuspir na cara? Mas é tão simples. Porque eu, realmente, não caibo no sistema. Mas acabo por ter lá cabido. Neste instante em que me penso, e logo no referente à fisiologia, não tenho pais. Mas quem me lesse a alma depois de morta, saberia que os tive. Eu sou eu apenas, em qualquer situação. Mas, para começar, é sempre em função dele que o sou. Por sobre tudo, porém, o eu que estou sendo não tem tempo nem condicionamento algum de qualquer natureza. Porque eu sou o princípio de tudo e moro na eternidade. Hegel está à minha espera para ter razão. Mas quando a tiver, já cá não estou, ou seja, já a não tem. Tem-na para outro sobre mim, e o seu sistema começa logo a funcionar. Mas era de mim que eu estava a falar.
Não me devo ter explicado bem. Não me devo ter metido na coerência, que é onde se dorme bem. Mas não me interessa nada disso, que é onde se dorme melhor…
*
Que lindo dia de sol. Que linda publicidade para a Primavera. Mas a alma começa-me a não acompanhar as estações. Em que estação me ficou? Deixá-lo. Tenho pouca luz na alma para haver Primavera nela também. Acabou-se. Vejo-a da janela como o paralítico. E haverá talvez ilusão bastante para julgar que a sou…
VF 

sexta-feira, 8 de março de 2013

O PEQUENO ASSASSINO

Após três dias retido em casa pela chuva, brilhou finalmente o sol. Mal ele me bateu na vidraça, saltei da cama e saí para os campos.
Após duas horas de marcha sob um sol inclemente, as pernas começaram a pedir clemência. Concedi-lha.
Ali perto, um outeirinho coroado de pinheiros, parecia chamar por mim: «Acolhe-te aqui à minha sombra. Indas que te digam que a sombra dos pinheiros não é grande coisa, não acredites. Entra e verás que rico ambiente eles proporcionam.»
Aceitei. Mais que não fosse, por curiosidade. Todos aqueles pinheiros são mais novos do que eu. Na minha infância não havia ali nada. Apenas um morro escalvado, onde o dente das cabras não deixava medrar a carqueja.
Não obstante, o pequeno pinhal tem um aspecto envelhecido. Ninguém o limpa. A caruma, as pinhas, os galhos secos, acumulam-se no chão. Alguns troncos jazem por terra. Escolhi um dos mais periféricos, de modo a ver ao largo, e sentei-me. Na verdade, estava-se ali bem. Temperatura agradável, tranquilidade, um tlintlim de campainhas de gado ao longe, um leve saído de asas, o cheiro a resina, o perfume das várias espécies vegetais e arbóreas em plena floração.
Para mim, um dos maiores encantos da Primavera, é a chegada das aves migradoras. Ali sentado num tronco de pinheiro morto, no silêncio daquele ermo, avoquei-as a todas em pensamento: «Queridas amigas! Dizei-me se chegastes bem e estais de saúde?» Todas elas, cada qual na sua língua, me responderam. O cuco, a poupa, a rola, a andorinha, o tentilhão. Até a codorniz. Quem diria? Eu tinha a ideia de que o canto da codorniz eram apenas vozes de comando e orientação à ninhada. Mas devia estar enganado. É impossível que em fins de Abril a parpalhaça já tenha a ninhada cá fora. Mas não havia dúvida. Lá estava ela: parpalhás, parpalhás, parpalhás.
Migradoras ou não, todo o vale era um falanstério de aves canoras.
Para ajudar à festa, vem de lá um rouxinol e começa a cantar mesmo por cima da minha cabeça. Devagarinho, para não o espavorir, comecei a rodar os olhos. Não era por cima da minha cabeça, mas ali a poucos metros, num ramo de escambroeiro, à orla do pinhal.
Estava eu a olhar para o pequeno e divino cantor, vem de lá um gaio em voo picado, garras abertas e amarfanha-o. Fiquei siderado! Um gaio a matar um rouxinol? Que se passa aqui? Que aberração é esta? Estará o gaio doido? Pervertido? Com a raiva? Com o vírus H5N1? Ou estarei eu a ver mal?
Não estava. Num abrir e fechar de olhos, o gaio tinha o rouxinol morto e depenado. E quando eu julgava que o ia comer, que faz o monstro? Empalou-o num espinho do escambroeiro…
Fugi dali espavorido, a benzer-me com a mão esquerda.
– Viste lobo, rapaz? – perguntou o Zé Melro que passava, atrás das vacas.
– Trinta vezes pior. Se te disser, nem acreditas.
– Lobisomem?
– Um gaio a matar um rouxinol...
Ele riu-se:
– E era grande, o gaio?
– Pequeno, rapaz! Um dez reis de gente…
O Melro voltou a rir-se:
– Nunca ouviste falar no picanço?
– Picanço?!
– E cascarrolho?
– Ai esse conheço-o bem.
– Pois são da mesma família. A ave de rapina mais pequena que por aí anda. Duas espécies. Um que fica aí todo o ano. Outro, um pouco maior e mais colorido, que chega por esta altura e se vai embora em Setembro. Deve ser esse o que tu viste. Parece realmente um gaio. Mas, se reparares bem, é diferente. Mais pequeno, bico terminado em gancho, pernas e garras às listas castanhas e escuras. Mas há um pormenor que o distingue de todas as outras aves. Uma pequena mascarilha escura que lhe dá o aspecto de um ladrão. E é precisamente isso o que ele é. Um pequeno assassino.
Voltei atrás, pé ante pé, por entre os pinheiros. Lá estava o bandido, com o rouxinol empalado numa pua do escambroeiro. Reparei-lhe no variegado da plumagem, com predominância do vermelho, no bico em gancho de pirata, nas garras poderosas, na mascarilha de assaltante de bancos.
Retirei-me descontente comigo e com ele. Comigo, porque, julgando conhecer todos os pássaros da minha terra por dentro e por fora, afinal confundi um picanço com um gaio. Com ele, por ter aquele ar simpático e misterioso, e, afinal, não passar dum assassino.
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 88 e ss.)

quinta-feira, 7 de março de 2013

7 de Março [1966]

Intrigas literárias de que já ninguém se lembrará dentro de breves semanas.
Parece que o Alexandre Pinheiro Torres foi corrido de crítico do Diário de Lisboa.
Esboço de indignação branda…
Musgo de gritos surdos nos cafés…
Protestos em pequeninas doses para fazermos boa figura diante das consciências uns dos outros – na vaidade estreita dos dias.
JGF

7 de Março de 1978

«Solitário, eu? Que vivo numa ilha deserta povoada de sete milhões de seres humanos?»
JRM

quarta-feira, 6 de março de 2013

6 de Março [1966]

Jantar de homenagem a Isabel da Nóbrega para entrega do Prémio Camilo Castelo Branco atribuído ao seu «Viver com os Outros». A primeira reunião de escritores depois do encerramento da Sociedade. Abraços de amigos que raras vezes se vêem. Risos. Alegria de convívio.
A meu lado ficou o Vergílio Ferreira. Conversa inquieta em virtude de lhe desagradarem quase todos os nomes que vieram no acaso dos comentários – como bem-educadamente mo deu a entender, por leves sinais e palavras de arranhões cautelosos.
Gosto dele… Mas é tão difícil dialogar com homens como Vergílio Ferreira que não conseguem esquecer-se dos agravos que imaginam – sem dúvida muito mais ferozes de que os reais!...
Os «imaginários» são a dor da nossa carne!
JGF

6 – Março (terça). [1990]

Quanto a vida me tem maltratado. Perversa. Eu que tanto a amei. E logo desde a infância com maroteiras que se não esquecem, mesmo quando já as não lembro. Na juventude então, que fartote. E depois na idade adulta. Mas são coisas de que se não deve falar para não apanhar ainda por cima com a execração alheia. Comer e calar é a regra da boa educação. Podia ao menos agora na velhice haver um pouco de misericórdia. Pois sim. Massacre do irmão corpo, dos escribas meus irmãos, da invencível incompatibilidade de quantos me estão mais na proximidade. O resultado de tudo isso é ter a alma num lodaçal. O curioso é que a interiorização de tudo isso, como se diz, é criar eu uma aversão incomensurável por mim próprio. Estão a ver? Eu próprio não pude conviver comigo que é com quem tenho irremediavelmente de conviver. Detesto-me. Converti em mim o que de detestável veio sobre mim de toda a parte. E todavia, às vezes penso, não me devia ter tanto asco assim. Fiz coisas, cumpri, não fui de todo desprezível para haver assim esse desprezo. Das irritações que me vêm de fora cria-se-me a irritação que me vem de dentro. E às vezes já não sei como é que eu consigo pagar o justo pelo pecador. Porque os meus pecados não são assim tanto de ir para o inferno em que vivo. Mas são. O enervamento que me toma é contra mim que por fim o faço convergir. Devia poder separar o que é do lado de lá do que é do lado de cá. Há pecados que naturalmente me pertencem. Mas eles engrossam-se com os que me atiram à cara e por uma alquimia pervertida são logo meus também. Gostava de ter afinado o meu saber psicológico para entender. Mas não se entende. Na minha aldeia as mães desancavam os filhos não apenas pelas faltas que cometiam mas pelas que davam azo a que outros cometessem e os apanhavam no meio. E às vezes mesmo longe desse meio. Nas zangas familiares com os maridos, por exemplo, os filhos é que apanhavam. Deve pois haver uma lei inscrita no eterno de que todos somos culpados por todo o mal que acontece no Universo. Eu acabo por me culpar a mim. E é neste inferno que vivo sem o merecer. Quem faz as contas do deve e haver? Quem deve e quem há? Não se sabe. Há-de um dia saber-se no infinito onde já nem Deus estará, para haver alguém que entenda.
*
Quando Marx pretendeu pôr Hegel de pernas para baixo, porque em baixo estava a cabeça, foi um bocadinho estúpido. A História do homem é a do seu Espírito, o qual é «objectivo», ou seja identificado com o ser. Acaso é concebível que isto não seja concebível? Tão simples. A realidade universal é no homem que se exprime e essa expressão é o Espírito. Não limitado a ela, para não ficar logo paralítico, mas incomensuravelmente até ao fim dos séculos – embora Hegel quisesse que se reconhecesse totalmente com ele. Há o ser e há o que ele é em pensamento. E este pensamento não pode estar fora desse ser, mas deve confundir-se com ele. Como conceber a História fora desse ser feito Espírito? Como conceber a História sem ser espírito? Espírito em si é coisa oca ou vazia. O ser sem ele é impensável e tem de ter em que seja pensamento, nem que seja Deus. Para Hegel, aliás, Deus está aqui muito bem na terra, onde Espinosa o instalou, e o que Hegel fez foi investi-lo do próprio Espírito humano, irmanando-o ao Ser que existe enquanto pensado pelo homem. Portanto, e tomando atrás, não pode haver História sem que seja Espírito. Marx ao pôr a matéria como fundamento cometeu uma tolice. Pois que diabo será a matéria não investida do espírito para a fazer existir? E dar-lhe a primazia é uma bizantinice, porque não tem sentido dizer-se que primeiro é a matéria e depois é que é o espírito. Para sabermos que seria assim, que se imagine o Mundo sem um ser que o pensasse. É mesmo o erro de Berkeley, porque é no pensar que o ser começa a existir. Com Husserl – e antes dele em David Hume – sabemos que o pensar no vazio não tem sentido. Mas Hegel já disse tudo ao unir ser e pensar. A História do homem é a do seu Espírito. A menos que o bruto animal também construa a sua. E que é que sobra de todo o passado humano, além do que dele pensamos, ou seja do seu Espírito? É o Espírito ou a Ideia ou o Absoluto que se distende pelo tempo no alargamento ou esclarecimento de si na própria mente do homem. E ao pôr o Espírito de cabeça para cima fez Hegel muito bem. Marx é que pôs o homem de pernas para o ar.
Mas paro aqui porque eu é que já tenho a cabeça para baixo com o peso do que lá fui pondo enquanto me aqueço ao fogão neste apagamento da tarde, para lá das janelas a toda a roda da sala. E o cigarro a acompanhar não me faz bem no que importava à leveza do meu ser mortal. Ponto final, portanto. A ver se ainda sou pensante para ler o suplemento literário do Público, que é um jornal saído ontem mas anunciado já há séculos, como é próprio dos Messias e dos profetas seus trombeteiros.
VF 

terça-feira, 5 de março de 2013

TERNURA MATERNA


Lembro-me de, quando garoto, passar o Inverno a suspirar pela Primavera.
Isto, quando os Invernos lembravam o Dilúvio e os ribeiros da minha terra o rio Amazonas.
Ultimamente, porém, os Invernos têm ido tão secos, que até o meu pátrio Regavão ficou reduzido a um fiozinho de nada. Qualquer dia desaparece, murmurava eu para comigo, cheio de angústia.
Imaginem agora o meu alívio quando, com a entrada do mês de Março e a lua de Fevereiro, pelas indicações do Seringador, o Inverno resolveu visitar-nos. Eu, ao princípio nem acreditava. Mas, após quinze dias de chuva pegada, não resisti mais. Meti-me no carro e só parei à vista do meu Regavão.
Aleluia! O rio da minha infância ressuscitou! Como ele vai bonito! De monte a monte, undoso, rápido, refulgente, a saltar e a rir de margem em margem, de cachoeira em cachoeira, de represa em represa. Passei o resto da tarde a olhar para ele. Só a noite me interrompeu o êxtase.
Muito gosto eu da água. Não no sentido em que muitos gostam do vinho, mas no sentido filosófico. Ficou-me este gosto das prelecções de Mestre Saias, que floresceu em Peireses no século XX, mas dir-se-ia ter florescido na Grécia antiga:
– Dos quatro elementos que compõem o universo, ar, terra, fogo e água, é a água o mais importante, por ser a fonte da vida – afirmava ele com a autoridade dum Sócrates de parrogueira.
Fonte da vida e de inspiração poética, acrescento eu, sem autoridade nenhuma. Em todas as épocas houve poetas que pescaram metáforas amorosas na água, com a fortuna com que outros pescam pérolas no mar. Qualquer fonte, rio, lago ou nuvem lhes serve para falarem metaforicamente da coisa amada.
A mim, que não sou poeta, qualquer dia de chuva me traz à memória a minha infância e a ternura da minha mãe.
Quando, aí pelos cinco ou seis anos, comecei a ir com as vacas para o monte e a chegar a casa à noite todo molhado, minha mãe recebia-me com palavras de muito carinho: «Anda cá, meu filho. Ai como tu vens! Ainda apanhas alguma pneumonia. Deixa que eu te dispo e enxugo». E despia-me a roupa molhada, e embrulhava-me num cobertor de flanela, e cobria a minha inocente nudez de beijos.
Eu gostava daquilo.
E, partindo do princípio de que, quanto maior fosse a molha, maior a ternura, antes de entrar em casa, metia-me debaixo duma das muitas cataratas que, naqueles dias de Inverno, se precipitavam dos altos taludes.
Com que saudades eu recordo esses tempos…
Como o rio vai grande…
Como as fontes jorram água…
Com que abundância ela me escorre pelas faces…
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 86 e s.)

segunda-feira, 4 de março de 2013

4 de Março [1966]

Considero-me um «resignado» ao que vulgarmente se chama «pensamento marxista». Por mais que intente fugir-lhe (por teima de liberdade aparente) sempre vou lá parar...
… Riacho impetuoso a fingir de livre, afinal sem outro destino que não seja o mar (ou as nuvens).
JGF

4 – Março (domingo). [1990]

Ontem fui a Cascais, a casa do meu antigo aluno Pedro Viegas, que escreveu uma breve «tese» sobre a minha «filosofia». Como eu não daria com a «torre» onde mora, fui até Sintra e ele foi aí buscar-me. Estava um tempo horroroso com um vento de ciclone e eu estava também em dia não, com as minhas avarias nervosas – a vaga cólica no ventre como quando ia a exame e a subsequente irritação e esgotamento. Mas havia que cumprir o combinado e lá fui. Creio ter dito algures que ele preparava o doutoramento sobre mim. Houve equívoco meu. Ele trabalha e com veemência é a filosofia de Kant. Que paixão devoradora. Pressenti que eu ia ficar chumbado na conversa com ele porque do Kant o que sei é o pouco que me alimenta a cultura geral. Mas lá fui dando réplica e pondo objecções. Eram objecções que genericamente se organizavam em tomo da ideia de que o grande filósofo era um homem seco, com a obsessão de formalizar tudo, feito de fibra mirrada, sem um pouco de humildade humana. E o Pedro Viegas esforçava-se por me rebater esse «cliché», argumentando-me com obras menos conhecidas ou em subtis parágrafos das outras em que toda a secura amolecia em seiva mais parecida com a da humanidade comum. E de nada me valeu contra-atacar com uma certa nota em que o filósofo recomendava absurdamente a redacção das obras de arte em língua morta, a redução da moral a um esqueleto, a redução da cor dos quadros a pura agradabilidade, a concepção da pintura a uma arte abstracta (como já Platão no diálogo «Filebo»), a própria vida do grande homem a um rigor cronometrado (com a anedota do tipo que acertava o relógio quando ele passava) e até – do que me esqueci de lembrar – a sua última frase antes de morrer «tudo está bem», que resume o que ele foi como máquina de viver. Pedro Viegas não se dava por convencido. E eu gostei do seu entusiasmo e convicção porque só com isso se constroem impérios. Depois chazou-se e fizeram-se fotos comemorativas. E houve mais Kant. E entremeado a isso, houve a notícia inverosímil de que eu fazia parte da matéria filosófica não sei em que curso. E eu senti-me mais vivo. E eu senti-me mais morto.
Veio depois toda a família (mulher e filha) trazer-me a Sintra para eu retomar o meu veículo aí deixado. E insistiram em acompanhar-me a Fontanelas. Pedro Viegas veio no meu carro, a mulher e a filha no deles. O meu traste portou-se mal. Mas cá chegámos. Insisti para que entrassem um pouco. Entraram. Regina já em alarme. O fogão estava aceso (como o deles). E houve mais conversa. Agora sobre os nossos velhos tempos do liceu. Era tudo muito antigo, já me não pertencia. Porque sou mais novo do que isso.
*
Mas esquecia-me. Enquanto esperava em Sintra e no café combinado a chegada do Pedro Viegas e me encolhia até à alma da chuvada e frio que andavam lá fora e às vezes vinham pelas portas até cá dentro, vi entrar e sair grupos de ciclistas já equipados para alguma corrida ou que ali tinham tido alguma pausa de descanso. Envergavam o que me parecia uma túnica de plástico contra a chuva, mas escorriam água e talvez suor pelas pernas ao léu como competia ao desporto. E dei conta de que os meus olhos iam até eles de rastos e em humilhação e que se não tenho mão em mim, apanhava logo ali uma pneumonia.
VF 

domingo, 3 de março de 2013

Coimbra, 3 de Março de 1976

        Ainda não foi desta. A velha carcaça parece que vai resistir mais uma vez às facadas da cirurgia. E, sinceramente, para que hei-de continuar no mundo, se o meu tempo já está preenchido, ou gasto, ou fixado? Se já desci aos infernos e desobedeci ao mandamento de não fitar o rosto de Eurídice?
Miguel Torga

3 de Março [1966]

Mandei hoje esta bagatela para o catálogo que a Associação da Faculdade de Direito vai publicar, para festejar os 60 anos do Graça. Não tive tempo para um depoimento mais acabado.
O maior elogio que posso fazer a este homem parece-me ser a seguinte confissão pública: graças ao aproveitamento de alguns sonetilhos do Longe para as suas canções, Fernando Lopes-Graça salvou esse meu livro do esquecimento perfeito.
Não tenho hoje, pois, dúvidas de que muitos dos meus versos sobreviverão apenas em virtude do destino de música que o grande compositor europeu lhes encontrou».
JGF

3 de Março de 1978

Qual é, desde tempos imemoriais, a mais cobiçada e procurada, a mais explorada, rendosa e produtiva, e mesmo inesgotável, das minas do mundo inteiro? O ventre da Mulher!
JRM 

3 – Março (sábado). [1990]

A Sibéria desceu cá até ao sul. A ver se aquecia, talvez. Mas foi isto que gelou. E um vento desabrido, estranhando decerto a visita, anda doido pelo pinhal. Estamos em Fontanelas, claro. Mas metemo-nos na toca e o vento que esbraveje lá fora como um touro. A casa aguenta como num «burladero» das praças do dito. E há o fogão para nos pôr a alma em brandura. Tem calor, tem a sua luz incerta, oscilando nos madeiros, e tem a música do seu rumor longínquo, estendido aos confins da memória. Cá estou a olhá-lo e a ouvi-lo e a transpô-lo para esta folha de papel sobre a prancheta nos joelhos. A chatice é que um fogão não nos dá muito tempo de descanso. Exige-nos uma constante atenção para o irmos abastecendo de alimento, revolver-lhe os tocos de lenha para lhes ir comendo os lados ainda por comer. E há o lixo das cinzas que vai lançando não sei como para os arredores do seu alumiar. Mas isso é com a Regina, coitada, e ela que limpe depois. Estou a ser escritor e tenho as exigências da minha comodidade – e o futuro não me vai perdoar que eu não cumpra a minha missão. Óptimo.
Mas logo tenho de ir a Cascais a casa do Pedro Viegas, que foi meu aluno e anda a desanichar a minha «filosofia» para uma tese, como devo já ter dito e não fica mal dizer outra vez. A minha «filosofia». Nunca pensei que a tivesse, para lã da que tem toda a gente que utiliza da língua as «orações subordinadas». Tudo isto para dizer o quê? Tudo isto para dizer que, por uma aberração pouco inteligível, rarissimamente nos deu a tineta para «filosofar» o nosso pouco. Da filosofia dos outros sabemos q.b. Mas criá-la nós próprios, está quieto. Já um dia suponho ter dado a minha explicação da desgraça. E a explicação é sobretudo a de que temos um pânico imbecil de parecermos imbecis. A filosofia é para povos civilizados e nós tememos o ridículo de o não sermos, mas com o desejo insofrido de o parecermos. Iríamos nós estragar a nossa imagem com a pretensão de que não temos bossa para o sermos? Em todo o caso, há realmente uma tendência ancestral para a frivolidade, a chalaça, a brincalhotice que não dão muito para a reflexão. E fazendo da necessidade virtude, ou dos maus hábitos coisa vistosa, ou da preguiça um modo alegre de ser, ou da inferioridade um seu disfarce com um modo superior e fácil e desembaraçado de ser – acabamos por ver na criação filosófica uma madureza mais própria de tipos extravagantes, maníacos que andam fora do manicómio, tipos pitorescos mais próprios para espectáculos de circo.
De todo o modo, e sobretudo no nosso tempo, vai uma certa distância entre a reflexão avulsa mais própria do ensaísmo, e a estruturação de um pensar filosófico responsável, organizado, disciplinado, sistematizado. Eu renunciei à poesia em versos para me não dizer antecipadamente poeta. Mas a poesia que houver em mim com vontade de vir até cá fora, lá está o romance ou certo ensaísmo para lhe dar esse gosto. Eu jamais pensei em organizar uma obra filosófica. Mas o que houve em mim com vontade de dizer de sua justiça em filosofia, lá tem o ensaísmo e mesmo o romance para fazer o seu número. Mas haverá em mim ideias «filosóficas» da minha lavra? Nunca me incomodei a sabê-lo. Nem eu me dava à pachorra de revisitar e espiolhar os filósofos das minhas relações mais ou menos familiares para tirar a coisa a limpo. O que para mim foi sempre fundamental foi sentir o que penso e digo e não pensá-lo apenas como quem joga xadrez. Naturalmente interrogo-me sobre o que me vem vindo à vida. O «eu», a «verdade», o «tempo», a «liberdade», etc. etc. São questões que me obrigaram a reflectir. Mas são, para lá disso, o que me foi um sentir original, quero dizer, na sua dimensão originária, onde a emoção sobreleva o entender. Não me afligem assim aí as possíveis «contradições», Até porque é muito difícil que elas existam visto que elas são mais próprias das construções mentais. O que me inibe, para lá do trabalho disso, é a ordenação de tudo em engrenagens necessárias com o preenchimento de todos os espaços vazios para formar os vários blocos em função de um conjunto final. De todo o modo, suponho, a Invocação ao Meu Corpo é um livro totalizado. Mas há naturalmente o que ficou de fora. E do que ficou de fora o mais importante é o que poderia ser uma «Estética» que está fragmentada em múltiplas anotações.
Mas já perdi o fio à meada. E fico-me por aqui.

VF 

sexta-feira, 1 de março de 2013

Coimbra, 1 de Março de 1976

          Mais uma operação. Este meu pobre corpo parece um mostruário de cicatrizes. Reduzido a um monte de ossos cobertos de tecido conjuntivo, sem polpa, já quase só sinto bater o coração nos versos que escrevo.
Miguel Torga

1 – Março (quinta). [1990]

Hoje esteve aí o João Falcato. É a segunda vez que o vejo desde há trinta anos quando ele ia de Borba a Évora à frente da caravana dos alunos do seu colégio que iam lá para chumbar. Bom, às vezes passavam. Mas agora tem aparecido, embora venha a Lisboa todas as semanas, porque me queria a opinião sobre um seu livro em torno do Namora. E das duas vezes que veio, almoçámos. E das duas vezes que almoçámos, recaímos nas memórias de Coimbra, essa doença sem cura como a tísica do Nobre. Mas como de Coimbra eu tenho sobretudo a quebreira da evocação, tenho poucos episódios a contar. E desses poucos, já poucos terão sobrado dos que contei. De modo que, se calhar, não há senão que repetir-me. Terei contado o que se segue?
Nesse tempo em que eu andava em Coimbra, ouvir conferências era uma coisa normal como dar parabéns ou pêsames. A gente ia ouvir, mas não me lembro exactamenle porquê. Talvez porque o professor no-las aconselhava, talvez por não termos que fazer, talvez para explorar o terreno para algum namoro. Eu por mim não me lembro de nenhuma conferência que me tivesse deixado uma pegada na alma. Mas ouvi muitas. Ora porque a coisa não era divertida, do que me lembro muito bem era do processo utilizado pelo conferente para ir passando as folhas. Os mais sensatos, para nos não desencorajarem, costumavam ir depondo na mesa as folhas que iam lendo. E assim, o que mais nos prendia a atenção era o volume daquelas que ainda faltava ler. A gente ia vendo a espessura das que o conferencista ainda tinha na mão e ia ganhando coragem para aguentar até ao fim. Regulávamos assim a nossa paciência com a certeza cada vez mais segura de que estava quase a acabar. E à última folha, que às vezes já não tinha consistência na sua mão oratória e tinha de segurar com as duas mãos, nós soprávamos de alívio e dávamos mesmo grandes palmas calorosas por nos livrar do suplício. Mas havia outros oradores que tinham um processo diferente, cheio de perfídia. Eram aqueles que à medida que iam lendo, passavam as folhas lidas para o lado de trás das que faltavam. Como saber assim quando acabava a tortura? O orador ia palrando mas não tínhamos sinal algum visível de quando se iria calar. Porque, com as folhas sempre juntas, estava sempre no princípio. Decerto o assunto lá ia andando e com um pouco de atenção dava-se conta do andamento. Mas nunca se podia saber ao certo quando o andamento travava. Porque sobre Adão e Eva como sobre os calos da plaina de S. José ou a luxúria da Tareja (tema talvez improvável) podia o orador discorrer duas horas. De modo que, à perfídia do conferente, nós respondíamos normalmente com a sacanice de nos rasparmos.
Mas o cúmulo do cinismo era o dos conferencistas que iam depondo as folhas à medida que as iam lendo e nós respirando. E quando já era a última, a gente pensava: é agora. Mas não era. Porque os perversos, depois de esgotada a provisão das folhas lidas, iam buscar outro molho e continuavam sossegados a oratória. Nós dávamos urros e regra geral mandávamo-los onde se devia e alçávamos.
Havia, no entanto, entre os ouvintes, um tipo que era fatal. Suponho que as conferências deviam exalar um cheiro especial, a sebo ou suor, e o ouvinte consuetudinário decerto apanhava o cheiro na aragem. Porque não falhava uma e chamávamos-lhe assim o «papa-conferências». Era um homem baixo, entroncado, com uma cabeça robusta para aguentar tudo e já toda encanecida. Quanta conferência ele já teria deglutido. Imagina-se a quantidade de saber que o encaneceu. Mas o que havia de singular neste paciente é que mal começava o orador a orar, começava ele logo a dormir. E dormia com convicção, o queixo enterrado no peito, o arco do dito a arfar em repouso. A gente olhava a confirmar a boa digestão da matéria para o espírito, ele confirmava a nossa confirmação. Passavam as folhas do conferente, passavam os minutos ou as horas da nossa paciência, ele dormia. Suponho que não ressonava para não perturbar a ilustração geral. Mas era um dormir ajustado ao ressono que se calhar guardava depois para a mulher. Até que a oratória chegava ao seu explicit e o homem acordava sobressaltado ao entusiasmo das nossas palmas. E erguia-se tranquilamente em direcção à porta, suponho que para ir ouvir mais alguma outra conferência. Porque se a houvesse, estava lá caído com certeza, como um beata numa igreja ou um bêbedo numa taberna. E todas para um alimento comum, porque o espírito tem muitas maneiras de ser e de se alimentar…
VF