domingo, 10 de março de 2013

10 de Março [1966]

Além disso, os amigos têm a obrigação de ser deuses. Os seus defeitos afiguram-se-nos uma espécie de traição.
JGF

Lisboa, 10 de Março de 1981


O destino não me dá tréguas. Aqui fica a espada de pau com que o enfrentei mais uma vez.

«Quando fui informado de que o júri do prémio Montaigne me tinha atribuído o galardão fiquei em pânico. E ainda estou. Pela distinção em si e pelo nome que a tutela.
Receber um prémio é sempre um risco. Ou porque se não merece ou porque é muito difícil saber recebê-lo. Mas se ele é outorgado sob a égide do autor glorioso dos Ensaios, o caso torna-se ainda mais delicado. Montaigne foi um grande senhor do espírito, um dos divinos do renascimento, o mais paradigmático dos fundadores do pensamento moderno, que nele encontra o modelo de um incansável esforço de objectividade crítica. E o laureado de hoje é um atribulado poeta que, em vez de se recrear, isolado numa torre de marfim, a reflectir ociosamente sobre os mistérios da alma em longas análises sábias e cépticas, teve de pagar à vida todos os tributos e de lhe prestar contas, em cada página, dos passos rebeldes que deu. Daí a ironia perturbante desta hora que, apesar de lisonjeira, me não deixa em paz. É inseguro e confuso que aqui estou, obrigado por uma decisão que só acatei na medida em que me transcendia. Humilde servidor da literatura portuguesa, é sempre ela que me condiciona nestes momentos cruciais. Credora, pela sua riqueza singular, de uma atenção mais demorada e profunda da curiosidade do mundo, nunca me perdoaria se de alguma maneira contrariasse qualquer sinal de apreço que, mesmo através dos meus versos, ele lhe quisesse testemunhar. É minha velha convicção de que a cultura universal tem de ser o somatório de todas as culturas nacionais. E que basta que falte uma parcela na adição para que a conta esteja errada. Foi, de resto, Montaigne que assim no-lo ensinou, redigindo a sua obra monumental no idioma materno, ele que o aprendera só depois de conhecer o latim cosmopolita. A França primeiro, e o orbe depois. O geral, sim, mas a partir do particular. Ora o particular lusitano tem sido lamentavelmente ignorado, e génios seus, que podiam alargar a polifonia planetária, ou são meramente conhecidos de nome, ou nem isso. O próprio Camões merecia melhor sorte do que ser apenas lembrado em toda a Europa letrada por ocasião da efeméride multissecular da sua morte. Contemporâneo, neste extremo do Ocidente, do humanista gaulês, foi como ele uma consciência pioneira da imagem restaurada do homem universal. Acrescentando ao convívio erudito dos clássicos um saber de experiência feito, deixou-nos também o testemunho, decerto menos sereno, mas por isso mesmo mais patético, do fluxo e refluxo das paixões que fazem de cada criatura uma encruzilhada de perplexidades. Ambos legitimaram a originalidade da sua arte no culto da tradição greco-latina, que foi o esplendor matinal da nossa civilização. Mas enquanto que um é uma presença viva em qualquer latitude da inquietação intelectual, o outro, nessas mesmas paragens, está reduzido a um registo identificador nas folhas tumulares das enciclopédias. É, pois, movido por um indeclinável sentimento de dever que mais uma vez me submeto à dura prova de representar a voz criadora da língua pátria, enquanto ela não é ouvida em toda a sua plenitude. No caso presente, embora a responsabilidade seja pesada demais para os meus ombros, ajuda-me uma circunstância feliz. O patrono da honra que me é concedida amava, como deixou dito, l’allure poétique à sauts et gambades. Era também poeta à sua maneira. E essa particularidade do seu estio sossega-me um pouco. Ao fim e ao cabo, os poetas, grandes ou pequenos, estão sempre bem uns ao pé dos outros. Com mais ou menos sede, todos bebem nas mesmas fontes primordiais. E todos comungam na alegria de saber que nunca faltará quem vele pela pureza das nascentes e que sem a frescura limpa das suas águas não haveria vida nem esperança à tona árida dos tempos».
Miguel Torga

sábado, 9 de março de 2013

9 de Março [1966]

As observações brutais que eu tantas vezes poderia escrever a respeito dos amigos! (E eles de mim!) Mas resisto sempre. Até porque, se cedesse a essa tentação, acabaria por colaborar numa injustiça diabólica, como que engendrada de propósito em louvor dos inimigos. Pois não há dúvida de que, por circunstâncias de convívio, apreendemos mais intimamente os defeitos dos nossos amigos (de carácter privado, logo mais graves) do que os dos inimigos – públicos e por consequência de sabor social atenuado.
JGF

9 – Março (sexta). [1990]

Ontem fui com a Lídia a uma homenagem ao Ramos Rosa na Gulbenkian. Mas já de véspera houvera festa pelo mesmo motivo. A coisa começou num número de uma revista belga, todo ele dedicado ao nosso poeta. Mas a isso não fui. Era de noite e homenagem a dobrar era muito para os meus nervos sensíveis.
Fui ontem. Lá estava uma mesa cheia de oradores e o auditório cheio de público ouvinte. Havia poucos poetas de tamanho visível e de prosadores não havia mais.
Mas de intelectuais de outras áreas, a colheita fora razoável. Os oradores falaram todos em francês, o que me feriu um pouco a lusitanidade. Porque de fala natural nessa língua havia apenas dois belgas (ou um belga e outro não, já não sei). Pedro Tamen era o «moderador» e disse porque estávamos ali, para a hipótese de alguém não saber, e deu a identidade de cada orador, excepto do Eduardo Lourenço, pressupostamente sabida. E depois cada um pôs uma rosa ao peito do Rosa. O primeiro, aliás, falou foi da revista em irreprimível publicidade. O segundo fez distinções poéticas à prosa dos ouvintes que obviamente as confundiam, e disse que a poesia era pela face e não pela surface, que era pelo milieu e não pelo espace (seria) e que era por não sei quê e não por não sei quê. Depois voltou à outra ponta da mesa e levou a eito os portugueses. No fim o Rosa também quis dizer. Disse em português. E estava escarolado, aperaltado com gravata e tudo. A meio da sua oratória, a Lídia e eu fomo-nos raspando estrategicamente para a hipótese de atropelo apoteótico. Entretanto, quero dizer durante, conheci a jovem escritora e ensaísta Silvina Rodrigues Lopes. Ela mostrou à Lídia desejo de me conhecer. E eu a ela. Foi uma vontade cruzada, não sei porquê. É uma rapariga estranha que tem uns textos muito breves e um ensaio sobre a Agustina, sua tese de mestrado. Disse-lhe do meu interesse em conhecê-la. Disse-me que lhe telefonasse. Disse-lhe que não tinha o número. Disse-me que mo enviaria. Ficou assim formalizado o anteprojecto de um encontro. À saída (ou à entrada?) Lídia mostrou-me o seu pânico com a anulação do significado de muitas obras literárias com o rebentamento a Leste do grande logro comunista. E eu disse-lhe:
– Já a tinha alertado há muito tempo. Lembra-se?
Ela disse que sim. Aliás o seu caso pessoal, disse eu ainda, não é grave, porque está ainda em começo de carreira. Não o dos outros, que ficaram no vazadoiro da História com a farrapada dos seus livros.
*
O Hegel. Sinto-me razoavelmente bem instalado no seu sistema, disse eu. Aponto pequenos arranjos, inclusive a jigajoga dos três tempos do progresso. E à parte evidentemente o que nos diz sobre o destino da arte – não o que diz sobre ela, que é quase sempre maravilhoso. Muito bem. E então o «eu»? Que fez ele para se safar desta trituração, que tudo mastiga? Como é que o pobre Kierkegaard vai aguentar, sem me cuspir na cara? Mas é tão simples. Porque eu, realmente, não caibo no sistema. Mas acabo por ter lá cabido. Neste instante em que me penso, e logo no referente à fisiologia, não tenho pais. Mas quem me lesse a alma depois de morta, saberia que os tive. Eu sou eu apenas, em qualquer situação. Mas, para começar, é sempre em função dele que o sou. Por sobre tudo, porém, o eu que estou sendo não tem tempo nem condicionamento algum de qualquer natureza. Porque eu sou o princípio de tudo e moro na eternidade. Hegel está à minha espera para ter razão. Mas quando a tiver, já cá não estou, ou seja, já a não tem. Tem-na para outro sobre mim, e o seu sistema começa logo a funcionar. Mas era de mim que eu estava a falar.
Não me devo ter explicado bem. Não me devo ter metido na coerência, que é onde se dorme bem. Mas não me interessa nada disso, que é onde se dorme melhor…
*
Que lindo dia de sol. Que linda publicidade para a Primavera. Mas a alma começa-me a não acompanhar as estações. Em que estação me ficou? Deixá-lo. Tenho pouca luz na alma para haver Primavera nela também. Acabou-se. Vejo-a da janela como o paralítico. E haverá talvez ilusão bastante para julgar que a sou…
VF 

sexta-feira, 8 de março de 2013

O PEQUENO ASSASSINO

Após três dias retido em casa pela chuva, brilhou finalmente o sol. Mal ele me bateu na vidraça, saltei da cama e saí para os campos.
Após duas horas de marcha sob um sol inclemente, as pernas começaram a pedir clemência. Concedi-lha.
Ali perto, um outeirinho coroado de pinheiros, parecia chamar por mim: «Acolhe-te aqui à minha sombra. Indas que te digam que a sombra dos pinheiros não é grande coisa, não acredites. Entra e verás que rico ambiente eles proporcionam.»
Aceitei. Mais que não fosse, por curiosidade. Todos aqueles pinheiros são mais novos do que eu. Na minha infância não havia ali nada. Apenas um morro escalvado, onde o dente das cabras não deixava medrar a carqueja.
Não obstante, o pequeno pinhal tem um aspecto envelhecido. Ninguém o limpa. A caruma, as pinhas, os galhos secos, acumulam-se no chão. Alguns troncos jazem por terra. Escolhi um dos mais periféricos, de modo a ver ao largo, e sentei-me. Na verdade, estava-se ali bem. Temperatura agradável, tranquilidade, um tlintlim de campainhas de gado ao longe, um leve saído de asas, o cheiro a resina, o perfume das várias espécies vegetais e arbóreas em plena floração.
Para mim, um dos maiores encantos da Primavera, é a chegada das aves migradoras. Ali sentado num tronco de pinheiro morto, no silêncio daquele ermo, avoquei-as a todas em pensamento: «Queridas amigas! Dizei-me se chegastes bem e estais de saúde?» Todas elas, cada qual na sua língua, me responderam. O cuco, a poupa, a rola, a andorinha, o tentilhão. Até a codorniz. Quem diria? Eu tinha a ideia de que o canto da codorniz eram apenas vozes de comando e orientação à ninhada. Mas devia estar enganado. É impossível que em fins de Abril a parpalhaça já tenha a ninhada cá fora. Mas não havia dúvida. Lá estava ela: parpalhás, parpalhás, parpalhás.
Migradoras ou não, todo o vale era um falanstério de aves canoras.
Para ajudar à festa, vem de lá um rouxinol e começa a cantar mesmo por cima da minha cabeça. Devagarinho, para não o espavorir, comecei a rodar os olhos. Não era por cima da minha cabeça, mas ali a poucos metros, num ramo de escambroeiro, à orla do pinhal.
Estava eu a olhar para o pequeno e divino cantor, vem de lá um gaio em voo picado, garras abertas e amarfanha-o. Fiquei siderado! Um gaio a matar um rouxinol? Que se passa aqui? Que aberração é esta? Estará o gaio doido? Pervertido? Com a raiva? Com o vírus H5N1? Ou estarei eu a ver mal?
Não estava. Num abrir e fechar de olhos, o gaio tinha o rouxinol morto e depenado. E quando eu julgava que o ia comer, que faz o monstro? Empalou-o num espinho do escambroeiro…
Fugi dali espavorido, a benzer-me com a mão esquerda.
– Viste lobo, rapaz? – perguntou o Zé Melro que passava, atrás das vacas.
– Trinta vezes pior. Se te disser, nem acreditas.
– Lobisomem?
– Um gaio a matar um rouxinol...
Ele riu-se:
– E era grande, o gaio?
– Pequeno, rapaz! Um dez reis de gente…
O Melro voltou a rir-se:
– Nunca ouviste falar no picanço?
– Picanço?!
– E cascarrolho?
– Ai esse conheço-o bem.
– Pois são da mesma família. A ave de rapina mais pequena que por aí anda. Duas espécies. Um que fica aí todo o ano. Outro, um pouco maior e mais colorido, que chega por esta altura e se vai embora em Setembro. Deve ser esse o que tu viste. Parece realmente um gaio. Mas, se reparares bem, é diferente. Mais pequeno, bico terminado em gancho, pernas e garras às listas castanhas e escuras. Mas há um pormenor que o distingue de todas as outras aves. Uma pequena mascarilha escura que lhe dá o aspecto de um ladrão. E é precisamente isso o que ele é. Um pequeno assassino.
Voltei atrás, pé ante pé, por entre os pinheiros. Lá estava o bandido, com o rouxinol empalado numa pua do escambroeiro. Reparei-lhe no variegado da plumagem, com predominância do vermelho, no bico em gancho de pirata, nas garras poderosas, na mascarilha de assaltante de bancos.
Retirei-me descontente comigo e com ele. Comigo, porque, julgando conhecer todos os pássaros da minha terra por dentro e por fora, afinal confundi um picanço com um gaio. Com ele, por ter aquele ar simpático e misterioso, e, afinal, não passar dum assassino.
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 88 e ss.)

quinta-feira, 7 de março de 2013

7 de Março [1966]

Intrigas literárias de que já ninguém se lembrará dentro de breves semanas.
Parece que o Alexandre Pinheiro Torres foi corrido de crítico do Diário de Lisboa.
Esboço de indignação branda…
Musgo de gritos surdos nos cafés…
Protestos em pequeninas doses para fazermos boa figura diante das consciências uns dos outros – na vaidade estreita dos dias.
JGF

7 de Março de 1978

«Solitário, eu? Que vivo numa ilha deserta povoada de sete milhões de seres humanos?»
JRM

quarta-feira, 6 de março de 2013

6 de Março [1966]

Jantar de homenagem a Isabel da Nóbrega para entrega do Prémio Camilo Castelo Branco atribuído ao seu «Viver com os Outros». A primeira reunião de escritores depois do encerramento da Sociedade. Abraços de amigos que raras vezes se vêem. Risos. Alegria de convívio.
A meu lado ficou o Vergílio Ferreira. Conversa inquieta em virtude de lhe desagradarem quase todos os nomes que vieram no acaso dos comentários – como bem-educadamente mo deu a entender, por leves sinais e palavras de arranhões cautelosos.
Gosto dele… Mas é tão difícil dialogar com homens como Vergílio Ferreira que não conseguem esquecer-se dos agravos que imaginam – sem dúvida muito mais ferozes de que os reais!...
Os «imaginários» são a dor da nossa carne!
JGF

6 – Março (terça). [1990]

Quanto a vida me tem maltratado. Perversa. Eu que tanto a amei. E logo desde a infância com maroteiras que se não esquecem, mesmo quando já as não lembro. Na juventude então, que fartote. E depois na idade adulta. Mas são coisas de que se não deve falar para não apanhar ainda por cima com a execração alheia. Comer e calar é a regra da boa educação. Podia ao menos agora na velhice haver um pouco de misericórdia. Pois sim. Massacre do irmão corpo, dos escribas meus irmãos, da invencível incompatibilidade de quantos me estão mais na proximidade. O resultado de tudo isso é ter a alma num lodaçal. O curioso é que a interiorização de tudo isso, como se diz, é criar eu uma aversão incomensurável por mim próprio. Estão a ver? Eu próprio não pude conviver comigo que é com quem tenho irremediavelmente de conviver. Detesto-me. Converti em mim o que de detestável veio sobre mim de toda a parte. E todavia, às vezes penso, não me devia ter tanto asco assim. Fiz coisas, cumpri, não fui de todo desprezível para haver assim esse desprezo. Das irritações que me vêm de fora cria-se-me a irritação que me vem de dentro. E às vezes já não sei como é que eu consigo pagar o justo pelo pecador. Porque os meus pecados não são assim tanto de ir para o inferno em que vivo. Mas são. O enervamento que me toma é contra mim que por fim o faço convergir. Devia poder separar o que é do lado de lá do que é do lado de cá. Há pecados que naturalmente me pertencem. Mas eles engrossam-se com os que me atiram à cara e por uma alquimia pervertida são logo meus também. Gostava de ter afinado o meu saber psicológico para entender. Mas não se entende. Na minha aldeia as mães desancavam os filhos não apenas pelas faltas que cometiam mas pelas que davam azo a que outros cometessem e os apanhavam no meio. E às vezes mesmo longe desse meio. Nas zangas familiares com os maridos, por exemplo, os filhos é que apanhavam. Deve pois haver uma lei inscrita no eterno de que todos somos culpados por todo o mal que acontece no Universo. Eu acabo por me culpar a mim. E é neste inferno que vivo sem o merecer. Quem faz as contas do deve e haver? Quem deve e quem há? Não se sabe. Há-de um dia saber-se no infinito onde já nem Deus estará, para haver alguém que entenda.
*
Quando Marx pretendeu pôr Hegel de pernas para baixo, porque em baixo estava a cabeça, foi um bocadinho estúpido. A História do homem é a do seu Espírito, o qual é «objectivo», ou seja identificado com o ser. Acaso é concebível que isto não seja concebível? Tão simples. A realidade universal é no homem que se exprime e essa expressão é o Espírito. Não limitado a ela, para não ficar logo paralítico, mas incomensuravelmente até ao fim dos séculos – embora Hegel quisesse que se reconhecesse totalmente com ele. Há o ser e há o que ele é em pensamento. E este pensamento não pode estar fora desse ser, mas deve confundir-se com ele. Como conceber a História fora desse ser feito Espírito? Como conceber a História sem ser espírito? Espírito em si é coisa oca ou vazia. O ser sem ele é impensável e tem de ter em que seja pensamento, nem que seja Deus. Para Hegel, aliás, Deus está aqui muito bem na terra, onde Espinosa o instalou, e o que Hegel fez foi investi-lo do próprio Espírito humano, irmanando-o ao Ser que existe enquanto pensado pelo homem. Portanto, e tomando atrás, não pode haver História sem que seja Espírito. Marx ao pôr a matéria como fundamento cometeu uma tolice. Pois que diabo será a matéria não investida do espírito para a fazer existir? E dar-lhe a primazia é uma bizantinice, porque não tem sentido dizer-se que primeiro é a matéria e depois é que é o espírito. Para sabermos que seria assim, que se imagine o Mundo sem um ser que o pensasse. É mesmo o erro de Berkeley, porque é no pensar que o ser começa a existir. Com Husserl – e antes dele em David Hume – sabemos que o pensar no vazio não tem sentido. Mas Hegel já disse tudo ao unir ser e pensar. A História do homem é a do seu Espírito. A menos que o bruto animal também construa a sua. E que é que sobra de todo o passado humano, além do que dele pensamos, ou seja do seu Espírito? É o Espírito ou a Ideia ou o Absoluto que se distende pelo tempo no alargamento ou esclarecimento de si na própria mente do homem. E ao pôr o Espírito de cabeça para cima fez Hegel muito bem. Marx é que pôs o homem de pernas para o ar.
Mas paro aqui porque eu é que já tenho a cabeça para baixo com o peso do que lá fui pondo enquanto me aqueço ao fogão neste apagamento da tarde, para lá das janelas a toda a roda da sala. E o cigarro a acompanhar não me faz bem no que importava à leveza do meu ser mortal. Ponto final, portanto. A ver se ainda sou pensante para ler o suplemento literário do Público, que é um jornal saído ontem mas anunciado já há séculos, como é próprio dos Messias e dos profetas seus trombeteiros.
VF 

terça-feira, 5 de março de 2013

TERNURA MATERNA


Lembro-me de, quando garoto, passar o Inverno a suspirar pela Primavera.
Isto, quando os Invernos lembravam o Dilúvio e os ribeiros da minha terra o rio Amazonas.
Ultimamente, porém, os Invernos têm ido tão secos, que até o meu pátrio Regavão ficou reduzido a um fiozinho de nada. Qualquer dia desaparece, murmurava eu para comigo, cheio de angústia.
Imaginem agora o meu alívio quando, com a entrada do mês de Março e a lua de Fevereiro, pelas indicações do Seringador, o Inverno resolveu visitar-nos. Eu, ao princípio nem acreditava. Mas, após quinze dias de chuva pegada, não resisti mais. Meti-me no carro e só parei à vista do meu Regavão.
Aleluia! O rio da minha infância ressuscitou! Como ele vai bonito! De monte a monte, undoso, rápido, refulgente, a saltar e a rir de margem em margem, de cachoeira em cachoeira, de represa em represa. Passei o resto da tarde a olhar para ele. Só a noite me interrompeu o êxtase.
Muito gosto eu da água. Não no sentido em que muitos gostam do vinho, mas no sentido filosófico. Ficou-me este gosto das prelecções de Mestre Saias, que floresceu em Peireses no século XX, mas dir-se-ia ter florescido na Grécia antiga:
– Dos quatro elementos que compõem o universo, ar, terra, fogo e água, é a água o mais importante, por ser a fonte da vida – afirmava ele com a autoridade dum Sócrates de parrogueira.
Fonte da vida e de inspiração poética, acrescento eu, sem autoridade nenhuma. Em todas as épocas houve poetas que pescaram metáforas amorosas na água, com a fortuna com que outros pescam pérolas no mar. Qualquer fonte, rio, lago ou nuvem lhes serve para falarem metaforicamente da coisa amada.
A mim, que não sou poeta, qualquer dia de chuva me traz à memória a minha infância e a ternura da minha mãe.
Quando, aí pelos cinco ou seis anos, comecei a ir com as vacas para o monte e a chegar a casa à noite todo molhado, minha mãe recebia-me com palavras de muito carinho: «Anda cá, meu filho. Ai como tu vens! Ainda apanhas alguma pneumonia. Deixa que eu te dispo e enxugo». E despia-me a roupa molhada, e embrulhava-me num cobertor de flanela, e cobria a minha inocente nudez de beijos.
Eu gostava daquilo.
E, partindo do princípio de que, quanto maior fosse a molha, maior a ternura, antes de entrar em casa, metia-me debaixo duma das muitas cataratas que, naqueles dias de Inverno, se precipitavam dos altos taludes.
Com que saudades eu recordo esses tempos…
Como o rio vai grande…
Como as fontes jorram água…
Com que abundância ela me escorre pelas faces…
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 86 e s.)

segunda-feira, 4 de março de 2013

4 de Março [1966]

Considero-me um «resignado» ao que vulgarmente se chama «pensamento marxista». Por mais que intente fugir-lhe (por teima de liberdade aparente) sempre vou lá parar...
… Riacho impetuoso a fingir de livre, afinal sem outro destino que não seja o mar (ou as nuvens).
JGF

4 – Março (domingo). [1990]

Ontem fui a Cascais, a casa do meu antigo aluno Pedro Viegas, que escreveu uma breve «tese» sobre a minha «filosofia». Como eu não daria com a «torre» onde mora, fui até Sintra e ele foi aí buscar-me. Estava um tempo horroroso com um vento de ciclone e eu estava também em dia não, com as minhas avarias nervosas – a vaga cólica no ventre como quando ia a exame e a subsequente irritação e esgotamento. Mas havia que cumprir o combinado e lá fui. Creio ter dito algures que ele preparava o doutoramento sobre mim. Houve equívoco meu. Ele trabalha e com veemência é a filosofia de Kant. Que paixão devoradora. Pressenti que eu ia ficar chumbado na conversa com ele porque do Kant o que sei é o pouco que me alimenta a cultura geral. Mas lá fui dando réplica e pondo objecções. Eram objecções que genericamente se organizavam em tomo da ideia de que o grande filósofo era um homem seco, com a obsessão de formalizar tudo, feito de fibra mirrada, sem um pouco de humildade humana. E o Pedro Viegas esforçava-se por me rebater esse «cliché», argumentando-me com obras menos conhecidas ou em subtis parágrafos das outras em que toda a secura amolecia em seiva mais parecida com a da humanidade comum. E de nada me valeu contra-atacar com uma certa nota em que o filósofo recomendava absurdamente a redacção das obras de arte em língua morta, a redução da moral a um esqueleto, a redução da cor dos quadros a pura agradabilidade, a concepção da pintura a uma arte abstracta (como já Platão no diálogo «Filebo»), a própria vida do grande homem a um rigor cronometrado (com a anedota do tipo que acertava o relógio quando ele passava) e até – do que me esqueci de lembrar – a sua última frase antes de morrer «tudo está bem», que resume o que ele foi como máquina de viver. Pedro Viegas não se dava por convencido. E eu gostei do seu entusiasmo e convicção porque só com isso se constroem impérios. Depois chazou-se e fizeram-se fotos comemorativas. E houve mais Kant. E entremeado a isso, houve a notícia inverosímil de que eu fazia parte da matéria filosófica não sei em que curso. E eu senti-me mais vivo. E eu senti-me mais morto.
Veio depois toda a família (mulher e filha) trazer-me a Sintra para eu retomar o meu veículo aí deixado. E insistiram em acompanhar-me a Fontanelas. Pedro Viegas veio no meu carro, a mulher e a filha no deles. O meu traste portou-se mal. Mas cá chegámos. Insisti para que entrassem um pouco. Entraram. Regina já em alarme. O fogão estava aceso (como o deles). E houve mais conversa. Agora sobre os nossos velhos tempos do liceu. Era tudo muito antigo, já me não pertencia. Porque sou mais novo do que isso.
*
Mas esquecia-me. Enquanto esperava em Sintra e no café combinado a chegada do Pedro Viegas e me encolhia até à alma da chuvada e frio que andavam lá fora e às vezes vinham pelas portas até cá dentro, vi entrar e sair grupos de ciclistas já equipados para alguma corrida ou que ali tinham tido alguma pausa de descanso. Envergavam o que me parecia uma túnica de plástico contra a chuva, mas escorriam água e talvez suor pelas pernas ao léu como competia ao desporto. E dei conta de que os meus olhos iam até eles de rastos e em humilhação e que se não tenho mão em mim, apanhava logo ali uma pneumonia.
VF 

domingo, 3 de março de 2013

Coimbra, 3 de Março de 1976

        Ainda não foi desta. A velha carcaça parece que vai resistir mais uma vez às facadas da cirurgia. E, sinceramente, para que hei-de continuar no mundo, se o meu tempo já está preenchido, ou gasto, ou fixado? Se já desci aos infernos e desobedeci ao mandamento de não fitar o rosto de Eurídice?
Miguel Torga

3 de Março [1966]

Mandei hoje esta bagatela para o catálogo que a Associação da Faculdade de Direito vai publicar, para festejar os 60 anos do Graça. Não tive tempo para um depoimento mais acabado.
O maior elogio que posso fazer a este homem parece-me ser a seguinte confissão pública: graças ao aproveitamento de alguns sonetilhos do Longe para as suas canções, Fernando Lopes-Graça salvou esse meu livro do esquecimento perfeito.
Não tenho hoje, pois, dúvidas de que muitos dos meus versos sobreviverão apenas em virtude do destino de música que o grande compositor europeu lhes encontrou».
JGF

3 de Março de 1978

Qual é, desde tempos imemoriais, a mais cobiçada e procurada, a mais explorada, rendosa e produtiva, e mesmo inesgotável, das minas do mundo inteiro? O ventre da Mulher!
JRM 

3 – Março (sábado). [1990]

A Sibéria desceu cá até ao sul. A ver se aquecia, talvez. Mas foi isto que gelou. E um vento desabrido, estranhando decerto a visita, anda doido pelo pinhal. Estamos em Fontanelas, claro. Mas metemo-nos na toca e o vento que esbraveje lá fora como um touro. A casa aguenta como num «burladero» das praças do dito. E há o fogão para nos pôr a alma em brandura. Tem calor, tem a sua luz incerta, oscilando nos madeiros, e tem a música do seu rumor longínquo, estendido aos confins da memória. Cá estou a olhá-lo e a ouvi-lo e a transpô-lo para esta folha de papel sobre a prancheta nos joelhos. A chatice é que um fogão não nos dá muito tempo de descanso. Exige-nos uma constante atenção para o irmos abastecendo de alimento, revolver-lhe os tocos de lenha para lhes ir comendo os lados ainda por comer. E há o lixo das cinzas que vai lançando não sei como para os arredores do seu alumiar. Mas isso é com a Regina, coitada, e ela que limpe depois. Estou a ser escritor e tenho as exigências da minha comodidade – e o futuro não me vai perdoar que eu não cumpra a minha missão. Óptimo.
Mas logo tenho de ir a Cascais a casa do Pedro Viegas, que foi meu aluno e anda a desanichar a minha «filosofia» para uma tese, como devo já ter dito e não fica mal dizer outra vez. A minha «filosofia». Nunca pensei que a tivesse, para lã da que tem toda a gente que utiliza da língua as «orações subordinadas». Tudo isto para dizer o quê? Tudo isto para dizer que, por uma aberração pouco inteligível, rarissimamente nos deu a tineta para «filosofar» o nosso pouco. Da filosofia dos outros sabemos q.b. Mas criá-la nós próprios, está quieto. Já um dia suponho ter dado a minha explicação da desgraça. E a explicação é sobretudo a de que temos um pânico imbecil de parecermos imbecis. A filosofia é para povos civilizados e nós tememos o ridículo de o não sermos, mas com o desejo insofrido de o parecermos. Iríamos nós estragar a nossa imagem com a pretensão de que não temos bossa para o sermos? Em todo o caso, há realmente uma tendência ancestral para a frivolidade, a chalaça, a brincalhotice que não dão muito para a reflexão. E fazendo da necessidade virtude, ou dos maus hábitos coisa vistosa, ou da preguiça um modo alegre de ser, ou da inferioridade um seu disfarce com um modo superior e fácil e desembaraçado de ser – acabamos por ver na criação filosófica uma madureza mais própria de tipos extravagantes, maníacos que andam fora do manicómio, tipos pitorescos mais próprios para espectáculos de circo.
De todo o modo, e sobretudo no nosso tempo, vai uma certa distância entre a reflexão avulsa mais própria do ensaísmo, e a estruturação de um pensar filosófico responsável, organizado, disciplinado, sistematizado. Eu renunciei à poesia em versos para me não dizer antecipadamente poeta. Mas a poesia que houver em mim com vontade de vir até cá fora, lá está o romance ou certo ensaísmo para lhe dar esse gosto. Eu jamais pensei em organizar uma obra filosófica. Mas o que houve em mim com vontade de dizer de sua justiça em filosofia, lá tem o ensaísmo e mesmo o romance para fazer o seu número. Mas haverá em mim ideias «filosóficas» da minha lavra? Nunca me incomodei a sabê-lo. Nem eu me dava à pachorra de revisitar e espiolhar os filósofos das minhas relações mais ou menos familiares para tirar a coisa a limpo. O que para mim foi sempre fundamental foi sentir o que penso e digo e não pensá-lo apenas como quem joga xadrez. Naturalmente interrogo-me sobre o que me vem vindo à vida. O «eu», a «verdade», o «tempo», a «liberdade», etc. etc. São questões que me obrigaram a reflectir. Mas são, para lá disso, o que me foi um sentir original, quero dizer, na sua dimensão originária, onde a emoção sobreleva o entender. Não me afligem assim aí as possíveis «contradições», Até porque é muito difícil que elas existam visto que elas são mais próprias das construções mentais. O que me inibe, para lá do trabalho disso, é a ordenação de tudo em engrenagens necessárias com o preenchimento de todos os espaços vazios para formar os vários blocos em função de um conjunto final. De todo o modo, suponho, a Invocação ao Meu Corpo é um livro totalizado. Mas há naturalmente o que ficou de fora. E do que ficou de fora o mais importante é o que poderia ser uma «Estética» que está fragmentada em múltiplas anotações.
Mas já perdi o fio à meada. E fico-me por aqui.

VF 

sexta-feira, 1 de março de 2013

Coimbra, 1 de Março de 1976

          Mais uma operação. Este meu pobre corpo parece um mostruário de cicatrizes. Reduzido a um monte de ossos cobertos de tecido conjuntivo, sem polpa, já quase só sinto bater o coração nos versos que escrevo.
Miguel Torga

1 – Março (quinta). [1990]

Hoje esteve aí o João Falcato. É a segunda vez que o vejo desde há trinta anos quando ele ia de Borba a Évora à frente da caravana dos alunos do seu colégio que iam lá para chumbar. Bom, às vezes passavam. Mas agora tem aparecido, embora venha a Lisboa todas as semanas, porque me queria a opinião sobre um seu livro em torno do Namora. E das duas vezes que veio, almoçámos. E das duas vezes que almoçámos, recaímos nas memórias de Coimbra, essa doença sem cura como a tísica do Nobre. Mas como de Coimbra eu tenho sobretudo a quebreira da evocação, tenho poucos episódios a contar. E desses poucos, já poucos terão sobrado dos que contei. De modo que, se calhar, não há senão que repetir-me. Terei contado o que se segue?
Nesse tempo em que eu andava em Coimbra, ouvir conferências era uma coisa normal como dar parabéns ou pêsames. A gente ia ouvir, mas não me lembro exactamenle porquê. Talvez porque o professor no-las aconselhava, talvez por não termos que fazer, talvez para explorar o terreno para algum namoro. Eu por mim não me lembro de nenhuma conferência que me tivesse deixado uma pegada na alma. Mas ouvi muitas. Ora porque a coisa não era divertida, do que me lembro muito bem era do processo utilizado pelo conferente para ir passando as folhas. Os mais sensatos, para nos não desencorajarem, costumavam ir depondo na mesa as folhas que iam lendo. E assim, o que mais nos prendia a atenção era o volume daquelas que ainda faltava ler. A gente ia vendo a espessura das que o conferencista ainda tinha na mão e ia ganhando coragem para aguentar até ao fim. Regulávamos assim a nossa paciência com a certeza cada vez mais segura de que estava quase a acabar. E à última folha, que às vezes já não tinha consistência na sua mão oratória e tinha de segurar com as duas mãos, nós soprávamos de alívio e dávamos mesmo grandes palmas calorosas por nos livrar do suplício. Mas havia outros oradores que tinham um processo diferente, cheio de perfídia. Eram aqueles que à medida que iam lendo, passavam as folhas lidas para o lado de trás das que faltavam. Como saber assim quando acabava a tortura? O orador ia palrando mas não tínhamos sinal algum visível de quando se iria calar. Porque, com as folhas sempre juntas, estava sempre no princípio. Decerto o assunto lá ia andando e com um pouco de atenção dava-se conta do andamento. Mas nunca se podia saber ao certo quando o andamento travava. Porque sobre Adão e Eva como sobre os calos da plaina de S. José ou a luxúria da Tareja (tema talvez improvável) podia o orador discorrer duas horas. De modo que, à perfídia do conferente, nós respondíamos normalmente com a sacanice de nos rasparmos.
Mas o cúmulo do cinismo era o dos conferencistas que iam depondo as folhas à medida que as iam lendo e nós respirando. E quando já era a última, a gente pensava: é agora. Mas não era. Porque os perversos, depois de esgotada a provisão das folhas lidas, iam buscar outro molho e continuavam sossegados a oratória. Nós dávamos urros e regra geral mandávamo-los onde se devia e alçávamos.
Havia, no entanto, entre os ouvintes, um tipo que era fatal. Suponho que as conferências deviam exalar um cheiro especial, a sebo ou suor, e o ouvinte consuetudinário decerto apanhava o cheiro na aragem. Porque não falhava uma e chamávamos-lhe assim o «papa-conferências». Era um homem baixo, entroncado, com uma cabeça robusta para aguentar tudo e já toda encanecida. Quanta conferência ele já teria deglutido. Imagina-se a quantidade de saber que o encaneceu. Mas o que havia de singular neste paciente é que mal começava o orador a orar, começava ele logo a dormir. E dormia com convicção, o queixo enterrado no peito, o arco do dito a arfar em repouso. A gente olhava a confirmar a boa digestão da matéria para o espírito, ele confirmava a nossa confirmação. Passavam as folhas do conferente, passavam os minutos ou as horas da nossa paciência, ele dormia. Suponho que não ressonava para não perturbar a ilustração geral. Mas era um dormir ajustado ao ressono que se calhar guardava depois para a mulher. Até que a oratória chegava ao seu explicit e o homem acordava sobressaltado ao entusiasmo das nossas palmas. E erguia-se tranquilamente em direcção à porta, suponho que para ir ouvir mais alguma outra conferência. Porque se a houvesse, estava lá caído com certeza, como um beata numa igreja ou um bêbedo numa taberna. E todas para um alimento comum, porque o espírito tem muitas maneiras de ser e de se alimentar…
VF 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Coimbra, 28 de Fevereiro de 1981

Há ocasiões em que os sentimentos valem como argumentos. E ca1ei-o assim: sabia perfeitamente que a liberdade não é a mola real do homem. Que outras forças mais poderosas o solicitam a todo o instante. O fanatismo religioso, os mecanismos económicos ou as paixões políticas, por exemplo. Que não ignorava a que extremos de servidão podem chegar nações inteiras, cegas pela fé ou rendidas a qualquer ideologia. Que a ideia de que a liberdade é uma força incoercível tem muito de romântico. Simplesmente acontecia que tal romantismo, mesmo exautorado, nunca deixou de fazer frente à opressão, até quando tudo parece perdido. E é essa vontade insofrível de quebrar todas as cadeias que desde rapaz sinto também no âmago da alma, embora tristemente convencido pela dura experiência da vida que este baixo mundo de ilusões não passa de uma redonda clausura. 
Miguel Torga

28 de Fevereiro de 1978


Tudo corre o pior que se pode esperar neste melhor dos mundos possíveis! (s/d)
Alguém propôs – a brincar, como é de ver – para cartaz do dia 10 de Junho (Dia das Comunidades), a imagem do velho Portugal, de armadura amolgada, viseira caída e espada torta, com a mão estendida a pedir esmola a estranhos, aos emigrantes e turistas, que não há muito tratávamos de imperialistas, fascistas e parasitas. Com o dístico seguinte: Dia Nacional da Mendicância.
Como tu elogias igualmente toda a gente – todos os teus conhecidos são génios, sábios, elegantes, honradíssimos, etc.! –, elogio na tua boca torna-se impropério!
«Personne ne m’aime!», chorava-se há longos anos esta personagem de Elsa Triolet. Mas, ó desgraçada!, não sabes tu que quem diz amar-te, pretende, deseja ou sonha apenas apoderar-se de ti, e dominar-te de alma e corpo?!
JRM 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

27 – Fevereiro (terça). [1990]

Abala-me sempre de emoção encantada ouvir uma balada de Coimbra (ou um «fado», como se diz e como não gosto, por ter para mim uma ressonância carrasqueira – de «carrascão»). Mas nada há que mais me arrepie e confranja do que ouvir falar de Coimbra e dos «tempos da mocidade» e do mais que constitui a retórica coimbrã. Aliás, para se medir a distância que vai de uma coisa a outra, basta reparar na letra de tais «fados». Porque de um modo geral é detestável. As pessoas que me sabem doente de Coimbra incitam-me às vezes a assistir a espectáculos de antigos estudantes, saudosas elas – as que assistem de uma realidade que é um irreal de que não fazem ideia. E eu às vezes lá vou. Ouço comovido as guitarradas e um ou outro cantor – de um modo geral mau. Porque a balada de Coimbra é como o violino – comovente ou detestável se bem ou mal cantado ou tocado. Óptimo. Mas que queria eu dizer? O que eu queria dizer é que da emoção sentida ao dizê-la vai a distância enorme da arte. É o caso vulgar de ouvirmos dizer «a minha vida dava um romance». Como se um romance começasse na «vida» seja de quem for. Porque começa justamente não no romance que dava, mas no romance que for. Falar (ou escrever) sobre uma emoção não é dala, se a arte a não transfigurar no irreal que ela é. O Almada Negreiros talvez tivesse razão em falar dos «palermas de Coimbra» – ressalvando que palerma era ele também. Um coimbrão investe-se normalmente de uma legenda que é do encantamento de quem por lá passou, mas esquece-se de que tal legenda tem de ser recriada na sua irrealidade para que os outros a aceitem – mesmo os que a viveram. Coimbra é a máxima sublimação de um passado, porque esse passado é o da juventude. Mas um passado não existe senão quando deixou de existir – não quando existiu, justamente porque nunca existiu. Se uma fada nos reconstituísse esse passado tal como existiu, sofríamos uma tremenda decepção. Para que a não sofrêssemos seria necessário realizar-se o paradoxo de existir como existiu e como agora o transfiguramos, com o que foi e o que é no nosso encantamento de agora. Ora quem fala habitualmente de Coimbra em termos saudosos, fala dela como foi e não como a transfiguramos no que não podia nunca ser. E então o que sobra disso tudo é um ridículo execrável e insuportável.
Lembrou-me isto ao ouvir a gravação de um desses espectáculos evocativos que me ofereceu o meu amigo Costa Santos (Tito), que foi – e é – um belo cantor da balada coimbrã. Enquanto se ouvem as guitarradas e (alguns) fados, a música emociona-me. Mas quando o apresentador se põe a palrar do Penedo e do luar e da Lapa e do Mondego e todo o mais instrumental da clássica evocação, corto-lhe o pio para me não nausear e apagar a emoção que me tomou.
Senhores promotores de uma reinvenção do passado: cantem e guitarreiem, mas calem-se no mais, porque esse mais não é para se dizer em linguagem pedestre, mas na da arte, de que vocês não fazem ideia o que seja.
*
Há dias o semanário O Jornal trazia o retrato do Carlos de Oliveira numa fila de outros retratos já não sei porque enfileirados e dizia dele que era hoje um autor «quase esquecido». Imagine-se. Ele que foi o senhor da praça literária. Governava o mundo das letras do seu poiso no Montecarlo e daí decretava o génio e mediocridade de quem ousasse literatar. E os seus missi dominici partiam para a literatura a executar os seus decretos. O P. dizia-o Mestre (também disse que O Barranco de Cegos do Redol era o maior romance do século xx), o G. C. executou o Palma-Ferreira por ter posto em causa a genialidade do nosso Carlos, o B. B. disse ao Serafim Ferreira que uma das razões por que me detesta era eu duvidar do génio oliva, o P. C. sempre que o génio se produzia em escasso romance, em poema gotícula ou texto sumário, desfazia-se em estudos mais extensos do que a obra em causa (mas nunca mais escreveu uma linha sobre o gigante do Montecarlo, depois que a morte o subtraiu). E agora vem o Jornal, tão docemente inclinado ao progressismo, anunciar-nos que o génio era hoje um homem quase esquecido. Jamais, portanto, o P. o chamará seu Mestre, jamais o G. esgalhará possíveis Palmas-Ferreira, jamais o assomadiço B. B. dirá como disse e repetiu, que Uma Abelha na Chuva era o seu «livro de cabeceira». Aliás, esta história de livros de cabeceira faz-me pensar. Porque um livro de cabeceira tem por força de ser um livro de cabeceira (de sono). Pois se é para ficar excitado, o melhor é lê-lo fora da cama. Ou se não é para estar desperto, melhor é ler o dicionário.
Mas o «esquecimento» de C. Oliveira. Ele não está esquecido, está é naturalmente mais reduzido ao seu tamanho. E esse, se se pretende que seja de gigante, corre o risco do famoso Ceausescu que era o «gigante dos Cárpatos». Não, o Carlos de Oliveira, como romancista, não nos entusiasma já muito, embora tenha uma escrita de preço. Mas os versos são bons, jeitosos, tipo «bibelot», que fica sempre bem na nossa emoção leve e (um pouco) distraída. É pouco? É o bastante para a gente o reler em momentos de um discreto apetite poético. Eu, pelo menos, releio-o com suficiente prazer, apesar da sua mania (por erro de escola) de os polir – como à prosa – com polirina para brilharem um pouco mais do que há neles de razão para isso. E não me insultem, por favor. Insultem O Jornal, que apesar de ser «dos nossos», disse essa coisa nefanda de que era um autor «quase esquecido»…
*
E a propósito de o P. C. não ter nunca mais escrito uma palavra sobre o Oliveira: é o seu tique. Na verdade, ele nunca escreveu nada sobre autores já defuntos (exceptuando Pessoa, por se aguentar vivo com a sua modernidade). Assim jamais gastou uma linha sobre Camões, Gil Vicente, Garrett, Camilo, Eça, etc. Estão mortos. Não é gente que ele encontre na sua filosofia do imediato, do presente. É o caso. E já lho disse.
*
Daniel Ortega, o Fidel ditador em ponto ainda mais pequeno da Nicarágua contra todas as sondagens prévias, perdeu estrondosamente as eleições. Menos um. Falta o dito Fidel. E a China – que não é um país, mas um continente. Óptimo. Mas à noite na TV Miguel Urbano Rodrigues, pessoa discreta, aliás, inteligente e culta, veio dizer que o desastre se deveu à pressão económica dos Estados Unidos, não é verdade? Só que o patarata do locutor não teve a ideia fácil de perguntar a Miguel Urbano como é que os Estados Unidos fizeram pressão sobre todos os estados de Leste para caírem de cambulhada os seus partidos comunistas. Ou essa pressão não pressionou até lá? Miguel Urbano Rodrigues imaginará que os seus compatriotas são atrasados mentais? Ou tudo isto é ainda efeito do desaforo com que os seus camaradas nos fazem de toupeiras, negando que o sol brilha? Arre, que é de mais. (Desculpem, mas a paciência está muito cara.)
*
O Cesariny disse que o Pascoaes é o maior poeta do século. Gracinha surrealista que já não se usa. O Pascoaes? Que ideia. Arrasta muito os pés da poesia.
VF 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

26 de Fevereiro [1966]

Já levantaram o anátema sobre os 13 escritores malditos. Mas continua a funcionar – dizem – uma Comissão de Censura Literária composta por alguns dos nossos ilustres camaradas reaccionários.
Custa-me no entanto a crer na verdade desta notícia… Que haja quem se enlode voluntariamente e se reveja todas as manhãs num espelho de lama – para verificar se está mais pequeno…
JGF

Coimbra, 26 de Fevereiro de 1981

O Sexto Dia da Criação do Mundo finalmente nas montras. Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo! Era com estas palavras que meu Pai despegava das leiras, e não encontro outras mais apropriadas para esta hora. O Velho, como um Job do enxadão, crente e resignado, enxugava o suor da jorna a exaltar o Altíssimo; eu, Job da caneta, descrente e rebelde, imito-lhe a exclamação a dar apenas voz tutelar ao alívio que sinto. Acabei a longa vessada da minha vida. E quero que seja o honrado exemplo progenitor, assim trazido à lembrança, a autenticar a penitência que cumpri de ter metido setenta anos de sofrimento em mil páginas de disciplina.
Miguel Torga

26 de Fevereiro de 1978

• Do que eu ainda não consegui convencer este idealista que comigo insiste em conviver, é que, seja qual for o regime que nos governe, enquanto as máquinas (autómatos, robôs, ou como queiram chamar-lhes) não tiverem totalmente substituído o trabalho manual dos homens, haverá sempre exploradores e explorados. Quer dizer: de um lado, operários, camponeses, proletários, classes trabalhadoras ou produtoras, ou «estratos inferiores» da sociedade, e do outro, patrões, mandões, burocratas, capitalistas, ditadores, etc. (Ainda que os primeiros sejam mais bem pagos do que os outros.) Porque o facto básico da vida social parece ser que, por muito que lhes façam, as sociedades (humanas e animais) se repartem sempre em duas categorias: a dos que mandam e a dos que são mandados, ou a dos explorados e a dos exploradores. A exploração, enfim, do homem pelo homem! E quem sabe?, talvez mesmo ainda depois do triunfo total da máquina!
«Mas», diz-me ele, «e os intelectuais? Os cerebrais? Onde ficam eles?»
A minha resposta é invariavelmente: «Visto que o seu papel é criar (quando criam!) para o bem geral, os cerebrais serão sempre explorados, quer tomem o partido dos exploradores (o que é sempre o mais provável, dada a sua submissão ou passividade!), quer o dos explorados, com quem eles, aliás, não gostam de ser confundidos!»
JRM 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Coimbra, 25 de Fevereiro de 1976

     Como eu o compreendo! Aflito com este desmoronar da pátria, compra quantos livros lhe testemunham a configuração passada. Guias dos seus monumentos e das suas estradas, crónicas, rifoneiros, monografias etnográficas, álbuns de cerâmica e de mobiliário. É como quem recolhe os salvados de um naufrágio. Arruma Portugal na estante.
Miguel Torga

25 – Fevereiro (domingo). [1990]

Qual a ciência que domina o nosso tempo? Ou seja a que fundamentalmente a exprime? Porque deve havê-la como houve o tipo de arte cultivado. No século passado creio que foram as ciências naturais. Antes, não sei, as matemáticas? como não sei se houve realmente uma «ciência» mas apenas esboços delas. A ciência dominante no nosso tempo foi a física e mais proximamente de nós talvez a química. Como a arte do século passado foi a literatura, sobretudo o romance e para o fim já a poesia – que dominou o nosso século na literatura. Mas a nossa grande arte foi a pintura. Creio porém que todas elas – ciência e arte – se caracterizaram pela destruição. A expressão maior da física foi o nuclear e aí a bomba atómica. A da química foi, com as armas derivadas dela, a ameaça de desorganização genética. Em todo o caso, a destruição maior da ciência foi a da confiança nela. Não apenas pelo facto da segurança na sua verdade com o acréscimo do mistério proporcional ao que revela, mas ainda pela margem enorme de subjectividade na sua interpretação e desenvolvimento, nos «paradigmas» orientadores de que fala Thomas Kuhn: já se reflectiu, por exemplo, em que só alguns séculos depois da solução de Copérnico os sábios, que a conheciam, acabaram por aderir a ela? Mas no domínio das chamadas «humanidades», a grande inovação foi a questionação da linguagem e com ela a destruição do que sempre nos pareceu uma evidência, ou seja que a língua não punha em causa o pensar. Ou seja que o pensar não dependia da língua que o traduzia. E esta simples palavra «traduzir» diz já tudo, ou seja que o pensamento existia antes da língua porque lhe era independente. Quando eu era rapaz e fui convidado para lente, pensei logo na minha «tese» de doutoramento a qual seria um confronto do «período hipotético» grego com o latino, ou seja das «orações condicionais» numa língua e noutra. Porque me fazia confusão que certos valores gregos não existissem em latim – como já era confuso que os chamados «verbos médios» não existissem em latim a não ser esquisitamente nos chamados verbos «depoentes» (ou seja, que tinham deposto a forma activa). Nessa idade juvenil intrigava-me que as duas línguas clássicas não se ajustassem inteiramente uma à outra, mas não media (e como?) a tremenda significação desse desajustamento. Só, aliás, aqui há uns anos eu soube em Benveniste que os verbos médios gregos deram origem ao que muito intrigava os filósofos no entendimento de certas categorias aristotélicas.
Mas perdi-me. Ah, já sei talvez. Queria eu dizer que possivelmente, como coroação de toda a ciência do nosso tempo, marcado pela destruição, é a linguística ou mais prosaicamente a filosofia da linguagem o que me parece mais destacável. Ou seja o saber que domina todos os saberes por se referir ao que as exprime a todas. Assim a destruição que caracteriza toda a ciência assenta na destruição dela própria – dessa destruição. É o máximo do silêncio, não é assim? Então o melhor é calar-me e olhar em sonolência o lume do fogão…
*
Que estranha sensação de me sentir «liberto» de escrever literatura. Porque ninguém me obrigara a escrevê-la. E no entanto é como se essa obrigação me viesse do desconhecido e só agora desse conta dela precisamente por dela estar desobrigado. É porque me sinto livre, que dou conta de ter estado obrigado. Não sentia a obrigação, mas sinto-a agora na ausência dela. Como quem só dá conta de ter vivido num ambiente, depois de ter saído dele.
Em todo o caso, uma velha ideia regressa-me como a memória de uma paixão esquecida. Uma «história» sem personagens. Ou só feita precisamente de «ideias» como uma biblioteca de livros anónimos. Ou um jogo só dos ambientes como um jogo de cores num quadro abstracto. Pensei-o quando comecei Aparição, mas arrumei o projecto pela razão de que não poderia levar uma vida inteira a escrever livros «abstractos». Valerá a pena retomá-lo, agora que só tenho restos de futuro? No fundo podia ser apenas um poema em prosa.
E se voltasse ao ensaio «Um Dia de Verão»? Abandonei-o há uns três romances ou quatro.
*
Gilo e Helena vieram almoçar. Fomos ao «Aquário», ali a Janas, que fica a uns dois ou três quilómetros. Tem um ar mais citadino que o Café do Zé. E a diferença da civilização não se pagou mais caro. Gilo não se sente no seu ambiente no Zé. Ambientámo-lo. Mas amanhã regressamos ao nosso elemento natural. E deve haver menos decibéis do que hoje para maior naturalidade. E iremos (talvez) a pé. E veremos as florinhas campestres das margens no ir e vir.
VF 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

24 de Fevereiro [1966]

Alguns homens levavam a carne do camião para o Talho. Dois deles, boçais. Mas o terceiro, não. Alto, feições bem moldadas, louro, doce…
Coisa estranha! (ou estarei a recorrer à técnica dos contrastes?), de todos eles pareceu-me ser o que transportava com mais volúpia o cadáver do porco às costas.
Bem cingido. Vestido dele, quase.
JGF

24 – Fevereiro (sábado). [1990]

Enganei-me. Afinal pela manhã houve pássaros. Discretos, tímidos, um pouco parvinhos, lá cantavam aqui e além o seu pio desconcertado. Devem usar ainda daqueles relógios da minha infância marca Roscoff, que eram gordos como os abades do seu tempo e lembravam no trabalhar uma locomotiva. Hoje os pássaros usam relógios electrónicos. E por isso a maioria não compareceu. Está aliás um lindo tempo e foram parvos no rigorismo dos seus cronómetros. Amanhã começa o Carnaval e já talvez não tenham sido tão parvos como isso para se não acanalharem com as carnavalices. Em todo o caso acendemos o fogão para promovermos a casa de sepulcro a mansão humana. Cá estou a aquecer os meus pés mortais enquanto garatujo estas minhoquices. Mas aquela moedeira histérica na barriga voltou a chatear-me, apesar do saco de medicamentos com que tento dissuadi-la. Vai este inferno tirar-me o resto dos meus dias? Não quero maçar mais o destino com o requerimento de outro romance. Acabou. Mas ao menos, que diabo, um pouco de sossego neste bocado de carne para ir sendo humano. E isso não é talvez de ser demais para o estupor do destino me obsequiar.
*
Nunca mais. Quando este dobre de sinos nos dá um rebate na alma, a nossa imaginação, de economia proletária, o que nos lembra é que não mais veremos os amigos, os familiares, a nossa casa e assim. Mas o nunca mais é infinito. Nunca mais veremos esses amigos e o resto, mas ainda o que será a História amanhã, o que será o país, a sua possível dissolução, a extinção das espécies vegetais e animais, a extinção da espécie humana, o planeta morto, o fim do sistema solar com o apagamento do sol, a extinção do Universo, a infinidade dos tempos depois de morto o Universo, o silêncio interminável do vazio. O nunca mais estabelece assim uma desproporção inimaginável entre o simples facto da tua morte e o infinito que lhe responde. Nunca mais. É o vazio eterno que corresponde a uma vida que findou…
*
E ao almoço apareceram os Mários Braga que a Regina desafiara ontem para o repasto de hoje. Habitualmente vamos com eles ao Café do Zé. Mas desta vez opuseram-se. Tinham carro novo e quiseram exibi-lo à nossa estupefacção. Andava. Mas do lado de trás, que era o nosso sítio, os caroços da estrada manifestavam-se excessivamente. E como ambos eles são pouco evoluídos para amarem a barulheira do Café do Zé e a força e abundância dos seus pratos de especialidade, como o cozido em quantidade para pesos-pesados e a fartura dos molhos dos bifes e bacalhau, levaram-nos ao Curral dos Caprinos, que é um restaurante na Várzea de Sintra. E nós deixámo-nos ir. É uma casa «típica», no género do tecto e paredes adornadas excessivamente de braços de alhos, instrumentos domésticos entre eles, muitos cornos. Comeu-se. Bebeu-se. Pagou-se. A Regina não se mostrou compreensiva, mesmo para os adornos, entre eles as cornaduras. E concluiu, no fim da factura, que o mais elevado de tudo eram os preços. Como ela é que é a ministra das Finanças e os dedos me não ficaram queimados, não achei.
E agora vou desbastar a montanha de jornais da semana para compor a digestão. Ou descompor.
VF 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

23 de Fevereiro de 1978

 Fala o misógino: «A Mulher é um ser estranho que gosta de um monstro horrendamente cabeludo – peludo, felpudo, hirsuto! – chamado Homem!»
 Resolvido hoje mesmo: não dar mais ouvidos às fábulas e ficções com que o meu coração, fingindo embalar-me, me vem de há muito aniquilando.
 É sabido que a carência de proteínas na alimentação, desde a infância, é causa de certas deficiências da função cerebral. Não explicará ela também a insensatez política de certas populações do Mundo?
JRM 

23 – Fevereiro (sexta). [1990]

Viemos enfim a Fontanelas. Ou antes, vim eu. Porque a Regina, em viagens furtivas de vir e ir com a Brígida, tem cá vindo de vez em quando. Mas tivemos de esperar que o sol desse o seu aval porque um tipo que me andava a arranjar a antena e a deixou na mesma, escavacou com o seu peso terrestre não sei que telha e a chuva aproveitou logo para se infiltrar cá dentro a ver como era e alastrar de bolor e negritude uma parede da sala. E ao mau exemplo da parede, toda a casa mais ou menos aproveitou para dizer que quando o bolor nasce é para todos. De modo que a sala, os quartos, o escritório e a cozinha estavam a fazer da casa toda uma descoberta arqueológica. Houve pois que reconduzi-la a habitação civilizada a golpes de sol e vassoura. Porque uma casa é como um corpo humano a que se destina e um breve descuido entra logo na barbárie. De modo que cá viemos. Havia indícios de que a Primavera vinha aí. Mas nem um pássaro a colaborar. Têm o seu relógio cósmico e não há sol que os trapaceie. Já as galinhas são mais dotadas de estupidez. A minha tia Quina contava-me que na sua infância houvera um eclipse total do sol e que na suposição de que era noite, a malta galinácea encaminhou-se toda para o poleiro. Mas quando viram que era engano, voltaram a sair e a ciscar o seu alimento. Devo aliás dizer que a mioleira das galinhas não é assim tão deficitária como isso. Na aldeia às vezes entretinha-me a pôr-lhes à prova o intelecto. Lançava-lhes assim do alto grãos de milho sobre o cimento do jardim. E como os grãos naturalmente saltitavam, elas seguiam-lhes o movimento com a cabeça para cima e para baixo até que os grãos se imobilizassem. E então comiam-nos. Mas repetida a experiência várias vezes, elas ficavam de cabeça imóvel à espera de que o grão ficasse quieto. E então bicavam-no.
Mas dizia eu – de pássaros nem um pio. Que estranha coisa assim a Natureza deserta, com alguma verdura já a dizer-lhe a alegria. E imagino assim o aparecimento da Terra, sem um ser vivo a tomá-la mais viva. Um instante Deus deve olhá-la com inquietação e deslumbramento, no silêncio da sua eternidade. Em todo o caso aqui e além desponta um ladrar inconsequente de cão aí natural. Mas um cão não usa relógio e deve ter por essa invenção um desprezo altaneiro. Assim não tem horário e ladra de dia ou de noite. E mesmo no fornicar creio que não tem um calendário muito rigoroso. Foi talvez o mau hábito em que o pôs o homem, seu parceiro.
De todo o modo é belo ver de novo a Natureza no seu estado livre ou pouco domesticado. Vejo-a de novo do meu poiso no sofá do escritório, com a claridade que esmorece entre os pinheiros imóveis. E uma paz desce doce dela sobre mim. E estranhamente sinto que ela me não esperava para ser minha nessa espera. Ou que de qualquer modo a não mereço.
VF 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

22 de Fevereiro [1966]

Oh! a beleza espiritual dos heróis vencidos, os únicos que nos consentem sem remorsos!: Sócrates, este, aquele… Todos de derrota. Porque o nosso destino é esse: portarmo-nos de alta maneira na derrota. Encostados a muros. Nos cárceres. Nos «segredos» do suor. Nas cruzes abertas…
Mas vencer, não. Só aos reaccionários está reservado esse papel – parece.
Ousem por exemplo recordar os nomes de Robespierre, Saint-Just, Lenine diante dos moralistas que nos pregaram o Sócrates e vejam-lhes as caras de nojo.
Vencer nunca! Vencer é macular de sangue e de injustiça (mesmo passageira) o nosso anseio de justiça.
É trair.
JGF

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

21 de Fevereiro de 1978

«Só o Nicho é Deus, e o Pataco o seu profeta.»
Este bom padre, numa hora de tentação, fez um filho na ama. O menino cresceu, inteligente, estudioso e respeitoso, e acabou por se formar doutor em Coimbra. Com a volta que tudo tem levado, um dia, ao levantar-se da mesa, ele disse: «A sua bênção, meu pai.» Ao que o velho ripostou: «Eu não sou pai, sou seu padre!» «Então o senhor não acata o aggiornamento da Igreja? Não diz a missa em português? E o Padre-Nosso não passou a ser Pai-Nosso? Fique sabendo que daqui em diante, como Deus, o senhor será apenas meu pai!»
Como, no nosso escritório de advocacia, rareavam os clientes e abundavam os visitantes, sobretudo os colegas a gabar-se das suas inúmeras «causas», o Bastos Guerra, que tinha costela de humorista, afixou na parede da sala principal o aviso seguinte:
NADA É TÃO PREJUDICIAL A QUEM NÃO TEM QUE FAZER COMO A PRESENÇA DOS QUE TRABALHAM!
Se não foi invenção dele, ao menos vale a pena lembrá-lo.
JRM 

21 – Fevereiro (quarta) [1990]

E agora o que é que vai escrever? E uma pergunta que já me começam a fazer, depois de concluído Em Nome da Terra. Porque ma fazem? Deve ser por deferência, amabilidade. Ou apenas por formalismo como me perguntam como estou. Ao protocolo desta pergunta não respondo como o outro quando disse estou bem graças a Deus, o pior é este reumatismo que me não deixa mexer. E digo de caras: estou à rasca. Se realmente estou. Mas à pergunta sobre o que escrevo sinto-me sempre em mal-estar. Que é que tem de público e protocolar o que é da minha intimidade? Não sei porque me não perguntam por exemplo: e agora que casaco vai vestir, depois de deitar esse para o cesto da roupa suja? Ou: quando é que temos fato novo? E todavia seria muito mais plausível. Mas ninguém mo pergunta. E muito menos qual a cor das cuecas que trago. Como ninguém pergunta a ninguém «quando é que temos outro filho.» O acto de escrever é tão melindroso e recatado e estritamente pessoal como justamente fazer um filho. Nascido o filho e feito gente, ele é do domínio público e está assim sujeito a que o julguem uma criancinha adorável ou mais tarde um sacanóide. Mas o fazê-lo não é decente que seja também do domínio público. Não se pergunta quando temos um novo livro ou se se está a escrevê-lo como se não pergunta quando temos um novo livro ou quando se pensa fazê-lo. Eu por mim é o que sinto. Mas é possível que esteja a asnear – que é, aliás, a minha constante inclinação.
VF 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

20 de Fevereiro [1966]

Continuo a rever a Poesia-I – exemplo do que me deu hoje para classificar desta maneira: «panfletarismo poético intemporal».
Desenvolver esta ideia.