terça-feira, 9 de outubro de 2012
9 de Outubro de 1977
• Receita cultural.
Cinco grãos de ballet russo (o de terceira ordem, saloio,
cá para a pacoviânia), outros tantos de folclore
romeno, três e meio de quarteto
húngaro, um ou dois de cinema checo, duas
palestras de literatura
polaca – com um delgado icing de
estruturalismo (marca Tel-Quel) e um
molho de orquestra internacional; leve-se ao forno da nossa inocência ao rubro,
e sirva-se bem quente; eis o pudim
chamado «Cultura portuguesa»! (Estarás tu desiludido, ó meu querido Lopes Graça?)
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
8 de Outubro de 1977
• Todas as manhãs,
quando as dores físicas não me apoquentam, antes de dar início aos meus
afazeres (de pobre escritor!), levo uma boa hora a reconciliar-me com a ideia
de que me é indispensável continuar a viver.
S. Martinho de Anta, 8 de Outubro de 1980
S. Martinho de Anta, 8 de Outubro de 1980
– Homem de
muitas letras, não sei se suspeitoso de que a flagrância do natural fique
sempre aquém da literatura que o reflecte, quis ver para crer. E veio de Paris
passear a suspicácia cartesiana nesta realidade agreste que pintei nos livros e
agora lhe escancarei sem a mediação das palavras. Creio que regressa rendido e
que leva que contar. A serra, de tão celta, parecia enfeitiçada; o Doiro,
pasmado aos pés de S.
Leonardo, era um espelho de eternidade; e o roncão que bebeu nunca mais lhe
vai sair do paladar. Nisso, ninguém me bate. Quando aqui recebo alguém, sou um
anfitrião de êxito seguro. Graças aos recursos em que este chão é pródigo, os
meus hóspedes partem duplamente obsequiados. Fascino-lhes os sentidos e embriago-lhes
a memória.
domingo, 7 de outubro de 2012
Dia 7 [Outubro de 2009]
Dias felizes
O excelente artigo de Umberto Eco intitulado «Um blogger chamado Saramago» que havia sido publicado há alguns dias no La Repubblica, apareceu hoje no El País e aparecerá amanhã nas páginas do Diário de Notícias. Esse conjunto de textos breves, baptizado por mim para a edição em livro com o nome discreto de O Caderno, nasceu com sorte. Passado já ao castelhano, ao catalão e ao italiano, encontrou agora o melhor dos valedores possíveis na pessoa de Umberto Eco, cuja perspicaz análise vem sabiamente temperada pela graça da escrita e pela subtileza do humor. Não tenho o direito de alongar-me, muito menos comentar o que Eco escreveu. Basta-me a felicidade que sinto. Ao correr de todos estes anos, outros livros meus foram acolhidos com generosidade e simpatia, mas nenhum como este. Sou, neste momento, o mais grato dos escritores.06 de Outubro de 2009
José Saramago, O CADERNO
sábado, 6 de outubro de 2012
6 de Outubro de 1977
• Ao encontro de Berlim, em que os partidos
comunistas europeus resolveram assumir a liberdade de acção, tanto quanto à
doutrina como quanto à prática aconselhadas por Moscovo, coisa que só ingénuos
(como Le
Monde e até o New York Times) podem tomar a sério, há quem o
interprete assim:
1) As
Harmonias Discordantes.
2) Os Acordes
Dissonantes.
3) O
Desconcerto Harmonioso.
4) A Sinfonia
Desconcertante, ou ainda,
5) A Concertante Desafinação…
• «Já tenho a cura para todos os
teus males!»
«Dize lá qual é?»
«Vai prò CURARE!»
• Eu sou aquele
português anónimo a quem o presidente-general Costa Gomes, na recepção
que ofereceu aos portugueses no Hotel Waldorf-Astoria,
de Nova Iorque, após uma
breve troca de palavras e com um aperto de mão, respondendo a uma pergunta
minha, declarou em alta e bem timbrada voz: «EU SOU POR NATUREZA UM MODERADO!»
O que causou a consternação de alguns presentes.
• «Ai mãezinha! Ai
mãezinha!», gemeu o estudante provinciano, ao montar-se na idosa patroa da
«república», de propósito para demonstrar (o mafarrico!) que o autor do
romance, pois de romance se tratava, era muito lido em Freud nas traduções
francesas, e conhecia de cor e salteado o complexo de Édipo. Vai a Censura (que
tinha umas vagas noções a tal respeito) e apreende-Ihe(?) a obra, dando-lhe
assim uma aura de prestígio! Depois venham dizer-nos que não tivemos génios
comparáveis aos de Blumsbury
– Virginia Woolf, Kate Mansfield, ou
mesmo um Forster
ou um Lytton Strachy!
(Perdão, duvido que estes dois últimos tivessem escrito aquele brado
incestuoso, não só por medo às autoridades, mas porque ambos eram de escola do
amor-ao-contrário!)
• Diz-me esta mulher
ainda jovem, mas tão experiente como atraente: «Com os rapazes novos, faz-se
muito amor – nem sempre satisfatório! – e a conversa é pouca ou de menos
interesse; ao contrário, com um homem maduro e de espírito, faz-se pouco amor,
mas passam-se horas de convívio delicioso!»
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
PUNIR
Ali ao Rato,
o carro estaca inesperadamente. Há um instante de silêncio e, como a paragem se
prolonga, as cabeças voltam-se, de sobrecenhos carregados, e ouvem-se os
primeiros murmúrios de impaciência: «Então que há? Isto anda ou não anda?»,
etc. Há movimento, perguntas, convívio, curiosidade em todas as fisionomias.
Alguns passageiros soerguem-se no assento para ver melhor.
É cedo. Está
uma linda manhã, e eu sinto-me bem neste eléctrico. Em todo o caso, olho
também, sem pressa, numa solidariedade instintiva com a vizinhado lado, bonita,
narizito friorento num rosto de Primavera. Em baixo, no pavimento, está um
pequeno grupo, donde, contra o hábito, não saem gritos, insultos nem protestos:
o condutor, um agente de polícia, um rapazote e outros comparsas anónimos. O
rapaz, ar de empregado sem categoria, orelhas transparentes e dobradas no
rebordo superior (sinal de degenerescência?), olhos hesitantes e descoloridos
de espanto, a boiar como cortiças na água, deve ter dezassete anos. Pálido,
horrivelmente branco! É o «vilão».
Percebo agora
que o condutor, embaraçado com a mala, e com mais alguma coisa que não se vê de
fora, e nem ele próprio percebe o que seja, fala em tom de queixa para o
agente. Apuro o meu ouvido de burguês curioso destes casos de rua, desta
crónica viva que acidade escreve a cada hora. O rapazito, viajante assíduo nesta
linha, fez-se passar durante muito tempo, fraudulentamente, por «assinante».
Fingia que tinha passe, como qualquer pessoa de bem, com fundos, afazeres,
vejam lá que esperteza! Desta vez caiu: «Há tempos que eu andava desconfiado…
Mas a gente, na boa-fé!»
Uma pequena
burla, hã? Isto diverte-me. A vida anda cheia destas mínimas fraudes, quase
sempre impuníveis. E ele tem um ar de timidez honrada. Vão-se lá fiar! Quem lhe
ensinaria a manha? Talvez ninguém. A natureza põe nas almas dos homens
incoercíveis fermentos de maldade, germes invisíveis de pecado e transgressão.
Concebeu solitariamente o seu delito, e vivia feliz de o praticar em segredo,
como um bruxo ou alquimista. Tem a palidez dos responsáveis, a consciência
morde-o com certeza, talvez o medo, e esboça uma tímida defesa.
O polícia,
entretanto, vai tomando notas severas e definitivas, molha laboriosamente o
lápis curto, mal aparado, nos beiços grossos. Não encara com o rapaz, que tem
agora o ar dum passarito apanhado na rede. Interroga-o, pede nomes, moradas,
elementos seguros para a complexidade dos autos. Ao virar-se, avisto-lhe os
olhos negros, convergentes, congestivos, e penso involuntariamente se não serão
talvez assim os olhos da Justiça, por isso lhos vendaram…
Vai-se
juntando gente. Indiferentes como eu às origens secretas do drama, os passageiros
protestam mais alto: «Não temos nada com isso! Levem-no prà esquadra, e acabou-se.
Toca a andar!» (Há mesmo um que se ergue e puxa com decisão a campainha.)
Nem todos
percebem o que se passa. Travam-se conversas entre desconhecidos, que o
interesse de chegar a horas solidariza. E depois, não há como um acidente, um
pequeno drama, para aproximar os homens, de outro modo alheios entre si. Um de
cabelos brancos, vermelho (presumo que seja cobrador), diz assim: «Os
condutores andam agora como cães em cima da gente!» E outro diz: «São ordens
que eles têm!» Alguém, numa voz em que adivinho uma satisfação, relembra a
morte daquele condutor, há tempos, agredido com um pontapé no baixo-ventre por
um passageiro exaltado… Somos todos da «classe média», território social e
economicamente indefinido: apesar disso, sinto em torno de mim um vago aplauso
às violências contra estes homens de farda correcta, cor de pinhão, e boné
agaloado, tão incapazes como nós de reagir contra as injustiças e as
prepotências. O delito paira, anda disperso. Um fundo de maldade inconsciente
em cada homem! E por fora, a indiferença. Porque foi que este rapaz burlou? porque
mentiu? Olho-o de novo, e a palidez, a expressão dele impressionam-me. Implora,
tem lágrimas nos olhos. É destes rapazolas que frequentam os cinemas baratos,
de bairro excêntrico, onde a chuva canta num telheiro de zinco.
– Não foi por
mal...
Desculpa
tola! O agente acabou de tomar notas, importante, e o grupo movimenta-se.
Afinal o rapaz vai preso. Segue connosco, e o condutor, pálido e trémulo do
esforço de ser mau (segundo ele crê: de ser justo),
trepa ao carro e dá duas violentas campainhadas. Partimos. O rapazote, de pé no
estribo, suspenso dum balaústre ao lado do cívico imponente, agarra o sofretudo
safado pelos ombros, contra o vento, e continua a implorar com os olhos
lacrimejantes, a tartamudear súplicas incompreensíveis. E de repente, este
público até agora indiferente começa a erguer os seus lamentos! Imaginem que o
rapaz tem de estar no escritório daqui a dez minutos, quando não, adeus
emprego! O condutor passa por nós e procura evitar o nosso olhar. Já pensaram
no que é para ele a cadeia? A perda do salário, o desgosto da mãe… Que tremendo
castigo! Não lhe basta a vergonha, o susto que apanhou? Sim, mas se amanhã
recomeça? – Sentindo a nossa solidariedade, ele volta-se para o condutor, e
este, horrorizado com a responsabilidade, pensa no dever, na Companhia, desvia
os olhos e diz: «Isso agora é com o senhor guarda, não é comigo! Um homem tem
que cumprir com a sua obrigação!» E o senhor guarda, olhando por cima das
cabeças do público, compõe o cinturão com dignidade: «Isso não é comigo. Lá na
esquadra veremos!»
O eléctrico
larga-os numa paragem qualquer, e despede a nove. Não posso evitar um aperto na
garganta e uma quase lágrima indiscreta. A minha vizinha da esquerda
empalideceu, e os seus olhitos negros, abertos e espantados, não param. Todos
os passageiros comentam agora, tardiamente condoídos, a sorte do pequeno.
Amanhã, noutro carro, hei-de ouvi-los protestar, indignados, quando o tribunal,
impotente para castigar este delito entre tantos, mandar em paz o empregadito
sem emprego, mais amarelo e mais magro: «A Justiça é uma capa de ladrões!»
O que há de
instável e contraditório nas nossas almas! Temos ao mesmo tempo o desejo
colérico de punir, e o temor de punir. Queremos a repressão do crime, e a nossa
vida está cheia de grandes e pequenos delitos escondidos. Se o condutor se
esquece de nos cortar o bilhete, viajamos de graça, contentíssimos com a fraude
(todos gostamos de fazer uma pirraça aos ingleses!), e aterrados com a ideia do
vexame que seria se ele nos descobrisse. Chegamos a apear-nos antes do nosso
destino, com uma amargura que anula o gozo da burla. No dia seguinte pagamos
prontamente o bilhete, para apaziguar a consciência, e é o vizinho do lado que
se «esquece», ou vira a cara a olhar as montras, ou mergulha na leitura do
jornal. Então é que é ver a minha raiva: lanço-lhe de revés um olhar irónico,
intencional, denunciante: «Bem te percebo o jogo, meu melro!» Ponho bem em
evidência o meu bilhete (até lhe decoro o número, para evitar confusões), e,
como ele continua impassível, cada vez que o condutor se detém a percorrer com
um olhar de dúvida o nosso banco, fito-o com força magnética, a dizer intimamente:
«Aqui à minha esquerda… Sim, aqui vai um!»
E tenho a certeza de que raros entregam desinteressadamente à polícia a
pulseira de brilhantes que encontraram a noite passada, ao sair do teatro.
(Brilhantes, que exagero! Eu nunca tive a sorte de achar nada.) É por medo, é
por medo. Se fosse uma nota de cem escudos…
Por isso eu
nunca gostei de ser jurado. Já o fui duas vezes, e não me lembro de ter ajudado
a condenar senão dois ou três criminosos repugnantes e um assassino. Condenar
para quê, e com que direito? A Umbelina, então, diz-me assim: «Tu és agora
algum anarquista?! Que ideia! Cumpre o teu dever, e deixa-te de esquisitices!»
Para ela tudo são esquisitices.
Mas eu tenho
cá as minhas razões. Imaginem que uma tarde, ao escurecer, entrei no Serras a
comprar um charutinho para depois do jantar. Ainda não tinham acendido as
luzes, por espírito de economia, suponho eu. O vendedor, muito solícito,
abriu-me meia dúzia de caixas em cima do balcão, e virou-se a atender outro
freguês. Naquela penumbra, oh senhor, não sei que vontade me deu de tirar três
ou quatro charutos, e no fim pagar um só. Felizmente o patrão acendeu os
lampiões (era no tempo do gás) e eu respirei fundo, e fiquei muito contente de
continuar a ser um homem honrado. Paguei, vou a dar volta para sair, e que vejo
eu? Um raio dum fedelho que me deita a mão à bengala de castão de prata, que eu
tinha pendurado na borda do balcão, e abala a fugir pela rua abaixo! Largo
atrás dele, agarra agarra, e se os populares mo não tiram das unhas partia-lhe
o pau-ferro de estimação (presente do meu sogro) nos lombos.
Levaram-no
preso. Nessa noite, acreditem, o charuto amargou-me como fel. Dormi mal e, logo
pela manhã, fui à esquadra pedir que o pusessem em liberdade. Tinha sido uma
tentação, disse eu, e eu estava na posse da bengala, e coisa e tal. Impossível:
era um flagrante delito, e o preso já tinha ido para o Governo Civil, agora a
Lei seguia os seus trâmites. O rapaz não se pôde afiançar, esteve meses no
Limoeiro à espera de julgamento, e eu consegui esquecê-lo. Quando me chamaram a
depor, no dia da audiência, declarei muito simplesmente que nada queria do réu,
nem sequer o reconhecia, e que me parecia um exagero mandar um fedelho daquela
idade para a cadeia por causa duma tentação gorada. O meritíssimo juiz nem me
deu ouvidos: cascou-lhe quinze dias de prisão e multa (porque era a «primeira
vez!») para lhe ficar de lembrança, levando em conta o tempo de prisão já
sofrida, e eu, eu fiquei com o remorso de o ter precipitado no caminho do
crime, só Deus sabe. Nunca hei-de esquecer o olhar de ódio que ele me lançou:
já era o dum profissional!
E aqui está
como nós somos.
Fracos
perante a necessidade irremediável de punir, impotentes para prevenir os males
que nos afligem colectivamente, somos duma ferocidade implacável quando estamos
a sós. Condenaríamos à morte se não tivéssemos de suportar o olhar de censura
do condenado. Cobardes!
De jornal
aberto em frente e guardanapo ao pescoço, curvado sobre a cebolada do almoço,
eu reclamo em família a pena capital, a prisão perpétua, o degredo, os
trabalhos forçados, para os criminosos de que os faits-divers me dão todos os dias o rosário longo: quero sossego,
quero ordem, quero decência. Burguês tímido, reverente, acobardado, por
necessidade, imposição, conformismo ou medo, por uma transmissão atávica de
humildade, incapaz de me revoltar abertamente contra o mal que me fazem, contra
o mal que faço – sou duro no íntimo, e cruel. Quero Justiça intransigente,
rectilínea e fria – e o meu coração dilui-se na piedade, como um torrão de
açúcar no chá quente.
Punir
(Seara Nova, 1928)
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
El fantasma de Monnet (fragmento)
" El ideal europeo tiene paralelos en otras partes del mundo. Los gobernantes chinos, hasta el día de hoy, han estado obsesionados con el control central, la unidad continental y la armonía social -es decir, una sociedad sin conflicto político-. La idea de que los intereses de la gente pueden estar en conflicto, o que naturalmente están en conflicto, no es fácil de admitir. La idea de Mao de una revolución permanente fue una aberración en la historia del pensamiento político chino.No es difícil imaginar por qué la noción de un mundo pacífico, sin fronteras, en el que se superaban las divisiones políticas y los conflictos, resultaba profundamente atractiva después de la Segunda Guerra Mundial. Muchos culparon al nacionalismo de ser el mal supremo que prácticamente había destruido Europa. Un mundo sin conflicto político parecía la receta para una felicidad absoluta. Monnet era un tecnócrata nato, que odiaba el conflicto político y casi hizo un fetiche de la unidad. (En 1940, cuando Hitler parecía indomable, Monnet sugirió a Winston Churchill que Francia y Gran Bretaña podían fundirse en un solo país). Al igual que todos los tecnócratas, Monnet también era un planificador nato. En esto, también, era un hombre de su época. Muchos ya creían antes de la guerra que las economías y las sociedades debían ser lo más planificadas posibles. El New Deal de Franklin Roosevelt fue un ejemplo, al igual que el estado fascista, de una manera más siniestra. Y también lo es hoy China, gobernada por ingenieros y otros tecnócratas sin rostro.
El ideal post-1945 de una Europa unida era, en gran medida, el arquetipo de un planificador, una Utopía tecnocrática. Y, ciertamente para Monnet y los otros fundadores de la Europa de posguerra, era un ideal absolutamente benigno y hasta noble.
El problema con los tecnócratas, sin embargo, es que tienden a ignorar las consecuencias políticas de sus propios planes. Actúan como si la política no existiera o realmente no importara.
Christine Lagarde, directora gerente del Fondo Monetario Internacional, es un buen ejemplo. Su comentario reciente de que no siente ninguna compasión por el sufrimiento de los griegos, porque ellos deberían haber pagado sus impuestos, ha sido ampliamente criticado por ser no sólo insensible, sino hipócrita (como diplomática, ella misma no paga impuestos). De hecho, es el sentimiento típico de un tecnócrata que carece de sentido político.
La austeridad económica asfixiante, impuesta por burócratas no electos desde Bruselas y Washington, no sólo es una calamidad social, sino que también plantea una amenaza peligrosa para la democracia. Cuando las personas pierden la fe en que las instituciones democráticas vayan a protegerlas, recurren al extremismo.
Y así, a menos que suceda un milagro, la bomba de tiempo al interior del bello ideal de la Europa de posguerra está por estallar. "
Ian Buruma (Holanda, 1951)
terça-feira, 2 de outubro de 2012
O MILAGRE
Eu não ia muito em
milagres. Mas no pretérito dia 8 de Janeiro assisti a um fenómeno que deixou o
meu cepticismo um pouco abalado. Foi o caso.
As aldeias
circunjacentes à albufeira dos Pisões
acordaram debaixo dum espesso nevoeiro ribeirinho.
Nem todos saberão o
que é que eu quero dizer com este ribeirinho. Pois não tem nada que saber.
Ribeirinho vem de Ribeira. E Ribeira, nos meus tempos de aprendiz de
almocreve, era tudo o que ficava para lá da Serra do Pindo: «Não fora o Pindo e
a Panadeira, todos os burros iam à Ribeira.» Assim nem todos. Porque subir das
ribas do Tâmega
ao Planalto Barrosão
com quatro almudes de vinho em odres sobre a albarda, o pipo da aguardente num
dos alforges e a borracha e a merenda no outro, não era para qualquer burro.
Exigia cascos rijos e nem todos os tinham.
Hoje já ninguém vai ao
vinho à Ribeira. De burro,
entenda-se. A vida mudou. E os fenómenos atmosféricos também.
No meu tempo de rapaz
dizia-se: Janeiro, estropeadeiro. E a
razão está à vista. De dia brilhava o sol e o chão amolecia. De noite caiam
grandes geadas e a lama dos caminhos solidificava. Como toda a minha gente
usava socos ferrados, de manhã era uma estropeada nessas ruas que aturdia tudo.
Hoje o sol continua a
brilhar de dia e as grandes geadas a caírem de noite. Mas como já ninguém usa
tamancos ferrados, os amantes das grandes manhãs na cama podem dormir
descansados.
Outra recordação que
guardo desses Janeiros de sol tios meus tempos de garoto e pastor de cabras,
era a de subir ao Coto do Seixo, o pico mais alto do termo de Peireses,
e avistar, para nascente, a Veiga de Chaves
debaixo de nevoeiro. Visto assim de longe e de alto, aquilo até era bonito: um
mar de algodão em rama muito quieto e alvadio com os cocurutos dos montes a
sobressaírem dele como ilhotas,
Mas se, em dias
desses, um homem tinha de ir à Ribeira, ao aproximar-se de Chaves, era como sair
duma casa inundada de sol e mergulhar numa câmara frigorífica. Até o pingo nos
cristalizava na ponta do nariz.
Felizmente, nunca me
lembro de, nesses meus tempos de garoto e pastor de cabras, esse nevoeiro
ribeirinho transvazar para Barroso. Quando
muito, atrevia-se a espreitar à portela do Fontão, sobranceira a Boticas, e daí não passava.
Com a construção das
barragens, tudo se modificou. E agora, por mal dos nossos pecados, acordamos
frequentemente debaixo desse estuporado nevoeiro dos vales.
Quando acordo e o
pressinto pelas frinchas da janela, mal me atrevo a deitar o nariz fora da
porta.
Mas no pretérito dia 8
de Janeiro, eu tinha um compromisso: a Festa
da Música de Parafita.
Não era um
nevoeirozito qualquer que me ia impedir de ir a Parafita. Era o que faltava.
Perder o calor humano da Festa de Parafita? Nem pensar,
Meti-me no carro e ala
que se faz tarde.
Estavam ainda na
missa. Cerimónia a grande instrumental, a cinco padres, muito povo.
Ombro em aríete,
consegui um lugarzinho dentro da capela.
Fora, o nevoeiro
continuava cada vez mais assapado e álgido.
Ite, missa est,
os músicos empunharam os instrumentos e irromperam rua fora num alegro, vivace,
andante, à Parafita.
E foi então que o
milagre se deu. De repente, o nevoeiro levantou e o sol bateu-nos em cheio no
rosto.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
1 de Outubro de 1977
• Como sabem todos os
estudiosos da literatura francesa, o título Le Rouge et le Noir
do célebre romance de Stendhal,
intrigante e críptico, tem sido objecto de discussões e das mais variadas
interpretações. Pois bem, acabo de descobrir – ao ler por acaso algures uma
referência à banca de jogo vermelho e preto! – que essa é precisamente a ideia
do romancista: o vermelho e o preto da roleta que é a vida humana!
• «No céu de veludo
negro da noite as estrelas estrelejavam…»
Achei esta imagem de um meu aluno a mais apropriada a dar-nos ideia das noites
de céu limpo de Inverno em que sentimos estalar (estralejar!) a geada debaixo
das solas dos sapatos!
domingo, 30 de setembro de 2012
30 de Setembro de 1977
• Não sei o que vai ser
dos escritores proletarianos, neo ou sócio-realistas, quando o processo
revolucionário tiver alcançado os seus objectivos económico-políticos, e não
houver mais ricas a esfolar nem mais pobres a explorar (no bom sentido,
entenda-se!) pela literatura.
sábado, 29 de setembro de 2012
Coimbra, 29 de Setembro de 1980
Coimbra, 29 de Setembro de 1980 – Mais uma campanha
eleitoral. Mais um aturdimento retórico e falacioso de ponta a ponta de
Portugal. Não há praça sem alto-falante, rua sem bandeira, parede sem cartaz,
poste ou tronco de árvore sem símbolo partidário. A televisão e a rádio não dão
tréguas aos olhos e aos ouvidos. E os jornais vêm cheios de discursos para
todas as paixões. É um derrame de palavras a que nenhum fastio se pode esquivar
e em que no fundo ninguém acredita, de tal modo é flagrante a sua
inautenticidade. Mas a projecção do amordaçamento passado e traumatismos ainda
recentes juntam-se no retraimento colectivo. E a euforia prosélita, sem cuidar
dessas feridas, entende a passividade circundante como simpatia. Não há facção,
por insignificante que seja, que não celebre antecipadamente o triunfo.
Reduzidos a um chorrilho de estribilhos, os programas mais antagónicos parecem
iguais na obsessão sonora. O sonho primaveril de um país renascido, lúcido,
saudavelmente apostado em dignificar os seus padrões de liberdade, sem
confundir a abertura de espírito com a ausência de critério, deu nisto: a
tirania silenciosa de outrora a vingar-se na demagogia ruidosa de agora.
29 de Setembro de 1977
• «Só há no mundo uma
maneira de amar, e o amor é uma delícia!», diz ela, sem explicações. E ele: «Há
tantas maneiras de amar quantos os espíritos individuais!»
• O que mais me assusta
é este constante roçadilho de corpos hostis e de espíritos opiniosos,
intransigentes, inconciliáveis, mas no fundo pueris, que entre nós é o chamado
convívio.
• «Ah, que beleza a
destes primitivos ou naturais!», brada uma excursionista recém-chegada das
ilhas do mar de Caribe (que
nós, servilmente afrancesados, chamamos «as Caraíbas»). «Mas, minha boa amiga,
pois então ainda se não deu conta de que eles são professional natives – indígenas profissionais – que vivem à custa
dos turistas pacóvios, e em especial das americanas em mal de amor?»
• NEUTRO?! De modo algum!
Muitíssimo do Contra! Do Contra-Tudo-e-Todos, Gregos e Troianos! Homem só da
vigilante oposição do culto da verdade – doa a quem doer! A começar por ele
próprio!
• «O meu erro», diz este
idealista arrependido: «Só tarde me ter dado Conta de que vivia e lutava entre (e
a favor!) de videirinhos, oportunistas, hipócritas – e burros! De todos os que
aderem a um só ideal: o Emprego!»
• Eu escolhi o
anonimato, a obscuridade, a modéstia do viver, a humildade (que não deves
confundir com a humilhação!) –, e um orgulho paradoxal, mais ardente que o sol
de Julho, no dizer do poeta. Tudo isso, junto, me assegurou a verdadeira
liberdade, que é a independência pessoal. Cujo preço porém é sempre
exorbitante!
• «Não há esquerdas nem direitas!
São mitos!», brada o Mestre ilustre, para quem a «questão de regime» também não
tem importância.
«Mas, Mestre: o
senhor acredita no Céu e no Inferno?»
«Nem a
brincar!»
«Porque são
mitos também! E, no entanto, têm dado frutos históricos, políticos, éticos e
sociais de incalculável alcance! Os mitos são realidades imponderáveis, tão
eficazes como as doutrinas, as ideologias, as demonstrações pelo absurdo, e as
outras realidades… espirituais!»
«O mito é o nada que é tudo.» F. Pessoa.
• O amor das mulheres
dava-lhe tais contrariedades, ciúmes, tormentos, conflitos e perdas de tempo,
que ele chegou a preferir (embora com muita pena) que elas o deixassem
definitivamente em paz, para poder consagrar-se ao seu trabalho. Bom, com uma
pequena interrupção ocasional, de longe em longe, dizia, para aliviar!
• As teorias futuristas
e cubistas de «dinamismo» – decomposição de movimentos ou de objectos, como em Nu Descendo a Escada de Marcel Duchamp, ou o Cão à Trela de Bolla – falharam por
completo: deram imagens curiosas, de multiplicidade, mas tão imóveis como
inutilmente complicadas. Aliás, a Arte – a obra de Arte – não exprime, não
traduz, não representa, imita ou interpreta senão o que é ela própria. Além de
que cada objecto (paisagem, pessoa, seja o que for) pode ter mil diversas
«representações», conforme o estilo, o gesto, a hora, a luz, o meio empregado,
a disposição do artista ou do sujeito, etc. O objecto da Arte é o objecto de
Arte.
• Os povos, como os
indivíduos, carregam o peso dos seus erros passados. O mal é que, uns como os
outros, nem sempre o sabem fazer alegremente, ou, pelo menos, com equanimidade.
• Ainda foi no tempo
distante do liceu. Diz-me o X., confidendaI: «Se estou apaixonado, morro; se o
não estou… não vivo! Que te parece isto?» «Parece-me Camões!»
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Dia 28 [Setembro de 2009]
Formentor
O homem põe,
porém são as circunstâncias as que dispõem. Depois de tantos meses saboreando
por antecipação a projectada viagem a Mallorca, o encontro com
amigos, o debate anunciado, eis que as razões de uma saúde que necessita ser
vigiada vieram desaconselhar a deslocação: as já citadas circunstâncias e
acasos determinaram que alguns exames que devo fazer coincidissem com as
datas do encontro. Paciência. Haverá outros Formentor e em algum
deles estarei. Estas palavras dirijo-as a todos os participantes do encontro,
conferencistas e público. Exprimem o meu pesar pela forçada ausência, mas, ao
mesmo tempo, querem dar testemunho da importância da continuidade de Formentor,
tanto pelas obrigações contraídas no passado como pelas esperanças que o seu
regresso vai trazer à definição de novas estratégias no plano da acção
cultural. O espírito livre de Formentor dos anos 60 deve ser revivificado, e
este é o momento exacto para fazê-lo. Todos sentimos que soou a hora de
levantar outra vez a palavra para promover a reflexão livre e, que não se
escandalizem os ouvidos castos, a justa dissidência. Disso se trata: dissentir
é um dos dois direitos que faltam à Declaração
dos Direitos Humanos. O outro é o direito à heresia. Os participantes do «velho»
Formentor, entre os quais, além de Carlos Barral, me apraz
recordar o meu colega José Cardoso Pires,
sabiam-no, todo o seu empenho se orientou no sentido de uma necessária desmitificação
de conceitos e na aclaração da função social do escritor, com independência de
laços ideológicos ou partidários. Falemos claro e entender-nos-emos uns aos
outros. A todos saúdo, amigos e desconhecidos, a Perfecto
Cuadrado, e também a Juan
Goytisolo a quem quero deixar expressos nesta breve declaração todo o meu
respeito e toda a minha admiração.
José Saramago, O CADERNO
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
S. Martinho de Anta, 27 de Setembro de 1980
QUIETUDE
Que poema de paz agora me
apetece!
Sereno,
Transparente,
A sugerir somente
Um rio já cansado de correr,
Um doce entardecer,
Um fim de sementeira.
Versos como cordeiros a
pastar,
Sem o meu nome, em baixo, a
recordar
Os outros que cantei a vida
inteira.
27 de Setembro de 1977
• Tu que dizes amar a solidão,
mas vives rodeada de gente que de algum modo te serve, compreenderás que eu não
sei passar sem a minha audiência (ou meu «público» na tua expressão) e, no
entanto, vegeto na mais espessa e irrespirável solidão? Essas raras «exibições»
em que me vês admirado, querido, aplaudido, e no fundo lisonjeado, deixam-me
num profundo desgosto de mim mesmo, do antieu, acabrunhado e dorido ao ponto de
não poder escrever – e por vezes, até, obcecado e apavorado pela ideia do suicídio
que já me perseguira depois das euforias dos quinze anos? Mas é bom ter consciência
disso: um preventivo da tentação.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
S. Martinho de Anta, 26 de Setembro de 1980
S. Martinho de Anta, 26 de Setembro de 1980 – Apanha da fruta. É dos
poucos gostos que ainda tenho na vida. Trepar por elas acima e fazer prodígios
de equilíbrio na crista das macieiras e pereiras. Volto de repente à infância,
mas agora a depenar cada pernada sem medo que o dono do pomar me venha puxar as
orelhas.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
O FATO COÇADO
Tenho destes
hábitos antigos e modestos, que contrastam com o tempo em que vivo: pura sair à
noite, a dar o meu giro digestivo, nada me agrada tanto como envergar um fato
de há cinco ou seis anos, que as exigências do ofício e os rogos da Umbelina
relegaram para um canto do nosso guarda-roupa. Assenta-me como uma luva, nunca
me pareceu tão bem cortado, tão despretensioso, tão cómodo e discreto. «Já hoje
se não faz disto!», digo eu contente. E não. O próprio facto de estar um tanto
fora da moda (na gola, sobretudo) lhe dá não sei que apuro e distinção. Traz
mesmo uma pontinha de cheiro a naftalina, que lisonjeia o meu olfacto amigo da
conservação. Dois ou três anos que passou a bom recato, ao abrigo da traça,
desenrugaram-lhe as mangas e quase desvaneceram os vestígios do uso. Parece
outro, repousado. «Parece novo!», diz a Umbelina, regalada, a acaricia-lo com a
escova sedosa. E com esta vantagem sobre as coisas novas: não me exige nenhum
esforço de adaptação, sinto-me nele à vontade, sem este ar de novidade que
sempre me embaraça. As coisas usadas parecem mais familiares, mais pessoais,
menos cerimoniosas ou exibicionistas. Nem os amigos e conhecidos (o Almeida!)
que encontro na rua param a cumprimentar-me com a habitual discrição lusitana:
«Bravo, seu Artur! Com que então, farpela nova, hã? Donde é que lhe veio a
herança?» – e tal. Como se eu não
o tivesse bem ganho com o suor do rosto. Positivamente, estes nossos amigos não
nos perdoam o que se chama uma camisa lavada. Mas conseguem intimidar-me,
dar-me um remorso do privilégio. Além disso, há três coisas que, entre outras,
eu detesto soberanamente: provar um fato, cortar as unhas, ir ao barbeiro ou ao
dentista. Chego a preferir este último, palavra de honra.
Saio de casa
muito senhor de mim, gozando, de mãos nos bolsos e cigarro na boca, e penso:
«Quero eu cá saber que eles reparem?
(Reparar, dar nas vistas, o que irão dizer, etc., são formas da minha imensa
boa educação, do meu senso lusíada das «maneiras».) Saibam que tenho lá em
casa, para as ocasiões, um belo fato novo cor de mosto, às riscas, que desejo
poupar como se poupam as raras horas de alegria!» Compreenderiam eles?
De mim para
mim, orgulho-me deste nobre sentido da poupança. A certeza de que um rasgão
aberto na manga pela aresta duma chapa de zinco traiçoeira ou a mancha de
ripolin duma porta pintada de fresco me não impossibilitarão de sair amanhã de
manhã às minhas ocupações, dá-me uma sensação de conforto e bem-estar, quase de
felicidade. Chegar a casa e dizer assim à patroa: «Olha lá se fosse o novo, hã?
Que sorte!» Ou então ouvi-la: «Se não tivéssemos
outro, estavas bem arranjado!» (Tudo o que temos, incluindo as minhas roupas,
temos em comum, na dela.)
Aqui entre nós,
chega-me a apetecer dar-lhe uma tesourada, só para experimentar a inefável
alegria das dores irremediáveis. Mas nem pensar nisso! Sempre me pareceu
abominável destruir só pelo prazer de. Um crime anti-social. Não, que este
paletó (por sinal trago-o hoje vestido), no dia em que eu não precisar mais dele,
ainda pode fazer o agasalho de um pobre. E então agora, que vêm tantos bater a
esta porta, novos e velhos, desempregados, a pedir um trapo usado para se
aquecer! Mas vou adiando sempre o acto generoso. E espicaça-me um remorso: Para
que diabo é que eu hei-de conservar tão ciosamente a roupa velha? Não é porque
nós poupamos que falta aos pobres: é pelo que lhes não damos, ou lhes tiramos… Já
me tem acontecido ela dar uma coisa minha a um pedinte: o meu primeiro impulso,
ao sabê-lo, é de irritação; depois compreendo-a, e chegamos os dois às lágrimas…
Continuo a
matutar: «Que me importa a mim molhar hoje os pés, dentro deste par de sapatos
velhos, se eu sei que amanhã poderei confortavelmente encaixá-los no forro
quente e espesso das botas de calf
inglês, soda dupla, que me esperam lá em casa, sólidas, impermeáveis,
imponentes como dois granadeiros de S. M. Britânica, e como ela indestrutíveis?
Ah, não há nada, para saber o que vale um par de botas novas, como andar um dia
inteiro à chuva e na lama, com um par de sapatos rotos nos pés!» ([i])
Se eu sei... E a ideia surge-me assim, com toda a nitidez: o que
verdadeiramente importa, nestes dias de Inverno, não é andar de calçado gasto e
com pés alagados: é não ter lá em casa um par de sapatos novos para mudar.
Isto até me
sugere uma teoria nova (com sua licença) da Dor: a Dor é em geral um sentimento
relativo e social, quase uma abstracção. O que me faz sofrer, o que me fere e
magoa, não é a dor das fibras e dos ossos, mas as suas causas e condições, a
privação relativa, os contrastes, o ridículo, o orgulho ferido, a humilhação em
que o desastre ou o acidente me colocam. Sem isso, a Dor seria muito mais
tolerável, quase indiferente. Chego a ter vontade de dizer: a Dor (esta
maiúscula está-me a parecer um bocado retórica, mas enfim!) pertence ao domínio
da Sociologia. Mas cautela aí com o paradoxo! Creiam que até já deixei de
acreditar nos cidadãos bem cuidados, bem nutridos, mimados, que me vêm falar da
sua Dor (vá lá outra vez com D), da Angústia, e coisas parecidas. No fundo,
talvez não passe de remorso.
Vejam por
exemplo o Albino, coitado: o Albino chegou outro dia ao escritório com cinco
minutos de atraso. (Ê muito pontual.) Daí a pouco ninguém parava com o fedor a
benzina. Todos se queixavam, menos ele. Estava com o nariz enterrado no Borrador.
Até foi preciso abrir as janelas. «Que raio de pivete a benzina!», disse o
Ponce. «Algum de vocês matou hoje o bicho com benzina?» Risota geral… O Albino,
coitado, moita. Vermelho até à raiz do cabelo.
Compreendo bem
a sua humilhação: teria de confessar que não tem outro casaco. A benzina o
denuncia. Vida de estreiteza, de poupança. É a mãe, velhota e viúva, com quem
ele mora por não ter meios (ou ter medo) de casar, que lhe inspeciona as roupas
e lhe tira as nódoas. Estou a vê-lo nessa manhã, em mangas de camisa, em pé no
meio da casa, a bater os queixos com frio, cheio de impaciência: «Então, mãe,
não me demore, criatura! Por sua causa vou chegar tarde ao emprego!» E pela
tarde, ao voltar a casa: «Não me torne a limpar a roupa com essa bodega! Foi
uma chuchadeira pegada no escritório!» E a velhota: «Mas ó filho, tu não hás-de
andar agora com a roupinha cheia de nódoas, como um moço de taberna! Deixá-los
rir. Ao menos, porco ninguém te pode chamar.»
Há pessoas
assim, foram criadas na «decência», no «parece-mal», e o sonho delas é ir ali
para o Alto-do-se-m’intendes com uma camisa lavada e uma roupinha decente.
Perca-se tudo menos a vergonha. É quanto a vida lhes oferece, contra os
sacrifícios que por ela fazem.
Está visto que
o fedor da benzina, em si, pode incomodar, mas não deprime. (A mim dá-me volta
ao estômago, são idiossincrasias. A civilização do petróleo, do motor Diesel,
arrasa-me! Mas há quem goste, e até quem beba o pitrolino misturado com cachaça!) O que humilha, o que dói – cá
estou na minha teoria – e a sensação de acanhamento que ele produz. Anda um
homem pela rua, ou seja onde for, a espiar os outros, encolhido, vexado, a ver
se lhes descobre nos olhos, nas ventas arreganhadas, algum sinal de percepção irritada.
É como ter uma doença repugnante à vista, ou ter praticado um acto menos limpo.
É corno ter comido, por exemplo, açorda de alho, e passar o dia a restituir a
alma dele na cara do parceiro. Vexames!
É o fato, o
fato único, esta espiga. Isso é que dói. Quando os outros têm quatro ou cinco –
ou cem. Não é tanto o não ter que dói, como sentir que outros têm, ou têm
demais, o que nos falta. Mas não vamos nós além da Bota!
Ninguém teria
ousado perguntar àquele cavalheiro de idade, tão sereno e composto, o que é que
ele levava embrulhado debaixo do braço com tanto cuidado. Algum jarrão da Índia,
quem sabe lá. Ou um cache-pot de
faiança. Quase elegante que ele ia, com o seu embrulho sobraçado. E de repente
– nem sei como aquilo foi, acho que me distraí a olhar um par de meias de seda
que passou com pernas dentro – sei que ouvi um estoiro, e que o vi estendido ao
comprido, lorpamente chapado no passeio. Parece que andamos sempre à procura de
acidentes que nos tornem solidários: mais uma vez corremos uns quantos a
ajudá-lo, pusemo-lo em pé, apanhámos-lhe o chapéu, sacudimos-lhe o pó da roupa.
Magoou-se? Não foi nada. Só o susto… E o embrulho? A guita tinha-se partido, o
papel rebentara, e descobrimos o que ele levava dentro: um objecto redondo,
para uso íntimo e nocturno, com uma asa, feito em mil cacos! Mas não é tudo:
dentro da faiança barata iam bem um quilo de cebolas, que rebolaram alegremente
ao longo da valeta, em liberdade. Cebolas! (Dá vontade de dizer Cebolório!) Era impossível apanhá-las
uma por uma e metê-las no vaso escavacado. O vexame do sujeito foi tão grande
que eu até virei a cara, envergonhado. Se fosse comigo tinha chorado, podem ter
a certeza; tinha fugido, eu sei lá, capaz até de me divorciar como protesto
contra tais obrigações matrimoniais. Se fosse um jarrão de porcelana! E cheio
de bolas de ténis ou golf! Mas de
cebolas! Em volta do pobre homem foi um escarcéu de risota. E os garotos a
trazer-lhe as cebolas uma por uma. Com ar de troça…
Estas
humilhações é que doem. A dor é isso. A da pobreza envergonhada, ou da que se
quer fazer passar por outra coisa. Os dentes só nos doem verdadeiramente quando
sabemos que não podemos ir ao dentista.
Ainda outro
dia, nas corridas de obstáculos da Matinha: o visconde de Pregalhos levou um
tombo de alto lá com ele. Milagre foi não ter partido aquele espinhaço, que
além de ser o cabide onde traz suspenso o canastro de heráldica elegância, é
hoje a derradeira esperança legítima de continuidade das ancestrais virtudes da
Casa.
Muitos ais,
algum sangue, delíquios, correrias, gritinhos, ajuntamento em volta da automaca…
Mas qual, as costelas partidas não lhe doeram absolutamente nada. Portou-se –
dizem os círculos selectos – «com a estóica serenidade com que os seus Maiores
aguentavam os golpes dos Infiéis nas rudes Batalhas de Antanho». (Gosto imenso
destas palavras arcaicas. E então em maiúsculas! Oxalá não venham por aí abaixo
outros infiéis com outras batalhas menos de antanho.) Noite e dia velam-no,
além das zelosas irmãzinhas dos enfermos, anjos-da-guarda que Deus põe à
cabeceira dos cavaleiros caídos, as mais delicadas e nervosas flores da
aristocracia e da elegância. Grandes nomes. Herdeiras. Embaixatrizes. Umas
santas! (Também se fala em cenas de ciúmes.)
É muito
provável que, a tardar a soldadura das costelas felizmente fracturadas, se
restaure por um bom casório aquela espinha que os embaraços financeiros, também
históricos na Casa, traziam algo desviada do primitivo aprumo.
Foi uma honra,
uma distinção, um reclamo. O visconde, sistematicamente um dos últimos
classificados do steeple-chase,
viu-se de um instante para o outro guindado a herói do dia, e apalpa agradecido
os lombos equimosados. Acredito mesmo que os vencedores, abandonados e
esquecidos, com as suas taças de prata e diplomas de honra, se torcem de inveja
diante das objectivas pressurosas da imprensa. Aquele triunfo na derrota, ou
ascensão na queda, nunca eles o hão-de perdoar ao venturoso enfermo.
E o visconde,
na cama, todo envolto em ligaduras e adesivos, aromas, desinfectantes e
sorrisos de mel, põe os olhos no Crucificado e agradece-lhe a imperícia com que
Ele o dotou para os saltos de barreira e cancela. Abençoada fractura, dor
bendita! – Não tarda muito que um elegante casamento…
(Resolvi agora
mesmo dar o tal fato usado a um pobre.)
(Inédita, 1926-27)
Aquilegia formosa
Aquilegia formosa, uma planta nativa da América conhecida pela suas flores pendentes com esporas vermelhas.
domingo, 23 de setembro de 2012
Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
S. Martinho de Anta, 23 de Setembro de 1980
S. Martinho de Anta, 23 de Setembro de 1980 – A aflição de ver fugir o
tempo quando necessitamos dele para levar a cabo a tarefa de o perpetuar!
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
21 de Setembro de 1977
• O velho humorista Câmara
Lima, queixando-se um dia ao actor Taborda dos seus inexplicáveis achaques,
repetiu-lhe, lamentoso, o que o médico lhe receitara por todo e único remédio:
«O que o senhor precisa é de ter ralações! Arranje coisas que o apoquentem!»
Taborda ouviu-o com paciência, e no fim: «Então até mais ver, senhor Câmara
Lima. E Deus lhe dê muitas apoquentações como tanto precisa!»
Fica comigo
Fica comigo. Daqui
a nada é noite e as noites custam, a mim custam, sobretudo quando os candeeiros
da rua se acendem e as árvores e os prédios fronteiros logo diferentes, quase
ninguém na rua, um miúdo com um cão lá ao fundo, uma tristeza parada na tonalidade
do silêncio, estes móveis e estes retratos que não me ligam nenhuma, os teus passos
na escada, tu no passeio: nem vou à janela olhar, não quero olhar. Fica comigo
só mais um bocadinho, dez minutos, meia hora, sei lá, o tempo inteiro. Mesmo
que não fales. Mesmo que leias a revista do jornal. Mesmo que não me toques.
Mesmo como se eu não existisse. Há alturas, imagina, em que penso que não
existo e depois vem a aflição, o medo, o meu pulso tão rápido, a voz da minha
mãe, do fundo da infância
– o que se
passa contigo?
e não sei
explicar, é impossível explicar porque não se passa nada de concreto, mãe,
podia responder que uma coisa vaga e todavia não se trata de uma coisa vaga,
trata-se de uma coisa real, verdadeira, uma sede não de água, de não sei quê,
uma aflição de perda embora, que eu saiba, não tenha perdido nada, parece que
está tudo como deve ser à minha volta e não está, não compreendo o que falta
mas não está, tem paciência ajuda-me, fica comigo, não peço muito pois não, é
difícil isto, talvez não compreendas mas é difícil isto, não preciso que finjas
que te interessas, não preciso que me dês atenção, apenas, como dizia o outro,
um estar aí que é já tanto, sentir-te respirar, sentir o teu cheiro, contento-me
com pouco, vês, uma respiração, um cheiro, a minha mãe
– Foi sempre tão
sensível aos cheiros começou a franzir-se logo com um ano ou dois
e embora seja
um bocadinho exagerada, há alguma mãe que não exagere, é capaz de ser verdade
mais ano menos ano, mais mês menos mês, daqui a nada, já viste, é noite e as noites
custam, quando tinha febre pensava
– Daqui a
pouco
é dia e
sentia-me melhor como se o dia me salvasse ignorava de quê, na realidade não
salvava de nada, o aspirador pela casa inteira, ruídos que eu imaginava que me
confortavam e não confortavam nem meia, chinelos, loiça, um
– Poça
quando se
trilhava ou quebrava uma unha, havia sempre adesivo num dedo no esforço de
salvar a unha, a importância que a minha mãe dava às unhas, herdei isso dela
para além do nariz, nunca vi narizes tão iguais, o meu pai
– Foste logo
herdar o mais feio olha que pontaria a tua
e de facto
tive pontaria, fui logo herdar o mais feio, ainda se fosse a boca, ainda se fossem
os olhos, a boca que pede
– Fica comigo
os olhos que a
acompanham calados
– Fica comigo
tu, para
dentro, contrariado
– Estou feito
tu para dentro
a odiares-me
– Olha-me esta
odiares-me
exagero, farto
– Estou bem
arranjado
que se percebe
na prega da testa, uma concessão aborrecida
– Fumo um cigarro
e vou
os cigarros
eram a tua medida, fumo um cigarro e faço isto, fumo um cigarro e faço aquilo,
és a única pessoa que marca o tempo pelos cancros do pulmão, o meu pai teve um,
coitado, para o fim parecia um passarinho, ainda me disse num fio, na véspera
de falecer
– Que ideia a
tua ires logo buscar o nariz julgo que com ciúmes de não lhe ter ido buscar
parte nenhuma e realmente, sempre podia ficar-lhe com a barriga mas não engravidei
nunca, graças a Deus, apesar de solteira fazia as minhas coisas mas tomava cuidado,
eles não não queriam casar
– Estamos melhor
assim não estamos?
não estávamos
melhor assim mas de que me servia contrariá-los, a verdade é que também não
insistia muito, acabava por dar-lhes razão, pensava
– Estamos melhor
assim
cada um com a
sua liberdade eu que queria lá saber da liberdade, queria um homem em casa, mas
detesto passar camisas a ferro e ver o estendal da marquise cheio de peúgas a
secarem sinceramente não me apetecia, um homem dá um trabalhão que não acaba,
quando adoecem chás atrás de chás, moribundos, piegas, quando não estão doentes
não param na sala, há sempre o velório do tio de um amigo, sempre um rapaz que
precisa de uma mãozinha no carburador do automóvel à noite, chegadas de madrugada
porque os carburadores complicados e além disso cheiram a perfume e deixam
marcas de baton no colarinho, que esquisitos os carros, o teu cigarro já a
meio, tu em silêncio, as últimas fumaças de pé
– Disse que
até acabar o cigarro
e a chupá-lo
como um danado, de bochechas côncavas, a cara de repente magrinha, uma argola
de fumo, duas argolas de fumo, o filtro esmagado no cinzeiro
– Vou andando
enquanto eu
gritava para dentro
– Fica comigo
embora calada,
quer dizer ouvias de certeza as minhas súplicas caladas porque respondias
– Talvez volte
amanhã
e quando um
homem promete
– Volto amanhã
refere-se a
daqui a um mês, isto com sorte, a desculpa ao telefone
– Tenho tido
trabalho que nunca mais acaba
e o trabalho que
nunca mais acaba a loira do cabeleireiro que, por ser gorda, exige tempo, mais
segredinhos, mais cócegas naquela extensão toda, por acaso conheço-a
– Tudo bem
Florbela?
brincos que
são argolas enormes, vestido três números abaixo, o cãozinho, nota-se o soutien
à transparência sustentando dois mundos, se te digo
– A Florbela
uma expressão
de espanto
– Quem é?
mas os
olhinhos alarmados que não enganam ninguém, a Florbela mais nova do que eu,
vinte e sete, vinte e oito anos e eu quase quarenta, um princípio de papada,
uma variz traiçoeira, um cabelo branco que encontrei ontem no espelho, não,
três, qualquer dia vou à Florbela pintar isto, os cabelos brancos, palavra de
honra, desanimam, a Florbela
– Não há quem te
ponha a vista em cima
eu, para dentro
– E a ti não
há quem te estrangule cabra acompanho-te à porta sem coragem de repetir
– Fica comigo
visto cá de
cima, do patamar, uma rodela de calvície, já te agarras ao corrimão, já desces
mais devagarinho, a porta da rua fecha-se quase sem barulho, isto é num estrondo
insuportável, volto para dentro, sento-me no sofá, comparo o meu peito com o da
Florbela e perco, comparo-me toda com a Florbela e perco, a minha mãe faleceu
igualmente, há seis meses, sobra o seu nariz na minha cara, alguma coisa sua permanece,
já viu e, à falta de melhor, sorrio. Não sei a quem se destina o sorriso mas
alguém há-de encontra-lo um dia destes.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
APETECE-ME!
Sigo ao longo
desta rua da Baixa, no tumulto da gente ociosa que vagueia e da gente apressada
que regressa a casa, à hora em que o sol, já ruivo, se despede dos telhados
mais altos e flameja no Castelo. Vou de nariz no ar, gozando a tépida alegria
da minha segurança. Amo a cidade, as ruas alinhadas, o tráfego, o rumor, o
formigueiro humano, o clarão eléctrico das montras, o asfalto que a rega deixou
polido como um espelho. A cidade sorri nervosamente, e eu respondo-lhe com um
sorriso de amor. Gosto dos gestos ritmados do agente de capacete claro, que
rege a orquestra confusa e trepidante do trânsito. Olho, junto de um poste, os
eléctricos que passam, as pernas das mulheres que se descobrem, a subir e a
descer sem cessar, e os rostos felizes, sorridentes, calmos, os lábios
vermelhos, os olhares lânguidos que se oferecem das vidraças dos autos
reluzentes.
Apetece-me… Apetece-me… Nem sei o quê. E
vibro de alegria, feliz de me sentir anónimo, arrastado, nesta hora calorosa e
comovida, pela palpitação da vida urbana. Sou um burguês. Levo na mão direita,
com a bengala de malaca, suspenso dum dedo enluvado, este pequeno embrulho.
Sigo em frente, e paro junto duma frutaria que derrama na rua a complicada
rescendência dos seus frutos dispostos em filas, em renques, em pilhas, em
cestos e tabuleiros, ou suspensos de ráfias e de arames. Olho as uvas cristalinas,
voluptuosas como seios minúsculos de virgens… Como a natureza perfuma a civilização
e casa com ela os seus aromas para lhe dar um encanto maior! Detenho-me a
aspirar a graça destes frutos, que o olhar das mulheres acarida de desejos.
Frutos e mulheres, a luz do entardecer, os clarões da rua, o marulho do
tráfego, tudo parece fundir-se num mesmo perfume que me dá um desejo, uma
volúpia, uma euforia indefinível... Apetece-me!
Apetece-me!…
Nisto, vejo
adiante de mim o vulto duma llIulher Nisto, vejo adiante de mim o vulto duma
mulher humilde que passa, com mais pressa do que eu, em frente destas lojas, e
sem as olhar. Leva uma criança ao colo, embrulhada no seu mesmo xaile, e na mão
direita carrega um grande cabaz. É uma nota dissonante… Percebo-lhe as costas
magras, abauladas e tímidas. De súbito escorrega perigosamente, oscila, e cai
para a esquerda, sobre a criança! Correm pessoas alarmadas. Corro também, mas
já não chego a tempo de a ajudar. Mãos solícitas levantam-na. Ficou vermelha –
vejo-lhe o rosto magro, a expressão assustada – e o menino chora. Durante um
segundo observo a angústia do seu olhar preso no filho. Depois foge à pressa,
sem mesmo agradecer aos que a ergueram do chão. Leva a saia, as mãos e o xaile
sujos da lama viscosa do passeio. Alguém murmura: «Foi uma casca, é um perigo!»
Outros protestam: «Deviam ser obrigados a limpar os passeios!» E logo a onda
rola, indiferente, ao seu destino. Cruzam-se no ar risos, murmúrios, retalhos
de conversa. Uma cólera absurda ferve-me no peito. Mas porquê? Que lhe hei-de
eu fazer? Partir-lhe a montra? Passo também, o incidente depressa se me funde
na memória, e recaio na minha voluptuosa divagação.
Anoiteceu por
completo, as lojas engolem e vomitam clientes, os transeuntes hesitam nos
passeios, olham irresolutos as grandes montras que inundam de vivas claridades
o pavimento escuro. Mais longe, noutra rua, um velho lívido e magro leva às costas,
sobre uma saca de linhagem dobrada, um pesado tambor de ferro. Tem uma barbicha
rala, cinzento-amarelada. Os seus olhos, baços e encovados, fitam o chão com o
terror de o ver fugir. Doente? Cansado? Um velho. Arrasta a perna esquerda sob
o peso, e pára a espaços como se esperasse cair subitamente fulminado. Sigo
atrás dele, atraído, fascinado pela sua miséria, e a angústia contagia-me – sou
eu que levo o peso enorme, sou eu que vou cair exausto! Sinto os músculos
retesados do esforço, e arrasto já também a perna esquerda. Se ele pára, eu páro.
Cada paragem me parece mais longa, e mais penoso o esforço de arrancar. O
volume escorrega-lhe dos ombros, e o velho curva-se mais para ajeitá-lo melhor.
Impossível!, vai cair, vai-se despedaçar, ficar esmagado, que será dele,
depois? – A minha agonia é tamanha, que dir-se-ia aquele peso ir-me cair no
peito. Levo a mão esquerda à cara, tapo a boca para não protestar. E não posso,
não poso fazer nada! O meu embrulho, as luvas, a bengala… (Apetece-me! Apetece-me!) A multidão que passa, esta gente que
trabalha e que goza, que é forte e juvenil, e nos habituámos pelos livros a
supor que também sofre, nem sequer olha o velho, que lá segue o seu caminho,
como os animais e os carros, no asfalto da rua. Ninguém repara nele.
Sinto de novo a
cólera crescer em mim, desta vez surda, triste e impotente, contra o destino,
contra mim próprio, contra este mundo egoísta. Os pequenos sofrimentos de cada
dia deixam indiferente esta gente a um tempo simpática, brutal e singular. E eu
sou tal qual assim… «É a nossa hora!», penso com cinismo, para me consolar.
«Que fariam aos mais estes que sofrem, se pudessem também fazer sofrer!»
O velho
decididamente oscila, procura firmar-se nas pernas frouxas, trôpegas, cambadas.
A perna esquerda, esta minha perna esquerda que fraqueja! Adivinho-lhe a dor
física, agravada pela consciência da velhice condenada, inútil, que a vida
explora e calca. Crispo as mãos de raiva. Eu
sou culpado! Somos todos culpados daquele sofrimento, daqueles farrapos,
daque1a perna frouxa, daquele destino, da vala comum que um dia…
Dois homens
detêm-se (enfim!) a olhá-lo, e os seus olhares fazem coro com os meus. Ficamos
os três a distância, a avaliar o peso daquela desgraça, no meio da rua
atroadora, num protesto inerte e por enquanto mudo. Qual de nós é que ousaria… Até
que um diz: «Ladrões! Quem carrega assim um velho merecia que lhe dessem um
tiro!» (Não sei qual deles falou.) Mas alguém sabe, porventura, o que significa
esta cólera cega, inútil e cruel? Eles pararam e olharam. Eu parei e olhei. O
velho recompôs-se não sei como. «Irá ele com uma pinga a mais?», diz um deles.
Encolhem os ombros e afastam-se os dois a rir.
A minha raiva,
depois do escape das palavras anónimas, sumiu-se. E como o velho já se perde no
burburinho, sinto uma secreta advertência de que aquilo é um caso passado em
julgado. Respiro aliviado, liberto do momentâneo pesadelo da responsabilidade,
e afasto-me também, tão insensível ou prudente como os outros. São horas de me
ir chegando à janta. No meu fundo há talvez uma certa alegria, que me vem de
experimentar a piedade: a alegria de me sentir bom, de compreender a dor, de
simpatizar, de me revoltar (em palavras ou pensamentos só) contra a injustiça… Parece
que acabo eu de cumprir o meu dever!
Casos destes,
todos nós os podemos contar. De que serve flagelar-me com o remorso do meu
egoísmo, irmão de tantos outros? Julgamos cumprir o nosso sagrado dever, não é
assim, só porque experimentamos a piedade que humilha, a cólera que cega. Mas
os nossos braços caem inúteis, e as nossas mãos andam atadas às luvas, à
bengala, aos embrulhinhos…
Sou um burguês,
um burguês incorrigível!
(Seara Nova,
1927)
terça-feira, 18 de setembro de 2012
La alternativa de las barricadas
" Durante las históricas rebeliones,
sin prisas ni delirios,
con frecuencia
la gente
en las barricadas,
no discierne su significado.
Barricadas de adoquines - contra el desamparo.
Barricadas de poesía - contra la imprudencia.
Barricadas de conciencia - contra la ligereza.
En las barricadas -
no se está por la vanagloria.
Ni por capricho, ni por venganza.
Brincar - es oficio de chimpancés.
La hombría no se deja deshonrar.
Nada mundano hay en el barroco de las barricadas.
¡Lanzan la sífilis los cupidos,
cuando rehíla la bala junto al oído!
Así que demoraos en el nicho,
peces atolondrados y resbaladizos,
primeramente los más excitables,
aquellos, en particular, que padecen escalofríos.
Y, en segundo lugar, que se aleje, por favor,
quien, como si fuera un bolo, teme ser derribado.
La muerte - no es una derrota.
En las batallas victoriosas
también existen los caídos.
Bajad de las barricadas, héroes hasta la primera carga,
y detened las maniobras de los filisteos.
En las barricadas tienen derecho a estar
los rebeldes,
enemigos
y enfermeros. "
sin prisas ni delirios,
con frecuencia
la gente
en las barricadas,
no discierne su significado.
Barricadas de adoquines - contra el desamparo.
Barricadas de poesía - contra la imprudencia.
Barricadas de conciencia - contra la ligereza.
En las barricadas -
no se está por la vanagloria.
Ni por capricho, ni por venganza.
Brincar - es oficio de chimpancés.
La hombría no se deja deshonrar.
Nada mundano hay en el barroco de las barricadas.
¡Lanzan la sífilis los cupidos,
cuando rehíla la bala junto al oído!
Así que demoraos en el nicho,
peces atolondrados y resbaladizos,
primeramente los más excitables,
aquellos, en particular, que padecen escalofríos.
Y, en segundo lugar, que se aleje, por favor,
quien, como si fuera un bolo, teme ser derribado.
La muerte - no es una derrota.
En las batallas victoriosas
también existen los caídos.
Bajad de las barricadas, héroes hasta la primera carga,
y detened las maniobras de los filisteos.
En las barricadas tienen derecho a estar
los rebeldes,
enemigos
y enfermeros. "
(Ucrania, 1930)
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
S. Martinho de Anta, 17 de Setembro de 1980
S. Martinho de Anta, 17 de Setembro de 1980 – Ao alargar-me os
horizontes do mundo, com necessidades de toda a ordem a que já não posso
renunciar, a vida fez de mim um ser ubíquo. Tenho aqui as raízes de suporte e
lá longe as pastadeiras…
domingo, 16 de setembro de 2012
S. Martinho de Anta, 16 de Setembro de 1980
S. Martinho de Anta, 16 de Setembro de 1980 – Começo a desconfiar da paz
que aqui sinto. Dantes não era tanta…
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
SONETOS
I
A meu Pai doente
Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!
Que coisa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!
Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!
— Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!
II
A meu Pai morto
Madrugada de Treze de Janeiro.
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!
E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
“Acorda-o”! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!
E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...
Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!
III
Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Microrganismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.
Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!...
Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...
Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Roma, 1 de junho de 2012
Depois da
visita a lugares de interesse vário, ao Teatro Valle Occupato, à
livraria Fahrenheit do Campo
de Fiori, à Casa Internazionale
della Donna (antiga prisão de mulheres), às ruínas de Caracala, à Piazza Navona, fomos hoje
visitar a casa do poeta John
Keats e o cemitério
protestante onde estão os túmulos de Shelley e Keats. Ali lemos, na
tradução de Fernando
Guimarães (Relógio
d’Água), o poema Adonais
de Shelley escrito em
1821 em honra do jovem Keats:
“É por Adonais que choro – ele está morto!/ Chorai por Adonais, ainda que as
lágrimas/ Não libertem do gelo essa cabeça amada!”
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Veneza, 29 de maio de 21012
Ninguém pode
morrer sem visitar Veneza
pelo menos uma vez. Encontrar os espaços de silêncio e de poesia nesta cidade
sem carros é uma arte no meio de milhares de turistas. Mas consegue-se, a pé,
por pontes, becos, ruas estreitas e canais. Instalámo-nos no velho Palazzo
Mocenigo, o mesmo onde Byron
viveu, perto da Ponte
Accademia. Hoje é possível, embora difícil, alugar naquele edifício um
estúdio no rés-do-chão encostado ao Grande Canal.
Sai mais barato do que um hotel. Sente-se que se está em casa própria, vendo o
espelho de água, os vaporettos,
os cais, as gôndolas,
as luzes, o movimento. Hoje de manhã fomos apanhados pelo terramoto e a casa
dançou levemente como se estivesse em cima de uma jangada, sobre lamas e
estacas. Ontem estivemos no caríssimo e emblemático café literário Florian, na Piazza S. Marco.
Imperdível.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Dia 11 [Setembro de 2009]
O regresso
A sessão de
evocação da obra e da figura de Jorge de Sena, realizada
no Teatro de São Carlos
em 10 de Julho de 2008, teve um título que a esta distância facilmente
parecerá premonitório: Jorge de Sena – Um
regresso. Para falar do autor de Sinais de Fogo
reunimos ali, além de um representante da Fundação, para o caso o seu patrono,
algumas das pessoas mais qualificadas do pensamento literário e critico
português: Eduardo
Lourenço, Vítor
Aguiar e Silva, Jorge
Fazenda Lourenço e António Mega
Ferreira, cujas participações contaram com a inteligente moderação do
ministro da Cultura, José
António Pinto Ribeiro. A sala do São Carlos estava cheia até às torrinhas,
o que mostra que a premonição, se o era, estava a ser partilhada por umas
quantas centenas de pessoas. Houve leitura de poemas por Jorge
Vaz de Carvalho e o pianista António
Rosado interpretou composições sobre as quais Sena havia escrito. Quem
esteve lá não esquecerá nunca. No final a Fundação ofereceu a cada um dos participantes
um estojo com chaves: as que deveriam abrir as portas necessárias para que
Jorge de Sena regressasse definitivamente ao seu país. Não, não foi premonição.
Simplesmente, o que tem de ser, tem de ser e tem muita força. A força de todas
aquelas pessoas, quase um milhar, unidas no mesmo pensamento: que volte Jorge
de Sena, que volte já. Voltou, enfim. Não sei se ficámos mais ricos. Mais conscientes
das nossas responsabilidades, sim. Poucas coisas agradariam tanto a Jorge de
Sena.
José Saramago, O CADERNO
Winifred (1927)
Localização: Coleção Particular
Autor: Ben Nicholson
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Lucca, 20 de maio de 2012
Dia de chuva,
para contentamento da Hélia. Uma pausa no calor de final de Maio. Estamos na
bela Toscana dos bosques,
das aldeias, dos vales, das Villas e dos Alpes Apuanos. Bom ar
fresco, respiração aberta, paisagem verdíssima e forte, arvoredo denso que
constrói túneis enormes. A natureza fascina-nos. Por alguma razão, para os
italianos da classe média e para os estrangeiros ricos é “bem” ter uma casa na
Toscana.
Lucca fica a poucas
dezenas de quilómetros de Pisa.
Conhecida pelas ruas estreitas e pela antiga praça principal de magnifica arquitectura
– praça do Teatro
Romano, redonda, pequena, com o casario cheio de janelas e portadas, com
entradas em arco. Lucca possui também umas termas famosas, os Bagni de Lucca,
igualmente frequentadas pelos Shelley.
Após umas
corridas, já que dispenso chuva pesada e fria, chegamos ao antigo e lindíssimo
Caffé Literário Caselli, hoje chamado Simo,
na via Fillungo. Mantém a
traça com balcões, vidraças, espelhos, cadeiras de madeira, salas, mesas de
tampo de mármore, muitas luzes e um piano. Existe uma placa evocativa do senhor
Caselli, amigo de escritores
e pintores, e um mural onde se pode ver as caras de Quasimodo, Benedetti, Ungaretti, Mancini, Magri, entre outros. Uma foto de Puccini com a
dedicatória a Caselli assinala no alto da parede a presença do músico.
Com a roupa
num pingo, a Hélia percorreu o café deslumbrada. Pareceu-me que ia dançar. O
empregado de mesa ia no seu encalço, mas era difícil escolher um lugar, tanta era
a euforia. Pedida uma bebida quente, a Hélia protestou contra o preço invulgarmente
alto dos bolinhos secos. Não havia mais nada para comer, o pão esgotara. Ficámos
pelas bebidas. Passados minutos, o gerente do café presenteou-nos com um prato
de bolinhos. Uma oferta da casa.
Deverá ter
suposto – e acertaria – que éramos uns pobres escritores a viver um sonho
qualquer, uma memória literária que ali está guardada, uma coisa de algum modo
sagrada. Riu-se. Por momentos, os seus olhos pareceram felizes.
domingo, 9 de setembro de 2012
Golfo dos Poetas, 19 de maio de 2012
Foi fácil
chegar a Lerici, um pequeno
porto com um imponente castelo empoleirado na ponta que inspirou o pintor Arnold Bocklin, o
autor do quadro “A Ilha dos Mortos”. Bocklin viveu ao lado da Casa Magni, a
casa branca onde habitavam os Shelley, uma mansão de
dois andares e colunas, à beira-mar, que Mary odiava porque naquele tempo era
tudo mato, escuro e lixo à volta e as pessoas eram extremamente pobres e sujas.
Esse local
chama-se San Terenzo, um
minúsculo porto de pesca com os barcos recolhidos nos passeios debaixo dos pinheiros
e também com o seu pequeno castelo que contem memorabilia de Mary Shelley e se
confunde com as casas em redor,
Shelley
chamava à paisagem que avistava em frente à casa, a “Baía
Divina de Lerici”. As casas em Lerici sobem pelas colinas, disfarçadas pelo
arvoredo e rodeadas de laranjais. A paisagem é verde e azul, salpicada pelo
amarelo e cor de tijolo das moradias.
Um passeio
pedestre liga Lerici a San Terenzo, numa inesquecível viagem a pé de uma hora.
Ao longe, para lá das águas, vê-se a aldeia de Portovenere onde vivia Byron e onde tinha a sua
gruta pessoal na qual escreveu a peça The Corsair.
Conta-se que Byron vinha visitar os Shelley a nado, assim como se fosse do Cais
das Colunas ao Barreiro,
o que para o exímio nadador não era nada. Uma horita para cada lado. Levaria
certamente menos tempo do que se viesse em diligência ou a cavalo pela montanha
até La Spezzia, seguindo
depois em subidas e descidas para Lerici.
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