sábado, 19 de janeiro de 2013
[1968], 5 de novembro
De vez em quando, sangrento de
crimes cometidos e por cometer, chamo-me pulha, bandido, miserável, indigno,
infame, hediondo… Mas – coisa curiosa! – depois deste jogo de insultos ao
espelho, em vez de me sentir envergonhado de tanta miséria podre, fico pelo
contrário mais leve, perdoado – como
os católicos depois da confissão… Que sou eu, no fim de contas, senão uma
espécie de católico agnóstico?
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
[1968], 26 de outubro
Ao passo que vou envelhecendo,
vou sentindo cada vez mais a tentação de não aturar padres… Sejam eles
medianeiros, fiscais, pregadores de céus velhos ou de mundos novos… Padres
religiosos ou ateus… Padres… Bocas de musgo vaidoso. Limitadores de liberdade.
(Obsessão.)
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
[1968], 25 de outubro
Nos grupos de amigos acontece
muitas vezes que um deles mostra tendência para sacerdote… E insensivelmente
passa a influir, por fiscalização
involuntária, nas ações e pensamentos dos restantes componentes do grupo.
Das formas que conheço de coartar a liberdade, é a que mais odeio, porque se
exerce geralmente em nome de um sentimento que não merece caricatura: a fraternidade.
.
. .
Uma nota
oficiosa da PIDE comunica ao mundo que um estudante preso sob a acusação de
pertencer à LUAR morreu… de asma! Digam-me: é possível que alguém acredite que
o pobre Daniel Joaquim Campos de Sousa Teixeira, aluno da Universidade Católica
de Lovaina, tenha morrido de asma sem o auxílio substancial da tortura do sono?
.
. .
Arrepio
trágico:
Passaram dois
meses sem que ninguém visse os presos da LUAR. Corre com insistência que o
Palma, chefe do grupo, apareceu enforcado…
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
[1968], 15 de outubro
Eis a frase que anda na boca de
toda a gente a respeito do Marcelo:
– É o
administrador da falência.
É uma
daquelas gracinhas que toda a gente inventou ao mesmo tempo.
.
. .
Contou-me o
meu irmão que as misturas com que a Sr.a Maria alimenta o Salazar através dos
tubos são feitas com água de Fátima.
Também já lhe
levaram para o quarto várias relíquias de santos.
Um certo
setor ainda espera o milagre de vê-lo levantar do leito e expulsar os vendilhões
da Pátria.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
[1968], 29 de setembro
De manhã cedo, através da porta
entreaberta do quarto, surgiu a cabeça metediça da Maria, a informar-nos:
– Afinal, o
velho não morreu… Ouvi agora a Emissora.
Parece que
vendeu mas está em crise…
E fechou o
suspiro com a frase habitual:
– É feito da
pele do diabo!
.
. .
Durante a sua
oposição tática, para se apoderar da Presidência do Conselho assim que o
Salazar morresse, o Marcello foi muitas vezes obrigado a tomar atitudes que possivelmente
no futuro lhe criarão alguns amargos de boca. A extinção da Sociedade Portuguesa
de Escritores, por exemplo, não mereceu a aprovação incondicional do atual Presidente
do Conselho. Chegou até a manifestar-nos a sua solidariedade. O mais teórico
possível, claro. Pois quando lhe pedimos que assinasse o nosso protesto, furtou-se
com um cartão ao David Mourão-Ferreira. Desse cartão recordo-me que constava
esta frase: “Não é com vinagre que se apanham moscas.”
Não. É com gestos
doces. Preparemo-nos, pois, para gramar uma ditadura de açúcar – que acabará
por nos enjoar a todos.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
[1968], 27 de setembro
No Café,
deixei desfiar de pérolas de fumo:
– Apesar de
tudo, custa-me a crer que o Marcelo despreze a grande zona da opinião pública
intelectual e pequeno-burguesa, que se opõe ao regime, e não tente sequer conquista-la
com ilusões. É o único toque que
poderia dar novidade e abertura ao seu consulado…
.
. .
Mas no
discurso inicial pouco tempo perdeu connosco, claro. Nem admira, preocupado com
a vigilância do Argus dos mil olhos dos “ultras”. Falou, sobretudo, para essa
gente desejosa de escutar os chavões tranquilizadores do costume, que ele
utilizou como quem recapitula lugares-comuns necessários: o “génio” do
Moribundo, a continuação da guerra em África, o olho posto nos perturbadores da
retaguarda e a defesa da Ordem pública para gozo das “pessoas honestas”, sem
esquecer a inevitável condenação do comunismo, “sepultura da liberdade dos
Indivíduos”, etc.
E só, em
certa altura, para nos passar um vago sabor a mel na boca, se referiu timidamente
a “algumas liberdades que se desejaria ver restauradas” (portanto, independentemente
suprimidas, ou não?)…
Por enquanto,
a subida ao trono de Marcello Caetano trouxe-nos apenas esta vantagem (e não
pequena, sejamos justos): o desaparecimento de cena do sinistro Paulo
Rodrigues, fascista-nazi de costumes dúbios que, à sombra do ex-primeiro
Ministro meio gágá, e sob o pretexto de defender a retaguarda (talvez para
consolo da própria “retaguarda”), impunha uma censura infame a todas as
manifestações de espírito: teatro, cinema, literatura, jornalismo… Com a
supressão desse bistre, vai poder respirar-se se um pouco mais. Não muito,
talvez. Mas imenso, para quem vivia com os lábios “por lei cosidos na face”.
.
. .
Agora mesmo,
sintonizei por acaso a estação clandestina “Portugal Livre” (oriunda de Praga,
suponho), onde uma rapariga com voz de exaltação quase histérica incitava aos
gritos os portugueses a virem para a rua combater, lutar, morrer, construir
barricadas…
Mas isto é
connosco? – perguntei a mim mesmo, pasmado com esses heroicos revolucionários emigrados
que ignoram o facto comezinho da despolitização geral do nosso povo, que não
quer bater-se por coisa nenhuma.
Liberdade,
sim – mas oferecida numa bandeja. E
mesmo assim com a condição de saber a tirania disfarçada!
domingo, 13 de janeiro de 2013
13 de Janeiro de 1978
• À força de privações, desenganos, frustrações,
perfídias, ciúmes (justificados ou não), ausências e separações prolongadas, e
desigualdades fracassantes, o objecto do amor, a pessoa amada, transforma-se
num ser odiado.
sábado, 12 de janeiro de 2013
1968, 26 de setembro
Hoje, dia histórico.
Às 9.30 da noite o Presidente da
República, com voz aos tropeços nos soluços, anunciou a exoneração do Salazar e
o advento do Marcelo à Presidência do Conselho. E assim o Carmona III nomeou o
Salazar II.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
11 de Janeiro de 1978
• Estes grandes Poetas do Amor, que tu dizes adorar,
passavam o melhor do seu tempo no convívio de meretrizes. Depois, saciados ou
enjoados, iam para casa compor os seus devaneios líricos para o uso de leitoras
(como tu) inocentes ou insatisfeitas. Assim ganharam fama – e bom dinheiro.
• Ao cabo de contas, o orgasmo, hoje tão discutido, é a única compensação gratuita (mas nem sempre!) que a Natureza nos deu para os infinitos sofrimentos que a vida nos inflige. Pode um Deus (que nos dizem criador e pai!) castigar-nos por usufruirmos de tão escasso e efémero prazer? (Palavras de uma freira secularizada.)
• Ao cabo de contas, o orgasmo, hoje tão discutido, é a única compensação gratuita (mas nem sempre!) que a Natureza nos deu para os infinitos sofrimentos que a vida nos inflige. Pode um Deus (que nos dizem criador e pai!) castigar-nos por usufruirmos de tão escasso e efémero prazer? (Palavras de uma freira secularizada.)
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
A RAPOSA E O MENINO
Como sempre o tenho feito,
também este ano vim passar o Natal à aldeia. Costumo dizer, na brincadeira:
para mim, Natal fora da aldeia, não é Natal. Natal é a festa do Menino. Ora foi
aqui que eu fui menino.
Nesses recuados
tempos, Peireses era uma aldeola tão isolada e perdida no mapa, que nunca o Pai
Natal por aqui passou. Também, se passasse, não encontraria nas chaminés, e
eram muitas, um sapatinho para amostra. Todos nós andávamos de tamancos.
Era de tamancos que
íamos beijar o Menino à capela. Aquilo era um estrépito de tamancos nos
taburnos de granito, que até os santos dos altares nos faziam carranca. Só o
Menino, de costas nas palhinhas do presépio, continuava a sorrir o seu eterno
sorriso estereotipado.
–
Bem te percebo, maganão – dizia-lhe eu em
pensamento, enquanto lhe beijava o pezinho rubicundo –, ris-te, porque sabes que os Reis Magos vêm a caminho e te vão encher
de presentes. Bem podias dividir comigo, felizardo. Dizem que vieste para me
remir do pecado. Preferia que tivesses vindo para me dares uns socos novos, que
estes que trago andam nas lonas e já metem água.
A bem pouco se
resumiam as minhas ambições. Mas eu acreditava e era feliz.
Acreditava no
nascimento do Menino, na vinda dos Reis Magos.
Passei horas a olhar
para o céu estrelado, à descoberta da Estrelinha do Oriente. Deve ser por isso
que eu sempre fui um cabeça no ar. É por isso que eu ainda hoje conservo o
hábito de olhar para o céu estrelado.
Assim aconteceu ontem,
noite de Consoada. A ceia foi superabundante, abusei e custou-me a conciliar o
sono. Farto de dar voltas na cama, levantei-me e vim para a janela. Em noites
frias, límpidas e sem lua, o céu de Barroso é um dos mais belos e misteriosos
do universo. Há uns setenta e cinco anos que, nesta quadra natalícia, o observo
atentamente. Pois bem. Nunca vi estrela nenhuma a mover-se pelo firmamento ao
ritmo duma cáfila de dromedários ajoujados de ouro, incenso e mirra. De modo
que, a mítica Estrelinha do Oriente a indicar o caminho de Belém aos Reis
Magos, deve ser fábula.
Cansado do
espectáculo, ia a retirar-me da janela, que vejo eu, rua acima? Uma raposa…
Quedei estupefacto. Teria visto bem? Uma raposa rua acima e nem um latido de
cão, um alvoroço de galináceos nas capoeiras, um tiro de espingarda?
Abri a janela
devagarinho e debrucei-me. Não havia dúvida. Uma raposeta de samarra nova,
lépida, despreocupada, com o ar mais inocente deste mundo, rua acima.
Abanei a cabeça, ainda
tonta do vinho da ceia, pensativo e incrédulo. Irá ela visitar o Menino?
Estarei eu perante um milagre? Será que afinal, esta sempre é a «Noite Santa»,
a «Noite de Paz», a «Noite da Concórdia», não só entre os homens, mas também
entre homens e bichos e entre bichos, homens e Deus?
Apeteceu-me descer à
rua, ir atrás da raposa, pegar nela ao colo, beijá-la, perguntar-lhe se já
tinha ceado, se precisava dalguma coisa. Mas a geada bateu-me em cheio nas
orelhas e obrigou-me a fechar a janela e correr para o leito.
Adormeci feliz, a
cantarolar o «Glória a Deus nas alturas e Paz aos homens e aos bichos na
terra».
Acordei com o sol de
Inverno na vidraça e grande alarido na rua. Fui ver o que era. Uma vizinha a
maldizer a porca da vida: «Oh, gente! Não quereis lá ver? Com a azáfama da
Consoada, esqueci-me de fechar as galinhas. Sabeis o que me aconteceu? Veio a
raposa e levou-mas todas. Vinte e duas! Excomungada! Teve melhor Natal do que
eu… De veneno lhe sirvam!» E chorava desconsoladamente.
Fiquei desiludido.
Afinal, o milagre estava explicado. Ora cebolório!
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II
– Crónicas de Barroso (p. 76 e s.)
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Galáxia esconde 17 mil milhões de planetas do tamanho da Terra
Um estudo divulgado esta semana conclui que uma em cada seis estrelas da nossa galáxia pode ter na sua órbita um planeta do tamanho da Terra, o que quer dizer que podem existir 17 mil milhões de planetas com essa característica.

18:44 - 08 de Janeiro de 2013 | Por Notícias Ao Minuto
Uma pesquisa recente revela que podem existir 17 mil milhões de planetas do mesmo tamanho que a Terra na nossa galáxia.
Os cientistas chegaram a este número graças ao telescópio espacial Kepler, que vigia uma parte fixa do céu desde o seu lançamento, em 2009, captando mais de 150 mil estrelas no seu campo de visão. O equipamento de observação detecta nomeadamente a quase invisível redução na luz de uma estrela, que acontece quando um planeta passa à sua frente.
O astrónomo François Fressin, que descobriu o primeiro planeta do tamanho da Terra através do Kepler, começou a tentar encontrar não só os astros que poderiam ser planetas, mas também quais os planetas que poderiam não ser visíveis ao telescópio.
"Nós apenas vemos os planetas que estão em trânsito com as suas estrelas hospedeiras, que são estrelas que têm um planeta bem alinhado para que nós o vejamos. Para cada um deles, há dezenas que não estão nessas condições", explicou o especialista, citado pela BBC.

18:44 - 08 de Janeiro de 2013 | Por Notícias Ao Minuto
Uma pesquisa recente revela que podem existir 17 mil milhões de planetas do mesmo tamanho que a Terra na nossa galáxia.
Os cientistas chegaram a este número graças ao telescópio espacial Kepler, que vigia uma parte fixa do céu desde o seu lançamento, em 2009, captando mais de 150 mil estrelas no seu campo de visão. O equipamento de observação detecta nomeadamente a quase invisível redução na luz de uma estrela, que acontece quando um planeta passa à sua frente.
O astrónomo François Fressin, que descobriu o primeiro planeta do tamanho da Terra através do Kepler, começou a tentar encontrar não só os astros que poderiam ser planetas, mas também quais os planetas que poderiam não ser visíveis ao telescópio.
"Nós apenas vemos os planetas que estão em trânsito com as suas estrelas hospedeiras, que são estrelas que têm um planeta bem alinhado para que nós o vejamos. Para cada um deles, há dezenas que não estão nessas condições", explicou o especialista, citado pela BBC.
domingo, 6 de janeiro de 2013
6 de Janeiro de 1978
• «Já chove, já neva, já venta, já troveja, já
relampampeja lá para trás da igreja.» (Folclore de Góis, séc. XIX.)
sábado, 5 de janeiro de 2013
BALADA DA NEVE
Datem leve, levemente,
Como quem chama por mim…
Será chuva? Será gente?
Gente não é certamente
E a chuva não bate assim…
É talvez a ventania;
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho…
Quem bate assim levemente,
Com tão estranha leveza
Que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento, com certeza.
Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria…
– Há quanto tempo a não via!
E que saudade, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho…
Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pèzitos de criança…
E descalcinhos, doridos…
A neve deixa inda vê-los
Primeiro bem definidos,
– Depois em sulcos compridos,
Porque não podia erguê-los!…
Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor? !…
Porque padecem assim? !...
E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza…
– E cai no meu coração.
AUGUSTO GIL
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
O VELHO JANDIAS
Durante todo este mês
de Fevereiro os locutores da televisão nos martelaram os ouvidos com a
sugestiva e originalíssima frase: «Está um frio de rachar!»
Rachar o quê? Lenha
para o lume, naturalmente.
De rachar ou não,
durante este mês de Fevereiro, os termómetros desceram aos dez graus negativos
na minha aldeia. Mas sabem lá os senhores da televisão onde fica a minha
aldeia? Conhecem Lisboa, o Porto, a serra da Estrela e pouco mais. E o partidão
que eles têm tirado dos zero graus de Lisboa e arredores para gargantearem
lamentações de Jeremias sobre a desgraça dos velhos que não dispõem de roupa
para o corpo nem lenha para o lume e das crianças que se vêem obrigadas a
frequentar escolas sem aquecimento suficiente.
Que pena no meu tempo
não haver televisão! Estou mesmo a ver os trenos que esses corações sensíveis
não teceriam sobre a desventura dumas criancinhas que percorriam diariamente
vários quilómetros de maus caminhos para frequentarem uma escola, já não digo
sem aquecimento, luxo ao tempo desconhecido, mas sequer uma retrete. Quando a
necessidade apertava, e a professora deixasse, corríamos atrás daquelas paredes
e toca a despachar.
E não me lembro de
algum de nós, e éramos uns quarenta, de ambos os sexos e das quatro classes, se
queixar do frio. Bastava que nos dessem cinco ou dez minutos para correr e
saltar no largo e regressávamos com as pilhas carregadas de calorias para o
resto do dia.
Pudesse eu hoje fazer
o mesmo. Infelizmente não posso. Aí é que os velhos estão em desvantagem.
Quanto às crianças das escolas, deixem-nas correr que elas aquecem.
E a propósito de
velhos e frio, vou contar uma passagem da minha luminosa infância.
Teria eu uns cinco ou
seis anos e frequentava o jardim-escola
do monte atrás das vacas. Um dia fui com elas para Castanheira. Do outro lado
da parede guardava as dele o velho Jandias, de Medeiros, aldeia contígua à
minha. Fazia o tal frio de rachar e
eu cabriolava lameira acima e abaixo, para aquecer. Às tantas fez-me espécie
que o meu colega de pastoreio se mantivesse muito quieto e encolhido de
encontro ao tronco dum carvalho. Aproximei-me. O homem vestia capa de burel já
esgarçada no capuz e nas ombreiras, camisa de estopa a pedir barreta, jaleco e
calças de estamenha com remendos sobrepostos e não usava carpins. Viam-se-lhe
os calcanhares cheios de calosidades e imundícies a sobressaírem duns socos
abertos forrados de palha. Choravam-lhe os olhos e o nariz e todo ele tremia e
matraqueava os dentes como se estivesse com sezões. Assustei-me:
–
Está doente, Ti Jandias?
–
Não. Estou com frio.
–
Porque não dá uma corrida para aquecer?
–
Oh, meu homem! Isso foi tempo… Agora as
pernas já me não permitem floreados desses…
Na altura não
compreendi. Hoje compreendo perfeitamente. Só é pena ser tanto à minha custa…[1]
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II
– Crónicas de Barroso (p. 49 e s.)
[1]
Imitação de Luís de Camões.
«Mas eu de vossos males e
esquivança,
De que agora me vejo bem
vingado,
Não o quisera eu tanto à
vossa custa»
Soneto n.º 177.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
3 de Janeiro de 1978
• Pechisbeque:
Liga de cobre e zinco a imitar o ouro… besouro. Do nome do seu inventor,
Pechinbeck. Roscofe:
Coisa ordinária, de baixa qualidade, talvez do nome Roskov ou Roskob, marca
de relógios baratos. Mas será que bera, igualmente pejorativo (jóias beras,
etc.), deriva do nome dos famosos diamanteiros sul-africanos De Beers?
• Para alguns, a liberdade de expressão, como outra
qualquer, consiste em reprimir ou suprimir, no próximo, a liberdade de expressar
as suas próprias ideias! (s/d)
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
2 de Janeiro de 1978
• «E julga o amigo que poderia haver em Portugal, por
exemplo, um Heinrich Böll?»
«De modo algum. Não só devido à falta, entre nós, de situações e caracteres
apropriados, mas porque, se ele aparecesse, ninguém daria pela sua presença. Ou
seria imediatamente esborrachado pela influência corrosiva, destrutiva, dos
nossos pontífices literários – críticos, professores, académicos,
dicionaristas, fundacionistas… enfim, pelos empenachados Acácios que em todos
os sectores desde há muito nos governam!»
• «Como autênticos anarquistas cristãos – agnósticos,
é claro; ou para precisar melhor: anarco-ético», disse-me o filósofo, pousando
em mim um olhar sereno e grave, «repudiamos a violência seja em que forma e a
que pretexto for. Somos não só contra o Estado, o Governo ou a Autoridade, mas
também contra a Política, os políticos e os Partidos, cuja única finalidade é
conquistar o Poder para o exercerem sobre os outros homens. Por isso não
aspiramos a governar nem temos planos de governação. Embora em graus diversos,
ainda quando nos pareçam úteis ou necessários, todos os governos são maus:
deixando-lhes as respectivas responsabilidades! Representamos aquilo que Alain
chamou L’Homme contre les Pouvoirs.
As nossas armas são a indiferença ou desprezo pelos que governam, o protesto ou
contestação, e nos casos extremos a resistência ou desobediência civil. Mas
nunca o terrorismo, que acaba sempre no crime ou na conversão oportunista. Tal
é a nossa “religião cívica”.» Nisto, acordei a meditar na seriedade e nitidez
de certos sonhos.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Coimbra, 1 de Janeiro de 1981
– São duas da manhã. Acabei o ano velho de caneta
na mão e entro no novo da mesma maneira. O alvoroço festivo lá de fora não
interrompe a escrita. Vai-a pontuando apenas de realidade. Sempre gostei de
sentir o compasso do concreto a pautar-me a grafia. Fico mais seguro no mundo e
mais lembrado de que a prosa e os versos são para ser lidos por gente de carne
e osso, tão carente de comunicação como eu. Sei que a literatura tem vertentes
de solipsismo que levam directamente ao inautêntico e ao ilegível. Por isso,
mesmo nas horas mais egotistas, nunca isolei a alma em torres de marfim. Mas é
bom que a pressão das circunstâncias me ajude nessa perseverança. Sem
referências palpáveis, o homem é um traidor nato à sua própria verdade. E
quantas vezes é pela labilidade do verbo que a traição começa…
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
31 de Dezembro de 1977
• «Vejo então que você admira Samuel Beckett!»
«Adoro-o! E mais do que isso: invejo-o!» «Como assim?» «Porque ele se me
afigura ser o único escritor capaz de vir a escrever a obra de ficção, teatro
ou outro género, sem acção, sem plot,
sem personagens, sem finalidade, e – milagre supremo – sem fazer uso de uma só
palavra! A pura literatura, vamos!»
sábado, 29 de dezembro de 2012
Último Natal
Menino Jesus, que nasces
Quando eu morro,
E trazes a paz
Que não levo,
O poema que te devo
Desde que te aninhei
No entendimento,
E nunca te paguei
A contento
Da devoção,
Mal entoado,
Aqui te fica mais uma vez
Aos pés,
Como um tição
Apagado,
Sem calor que os aqueça.
Com ele me desobrigo e desengano:
És divino, e eu sou humano,
Não há poesia em mim que te mereça.
Diário XVI
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Freixo de Numão, 27 de Dezembro de 1980
Meia-noite. Um largo, um pelourinho, a igreja matriz
e duas janelas solarengas a olhar o luar regelado com olhos ensonados. O meu
álbum da pátria está cheia de instantâneos assim furtivos.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Natal
Natal fora da casa de meu Pai,
Longe da manjedoira onde nasci.
Neve branca também, mas que não cai
Na telha vã da infância que perdi.
Filosofias sobre a eternidade;
Lareiras de salão, civilizadas;
E eu a tremer de frio e de saudade
Por memórias em mim quase apagadas...
Diário VI
domingo, 23 de dezembro de 2012
Natal
Velho Menino-Deus que me vens ver
Quando o ano passou e as dores passaram:
Sim, pedi-te o brinquedo, e queria-o ter,
Mas quando as minhas dores o desejaram...
Agora, outras quimeras me tentaram
Em reinos onde tu não tens poder...
Outras mãos mentirosas me acenaram
A chamar, a mostrar e a prometer...
Vem, apesar de tudo, se queres vir.
Vem com neve nos ombros, a sorrir
A quem nunca doiraste a solidão...
Mas o brinquedo... quebra-o no caminho.
O que eu chorei por ele! Era de arminho
E batia-lhe dentro um coração...
Diário II
Natal
Outro natal,Outra comprida noite
De consoada
Fria,
Vazia,
Bonita só de ser imaginada.
Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve
Recitado
Pela neve
A cair, ao de leve,
No telhado.
TORGA, Miguel, Antologia Poética
Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, médico.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Tablóides…
• E o «aventureirismo» (que palavrão, em vez de aventurismo!) é o
vocábulo escolhido dos que são incapazes de qualquer aventura digna de atenção.
domingo, 16 de dezembro de 2012
Tablóides…
• A expansão da consciência por meio de drogas, uma das scies de que se nutre a mente juvenil
destes dias e sob a qual se oculta a tendência autodestrutiva inerente à mesma,
é o exercício típico dos que não têm consciência e procuram substituí-la por
falsas e enganadoras imagens.
sábado, 15 de dezembro de 2012
Tablóides…
• O antielitismo é o recurso da horda dos que, incapazes de se
distinguir por qualquer criação meritória, se encarniçam contra os que têm algo
de importante a fazer ou a produzir.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Tablóides…
• «Tem havido ultimamente menos funerais importantes, não acha?»
«Bom, é que já nos vão faltando os grandes homens.»
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Tablóides…
• Os erros (irreparáveis?) do passado podem talvez explicar, mas
não podem legitimar, os erros e desvarios do presente. Que eles não nos sirvam,
pois, de pretexto ou escusa!
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Tablóides…
• Estes povos irmãos, ou pelo menos primos co-irmãos que somos – Galegos, Portugueses, Asturianos, Leoneses, velhos e
novos Castelhanos
(Cântabros), Andaluzes, Navarros, Aragoneses, Catalães, e até Bascos (os mais «puros»
herdeiros da antiguidade, e únicos fiéis à língua original); todos
circum-mediterrâneos, neolatinos ou Celtiberos –, conhecemos em
tempos remotos, durante séculos, certa unidade na relativa liberdade e variedade,
quase tendo chegado a realizar o milagre do idioma comum: primeiro, sob o Império (o «jugo»!)
Romano, depois o visigótico,
centrado em Toledo, e, por
fim, sob o tolerante domínio maometano, em boa medida responsável da
fragmentação regional. Aprendemos talvez assim a inestimável lição
democratizante do que é viver de costas para, ou ignorando, o Poder Central,
supostamente ilimitado, mas debilitado pelas distâncias e pela sua origem
alógena. Só a Reconquista chamada «neogótica» ou «cristã», feudalizante e,
portanto, divisionária, viria agravar, cultivar ou inventar os nacionalismos
regionais: mas ainda aqui, quase sempre sob a «monarquia mitigada». Lembre-se
que, ainda então o rei de Leão, em Toledo, era o Emperador..., grata memória dum tempo findo!
Daí, porventura, sobre
ignotos alicerces ancestrais, pré-históricos, o sentimento anarquizante, enraizado, latente ou endémico, de que têm
dado bastas provas as «nações» ibéricas. E não voltaremos nós algum dia a
conhecer essa quase-unidade na fraternidade e na diversidade, sob a forma de
federação ou confederação? Será necessário lembrar que a instituição imperial
romana, a que a Igreja aspirou identificar-se, ressurgiu tentativamente com os Francos, Carlos V, o
Santo Império vienense, Napoleão,
Hitler (ai de nós!), e,
porventura, sob a ideologia pan-soviética? Isso, embora estejamos assistindo
hoje ao ressurgir das aspirações autonomistas regionais – Bretanha, Escócia, Gales, Irlanda, os Flamengos, os povos da Jugoslávia?
Tal
seria, com pormenores comprovativos, o remate da série de artigos «Da Agonia
dos Contrastes» que não levei ao fim devido ao escrúpulo em manifestar a
esperança de que esse novo «Império libertário» viesse algum dia restituir-nos
a criatividade colectiva, peninsular, que nós, Portugueses, perdemos numa
solidão geo-histórica de novecentos anos. E para esse futuro poder, então
parcelarmente exercido pelos próprios naturais, que os nossos corações se
voltam numa prece de esperança.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Tablóides…
• Imagina tu que um amigo da mocidade, hoje médico distinto, me
escrevia há longos anos uma carta que abria assim: «Meu Caro Data Vermibus José!» Desde então só uso «querido», como
os Espanhóis.
(CA(ro)DA(ta)VER(mibus)
= CADÁVER, como é suposto.)
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Tablóides…
• Interrogado sobre o que pensava da América (EUA), ele respondeu: «A
América é como a Mulher: para bem a amar é preciso saber sofrê-la.»
domingo, 9 de dezembro de 2012
Tablóides…
• Creio que foi pela minha mão, em 1930, que a primeira imagem da Senhora de
Fátima deu entrada em Portugal. Ao regressar da Bélgica, e do meu primeiro
ano como bolseiro da Junta
de Educação Nacional, detive-me em Paris de visita (demorada) aos
nossos amigos expatriados (Proença, Sérgio, Cortesão e tantos
outros). Foi então que o escultor João da
Silva, destemido antifascista e livre-pensador, além de cunhado de António
Sérgio, me pediu que trouxesse para aqui um medalhão de gesso do tamanho de uma
roda de carroça com a imagem da milagrosa, que de cá lhe fora encomendada.
Aceitei gostosamente o encargo do amigo, do artista e do correligionário. Ao
chegar a Irun, os carabineiros puseram-me
o problema da entrada em Espanha
de uma obra de arte estrangeira, e exigiram-me o pagamento já não sei de que
taxas aduaneiras. Protestei, naturalmente, e eles chamaram o capitão do posto
para arbitrar o caso. Como ele tomasse o partido dos subordinados – obra de
arte, havia que esportelar! – eu argumentei no meu melhor castelhano que aquela
Benta Imagem de Senhora de Fátima
(ou não sabia ele do Milagre?) era um artigo religioso da minha fé e meu uso
pessoal, e que, todas as noites, eu não podia adormecer sem lhe ter rezado
fervorosamente e de joelhos. «Ah!», disse então o militar, «se é um objecto
pessoal de fé religiosa, então não está sujeito a imposto aduaneiro! Pode
passar!» Fez-me uma continência respeitosa, imitado pelos subordinados, e eu,
tendo correspondido, agarrei na gigantesca roda de gesso, e fui tomar lugar na
carruagem.
sábado, 8 de dezembro de 2012
Tablóides…
• À força de pensar no «estilo», na écriture, na frase, na palavra, no «texto» enfim, não acabaremos
nós pondo o «significante» acima do «significado», quero eu dizer eliminando
este, caindo assim no puro psitacismo, no babillage
infantil, pré-intelectivo? Ou não será tudo isso, apenas, mais uma moda, um
sarampo literário que nos está comichando?
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Tablóides…
• A liberdade, do ponto de vista pessoal ou individual, consiste
sobretudo em uma pessoa não dar pela existência do regime, sistema, partido ou
governo a que está sujeito. Inclusivamente, no direito de os mandar à fava. É
claro, sob a condição de ele, cidadão, não cometer violências, e respeitar os
direitos dos outros como os seus próprios! Em resumo: Que o Governo ou o
Soberano me deixem viver em paz, e se tramem!
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Tablóides…
• Encontro na rua o G., sempre queixoso dos seus múltiplos
sofrimentos, mas sempre bem-humorado: «Como vão esses achaques?» «Ora»,
torna-me ele, «á nem sei se sofro de lumbago ou de l’umbigo!»
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Tablóides…
• Contava-se outrora que Rafael Bordalo
Pinheiro, seriamente doente, se viu condenado pelo seu médico assistente a
um regime rigoroso. Já o Esculápio
ia a sair: «Ó doutor!», diz-lhe Bordalo, e o clínico voltou atrás: «Então o senhor
tira-me a bebida e o cigarro, proíbe-me as comidas de que eu gosto, priva-me do
amor – e só me deixa ficar a bronquite? Porque é que não ma tira também?» A um
conhecido meu, em estado comatoso, proibiu o médico todos os abusos. Diz-lhe o
doente: «Não, doutor, lá do vinho, do cigarro e do café não me livra o senhor,
nem a mão de Deus Padre Todo-Poderoso! Os seus remédios não me curam. Então
para que agravar a doença com tantas privações?»
Continuou
a beber, a fumar, e a tomar café. Seis meses depois estava curado. «Parece
coisa de milagre!», diz o médico assombrado. E o doente: «Não, doutor! O
milagre foi eu não ter seguido à risca os seus conselhos!»
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Coimbra, 4 de Dezembro de 1980
A
História é uma paixão dos homens e uma ironia dos deuses. Sendo vivida por nós,
parece feita por eles. Quanto mais nos obstinamos em tomá-la o espelho dos
nossos triunfos, mais não sei que ocultos desígnios capricham em reduzi-la a
uma aventura absurda. Porque, ao fim e ao cabo, sempre que nela floresce a
esperança, frutifica a desilusão. Arena inglória onde a vida e a morte se
confrontam a toda a hora, o sangue que a mancha nem sequer tem sentido.
Inocente ou culpado, mitiga apenas a sede insaciável e vã da fatalidade.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Coimbra, 3 de Dezembro de 1980
– A
conversa foi longa e enrodilhada. Um dizia, o outro respondia, e o rio de
palavras ia correndo sem chegar a nenhuma foz. Até que de repente surgiu na
escuridão do diálogo a luz de uma síntese que satisfez os dois:
– O homem,
quando toca uma mulher, sente-se pecador; a mulher, quando é tocada, sente-se
salva.
domingo, 2 de dezembro de 2012
É PROIBIDO APONTAR
Domingo de manhã… À mesa do café quase deserto, o sujeito – lunetas
de prudente funcionário da Fazenda – conversa com a menina, sete anos pálidos e
tímidos. Tirante o caminho monótono da escola particular para ambos os sexos onde
definha, aí num triste primeiro andar ao Bairro Camões, a menina goza apenas,
vê-se à primeira vista, do privilégio de um passeio hebdomadário
à Baixa. Observo-os do meu recanto pouco confortável (estas cadeiras de pau!),
e posso imaginar o interior duma existência modesta, que se aguenta à custa de
alfinetes em todas as costuras.
Conversam. E nisto a menina aponta para fora, para a estátua
do Libertador, para o sol distante, as pombas da praça, talvez para uma janela
onde qualquer coisa lhe atraiu a atenção: e a mão lívida, burocrática, pergaminácea
do cidadão-papá estende-se num jeito de polvo a abaixar severamente o dedinho
indiscreto. É proibido apontar!
O funcionário olha em redor, através das lunetas
desconfiadas de azul, não tenha alguém reparado no gesto da filha (ou no
dele?).
Era eu pequeno, para reprimirem em mim uma espontânea e
justiceira tendência acusadora, o desejo de inquirir sem reservas, apontando, ensinaram-me
que em certa igreja, ao erguer o dedo para um santo em seu nicho, ficara um homem
com a mão sacrílega cortada resvés. Apontar é pecado, é tabu!
Até que ponto terá esta proibição geral destruído em mim as
curiosidades naturais, o desejo de saber de fonte directa, e de acusar sem rebuço,
forçando-me a uma atitude hipócrita de indiferença? Os meus dedos ficaram para
sempre anquilosados, perderam a agilidade necessária para trespassar
indiscretamente as pessoas e os factos que a minha consciência interroga ou
condena. E no entanto, o homem que aponta assume a responsabilidade do seu
gesto: porque há sempre na sombra da noite que nos envolve um cutelo pronto a cortar, como ao
outro no templo, a mão que se ergue a inquirir, a acusar, a denunciar.
É de crer que a madre Eva tenha tentado Adão apontando-lhe
candidamente os proibidos pomos da árvore da Sabedoria. Apontar um deus é
destruí-lo. Os Hebreus não
podem sequer erguer os olhos para o santo-dos-santos, não
podem apontá-lo nem a olho. Apontar é um gesto revolucionário. Foi também
apontando que Judas
Iscariotes mostrou o Cristo,
na noite mais que todas amarga, para o denunciar. No entanto, esse gesto, que
valeu a morte e, na boa vontade de alguns simples, a ressurreição dum
santo homem transbordante de imagens parabólicas
e herméticas,
foi o início de uma revolução nas ideias morais e religiosas, e recaiu sobre o
próprio Judas, que se enforcou. E nós temos de aceitar esta conclusão cruel: o homem que
anuncia a Verdade, melhor e
mais concisamente do que o fizera o Baptista, e a aponta
com o seu dedo adunco
e sujo de pobre sem eira nem beira, sequioso de alguns dinheiros; o homem que
propõe ao mundo, com o espectáculo de uma vulgar traição, o seu Deus mais humano e popular – paga
com língua de
palmo, numa figueira, a coragem de ter paraninfado a
nascença da divindade! Judas apontou e pagou caro o seu gesto criador. O mundo continua povoado de
símbolos e de contradições.
Os papás costumam punir os meninos que, à mesa, quando se
pergunta: «Quem comeu a compota
que estava na despensa?» – respondem vigorosamente, virando o dedinho rosado e
severo sobre o culpado: «Foi o Nené!»
Como é sabido, só nos grandes apertos, ou sonhando em voz
alta, os culpados dizem suas culpas; ou quando lhes convém, por exemplo para
salvar a alma pela absolvição.
De modo que, com os dedinhos contraídos e as orelhas ainda rubras da memória
de algum remoto puxão, os meninos feitos homens, mesmo sendo altas coisas neste
mundo, nunca mais se atrevem a dizer «Foi o Nené!», quando, nas assembleias, consistórios,
conselhos, tribunais, comandos ou parlamentos, alguém se ergue indignado a
indagar quem foi que comeu a compota que estava guardada na despensa do cofre ou do
orçamento.
De resto, o silêncio, se nem sempre é de oiro, é pelo menos
de papel-moeda ou títulos cotados. E quem o guarda não corre o perigo de ficar
sem dedo – ou sem anéis, que importam mais.
(Seara
Nova, 1928)
sábado, 1 de dezembro de 2012
Tablóides…
• Chegava a casa pontualmente todos os dias, às sete, para jantar,
conforme a promessa da esposa. Mas esta fazia-o esperar sempre quinze a vinte
minutos. De que se há-de ele lembrar? Aproveitou a demora para escrever um
livro, que publicou com esta dedicatória: «A minha querida mulher, sem cuja
impontualidade eu não poderia ter escrito esta obra.»
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