segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

11 de Fevereiro [1966]

Hoje almoço de fava rica – comprada pela Maria José, em Arroios, talvez uma das últimas vendedeiras dessa enxovia popular.
Todo o dia com a boca a saber-me a infância viva.
JGF

11 de Fevereiro de 1978

• A Dona Eponina – inteligente, activa, gorducha, e desafortunada – teve dois filhos ilegítimos de um grande herói nautocolonial da monarquia, cujo nome foi dado a uma vila africana. Os dois meninos foram educados como internos de uma instituição do Estado. Vivendo pobre e só com a mãe velha e um irmão, sacerdote regressado do Oriente, ela mostrou sintomas de paranoia: ouvia vozes. De tempos a tempos – «Lá andam eles outra vez a falar mal de mim» – corria a meter-se na casa de saúde… Melhorava, e tornava à vida activa. Aparecia lá por casa: «Ó Dona Adélia, três horas da tarde e eu sem almoçar! Arranjava-me aí dois ovos fritos, por favor?» 
JRM

domingo, 10 de fevereiro de 2013

10 de Fevereiro [1966]

O poeta Luís Amaro, em conversa telefónica com a Natércia Freire, referiu-se aos escritores cujos nomes estão proibidos de aparecer nos jornais.
E ela, a misturar alhos com bugalhos:
– Esquece-se de que, dantes, em certas páginas literárias, havia escritores que cortavam os nomes de outros escritores?
Pobre razão neutra! (de quem sonha com páginas neutras, revistas neutras, poetas neutros, homens neutros!) posta com indignação fingida na balança, para justificar a tirania e concordar com ela.
E de súbito lembrei-me de que numa entrevista, dada pelo Mário Dionísio à página do Diário de Notícias, essa puritana da camaradagem neutra cortou muitos nomes de escritores da esquerda, o que motivou uma carta de protesto do entrevistado… 

10 – Fevereiro (sexta) [1990]

É verdadeiramente espantoso que se discuta ainda tanto sobre o que seja a verdade. Quando a ciência tinha pacto com Deus, partilhando a eternidade, e existia ainda essa coisa mirífica da «objectividade», havia as verdades ditas objectivas, acontecidas fora de nós, embora estivessem dentro, e daí lavávamos as mãos. E havia as outras, as ditas subjectivas, que podiam ser mais ou menos o que se quisesse porque não tinham importância nenhuma. Bom. Acontecia, porém, que estas tais verdades da privacidade de cada um, como o comportamento do seu pâncreas ou da sua tripa, abrangiam a quase totalidade das verdades e eram as verdadeiramente decisivas para a vida de cada um. Arredada para o lado a questão de a Ciência ter caído em maus costumes, deixando-se preverter pela inconstância e volubilidade da juventude estouvada e ser hoje tão falível como a existência de Deus, seu parceiro em firmeza, nós temos assim que o problema da verdade é o de todo o nosso destino humano – que vai da crença à piada de uma anedota e ao amor de um canastrão. Disse algures – devo ter dito – que há em cada homem um núcleo indizível, um foco de irradiação, um ponto cego donde procede ou onde se situa o que genericamente consideramos a sua pessoa. Há assim pessoas amáveis, iracundas, serenas, excitáveis, ponderadas, insensatas, etc. E é essa nossa pessoa ou nosso ser, ou se preferimos, esse ser que para nós escolhemos e com o qual nos identificamos, é esse quid especial que nos define e identifica, é isso que pela vida fora e ao acaso dos ventos que por nós passam na forma de pessoas que nos criaram ou que encontrámos, dos livros ou instrução que nos calhou, dos mil acidentes enfim que constituíram a nossa vida, é isso que posto em contacto com tais acasos vai definindo para si um equilíbrio interior em que esses mil elementos se organizam para formarem um todo coerente com o que aí se assinala ou daí se expulsa e define o que há-de ser ou não uma verdade. Assim, como o tal rei dizia «o Estado sou eu» cada um de nós dirá, se for honesto e atento, «a verdade sou eu». Tal equilíbrio não é definitivo, ou seja, não se constitui de uma vez para sempre – como não é para sempre que tal obra de arte nos agrada ou tal anedota tem graça. Mas eu suponho que em todos nós há um arquétipo, que é afinal o tal núcleo central de nós, o qual vai tacteando ao longo da vida a correspondência segura do que é com o que vai encontrando. E pode assim acontecer que essa coincidência se não realize até à morte e o que realmente a define irá a sepultar com ela. E o que às vezes queremos dizer ao afirmar que tal ou tal indivíduo nasceu no seu tempo. Como se realizaria o arquétipo de um Dostoievski no tempo de Péricles? O de Napoleão no (Interrompido).

sábado, 9 de fevereiro de 2013

9 de Fevereiro [1966]

Convidaram-me hoje a colaborar numa página de homenagem a Ferreira de Castro.
Pretexto: 50 anos de vida literária, contados desde a publicação de Criminoso por Ambição.
Recusei.
Ainda não esqueci da atitude desse velho amigo, quando da dissolução da Sociedade de Escritores em que só à força assinou o protesto dos seus camaradas.
Ele nessa altura lá tinha as suas razões de liberdade.
Eu agora tenho as minhas. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

8 – Fevereiro (sexta) [1990]

Aqui me venho desfazer em escrita, enquanto me não visita de novo a ficção em forma humilde de conto ou novela. E assim aproveito o regime de dieta para mastigar o que me não faça mal e facilite a digestão. Cavaqueira, pois, inconsequente. Confraternizei há pouco num novo restaurante brasileiro, ali à Praça de Alvalade, com as minhas amigas camonianas, a Clarisse, a Judith e a Margarida. Todos lá passamos o Equador depois que em Dezembro a Margarida cinquentanizou e agora todos entrámos em «contagem decrescente» como se diz em astronáutica. E isso vê-se já subscrito na face, mesmo das mais jovens, com um leve apagamento do que é vitalidade, ainda que na alegria da conversa. Mas o almoço.
Eu tinha ainda na memória estes repastos carniceiros com que no Brasil me alimentaram. Todas as vacas das pradarias vieram ao serviço com as múltiplas faculdades acepipeiras com a Natureza as dotou. E assim, depois dos chamados aperitivos, são já um almoço a transbordar, vieram os serviços de base que essencialmente consistiam na vinda sucessiva de um funcionário, armado com uma longa «espetada» de carnes várias que nos iam fatiando para o prato até o demónio da gula dizer basta, E no fim frutas endógenas e exógenas e o café cigarrado para a assossega. Eu tinha feito à Clarisse uma consulta sobre a Judite da Bíblia que nas minhas várias bíblias se tinha escapada para o não-ser, como Deus. Mas ela tinha uma Bíblia «dos Capuchinhos» em que a dita Judite funcionava ainda. E leva de me oferecer, com as duas outras amigas, um exemplar do grande livro. Fiquei derretido, como é de ver. E agora vou reler a Grande Lei, porque assim em edição desconhecida e em estado novo, é como se nova ela fosse também. E talvez tenha uma conversa de homens com o esquecido Jeová – mesmo com o doce Jesus Cristo, em todo o caso mais do meu convívio e simpatia.

8 de Fevereiro [1966]

O amor é a única forma de diálogo que põe dois egoísmos de acordo. 

8 de Fevereiro de 1978

TORRALTA (ou VIST’ALTA, ETC.): Grande sociedade anónima de responsabilidade muito limitada, construtora de altas torres e altas ilusões, que – obedecendo ao provérbio – mais abaixo veio cair… 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

7 – Fevereiro (sexta) [1990]

Afinal a minha vocação era a de profeta. Não é uma vocação em cheio nem sequer tenho barbas. Mas que tenho um jeito, é inegável. Ainda agora eu dei no vinte quando detectei a estratégia do Gorbatchev. Disse eu que a sua táctica era deitar fogo à comunada dos países da vanguarda enquanto ele se mantinha no fortim lá detrás. E quando tudo estivesse a arder, rebentava ele com a comunada do interior. Meu dito meu feito. Ontem na TV, velhos e novos desataram a blasfemar contra o vigário que lhes tinham infligido e à pergunta sobre se queriam mais comunismo, foi aos berros e em uníssono que eles proclamaram niet, niet! O amigo Cunhal e os seus gerontes, por espírito de coerência com o que sempre nos fulminaram, devia agora dizer que se trata apenas de anticomunistas primários. Pobre velhada, já tão córnea para germinarem em ideias novas.
De tudo isto, porém, o que mais me surpreende é que o pagode em geral e a inteligência em especial, ainda não deram indícios de terem percebido que um grande vazio se abriu na História. Decerto ela não acabou, ao contrário do que alguns pensam. Mas fechou as contas para um enorme balanço e abrir de seguida uma conta nova. E nessa conta toda a malandragem e ingénua comunada entra no Deve e não no Haver. Porque é ela o maior passivo de quantas contas novas a Humanidade já abriu.

7 de Fevereiro [1966]

É vulgaríssimo chamarem-me romântico.
Porquê? Por não conseguir ocultar a comoção de viver, sobretudo quando sinto a fraternidade dos homens neste abismo amarelo? 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

6 – Fevereiro (sexta) [1990]

No tempo em que eu andava em Coimbra – e quantas coisas se douram logo de legenda na simples enunciação trindadecoelheira do «tempo em que eu andava em Coimbra» – nesse tempo de há meio século havia lá entre os bobos da academia um langão de beiça pendida e com um ar atordoado de estupidez e bonacheirice que chamávamos Dim-Dim. E a sua habilidade mestra, já celebrada por vários cronistas, e não sei se por mim, era ir «fazer bolinhas» a quem lhe mandassem, para recolher depois umas coroas pelo trabalho. E fazer bolinhas era ir por trás da vítima indicada e apalpar-lhe o que essa vítima tinha pela frente. Fúria do apalpado às mãos grossas do apalpador e gargalhada geral dos mandantes da apalpação. E ponto final no assunto. Porque o que eu queria era lembrar um grupo que no fim do curso congregámos e a que demos justamente a designação de «Bolinhas». Fizémos o jantar de despedida num restaurante da Sofia –, o «Flecha» nos números 163-165 – e em vários cartões do próprio restaurante escrevemos o nosso adeus – que o foi até hoje e para sempre. E de súbito, não sei porquê, pus-me a evocar os nomes dos que se agruparam nessa despedida e já os não recordo a todos. Tenho os cartões perdidos na confusão dos meus papéis, emaçados com jornais, encaixotados com a imensa correspondência de que há tempos tentei em vão decifrar os nomes de todos quantos ma enviaram – e assim não posso socorrer-me deles. Mas lembro alguns e dá-me prazer restaurar-lhes aqui a presença ignorada ou a ausência definitiva. Ponces de Carvalho, falecido há anos [1]e que foi casado com uma neta do João de Deus, senhora que activamente perpetua a acção educativa do avô e pai de um jovem cineasta que foi meu aluno. Creio que um Caldas, de Moçambique, médico não sei se já no paraíso. Ramiro Valadão, salazarista, mais tarde presidente da RTP e que os oposicionistas chamavam Ramiro Valadrão. Fred (Fernando Martins) já morto, geógrafo e de vida legendária, cuja tese tinha um título cheio de riscos assim: «Esforço do homem na bacia do Mondego». O risco estava em se poder dizer que o esforço do homem na bacia era aquilo. Bom tipo, aliás, aperfeiçoado no seu pequeno toque de loucura aventureira. Suponho que um Melo Furtado, açoriano, aparecido morto no Estoril, tapado, creio, com o casaco, mas sem que a razão da morte ficasse depois mais descoberta. Suponho que também o Bandeira, que era alto como o nome e foi já também descontado à Humanidade. E não me lembro dos outros. Mas destes, de que só dois (eu incluído) suspeito ainda a fazer de vivos, os nomes que deixo aqui dá-me a doce ilusão de que os prendo ainda à vida pela realidade que faz emergir da confusão das coisas o nome que uma delas alguém lhe dê, como logo Adão pôde saber.


[1] Exagero. Encontrei-o há bocado na Av. da Igreja (29.11.92). E está para durar.

6 de Fevereiro [1966]

Mas digam-me lá: na actual salada de géneros dos romances-ensaios, etc., porque não havemos de aceitar a memória-ensaio? Além disso, refletindo melhor, A Memória das Palavras pode considerar-se um ensaio de Arte Poética, por mim arrancada da vida e exposta, através de factos e acontecimentos que tomam algumas vezes o aspecto de memórias (se os isolarmos do conjunto). 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

5 – Fevereiro (sexta) [1990]

Com o feroz colete de forças infligido ao meu físico pela múltipla medicação, vou ficando alguns dias mais viável entre os humanos. E até tenho às vezes assomos de gula. E até por vezes apeteço e cumpro a embriaguez de um cigarro. Assim fui hoje – e há quanto tempo não ia – ver o que havia pelas livrarias da avenida de Roma. Lá estive na Barata e um pouco conversei com o pobre pai, fortemente sucumbido com a morte (suicídio?) do filho. Conheci o rapaz. Tinha boa presença, um certo ar desafrontado de quem assentou quanto ao futuro. E foi o que o pai me confirmou ao referir a obsessão do filho com o destino da livraria dele e os projectos que para ela vivia intensamente. Matou-se? Se sim, naturalmente não sei porquê. Mas o porquê de um suicídio, como de todo o nosso anormal, não está nele mas em nós. O resto é a tal «ocasião» que faz o «ladrão». No meu romance diz o narrador (que foi juiz) não dever condenar apenas quem comete um crime, mas ainda quem o cometeria, se estivesse em situação de o cometer. Assim Deus é injusto em mandar para o inferno só o pecador, porque deveria atirar para lá todo o patifório que só não teve oportunidade de se revelar o que é. É essa uma justiça que só ele poderia fazer. Porque só ele conhece quais os sacanóides que se ficaram em «potência», apenas porque lhe não calhou estarem em situação de passarem a «acto».
Mas por falar em romance. Então não é que me apetece já avançar com ele para o gemer dos prelos? Tudo (quase) do que nele concentro de excitação, trabalho de condenado, encantamento, desânimos e o mais dos sentimentos e pulmadura com que o realizei, de súbito esmaeceram para o meu entusiasmo. Amanhã vou mandar ao Joaquim Vital (da «Différence») uma cópia da façanha. E ponho-me a pensar que se ele a mostrasse em breve ao pagode gaulês, eu abstinha-me talvez de a exibir à Lusitânia. Porquê? Isso queria eu saber. O que sei é que a excitação murchou. Como o esfomeado diante de uma mesa pluralíssima de manjares. A abundância é já um pouco a saciedade. Claro que vou publicar o livro. Mas é claro que já me não apetece tanto. Como o tipo esfomeado sempre acaba por comer, mesmo diante da fartura que naturalmente enjoa um pouco e antecipa um certo sabor a indigestão.
*
Ontem esteve aí o Carlos Moura, chegado um pouco tarde às artes e às letras. E quer ele que eu lhe componha umas legendas poético-prosaicas para uns arranjos muito giros de tinta em manchas de esbatidos. Mas é curioso que um pedido de coisas de arte estraga-lhes logo a arte que deviam ter. Não assim um pedido de textos ensaísticos. A arte é uma dádiva, não é resultado de um requerimento. Acaso se pode pedir a alguém que ame ou se comova ou ache graça? Mas concebe-se que se peça diga coisas sobre o amor, a comoção ou as piadas. E aqui estou eu entalado entre a solicitação do artista e a recusa do meu talento que escoicinha cheio de raiva. Poderei amansá-lo? Poderá ele ser gentil comigo? Estarão as musas, mesmo pedestres, em disposição de me enviarem o influxo? Que coisa mais esquiva a diabólica arte. Não há solicitação que a demova, ao menos comigo. Porque é só quando ela muito bem entende. Deve haver processos machos para domar esta fêmea arisca. Não os sei.
*
Mas esquecia-me. Na livraria Barata comprei o Dicionário de Camilo organizado pelo Alexandre Cabral. Camilo está na berra, o pobre do Eça foi mandado para o canto da celebridade. Aliás, e em todo o caso, este Dicionário faz pendant com outro, de Eça, organizado pelo Campos Matos. Da qualidade do Camilo não curo. É grande, pois que remédio. Mas há um pormenor à margem de tudo isso e que é este: foi Camilo um «trágico» ou um «humorista»? Magna questão. Transposta para o Eça, dava isto: foi ele um melancólico ou um homem divertido? Não é uma questãozinha estupidazinha? Ainda há dias uma senhora que é camilatra (que latra Camilo) e que a entrevistadora (sisuda ou alegremente) adornava de «formidável inteligência», dizia que o quê? o Camilo trágico? Que coisa divertida. Era um grande cómico! Um tipo cheio de laracha e de gozo dos palermas. Imaginamos nós acaso que ele alojou uma bala no miolo por desespero, tragédia em cinco actos, de alma cabisbunda? O que ele se deve ter divertido com a nossa ilusão. Porque não foi nada disso! Ele foi mas é um grande gozador. A bala que lhe penetrou o último andar ia cheia de riso! Aquilo foi uma grande partida que ele nos pregou. Porque ele era, intrinsecamente, profundamente, desde a intestineira, um impagável gozador. Aliás, o seu exemplo pegou. O Antero, logo a seguir, disse com o seu travesseiro: – Vou pregar uma partida à tragédia lusitana. E meteu também o seu balásio, mas agora via bucal, para se desenfastiar e divertir.
Agora a sério. Esta questão de se ser alegre ou triste, de se optar pela exterioridade cómica ou trágica, não tem que ver por força com o que se é, mas com o que se pretende parecer ou se escolhe para o que devemos ser para os outros. Todo o riso espectacular e mesmo o discreto é normalmente a expressão protocolar de uma grande amargura ou melancolia. O contrário do riso não é a amargura, que é só o seu reverso ou a outra sua face. O contrário do riso – e da amargura – é talvez apenas a serenidade. 

5 de Fevereiro [1966]

Soube com espanto que a Casa da Imprensa me atribuiu o Prémio de Ensaio pela Memória das Palavras.
Ante a minha estranheza, o Abelaira explicou:
– Ensaio é tudo o que não é poesia, nem ficção. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

4 – Fevereiro (sexta) [1990]

Que ponto mais alto me resume a vida inteira? Em que ideia, situação ou imagem ela se investe de pacificação ou encantamento? Que ideia resume ou resta de tudo o que pensei? É uma questão que todo o homem se pode pôr. Ou em horas de solidão se terá posto. A vida é um turbilhão de imagens e de acidentes e de ideias. Mas há decerto uma que resiste ou a que vai dar a torrente das que por ele passaram. Por mim não tenho talvez ideia final nenhuma, tenho só o que em emoção deslumbrada me ficou diante do mistério e deslumbramento de tudo. É uma emoção que vai do mais extraordinário espectáculo, como o que se me desdobra quando me deito entre os pinheiros de Fontanelas e olho o céu nocturno de Verão, até à visão do mais vulgar e mesquinho e quase invisível na sua vulgaridade como uma flor ou uma pedra. Não tenho uma ideia que me salde a vida inteira, tenho só uma interrogação que não ousa e me deslumbra de vertigem. Já uma imagem que me fixe a vida toda, não sei qual é. A neve pela manhã ao abrir a janela e que subitamente descubro na extensão do horizonte ou vejo cair no balancear silencioso e grave e gratuito como o voo de uma ave ao entardecer. A balada da chuva no Inverno e a evocação dos caminhos tenebrosos da Serra. A figura grácil de uma jovem de outrora que passa leve na aragem e que morreu e que persiste instantânea no irreal desse passar. E uma balada que a envolve e a transcende à eternidade do seu ser. (Interrompido)
*
Vai sair em França o meu Aparição com um desvanecedor prefácio do Robert Bréchon, esse grande amigo de Portugal, devoto de Pessoa, admirador da nossa literatura em geral, de alguns poetas em especial como o Ramos Rosa, poeta de merecimento ele próprio que em motivos portugueses encontrou alguns temas para a sua poesia. E assim sendo, de novo me interroguei sobre o que significará esse meu livro. Continuo a pensar que o seu tema é talvez bastante original, sendo-o menos a realização estrutural do livro, a tendência para a «tipificação» das personagens. Mas o tema. Antes de mais, o conceito de «aparição», de que já falei. Mas há no livro, ligado ainda a isso, um problema a que, suponho, ninguém ainda se referiu e que é este: que significa a perversão a que a evidência do «eu» leva os que a tiveram? Disse um dia que o querer desvendar a arte até à sua radicalidade, é um acto sacrílego e por isso a arte se degradou (ver Arte e Tempo). Como afirmei também que toda a verdade, explorada até às últimas raízes, se dissolve ou dissipa ou contradiz. Há assim que suster a investigação nos limites em que se aguenta o seu equilíbrio. A revelação do «eu» é do homem e a sua ignorância é do animal. Estará o equilíbrio entre os dois? Entre a evidência-revelação e a ignorância ou inconsciência disso? Será enfim a vida humana plausível no instável equilíbrio de tudo? Porque o problema estende-se a múltiplas situações. A religião, o amor, a virtude, a lei, etc. A lei. Se nos perguntarmos em nome de quê ela existe, que significa submetermo-nos a ela? (Ver Em Nome da Terra). Mas não discorro mais e vou ouvir música. É mais útil e não tem problemas de equilíbrio nenhum.
*
O Gilo deu-me uma droga para expulsar a gasificação do meu excesso nervoso. E este meu corpo indecente recuperou a sua verdade, sem os excessos do seu vazio. E eu penso assim que o próprio ar que equilibra uma ave, naturalmente desequilibra o que é terrestre da sua condição. Como o excesso de água me desequilibra e equilibra a fauna piscícola. 

4 de Fevereiro [1966]

Alunagem suave duma nave soviética – a primeira na História Universal.
Os olhos humanos caíram na Lua. E não saem de lá mais. 

4 de Fevereiro de 1978

• Zangada com os retornados, esta minha amiga deu em chamar-lhes «AFROdisíacos».
• «Como estão vocês?» «Não estamos, vamos!» «E como vão?» «Indo!» 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

3 – Fevereiro (sexta) [1990]

Absorvido como estive com o romance, não vim para aqui despejar o que se me amontoou na mente e no sistema nervoso de problemas e excitações desenvolvidas no estoiro em série dos comunismos de Leste. Um foguetório. Não vou agora, já tarde, recuperar o que aliás fui evaporando em considerações para dentro ou para o exterior do telefone ou da conversa ao vivo com amigos e conhecidos. Mas há uma coisa, que nem sei se é coisa ainda por evaporar, e é o reflexo do arraial de lá na festa política de cá. Não, não se trata do PC, organização tão defunta como a dos anacoretas ou da União Nacional. Trata-se dos políticos ainda vivos e que se proclamam aos berros de esquerda – para se demarcarem dos seus irmãos também de esquerda, segundo os da direita, e da direita segundo os da esquerda. (Mas permitam-me um intervalo. É que ouço na rádio uma doce música que me transporta para donde a esquerda e a direita é uma ternura de infantismo e idiotice.) Bom. Mas antes de mais, que é hoje isso de direita e de esquerda? A esquerda rosna, de cenho baixo como viseira para o combate, que confundir ou pôr em causa a distinção é de si um sinal visível como um escarro de que se é precisamente da direita. Há uma carga emocional no que um dia chamei «palavras mágicas» e atravessá-la é ficar esfarrapado na nossa farófia de ter o que se chamava na pré-história dignidade ou «carácter». Mas então em que é que hoje é mais de esquerda o trabalhador do que o que se esfola para «criar riqueza»? Que tem este de semelhante com o gordo proprietário ou capitalista cheio de barriga e anéis? Demonstrado que ficou ser inoperável o sistema comunista (nacionalização, centralismo democrático, etc. etc.), que raio é que fica em resto para a gente distinguir o que é a esquerda? Em que é que é hoje mais de esquerda o «socialismo democrático» (que meteu o socialismo na «gaveta», segundo Soares, ou no «jazigo», segundo Lucas Pires) da pura «social-democracia» (que nunca chegou a fazer o mesmo)? Teremos de recorrer aos tempos de antes do dilúvio, quando Salazar ainda não tinha morrido afogado, para distinguirmos quem era contra ele e quem era assim assim? Aliás, o Partido Socialista, além de ter dado abrigo a foragidos do salazarismo, acolheu ainda antigos comunistas mal curados e que em ocasiões favoráveis sofrem o ataque da antiga maleita. Quando aqui há meses apresentei nos Jerónimos um livro sobre África do embaixador do Brasil, o meu velho amigo Alberto da Costa e Silva, pude defender a Europa contra a sua progressiva subalternização, como um pouco se fazia no livro apresentado. E dizia eu que a Europa é ainda a capital do Mundo. Ela exportou, com efeito, substância cinzenta para a América, tecnologia para o Japão e até matéria-prima «avariada» como o marxismo para a China (onde, aliás, ainda não tinha acontecido o crime hediondo da Praça de Tienanmen). Estava presente certo intelectual socialista que me deu, antes da parlenga, um aperto mole de mão, mas que depois dela, nem mole nem rijo. Estava ali ao pé. Absteve-se. O que não fez ninguém conhecido, também ali nas imediações.
Ponto final. Vou ouvir a música do rádio. É mais bela do que isso. E a memória do que disso nela fica é a de uma nuvem que há milénios passou…
*
Fui com a Regina dar uma volta pelo Campo Grande após o almoço. Fomos de carro (que a minha perna e cabeça não são agora muito compreensivas), deixámo-lo ao fundo da avenida da Igreja e deambulámos até a um banco onde sentei o meu cambalear. E no regresso dei conta de que brilhava um sol novo entre a verdura do parque. E senti que a sua luminosidade, já esquecida no negrume do Inverno, era bela e doce como a minha obscura melancolia. E houve silêncio em mim enquanto eu e a Regina íamos conversando. Sobre quê? Sobre tudo o que não recordo agora, enquanto vou relembrando essa luz ainda nova no exacto instante em que o mistério da vida a criou… 

A IMPORTÂNCIA DOS PEQUENOS GESTOS

A Feira do Fumeiro de Montalegre tem cada vez mais devotos. Aquilo parece uma peregrinação a Meca. Salvo seja, que os muçulmanos não comem toucinho. Não comem eles, comemos nós. Eu e mais cinco, harmonicamente divididos pelos dois sexos e três carros.
Dado que os restaurantes de Montalegre, com razão ou sem ela, têm fama de, em dias de enchente, servirem mal e caro, desviei os meus convidados para a «Casa do Pedro», em Vilarinho Seco.
Começávamos nós a subir os Cornos das Alturas, começou a nevar. A minha companheira torceu o nariz:
– Não iremos ficar bloqueados?
Olhei o céu. As nuvens iam altas e leves. Via-se bem que estavam de passagem.
– Não te preocupes. Isto não é nada. Bota lá para Vilarinho Seco.
Chegámos já com a mesa posta. Vieram as entradas, veio o vinho, veio a sopa, veio o cozido à barrosã, veio a sobremesa. Tudo digno de bispos e réis, como costuma dizer um galego meu amigo de longa data e apreciador da boa mesa. O Pedro nunca me desiludiu. Viva o Pedro!
Findo o repasto, que melhor ficaria chamar-lhe banquete, fomos brindados com um cafezinho a preceito e respectivo bagaço de alambique próprio. Saímos de Vilarinho Seco aptos a escalar o Larouco de neve coroado.
Custou-nos a chegar a Montalegre. Não por causa da neve, mas por causa do trânsito. Pior foi descobrir sítio onde estacionar. Majores pennas nido. A Vila começa a ter mais olhos do que barriga. Por fim lá conseguimos e, sob o efeito do chicote do vento galego nas orelhas, corremos para a feira, este ano em recinto novo. Mas os portões, apesar de largos, não davam vazão à turbamulta. Aquilo parecia um macaréu de rio em luta com a preia-mar. Comecei a ouvir um paso doble de muitos olés. Meti ombros à contracorrente e fui desaguar num amplo e airosa átrio. Achei bonito, sim senhor. Nem o pórtico do templo de Salomão.
Sobre um estrado, a Música de Parafita puxava pelos metais. Mas o ambiente não lhe era propício. A boa música exige silêncio. E do interior do pavilhão vinha um ingranzéu de ter lá parido a galega.
Era a segunda vez que ouvia a Música de Parafita neste princípio de ano. A primeira foi no pretérito dia sete do corrente, festa de aniversário, para a qual os meus amigos parafitenses, a quem saúdo afectuosamente, nunca se esquecem de me convidar. «Às 11 horas, missa solene» – dizia o programa. Ia a contar com ela na capela da aldeia. Afinal era na ermida de S. Romão.
Para quem não saiba, como eu não sabia, o S. Romão é um templozinho de linhas helénicas, sobranceiro a Parafita, a uns duzentos metros a norte do povoado, no sentido da serra. Dado que as pernas já me não ajudam muito, e aquilo sobe que tem diabo, pelo menos assim me pareceu, não cheguei a tempo de receber a bênção do celebrante, o meu bom e ilustre amigo Reverendo Padre Manuel Alves, arcipreste de Valpaços. Mas muito a tempo de assistir a um espectáculo inolvidável. Eu vinha a sair do templo, virado a sul, e deparei com a Música alinhada à minha frente, o espelho da albufeira dos Pisões ao fundo, a olímpica silhueta da Serra das Alturas do outro lado e, por cima, a toda a largura do horizonte, um céu limpo de nuvens. Simplesmente arrebatador. A um sinal do maestro, a música arrancou. Os acordes foram subindo, ganhando amplitude, enchendo a vastidão do espaço. Até os pássaros se calaram, a ouvir. Até as lágrimas me vieram aos olhos.
Para a Música de Parafita, desejara eu sempre um anfiteatro daqueles. Uma prega da montanha por palco e a imensidão do firmamento por cúpula. Confinada num átrio, por maior que ele seja, perde qualidade. Não obstante, aguentei a pé firme, aplaudi com mão diligente. Neste ponto tocou o telemóvel. Era a cara-metade a reclamar a minha presença do outro lado do pavilhão.
Subi mais uns degraus, mergulhei num mar de gente. Num mar, repito, e explico porquê. O pavilhão é tão grande, a gente era tanta, a vozearia tão intensa e difusa, que lembrava o incessante marulhar das ondas na praia. Fui avançando, na esperança de encontrar uma sereia que desse consistência à metáfora. Nisto vem de lá uma senhora de braços abertos e sorriso largo:
– Posso dar-lhe um abraço?
– Até um beijo, se nisso tiver gosto.
– Também diz bem.
Beijou-me na face. Correspondi.
– Você não me conhece mas eu vou dizer-lhe quem sou. Lembra-se de me ter dado uma boleia entre Morgade e Carvalhais?
– De carro?
– A cavalo. Eu ia com a minha falecida mãe, ambas carregadas, ela com um saco de batatas à cabeça, eu com uma cestinha de ovos no braço. Mas eu já não podia com as pernas. Nisto aparece você escachapernado num cavalo branco. Parece-me que ia ao vinho a casa do Rego.
– Sim. Lembro-me de ir algumas vezes ao vinho a casa do Rego.
– E não se lembra de me ter dado boleia?
– Isso não.
– Pois foi. Disse para a minha mãe: «Bote-me para cá o saco.» «Leva-me antes a menina.» «Bote para cá tudo. O saco à frente, a menina atrás». A minha mãe passou-lhe o saco. Você ajeitou-o à sua frente e disse: «Agora a menina.» Minha mãe içou-me para a garupa do cavalo. «Agarra-te bem mim, não tenhas medo.» «Está bem» – respondi eu toda concha. Há que anos isso vai. Você devia ter para aí uns quinze, eu sete. Nunca mais me esqueci. Depois você desapareceu, acho que foi estudar, e eu fui para a América. Aguardei uma vida inteira por este abraço.
– Foi pena não ter vindo mais cedo.
– Não calhou. Era só isto que lhe queria dizer. Aquela sua gentileza, cativou-me para o resto da vida. Adeus.
A senhora afastou-se e eu fiquei a pensar na importância dos pequenos gestos…
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 78 e ss.)

3 de Fevereiro [1966]

O Mário anda tão feliz com o êxito, aliás de justiça absoluta, do seu lindíssimo livro Memória dum Pintor Desconhecido!
Parece outro. Ressuscitado. 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

2 – Fevereiro (sexta) [1990]

E eis-me regressado aqui, ao meu repouso, depois do imenso esforço na cópia e revisão do romance. Ficou definitivamente Em Nome da Terra (que em francês é mais amável Au nom de la Terre). E quanto a romance, acabou. Foi o meu adeus às armas. E que bom regressar à minha paz interior. Decerto não mais sairei daqui, deste estar comigo, esta beatitude que esqueci. Escrever romance é estar na rua, por mais que se esteja em casa. Há o público que não nos larga e a infindável cadeia dos que aplaudem ou pateiam ou rosnam injúrias menos publicáveis. Estou infinitamente cansado. Mas há que expulsar ainda o público à espreita destes mesmos escritos de «confidência». Porque desde que pensei na publicação do diário, pensei logo no público implícito a essa publicação. Queria verdadeiramente estar só. Pensar comigo. Escrever no interior de mim. Precisava tanto que a saúde dissesse que sim. Mas tem sido um estupor. Desorganizou-me os nervos até ao desespero e ao transtorno mental. E estou tão cansado. Pensar a vida no seu verdadeiro limite é difícil. Saber que a morte está à espreita, cheia de pressa para avançar, é dificílimo. Hã sempre a ilusão de mais um ano, um mês, um dia. E um intervalo de uma hora sequer, é dentro dela de um tamanho igual ao de um ano ou mais. Nós somos o absoluto do instante em que vivemos. E assim ele não tem dimensões. De todo o modo acabei o romance. E isso é agora a ameaça da sua publicação e da selva espinhosa a atravessar aí. A paz, a paz. Que ela venha, enfim. E com ela ou para ela o equilíbrio de mim, da minha cabeça, dos meus nervos, de toda a minha convulsão interior. Neste mesmo instante – a ameaça de entrar em perda de consciência. Paremos. 

2 de Fevereiro [1966]

Como é natural, as opiniões divergem a respeito da Imitação dos Dias. O Augusto Abelaira insiste em considera-lo o meu melhor livro de prosa. O que não coincide com a reacção expressa pelo Mário Dionísio, menos favorável.
Este tem-no como uma espécie de continuação de A Memória das Palavras em forma de diário, com coisas muito bonitas.
Mas…
Quanto ao público, ainda me parece cedo para saber. Nem me quero iludir com alguns depoimentos apressados – sobretudo de mulheres. 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

1 de Fevereiro [1966]

Há certas paixões que não entendo, nunca entendi, neste jogo de forças internacionais: ser americanófilo, russófilo, anglófilo, germanófilo, francófilo…
Socialista ou não-socialista, eis a questão. O resto é disfarce para tudo continuar na mesma. 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

31 de Janeiro de 1966

Hoje, 31 de Janeiro, os Portugueses continuam incapazes de pôr as almas em movimento até aos sonhos. (Que sonhos?)
Todos deitados, à espera que caiam frutos de árvores por semear. 

31 de Janeiro de 1978

• Tenho horas e mesmo dias em que me sinto pronto para todos os ascetismos – e outros em que me julgo capaz de todos os desregramentos imagináveis. 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

30 de Janeiro de 1966

Para que disfarçar? Senti uma alegria feroz quando o Mussolini caiu.
Desde os 20 anos que me perseguia como uma obsessão de mão levantada.
Caiu como merecia – obscuramente, sem grandeza. A grandeza é só para os grandes. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

29 de Janeiro de 1966

Queres ser ditador? Habitua-te, antes de tudo, ao silêncio. Ao terrível silêncio das coisas, dos bichos e dos gritos dos homens nas cadeias…
E aos ecos que repetirão as tuas palavras nas cavernas nocturnas – com lábios de lágrimas. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

28 de Janeiro de 1966

Como convencer as multidões de que é preciso lutar (sem esperança de resultados mais próximos) para os homens que nascerão daqui a cem anos? 

domingo, 27 de janeiro de 2013

27 de Janeiro de 1966

As hipóteses que eu aceito (quando me surgirão outras mais justas e possíveis?) têm este defeito para a maioria dos homens: não transformam o mundo por milagre. Os impacientes não as admitem porque querem as modificações já e depressa. Outros simulam impaciência para gozarem sem remorsos (e até justificarem) o que existe – movimento ético aliás desnecessário.
A Ordem que encontramos, quando nascemos, até parece divina. 

sábado, 26 de janeiro de 2013

DIAS COMUNS de José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira nasceu no Porto a 9 de Julho de 1900. Licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa, exerceu o cargo de cônsul de Portugal na Noruega, de onde voltou em 1930. Regressado a Portugal dedicou-se ao jornalismo e à escrita.
Poeta e ficcionista, é um dos grandes nomes das letras portuguesas.
Faleceu em Lisboa, em 1985.
Proximamente, passarei a transcrever também o 1.º Diário, os DIAS COMUNS - I. PASSOS EFÉMEROS, iniciado em 1 de Outubro de 1965.
Proximamente, será divulgado o sexto e último volume dos Dias Comuns - Memória Possível.

[1968], 22 de novembro

O João José (Cochofel), no Café do Sr. Cunha:
O Namora, o Rebelo, o Palla e Carmo e o David Mourão-Ferreira foram recebidos pelo Marcelo numa entrevista que teve momentos tempestuosos de discussão taco a taco. Sobretudo quando se tratou da Censura – que o Marcelo desculpou com o argumento da sua existência em todos os países do mundo. – Além disso – acrescentou – em Portugal só se censuravam e proibiam obras subversivas ou que ofendessem a moral pública. Nunca por motivos políticos.
A primeira parte da defesa rebateu-a o Namora facilmente com os exemplos óbvios dos nossos parceiros na Nato: Inglaterra, França, etc. Quanto à segunda parte lembrou dois casos: a proibição do livro de Luandino Vieira, que não era subversivo nem amoral, e a de O Barão, adaptação teatral de Sttau Monteiro da novela de Branquinho da Fonseca. “Tenhamos a coragem de dizer que esta última peça foi proibida apenas porque o antigo Presidente do Conselho não gostava do autor.” O Marcelo calou-se, não sem que dissesse primeiro, com acrimónia, que os escritores eram uns seres impossíveis que não cediam a coisa alguma.
“É essa a nossa missão”, responderam. E então, por fim, o Marcelo confidenciou-lhes que não tinha gente que o ajudasse… “Nem para substituir os governadores civis!...” 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

[1968], 14 de novembro

O Redol enviou-me os Avieiros, reescritos recentemente com carinho de querer salvar do naufrágio um sonho velho. Desfolhei-o e, mais uma vez, senti esta verdade dominante na obra de Redol: o amor pelo povo-povo de pele verdadeira e suor real, bem diferente do que nós inventamos para os nossos livros pequeno-burgueses.
Basta ler-lhe uma página para se perceber logo que conviveu intimamente com os camponeses, não se enojou com o cheiro a carne de trabalho das carruagens de 3.ª classe, bebeu pelos copos das tabernas da malta, comeu do mesmo alguidar comum dos ganhões.
Isto é: Redol conhece-os em profundidade suficiente para poder dá-los como ninguém em superfície. Artisticamente falha, claro. Muitas vezes. (Não tem o sortilégio nem o talento literário de um Carlos de Oliveira ou de um Manuel da Fonseca.) E ninguém lhe poupa as fraquezas – como se provou quando lhe negaram o prémio Camilo Castelo Branco ao seu notabilíssimo romance Barranco de Cegos

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

24 de Janeiro de 1978

• «Drupas! Drupas! Drupas!», gritou o mestre exasperado, eriçado, de cabeça perdida, dando pulos e patadas no estrado, e agitando de tal modo os braços molinantes que os punhos postiços de celuloide lhe voaram pela sala fora. (s/d)
• Toma-se-me difícil falar do monstro interior que ora me impele ora me retém e paralisa. (s/d)
• Memória de revistas teatrais da infância: «Ó Senhor dos Navegantes,/ Isto agora é sem razão!/ Vai tudo pior que dantes/ Sem haver concentração!» Decerto a respeito de José Luciano, cacique supremo em cadeira de rodas: morador na Rua dos Navegantes. E esta: «Quem governa aqui! És tu, ó banana,/ Mas quem manda em ti/ É a tia Luciana.» Já então o espírito da criança selecionava os temas de ordem política…
• Este jornal de mais de trinta páginas ultradensas, onde dificilmente se encontra uma peça de autêntica informação, nas mãos de uma reduzida equipa de verdadeiros jornalistas, ficaria reduzido a não mais de quatro ou seis páginas de absorvente e rápida leitura!
• Ouvido também na infância: «Lá está o cuco a cantar: é sinal de vida longa!»
• – Como explica você o seu relativo isolamento?
– Em primeiro lugar só estou isolado na aparência, pois vivo em contacto constante com o nosso mundo através de todos os possíveis média; segundo, pela imposição de um trabalho escrupuloso; terceiro, porque me julgo e sinto de uma humildade extrema, conjugada com um excessivo, intolerável orgulho. 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

23 de Janeiro de 1978

• «Então Vossa Excelência não se envergonha de ser português?» «De modo algum! Tenho até muita honra nisso. Do que eu às vezes me envergonho é de que alguns deles sejam – ou se digam – portugueses!» 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Coimbra, 22 de Janeiro de 1981

– A televisão acaba de transmitir algumas imagens da entrada na Academia Francesa de Marguerite Yourcenar. Às vezes o destino sabe ser correcto. Aquela que, desde as Memórias de Adriano, nunca mais perdeu a majestade sapiente do imperador biografado, merecia, de facto, receber um dia os louros do triunfo num Capitólio das letras. Tão justamente, que, por obra e graça da consagrada, as próprias pompas e insígnias, sempre controversas, assumiram excepcionalmente no acto solene uma dignidade emblemática. Mais do que honrá-la, foi ela que as honrou com a natural legitimidade de quem, nesta hora de negrura ocidental, dá cesáreo e vivo testemunho de milénios de claridade greco-latina. 

domingo, 20 de janeiro de 2013

[1968], 7 de novembro

Ontem, dia de aniversário da Gi Nemésio, lá nos reunimos todos-os-do-costume no 6.º andar da Avenida de Roma. Para só falar de literatos: o Cochofel, o Fafe e o Vitorino Nemésio… Sim, o malandro do Nemésio que, conforme verifiquei com avidez de olhos de inveja, continua a usar uma magnífica cabeleira preta.
– Não pintará o cabelo? – pergunto, insidioso.
– Não, não… – garantem-me.
– Não tem um cabelo branco.
Inclino-me, desconfiado e contrafeito. Como é possível que eu, com a mesma idade, tenha os cabelos totalmente brancos – de lua descida? E ele…
Então, para me confortar, desabafo de mim para mim, com este calorzinho tão consolador da vaidade:
– Pois sim. Mas não sou surdo… Ao passo que o Nemésio é surdo como uma porta dum palácio habitado por fantasmas. 

sábado, 19 de janeiro de 2013

[1968], 5 de novembro

De vez em quando, sangrento de crimes cometidos e por cometer, chamo-me pulha, bandido, miserável, indigno, infame, hediondo… Mas – coisa curiosa! – depois deste jogo de insultos ao espelho, em vez de me sentir envergonhado de tanta miséria podre, fico pelo contrário mais leve, perdoado – como os católicos depois da confissão… Que sou eu, no fim de contas, senão uma espécie de católico agnóstico? 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

[1968], 26 de outubro

Ao passo que vou envelhecendo, vou sentindo cada vez mais a tentação de não aturar padres… Sejam eles medianeiros, fiscais, pregadores de céus velhos ou de mundos novos… Padres religiosos ou ateus… Padres… Bocas de musgo vaidoso. Limitadores de liberdade. (Obsessão.) 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

[1968], 25 de outubro

Nos grupos de amigos acontece muitas vezes que um deles mostra tendência para sacerdote… E insensivelmente passa a influir, por fiscalização involuntária, nas ações e pensamentos dos restantes componentes do grupo. Das formas que conheço de coartar a liberdade, é a que mais odeio, porque se exerce geralmente em nome de um sentimento que não merece caricatura: a fraternidade.
. . .
Uma nota oficiosa da PIDE comunica ao mundo que um estudante preso sob a acusação de pertencer à LUAR morreu… de asma! Digam-me: é possível que alguém acredite que o pobre Daniel Joaquim Campos de Sousa Teixeira, aluno da Universidade Católica de Lovaina, tenha morrido de asma sem o auxílio substancial da tortura do sono?
. . .
Arrepio trágico:
Passaram dois meses sem que ninguém visse os presos da LUAR. Corre com insistência que o Palma, chefe do grupo, apareceu enforcado… 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

[1968], 15 de outubro


Eis a frase que anda na boca de toda a gente a respeito do Marcelo:
– É o administrador da falência.
É uma daquelas gracinhas que toda a gente inventou ao mesmo tempo.
. . .
Contou-me o meu irmão que as misturas com que a Sr.a Maria alimenta o Salazar através dos tubos são feitas com água de Fátima.
Também já lhe levaram para o quarto várias relíquias de santos.
Um certo setor ainda espera o milagre de vê-lo levantar do leito e expulsar os vendilhões da Pátria.