domingo, 17 de fevereiro de 2013

17 de Fevereiro [1966]

Inquérito relâmpago no Diário da Manhã a propósito da condenação de dois escritores russos.
Lamentações hipócritas de vários escritores reaccionários portugueses, esquecidos da terrível situação pátria.
No Martinho, em conversa com o Carlos de Oliveira e o Abelaira, recordei esta sentença de Rousseau no Émile:
«Tel philosophe aime les Tartares pour être dispensé d’aimer ses voisins.»
JGF

17 de Fevereiro de 1978

Um velho linguista que, em rapaz, fora grumete, responde por atentado ao pudor na pessoa de jovens com que tratava.
«Que quer Vossa Excelência, Meritíssimo Senhor Juiz?», diz ele. «São hábitos da MOSSidade!... ou da MOUSSE-idade!» «Que quer dizer?», toma o magistrado. E ele escreve na ardósia: «Moss (inglês), Mousse (francês), Musgo em português. Até se diz que ser velho é ter musgo! O Mousse francês pode ainda significar: I) Grumete, moço de bordo, cabin boy, etc. Jovem, logo sujeito a certos abusos! 2) Espuma (de sabão, de cerveja, de saliva, etc.); e 3) como adjectivo, diz-se do aço que perdeu o fio ou gume. Isto explica tudo.»
O juiz reflectiu algum tempo e no fim absolveu-o e mandou-o em paz.
JRM 

17 – Fevereiro (sexta) [1990]

Ontem veio aqui o Adriano da Bertrand e levou o texto do romance. Foi assim uma espécie de treino para o parto definitivo. E como estou portanto no desemprego, venho aqui com mais frequência para não perder o jeito ao dedo. Para dizer o quê? Ninharias, merdilhices, nada. Viemos há pouco do almoço num restaurante e não fomos muito favorecidos. Eu comi coelho e perguntei ao criado se o dito era já avô. O Lúcio comeu porco e perguntou se era marido da porca de Murça. A Regina comeu vaca e perguntou se era a estremosa esposa do boi Ápis. Tudo duro como os tempos que correm. Mas o que sobretudo nos perdura na memória vem da TV de ontem e dos jornais de hoje. É o caso de que o Mário Soares enfiou mais um barrete esquisito dos que se usam nos doutoramentos honoris causa, agora em Turim. Que colecção ele já deve ter. Mas estava giro, como sempre, com aquela carapuça vinda decerto desde os tempos medievais, que era quando mais barretes se enfiavam. Mas juntamente com ele tivemos outro encarapuçado, que foi o Saramago, hoje glória universal, desde a caduca Europa aos progressivos hotentotes. Também lhe não ficava mal. E em curto-circuito lembrou-me o pobre Namora que há dias fez já um ano de defunto. Também a sua glória foi expansionada urbi et orbi. Mas não teve barrete. Como ele se deve ter sentido frustrado no empíreo. Mas o destino tem destas pirraças. Daqui do globo terráqueo que ainda me aguenta o peso (leve) lhe envio o meu pesar por esta insuportável gracinha da sorte. Em todo o caso, se há justiça nos céus, espero bem que o Altíssimo lhe dê no empíreo a coroa que não obteve neste execrável planeta. Mas quantos outros não obtiveram também a resplandecente auréola. Não os vou nomear para economizar papel – que está caríssimo (ainda ontem uma resma dele me custou para cima de um conto de réis). Amém. Vou repousar no sofá. E talvez que Morfeu me suavize a cólera das injustiças humanas e o coelho de córnea dureza.
*
A luz, a luz. Ela aí está de novo, com a Primavera que se anuncia. Deus desperta do Inverno ainda sonolento para recriar o Mundo. Ouço-lhe já a palavra genesíaca na claridade que se abre no espaço do escritório. Vou aproveitar a oportunidade e ser por dentro em iluminação, antes que se cumpra a ameaça já audível de que se me apague para sempre…
 VF 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

16 de Fevereiro [1966]

Leitura do último livro de Costa Dias: Discursos sobre a Liberdade de Imprensa – 1821. Um rude prefácio corajoso com algumas ideias de finura ágil – tal a do «pensamento urgente» – e a revelação de um homem na verdade notável: o abade Castelo Branco.
No entanto, fechei o livro com a tristeza de verificar mais uma experiência inútil.
JGF

16 – Fevereiro (sexta) [1990]

O meu editor francês Joaquim Vital (que é português…) esteve aqui em Lisboa há dias e durante o jantar falou-me de um livro sobre Malraux publicado por um filho. Mas ele não tinha agora filho algum, disse eu. Filho adoptivo, disse-me ele. Mandou-me o livro. Estou a acabar a leitura. Mas antes de dizer dele o que me parece, explico, depois do que li, a embrulhada da família Malraux. O pai dele, chamado Fernand, casou duas vezes. Do primeiro casamento nasceu o nosso homem, André Malraux. Viúvo, casou segunda vez e deste casamento nasceram os dois meios-irmãos Roland e Claude. Claude foi fuzilado pelos alemães aos 27 anos, solteiro, suponho. Roland morreu num campo de concentração, deixando viúva uma pianista, Madeleine, e um filho Alain – que é o autor do livro de que falo. André era casado com Clara e tinha dela uma filha Florence (Fio para a família e amigos). Separando-se da mulher – que lhe não deu o divórcio – André vive com Josette Clotis de quem tem dois filhos Vincent e Gauthier. Josette morre num desastre ferroviário e André casa (?) com a viúva do irmão Roland – Madeleine – que lhe cria os dois filhos de Josette com o seu, Alain. A família é agora constituída por André, Madeleine, o filho desta e de Roland – Alain – e os dois filhos de André e Josette – Vincent e Gauthier. A vida da nova família é normal, com a prevista perturbação da presença do «génio», reflectida na instabilidade da carreira de Madeleine como pianista. É uma vida de grande fausto, decerto porque os direitos de autor de André devem ser fabulosos. Apartamentos de luxo, viagens, férias fáceis em estâncias de alto coturno e o mais. Um dia um amigo de Vincent oferece-lhe (imagine-se) um carro de alto estilo desportivo para velocidades de vertigem. E numa viagem ao sul da França com o irmão Gauthier e a que Alain não quis ou pôde associar-se, os dois irmãos estampam-se e morrem no desastre. Malraux sofre um choque violento, mas no dia seguinte ao do enterro, que acompanhou, apareceu numa reunião oficial do Governo, a que pertencia. Espanto regelado de todos. Mas daí em diante a sua vida transformou-se e a dissenção com Madeleine agravou-se. Aliás as suas relações com a filha, a Fio (como com todos os amigos) foram sempre difíceis e mal se viam durante largos períodos. E um dia, sem aliás qualquer contenda explosiva, ordenou à mulher que se fosse embora. Ainda manteve contacto com o sobrinho-enteado. Mas esse mesmo quebrou-se. Vou ler o que me falta do livro. Mas a ideia que me ficou foi já a de um doente psiquiátrico, atravessado de génio, loucura, megalomania, dureza para consigo e os outros, de uma ternura ocasional mas reprimida, intempestivo, movendo-se normalmente numa órbita que não passava pelo que a vida tem de quotidiano, obstinado – e tudo isso avivado ou distorcido pelo álcool. Coincidência curiosa: a certa altura ele diz ao sobrinho seu biógrafo «sou o maior escritor do século». E foi isto precisamente que eu escrevi na dedicatória do exemplar de Aparição que lhe enviei (em ’60). Tê-lo-ei despertado para essa convicção? Tê-lo-ei confirmado nela? Hoje não sei se lhe escrevia isso, porque na distinção entre a fulgurância das suas tiradas e a construção romanesca, eu teria de optar pela primeira (e reincidiria) ou pela outra (e eu teria de optar por Proust-Joyce-Kafka). Porque o meu ideal seria a fusão de uma e outra orientação. De todo o modo, Malraux é sem a mínima dúvida o escritor mais profundo e fulgurante de todo o século xx.
Ora bem. Mas que resta dele e de todos os outros que se queiram para o Mundo que se abre diante de nós? Porque a sensação que me toma é a de que tudo isso é um jatras, uma montanha de ferro-velho, de farraparia e inutilidade – ou quase. Nós ainda nos não apercebemos bem de que toda a nossa ordenação da vida se desorganizou. Mesmo a tragédia disso se anula em face do que não sabemos mas tem já um toque de futilidade ou vazio ou quase ridículo como a convulsão que nos agitasse em Tróia ou Salamina – ou o choro que lembramos de um desgosto na infância, quando nos negaram uma guloseima que apetecíamos. A única voz que nos pode falar ainda é a ausência dela no silêncio absoluto. Porque todo o mundo terá de reorganizar-se e é um pouco infantil chorarmos hoje sobre o que morreu em vez de simplesmente reflectirmos sobre como repô-lo em pé. E deve ser por isso que instintivamente a amargura dos meus livros se tenta recompor no riso (escuro) ou na ternura. Venho assim de há tempos escrevendo fundamentalmente «histórias de amor». E uma tentação que se me esboça é reescrever o Dafne e Cloé de Longus. O amor primordial. O amor da virgindade de se ser. A história de um Adão e Eva juvenis. Vou reler o livro do grego. A ver se. De todo o modo, chorar mais, não. Reinventar a alegria inicial. A que não sei ainda e apenas me maravilha. A que, aliás, pode estar de acordo com uma serena melancolia. A ver, a ver.
*
O Alberto Silva esteve aí há dias. E como de outras vezes eu lhe falava frequentemente de um disco com o trio Odemira que sempre tocávamos pelo Natal, cheguei a pedir-lhe que mo gravasse numa cassete. E decerto para me não ouvir mais falar do disco, trouxe-mo. Eu lembrava-me de certa melodia que eu ainda entoava, lembrava-me da mancha verde que o marcava ao centro com a indicação das várias canções incluídas. Vi a bolsa em que vinha, vi o verde do centro e estremeci fortemente a um abalo que me vinha do desconhecido e longínquo e comovente. E enquanto estive no Porto, o Lúcio passou-mo a cassete para me não estragar a agulha com a sua antiguidade cheia de rugas. E agora ouço-o, ouço-o. E Évora abre-se-me no calor íntimo de uma amizade que a morte foi dissolvendo. Está uma noite gelada, nós confluímos para a casa dos amigos Silvas, primeiro na cidade, depois na Quinta da Soeira. Os nossos filhos são miúdos e a festa assim mais verdade porque o Natal é de quem não acabou ainda de ser criança. E é o que estou sendo ainda agora na doce e serena e leve melancolia de a recordar... 

VF

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Coimbra, 15 de Fevereiro de 1981


DEPOIMENTO


De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não. Nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.

A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia,
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.

Miguel Torga

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

14 de Fevereiro [1966]

De manhã emendei vários versos de Poesia-I para a 3.ª edição. Prova de que muitos poemas teimam em viver. Aqui e ali até rebentam em folhas e flores novas…
No entanto, alguns já começam a secar. Oxalá dois ou três resistam mais dez anos – os que me restam de vida (e aos versos, também).
JGF

14 de Fevereiro de 1978

• De boas intenções está o Inferno cheio. Mas não, infelizmente, das más! (Bernard Shaw
JRM

14 – Fevereiro (sexta) [1990]

No domingo fui ao Porto. Havia que cumprir um preceito de amizade com a Fernanda Irene que fazia o seu doutoramento na segunda. E apanhar na onda outras amizades a cumprir também como a da Mariberta, do Costa Marques e do Resende. Eu ia receoso deste estupor do irmão corpo que deu agora em histérico, justamente na idade de ser sensato e sossegado. Mas enfim, não se portou muito mal. Também lhe dei distracção para o distrair e comer e beber para lhe suavizar as birras e torná-lo mais compreensivo. O doutoramento foi uma festa bonita. A tese – que é um calhamaço para aqui à espera de o desbastar todo, mas que já lera em parte e recomecei desde a primeira folha – é uma extensão da linguística até à literatura (e aí entro eu também com o Para Sempre). E da linguística os motivos são os dícticos, ou seja os elementos que «mostram» ou indicam uma presença («este», «aqui», «agora») centrada no locutor. E a passagem à literatura faz-se sobretudo pelo «4empo». Óptimo. Estava com «boa casa» a assistir. E a doutoranda foi exuberante. Eu disse-lhe no fim que o seu lugar era no parlamento ou comício, porque ela tem a veia da Passionária. A Mariberta, sempre boa rapariga e despachada, apesar de o seu pezinho começar a recusar-se a entrar na dança. E o Franklim a ceder um pouco às exigências da rabugem que a idade lhe vai exigindo. Alimentaram-me com um almoço que a Mariberta cozinhou e eu classifiquei com 20 valores – e sem «cunhas».Quanto ao Costa Marques – como me impressionou. Magríssimo, orelhas pendentes, rosto afuselado e já um pouco translúcido de matéria ectoplásmica. Queixou-se-me das negas da memória que lhe abre hiatos no discurso mental. Mesmo a ver a TV há interrupções dessa energia mental. E eu que me ocupei dessas desgraças no Em Nome da Terra, a sair talvez em Maio, tive para toda a degradação da velhice um rápido comentário interior, dizendo apenas que é uma merda. Conheci também pessoalmente uma mocinha que me escreve às vezes chamada Magda Laires, adoradora da literatura ou seja do imaginário que ela fixou nos meus livros. Lá lhe dei os meus conselhos de avô que ela é mais nova do que a Rita. E levámo-la connosco na visita ao Resende – o que a deslumbrou. Resende, sempre igual a si mesmo na sua forma adorável de um eterno riso juvenil e de uma arte que é a melhor que nos coube no nosso tempo português. Lá estava com telas enormes, cheias agora de uma claridade de quem só agora nascesse para a vida. Brancos amarelos azuis numa larga irradiação para lá dos limites do que poderia reduzi-los ou fechá-los numa imediata realidade, no seu peso e densidade terrestre. Respira-se nelas largamente e o imaginário abre-nos à liberdade com a libertação daquilo mesmo que por vezes é identificável. Grande pintor. Maravilhoso artista que soube promover ao intangível o real que não esqueceu. E à noite houve um grande jantar de confraternização e congratulação dos colegas da Fernanda Irene. Fiquei ao pé do Óscar Lopes. Dissemos coisas transcendentes. Suponho que a grande diferença de outrora para hoje se chama Gorbatchev. Ou chamar-se-á apenas velhice.
E é tudo. Conversei o meu tanto também com o professor Pottier que veio de Paris argumentar a tese. Mas já me esquecido do que dissemos. Tomei o rápido no dia seguinte. Almocei no comboio. Estava a Regina e o Lúcio à espera em Santa Apolónia. E finda a festa, o irmão corpo recaiu logo na patifaria. Queria mais. Não há mais. Agora é aguentar. Ele e eu, que também sou gente.
*
Mas deu-se hoje um grande acontecimento e era indecente deixá-lo passar. Que diria a História amanhã se eu o ocultasse e viesse a sabê-lo por portas travessas? Tenho os meus deveres para com o futuro e uma consciência à moda antiga em que estas faltas pesam arrobas. E o acontecimento é este – fui hoje comprar um fato. Estou já a ouvir as gargalhadas do cepticismo a cobrirem-me de dúvida metódica. Ai não acreditam? Então vão à Rua dos Fanqueiros e perguntem. A dos Fanqueiros está cheia de lojas desta farraparia. Corri-as todas. Mas por fim achei. Eu andava nisto há anos. Não acreditam outra vez, é claro. Há anos. Bati primeiro as lojas da avenida da Igreja, que está mais ao pé e tem material em conta. Mas não havia para a minha elegância e o meu garbo. Venha mais tarde, diziam-me, temos aí a chegar novo sortido e vai ter por onde escolher. Mas depois metia-se a chuva, a má disposição para a aventura, a vontade de ir remediando com o meu guarda-roupa e assim se passaram tempos. Hoje que estava sol e voltei do Porto cheio de arremesso, dispus-me a arrancar. Para remediar previamente as contendas domésticas, levei a Regina com o seu conselho responsável. E lá andámos na dos Fanqueiros para baixo e para cima. Vestia um casaco e a Regina dizia – então não se está mesmo a ver que te fica largo? E realmente, observando-me ao espelho sem preconceitos, aquilo parecia um fato de esmola. E então mudávamos de loja e fazia pontaria para outro mais comedido. Apertava bem, cintava bem com um certo donaire. E a Regina dizia – então não estarás mesmo a ver que te fica apertado? E redizia – então não estarás mesmo a ver que te fica apertado? E realmente, observando-me com olho desprevenido ao espelho, aquilo parecia fato de defunto bastante ósseo e metida que lhe fosse uma camisola de agasalho, rebentava os botões. O problema era extremamente difícil porque o número 52 era para a barriga de um abade, que enfim não tenho, e o número 50 era para o vazio de um tísico, que não é bem o meu caso. O leitor que me está a acompanhar quebra já de comoção. Mas a glória é dos obstinados e eu tenho a minha quota-parte de obstinação, ou seja do tão querido e simpático burro. Até que enfim achei um fato à medida. Era um 52, mas costurado com mão somítica, o que lhe deu a medida de 51,5 – que não há no catálogo. Filei-o logo. Havia agora que tirar a prova da calça a ver se acompanhava. Mas a mão somítica de quem a talhou exagerou e na figuração de burro a cilha era apertada. Alarga-se, disse a menina que me queria passar a andaina. E lá ficou para o alargamento. A Regina calou-se, que para isso é que foi comigo. Largou cinco dele como sinal e sexta à tarde lá me irá buscar a fardeta inteira. Esquecia-me de um contra, mas esse é generalizado. É que hoje as calças de origem modesta levam seda (seda?) nas pernas até ao joelho para se não parecerem logo com um trapo de cozinha. E isso dá uma geleira quando se vestem pela manhã. Mas talvez isso tenha o seu benefício e é obrigar-me a encolher-me com o gelo da seda e ficar assim mais conforme com a esbelteza. E agora, fato novo, só para ir bem vestido para o paraíso.
*
Falta agradecer aqui uma coisa ao bom do Luís Amaro. Tem ele um olho feroz para as gralhas de um livro e eu lembrei-me de o propor como revisor do meu novo romance. Foi aceite com alegria. Então ele sugeriu-me a leitura prévia do dactilografado para ir já limpo para a tipografia. Lá mo leu. E que razia. A repetição dos «mas» e dos «eras», as vírgulas amais ou a menos, as maiúsculas e minúsculas – levou tudo uma barrela. E agora até dá gosto. Às vezes o meu granito beirão lã resistia – e deixei ficar. Mas quase toda a sua limpeza era tão premente que o meu granito nem chegava a calcário. E lá fui dizendo que sim, que sim. Só falta agora que algum leitor mais casmurro me diga do livro todo que não. Será uma estupidez não se gostar da minha obra, ó safados. Mas se o inferno existe é para ter os seus inquilinos e não abrir falência. E é para lá que ireis todos vós, ó infelizes, se vos não curvardes à minha omnipotência. E à maneira do Sena dir-vos-ei desde já que se não cairdes de cócoras é porque a Natureza vos fez de substância característica do boi. Disse. Ah, esquecia-me: o Luís Amaro disse que todo o meu livro era uma carta de amor. Gostei. E fiquei a pensar comigo que essa carta a venho escrevendo à Rute (de Apelo da Noite), à Guida (de Cântico Final), à Hélia (de Rápida, a Sombra), à Sabina (de Signo Sinal) e sobretudíssimo à Sandra (de Para Sempre) e à Oriana (de Até ao Fim). Fim.
VF

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

13 de Fevereiro [1966]

Vieram hoje as primeiras provas da 2.ª edição de A Memória das Palavras, no prelo. Descoberta de vários disparates e deslizes da 1.ª tiragem.
É extraordinário como os leitores não repararam neles.
Estou convencido de que a maioria das pessoas não lê. Voa por cima das palavras – sôfrega de superfície.
JGF

O TINTAFINA

Aqui há dias, estando eu a desfolhar um jornal de Montalegre do tempo da Primeira República, deparei com esta curiosa expressão: «Fulano, que gosta de serrar sempre de cima.» Ora aqui está um dito em português que, para as gerações mais novas, é latim. Quem é que hoje se lembra dos serrinhas, ou serranchins, como nós também lhe chamávamos? Eu, e só Deus sabe com que saudades.
Quando meu pai, aí pela década de trinta do século passado, resolveu levantar casa sobradada por administração directa, justou, entre muitos outros artistas, uma parelha de serrinhas então famosa. Eram eles o Milagrete e o Tintafina, ambos minhotos e sérios, quando se não riam, como diria Mestre Saias, para quem, «minhotos, burros bagueiros, socos abertos e chapéus de palha, é tudo a mesma canalha».
Meu pai deu uma volta com eles pelos lameiros de touça, indicou-lhes os carvalhos a transformar em soalho, caibros e forro e disse-lhes que o resto era com eles. E foi. Durou-lhes a empreitada de Março a Outubro.
Eu, ao tempo pastor das vacas, convivi tanto com eles, que, se não serro madeira, é porque não quero. Lá como se faz, sei eu. Deita-se o carvalho abaixo, apara-se-lhe a lenha, descortiça-se, aplaina-se, pauta-se a bitola das tábuas com um cordel embebido em tinta e esticado de ponta a ponta e monta-se o toro na burra. Depois um dos serrinhas sobe para o pau e outro, logicamente, fica por debaixo. E aí é que entra a filosofia da metáfora supra. O lugar de cima é o mais cómodo. Pelo menos, não se apanha com o serrim nos olhos. Dizer que «fulano gosta de serrar sempre de cima», equivale a dizer que escolhe sempre o melhor lugar. Chamem-lhe tolo…
Enquanto olhava pelas vacas, entretinha-me a esculpir cabos de rocas com a ponta duma navalha de meia-lua que era todo o meu orgulho. Não a largava da mão. E uma noite em que estávamos todos à ceia, família e artistas, puxei dela para cortar a côdea. Diz-me de lá o Tintafina, que gostava muito de se divertir comigo:
– Andas aí todo teso com a navalha, julgas que não há outra para ela no mundo, e, afinal, eu tenho aqui uma melhor do que a tua.
– Mostre.
O Tintafina mete a mão ao bolso das calças e saca de lá uma naifa a meter nojo. Ri-me:
– Vamos lá a ver qual delas corta melhor?
– A tua até pode cortar melhor, admito. Mas a minha faz coisas que a tua não consegue. Nem que se mate.
– O quê, por exemplo?
O Tintafina volta-se para a minha mãe e diz:
– Ó patroa? Empreste-me aí um alfinete, uma segurança ou qualquer coisa do género.
Minha mãe estendeu-lhe um gancho do cabelo:
– Serve isto?
– Perfeitamente.
E depois, para mim:
– Ora a ver se a tua é capaz de fazer isto?
E, dizendo, dispôs os dois objectos em cima da mesa, à distância de três palmos um do outro. E eu com sete olhos. E ele, com uns vagares e uns trejeitos de ilusionista, a aproximar a navalha do gancho. E toda a minha gente a gozar o entremez. De golpe, o gancho dá um salto e crava-se na lâmina. Eu nunca tinha visto tal arte-mágica na minha vida. Rendi-me. Oh, Tintafina dum raio.
Mas não foi só pelo magneto que o Tintafina se tornou para mim um homem das Arábias. Foi por um outro traste para mim ainda mais estranho. Nada mais nada menos que um cavalete de pintor. Também meu pai estranhou tal apetrecho na bagagem dum serranchim. E o Tintafina contou. Que um tio dele, também serrinha, pelo fim da vida, para não morrer de fome, concebera aquele estratagema: vender a serra e comprar cavalete, paleta, pincéis, tintas e uma boa resma de pratos com a silhueta do Castela de Guimarães pintada. Depois ia lá para os jardins da fortaleza e armava o laço aos turistas. Um prato branco no cavalete, paleta na mão esquerda, pincel na direita, olho atento. À aproximação dos visitantes, fingia que pintava. E, se eles parassem a olhar, metia conversa. Que mais isto e aquilo, a pintura ainda demorava, mas, caso estivessem interessados numa recordação de Guimarães, coisa original e destinada a valorizar-se com o tempo e a morte do artista, que não vinha longe, tinham ali meia dúzia deles já prontos. Era só assinar. Os papalvos caíam que nem tordos. Ele fazia um sarrabisco nos pratos e impingia-os pelo dobro ou o triplo do preço de fábrica. Raro o dia em que não apurava para a malga do caldo, o quartilho do vinho e o maço dos cigarros. Morreu consolado.
A pensar no futuro, o Tintafina salvara da lixeira o atelier ambulante do tio. E um domingo por outro, para treinar a mão, dizia ele, armava-o ao sol e entretinha-se a borrar tela ordinária.
Um dia o Abade de S. Vicente da Chã, que tinha vindo dizer missa a Peireses, vê aquilo e pergunta:
– Ó Tintafina? Tu és pintor?!
– Formado pelas academias. A minha vocação é a pintura, senhor abade. Mas, como ninguém ma compra, tenho de me agarrar à serra.
– Serias capaz de pintar umas Alminhas do Purgatório?
– Alminhas, a manta, o que o senhor abade quiser.
– E quanto me levas?
– Tenho de ver a obra primeiro.
– Aquelas que estão ali à entrada de S. Vicente.
– Já sei. E é precisa tábua nova?
– A tábua serve. A pintura é que desapareceu com o rodar dos séculos.
– Quinhentos mil réis.
– Estás maluco? Isso é o preço duma vaca.
– E o senhor abade sabe o preço das tintas? As tábuas, principalmente velhas, são muito porosas. Absorvem mais tinta num minuto do que o meu bigode vinho num ano. E o trabalho que aquilo dá? E o génio do artista? Tudo isso vale dinheiro.
Depois de muito regatear, justaram a obra por duzentos e cinquenta mil réis. O Tintafina levou quatro domingos seguidos a pintar as alminhas. A coisa saiu mais tosca e berrante do que seria de esperar dum serrinha. Parecia o debuxo do rancho folclórico de S. Torcato, terra natal do Tintafina, a saltar às fogueiras de S. João. Sem embargo, o abade, partindo do princípio de que a finalidade das alminhas é impressionar os pecadores, e mais impressionante do que aquilo só o próprio Inferno, gratificou generosamente o presumível Van Gogh de São Telicates.
Entretanto chegou Outubro e, os serrinhas, como, durante o Inverno, ninguém lhes desse trabalho, recolheram a penates. Concomitantemente, o retábulo das almas do Purgatório não resistiu às primeiras chuvas.
O abade ficou fulo. E mal soube que o Tintafina, com a chegada de Março, regressara a Peireses, mandou-o chamar. Que viesse urgentemente. O Tintafina foi. O abade colocou-o bem defronte das alminhas, fez carranca e inquiriu:
– Que me dizes tu a isto?!
– O quê, senhor abade?
– Não vês nada de anormal?
– Eu não.
– Onde estão as Alminhas do Purgatório pelas quais me esmifraste trezentos mil réis?
– Ó senhor abade? Isso nem parece seu. Ora diga-me uma coisa. O que é o Purgatório?
– Um lugar onde as almas dos justos se purificam pelas chamas antes de serem admitidas na Bem-aventurança. E daí?
– Dê graças a Deus, senhor abade. As alminhas que eu aqui lhe pintei, acabaram de se purificar, foram para o céu. Que mais queria vossa reverência?
Serrava sempre de cima, o Tintafina.
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 82 e ss.)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

12 de Fevereiro [1966]

Distribuição dos prémios da Imprensa no Teatro Villaret. Entrega do troféu idealizado e modelado pela escultora Dorita Castelo-Branco. Cornos de um veado mágico de alumínio espetados num pedaço de mármore negro… (Gostaria de ver esse bicho inteiro numa floresta luzente, a mastigar folhas de metal…)
Sarau de tédio poético. Pairar de atmosfera pires – em que apenas se salvou a labareda Maria Barroso.
Quando fotografaram os premiados, aproximei-me o mais possível de Vergílio Ferreira.
Entendemo-nos no que nos separa.
JGF

12 de Fevereiro de 1978

• Chega-te aos simples e aos pobres, aos humildes, aos tímidos e modestos, terás o Céu, que é deles; aos ricos, orgulhosos e influentes, e serás pior do que eles. 
JRM

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

11 de Fevereiro [1966]

Hoje almoço de fava rica – comprada pela Maria José, em Arroios, talvez uma das últimas vendedeiras dessa enxovia popular.
Todo o dia com a boca a saber-me a infância viva.
JGF

11 de Fevereiro de 1978

• A Dona Eponina – inteligente, activa, gorducha, e desafortunada – teve dois filhos ilegítimos de um grande herói nautocolonial da monarquia, cujo nome foi dado a uma vila africana. Os dois meninos foram educados como internos de uma instituição do Estado. Vivendo pobre e só com a mãe velha e um irmão, sacerdote regressado do Oriente, ela mostrou sintomas de paranoia: ouvia vozes. De tempos a tempos – «Lá andam eles outra vez a falar mal de mim» – corria a meter-se na casa de saúde… Melhorava, e tornava à vida activa. Aparecia lá por casa: «Ó Dona Adélia, três horas da tarde e eu sem almoçar! Arranjava-me aí dois ovos fritos, por favor?» 
JRM

domingo, 10 de fevereiro de 2013

10 de Fevereiro [1966]

O poeta Luís Amaro, em conversa telefónica com a Natércia Freire, referiu-se aos escritores cujos nomes estão proibidos de aparecer nos jornais.
E ela, a misturar alhos com bugalhos:
– Esquece-se de que, dantes, em certas páginas literárias, havia escritores que cortavam os nomes de outros escritores?
Pobre razão neutra! (de quem sonha com páginas neutras, revistas neutras, poetas neutros, homens neutros!) posta com indignação fingida na balança, para justificar a tirania e concordar com ela.
E de súbito lembrei-me de que numa entrevista, dada pelo Mário Dionísio à página do Diário de Notícias, essa puritana da camaradagem neutra cortou muitos nomes de escritores da esquerda, o que motivou uma carta de protesto do entrevistado… 

10 – Fevereiro (sexta) [1990]

É verdadeiramente espantoso que se discuta ainda tanto sobre o que seja a verdade. Quando a ciência tinha pacto com Deus, partilhando a eternidade, e existia ainda essa coisa mirífica da «objectividade», havia as verdades ditas objectivas, acontecidas fora de nós, embora estivessem dentro, e daí lavávamos as mãos. E havia as outras, as ditas subjectivas, que podiam ser mais ou menos o que se quisesse porque não tinham importância nenhuma. Bom. Acontecia, porém, que estas tais verdades da privacidade de cada um, como o comportamento do seu pâncreas ou da sua tripa, abrangiam a quase totalidade das verdades e eram as verdadeiramente decisivas para a vida de cada um. Arredada para o lado a questão de a Ciência ter caído em maus costumes, deixando-se preverter pela inconstância e volubilidade da juventude estouvada e ser hoje tão falível como a existência de Deus, seu parceiro em firmeza, nós temos assim que o problema da verdade é o de todo o nosso destino humano – que vai da crença à piada de uma anedota e ao amor de um canastrão. Disse algures – devo ter dito – que há em cada homem um núcleo indizível, um foco de irradiação, um ponto cego donde procede ou onde se situa o que genericamente consideramos a sua pessoa. Há assim pessoas amáveis, iracundas, serenas, excitáveis, ponderadas, insensatas, etc. E é essa nossa pessoa ou nosso ser, ou se preferimos, esse ser que para nós escolhemos e com o qual nos identificamos, é esse quid especial que nos define e identifica, é isso que pela vida fora e ao acaso dos ventos que por nós passam na forma de pessoas que nos criaram ou que encontrámos, dos livros ou instrução que nos calhou, dos mil acidentes enfim que constituíram a nossa vida, é isso que posto em contacto com tais acasos vai definindo para si um equilíbrio interior em que esses mil elementos se organizam para formarem um todo coerente com o que aí se assinala ou daí se expulsa e define o que há-de ser ou não uma verdade. Assim, como o tal rei dizia «o Estado sou eu» cada um de nós dirá, se for honesto e atento, «a verdade sou eu». Tal equilíbrio não é definitivo, ou seja, não se constitui de uma vez para sempre – como não é para sempre que tal obra de arte nos agrada ou tal anedota tem graça. Mas eu suponho que em todos nós há um arquétipo, que é afinal o tal núcleo central de nós, o qual vai tacteando ao longo da vida a correspondência segura do que é com o que vai encontrando. E pode assim acontecer que essa coincidência se não realize até à morte e o que realmente a define irá a sepultar com ela. E o que às vezes queremos dizer ao afirmar que tal ou tal indivíduo nasceu no seu tempo. Como se realizaria o arquétipo de um Dostoievski no tempo de Péricles? O de Napoleão no (Interrompido).

sábado, 9 de fevereiro de 2013

9 de Fevereiro [1966]

Convidaram-me hoje a colaborar numa página de homenagem a Ferreira de Castro.
Pretexto: 50 anos de vida literária, contados desde a publicação de Criminoso por Ambição.
Recusei.
Ainda não esqueci da atitude desse velho amigo, quando da dissolução da Sociedade de Escritores em que só à força assinou o protesto dos seus camaradas.
Ele nessa altura lá tinha as suas razões de liberdade.
Eu agora tenho as minhas. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

8 – Fevereiro (sexta) [1990]

Aqui me venho desfazer em escrita, enquanto me não visita de novo a ficção em forma humilde de conto ou novela. E assim aproveito o regime de dieta para mastigar o que me não faça mal e facilite a digestão. Cavaqueira, pois, inconsequente. Confraternizei há pouco num novo restaurante brasileiro, ali à Praça de Alvalade, com as minhas amigas camonianas, a Clarisse, a Judith e a Margarida. Todos lá passamos o Equador depois que em Dezembro a Margarida cinquentanizou e agora todos entrámos em «contagem decrescente» como se diz em astronáutica. E isso vê-se já subscrito na face, mesmo das mais jovens, com um leve apagamento do que é vitalidade, ainda que na alegria da conversa. Mas o almoço.
Eu tinha ainda na memória estes repastos carniceiros com que no Brasil me alimentaram. Todas as vacas das pradarias vieram ao serviço com as múltiplas faculdades acepipeiras com a Natureza as dotou. E assim, depois dos chamados aperitivos, são já um almoço a transbordar, vieram os serviços de base que essencialmente consistiam na vinda sucessiva de um funcionário, armado com uma longa «espetada» de carnes várias que nos iam fatiando para o prato até o demónio da gula dizer basta, E no fim frutas endógenas e exógenas e o café cigarrado para a assossega. Eu tinha feito à Clarisse uma consulta sobre a Judite da Bíblia que nas minhas várias bíblias se tinha escapada para o não-ser, como Deus. Mas ela tinha uma Bíblia «dos Capuchinhos» em que a dita Judite funcionava ainda. E leva de me oferecer, com as duas outras amigas, um exemplar do grande livro. Fiquei derretido, como é de ver. E agora vou reler a Grande Lei, porque assim em edição desconhecida e em estado novo, é como se nova ela fosse também. E talvez tenha uma conversa de homens com o esquecido Jeová – mesmo com o doce Jesus Cristo, em todo o caso mais do meu convívio e simpatia.

8 de Fevereiro [1966]

O amor é a única forma de diálogo que põe dois egoísmos de acordo. 

8 de Fevereiro de 1978

TORRALTA (ou VIST’ALTA, ETC.): Grande sociedade anónima de responsabilidade muito limitada, construtora de altas torres e altas ilusões, que – obedecendo ao provérbio – mais abaixo veio cair… 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

7 – Fevereiro (sexta) [1990]

Afinal a minha vocação era a de profeta. Não é uma vocação em cheio nem sequer tenho barbas. Mas que tenho um jeito, é inegável. Ainda agora eu dei no vinte quando detectei a estratégia do Gorbatchev. Disse eu que a sua táctica era deitar fogo à comunada dos países da vanguarda enquanto ele se mantinha no fortim lá detrás. E quando tudo estivesse a arder, rebentava ele com a comunada do interior. Meu dito meu feito. Ontem na TV, velhos e novos desataram a blasfemar contra o vigário que lhes tinham infligido e à pergunta sobre se queriam mais comunismo, foi aos berros e em uníssono que eles proclamaram niet, niet! O amigo Cunhal e os seus gerontes, por espírito de coerência com o que sempre nos fulminaram, devia agora dizer que se trata apenas de anticomunistas primários. Pobre velhada, já tão córnea para germinarem em ideias novas.
De tudo isto, porém, o que mais me surpreende é que o pagode em geral e a inteligência em especial, ainda não deram indícios de terem percebido que um grande vazio se abriu na História. Decerto ela não acabou, ao contrário do que alguns pensam. Mas fechou as contas para um enorme balanço e abrir de seguida uma conta nova. E nessa conta toda a malandragem e ingénua comunada entra no Deve e não no Haver. Porque é ela o maior passivo de quantas contas novas a Humanidade já abriu.

7 de Fevereiro [1966]

É vulgaríssimo chamarem-me romântico.
Porquê? Por não conseguir ocultar a comoção de viver, sobretudo quando sinto a fraternidade dos homens neste abismo amarelo? 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

6 – Fevereiro (sexta) [1990]

No tempo em que eu andava em Coimbra – e quantas coisas se douram logo de legenda na simples enunciação trindadecoelheira do «tempo em que eu andava em Coimbra» – nesse tempo de há meio século havia lá entre os bobos da academia um langão de beiça pendida e com um ar atordoado de estupidez e bonacheirice que chamávamos Dim-Dim. E a sua habilidade mestra, já celebrada por vários cronistas, e não sei se por mim, era ir «fazer bolinhas» a quem lhe mandassem, para recolher depois umas coroas pelo trabalho. E fazer bolinhas era ir por trás da vítima indicada e apalpar-lhe o que essa vítima tinha pela frente. Fúria do apalpado às mãos grossas do apalpador e gargalhada geral dos mandantes da apalpação. E ponto final no assunto. Porque o que eu queria era lembrar um grupo que no fim do curso congregámos e a que demos justamente a designação de «Bolinhas». Fizémos o jantar de despedida num restaurante da Sofia –, o «Flecha» nos números 163-165 – e em vários cartões do próprio restaurante escrevemos o nosso adeus – que o foi até hoje e para sempre. E de súbito, não sei porquê, pus-me a evocar os nomes dos que se agruparam nessa despedida e já os não recordo a todos. Tenho os cartões perdidos na confusão dos meus papéis, emaçados com jornais, encaixotados com a imensa correspondência de que há tempos tentei em vão decifrar os nomes de todos quantos ma enviaram – e assim não posso socorrer-me deles. Mas lembro alguns e dá-me prazer restaurar-lhes aqui a presença ignorada ou a ausência definitiva. Ponces de Carvalho, falecido há anos [1]e que foi casado com uma neta do João de Deus, senhora que activamente perpetua a acção educativa do avô e pai de um jovem cineasta que foi meu aluno. Creio que um Caldas, de Moçambique, médico não sei se já no paraíso. Ramiro Valadão, salazarista, mais tarde presidente da RTP e que os oposicionistas chamavam Ramiro Valadrão. Fred (Fernando Martins) já morto, geógrafo e de vida legendária, cuja tese tinha um título cheio de riscos assim: «Esforço do homem na bacia do Mondego». O risco estava em se poder dizer que o esforço do homem na bacia era aquilo. Bom tipo, aliás, aperfeiçoado no seu pequeno toque de loucura aventureira. Suponho que um Melo Furtado, açoriano, aparecido morto no Estoril, tapado, creio, com o casaco, mas sem que a razão da morte ficasse depois mais descoberta. Suponho que também o Bandeira, que era alto como o nome e foi já também descontado à Humanidade. E não me lembro dos outros. Mas destes, de que só dois (eu incluído) suspeito ainda a fazer de vivos, os nomes que deixo aqui dá-me a doce ilusão de que os prendo ainda à vida pela realidade que faz emergir da confusão das coisas o nome que uma delas alguém lhe dê, como logo Adão pôde saber.


[1] Exagero. Encontrei-o há bocado na Av. da Igreja (29.11.92). E está para durar.

6 de Fevereiro [1966]

Mas digam-me lá: na actual salada de géneros dos romances-ensaios, etc., porque não havemos de aceitar a memória-ensaio? Além disso, refletindo melhor, A Memória das Palavras pode considerar-se um ensaio de Arte Poética, por mim arrancada da vida e exposta, através de factos e acontecimentos que tomam algumas vezes o aspecto de memórias (se os isolarmos do conjunto). 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

5 – Fevereiro (sexta) [1990]

Com o feroz colete de forças infligido ao meu físico pela múltipla medicação, vou ficando alguns dias mais viável entre os humanos. E até tenho às vezes assomos de gula. E até por vezes apeteço e cumpro a embriaguez de um cigarro. Assim fui hoje – e há quanto tempo não ia – ver o que havia pelas livrarias da avenida de Roma. Lá estive na Barata e um pouco conversei com o pobre pai, fortemente sucumbido com a morte (suicídio?) do filho. Conheci o rapaz. Tinha boa presença, um certo ar desafrontado de quem assentou quanto ao futuro. E foi o que o pai me confirmou ao referir a obsessão do filho com o destino da livraria dele e os projectos que para ela vivia intensamente. Matou-se? Se sim, naturalmente não sei porquê. Mas o porquê de um suicídio, como de todo o nosso anormal, não está nele mas em nós. O resto é a tal «ocasião» que faz o «ladrão». No meu romance diz o narrador (que foi juiz) não dever condenar apenas quem comete um crime, mas ainda quem o cometeria, se estivesse em situação de o cometer. Assim Deus é injusto em mandar para o inferno só o pecador, porque deveria atirar para lá todo o patifório que só não teve oportunidade de se revelar o que é. É essa uma justiça que só ele poderia fazer. Porque só ele conhece quais os sacanóides que se ficaram em «potência», apenas porque lhe não calhou estarem em situação de passarem a «acto».
Mas por falar em romance. Então não é que me apetece já avançar com ele para o gemer dos prelos? Tudo (quase) do que nele concentro de excitação, trabalho de condenado, encantamento, desânimos e o mais dos sentimentos e pulmadura com que o realizei, de súbito esmaeceram para o meu entusiasmo. Amanhã vou mandar ao Joaquim Vital (da «Différence») uma cópia da façanha. E ponho-me a pensar que se ele a mostrasse em breve ao pagode gaulês, eu abstinha-me talvez de a exibir à Lusitânia. Porquê? Isso queria eu saber. O que sei é que a excitação murchou. Como o esfomeado diante de uma mesa pluralíssima de manjares. A abundância é já um pouco a saciedade. Claro que vou publicar o livro. Mas é claro que já me não apetece tanto. Como o tipo esfomeado sempre acaba por comer, mesmo diante da fartura que naturalmente enjoa um pouco e antecipa um certo sabor a indigestão.
*
Ontem esteve aí o Carlos Moura, chegado um pouco tarde às artes e às letras. E quer ele que eu lhe componha umas legendas poético-prosaicas para uns arranjos muito giros de tinta em manchas de esbatidos. Mas é curioso que um pedido de coisas de arte estraga-lhes logo a arte que deviam ter. Não assim um pedido de textos ensaísticos. A arte é uma dádiva, não é resultado de um requerimento. Acaso se pode pedir a alguém que ame ou se comova ou ache graça? Mas concebe-se que se peça diga coisas sobre o amor, a comoção ou as piadas. E aqui estou eu entalado entre a solicitação do artista e a recusa do meu talento que escoicinha cheio de raiva. Poderei amansá-lo? Poderá ele ser gentil comigo? Estarão as musas, mesmo pedestres, em disposição de me enviarem o influxo? Que coisa mais esquiva a diabólica arte. Não há solicitação que a demova, ao menos comigo. Porque é só quando ela muito bem entende. Deve haver processos machos para domar esta fêmea arisca. Não os sei.
*
Mas esquecia-me. Na livraria Barata comprei o Dicionário de Camilo organizado pelo Alexandre Cabral. Camilo está na berra, o pobre do Eça foi mandado para o canto da celebridade. Aliás, e em todo o caso, este Dicionário faz pendant com outro, de Eça, organizado pelo Campos Matos. Da qualidade do Camilo não curo. É grande, pois que remédio. Mas há um pormenor à margem de tudo isso e que é este: foi Camilo um «trágico» ou um «humorista»? Magna questão. Transposta para o Eça, dava isto: foi ele um melancólico ou um homem divertido? Não é uma questãozinha estupidazinha? Ainda há dias uma senhora que é camilatra (que latra Camilo) e que a entrevistadora (sisuda ou alegremente) adornava de «formidável inteligência», dizia que o quê? o Camilo trágico? Que coisa divertida. Era um grande cómico! Um tipo cheio de laracha e de gozo dos palermas. Imaginamos nós acaso que ele alojou uma bala no miolo por desespero, tragédia em cinco actos, de alma cabisbunda? O que ele se deve ter divertido com a nossa ilusão. Porque não foi nada disso! Ele foi mas é um grande gozador. A bala que lhe penetrou o último andar ia cheia de riso! Aquilo foi uma grande partida que ele nos pregou. Porque ele era, intrinsecamente, profundamente, desde a intestineira, um impagável gozador. Aliás, o seu exemplo pegou. O Antero, logo a seguir, disse com o seu travesseiro: – Vou pregar uma partida à tragédia lusitana. E meteu também o seu balásio, mas agora via bucal, para se desenfastiar e divertir.
Agora a sério. Esta questão de se ser alegre ou triste, de se optar pela exterioridade cómica ou trágica, não tem que ver por força com o que se é, mas com o que se pretende parecer ou se escolhe para o que devemos ser para os outros. Todo o riso espectacular e mesmo o discreto é normalmente a expressão protocolar de uma grande amargura ou melancolia. O contrário do riso não é a amargura, que é só o seu reverso ou a outra sua face. O contrário do riso – e da amargura – é talvez apenas a serenidade. 

5 de Fevereiro [1966]

Soube com espanto que a Casa da Imprensa me atribuiu o Prémio de Ensaio pela Memória das Palavras.
Ante a minha estranheza, o Abelaira explicou:
– Ensaio é tudo o que não é poesia, nem ficção. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

4 – Fevereiro (sexta) [1990]

Que ponto mais alto me resume a vida inteira? Em que ideia, situação ou imagem ela se investe de pacificação ou encantamento? Que ideia resume ou resta de tudo o que pensei? É uma questão que todo o homem se pode pôr. Ou em horas de solidão se terá posto. A vida é um turbilhão de imagens e de acidentes e de ideias. Mas há decerto uma que resiste ou a que vai dar a torrente das que por ele passaram. Por mim não tenho talvez ideia final nenhuma, tenho só o que em emoção deslumbrada me ficou diante do mistério e deslumbramento de tudo. É uma emoção que vai do mais extraordinário espectáculo, como o que se me desdobra quando me deito entre os pinheiros de Fontanelas e olho o céu nocturno de Verão, até à visão do mais vulgar e mesquinho e quase invisível na sua vulgaridade como uma flor ou uma pedra. Não tenho uma ideia que me salde a vida inteira, tenho só uma interrogação que não ousa e me deslumbra de vertigem. Já uma imagem que me fixe a vida toda, não sei qual é. A neve pela manhã ao abrir a janela e que subitamente descubro na extensão do horizonte ou vejo cair no balancear silencioso e grave e gratuito como o voo de uma ave ao entardecer. A balada da chuva no Inverno e a evocação dos caminhos tenebrosos da Serra. A figura grácil de uma jovem de outrora que passa leve na aragem e que morreu e que persiste instantânea no irreal desse passar. E uma balada que a envolve e a transcende à eternidade do seu ser. (Interrompido)
*
Vai sair em França o meu Aparição com um desvanecedor prefácio do Robert Bréchon, esse grande amigo de Portugal, devoto de Pessoa, admirador da nossa literatura em geral, de alguns poetas em especial como o Ramos Rosa, poeta de merecimento ele próprio que em motivos portugueses encontrou alguns temas para a sua poesia. E assim sendo, de novo me interroguei sobre o que significará esse meu livro. Continuo a pensar que o seu tema é talvez bastante original, sendo-o menos a realização estrutural do livro, a tendência para a «tipificação» das personagens. Mas o tema. Antes de mais, o conceito de «aparição», de que já falei. Mas há no livro, ligado ainda a isso, um problema a que, suponho, ninguém ainda se referiu e que é este: que significa a perversão a que a evidência do «eu» leva os que a tiveram? Disse um dia que o querer desvendar a arte até à sua radicalidade, é um acto sacrílego e por isso a arte se degradou (ver Arte e Tempo). Como afirmei também que toda a verdade, explorada até às últimas raízes, se dissolve ou dissipa ou contradiz. Há assim que suster a investigação nos limites em que se aguenta o seu equilíbrio. A revelação do «eu» é do homem e a sua ignorância é do animal. Estará o equilíbrio entre os dois? Entre a evidência-revelação e a ignorância ou inconsciência disso? Será enfim a vida humana plausível no instável equilíbrio de tudo? Porque o problema estende-se a múltiplas situações. A religião, o amor, a virtude, a lei, etc. A lei. Se nos perguntarmos em nome de quê ela existe, que significa submetermo-nos a ela? (Ver Em Nome da Terra). Mas não discorro mais e vou ouvir música. É mais útil e não tem problemas de equilíbrio nenhum.
*
O Gilo deu-me uma droga para expulsar a gasificação do meu excesso nervoso. E este meu corpo indecente recuperou a sua verdade, sem os excessos do seu vazio. E eu penso assim que o próprio ar que equilibra uma ave, naturalmente desequilibra o que é terrestre da sua condição. Como o excesso de água me desequilibra e equilibra a fauna piscícola. 

4 de Fevereiro [1966]

Alunagem suave duma nave soviética – a primeira na História Universal.
Os olhos humanos caíram na Lua. E não saem de lá mais. 

4 de Fevereiro de 1978

• Zangada com os retornados, esta minha amiga deu em chamar-lhes «AFROdisíacos».
• «Como estão vocês?» «Não estamos, vamos!» «E como vão?» «Indo!» 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

3 – Fevereiro (sexta) [1990]

Absorvido como estive com o romance, não vim para aqui despejar o que se me amontoou na mente e no sistema nervoso de problemas e excitações desenvolvidas no estoiro em série dos comunismos de Leste. Um foguetório. Não vou agora, já tarde, recuperar o que aliás fui evaporando em considerações para dentro ou para o exterior do telefone ou da conversa ao vivo com amigos e conhecidos. Mas há uma coisa, que nem sei se é coisa ainda por evaporar, e é o reflexo do arraial de lá na festa política de cá. Não, não se trata do PC, organização tão defunta como a dos anacoretas ou da União Nacional. Trata-se dos políticos ainda vivos e que se proclamam aos berros de esquerda – para se demarcarem dos seus irmãos também de esquerda, segundo os da direita, e da direita segundo os da esquerda. (Mas permitam-me um intervalo. É que ouço na rádio uma doce música que me transporta para donde a esquerda e a direita é uma ternura de infantismo e idiotice.) Bom. Mas antes de mais, que é hoje isso de direita e de esquerda? A esquerda rosna, de cenho baixo como viseira para o combate, que confundir ou pôr em causa a distinção é de si um sinal visível como um escarro de que se é precisamente da direita. Há uma carga emocional no que um dia chamei «palavras mágicas» e atravessá-la é ficar esfarrapado na nossa farófia de ter o que se chamava na pré-história dignidade ou «carácter». Mas então em que é que hoje é mais de esquerda o trabalhador do que o que se esfola para «criar riqueza»? Que tem este de semelhante com o gordo proprietário ou capitalista cheio de barriga e anéis? Demonstrado que ficou ser inoperável o sistema comunista (nacionalização, centralismo democrático, etc. etc.), que raio é que fica em resto para a gente distinguir o que é a esquerda? Em que é que é hoje mais de esquerda o «socialismo democrático» (que meteu o socialismo na «gaveta», segundo Soares, ou no «jazigo», segundo Lucas Pires) da pura «social-democracia» (que nunca chegou a fazer o mesmo)? Teremos de recorrer aos tempos de antes do dilúvio, quando Salazar ainda não tinha morrido afogado, para distinguirmos quem era contra ele e quem era assim assim? Aliás, o Partido Socialista, além de ter dado abrigo a foragidos do salazarismo, acolheu ainda antigos comunistas mal curados e que em ocasiões favoráveis sofrem o ataque da antiga maleita. Quando aqui há meses apresentei nos Jerónimos um livro sobre África do embaixador do Brasil, o meu velho amigo Alberto da Costa e Silva, pude defender a Europa contra a sua progressiva subalternização, como um pouco se fazia no livro apresentado. E dizia eu que a Europa é ainda a capital do Mundo. Ela exportou, com efeito, substância cinzenta para a América, tecnologia para o Japão e até matéria-prima «avariada» como o marxismo para a China (onde, aliás, ainda não tinha acontecido o crime hediondo da Praça de Tienanmen). Estava presente certo intelectual socialista que me deu, antes da parlenga, um aperto mole de mão, mas que depois dela, nem mole nem rijo. Estava ali ao pé. Absteve-se. O que não fez ninguém conhecido, também ali nas imediações.
Ponto final. Vou ouvir a música do rádio. É mais bela do que isso. E a memória do que disso nela fica é a de uma nuvem que há milénios passou…
*
Fui com a Regina dar uma volta pelo Campo Grande após o almoço. Fomos de carro (que a minha perna e cabeça não são agora muito compreensivas), deixámo-lo ao fundo da avenida da Igreja e deambulámos até a um banco onde sentei o meu cambalear. E no regresso dei conta de que brilhava um sol novo entre a verdura do parque. E senti que a sua luminosidade, já esquecida no negrume do Inverno, era bela e doce como a minha obscura melancolia. E houve silêncio em mim enquanto eu e a Regina íamos conversando. Sobre quê? Sobre tudo o que não recordo agora, enquanto vou relembrando essa luz ainda nova no exacto instante em que o mistério da vida a criou… 

A IMPORTÂNCIA DOS PEQUENOS GESTOS

A Feira do Fumeiro de Montalegre tem cada vez mais devotos. Aquilo parece uma peregrinação a Meca. Salvo seja, que os muçulmanos não comem toucinho. Não comem eles, comemos nós. Eu e mais cinco, harmonicamente divididos pelos dois sexos e três carros.
Dado que os restaurantes de Montalegre, com razão ou sem ela, têm fama de, em dias de enchente, servirem mal e caro, desviei os meus convidados para a «Casa do Pedro», em Vilarinho Seco.
Começávamos nós a subir os Cornos das Alturas, começou a nevar. A minha companheira torceu o nariz:
– Não iremos ficar bloqueados?
Olhei o céu. As nuvens iam altas e leves. Via-se bem que estavam de passagem.
– Não te preocupes. Isto não é nada. Bota lá para Vilarinho Seco.
Chegámos já com a mesa posta. Vieram as entradas, veio o vinho, veio a sopa, veio o cozido à barrosã, veio a sobremesa. Tudo digno de bispos e réis, como costuma dizer um galego meu amigo de longa data e apreciador da boa mesa. O Pedro nunca me desiludiu. Viva o Pedro!
Findo o repasto, que melhor ficaria chamar-lhe banquete, fomos brindados com um cafezinho a preceito e respectivo bagaço de alambique próprio. Saímos de Vilarinho Seco aptos a escalar o Larouco de neve coroado.
Custou-nos a chegar a Montalegre. Não por causa da neve, mas por causa do trânsito. Pior foi descobrir sítio onde estacionar. Majores pennas nido. A Vila começa a ter mais olhos do que barriga. Por fim lá conseguimos e, sob o efeito do chicote do vento galego nas orelhas, corremos para a feira, este ano em recinto novo. Mas os portões, apesar de largos, não davam vazão à turbamulta. Aquilo parecia um macaréu de rio em luta com a preia-mar. Comecei a ouvir um paso doble de muitos olés. Meti ombros à contracorrente e fui desaguar num amplo e airosa átrio. Achei bonito, sim senhor. Nem o pórtico do templo de Salomão.
Sobre um estrado, a Música de Parafita puxava pelos metais. Mas o ambiente não lhe era propício. A boa música exige silêncio. E do interior do pavilhão vinha um ingranzéu de ter lá parido a galega.
Era a segunda vez que ouvia a Música de Parafita neste princípio de ano. A primeira foi no pretérito dia sete do corrente, festa de aniversário, para a qual os meus amigos parafitenses, a quem saúdo afectuosamente, nunca se esquecem de me convidar. «Às 11 horas, missa solene» – dizia o programa. Ia a contar com ela na capela da aldeia. Afinal era na ermida de S. Romão.
Para quem não saiba, como eu não sabia, o S. Romão é um templozinho de linhas helénicas, sobranceiro a Parafita, a uns duzentos metros a norte do povoado, no sentido da serra. Dado que as pernas já me não ajudam muito, e aquilo sobe que tem diabo, pelo menos assim me pareceu, não cheguei a tempo de receber a bênção do celebrante, o meu bom e ilustre amigo Reverendo Padre Manuel Alves, arcipreste de Valpaços. Mas muito a tempo de assistir a um espectáculo inolvidável. Eu vinha a sair do templo, virado a sul, e deparei com a Música alinhada à minha frente, o espelho da albufeira dos Pisões ao fundo, a olímpica silhueta da Serra das Alturas do outro lado e, por cima, a toda a largura do horizonte, um céu limpo de nuvens. Simplesmente arrebatador. A um sinal do maestro, a música arrancou. Os acordes foram subindo, ganhando amplitude, enchendo a vastidão do espaço. Até os pássaros se calaram, a ouvir. Até as lágrimas me vieram aos olhos.
Para a Música de Parafita, desejara eu sempre um anfiteatro daqueles. Uma prega da montanha por palco e a imensidão do firmamento por cúpula. Confinada num átrio, por maior que ele seja, perde qualidade. Não obstante, aguentei a pé firme, aplaudi com mão diligente. Neste ponto tocou o telemóvel. Era a cara-metade a reclamar a minha presença do outro lado do pavilhão.
Subi mais uns degraus, mergulhei num mar de gente. Num mar, repito, e explico porquê. O pavilhão é tão grande, a gente era tanta, a vozearia tão intensa e difusa, que lembrava o incessante marulhar das ondas na praia. Fui avançando, na esperança de encontrar uma sereia que desse consistência à metáfora. Nisto vem de lá uma senhora de braços abertos e sorriso largo:
– Posso dar-lhe um abraço?
– Até um beijo, se nisso tiver gosto.
– Também diz bem.
Beijou-me na face. Correspondi.
– Você não me conhece mas eu vou dizer-lhe quem sou. Lembra-se de me ter dado uma boleia entre Morgade e Carvalhais?
– De carro?
– A cavalo. Eu ia com a minha falecida mãe, ambas carregadas, ela com um saco de batatas à cabeça, eu com uma cestinha de ovos no braço. Mas eu já não podia com as pernas. Nisto aparece você escachapernado num cavalo branco. Parece-me que ia ao vinho a casa do Rego.
– Sim. Lembro-me de ir algumas vezes ao vinho a casa do Rego.
– E não se lembra de me ter dado boleia?
– Isso não.
– Pois foi. Disse para a minha mãe: «Bote-me para cá o saco.» «Leva-me antes a menina.» «Bote para cá tudo. O saco à frente, a menina atrás». A minha mãe passou-lhe o saco. Você ajeitou-o à sua frente e disse: «Agora a menina.» Minha mãe içou-me para a garupa do cavalo. «Agarra-te bem mim, não tenhas medo.» «Está bem» – respondi eu toda concha. Há que anos isso vai. Você devia ter para aí uns quinze, eu sete. Nunca mais me esqueci. Depois você desapareceu, acho que foi estudar, e eu fui para a América. Aguardei uma vida inteira por este abraço.
– Foi pena não ter vindo mais cedo.
– Não calhou. Era só isto que lhe queria dizer. Aquela sua gentileza, cativou-me para o resto da vida. Adeus.
A senhora afastou-se e eu fiquei a pensar na importância dos pequenos gestos…
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 78 e ss.)

3 de Fevereiro [1966]

O Mário anda tão feliz com o êxito, aliás de justiça absoluta, do seu lindíssimo livro Memória dum Pintor Desconhecido!
Parece outro. Ressuscitado. 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

2 – Fevereiro (sexta) [1990]

E eis-me regressado aqui, ao meu repouso, depois do imenso esforço na cópia e revisão do romance. Ficou definitivamente Em Nome da Terra (que em francês é mais amável Au nom de la Terre). E quanto a romance, acabou. Foi o meu adeus às armas. E que bom regressar à minha paz interior. Decerto não mais sairei daqui, deste estar comigo, esta beatitude que esqueci. Escrever romance é estar na rua, por mais que se esteja em casa. Há o público que não nos larga e a infindável cadeia dos que aplaudem ou pateiam ou rosnam injúrias menos publicáveis. Estou infinitamente cansado. Mas há que expulsar ainda o público à espreita destes mesmos escritos de «confidência». Porque desde que pensei na publicação do diário, pensei logo no público implícito a essa publicação. Queria verdadeiramente estar só. Pensar comigo. Escrever no interior de mim. Precisava tanto que a saúde dissesse que sim. Mas tem sido um estupor. Desorganizou-me os nervos até ao desespero e ao transtorno mental. E estou tão cansado. Pensar a vida no seu verdadeiro limite é difícil. Saber que a morte está à espreita, cheia de pressa para avançar, é dificílimo. Hã sempre a ilusão de mais um ano, um mês, um dia. E um intervalo de uma hora sequer, é dentro dela de um tamanho igual ao de um ano ou mais. Nós somos o absoluto do instante em que vivemos. E assim ele não tem dimensões. De todo o modo acabei o romance. E isso é agora a ameaça da sua publicação e da selva espinhosa a atravessar aí. A paz, a paz. Que ela venha, enfim. E com ela ou para ela o equilíbrio de mim, da minha cabeça, dos meus nervos, de toda a minha convulsão interior. Neste mesmo instante – a ameaça de entrar em perda de consciência. Paremos. 

2 de Fevereiro [1966]

Como é natural, as opiniões divergem a respeito da Imitação dos Dias. O Augusto Abelaira insiste em considera-lo o meu melhor livro de prosa. O que não coincide com a reacção expressa pelo Mário Dionísio, menos favorável.
Este tem-no como uma espécie de continuação de A Memória das Palavras em forma de diário, com coisas muito bonitas.
Mas…
Quanto ao público, ainda me parece cedo para saber. Nem me quero iludir com alguns depoimentos apressados – sobretudo de mulheres. 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

1 de Fevereiro [1966]

Há certas paixões que não entendo, nunca entendi, neste jogo de forças internacionais: ser americanófilo, russófilo, anglófilo, germanófilo, francófilo…
Socialista ou não-socialista, eis a questão. O resto é disfarce para tudo continuar na mesma.