sábado, 27 de outubro de 2012

De Profundis, Valsa Lenta [4]

Demoro-me um pouco sobre as fotocópias da caligrafia desse homem nos testes da fala e da escrita que tenho à minha frente. São um desfiar de caracteres cuneiformes traçados a desdém que ele nem se deve ter dado ao trabalho de olhar. Dessa caligrafia enlouquecida só nas últimas provas é que a assinatura tem alguma aproximação com a que me era verdadeira; nas outras mostra-se cerrada, apenas o J se mantém reconhecível. O J de José. A letra menos espontânea da minha identificação.
Sem nome e sem assinatura este que eu sou entre paredes dum hospital encontra-se numa paisagem anónima com gente anónima (o pessoal, os visitantes). Sem nome, vejam só. E contudo, «os nomes penetram-nos até aos ossos», afirmava Hemingway, esse viajante das mortes, em The Garden of Eden. Simplesmente, no meu homem sem memória tanto o nome que lhe pertencera como o das personagens que lhe cobriram a existência tinham enquistado e desfizeram-se em pó. Apesar disso, uma vez por outra ainda dava mostras de procurar recuperá-los:
«Eu tenho filhos, não tenho?» pergunta ele à Edite. (Eu. Uma vez mais o sujeito solitário, repare-se.) «Como é que eles se chamam?»
«Temos duas filhas. A Ana e a Rita», responde ela.
«Rua?»
«Não. Rita», diz a Edite.
E ele: «Pois, Rua.» (Pensava ter dito Rita, é evidente.) «Então e o António Nuno?»
Edite: «O António Nuno era teu irmão, morreu há muito tempo. Nós, além das filhas, temos dois netos.»
Ele: «Pois, dois netos. Como é que eles se chamam?»
Edite: «Joana e Rui.»
Ele: «Rui. Que nome tão feio.»
Os nomes. A preocupação de se reconhecer vivo, identificando-se pela identificação dos outros. Durante a travessia das trevas brancas os diálogos com a Edite foram em grande parte uma busca de referências, um inquérito em total inconsciência na tentativa de se recapitular para voltar a ser indivíduo com passado. A família e os visitantes que lhe apareciam quem eram? Donde vinham e que ligações tinham com ele? O pior é que rarissimamente se preocupava em os situar na sua vida (tinha aceitado que não era capaz, foi a impressão com que eu fiquei até hoje) e, quando muito, punha-se a olhá-los sem os ver.
Ali o tenho, anulado e discreto. Ali me tenho, com a Edite à cabeceira. No quarto onde o arrumaram há os tais dois vultos a comunicarem de cama para cama, duas sombras falantes, se bem que as sombras mesmo que falem nunca têm voz. De modo que permanece deserto e sem sobressaltas, a dias vagos e sonos limpos. Está à mercê dum coágulo que lhe trava a circulação do cérebro e anuncia um fim assustador mas ele desconhece isso, não pressente sequer. Está distante, está longe. Que longe, meu Deus, pensará a Edite.
De resto, a desmemória não só o isolou da realidade objectiva como o destituiu, pode dizer-se, de sentimentos. Perdeu os estímulos de aproximação porque, sem a consciência da identidade que nos posiciona e nos define num framework de experiências e de valores, ninguém pode ser sensível à valia humana do semelhante. As suas virtudes ou os seus males só podem ser reconhecidos como significantes sentimentais em contraponto com a consciência da nossa identidade, isto é, com a tradição da comunicação que praticamos com a sociedade e com a nossa memória cultural. A ele tal coisa estava-lhe vedada, memória onde tu já ias. Daí a total indiferença em que navegava à tona das comoções e dos afectos, uma indiferença extrema que, sucedesse o que sucedesse, não o levava a perturbar nem ao de leve a disciplina ambiente. Na verdade, não sabia de todo onde se encontrava, a razão era essa.
Atentem, atentem nele: chegam amigos a visitá-lo mas ficam-lhe no limiar da recordação. Pelo desfocar da vista, por certas expressões evasivas ou por certas insensibilidades, percebe-se que não é capaz de os localizar com clareza. A um deles, sei eu que lhe viu os olhos toldados de lágrimas e que teve um impensável vislumbre de estranheza, o que era aquilo, parecia perguntar – mas frio, terrivelmente frio.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

De Profundis, Valsa Lenta [3]

“Já não sou eu, mas outro que
mal acaba de começar”

Samuel Beckett


 Brancura hospitalar, murmurada e sonâmbula, está aqui. Uma atmosfera de quietude sulcada por palavras sem rasto. O universo para onde desertou esse Outro que eu acompanhei com as esvaídas recordações que trouxe dele ou com os relatos da minha mulher e dos amigos que me visitaram era assim.
Da mesa onde agora estou a escrever, sigo-me nesse discurso. Ou, antes, sigo-o a Ele desde que entrou, lado a lado com a Edite, na recepção do hospital onde o esperava um médico das nossas relações. Suponho que o reconheceu. Reconheceu-o com certeza mas provavelmente só de figura, isolado de qualquer contexto. Ou não? «Sabe quem eu sou?», perguntou-lhe o médico. «Sei», foi a resposta, «não me lembro é do nome.»
Dito isto, nem mais uma palavra. Subida ao Calvário num elevador carregado de macas com doentes de olhos fechados (foi a imagem que eu fixei) e lá muito no alto, muito no fim, uma voz de óculos cintilantes numa primeira observação: «O mais provável é ter de ficar internado.»
E logo Ele muito rápido: «Internado, não.» (Ai já se deixa ver que era ainda um último resto de mim que protestava.)
Desse momento em diante vi-o, de corredor em corredor, a ser conduzido aos puzzles da tecnologia clínica, chapa a chapa, registo a registo, análises, electrocardiografias, exames da fala e da escrita, um TAC, uma inspecção às carótidas, mas o que é que eu estou a fazer aqui, perguntava ele quando o deixavam sozinho com a mulher.
Se nessa altura ainda falava com clareza ou se já tinha começado a desmantelar as palavras com o silabar consonântico que toda a gente fingia ignorar, não sei, não posso dizer. Mas por intuição ou pelo quer que fosse ele devia ter alguma percepção dessa afasia porque muitas vezes cortava a frase ou parava de se exprimir, fazendo um gesto de desistência com um sorriso de resignação. Deixem, não vale a pena, era o que aquilo significava. Dava a ideia de que por enquanto sabia o que pretendia comunicar mas que já não comandava as palavras.
Continuo a segui-lo. A princípio houve uma ou outra situação em que nos confundimos e fomos um só. Situações raríssimas, devo acrescentar, breves clarões de consciência. Mas em menos de nada já ele se tinha perdido de mim e ia, hospital fora, a arrastar uma névoa.
O relatório neurológico foi terminante: acidente vascular cerebral de gravidade muito acentuada, um coágulo de sangue que tinha subido (do coração?) até à zona nobre do cérebro, bloqueando duramente a artéria. Não era um problema hemorrágico, antes fosse, e por isso não havia o recurso à cirurgia com largas perspectivas de solução, explicou à Edite um especialista do Serviço de Neurologia. Assim, acrescentou ele, a situação apresentava-se bastante difícil, um caso de isquemia com recuperação lenta e frequentemente incompleta. Do ponto de vista motor nada que justificasse preocupações, o doente bastava-se a si próprio. Mas o centro da fala e da escrita estava profundamente afectado e podia conduzir a uma sobrevivência em incomunicabilidade total.
Incomunicabilidade, pois. Incomunicabilidade total. Nem voz nem escrita e nem leitura tão-pouco. Morte cerebral, foi com esta expressão que a Agência Lusa passou a notícia à imprensa para o outro lado dos muros do Hospital de Santa Maria. Morte branca, aponto eu ao alto desta página em que estou a reconstituir passo a passo esse Outro que, de mão na mão com a Edite, se encaminha para o quarto onde vai ser internado.
Vai sem ver, percebe-se. Vai, foi. Seguiu. E quando lá chegou não sei se já estava entregue por inteiro à sem-vontade que o alheava do que acontecia nele e à volta dele, não sei, não faço ideia. Mas, estivesse ou não estivesse, no quarto que lhe tinham destinado havia dois vultos a espiá-lo em duas camas. Viam-no também sob lençóis mas de rosto ao alto e a sorrir. A sorrir? Seria um traço pálido na palidez geral que se supôs dirigido à enfermeira que o estava a ligar ao soro, embora não a olhasse sequer. Ou um sorriso para com ele e mais ninguém, outra hipótese. De qualquer maneira estava imóvel e a sorrir, imagine-se. Assim o viam os dois doentes com quem ele ia ficar e assim o estou eu a descrever, passados dois anos sobre essa hora: branco, branco, em luz gelada e com a mulher à cabeceira a segurar-lhe a mão. Preso a ela mas todo voltado para a distância.
Assim, também, o foi encontrar uma jovem médica que o veio observar com as primeiras perguntas no tom de quem vem de recado pensado.
Perguntas a aviar, é bom que se diga, pelo menos foi o que lhe pareceu a ele uma abordagem daquelas, e como tal, com respostas prontas é que a devia despachar. Estropiadas ou não, respostas prontas e o rosto eternamente apontado para uma vastidão qualquer. Seria realmente uma vastidão, um espaço ermo, para onde ele olhava? Pouco importa. Horizonte, interrogação ou nada, era nessa direcção que ele estava a responder ao exame e infelizmente com o descaso e a irresponsabilidade que eram de prever, parecia anotar a médica pela maneira de o escutar, pelo insólito dos desacertos com que ele correspondia ao diagnóstico que lhe tinha sido atribuído, confirmava a médica com o silêncio do olhar, claro, tudo certo, tudo conforme, «Agora», despediu-se ela, «o que é preciso é pôr-se bom depressa para voltar a escrever. De acordo?»
Escrever?
O que restaria de mim no homem que ficou para ali estendido à espera de coisa nenhuma?
Deve ser uma abstracção nebulosa estar-se assim, numa ilha de náufragos, preso ao soro que nos chega por um fio ligado a uma hipótese de vida. Três náufragos ao todo: não esquecer que naquele quarto há ainda dois vultos tão nulos que os toma como ausentes. Insisto nisto porque aos olhos dele essas criaturas devem ser duas sombras, pouco mais. Duas sombras espalmadas em dois leitos de hospital, a observá-lo para o decifrarem, saber de quem se trata, qual o seu porquê e o seu rumo. Uma dessas sombras durante a noite ronca estrepitosamente, mas o Outro que eu sou ali dará por isso? Se der, esquece.
Deixaram-no atrás duma janela sem paisagem, em tempo velado, oco. Quando menos espero descubro que alguém se aproxima dele com uma ficha de doente na mão. Outra médica. Fala-lhe com simpatia atenta, perguntas sobre perguntas. Aponta-lhe a chávena que está em cima da mesa-de-cabeceira: «Que é isto?» Pára. Espera, a olhá-lo. A seguir uma esferográfica: «E isto? E isto?», pergunta ainda, com uma chave ou outra coisa na mão.
Ele percebe que o estão a investigar, por mais anulado que se encontre não se considera tão à margem como isso. Percebe, não tenho dúvida (recordo essa minha reacção no primeiro interrogatório) mas o que ele ignora é que já não identifica os objectos que lhe apresentam: um lenço, um anel, a moeda tirada ao acaso do bolso da bata, na prática objectos mais que simples da circulação comum, e principalmente relógios, relógios de pulso, os ponteiros e a leitura das horas. Pois, relógios. O Outro de mim naturalmente que os conhece como peças, instrumentos, sem interior, sem razão, mas eu diria que só de vista porque os isolara de referências. Exactamente como lhe acontecia com as pessoas que outrora lhe tinham sido mais próximas.
Tempo depois, quando a família e os amigos me descreveram a passear de alma ausente pelo anoitecer da memória, é que eu soube como era desvairada a nomenclatura que ele atribuía aos objectos questionados ou àqueles que, de longe em longe, pretendia enunciar. «Simosos» (?), por exemplo, funcionava a vários significados. Tanto podia ser «gilete» como «óculos» ou «arrastadeira», dependia de qualquer indecisão de momento, quer-me parecer. «Cachimbo», uma peça que nunca na vida teve alguma coisa a ver comigo, tomou-a ele como sinónimo de «chinelas, chinelas de quarto». E, como estas, várias outras designações de sentido aleatório ou incapazes de ser traduzidas porque inclusivamente as pronunciava com distorções.
Se não o entendiam quando perguntava esquecia e passava adiante (remetia-se ao seu horizonte descambado). Mas quando era perguntado (nos exames iniciais da memória, é daí que me vem essa lembrança) entendia ou intuía que o estavam a experimentar em perspicácias ingénuas e com o seu quê de ridículo. Eram um estendal de desperdícios mais que vistos e sabidos, aqueles testes. Um jogo em faz-de-conta frustrado logo à partida, pensaria ele naquela altura e quem sabe se não sorriria tristemente por dentro. No fundo, essa atitude não era mais que a costumada desconfiança do doente em terreno de risco e de valores desconhecidos, a sempre prevenção contra a subestima ou a humilhação ao julgar-se avaliado por um teste primaríssimo em que colaborava, que remédio, com uma complacência resignada e até com uma sombra de ironia. Ironia, seria nisso que ele tentava compensar-se?
Determinadamente, não. Assumir a observação que pressupõe a ironia com a captação de sinais que ela requer não me parece fácil nas condições em que o meu Outro divagava. No entanto, muito para com ele e para comigo, houve pelo menos uma vez em que essa intenção teve lugar. Com alguma clareza – ou quase – e de tal modo que ainda hoje tenho como certo que mesmo num farrapo de indivíduo a despojar-se de memória (e portanto de imaginação) podem despontar por vezes fragmentos de ironia como instintos culturais, se assim lhes é possível chamar, que são resíduos do passado que ele apagou. Será uma ironia coitada, não digo que não, mas de qualquer modo uma ironia. Um esforço de resposta muito para ele, muito para se compensar da situação de desvantagem em que se pressente. Um esbracejar do seu lado crítico, direi agora, um esbracejar. Um iludir o caos da irreflexão.
A prova dum impulso de afirmação deste tipo está na minha resposta ao exercício que um dia me propôs a neurologista que dirigia o meu tratamento («Onze menos nove quantos são?») apresentando-lhe a primeira solução – engenhosa, pretendia eu – que me veio à cabeça: «Nada, senhora doutora. Qualquer coisa noves fora é nada.»
(O segredar da infância a assaltar-me numa brincadeira de tabuada, apetece-me anotar neste ponto da minha narração. Eu há anos, há séculos, na Escola Primária do Largo do Leão, em Lisboa, a declamar o «nove, noves fora, nada».)
Acrescento ao comentário que foi no decorrer desse interrogatório que fixei como uma marca pessoalíssima daquela médica a correia bordada a cores no relógio que ela usava.

Coimbra, 26 de Outubro de 1980

Cadaval, Miranda do Corvo, 26 de Outubro de 1980 – Mais um triste sinal dos tempos pátrios. Tantas vezes aqui vim em missão médica dar ânimo ao desespero e ajudar a nascer a esperança, e agora pareço um sonâmbulo a deambular por uma aldeia fantasma, deserta, comida de silvas. A escola lá está caiada ainda, inútil, com o mastro da bandeira nacional a apodrecer. A bica da fonte canta no largo como outrora, mas ingloriamente. Ninguém lhe bebe a frescura. E a capela desmorona-se em frente, numa melancolia dessacralizada que os santos reforçam no interior sombrio, abandonados pelos fiéis. Um palco ainda quente de todas as paixões humanas, e já arqueológico.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

25 de Outubro de 1977

• Quanto mais os vejo e ouço, mais impelido me sinto a ficar só entregue aos meus pensamentos. E no entanto a solidão dói-me como um pecado inexpiável – e volto sempre a procurar companhia!
• Como é criadora, gloriosa e triunfal, ainda que por vezes cruel, implacável e até crapulosa, a vida e carreira de homens como Eugene O’Neill ou Tennessee Williams, para não mencionar, por exemplo, alguns russos! Quando as comparamos à de certos «génios» familiares, escassamente experientes e pouco produtivos, porque, não tendo vivido, pouco ou nada têm para contar e, no entanto, gozam da fácil glória dos prémios e dos elogios, dos jantares de homenagem, dos títulos honoríficos e até dos necrológios ultralaudatórios! Mesquinhos e pequeno-burgueses na vida e… na morte como se o culto da pessoa pudesse substituir o da Obra.
• O meu preclaro amigo A. Candeias (Prof. Biol. Fac. Ci. Univ. Lx.ª), depois de ter lido o meu ensaio «Quem Paga É o Bey de Tunis»[1] (in É Proibido Apontar) sobre o tratamento dado ao Português no mundo exterior (ele próprio já o expusera e com brilho) e em relação à literatura inglesa teve este comentário: «Mas você é patriota!» Ao que eu respondi logo: «Pois claro que sou!» Foi isto em 1946 ou 47.
Pois bem, trinta anos corridos, e por motivos idênticos (aqui o corpo de delito é As Harmonias do «Canelão»), já houve quem dissesse com ameaçadora gravidade: «Mas você NÃO é patriota!»
Por aqui se vê que não somos nós que mudamos: mas antes os conceitos e as conotações que mudam – não só com os tempos, mas com os ventos!
• Não sei se já notaram que a palavra «pacato» é o exacto anagrama de Pataco? Talvez isso ajude a explicar muita coisa…


[1] «Quem Paga É o Bey de Tunis» é o título da crónica publicada na Seara Nova de 26 de Outubro de 1946 (pp. 188-191). A crónica seria inserta pelo autor em É Proibido Apontar (1964) com o título «Há sempre Um Bey em Tunes». (N. do E.)

Coimbra, 25 de Outubro de 1980

Coimbra, 25 de Outubro de 1980 – Entrei no autocarro e, quando ia a comprar o bilhete, o cobrador mandou-me passar adiante. Obedeci e sentei-me, intrigado. O homem, se calhar, recebera de mim algum favor clínico e queria corresponder assim. O que eu não podia consentir de maneira nenhuma. E resolvi teimar. Só que, mal fiz menção de me erguer, alguém disse a meu lado:
– Hoje é o dia dos velhos...
E fiquei esclarecido.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

De Profundis, Valsa Lenta [2]

“E agora, José?
[...] você marcha, José!
José, para onde?”

Carlos Drummond de Andrade



 Ainda hoje estou a ouvir aquele «é». Espantoso como bruscamente o meu eu se transformou ali noutro alguém, noutro personagem menos imediato e menos concreto.
Nesta introdução à perda de identidade que um transtorno do cérebro tinha acabado de desencadear, o que me parece desde logo implacável e irreversível é a precisão com que em tão rápido espaço de tempo fui desapossado das minhas relações com o mundo e comigo próprio. Como se acabasse de dar início a um processo de despersonalização, eu tinha-me transferido para um sujeito na terceira pessoa (Ele, ou o meu nome, é) que ainda por cima se tornava mais alheio e mais abstracto pela imprecisão parece que. Além disso, a circunstância de ter respondido à Edite com o apelido e não com o meu primeiro nome, o mais cúmplice entre marido e mulher e o único que nos era natural, é outro indício do distanciamento provocado pelo golpe de azar que me destituirá de memória e de passado.
Ele, o Outro. O outro de mim. Em menos de nada, já a Edite falava ao telefone com os médicos sobre esse alguém impessoal que eu estava a começar a ser. Ouvia-a do meio do hall em grande serenidade. Sabia, tenho essa ideia, que alguma coisa se estava a passar comigo, uma coisa oculta, activa, mas nessa altura já principiava a ouvir e a sentir só de passagem, sem registar. (Mesmo assim tinha algum conhecimento da ansiedade que me rodeava: «Isto não vai ser nada», creio ter dito à Sylvie quando a descobri no corredor, atenta aos telefonemas da Edite.)
Lembro-me de que essa manha foi invadida por um aguaceiro desalmado, ouvia-se uma chuva grossa e pesada lá fora mas deve ter sido passageira porque quando acabou a Edite ainda estava ao telefone. A partir de então tudo o que sei é que me pus ao espelho da casa de banho a barbear-me com a passividade de quem está a barbear um ausente – e foi ali.
Sim, foi ali. Tanto quanto é possível localizar-se uma fracção mais que secreta de vida, foi naquele lugar e naquele instante que eu, frente a frente com a minha imagem no espelho mas já desligado dela, me transferi para um Outro sem nome e sem memória e por consequência incapaz da menor relação passado-presente, de imagem-objecto, do eu com outro alguém ou do real com a visam que o abstracto contém. Ele. O mesmo que a mulher (Edite, chama-se ela mas nada garante que esse homem ainda lhe conheça o nome, que não a considere apenas um facto, uma presença) exacto, esse mesmo Ele, o tal que a Edite irá encontrar, não tarda muito, a pentear-se com uma escova de dentes antes de partirem de urgência para o Hospital de Santa Maria e o mesmo que, dias depois, uma enfermeira surpreenderá em igual operação ao espelho do lavatório do quarto.
Dias depois, quando?
Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá a luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso. Verdade, também isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido. Assim, ao ver o meu Outro eu a pentear-se com uma escova de dentes num quarto de hospital (conforme me contaram depois) pergunto-me quantas vezes lhe aconteceu aquilo e logo de instante vejo uma enfermeira a aparecer-lhe por trás e a trocar-lhe a escova pelo pente, sem um comentário, sem uma palavra sequer, pura e simplesmente na prática de quem executa uma rotina. E ele a obedecer-lhe sem a menor resistência, ele como que a cumprir a parte que lhe compete nessa rotina. «Sempre este jogo?», pergunto.
Talvez. É possível que a aceitação apática do erro se devesse à sua incapacidade mnemónica de relacionar – e portanto de questionar. Possível. Para ele, agora ou ontem tudo era outrora, mundo alheio ou como tal. E desinteresse. O constante e desinteressado desinteresse do homem desabitado de pessoas e de lugares, de tempo e de sentimentos.
Apatia, nesse caso? Nesta fase do processo admito que não se tratasse propriamente de apatia, os médicos é que poderão dizer. Que eu saiba, ele ao princípio sabia-se doente. Ou teria uma percepção limiar da impossibilidade de se conjugar com os outros, uma impossibilidade com a qual convivia numa aceitação natural. Recordo-me até de que ao observar uma coisa que lhe chamasse a atenção a punha instintivamente de parte porque tinha como certo que um segundo depois a iria esquecer.
Ouvir e perceber enquanto ouvia mas apagar prontamente, era o traçado em que ele se movia. Ouvir e apagar logo-logo. Apagar. E ver, ver também contava. Ver pessoas (figuras) através dum vidro mudo e perdê-las acto contínuo. Tudo sem angústia, como quem preenchesse o tempo numa serenidade terminal. Como quem, na desertificação que o invadia, fosse avançando para a morte cerebral num cenário de contornos indiferentes.
Nas Poesias de Drummond de Andrade que tenho acolá na estante, José marchava. Mas para onde, José?

terça-feira, 23 de outubro de 2012

De Profundis, Valsa Lenta [1]

“Quando perdeste o sonho e a certeza tornaste-te
desordem e fizeste-te nuvem”

Simónides de Kéos, Epitáfio nas Termónilas



Janeiro de 1995, quinta-feira. Em roupão e de cigarro apagado nos dedos, sentei-me à mesa do pequeno-almoço onde já estava a minha mulher com a Sylvie e o António que tinham chegado na véspera a Portugal. Acho que dei os bons-dias e que, embora calmo, trazia uma palidez de cera. Foi numa manhã cinzenta que nunca mais esquecerei, as pessoas a falarem não sei de quê e eu a correr a sala com o olhar, o chão, as paredes, o enorme plátano por trás da varanda. Parei na chávena de chá e fiquei. «Sinto-me mal, nunca me senti assim», murmurei numa fria tranquilidade.
Silêncio brusco. Eu e a chávena debaixo dos meus olhos. De repente viro-me para a minha mulher: «Como é que tu te chamas?»
Pausa. «Eu? Edite.» Nova pausa. «E tu?»
«Parece que é Cardoso Pires», respondi então.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

22 de Outubro de 1977

Disse Einstein, que não era nenhum trouxa: «A maioria dos estúpidos é invencível e está garantida pelos tempos dos tempos: o terror que nos causa a sua tirania é porém atenuado pela inconsistência deles.»
«O que tem de ser tem muita força», diz o fatalista. Mas se eu, por mim, fizer também um bocado de força, hã, não conseguirei talvez impedi-lo? 

domingo, 21 de outubro de 2012

21 de Outubro de 1977

O Homem só é livre dentro desta medida: se aceitar apenas as responsabilidades da sua escolha, por via da chamada «consciência moral». Não temos outras! Se o não quisermos, ninguém no-las pode impor, nem pela força, nem mesmo pela fogueira: e ainda aqui, porque aceitámos sofrer e morrer pela nossa ideia: devemos então fazê-lo em alegria!
Entre as inúmeras coroas funerárias que acompanharam este «morto ilustre» à sua derradeira moradia, algum filósofo (malandro?) conseguiu insinuar uma com esta críptica inscrição a letras de ouro na fita de moiré roxo: «PÁTRIA INDITOSA QUE TAL FILHO TEVE!» Ninguém até hoje conseguiu interpretá-la. 

sábado, 20 de outubro de 2012

20 de Outubro de 1977

Quem boa sombra o cobre boa sesta dorme.
Literatura: uns fazem-na, outros vivem à custa dela. Parasitam-na!
A CiclopiCidade perdeu o mistério, o encanto e os segredos que para mim dantes tinha. Ou fui eu que me necrosei ou mumifiquei? 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Óbidos, 19 de Outubro de 1980

Óbidos, 19 de Outubro de 1980 – Sabe bem passar algumas horas nestas terras bonitas e preservadas de Portugal. Tem-se a impressão de que estamos a viver no tempo sedimentado da pátria, em coerência intima com tudo o que nos rodeia – pessoas, ruas, casas, monumentos. Que, anonimamente, fazemos parte de um grande retábulo mágico, onde os figurantes se movem sem alterar a composição.

19 de Outubro de 1977

O que importa não é que tu escrevas todos os dias algumas centenas ou mesmo milhares de palavras que em breve estarão ressequidas e esquecidas como a folhagem caduca dos Outonos: mas que, de tempos em tempo, componhas uma página em que os humanos se vejam retratados como num espelho – não só a sua imagem aparente, exterior, mas sobretudo a interior e dinâmica. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

18 de Outubro de 1977

«Só se veja quem só se deseja!», diz a tradição. O mal é que se vejam sós aqueles que mais anseiam por companhia!
Julgo por vezes ver claro no teu pensamento: que tu me estás evitando, ou fugindo, não por não me teres amor, mas ao contrário: porque receias a cadeia que ele é para ti, ou tornar-te prisioneira dele. Fraca consolação para a dúvida em que eu vivo!
«O proletariado», diz o filósofo, «é o santo-e-senha graças ao qual um sem-número de pseudo ou semi-intelectuais se vão amanhando com chorudos e estéreis empregos, à custa de todos nós, os que trabalhamos.»
O nosso maior defeito ou vício é o desmedido orgulho. Na verdade, o da estupidez ou incriatividade que não se vê a si própria. Inversamente: a carência total de humildade. (Não confundir com a dos humilhados!) Coisa que se revela em quase todos os nossos actos e sobretudo no infindável palanfrório que nos vamos habituando a confundir com a liberdade de palavra.
Esta multidão apressada e feliz, das grandes metrópoles, que caminha como quem vai a um destino, sempre lhe causou inveja, o excitou e fez desejar ter também um propósito na vida, como fosse um emprego de importância ou de utilidade, ou mesmo uma posição política de influência ou relevo. Coisas que a sorte nunca lhe ensejou!
Encontrei-o na rua, de viseira caída:
– Homem, que bicho lhe mordeu?
– Estou resolvido a aderir ao Partido Comunista!
– O quê! Você que foi sempre um moderado, um conservador para não dizer reacionário?! E ainda por cima católico!
– Por isso mesmo. Sofri sempre deste meu pendor cristão a estar ao lado dos vencidos!
Diz-me este sujeito com rancor: «Mas você nunca se ocupa de política!» (O que é calúnia, pois que de vez em quando me escapa um comentário político dos muitos que calo!) Respondo: «Não falar de política é hoje para mim o melhor sinal de que existe um alto grau de liberdade em Portugal!» 

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Coimbra, 17 de Outubro de 1980

Coimbra, 17 de Outubro de 1980 – Curvada e encarquilhada, cuidei que a trazia a esperança de que lhe desse qualquer alento à velhice. Mas não. Andava a preparar-se para morrer e vinha liquidar uma consulta que tinha em débito há mais de quarenta anos. Nunca pudera pagar-me. Mas agora, que a vida dera uma volta...
Esquecido dela e da dívida, tentei de todas as maneiras dissuadi-la do propósito. Nada consegui.
– É que nem sequer me lembro!
– Lembro-me eu. E quem vai prestar contas a Deus não é vossemecê...
– Ele não trata dessas ninharias...
– Trata de tudo o que esteja na nossa consciência.
E não tive remédio senão aceitar os vinte escudos de então, a invejar aquela alma simples que se podia desobrigar com tão pouco. 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

15 de Outubro de 1977

• A felicidade dos povos (a revolução final, diríamos nós?) só virá no dia em que os governos absolutos, omnipotentes, os reduzirem à total e inconsciente obediência e passividade por meio de drogas apropriadas; isso, enquanto não se descobre a maneira de alterar o carácter dos seres humanos por meio da intervenção nos genes. O que talvez já não tarde muito! 

domingo, 14 de outubro de 2012

Velho Menino-Deus que me vens ver


Velho Menino-Deus que me vens ver
Quando o ano passou e as dores passaram:
Sim, pedi-te o brinquedo e queria-o ter,
Mas quando as minhas dores o desejaram…

Agora, outras quimeras me tentaram
Em reinos onde tu não tens poder…
Outras mãos mentirosas me acenaram
A chamar, a mostrar e a prometer…

Vem, apesar de tudo, se queres vir.
Vem com neve nos ombros, a sorrir
A quem nunca doiraste a solidão…

Mas o brinquedo… quebra-o no caminho. ‘
O que eu chorei por ele! Era de arminho
E batia-lhe dentro um coração …

MIGUEL TORGA
In Diário II, 4.ª edição, 1977,
Edição do Autor, Coimbra 

sábado, 13 de outubro de 2012

CANÇÃO DE OUTONO


No jardim deserto,
Já Novembro perto,
Desfolhei as rosas últimas a dar,
Jóias maltratadas,
Rosas desfolhadas!
Só o seu perfume vai ficar no ar.

Recolhi versos
– Breves universos –
Que atirara ao vento para os espalhar.
Queimei-os, rasguei-os.
Secaram-me os seios…
Só rimas e ritmos vão ficar no ar.

Saudades, lembranças
De vãs esperanças,
Fiz covais no peito para os enterrar.
Nada mais me importa.
Fechem essa porta!
Só um pó doirado vai ficar no ar.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O MISTERIOSO SILÊNCIO DA MOURELA

A residência paroquial de Randin é uma bela casa de pedra antiga, cheia de sol e de história.
De sol é tão benquista que nem o mês de Fevereiro, o das brumas, lhe falta com ele.
Para a história ficará mais este dado: nela teve lugar, no pretérito dia 22 de Janeiro, a fundação do grupo «Amigos do Couto Misto», entre os quais eu tive a honra de ficar incluído.
Lá voltámos no dia 11 do corrente para a primeira sessão de trabalhos.
Estava, como disse, um desses esplêndidos dias de Fevereiro, em que os pássaros despertam para o acasalamento e os amantes da natureza para os passeios ao ar livre.
Da agenda constava um almoço em Tourém. Resolvemos ir a pé. Entre damas e cavalheiros, éramos à volta de trinta, mais que suficientes para uma alegre excursão. Metemos pés a caminho em gárrulo convívio de vozes e risos.
Lembrei-me de quando, na minha mocidade, por ali andei a saltar sebes e riachos, em divertido, quando não perigoso, jogo das escondidas com os guardas-fiscais e os carabineiros. Coisas do passado. Hoje as duas aldeias estão ligadas por um estradão asfaltado, directo, livre e franco. Os de Tourém atravessam Randin com as suas manadas de vacas para irem pastorear campos do outro lado. Outros tempos, outras mentalidades. Se bem que ainda haja muito que aprender e emendar. Na hotelaria, por exemplo. Os restaurantes de Barroso ainda não aprenderam a explorar racionalmente o filão que os galegos representam. Exageram nos preços e espantam-nos.
Assim aconteceu em Tourém. Verdade se diga que o ágape foi um festim. Não tanto pelas iguarias, muito embora nada haja a dizer em desabono da cozinheira, mas pela alegria e boa disposição dos convivas. Não haja dúvida de que os galegos são muito mais alegres e expansivos do que nós, barrosões. A confraternização meteu concertina, guitarra, pandeireta, vozes agradáveis, cantigas para todos os gostos e feitios. Foram duas ou três horas de plena harmonia de corpo e de espírito.
O preço do repasto, porém, destoou…
Eu era o único barrosão do grupo. Despedi-me dos meus amigos galegos com a suspeita de que, em próximas reuniões, os organizadores pensarão duas vezes antes de marcarem almoços em Tourém.
Tinha ido pelo Larouco. Resolvi regressar pela Mourela. Ainda havia sol. Parei em plena serra para oxigenar os pulmões. À minha direita elevava-se um pico eriçado de penhascos. «Dali deve ver-se o mar…» disse para comigo. E fui ver. Mas fui ao engano. De lá avistava-se apenas outro morro. E depois outro. E um terceiro. E ainda um quarto. E não sei quantos mais. Até a vista esbarrar nos «Cornos de Fonte Fria» que assim se chamam, se não estou em erro, os picos mais altos do Gerês barrosão.
Ingenuidade a minha: ver o oceano… O que eu vi foi um mar de silêncio… Um silêncio vivo, vibrátil, melódico. Música indefinida, longínqua. Dos anjos?
Aparentemente, quem sobe ao alto dos montes, fica mais perto do céu. Mas, quanto a mim, os anjos não passam de criações alucinatórias de teólogos alucinados. Reais, só os astros. Seria aquilo música dos astros?
Mas para que procurar no céu coisas que a terra explica?
Subi outro morro. A música persistia. Talvez agora levemente mais perceptível: sonoridade polifónica de campainhas. Não via rebanho nenhum. Mas tinha a certeza: aquela orquestração de bronzes só dum grande rebanho podia vir. Em ondas. Ondas que iam e vinham. Ora encapeladas como o mar das tempestades, ora bonançosas como o mar das calmarias.
Ondas sonoras. Das campainhas do gado? Da cantilena dum regato?
Ou apenas música do diáfano silêncio da Mourela?
Enigmáticas maravilhas da nossa terra.
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 47 e s.)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

ROMANCE DE VILA DO CONDE


Vila do Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar…
– Lembra-me Vila do Conde,
Já me ponho a suspirar.

Vento norte, ai vento norte,
Ventinho da beira-mar,
Vento de Vila do Conde,
Que é minha terra natal!,
Nenhum remédio me vale
Se me não vens cá buscar,
Vento norte, ai vento norte,
Que em sonhos sinto assoprar…

Bom cheirinho dos pinheiros,
A que não sei outro igual,
Do pinheiral de Mindelo,
Que é um belo pinheiral
Que em Azurara começa
E ao Porto vai acabar…,
Se me não vens cá buscar,
Nenhum remédio me vale!
Nenhum remédio me vale,
Se te não posso cheirar...

Vila do Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar!
– Lembra-me Vila do Conde,
Mais nada posso lembrar.

Bom cheirinho dos pinheiros…,
Sei de um que quase te vale:
É o cheiro da maresia,
– Sargaços, névoas e sal
A que cheira toda a vila
Nas manhãs de temporal.
Ai mar de Vila do Conde,
Ai mar dos mares, meu mar!,
Se me não vens cá buscar,
Nenhum remédio me vale.
Nenhum remédio me vale,
Nem chega a remediar…

Abria, de manhãzinha,
As vidraças par em par.
Entrava o mar no meu quarto
Só pelo cheiro do ar.
Ia à praia, e via a espuma
Rolando pelo areal,
Espuma verde e amarela
Da noite de temporal!
Empurrada pelo vento,
Que em sonhos ouço ventar,
Ia à praia, e via a espuma
Pelo areal a rolar…

Espuma verde e amarela
Das noites de temporal,
Quem te viu como eu te via.
Se te pudera olvidar!
E ai não me posso curar,
Nenhum remédio me vale,
Se te não tenho nos braços,
Se te não posso beijar...

Vila do Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar!
– Lembra-me Vila do Conde,
Passo a tarde a divagar…

Até Senhora da Guia
Me deixava ir devagar,
Até Senhora da Guia,
Que entra já dentro do mar,
Como uma pomba que as ondas
Receassem de levar;
Talvez como uma gaivota
Colhida num vendaval…
Ou rosa branca, trazida
Quem sabe de que lugar,
Que embaraçando nas pedras,
Ficasse ali, sem murchar,
O pé metido no rio,
A flor já nágua do mar.

Lá de cima do seu monte,
Sobre o fundo do pinhal,
Senhora Sant’Ana, ao longe,
Parece um lenço a acenar.
Convento de Santa Clara,
Que vulto fazes no ar,
Que aos marinheiros no mar
Deitas o «pelo sinal»!
E o sol desmaia na cal
Da capela a branquejar
Da Senhora do Socorro,
Onde sonhei me ir casar…

Da banda de lá do rio,
As gaivotas a voar
Sobre Azurara se esfolham
Como um grande roseiral!

Lembranças da minha terra,
Da minha terra natal,
Nenhum remédio me vale
Se me não vindes buscar!
Nenhum me pode salvar,
Morro em pecado mortal…

Vila do Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar!
– Lembra-me Vila do Conde,
Sinto os olhos a turvar…

Ia até Poça da Barca,
Meu muito amado local,
(E quem diz Poça da Barca
Diz Caxinas, sua igual)
E parava a olhar de longe,
Estátuas de bronze a andar,
As belas gentes do mar…
Parava a olhar o estendal
Das águas a rebrilhar,
E o arco-íris das cores,
Cada qual mais singular,
Que à tarde, pelos céus fora,
Se entornavam devagar…
Caía a noite, e eu, parado,
Via, subindo no ar,
A Lua juncar as ondas
De espadanas de luar…

Duma vez, estava eu triste,
Senti que o Anjo do Mal
Vinha para me tentar!
Caio de bruços na areia,
Ponho as mãos, e, sem rezar,
Aguardo que me Deus valha,
Me não deixe desgraçar…
Foi então que ouvi, distinta,
Distinta!, posso-o jurar,
Posto vagarosa, grave
Do seu repouso eternal,
A voz de Ana, que partira
Lá para melhor Lugar,
Do fundo do seu coval
Cantar-me o velho cantar:
«… Tomou-o um Anjo nos braços
Não no deixou afogar»…

Nenhum remédio me vale,
Ou sou eu que não sei qual,
Se me não levam depressa
A ver o extenso areal
Onde se davam mistérios
Que eu sabia decifrar…

Vila do Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar!
– Lembra-me Vila do Conde,
Não me posso conformar…

Aquela funda toada,
Por toda a vila a toar,
Nas negras noites de inverno
Me vinha à cama acordar.

Vinha do cabo do mundo…?
Vinha do fundo do mar...?
Vinha do céu, ou do inferno?
Vinha de nenhum lugar…?

De olhos abertos no escuro
Me estarrecia a escutar…
E o meu gosto de a sondar
Que bem me fazia, ou mal!

Pela doçura outonal
Das tardinhas de Setembro,
Vai e vem, que bem me lembro!,
Como sabia embalar!
Vinha de longe, de longe,
Soturna e familiar,
Cada vez mais se achegando
Para se logo afastar…
Mas que viria dizer-me,
Que me diria, afinal,
Aquele canto fatal
Das ondas sempre a rolar…?

Fechava os olhos, sonhava…
Ai! nem me quero lembrar!

Mas sei de um som quase igual
A que o posso comparar:
O som do vento rolando
Nas copas dum pinheiral…
Pinhal do Corgo, seguido
De outro mais longo pinhal,
E essoutro seguido de outro
Té onde a vista alcançar,
Como te posso olvidar
Se é na minh’alma, afinal,
Que chora, como num búzio,
Teu canto irmão do do mar…?

Fechava os olhos, sonhava…
Caía num meditar
Que era pairar noutros mundos…
Ai! nem me quero lembrar!

Não quero, e nada mais lembro,
Nada me pode agradar,
Nada alcança distrair-me,
Nada me vem consolar,
Nenhum remédio me vale,
Nenhum me pode salvar,
Nenhum mitiga este mal
Que eu gosto de exacerbar,
Morro em pecado mortal,
Sem me querer confessar…,
Se me não levam depressa,
Depressa! estou sem vagar,
A tomar ar! o meu ar
Da minha terra natal.

Vila do Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar… 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

9 de Outubro de 1977

Receita cultural. Cinco grãos de ballet russo (o de terceira ordem, saloio, cá para a pacoviânia), outros tantos de folclore romeno, três e meio de quarteto húngaro, um ou dois de cinema checo, duas palestras de literatura polaca – com um delgado icing de estruturalismo (marca Tel-Quel) e um molho de orquestra internacional; leve-se ao forno da nossa inocência ao rubro, e sirva-se bem quente; eis o pudim chamado «Cultura portuguesa»! (Estarás tu desiludido, ó meu querido Lopes Graça?) 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

8 de Outubro de 1977

Todas as manhãs, quando as dores físicas não me apoquentam, antes de dar início aos meus afazeres (de pobre escritor!), levo uma boa hora a reconciliar-me com a ideia de que me é indispensável continuar a viver. 

S. Martinho de Anta, 8 de Outubro de 1980

S. Martinho de Anta, 8 de Outubro de 1980 Homem de muitas letras, não sei se suspeitoso de que a flagrância do natural fique sempre aquém da literatura que o reflecte, quis ver para crer. E veio de Paris passear a suspicácia cartesiana nesta realidade agreste que pintei nos livros e agora lhe escancarei sem a mediação das palavras. Creio que regressa rendido e que leva que contar. A serra, de tão celta, parecia enfeitiçada; o Doiro, pasmado aos pés de S. Leonardo, era um espelho de eternidade; e o roncão que bebeu nunca mais lhe vai sair do paladar. Nisso, ninguém me bate. Quando aqui recebo alguém, sou um anfitrião de êxito seguro. Graças aos recursos em que este chão é pródigo, os meus hóspedes partem duplamente obsequiados. Fascino-lhes os sentidos e embriago-lhes a memória.

domingo, 7 de outubro de 2012

Dia 7 [Outubro de 2009]

Dias felizes
       O excelente artigo de Umberto Eco intitulado «Um blogger chamado Saramago» que havia sido publicado há alguns dias no La Repubblica, apareceu hoje no El País e aparecerá amanhã nas páginas do Diário de Notícias. Esse conjunto de textos breves, baptizado por mim para a edição em livro com o nome discreto de O Caderno, nasceu com sorte. Passado já ao castelhano, ao catalão e ao italiano, encontrou agora o melhor dos valedores possíveis na pessoa de Umberto Eco, cuja perspicaz análise vem sabiamente temperada pela graça da escrita e pela subtileza do humor. Não tenho o direito de alongar-me, muito menos comentar o que Eco escreveu. Basta-me a felicidade que sinto. Ao correr de todos estes anos, outros livros meus foram acolhidos com generosidade e simpatia, mas nenhum como este. Sou, neste momento, o mais grato dos escritores.
       06 de Outubro de 2009
José Saramago, O CADERNO

sábado, 6 de outubro de 2012

6 de Outubro de 1977

Ao encontro de Berlim, em que os partidos comunistas europeus resolveram assumir a liberdade de acção, tanto quanto à doutrina como quanto à prática aconselhadas por Moscovo, coisa que só ingénuos (como Le Monde e até o New York Times) podem tomar a sério, há quem o interprete assim:
1) As Harmonias Discordantes.
2) Os Acordes Dissonantes.
3) O Desconcerto Harmonioso.
4) A Sinfonia Desconcertante, ou ainda,
5) A Concertante Desafinação…
«Já tenho a cura para todos os teus males!»
«Dize lá qual é?»
«Vai prò CURARE!»
Eu sou aquele português anónimo a quem o presidente-general Costa Gomes, na recepção que ofereceu aos portugueses no Hotel Waldorf-Astoria, de Nova Iorque, após uma breve troca de palavras e com um aperto de mão, respondendo a uma pergunta minha, declarou em alta e bem timbrada voz: «EU SOU POR NATUREZA UM MODERADO!» O que causou a consternação de alguns presentes.
«Ai mãezinha! Ai mãezinha!», gemeu o estudante provinciano, ao montar-se na idosa patroa da «república», de propósito para demonstrar (o mafarrico!) que o autor do romance, pois de romance se tratava, era muito lido em Freud nas traduções francesas, e conhecia de cor e salteado o complexo de Édipo. Vai a Censura (que tinha umas vagas noções a tal respeito) e apreende-Ihe(?) a obra, dando-lhe assim uma aura de prestígio! Depois venham dizer-nos que não tivemos génios comparáveis aos de BlumsburyVirginia Woolf, Kate Mansfield, ou mesmo um Forster ou um Lytton Strachy! (Perdão, duvido que estes dois últimos tivessem escrito aquele brado incestuoso, não só por medo às autoridades, mas porque ambos eram de escola do amor-ao-contrário!)
Diz-me esta mulher ainda jovem, mas tão experiente como atraente: «Com os rapazes novos, faz-se muito amor – nem sempre satisfatório! – e a conversa é pouca ou de menos interesse; ao contrário, com um homem maduro e de espírito, faz-se pouco amor, mas passam-se horas de convívio delicioso!» 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

PUNIR

Ali ao Rato, o carro estaca inesperadamente. Há um instante de silêncio e, como a paragem se prolonga, as cabeças voltam-se, de sobrecenhos carregados, e ouvem-se os primeiros murmúrios de impaciência: «Então que há? Isto anda ou não anda?», etc. Há movimento, perguntas, convívio, curiosidade em todas as fisionomias. Alguns passageiros soerguem-se no assento para ver melhor.
É cedo. Está uma linda manhã, e eu sinto-me bem neste eléctrico. Em todo o caso, olho também, sem pressa, numa solidariedade instintiva com a vizinhado lado, bonita, narizito friorento num rosto de Primavera. Em baixo, no pavimento, está um pequeno grupo, donde, contra o hábito, não saem gritos, insultos nem protestos: o condutor, um agente de polícia, um rapazote e outros comparsas anónimos. O rapaz, ar de empregado sem categoria, orelhas transparentes e dobradas no rebordo superior (sinal de degenerescência?), olhos hesitantes e descoloridos de espanto, a boiar como cortiças na água, deve ter dezassete anos. Pálido, horrivelmente branco! É o «vilão».
Percebo agora que o condutor, embaraçado com a mala, e com mais alguma coisa que não se vê de fora, e nem ele próprio percebe o que seja, fala em tom de queixa para o agente. Apuro o meu ouvido de burguês curioso destes casos de rua, desta crónica viva que acidade escreve a cada hora. O rapazito, viajante assíduo nesta linha, fez-se passar durante muito tempo, fraudulentamente, por «assinante». Fingia que tinha passe, como qualquer pessoa de bem, com fundos, afazeres, vejam lá que esperteza! Desta vez caiu: «Há tempos que eu andava desconfiado… Mas a gente, na boa-fé!»
Uma pequena burla, hã? Isto diverte-me. A vida anda cheia destas mínimas fraudes, quase sempre impuníveis. E ele tem um ar de timidez honrada. Vão-se lá fiar! Quem lhe ensinaria a manha? Talvez ninguém. A natureza põe nas almas dos homens incoercíveis fermentos de maldade, germes invisíveis de pecado e transgressão. Concebeu solitariamente o seu delito, e vivia feliz de o praticar em segredo, como um bruxo ou alquimista. Tem a palidez dos responsáveis, a consciência morde-o com certeza, talvez o medo, e esboça uma tímida defesa.
O polícia, entretanto, vai tomando notas severas e definitivas, molha laboriosamente o lápis curto, mal aparado, nos beiços grossos. Não encara com o rapaz, que tem agora o ar dum passarito apanhado na rede. Interroga-o, pede nomes, moradas, elementos seguros para a complexidade dos autos. Ao virar-se, avisto-lhe os olhos negros, convergentes, congestivos, e penso involuntariamente se não serão talvez assim os olhos da Justiça, por isso lhos vendaram…
Vai-se juntando gente. Indiferentes como eu às origens secretas do drama, os passageiros protestam mais alto: «Não temos nada com isso! Levem-no prà esquadra, e acabou-se. Toca a andar!» (Há mesmo um que se ergue e puxa com decisão a campainha.)
Nem todos percebem o que se passa. Travam-se conversas entre desconhecidos, que o interesse de chegar a horas solidariza. E depois, não há como um acidente, um pequeno drama, para aproximar os homens, de outro modo alheios entre si. Um de cabelos brancos, vermelho (presumo que seja cobrador), diz assim: «Os condutores andam agora como cães em cima da gente!» E outro diz: «São ordens que eles têm!» Alguém, numa voz em que adivinho uma satisfação, relembra a morte daquele condutor, há tempos, agredido com um pontapé no baixo-ventre por um passageiro exaltado… Somos todos da «classe média», território social e economicamente indefinido: apesar disso, sinto em torno de mim um vago aplauso às violências contra estes homens de farda correcta, cor de pinhão, e boné agaloado, tão incapazes como nós de reagir contra as injustiças e as prepotências. O delito paira, anda disperso. Um fundo de maldade inconsciente em cada homem! E por fora, a indiferença. Porque foi que este rapaz burlou? porque mentiu? Olho-o de novo, e a palidez, a expressão dele impressionam-me. Implora, tem lágrimas nos olhos. É destes rapazolas que frequentam os cinemas baratos, de bairro excêntrico, onde a chuva canta num telheiro de zinco.
– Não foi por mal...
Desculpa tola! O agente acabou de tomar notas, importante, e o grupo movimenta-se. Afinal o rapaz vai preso. Segue connosco, e o condutor, pálido e trémulo do esforço de ser mau (segundo ele crê: de ser justo), trepa ao carro e dá duas violentas campainhadas. Partimos. O rapazote, de pé no estribo, suspenso dum balaústre ao lado do cívico imponente, agarra o sofretudo safado pelos ombros, contra o vento, e continua a implorar com os olhos lacrimejantes, a tartamudear súplicas incompreensíveis. E de repente, este público até agora indiferente começa a erguer os seus lamentos! Imaginem que o rapaz tem de estar no escritório daqui a dez minutos, quando não, adeus emprego! O condutor passa por nós e procura evitar o nosso olhar. Já pensaram no que é para ele a cadeia? A perda do salário, o desgosto da mãe… Que tremendo castigo! Não lhe basta a vergonha, o susto que apanhou? Sim, mas se amanhã recomeça? – Sentindo a nossa solidariedade, ele volta-se para o condutor, e este, horrorizado com a responsabilidade, pensa no dever, na Companhia, desvia os olhos e diz: «Isso agora é com o senhor guarda, não é comigo! Um homem tem que cumprir com a sua obrigação!» E o senhor guarda, olhando por cima das cabeças do público, compõe o cinturão com dignidade: «Isso não é comigo. Lá na esquadra veremos!»
O eléctrico larga-os numa paragem qualquer, e despede a nove. Não posso evitar um aperto na garganta e uma quase lágrima indiscreta. A minha vizinha da esquerda empalideceu, e os seus olhitos negros, abertos e espantados, não param. Todos os passageiros comentam agora, tardiamente condoídos, a sorte do pequeno. Amanhã, noutro carro, hei-de ouvi-los protestar, indignados, quando o tribunal, impotente para castigar este delito entre tantos, mandar em paz o empregadito sem emprego, mais amarelo e mais magro: «A Justiça é uma capa de ladrões!»
O que há de instável e contraditório nas nossas almas! Temos ao mesmo tempo o desejo colérico de punir, e o temor de punir. Queremos a repressão do crime, e a nossa vida está cheia de grandes e pequenos delitos escondidos. Se o condutor se esquece de nos cortar o bilhete, viajamos de graça, contentíssimos com a fraude (todos gostamos de fazer uma pirraça aos ingleses!), e aterrados com a ideia do vexame que seria se ele nos descobrisse. Chegamos a apear-nos antes do nosso destino, com uma amargura que anula o gozo da burla. No dia seguinte pagamos prontamente o bilhete, para apaziguar a consciência, e é o vizinho do lado que se «esquece», ou vira a cara a olhar as montras, ou mergulha na leitura do jornal. Então é que é ver a minha raiva: lanço-lhe de revés um olhar irónico, intencional, denunciante: «Bem te percebo o jogo, meu melro!» Ponho bem em evidência o meu bilhete (até lhe decoro o número, para evitar confusões), e, como ele continua impassível, cada vez que o condutor se detém a percorrer com um olhar de dúvida o nosso banco, fito-o com força magnética, a dizer intimamente: «Aqui à minha esquerda… Sim, aqui vai um!» E tenho a certeza de que raros entregam desinteressadamente à polícia a pulseira de brilhantes que encontraram a noite passada, ao sair do teatro. (Brilhantes, que exagero! Eu nunca tive a sorte de achar nada.) É por medo, é por medo. Se fosse uma nota de cem escudos…
Por isso eu nunca gostei de ser jurado. Já o fui duas vezes, e não me lembro de ter ajudado a condenar senão dois ou três criminosos repugnantes e um assassino. Condenar para quê, e com que direito? A Umbelina, então, diz-me assim: «Tu és agora algum anarquista?! Que ideia! Cumpre o teu dever, e deixa-te de esquisitices!» Para ela tudo são esquisitices.
Mas eu tenho cá as minhas razões. Imaginem que uma tarde, ao escurecer, entrei no Serras a comprar um charutinho para depois do jantar. Ainda não tinham acendido as luzes, por espírito de economia, suponho eu. O vendedor, muito solícito, abriu-me meia dúzia de caixas em cima do balcão, e virou-se a atender outro freguês. Naquela penumbra, oh senhor, não sei que vontade me deu de tirar três ou quatro charutos, e no fim pagar um só. Felizmente o patrão acendeu os lampiões (era no tempo do gás) e eu respirei fundo, e fiquei muito contente de continuar a ser um homem honrado. Paguei, vou a dar volta para sair, e que vejo eu? Um raio dum fedelho que me deita a mão à bengala de castão de prata, que eu tinha pendurado na borda do balcão, e abala a fugir pela rua abaixo! Largo atrás dele, agarra agarra, e se os populares mo não tiram das unhas partia-lhe o pau-ferro de estimação (presente do meu sogro) nos lombos.
Levaram-no preso. Nessa noite, acreditem, o charuto amargou-me como fel. Dormi mal e, logo pela manhã, fui à esquadra pedir que o pusessem em liberdade. Tinha sido uma tentação, disse eu, e eu estava na posse da bengala, e coisa e tal. Impossível: era um flagrante delito, e o preso já tinha ido para o Governo Civil, agora a Lei seguia os seus trâmites. O rapaz não se pôde afiançar, esteve meses no Limoeiro à espera de julgamento, e eu consegui esquecê-lo. Quando me chamaram a depor, no dia da audiência, declarei muito simplesmente que nada queria do réu, nem sequer o reconhecia, e que me parecia um exagero mandar um fedelho daquela idade para a cadeia por causa duma tentação gorada. O meritíssimo juiz nem me deu ouvidos: cascou-lhe quinze dias de prisão e multa (porque era a «primeira vez!») para lhe ficar de lembrança, levando em conta o tempo de prisão já sofrida, e eu, eu fiquei com o remorso de o ter precipitado no caminho do crime, só Deus sabe. Nunca hei-de esquecer o olhar de ódio que ele me lançou: já era o dum profissional!
E aqui está como nós somos.
Fracos perante a necessidade irremediável de punir, impotentes para prevenir os males que nos afligem colectivamente, somos duma ferocidade implacável quando estamos a sós. Condenaríamos à morte se não tivéssemos de suportar o olhar de censura do condenado. Cobardes!
De jornal aberto em frente e guardanapo ao pescoço, curvado sobre a cebolada do almoço, eu reclamo em família a pena capital, a prisão perpétua, o degredo, os trabalhos forçados, para os criminosos de que os faits-divers me dão todos os dias o rosário longo: quero sossego, quero ordem, quero decência. Burguês tímido, reverente, acobardado, por necessidade, imposição, conformismo ou medo, por uma transmissão atávica de humildade, incapaz de me revoltar abertamente contra o mal que me fazem, contra o mal que faço – sou duro no íntimo, e cruel. Quero Justiça intransigente, rectilínea e fria – e o meu coração dilui-se na piedade, como um torrão de açúcar no chá quente.
Punir (Seara Nova, 1928)

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

El fantasma de Monnet (fragmento)

" El ideal europeo tiene paralelos en otras partes del mundo. Los gobernantes chinos, hasta el día de hoy, han estado obsesionados con el control central, la unidad continental y la armonía social -es decir, una sociedad sin conflicto político-. La idea de que los intereses de la gente pueden estar en conflicto, o que naturalmente están en conflicto, no es fácil de admitir. La idea de Mao de una revolución permanente fue una aberración en la historia del pensamiento político chino.
No es difícil imaginar por qué la noción de un mundo pacífico, sin fronteras, en el que se superaban las divisiones políticas y los conflictos, resultaba profundamente atractiva después de la Segunda Guerra Mundial. Muchos culparon al nacionalismo de ser el mal supremo que prácticamente había destruido Europa. Un mundo sin conflicto político parecía la receta para una felicidad absoluta. Monnet era un tecnócrata nato, que odiaba el conflicto político y casi hizo un fetiche de la unidad. (En 1940, cuando Hitler parecía indomable, Monnet sugirió a Winston Churchill que Francia y Gran Bretaña podían fundirse en un solo país). Al igual que todos los tecnócratas, Monnet también era un planificador nato. En esto, también, era un hombre de su época. Muchos ya creían antes de la guerra que las economías y las sociedades debían ser lo más planificadas posibles. El New Deal de Franklin Roosevelt fue un ejemplo, al igual que el estado fascista, de una manera más siniestra. Y también lo es hoy China, gobernada por ingenieros y otros tecnócratas sin rostro.
El ideal post-1945 de una Europa unida era, en gran medida, el arquetipo de un planificador, una Utopía tecnocrática. Y, ciertamente para Monnet y los otros fundadores de la Europa de posguerra, era un ideal absolutamente benigno y hasta noble.
El problema con los tecnócratas, sin embargo, es que tienden a ignorar las consecuencias políticas de sus propios planes. Actúan como si la política no existiera o realmente no importara.
Christine Lagarde, directora gerente del Fondo Monetario Internacional, es un buen ejemplo. Su comentario reciente de que no siente ninguna compasión por el sufrimiento de los griegos, porque ellos deberían haber pagado sus impuestos, ha sido ampliamente criticado por ser no sólo insensible, sino hipócrita (como diplomática, ella misma no paga impuestos). De hecho, es el sentimiento típico de un tecnócrata que carece de sentido político.
La austeridad económica asfixiante, impuesta por burócratas no electos desde Bruselas y Washington, no sólo es una calamidad social, sino que también plantea una amenaza peligrosa para la democracia. Cuando las personas pierden la fe en que las instituciones democráticas vayan a protegerlas, recurren al extremismo.
Y así, a menos que suceda un milagro, la bomba de tiempo al interior del bello ideal de la Europa de posguerra está por estallar. "


Ian Buruma (Holanda, 1951)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O MILAGRE

Eu não ia muito em milagres. Mas no pretérito dia 8 de Janeiro assisti a um fenómeno que deixou o meu cepticismo um pouco abalado. Foi o caso.
As aldeias circunjacentes à albufeira dos Pisões acordaram debaixo dum espesso nevoeiro ribeirinho.
Nem todos saberão o que é que eu quero dizer com este ribeirinho. Pois não tem nada que saber. Ribeirinho vem de Ribeira. E Ribeira, nos meus tempos de aprendiz de almocreve, era tudo o que ficava para lá da Serra do Pindo: «Não fora o Pindo e a Panadeira, todos os burros iam à Ribeira.» Assim nem todos. Porque subir das ribas do Tâmega ao Planalto Barrosão com quatro almudes de vinho em odres sobre a albarda, o pipo da aguardente num dos alforges e a borracha e a merenda no outro, não era para qualquer burro. Exigia cascos rijos e nem todos os tinham.
Hoje já ninguém vai ao vinho à Ribeira. De burro, entenda-se. A vida mudou. E os fenómenos atmosféricos também.
No meu tempo de rapaz dizia-se: Janeiro, estropeadeiro. E a razão está à vista. De dia brilhava o sol e o chão amolecia. De noite caiam grandes geadas e a lama dos caminhos solidificava. Como toda a minha gente usava socos ferrados, de manhã era uma estropeada nessas ruas que aturdia tudo.
Hoje o sol continua a brilhar de dia e as grandes geadas a caírem de noite. Mas como já ninguém usa tamancos ferrados, os amantes das grandes manhãs na cama podem dormir descansados.
Outra recordação que guardo desses Janeiros de sol tios meus tempos de garoto e pastor de cabras, era a de subir ao Coto do Seixo, o pico mais alto do termo de Peireses, e avistar, para nascente, a Veiga de Chaves debaixo de nevoeiro. Visto assim de longe e de alto, aquilo até era bonito: um mar de algodão em rama muito quieto e alvadio com os cocurutos dos montes a sobressaírem dele como ilhotas,
Mas se, em dias desses, um homem tinha de ir à Ribeira, ao aproximar-se de Chaves, era como sair duma casa inundada de sol e mergulhar numa câmara frigorífica. Até o pingo nos cristalizava na ponta do nariz.
Felizmente, nunca me lembro de, nesses meus tempos de garoto e pastor de cabras, esse nevoeiro ribeirinho transvazar para Barroso. Quando muito, atrevia-se a espreitar à portela do Fontão, sobranceira a Boticas, e daí não passava.
Com a construção das barragens, tudo se modificou. E agora, por mal dos nossos pecados, acordamos frequentemente debaixo desse estuporado nevoeiro dos vales.
Quando acordo e o pressinto pelas frinchas da janela, mal me atrevo a deitar o nariz fora da porta.
Mas no pretérito dia 8 de Janeiro, eu tinha um compromisso: a Festa da Música de Parafita.
Não era um nevoeirozito qualquer que me ia impedir de ir a Parafita. Era o que faltava. Perder o calor humano da Festa de Parafita? Nem pensar,
Meti-me no carro e ala que se faz tarde.
Estavam ainda na missa. Cerimónia a grande instrumental, a cinco padres, muito povo.
Ombro em aríete, consegui um lugarzinho dentro da capela.
Fora, o nevoeiro continuava cada vez mais assapado e álgido.
Ite, missa est, os músicos empunharam os instrumentos e irromperam rua fora num alegro, vivace, andante, à Parafita.
E foi então que o milagre se deu. De repente, o nevoeiro levantou e o sol bateu-nos em cheio no rosto. 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

1 de Outubro de 1977

Como sabem todos os estudiosos da literatura francesa, o título Le Rouge et le Noir do célebre romance de Stendhal, intrigante e críptico, tem sido objecto de discussões e das mais variadas interpretações. Pois bem, acabo de descobrir – ao ler por acaso algures uma referência à banca de jogo vermelho e preto! – que essa é precisamente a ideia do romancista: o vermelho e o preto da roleta que é a vida humana!
«No céu de veludo negro da noite as estrelas estrelejavam…» Achei esta imagem de um meu aluno a mais apropriada a dar-nos ideia das noites de céu limpo de Inverno em que sentimos estalar (estralejar!) a geada debaixo das solas dos sapatos!