sábado, 19 de janeiro de 2013

[1968], 5 de novembro

De vez em quando, sangrento de crimes cometidos e por cometer, chamo-me pulha, bandido, miserável, indigno, infame, hediondo… Mas – coisa curiosa! – depois deste jogo de insultos ao espelho, em vez de me sentir envergonhado de tanta miséria podre, fico pelo contrário mais leve, perdoado – como os católicos depois da confissão… Que sou eu, no fim de contas, senão uma espécie de católico agnóstico? 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

[1968], 26 de outubro

Ao passo que vou envelhecendo, vou sentindo cada vez mais a tentação de não aturar padres… Sejam eles medianeiros, fiscais, pregadores de céus velhos ou de mundos novos… Padres religiosos ou ateus… Padres… Bocas de musgo vaidoso. Limitadores de liberdade. (Obsessão.) 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

[1968], 25 de outubro

Nos grupos de amigos acontece muitas vezes que um deles mostra tendência para sacerdote… E insensivelmente passa a influir, por fiscalização involuntária, nas ações e pensamentos dos restantes componentes do grupo. Das formas que conheço de coartar a liberdade, é a que mais odeio, porque se exerce geralmente em nome de um sentimento que não merece caricatura: a fraternidade.
. . .
Uma nota oficiosa da PIDE comunica ao mundo que um estudante preso sob a acusação de pertencer à LUAR morreu… de asma! Digam-me: é possível que alguém acredite que o pobre Daniel Joaquim Campos de Sousa Teixeira, aluno da Universidade Católica de Lovaina, tenha morrido de asma sem o auxílio substancial da tortura do sono?
. . .
Arrepio trágico:
Passaram dois meses sem que ninguém visse os presos da LUAR. Corre com insistência que o Palma, chefe do grupo, apareceu enforcado… 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

[1968], 15 de outubro


Eis a frase que anda na boca de toda a gente a respeito do Marcelo:
– É o administrador da falência.
É uma daquelas gracinhas que toda a gente inventou ao mesmo tempo.
. . .
Contou-me o meu irmão que as misturas com que a Sr.a Maria alimenta o Salazar através dos tubos são feitas com água de Fátima.
Também já lhe levaram para o quarto várias relíquias de santos.
Um certo setor ainda espera o milagre de vê-lo levantar do leito e expulsar os vendilhões da Pátria. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

[1968], 29 de setembro

De manhã cedo, através da porta entreaberta do quarto, surgiu a cabeça metediça da Maria, a informar-nos:
– Afinal, o velho não morreu… Ouvi agora a Emissora.
Parece que vendeu mas está em crise…
E fechou o suspiro com a frase habitual:
– É feito da pele do diabo!
. . .
Durante a sua oposição tática, para se apoderar da Presidência do Conselho assim que o Salazar morresse, o Marcello foi muitas vezes obrigado a tomar atitudes que possivelmente no futuro lhe criarão alguns amargos de boca. A extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores, por exemplo, não mereceu a aprovação incondicional do atual Presidente do Conselho. Chegou até a manifestar-nos a sua solidariedade. O mais teórico possível, claro. Pois quando lhe pedimos que assinasse o nosso protesto, furtou-se com um cartão ao David Mourão-Ferreira. Desse cartão recordo-me que constava esta frase: “Não é com vinagre que se apanham moscas.”
Não. É com gestos doces. Preparemo-nos, pois, para gramar uma ditadura de açúcar – que acabará por nos enjoar a todos. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

[1968], 27 de setembro

No Café, deixei desfiar de pérolas de fumo:
– Apesar de tudo, custa-me a crer que o Marcelo despreze a grande zona da opinião pública intelectual e pequeno-burguesa, que se opõe ao regime, e não tente sequer conquista-la com ilusões. É o único toque que poderia dar novidade e abertura ao seu consulado…
. . .
Mas no discurso inicial pouco tempo perdeu connosco, claro. Nem admira, preocupado com a vigilância do Argus dos mil olhos dos “ultras”. Falou, sobretudo, para essa gente desejosa de escutar os chavões tranquilizadores do costume, que ele utilizou como quem recapitula lugares-comuns necessários: o “génio” do Moribundo, a continuação da guerra em África, o olho posto nos perturbadores da retaguarda e a defesa da Ordem pública para gozo das “pessoas honestas”, sem esquecer a inevitável condenação do comunismo, “sepultura da liberdade dos Indivíduos”, etc.
E só, em certa altura, para nos passar um vago sabor a mel na boca, se referiu timidamente a “algumas liberdades que se desejaria ver restauradas” (portanto, independentemente suprimidas, ou não?)…
Por enquanto, a subida ao trono de Marcello Caetano trouxe-nos apenas esta vantagem (e não pequena, sejamos justos): o desaparecimento de cena do sinistro Paulo Rodrigues, fascista-nazi de costumes dúbios que, à sombra do ex-primeiro Ministro meio gágá, e sob o pretexto de defender a retaguarda (talvez para consolo da própria “retaguarda”), impunha uma censura infame a todas as manifestações de espírito: teatro, cinema, literatura, jornalismo… Com a supressão desse bistre, vai poder respirar-se se um pouco mais. Não muito, talvez. Mas imenso, para quem vivia com os lábios “por lei cosidos na face”.
. . .
Agora mesmo, sintonizei por acaso a estação clandestina “Portugal Livre” (oriunda de Praga, suponho), onde uma rapariga com voz de exaltação quase histérica incitava aos gritos os portugueses a virem para a rua combater, lutar, morrer, construir barricadas…
Mas isto é connosco? – perguntei a mim mesmo, pasmado com esses heroicos revolucionários emigrados que ignoram o facto comezinho da despolitização geral do nosso povo, que não quer bater-se por coisa nenhuma.
Liberdade, sim – mas oferecida numa bandeja. E mesmo assim com a condição de saber a tirania disfarçada!

domingo, 13 de janeiro de 2013

13 de Janeiro de 1978

• À força de privações, desenganos, frustrações, perfídias, ciúmes (justificados ou não), ausências e separações prolongadas, e desigualdades fracassantes, o objecto do amor, a pessoa amada, transforma-se num ser odiado. 

sábado, 12 de janeiro de 2013

1968, 26 de setembro

Hoje, dia histórico.
Às 9.30 da noite o Presidente da República, com voz aos tropeços nos soluços, anunciou a exoneração do Salazar e o advento do Marcelo à Presidência do Conselho. E assim o Carmona III nomeou o Salazar II.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

11 de Janeiro de 1978

• Estes grandes Poetas do Amor, que tu dizes adorar, passavam o melhor do seu tempo no convívio de meretrizes. Depois, saciados ou enjoados, iam para casa compor os seus devaneios líricos para o uso de leitoras (como tu) inocentes ou insatisfeitas. Assim ganharam fama – e bom dinheiro.

• Ao cabo de contas, o orgasmo, hoje tão discutido, é a única compensação gratuita (mas nem sempre!) que a Natureza nos deu para os infinitos sofrimentos que a vida nos inflige. Pode um Deus (que nos dizem criador e pai!) castigar-nos por usufruirmos de tão escasso e efémero prazer? (Palavras de uma freira secularizada.) 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A RAPOSA E O MENINO


Como sempre o tenho feito, também este ano vim passar o Natal à aldeia. Costumo dizer, na brincadeira: para mim, Natal fora da aldeia, não é Natal. Natal é a festa do Menino. Ora foi aqui que eu fui menino.
Nesses recuados tempos, Peireses era uma aldeola tão isolada e perdida no mapa, que nunca o Pai Natal por aqui passou. Também, se passasse, não encontraria nas chaminés, e eram muitas, um sapatinho para amostra. Todos nós andávamos de tamancos.
Era de tamancos que íamos beijar o Menino à capela. Aquilo era um estrépito de tamancos nos taburnos de granito, que até os santos dos altares nos faziam carranca. Só o Menino, de costas nas palhinhas do presépio, continuava a sorrir o seu eterno sorriso estereotipado.
Bem te percebo, maganão – dizia-lhe eu em pensamento, enquanto lhe beijava o pezinho rubicundo , ris-te, porque sabes que os Reis Magos vêm a caminho e te vão encher de presentes. Bem podias dividir comigo, felizardo. Dizem que vieste para me remir do pecado. Preferia que tivesses vindo para me dares uns socos novos, que estes que trago andam nas lonas e já metem água.
A bem pouco se resumiam as minhas ambições. Mas eu acreditava e era feliz.
Acreditava no nascimento do Menino, na vinda dos Reis Magos.
Passei horas a olhar para o céu estrelado, à descoberta da Estrelinha do Oriente. Deve ser por isso que eu sempre fui um cabeça no ar. É por isso que eu ainda hoje conservo o hábito de olhar para o céu estrelado.
Assim aconteceu ontem, noite de Consoada. A ceia foi superabundante, abusei e custou-me a conciliar o sono. Farto de dar voltas na cama, levantei-me e vim para a janela. Em noites frias, límpidas e sem lua, o céu de Barroso é um dos mais belos e misteriosos do universo. Há uns setenta e cinco anos que, nesta quadra natalícia, o observo atentamente. Pois bem. Nunca vi estrela nenhuma a mover-se pelo firmamento ao ritmo duma cáfila de dromedários ajoujados de ouro, incenso e mirra. De modo que, a mítica Estrelinha do Oriente a indicar o caminho de Belém aos Reis Magos, deve ser fábula.
Cansado do espectáculo, ia a retirar-me da janela, que vejo eu, rua acima? Uma raposa… Quedei estupefacto. Teria visto bem? Uma raposa rua acima e nem um latido de cão, um alvoroço de galináceos nas capoeiras, um tiro de espingarda?
Abri a janela devagarinho e debrucei-me. Não havia dúvida. Uma raposeta de samarra nova, lépida, despreocupada, com o ar mais inocente deste mundo, rua acima.
Abanei a cabeça, ainda tonta do vinho da ceia, pensativo e incrédulo. Irá ela visitar o Menino? Estarei eu perante um milagre? Será que afinal, esta sempre é a «Noite Santa», a «Noite de Paz», a «Noite da Concórdia», não só entre os homens, mas também entre homens e bichos e entre bichos, homens e Deus?
Apeteceu-me descer à rua, ir atrás da raposa, pegar nela ao colo, beijá-la, perguntar-lhe se já tinha ceado, se precisava dalguma coisa. Mas a geada bateu-me em cheio nas orelhas e obrigou-me a fechar a janela e correr para o leito.
Adormeci feliz, a cantarolar o «Glória a Deus nas alturas e Paz aos homens e aos bichos na terra».
Acordei com o sol de Inverno na vidraça e grande alarido na rua. Fui ver o que era. Uma vizinha a maldizer a porca da vida: «Oh, gente! Não quereis lá ver? Com a azáfama da Consoada, esqueci-me de fechar as galinhas. Sabeis o que me aconteceu? Veio a raposa e levou-mas todas. Vinte e duas! Excomungada! Teve melhor Natal do que eu… De veneno lhe sirvam!» E chorava desconsoladamente.
Fiquei desiludido. Afinal, o milagre estava explicado. Ora cebolório!
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 76 e s.)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Galáxia esconde 17 mil milhões de planetas do tamanho da Terra

Um estudo divulgado esta semana conclui que uma em cada seis estrelas da nossa galáxia pode ter na sua órbita um planeta do tamanho da Terra, o que quer dizer que podem existir 17 mil milhões de planetas com essa característica.

18:44 - 08 de Janeiro de 2013 | Por Notícias Ao Minuto

Uma pesquisa recente revela que podem existir 17 mil milhões de planetas do mesmo tamanho que a Terra na nossa galáxia.

Os cientistas chegaram a este número graças ao telescópio espacial Kepler, que vigia uma parte fixa do céu desde o seu lançamento, em 2009, captando mais de 150 mil estrelas no seu campo de visão. O equipamento de observação detecta nomeadamente a quase invisível redução na luz de uma estrela, que acontece quando um planeta passa à sua frente.

O astrónomo François Fressin, que descobriu o primeiro planeta do tamanho da Terra através do Kepler, começou a tentar encontrar não só os astros que poderiam ser planetas, mas também quais os planetas que poderiam não ser visíveis ao telescópio.

"Nós apenas vemos os planetas que estão em trânsito com as suas estrelas hospedeiras, que são estrelas que têm um planeta bem alinhado para que nós o vejamos. Para cada um deles, há dezenas que não estão nessas condições", explicou o especialista, citado pela BBC.

domingo, 6 de janeiro de 2013

6 de Janeiro de 1978

• «Já chove, já neva, já venta, já troveja, já relampampeja lá para trás da igreja.» (Folclore de Góis, séc. XIX.) 

sábado, 5 de janeiro de 2013

BALADA DA NEVE


Datem leve, levemente,
Como quem chama por mim…
Será chuva? Será gente?
Gente não é certamente
E a chuva não bate assim…

É talvez a ventania;
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho…

Quem bate assim levemente,
Com tão estranha leveza
Que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento, com certeza.

Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria…
–  Há quanto tempo a não via!
E que saudade, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pèzitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
A neve deixa inda vê-los
Primeiro bem definidos,
–  Depois em sulcos compridos,
Porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor? !…
Porque padecem assim? !...

E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza…
–  E cai no meu coração.


AUGUSTO GIL

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O VELHO JANDIAS


Durante todo este mês de Fevereiro os locutores da televisão nos martelaram os ouvidos com a sugestiva e originalíssima frase: «Está um frio de rachar!»
Rachar o quê? Lenha para o lume, naturalmente.
De rachar ou não, durante este mês de Fevereiro, os termómetros desceram aos dez graus negativos na minha aldeia. Mas sabem lá os senhores da televisão onde fica a minha aldeia? Conhecem Lisboa, o Porto, a serra da Estrela e pouco mais. E o partidão que eles têm tirado dos zero graus de Lisboa e arredores para gargantearem lamentações de Jeremias sobre a desgraça dos velhos que não dispõem de roupa para o corpo nem lenha para o lume e das crianças que se vêem obrigadas a frequentar escolas sem aquecimento suficiente.
Que pena no meu tempo não haver televisão! Estou mesmo a ver os trenos que esses corações sensíveis não teceriam sobre a desventura dumas criancinhas que percorriam diariamente vários quilómetros de maus caminhos para frequentarem uma escola, já não digo sem aquecimento, luxo ao tempo desconhecido, mas sequer uma retrete. Quando a necessidade apertava, e a professora deixasse, corríamos atrás daquelas paredes e toca a despachar.
E não me lembro de algum de nós, e éramos uns quarenta, de ambos os sexos e das quatro classes, se queixar do frio. Bastava que nos dessem cinco ou dez minutos para correr e saltar no largo e regressávamos com as pilhas carregadas de calorias para o resto do dia.
Pudesse eu hoje fazer o mesmo. Infelizmente não posso. Aí é que os velhos estão em desvantagem. Quanto às crianças das escolas, deixem-nas correr que elas aquecem.
E a propósito de velhos e frio, vou contar uma passagem da minha luminosa infância.
Teria eu uns cinco ou seis anos e frequentava o jardim-escola do monte atrás das vacas. Um dia fui com elas para Castanheira. Do outro lado da parede guardava as dele o velho Jandias, de Medeiros, aldeia contígua à minha. Fazia o tal frio de rachar e eu cabriolava lameira acima e abaixo, para aquecer. Às tantas fez-me espécie que o meu colega de pastoreio se mantivesse muito quieto e encolhido de encontro ao tronco dum carvalho. Aproximei-me. O homem vestia capa de burel já esgarçada no capuz e nas ombreiras, camisa de estopa a pedir barreta, jaleco e calças de estamenha com remendos sobrepostos e não usava carpins. Viam-se-lhe os calcanhares cheios de calosidades e imundícies a sobressaírem duns socos abertos forrados de palha. Choravam-lhe os olhos e o nariz e todo ele tremia e matraqueava os dentes como se estivesse com sezões. Assustei-me:
Está doente, Ti Jandias?
Não. Estou com frio.
Porque não dá uma corrida para aquecer?
Oh, meu homem! Isso foi tempo… Agora as pernas já me não permitem floreados desses…
Na altura não compreendi. Hoje compreendo perfeitamente. Só é pena ser tanto à minha custa…[1]
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 49 e s.)


[1] Imitação de Luís de Camões.
«Mas eu de vossos males e esquivança,
De que agora me vejo bem vingado,
Não o quisera eu tanto à vossa custa»
       Soneto n.º 177.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

3 de Janeiro de 1978

Pechisbeque: Liga de cobre e zinco a imitar o ouro… besouro. Do nome do seu inventor, Pechinbeck. Roscofe: Coisa ordinária, de baixa qualidade, talvez do nome Roskov ou Roskob, marca de relógios baratos. Mas será que bera, igualmente pejorativo (jóias beras, etc.), deriva do nome dos famosos diamanteiros sul-africanos De Beers


• Para alguns, a liberdade de expressão, como outra qualquer, consiste em reprimir ou suprimir, no próximo, a liberdade de expressar as suas próprias ideias! (s/d) 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

2 de Janeiro de 1978

• «E julga o amigo que poderia haver em Portugal, por exemplo, um Heinrich Böll?» «De modo algum. Não só devido à falta, entre nós, de situações e caracteres apropriados, mas porque, se ele aparecesse, ninguém daria pela sua presença. Ou seria imediatamente esborrachado pela influência corrosiva, destrutiva, dos nossos pontífices literários – críticos, professores, académicos, dicionaristas, fundacionistas… enfim, pelos empenachados Acácios que em todos os sectores desde há muito nos governam!»
• «Como autênticos anarquistas cristãos – agnósticos, é claro; ou para precisar melhor: anarco-ético», disse-me o filósofo, pousando em mim um olhar sereno e grave, «repudiamos a violência seja em que forma e a que pretexto for. Somos não só contra o Estado, o Governo ou a Autoridade, mas também contra a Política, os políticos e os Partidos, cuja única finalidade é conquistar o Poder para o exercerem sobre os outros homens. Por isso não aspiramos a governar nem temos planos de governação. Embora em graus diversos, ainda quando nos pareçam úteis ou necessários, todos os governos são maus: deixando-lhes as respectivas responsabilidades! Representamos aquilo que Alain chamou L’Homme contre les Pouvoirs. As nossas armas são a indiferença ou desprezo pelos que governam, o protesto ou contestação, e nos casos extremos a resistência ou desobediência civil. Mas nunca o terrorismo, que acaba sempre no crime ou na conversão oportunista. Tal é a nossa “religião cívica”.» Nisto, acordei a meditar na seriedade e nitidez de certos sonhos. 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Coimbra, 1 de Janeiro de 1981

– São duas da manhã. Acabei o ano velho de caneta na mão e entro no novo da mesma maneira. O alvoroço festivo lá de fora não interrompe a escrita. Vai-a pontuando apenas de realidade. Sempre gostei de sentir o compasso do concreto a pautar-me a grafia. Fico mais seguro no mundo e mais lembrado de que a prosa e os versos são para ser lidos por gente de carne e osso, tão carente de comunicação como eu. Sei que a literatura tem vertentes de solipsismo que levam directamente ao inautêntico e ao ilegível. Por isso, mesmo nas horas mais egotistas, nunca isolei a alma em torres de marfim. Mas é bom que a pressão das circunstâncias me ajude nessa perseverança. Sem referências palpáveis, o homem é um traidor nato à sua própria verdade. E quantas vezes é pela labilidade do verbo que a traição começa… 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

31 de Dezembro de 1977

«Vejo então que você admira Samuel Beckett!» «Adoro-o! E mais do que isso: invejo-o!» «Como assim?» «Porque ele se me afigura ser o único escritor capaz de vir a escrever a obra de ficção, teatro ou outro género, sem acção, sem plot, sem personagens, sem finalidade, e – milagre supremo – sem fazer uso de uma só palavra! A pura literatura, vamos!» 

sábado, 29 de dezembro de 2012

Último Natal


Menino Jesus, que nasces
Quando eu morro,
E trazes a paz
Que não levo,
O poema que te devo
Desde que te aninhei
No entendimento,
E nunca te paguei
A contento
Da devoção,
Mal entoado,
Aqui te fica mais uma vez
Aos pés,
Como um tição
Apagado,
Sem calor que os aqueça.
Com ele me desobrigo e desengano:
És divino, e eu sou humano,
Não há poesia em mim que te mereça.

Diário XVI

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Freixo de Numão, 27 de Dezembro de 1980

Meia-noite. Um largo, um pelourinho, a igreja matriz e duas janelas solarengas a olhar o luar regelado com olhos ensonados. O meu álbum da pátria está cheia de instantâneos assim furtivos. 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Natal


Natal fora da casa de meu Pai,
Longe da manjedoira onde nasci.
Neve branca também, mas que não cai
Na telha vã da infância que perdi.

Filosofias sobre a eternidade;
Lareiras de salão, civilizadas;
E eu a tremer de frio e de saudade
Por memórias em mim quase apagadas...

Diário VI

domingo, 23 de dezembro de 2012

Natal


Velho Menino-Deus que me vens ver
Quando o ano passou e as dores passaram:
Sim, pedi-te o brinquedo, e queria-o ter,
Mas quando as minhas dores o desejaram...

Agora, outras quimeras me tentaram
Em reinos onde tu não tens poder...
Outras mãos mentirosas me acenaram
A chamar, a mostrar e a prometer...

Vem, apesar de tudo, se queres vir.
Vem com neve nos ombros, a sorrir
A quem nunca doiraste a solidão...

Mas o brinquedo... quebra-o no caminho.
O que eu chorei por ele! Era de arminho
E batia-lhe dentro um coração...

Diário II

Natal

Outro natal,
Outra comprida noite
De consoada
Fria,
Vazia,
Bonita só de ser imaginada.
Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve
Recitado
Pela neve
A cair, ao de leve,
No telhado.

TORGA, Miguel, Antologia Poética


Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995)
Pseudónimo de Adolfo Correia Rocha.
Um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, médico.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Tablóides…

E o «aventureirismo» (que palavrão, em vez de aventurismo!) é o vocábulo escolhido dos que são incapazes de qualquer aventura digna de atenção. 

domingo, 16 de dezembro de 2012

Tablóides…

A expansão da consciência por meio de drogas, uma das scies de que se nutre a mente juvenil destes dias e sob a qual se oculta a tendência autodestrutiva inerente à mesma, é o exercício típico dos que não têm consciência e procuram substituí-la por falsas e enganadoras imagens. 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Tablóides…

O antielitismo é o recurso da horda dos que, incapazes de se distinguir por qualquer criação meritória, se encarniçam contra os que têm algo de importante a fazer ou a produzir. 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Tablóides…

«Tem havido ultimamente menos funerais importantes, não acha?» «Bom, é que já nos vão faltando os grandes homens.»    

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Tablóides…

Os erros (irreparáveis?) do passado podem talvez explicar, mas não podem legitimar, os erros e desvarios do presente. Que eles não nos sirvam, pois, de pretexto ou escusa! 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Tablóides…

Estes povos irmãos, ou pelo menos primos co-irmãos que somos – Galegos, Portugueses, Asturianos, Leoneses, velhos e novos Castelhanos (Cântabros), Andaluzes, Navarros, Aragoneses, Catalães, e até Bascos (os mais «puros» herdeiros da antiguidade, e únicos fiéis à língua original); todos circum-mediterrâneos, neolatinos ou Celtiberos –, conhecemos em tempos remotos, durante séculos, certa unidade na relativa liberdade e variedade, quase tendo chegado a realizar o milagre do idioma comum: primeiro, sob o Império (o «jugo»!) Romano, depois o visigótico, centrado em Toledo, e, por fim, sob o tolerante domínio maometano, em boa medida responsável da fragmentação regional. Aprendemos talvez assim a inestimável lição democratizante do que é viver de costas para, ou ignorando, o Poder Central, supostamente ilimitado, mas debilitado pelas distâncias e pela sua origem alógena. Só a Reconquista chamada «neogótica» ou «cristã», feudalizante e, portanto, divisionária, viria agravar, cultivar ou inventar os nacionalismos regionais: mas ainda aqui, quase sempre sob a «monarquia mitigada». Lembre-se que, ainda então o rei de Leão, em Toledo, era o Emperador..., grata memória dum tempo findo!
Daí, porventura, sobre ignotos alicerces ancestrais, pré-históricos, o sentimento anarquizante, enraizado, latente ou endémico, de que têm dado bastas provas as «nações» ibéricas. E não voltaremos nós algum dia a conhecer essa quase-unidade na fraternidade e na diversidade, sob a forma de federação ou confederação? Será necessário lembrar que a instituição imperial romana, a que a Igreja aspirou identificar-se, ressurgiu tentativamente com os Francos, Carlos V, o Santo Império vienense, Napoleão, Hitler (ai de nós!), e, porventura, sob a ideologia pan-soviética? Isso, embora estejamos assistindo hoje ao ressurgir das aspirações autonomistas regionais – Bretanha, Escócia, Gales, Irlanda, os Flamengos, os povos da Jugoslávia?
Tal seria, com pormenores comprovativos, o remate da série de artigos «Da Agonia dos Contrastes» que não levei ao fim devido ao escrúpulo em manifestar a esperança de que esse novo «Império libertário» viesse algum dia restituir-nos a criatividade colectiva, peninsular, que nós, Portugueses, perdemos numa solidão geo-histórica de novecentos anos. E para esse futuro poder, então parcelarmente exercido pelos próprios naturais, que os nossos corações se voltam numa prece de esperança. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Tablóides…

Imagina tu que um amigo da mocidade, hoje médico distinto, me escrevia há longos anos uma carta que abria assim: «Meu Caro Data Vermibus José!» Desde então só uso «querido», como os Espanhóis.
(CA(ro)DA(ta)VER(mibus) = CADÁVER, como é suposto.)      

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Tablóides…

Interrogado sobre o que pensava da América (EUA), ele respondeu: «A América é como a Mulher: para bem a amar é preciso saber sofrê-la.» 

domingo, 9 de dezembro de 2012

Tablóides…

Creio que foi pela minha mão, em 1930, que a primeira imagem da Senhora de Fátima deu entrada em Portugal. Ao regressar da Bélgica, e do meu primeiro ano como bolseiro da Junta de Educação Nacional, detive-me em Paris de visita (demorada) aos nossos amigos expatriados (Proença, Sérgio, Cortesão e tantos outros). Foi então que o escultor João da Silva, destemido antifascista e livre-pensador, além de cunhado de António Sérgio, me pediu que trouxesse para aqui um medalhão de gesso do tamanho de uma roda de carroça com a imagem da milagrosa, que de cá lhe fora encomendada. Aceitei gostosamente o encargo do amigo, do artista e do correligionário. Ao chegar a Irun, os carabineiros puseram-me o problema da entrada em Espanha de uma obra de arte estrangeira, e exigiram-me o pagamento já não sei de que taxas aduaneiras. Protestei, naturalmente, e eles chamaram o capitão do posto para arbitrar o caso. Como ele tomasse o partido dos subordinados – obra de arte, havia que esportelar! – eu argumentei no meu melhor castelhano que aquela Benta Imagem de Senhora de Fátima (ou não sabia ele do Milagre?) era um artigo religioso da minha fé e meu uso pessoal, e que, todas as noites, eu não podia adormecer sem lhe ter rezado fervorosamente e de joelhos. «Ah!», disse então o militar, «se é um objecto pessoal de fé religiosa, então não está sujeito a imposto aduaneiro! Pode passar!» Fez-me uma continência respeitosa, imitado pelos subordinados, e eu, tendo correspondido, agarrei na gigantesca roda de gesso, e fui tomar lugar na carruagem. 

sábado, 8 de dezembro de 2012

Tablóides…

À força de pensar no «estilo», na écriture, na frase, na palavra, no «texto» enfim, não acabaremos nós pondo o «significante» acima do «significado», quero eu dizer eliminando este, caindo assim no puro psitacismo, no babillage infantil, pré-intelectivo? Ou não será tudo isso, apenas, mais uma moda, um sarampo literário que nos está comichando? 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Tablóides…

A liberdade, do ponto de vista pessoal ou individual, consiste sobretudo em uma pessoa não dar pela existência do regime, sistema, partido ou governo a que está sujeito. Inclusivamente, no direito de os mandar à fava. É claro, sob a condição de ele, cidadão, não cometer violências, e respeitar os direitos dos outros como os seus próprios! Em resumo: Que o Governo ou o Soberano me deixem viver em paz, e se tramem! 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Tablóides…

Encontro na rua o G., sempre queixoso dos seus múltiplos sofrimentos, mas sempre bem-humorado: «Como vão esses achaques?» «Ora», torna-me ele, «á nem sei se sofro de lumbago ou de l’umbigo!» 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Tablóides…

Contava-se outrora que Rafael Bordalo Pinheiro, seriamente doente, se viu condenado pelo seu médico assistente a um regime rigoroso. Já o Esculápio ia a sair: «Ó doutor!», diz-lhe Bordalo, e o clínico voltou atrás: «Então o senhor tira-me a bebida e o cigarro, proíbe-me as comidas de que eu gosto, priva-me do amor – e só me deixa ficar a bronquite? Porque é que não ma tira também?» A um conhecido meu, em estado comatoso, proibiu o médico todos os abusos. Diz-lhe o doente: «Não, doutor, lá do vinho, do cigarro e do café não me livra o senhor, nem a mão de Deus Padre Todo-Poderoso! Os seus remédios não me curam. Então para que agravar a doença com tantas privações?»
Continuou a beber, a fumar, e a tomar café. Seis meses depois estava curado. «Parece coisa de milagre!», diz o médico assombrado. E o doente: «Não, doutor! O milagre foi eu não ter seguido à risca os seus conselhos!» 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Coimbra, 4 de Dezembro de 1980

A História é uma paixão dos homens e uma ironia dos deuses. Sendo vivida por nós, parece feita por eles. Quanto mais nos obstinamos em tomá-la o espelho dos nossos triunfos, mais não sei que ocultos desígnios capricham em reduzi-la a uma aventura absurda. Porque, ao fim e ao cabo, sempre que nela floresce a esperança, frutifica a desilusão. Arena inglória onde a vida e a morte se confrontam a toda a hora, o sangue que a mancha nem sequer tem sentido. Inocente ou culpado, mitiga apenas a sede insaciável e vã da fatalidade. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Coimbra, 3 de Dezembro de 1980

– A conversa foi longa e enrodilhada. Um dizia, o outro respondia, e o rio de palavras ia correndo sem chegar a nenhuma foz. Até que de repente surgiu na escuridão do diálogo a luz de uma síntese que satisfez os dois:
– O homem, quando toca uma mulher, sente-se pecador; a mulher, quando é tocada, sente-se salva. 

domingo, 2 de dezembro de 2012

É PROIBIDO APONTAR


Domingo de manhã… À mesa do café quase deserto, o sujeito – lunetas de prudente funcionário da Fazenda – conversa com a menina, sete anos pálidos e tímidos. Tirante o caminho monótono da escola particular para ambos os sexos onde definha, aí num triste primeiro andar ao Bairro Camões, a menina goza apenas, vê-se à primeira vista, do privilégio de um passeio hebdomadário à Baixa. Observo-os do meu recanto pouco confortável (estas cadeiras de pau!), e posso imaginar o interior duma existência modesta, que se aguenta à custa de alfinetes em todas as costuras.
Conversam. E nisto a menina aponta para fora, para a estátua do Libertador, para o sol distante, as pombas da praça, talvez para uma janela onde qualquer coisa lhe atraiu a atenção: e a mão lívida, burocrática, pergaminácea do cidadão-papá estende-se num jeito de polvo a abaixar severamente o dedinho indiscreto. É proibido apontar!
O funcionário olha em redor, através das lunetas desconfiadas de azul, não tenha alguém reparado no gesto da filha (ou no dele?).
Era eu pequeno, para reprimirem em mim uma espontânea e justiceira tendência acusadora, o desejo de inquirir sem reservas, apontando, ensinaram-me que em certa igreja, ao erguer o dedo para um santo em seu nicho, ficara um homem com a mão sacrílega cortada resvés. Apontar é pecado, é tabu!
Até que ponto terá esta proibição geral destruído em mim as curiosidades naturais, o desejo de saber de fonte directa, e de acusar sem rebuço, forçando-me a uma atitude hipócrita de indiferença? Os meus dedos ficaram para sempre anquilosados, perderam a agilidade necessária para trespassar indiscretamente as pessoas e os factos que a minha consciência interroga ou condena. E no entanto, o homem que aponta assume a responsabilidade do seu gesto: porque há sempre na sombra da noite que nos envolve um cutelo pronto a cortar, como ao outro no templo, a mão que se ergue a inquirir, a acusar, a denunciar.
É de crer que a madre Eva tenha tentado Adão apontando-lhe candidamente os proibidos pomos da árvore da Sabedoria. Apontar um deus é destruí-lo. Os Hebreus não podem sequer erguer os olhos para o santo-dos-santos, não podem apontá-lo nem a olho. Apontar é um gesto revolucionário. Foi também apontando que Judas Iscariotes mostrou o Cristo, na noite mais que todas amarga, para o denunciar. No entanto, esse gesto, que valeu a morte e, na boa vontade de alguns simples, a ressurreição dum santo homem transbordante de imagens parabólicas e herméticas, foi o início de uma revolução nas ideias morais e religiosas, e recaiu sobre o próprio Judas, que se enforcou. E nós temos de aceitar esta conclusão cruel: o homem que anuncia a Verdade, melhor e mais concisamente do que o fizera o Baptista, e a aponta com o seu dedo adunco e sujo de pobre sem eira nem beira, sequioso de alguns dinheiros; o homem que propõe ao mundo, com o espectáculo de uma vulgar traição, o seu Deus mais humano e popular – paga com língua de palmo, numa figueira, a coragem de ter paraninfado a nascença da divindade! Judas apontou e pagou caro o seu gesto criador. O mundo continua povoado de símbolos e de contradições.
Os papás costumam punir os meninos que, à mesa, quando se pergunta: «Quem comeu a compota que estava na despensa?» – respondem vigorosamente, virando o dedinho rosado e severo sobre o culpado: «Foi o Nené!»
Como é sabido, só nos grandes apertos, ou sonhando em voz alta, os culpados dizem suas culpas; ou quando lhes convém, por exemplo para salvar a alma pela absolvição. De modo que, com os dedinhos contraídos e as orelhas ainda rubras da memória de algum remoto puxão, os meninos feitos homens, mesmo sendo altas coisas neste mundo, nunca mais se atrevem a dizer «Foi o Nené!», quando, nas assembleias, consistórios, conselhos, tribunais, comandos ou parlamentos, alguém se ergue indignado a indagar quem foi que comeu a compota que estava guardada na despensa do cofre ou do orçamento.
De resto, o silêncio, se nem sempre é de oiro, é pelo menos de papel-moeda ou títulos cotados. E quem o guarda não corre o perigo de ficar sem dedo – ou sem anéis, que importam mais.
 (Seara Nova, 1928) 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Tablóides…

Chegava a casa pontualmente todos os dias, às sete, para jantar, conforme a promessa da esposa. Mas esta fazia-o esperar sempre quinze a vinte minutos. De que se há-de ele lembrar? Aproveitou a demora para escrever um livro, que publicou com esta dedicatória: «A minha querida mulher, sem cuja impontualidade eu não poderia ter escrito esta obra.»
(Vi-o outro dia na Feira da Ladra. O livro! Vendido a peso como papel de embrulho!)