terça-feira, 9 de outubro de 2012

9 de Outubro de 1977

Receita cultural. Cinco grãos de ballet russo (o de terceira ordem, saloio, cá para a pacoviânia), outros tantos de folclore romeno, três e meio de quarteto húngaro, um ou dois de cinema checo, duas palestras de literatura polaca – com um delgado icing de estruturalismo (marca Tel-Quel) e um molho de orquestra internacional; leve-se ao forno da nossa inocência ao rubro, e sirva-se bem quente; eis o pudim chamado «Cultura portuguesa»! (Estarás tu desiludido, ó meu querido Lopes Graça?) 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

8 de Outubro de 1977

Todas as manhãs, quando as dores físicas não me apoquentam, antes de dar início aos meus afazeres (de pobre escritor!), levo uma boa hora a reconciliar-me com a ideia de que me é indispensável continuar a viver. 

S. Martinho de Anta, 8 de Outubro de 1980

S. Martinho de Anta, 8 de Outubro de 1980 Homem de muitas letras, não sei se suspeitoso de que a flagrância do natural fique sempre aquém da literatura que o reflecte, quis ver para crer. E veio de Paris passear a suspicácia cartesiana nesta realidade agreste que pintei nos livros e agora lhe escancarei sem a mediação das palavras. Creio que regressa rendido e que leva que contar. A serra, de tão celta, parecia enfeitiçada; o Doiro, pasmado aos pés de S. Leonardo, era um espelho de eternidade; e o roncão que bebeu nunca mais lhe vai sair do paladar. Nisso, ninguém me bate. Quando aqui recebo alguém, sou um anfitrião de êxito seguro. Graças aos recursos em que este chão é pródigo, os meus hóspedes partem duplamente obsequiados. Fascino-lhes os sentidos e embriago-lhes a memória.

domingo, 7 de outubro de 2012

Dia 7 [Outubro de 2009]

Dias felizes
       O excelente artigo de Umberto Eco intitulado «Um blogger chamado Saramago» que havia sido publicado há alguns dias no La Repubblica, apareceu hoje no El País e aparecerá amanhã nas páginas do Diário de Notícias. Esse conjunto de textos breves, baptizado por mim para a edição em livro com o nome discreto de O Caderno, nasceu com sorte. Passado já ao castelhano, ao catalão e ao italiano, encontrou agora o melhor dos valedores possíveis na pessoa de Umberto Eco, cuja perspicaz análise vem sabiamente temperada pela graça da escrita e pela subtileza do humor. Não tenho o direito de alongar-me, muito menos comentar o que Eco escreveu. Basta-me a felicidade que sinto. Ao correr de todos estes anos, outros livros meus foram acolhidos com generosidade e simpatia, mas nenhum como este. Sou, neste momento, o mais grato dos escritores.
       06 de Outubro de 2009
José Saramago, O CADERNO

sábado, 6 de outubro de 2012

6 de Outubro de 1977

Ao encontro de Berlim, em que os partidos comunistas europeus resolveram assumir a liberdade de acção, tanto quanto à doutrina como quanto à prática aconselhadas por Moscovo, coisa que só ingénuos (como Le Monde e até o New York Times) podem tomar a sério, há quem o interprete assim:
1) As Harmonias Discordantes.
2) Os Acordes Dissonantes.
3) O Desconcerto Harmonioso.
4) A Sinfonia Desconcertante, ou ainda,
5) A Concertante Desafinação…
«Já tenho a cura para todos os teus males!»
«Dize lá qual é?»
«Vai prò CURARE!»
Eu sou aquele português anónimo a quem o presidente-general Costa Gomes, na recepção que ofereceu aos portugueses no Hotel Waldorf-Astoria, de Nova Iorque, após uma breve troca de palavras e com um aperto de mão, respondendo a uma pergunta minha, declarou em alta e bem timbrada voz: «EU SOU POR NATUREZA UM MODERADO!» O que causou a consternação de alguns presentes.
«Ai mãezinha! Ai mãezinha!», gemeu o estudante provinciano, ao montar-se na idosa patroa da «república», de propósito para demonstrar (o mafarrico!) que o autor do romance, pois de romance se tratava, era muito lido em Freud nas traduções francesas, e conhecia de cor e salteado o complexo de Édipo. Vai a Censura (que tinha umas vagas noções a tal respeito) e apreende-Ihe(?) a obra, dando-lhe assim uma aura de prestígio! Depois venham dizer-nos que não tivemos génios comparáveis aos de BlumsburyVirginia Woolf, Kate Mansfield, ou mesmo um Forster ou um Lytton Strachy! (Perdão, duvido que estes dois últimos tivessem escrito aquele brado incestuoso, não só por medo às autoridades, mas porque ambos eram de escola do amor-ao-contrário!)
Diz-me esta mulher ainda jovem, mas tão experiente como atraente: «Com os rapazes novos, faz-se muito amor – nem sempre satisfatório! – e a conversa é pouca ou de menos interesse; ao contrário, com um homem maduro e de espírito, faz-se pouco amor, mas passam-se horas de convívio delicioso!» 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

PUNIR

Ali ao Rato, o carro estaca inesperadamente. Há um instante de silêncio e, como a paragem se prolonga, as cabeças voltam-se, de sobrecenhos carregados, e ouvem-se os primeiros murmúrios de impaciência: «Então que há? Isto anda ou não anda?», etc. Há movimento, perguntas, convívio, curiosidade em todas as fisionomias. Alguns passageiros soerguem-se no assento para ver melhor.
É cedo. Está uma linda manhã, e eu sinto-me bem neste eléctrico. Em todo o caso, olho também, sem pressa, numa solidariedade instintiva com a vizinhado lado, bonita, narizito friorento num rosto de Primavera. Em baixo, no pavimento, está um pequeno grupo, donde, contra o hábito, não saem gritos, insultos nem protestos: o condutor, um agente de polícia, um rapazote e outros comparsas anónimos. O rapaz, ar de empregado sem categoria, orelhas transparentes e dobradas no rebordo superior (sinal de degenerescência?), olhos hesitantes e descoloridos de espanto, a boiar como cortiças na água, deve ter dezassete anos. Pálido, horrivelmente branco! É o «vilão».
Percebo agora que o condutor, embaraçado com a mala, e com mais alguma coisa que não se vê de fora, e nem ele próprio percebe o que seja, fala em tom de queixa para o agente. Apuro o meu ouvido de burguês curioso destes casos de rua, desta crónica viva que acidade escreve a cada hora. O rapazito, viajante assíduo nesta linha, fez-se passar durante muito tempo, fraudulentamente, por «assinante». Fingia que tinha passe, como qualquer pessoa de bem, com fundos, afazeres, vejam lá que esperteza! Desta vez caiu: «Há tempos que eu andava desconfiado… Mas a gente, na boa-fé!»
Uma pequena burla, hã? Isto diverte-me. A vida anda cheia destas mínimas fraudes, quase sempre impuníveis. E ele tem um ar de timidez honrada. Vão-se lá fiar! Quem lhe ensinaria a manha? Talvez ninguém. A natureza põe nas almas dos homens incoercíveis fermentos de maldade, germes invisíveis de pecado e transgressão. Concebeu solitariamente o seu delito, e vivia feliz de o praticar em segredo, como um bruxo ou alquimista. Tem a palidez dos responsáveis, a consciência morde-o com certeza, talvez o medo, e esboça uma tímida defesa.
O polícia, entretanto, vai tomando notas severas e definitivas, molha laboriosamente o lápis curto, mal aparado, nos beiços grossos. Não encara com o rapaz, que tem agora o ar dum passarito apanhado na rede. Interroga-o, pede nomes, moradas, elementos seguros para a complexidade dos autos. Ao virar-se, avisto-lhe os olhos negros, convergentes, congestivos, e penso involuntariamente se não serão talvez assim os olhos da Justiça, por isso lhos vendaram…
Vai-se juntando gente. Indiferentes como eu às origens secretas do drama, os passageiros protestam mais alto: «Não temos nada com isso! Levem-no prà esquadra, e acabou-se. Toca a andar!» (Há mesmo um que se ergue e puxa com decisão a campainha.)
Nem todos percebem o que se passa. Travam-se conversas entre desconhecidos, que o interesse de chegar a horas solidariza. E depois, não há como um acidente, um pequeno drama, para aproximar os homens, de outro modo alheios entre si. Um de cabelos brancos, vermelho (presumo que seja cobrador), diz assim: «Os condutores andam agora como cães em cima da gente!» E outro diz: «São ordens que eles têm!» Alguém, numa voz em que adivinho uma satisfação, relembra a morte daquele condutor, há tempos, agredido com um pontapé no baixo-ventre por um passageiro exaltado… Somos todos da «classe média», território social e economicamente indefinido: apesar disso, sinto em torno de mim um vago aplauso às violências contra estes homens de farda correcta, cor de pinhão, e boné agaloado, tão incapazes como nós de reagir contra as injustiças e as prepotências. O delito paira, anda disperso. Um fundo de maldade inconsciente em cada homem! E por fora, a indiferença. Porque foi que este rapaz burlou? porque mentiu? Olho-o de novo, e a palidez, a expressão dele impressionam-me. Implora, tem lágrimas nos olhos. É destes rapazolas que frequentam os cinemas baratos, de bairro excêntrico, onde a chuva canta num telheiro de zinco.
– Não foi por mal...
Desculpa tola! O agente acabou de tomar notas, importante, e o grupo movimenta-se. Afinal o rapaz vai preso. Segue connosco, e o condutor, pálido e trémulo do esforço de ser mau (segundo ele crê: de ser justo), trepa ao carro e dá duas violentas campainhadas. Partimos. O rapazote, de pé no estribo, suspenso dum balaústre ao lado do cívico imponente, agarra o sofretudo safado pelos ombros, contra o vento, e continua a implorar com os olhos lacrimejantes, a tartamudear súplicas incompreensíveis. E de repente, este público até agora indiferente começa a erguer os seus lamentos! Imaginem que o rapaz tem de estar no escritório daqui a dez minutos, quando não, adeus emprego! O condutor passa por nós e procura evitar o nosso olhar. Já pensaram no que é para ele a cadeia? A perda do salário, o desgosto da mãe… Que tremendo castigo! Não lhe basta a vergonha, o susto que apanhou? Sim, mas se amanhã recomeça? – Sentindo a nossa solidariedade, ele volta-se para o condutor, e este, horrorizado com a responsabilidade, pensa no dever, na Companhia, desvia os olhos e diz: «Isso agora é com o senhor guarda, não é comigo! Um homem tem que cumprir com a sua obrigação!» E o senhor guarda, olhando por cima das cabeças do público, compõe o cinturão com dignidade: «Isso não é comigo. Lá na esquadra veremos!»
O eléctrico larga-os numa paragem qualquer, e despede a nove. Não posso evitar um aperto na garganta e uma quase lágrima indiscreta. A minha vizinha da esquerda empalideceu, e os seus olhitos negros, abertos e espantados, não param. Todos os passageiros comentam agora, tardiamente condoídos, a sorte do pequeno. Amanhã, noutro carro, hei-de ouvi-los protestar, indignados, quando o tribunal, impotente para castigar este delito entre tantos, mandar em paz o empregadito sem emprego, mais amarelo e mais magro: «A Justiça é uma capa de ladrões!»
O que há de instável e contraditório nas nossas almas! Temos ao mesmo tempo o desejo colérico de punir, e o temor de punir. Queremos a repressão do crime, e a nossa vida está cheia de grandes e pequenos delitos escondidos. Se o condutor se esquece de nos cortar o bilhete, viajamos de graça, contentíssimos com a fraude (todos gostamos de fazer uma pirraça aos ingleses!), e aterrados com a ideia do vexame que seria se ele nos descobrisse. Chegamos a apear-nos antes do nosso destino, com uma amargura que anula o gozo da burla. No dia seguinte pagamos prontamente o bilhete, para apaziguar a consciência, e é o vizinho do lado que se «esquece», ou vira a cara a olhar as montras, ou mergulha na leitura do jornal. Então é que é ver a minha raiva: lanço-lhe de revés um olhar irónico, intencional, denunciante: «Bem te percebo o jogo, meu melro!» Ponho bem em evidência o meu bilhete (até lhe decoro o número, para evitar confusões), e, como ele continua impassível, cada vez que o condutor se detém a percorrer com um olhar de dúvida o nosso banco, fito-o com força magnética, a dizer intimamente: «Aqui à minha esquerda… Sim, aqui vai um!» E tenho a certeza de que raros entregam desinteressadamente à polícia a pulseira de brilhantes que encontraram a noite passada, ao sair do teatro. (Brilhantes, que exagero! Eu nunca tive a sorte de achar nada.) É por medo, é por medo. Se fosse uma nota de cem escudos…
Por isso eu nunca gostei de ser jurado. Já o fui duas vezes, e não me lembro de ter ajudado a condenar senão dois ou três criminosos repugnantes e um assassino. Condenar para quê, e com que direito? A Umbelina, então, diz-me assim: «Tu és agora algum anarquista?! Que ideia! Cumpre o teu dever, e deixa-te de esquisitices!» Para ela tudo são esquisitices.
Mas eu tenho cá as minhas razões. Imaginem que uma tarde, ao escurecer, entrei no Serras a comprar um charutinho para depois do jantar. Ainda não tinham acendido as luzes, por espírito de economia, suponho eu. O vendedor, muito solícito, abriu-me meia dúzia de caixas em cima do balcão, e virou-se a atender outro freguês. Naquela penumbra, oh senhor, não sei que vontade me deu de tirar três ou quatro charutos, e no fim pagar um só. Felizmente o patrão acendeu os lampiões (era no tempo do gás) e eu respirei fundo, e fiquei muito contente de continuar a ser um homem honrado. Paguei, vou a dar volta para sair, e que vejo eu? Um raio dum fedelho que me deita a mão à bengala de castão de prata, que eu tinha pendurado na borda do balcão, e abala a fugir pela rua abaixo! Largo atrás dele, agarra agarra, e se os populares mo não tiram das unhas partia-lhe o pau-ferro de estimação (presente do meu sogro) nos lombos.
Levaram-no preso. Nessa noite, acreditem, o charuto amargou-me como fel. Dormi mal e, logo pela manhã, fui à esquadra pedir que o pusessem em liberdade. Tinha sido uma tentação, disse eu, e eu estava na posse da bengala, e coisa e tal. Impossível: era um flagrante delito, e o preso já tinha ido para o Governo Civil, agora a Lei seguia os seus trâmites. O rapaz não se pôde afiançar, esteve meses no Limoeiro à espera de julgamento, e eu consegui esquecê-lo. Quando me chamaram a depor, no dia da audiência, declarei muito simplesmente que nada queria do réu, nem sequer o reconhecia, e que me parecia um exagero mandar um fedelho daquela idade para a cadeia por causa duma tentação gorada. O meritíssimo juiz nem me deu ouvidos: cascou-lhe quinze dias de prisão e multa (porque era a «primeira vez!») para lhe ficar de lembrança, levando em conta o tempo de prisão já sofrida, e eu, eu fiquei com o remorso de o ter precipitado no caminho do crime, só Deus sabe. Nunca hei-de esquecer o olhar de ódio que ele me lançou: já era o dum profissional!
E aqui está como nós somos.
Fracos perante a necessidade irremediável de punir, impotentes para prevenir os males que nos afligem colectivamente, somos duma ferocidade implacável quando estamos a sós. Condenaríamos à morte se não tivéssemos de suportar o olhar de censura do condenado. Cobardes!
De jornal aberto em frente e guardanapo ao pescoço, curvado sobre a cebolada do almoço, eu reclamo em família a pena capital, a prisão perpétua, o degredo, os trabalhos forçados, para os criminosos de que os faits-divers me dão todos os dias o rosário longo: quero sossego, quero ordem, quero decência. Burguês tímido, reverente, acobardado, por necessidade, imposição, conformismo ou medo, por uma transmissão atávica de humildade, incapaz de me revoltar abertamente contra o mal que me fazem, contra o mal que faço – sou duro no íntimo, e cruel. Quero Justiça intransigente, rectilínea e fria – e o meu coração dilui-se na piedade, como um torrão de açúcar no chá quente.
Punir (Seara Nova, 1928)

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

El fantasma de Monnet (fragmento)

" El ideal europeo tiene paralelos en otras partes del mundo. Los gobernantes chinos, hasta el día de hoy, han estado obsesionados con el control central, la unidad continental y la armonía social -es decir, una sociedad sin conflicto político-. La idea de que los intereses de la gente pueden estar en conflicto, o que naturalmente están en conflicto, no es fácil de admitir. La idea de Mao de una revolución permanente fue una aberración en la historia del pensamiento político chino.
No es difícil imaginar por qué la noción de un mundo pacífico, sin fronteras, en el que se superaban las divisiones políticas y los conflictos, resultaba profundamente atractiva después de la Segunda Guerra Mundial. Muchos culparon al nacionalismo de ser el mal supremo que prácticamente había destruido Europa. Un mundo sin conflicto político parecía la receta para una felicidad absoluta. Monnet era un tecnócrata nato, que odiaba el conflicto político y casi hizo un fetiche de la unidad. (En 1940, cuando Hitler parecía indomable, Monnet sugirió a Winston Churchill que Francia y Gran Bretaña podían fundirse en un solo país). Al igual que todos los tecnócratas, Monnet también era un planificador nato. En esto, también, era un hombre de su época. Muchos ya creían antes de la guerra que las economías y las sociedades debían ser lo más planificadas posibles. El New Deal de Franklin Roosevelt fue un ejemplo, al igual que el estado fascista, de una manera más siniestra. Y también lo es hoy China, gobernada por ingenieros y otros tecnócratas sin rostro.
El ideal post-1945 de una Europa unida era, en gran medida, el arquetipo de un planificador, una Utopía tecnocrática. Y, ciertamente para Monnet y los otros fundadores de la Europa de posguerra, era un ideal absolutamente benigno y hasta noble.
El problema con los tecnócratas, sin embargo, es que tienden a ignorar las consecuencias políticas de sus propios planes. Actúan como si la política no existiera o realmente no importara.
Christine Lagarde, directora gerente del Fondo Monetario Internacional, es un buen ejemplo. Su comentario reciente de que no siente ninguna compasión por el sufrimiento de los griegos, porque ellos deberían haber pagado sus impuestos, ha sido ampliamente criticado por ser no sólo insensible, sino hipócrita (como diplomática, ella misma no paga impuestos). De hecho, es el sentimiento típico de un tecnócrata que carece de sentido político.
La austeridad económica asfixiante, impuesta por burócratas no electos desde Bruselas y Washington, no sólo es una calamidad social, sino que también plantea una amenaza peligrosa para la democracia. Cuando las personas pierden la fe en que las instituciones democráticas vayan a protegerlas, recurren al extremismo.
Y así, a menos que suceda un milagro, la bomba de tiempo al interior del bello ideal de la Europa de posguerra está por estallar. "


Ian Buruma (Holanda, 1951)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O MILAGRE

Eu não ia muito em milagres. Mas no pretérito dia 8 de Janeiro assisti a um fenómeno que deixou o meu cepticismo um pouco abalado. Foi o caso.
As aldeias circunjacentes à albufeira dos Pisões acordaram debaixo dum espesso nevoeiro ribeirinho.
Nem todos saberão o que é que eu quero dizer com este ribeirinho. Pois não tem nada que saber. Ribeirinho vem de Ribeira. E Ribeira, nos meus tempos de aprendiz de almocreve, era tudo o que ficava para lá da Serra do Pindo: «Não fora o Pindo e a Panadeira, todos os burros iam à Ribeira.» Assim nem todos. Porque subir das ribas do Tâmega ao Planalto Barrosão com quatro almudes de vinho em odres sobre a albarda, o pipo da aguardente num dos alforges e a borracha e a merenda no outro, não era para qualquer burro. Exigia cascos rijos e nem todos os tinham.
Hoje já ninguém vai ao vinho à Ribeira. De burro, entenda-se. A vida mudou. E os fenómenos atmosféricos também.
No meu tempo de rapaz dizia-se: Janeiro, estropeadeiro. E a razão está à vista. De dia brilhava o sol e o chão amolecia. De noite caiam grandes geadas e a lama dos caminhos solidificava. Como toda a minha gente usava socos ferrados, de manhã era uma estropeada nessas ruas que aturdia tudo.
Hoje o sol continua a brilhar de dia e as grandes geadas a caírem de noite. Mas como já ninguém usa tamancos ferrados, os amantes das grandes manhãs na cama podem dormir descansados.
Outra recordação que guardo desses Janeiros de sol tios meus tempos de garoto e pastor de cabras, era a de subir ao Coto do Seixo, o pico mais alto do termo de Peireses, e avistar, para nascente, a Veiga de Chaves debaixo de nevoeiro. Visto assim de longe e de alto, aquilo até era bonito: um mar de algodão em rama muito quieto e alvadio com os cocurutos dos montes a sobressaírem dele como ilhotas,
Mas se, em dias desses, um homem tinha de ir à Ribeira, ao aproximar-se de Chaves, era como sair duma casa inundada de sol e mergulhar numa câmara frigorífica. Até o pingo nos cristalizava na ponta do nariz.
Felizmente, nunca me lembro de, nesses meus tempos de garoto e pastor de cabras, esse nevoeiro ribeirinho transvazar para Barroso. Quando muito, atrevia-se a espreitar à portela do Fontão, sobranceira a Boticas, e daí não passava.
Com a construção das barragens, tudo se modificou. E agora, por mal dos nossos pecados, acordamos frequentemente debaixo desse estuporado nevoeiro dos vales.
Quando acordo e o pressinto pelas frinchas da janela, mal me atrevo a deitar o nariz fora da porta.
Mas no pretérito dia 8 de Janeiro, eu tinha um compromisso: a Festa da Música de Parafita.
Não era um nevoeirozito qualquer que me ia impedir de ir a Parafita. Era o que faltava. Perder o calor humano da Festa de Parafita? Nem pensar,
Meti-me no carro e ala que se faz tarde.
Estavam ainda na missa. Cerimónia a grande instrumental, a cinco padres, muito povo.
Ombro em aríete, consegui um lugarzinho dentro da capela.
Fora, o nevoeiro continuava cada vez mais assapado e álgido.
Ite, missa est, os músicos empunharam os instrumentos e irromperam rua fora num alegro, vivace, andante, à Parafita.
E foi então que o milagre se deu. De repente, o nevoeiro levantou e o sol bateu-nos em cheio no rosto. 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

1 de Outubro de 1977

Como sabem todos os estudiosos da literatura francesa, o título Le Rouge et le Noir do célebre romance de Stendhal, intrigante e críptico, tem sido objecto de discussões e das mais variadas interpretações. Pois bem, acabo de descobrir – ao ler por acaso algures uma referência à banca de jogo vermelho e preto! – que essa é precisamente a ideia do romancista: o vermelho e o preto da roleta que é a vida humana!
«No céu de veludo negro da noite as estrelas estrelejavam…» Achei esta imagem de um meu aluno a mais apropriada a dar-nos ideia das noites de céu limpo de Inverno em que sentimos estalar (estralejar!) a geada debaixo das solas dos sapatos! 

domingo, 30 de setembro de 2012

30 de Setembro de 1977

Não sei o que vai ser dos escritores proletarianos, neo ou sócio-realistas, quando o processo revolucionário tiver alcançado os seus objectivos económico-políticos, e não houver mais ricas a esfolar nem mais pobres a explorar (no bom sentido, entenda-se!) pela literatura. 

sábado, 29 de setembro de 2012

Coimbra, 29 de Setembro de 1980

Coimbra, 29 de Setembro de 1980 – Mais uma campanha eleitoral. Mais um aturdimento retórico e falacioso de ponta a ponta de Portugal. Não há praça sem alto-falante, rua sem bandeira, parede sem cartaz, poste ou tronco de árvore sem símbolo partidário. A televisão e a rádio não dão tréguas aos olhos e aos ouvidos. E os jornais vêm cheios de discursos para todas as paixões. É um derrame de palavras a que nenhum fastio se pode esquivar e em que no fundo ninguém acredita, de tal modo é flagrante a sua inautenticidade. Mas a projecção do amordaçamento passado e traumatismos ainda recentes juntam-se no retraimento colectivo. E a euforia prosélita, sem cuidar dessas feridas, entende a passividade circundante como simpatia. Não há facção, por insignificante que seja, que não celebre antecipadamente o triunfo. Reduzidos a um chorrilho de estribilhos, os programas mais antagónicos parecem iguais na obsessão sonora. O sonho primaveril de um país renascido, lúcido, saudavelmente apostado em dignificar os seus padrões de liberdade, sem confundir a abertura de espírito com a ausência de critério, deu nisto: a tirania silenciosa de outrora a vingar-se na demagogia ruidosa de agora. 

29 de Setembro de 1977

• «Só há no mundo uma maneira de amar, e o amor é uma delícia!», diz ela, sem explicações. E ele: «Há tantas maneiras de amar quantos os espíritos individuais!»
• O que mais me assusta é este constante roçadilho de corpos hostis e de espíritos opiniosos, intransigentes, inconciliáveis, mas no fundo pueris, que entre nós é o chamado convívio.
• «Ah, que beleza a destes primitivos ou naturais!», brada uma excursionista recém-chegada das ilhas do mar de Caribe (que nós, servilmente afrancesados, chamamos «as Caraíbas»). «Mas, minha boa amiga, pois então ainda se não deu conta de que eles são professional natives – indígenas profissionais – que vivem à custa dos turistas pacóvios, e em especial das americanas em mal de amor?»
• NEUTRO?! De modo algum! Muitíssimo do Contra! Do Contra-Tudo-e-Todos, Gregos e Troianos! Homem só da vigilante oposição do culto da verdade – doa a quem doer! A começar por ele próprio!
• «O meu erro», diz este idealista arrependido: «Só tarde me ter dado Conta de que vivia e lutava entre (e a favor!) de videirinhos, oportunistas, hipócritas – e burros! De todos os que aderem a um só ideal: o Emprego!»
• Eu escolhi o anonimato, a obscuridade, a modéstia do viver, a humildade (que não deves confundir com a humilhação!) –, e um orgulho paradoxal, mais ardente que o sol de Julho, no dizer do poeta. Tudo isso, junto, me assegurou a verdadeira liberdade, que é a independência pessoal. Cujo preço porém é sempre exorbitante!
• «Não há esquerdas nem direitas! São mitos!», brada o Mestre ilustre, para quem a «questão de regime» também não tem importância.
«Mas, Mestre: o senhor acredita no Céu e no Inferno?»
«Nem a brincar!»
«Porque são mitos também! E, no entanto, têm dado frutos históricos, políticos, éticos e sociais de incalculável alcance! Os mitos são realidades imponderáveis, tão eficazes como as doutrinas, as ideologias, as demonstrações pelo absurdo, e as outras realidades… espirituais!»
«O mito é o nada que é tudo.» F. Pessoa.
• O amor das mulheres dava-lhe tais contrariedades, ciúmes, tormentos, conflitos e perdas de tempo, que ele chegou a preferir (embora com muita pena) que elas o deixassem definitivamente em paz, para poder consagrar-se ao seu trabalho. Bom, com uma pequena interrupção ocasional, de longe em longe, dizia, para aliviar!
• As teorias futuristas e cubistas de «dinamismo» – decomposição de movimentos ou de objectos, como em Nu Descendo a Escada de Marcel Duchamp, ou o Cão à Trela de Bolla – falharam por completo: deram imagens curiosas, de multiplicidade, mas tão imóveis como inutilmente complicadas. Aliás, a Arte – a obra de Arte – não exprime, não traduz, não representa, imita ou interpreta senão o que é ela própria. Além de que cada objecto (paisagem, pessoa, seja o que for) pode ter mil diversas «representações», conforme o estilo, o gesto, a hora, a luz, o meio empregado, a disposição do artista ou do sujeito, etc. O objecto da Arte é o objecto de Arte.
• Os povos, como os indivíduos, carregam o peso dos seus erros passados. O mal é que, uns como os outros, nem sempre o sabem fazer alegremente, ou, pelo menos, com equanimidade.
• Ainda foi no tempo distante do liceu. Diz-me o X., confidendaI: «Se estou apaixonado, morro; se o não estou… não vivo! Que te parece isto?» «Parece-me Camões!» 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Dia 28 [Setembro de 2009]

Formentor
O homem põe, porém são as circunstâncias as que dispõem. Depois de tantos meses saboreando por antecipação a projectada viagem a Mallorca, o encontro com amigos, o debate anunciado, eis que as razões de uma saúde que necessita ser vigiada vieram desaconselhar a deslocação: as já citadas circunstâncias e acasos determinaram que alguns exames que devo fazer coincidissem com as datas do encontro. Paciência. Haverá outros Formentor e em algum deles estarei. Estas palavras dirijo-as a todos os participantes do encontro, conferencistas e público. Exprimem o meu pesar pela forçada ausência, mas, ao mesmo tempo, querem dar testemunho da importância da continuidade de Formentor, tanto pelas obrigações contraídas no passado como pelas esperanças que o seu regresso vai trazer à definição de novas estratégias no plano da acção cultural. O espírito livre de Formentor dos anos 60 deve ser revivificado, e este é o momento exacto para fazê-lo. Todos sentimos que soou a hora de levantar outra vez a palavra para promover a reflexão livre e, que não se escandalizem os ouvidos castos, a justa dissidência. Disso se trata: dissentir é um dos dois direitos que faltam à Declaração dos Direitos Humanos. O outro é o direito à heresia. Os participantes do «velho» Formentor, entre os quais, além de Carlos Barral, me apraz recordar o meu colega José Cardoso Pires, sabiam-no, todo o seu empenho se orientou no sentido de uma necessária desmitificação de conceitos e na aclaração da função social do escritor, com independência de laços ideológicos ou partidários. Falemos claro e entender-nos-emos uns aos outros. A todos saúdo, amigos e desconhecidos, a Perfecto Cuadrado, e também a Juan Goytisolo a quem quero deixar expressos nesta breve declaração todo o meu respeito e toda a minha admiração.
José Saramago, O CADERNO

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

S. Martinho de Anta, 27 de Setembro de 1980


QUIETUDE

Que poema de paz agora me apetece!
Sereno,
Transparente,
A sugerir somente
Um rio já cansado de correr,
Um doce entardecer,
Um fim de sementeira.
Versos como cordeiros a pastar,
Sem o meu nome, em baixo, a recordar
Os outros que cantei a vida inteira. 

27 de Setembro de 1977

• Tu que dizes amar a solidão, mas vives rodeada de gente que de algum modo te serve, compreenderás que eu não sei passar sem a minha audiência (ou meu «público» na tua expressão) e, no entanto, vegeto na mais espessa e irrespirável solidão? Essas raras «exibições» em que me vês admirado, querido, aplaudido, e no fundo lisonjeado, deixam-me num profundo desgosto de mim mesmo, do antieu, acabrunhado e dorido ao ponto de não poder escrever – e por vezes, até, obcecado e apavorado pela ideia do suicídio que já me perseguira depois das euforias dos quinze anos? Mas é bom ter consciência disso: um preventivo da tentação. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

S. Martinho de Anta, 26 de Setembro de 1980

        S. Martinho de Anta, 26 de Setembro de 1980 – Apanha da fruta. É dos poucos gostos que ainda tenho na vida. Trepar por elas acima e fazer prodígios de equilíbrio na crista das macieiras e pereiras. Volto de repente à infância, mas agora a depenar cada pernada sem medo que o dono do pomar me venha puxar as orelhas. 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O FATO COÇADO

Tenho destes hábitos antigos e modestos, que contrastam com o tempo em que vivo: pura sair à noite, a dar o meu giro digestivo, nada me agrada tanto como envergar um fato de há cinco ou seis anos, que as exigências do ofício e os rogos da Umbelina relegaram para um canto do nosso guarda-roupa. Assenta-me como uma luva, nunca me pareceu tão bem cortado, tão despretensioso, tão cómodo e discreto. «Já hoje se não faz disto!», digo eu contente. E não. O próprio facto de estar um tanto fora da moda (na gola, sobretudo) lhe dá não sei que apuro e distinção. Traz mesmo uma pontinha de cheiro a naftalina, que lisonjeia o meu olfacto amigo da conservação. Dois ou três anos que passou a bom recato, ao abrigo da traça, desenrugaram-lhe as mangas e quase desvaneceram os vestígios do uso. Parece outro, repousado. «Parece novo!», diz a Umbelina, regalada, a acaricia-lo com a escova sedosa. E com esta vantagem sobre as coisas novas: não me exige nenhum esforço de adaptação, sinto-me nele à vontade, sem este ar de novidade que sempre me embaraça. As coisas usadas parecem mais familiares, mais pessoais, menos cerimoniosas ou exibicionistas. Nem os amigos e conhecidos (o Almeida!) que encontro na rua param a cumprimentar-me com a habitual discrição lusitana: «Bravo, seu Artur! Com que então, farpela nova, hã? Donde é que lhe veio a herança?»  e tal. Como se eu não o tivesse bem ganho com o suor do rosto. Positivamente, estes nossos amigos não nos perdoam o que se chama uma camisa lavada. Mas conseguem intimidar-me, dar-me um remorso do privilégio. Além disso, há três coisas que, entre outras, eu detesto soberanamente: provar um fato, cortar as unhas, ir ao barbeiro ou ao dentista. Chego a preferir este último, palavra de honra.
Saio de casa muito senhor de mim, gozando, de mãos nos bolsos e cigarro na boca, e penso: «Quero eu cá saber que eles reparem? (Reparar, dar nas vistas, o que irão dizer, etc., são formas da minha imensa boa educação, do meu senso lusíada das «maneiras».) Saibam que tenho lá em casa, para as ocasiões, um belo fato novo cor de mosto, às riscas, que desejo poupar como se poupam as raras horas de alegria!» Compreenderiam eles?
De mim para mim, orgulho-me deste nobre sentido da poupança. A certeza de que um rasgão aberto na manga pela aresta duma chapa de zinco traiçoeira ou a mancha de ripolin duma porta pintada de fresco me não impossibilitarão de sair amanhã de manhã às minhas ocupações, dá-me uma sensação de conforto e bem-estar, quase de felicidade. Chegar a casa e dizer assim à patroa: «Olha lá se fosse o novo, hã? Que sorte!» Ou então ouvi-la: «Se não tivéssemos outro, estavas bem arranjado!» (Tudo o que temos, incluindo as minhas roupas, temos em comum, na dela.)
Aqui entre nós, chega-me a apetecer dar-lhe uma tesourada, só para experimentar a inefável alegria das dores irremediáveis. Mas nem pensar nisso! Sempre me pareceu abominável destruir só pelo prazer de. Um crime anti-social. Não, que este paletó (por sinal trago-o hoje vestido), no dia em que eu não precisar mais dele, ainda pode fazer o agasalho de um pobre. E então agora, que vêm tantos bater a esta porta, novos e velhos, desempregados, a pedir um trapo usado para se aquecer! Mas vou adiando sempre o acto generoso. E espicaça-me um remorso: Para que diabo é que eu hei-de conservar tão ciosamente a roupa velha? Não é porque nós poupamos que falta aos pobres: é pelo que lhes não damos, ou lhes tiramos… Já me tem acontecido ela dar uma coisa minha a um pedinte: o meu primeiro impulso, ao sabê-lo, é de irritação; depois compreendo-a, e chegamos os dois às lágrimas…
Continuo a matutar: «Que me importa a mim molhar hoje os pés, dentro deste par de sapatos velhos, se eu sei que amanhã poderei confortavelmente encaixá-los no forro quente e espesso das botas de calf inglês, soda dupla, que me esperam lá em casa, sólidas, impermeáveis, imponentes como dois granadeiros de S. M. Britânica, e como ela indestrutíveis? Ah, não há nada, para saber o que vale um par de botas novas, como andar um dia inteiro à chuva e na lama, com um par de sapatos rotos nos pés!» ([i]) Se eu sei... E a ideia surge-me assim, com toda a nitidez: o que verdadeiramente importa, nestes dias de Inverno, não é andar de calçado gasto e com pés alagados: é não ter lá em casa um par de sapatos novos para mudar.
Isto até me sugere uma teoria nova (com sua licença) da Dor: a Dor é em geral um sentimento relativo e social, quase uma abstracção. O que me faz sofrer, o que me fere e magoa, não é a dor das fibras e dos ossos, mas as suas causas e condições, a privação relativa, os contrastes, o ridículo, o orgulho ferido, a humilhação em que o desastre ou o acidente me colocam. Sem isso, a Dor seria muito mais tolerável, quase indiferente. Chego a ter vontade de dizer: a Dor (esta maiúscula está-me a parecer um bocado retórica, mas enfim!) pertence ao domínio da Sociologia. Mas cautela aí com o paradoxo! Creiam que até já deixei de acreditar nos cidadãos bem cuidados, bem nutridos, mimados, que me vêm falar da sua Dor (vá lá outra vez com D), da Angústia, e coisas parecidas. No fundo, talvez não passe de remorso.
Vejam por exemplo o Albino, coitado: o Albino chegou outro dia ao escritório com cinco minutos de atraso. (Ê muito pontual.) Daí a pouco ninguém parava com o fedor a benzina. Todos se queixavam, menos ele. Estava com o nariz enterrado no Borrador. Até foi preciso abrir as janelas. «Que raio de pivete a benzina!», disse o Ponce. «Algum de vocês matou hoje o bicho com benzina?» Risota geral… O Albino, coitado, moita. Vermelho até à raiz do cabelo.
Compreendo bem a sua humilhação: teria de confessar que não tem outro casaco. A benzina o denuncia. Vida de estreiteza, de poupança. É a mãe, velhota e viúva, com quem ele mora por não ter meios (ou ter medo) de casar, que lhe inspeciona as roupas e lhe tira as nódoas. Estou a vê-lo nessa manhã, em mangas de camisa, em pé no meio da casa, a bater os queixos com frio, cheio de impaciência: «Então, mãe, não me demore, criatura! Por sua causa vou chegar tarde ao emprego!» E pela tarde, ao voltar a casa: «Não me torne a limpar a roupa com essa bodega! Foi uma chuchadeira pegada no escritório!» E a velhota: «Mas ó filho, tu não hás-de andar agora com a roupinha cheia de nódoas, como um moço de taberna! Deixá-los rir. Ao menos, porco ninguém te pode chamar.»
Há pessoas assim, foram criadas na «decência», no «parece-mal», e o sonho delas é ir ali para o Alto-do-se-m’intendes com uma camisa lavada e uma roupinha decente. Perca-se tudo menos a vergonha. É quanto a vida lhes oferece, contra os sacrifícios que por ela fazem.
Está visto que o fedor da benzina, em si, pode incomodar, mas não deprime. (A mim dá-me volta ao estômago, são idiossincrasias. A civilização do petróleo, do motor Diesel, arrasa-me! Mas há quem goste, e até quem beba o pitrolino misturado com cachaça!) O que humilha, o que dói – cá estou na minha teoria – e a sensação de acanhamento que ele produz. Anda um homem pela rua, ou seja onde for, a espiar os outros, encolhido, vexado, a ver se lhes descobre nos olhos, nas ventas arreganhadas, algum sinal de percepção irritada. É como ter uma doença repugnante à vista, ou ter praticado um acto menos limpo. É corno ter comido, por exemplo, açorda de alho, e passar o dia a restituir a alma dele na cara do parceiro. Vexames!
É o fato, o fato único, esta espiga. Isso é que dói. Quando os outros têm quatro ou cinco – ou cem. Não é tanto o não ter que dói, como sentir que outros têm, ou têm demais, o que nos falta. Mas não vamos nós além da Bota!
Ninguém teria ousado perguntar àquele cavalheiro de idade, tão sereno e composto, o que é que ele levava embrulhado debaixo do braço com tanto cuidado. Algum jarrão da Índia, quem sabe lá. Ou um cache-pot de faiança. Quase elegante que ele ia, com o seu embrulho sobraçado. E de repente – nem sei como aquilo foi, acho que me distraí a olhar um par de meias de seda que passou com pernas dentro – sei que ouvi um estoiro, e que o vi estendido ao comprido, lorpamente chapado no passeio. Parece que andamos sempre à procura de acidentes que nos tornem solidários: mais uma vez corremos uns quantos a ajudá-lo, pusemo-lo em pé, apanhámos-lhe o chapéu, sacudimos-lhe o pó da roupa. Magoou-se? Não foi nada. Só o susto… E o embrulho? A guita tinha-se partido, o papel rebentara, e descobrimos o que ele levava dentro: um objecto redondo, para uso íntimo e nocturno, com uma asa, feito em mil cacos! Mas não é tudo: dentro da faiança barata iam bem um quilo de cebolas, que rebolaram alegremente ao longo da valeta, em liberdade. Cebolas! (Dá vontade de dizer Cebolório!) Era impossível apanhá-las uma por uma e metê-las no vaso escavacado. O vexame do sujeito foi tão grande que eu até virei a cara, envergonhado. Se fosse comigo tinha chorado, podem ter a certeza; tinha fugido, eu sei lá, capaz até de me divorciar como protesto contra tais obrigações matrimoniais. Se fosse um jarrão de porcelana! E cheio de bolas de ténis ou golf! Mas de cebolas! Em volta do pobre homem foi um escarcéu de risota. E os garotos a trazer-lhe as cebolas uma por uma. Com ar de troça…
Estas humilhações é que doem. A dor é isso. A da pobreza envergonhada, ou da que se quer fazer passar por outra coisa. Os dentes só nos doem verdadeiramente quando sabemos que não podemos ir ao dentista.
Ainda outro dia, nas corridas de obstáculos da Matinha: o visconde de Pregalhos levou um tombo de alto lá com ele. Milagre foi não ter partido aquele espinhaço, que além de ser o cabide onde traz suspenso o canastro de heráldica elegância, é hoje a derradeira esperança legítima de continuidade das ancestrais virtudes da Casa.
Muitos ais, algum sangue, delíquios, correrias, gritinhos, ajuntamento em volta da automaca… Mas qual, as costelas partidas não lhe doeram absolutamente nada. Portou-se – dizem os círculos selectos – «com a estóica serenidade com que os seus Maiores aguentavam os golpes dos Infiéis nas rudes Batalhas de Antanho». (Gosto imenso destas palavras arcaicas. E então em maiúsculas! Oxalá não venham por aí abaixo outros infiéis com outras batalhas menos de antanho.) Noite e dia velam-no, além das zelosas irmãzinhas dos enfermos, anjos-da-guarda que Deus põe à cabeceira dos cavaleiros caídos, as mais delicadas e nervosas flores da aristocracia e da elegância. Grandes nomes. Herdeiras. Embaixatrizes. Umas santas! (Também se fala em cenas de ciúmes.)
É muito provável que, a tardar a soldadura das costelas felizmente fracturadas, se restaure por um bom casório aquela espinha que os embaraços financeiros, também históricos na Casa, traziam algo desviada do primitivo aprumo.
Foi uma honra, uma distinção, um reclamo. O visconde, sistematicamente um dos últimos classificados do steeple-chase, viu-se de um instante para o outro guindado a herói do dia, e apalpa agradecido os lombos equimosados. Acredito mesmo que os vencedores, abandonados e esquecidos, com as suas taças de prata e diplomas de honra, se torcem de inveja diante das objectivas pressurosas da imprensa. Aquele triunfo na derrota, ou ascensão na queda, nunca eles o hão-de perdoar ao venturoso enfermo.
E o visconde, na cama, todo envolto em ligaduras e adesivos, aromas, desinfectantes e sorrisos de mel, põe os olhos no Crucificado e agradece-lhe a imperícia com que Ele o dotou para os saltos de barreira e cancela. Abençoada fractura, dor bendita! – Não tarda muito que um elegante casamento…
(Resolvi agora mesmo dar o tal fato usado a um pobre.)
(Inédita, 1926-27)


[i] O Artur devia ter lido, ao tempo, Este Drama dos Sapatos, de H. G. Wells. (J.R.M.)

Aquilegia formosa


Aquilegia formosa, uma planta nativa da América conhecida pela suas flores pendentes com esporas vermelhas.

domingo, 23 de setembro de 2012

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...

S. Martinho de Anta, 23 de Setembro de 1980

S. Martinho de Anta, 23 de Setembro de 1980 – A aflição de ver fugir o tempo quando necessitamos dele para levar a cabo a tarefa de o perpetuar! 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

21 de Setembro de 1977

• O velho humorista Câmara Lima, queixando-se um dia ao actor Taborda dos seus inexplicáveis achaques, repetiu-lhe, lamentoso, o que o médico lhe receitara por todo e único remédio: «O que o senhor precisa é de ter ralações! Arranje coisas que o apoquentem!» Taborda ouviu-o com paciência, e no fim: «Então até mais ver, senhor Câmara Lima. E Deus lhe dê muitas apoquentações como tanto precisa!» 

Fica comigo

Fica comigo. Daqui a nada é noite e as noites custam, a mim custam, sobretudo quando os candeeiros da rua se acendem e as árvores e os prédios fronteiros logo diferentes, quase ninguém na rua, um miúdo com um cão lá ao fundo, uma tristeza parada na tonalidade do silêncio, estes móveis e estes retratos que não me ligam nenhuma, os teus passos na escada, tu no passeio: nem vou à janela olhar, não quero olhar. Fica comigo só mais um bocadinho, dez minutos, meia hora, sei lá, o tempo inteiro. Mesmo que não fales. Mesmo que leias a revista do jornal. Mesmo que não me toques. Mesmo como se eu não existisse. Há alturas, imagina, em que penso que não existo e depois vem a aflição, o medo, o meu pulso tão rápido, a voz da minha mãe, do fundo da infância
– o que se passa contigo?
e não sei explicar, é impossível explicar porque não se passa nada de concreto, mãe, podia responder que uma coisa vaga e todavia não se trata de uma coisa vaga, trata-se de uma coisa real, verdadeira, uma sede não de água, de não sei quê, uma aflição de perda embora, que eu saiba, não tenha perdido nada, parece que está tudo como deve ser à minha volta e não está, não compreendo o que falta mas não está, tem paciência ajuda-me, fica comigo, não peço muito pois não, é difícil isto, talvez não compreendas mas é difícil isto, não preciso que finjas que te interessas, não preciso que me dês atenção, apenas, como dizia o outro, um estar aí que é já tanto, sentir-te respirar, sentir o teu cheiro, contento-me com pouco, vês, uma respiração, um cheiro, a minha mãe
– Foi sempre tão sensível aos cheiros começou a franzir-se logo com um ano ou dois
e embora seja um bocadinho exagerada, há alguma mãe que não exagere, é capaz de ser verdade mais ano menos ano, mais mês menos mês, daqui a nada, já viste, é noite e as noites custam, quando tinha febre pensava
– Daqui a pouco
é dia e sentia-me melhor como se o dia me salvasse ignorava de quê, na realidade não salvava de nada, o aspirador pela casa inteira, ruídos que eu imaginava que me confortavam e não confortavam nem meia, chinelos, loiça, um
– Poça
quando se trilhava ou quebrava uma unha, havia sempre adesivo num dedo no esforço de salvar a unha, a importância que a minha mãe dava às unhas, herdei isso dela para além do nariz, nunca vi narizes tão iguais, o meu pai
– Foste logo herdar o mais feio olha que pontaria a tua
e de facto tive pontaria, fui logo herdar o mais feio, ainda se fosse a boca, ainda se fossem os olhos, a boca que pede
– Fica comigo
os olhos que a acompanham calados
– Fica comigo
tu, para dentro, contrariado
– Estou feito
tu para dentro a odiares-me
– Olha-me esta
odiares-me exagero, farto
– Estou bem arranjado
que se percebe na prega da testa, uma concessão aborrecida
– Fumo um cigarro e vou
os cigarros eram a tua medida, fumo um cigarro e faço isto, fumo um cigarro e faço aquilo, és a única pessoa que marca o tempo pelos cancros do pulmão, o meu pai teve um, coitado, para o fim parecia um passarinho, ainda me disse num fio, na véspera de falecer
– Que ideia a tua ires logo buscar o nariz julgo que com ciúmes de não lhe ter ido buscar parte nenhuma e realmente, sempre podia ficar-lhe com a barriga mas não engravidei nunca, graças a Deus, apesar de solteira fazia as minhas coisas mas tomava cuidado, eles não não queriam casar
– Estamos melhor assim não estamos?
não estávamos melhor assim mas de que me servia contrariá-los, a verdade é que também não insistia muito, acabava por dar-lhes razão, pensava
– Estamos melhor assim
cada um com a sua liberdade eu que queria lá saber da liberdade, queria um homem em casa, mas detesto passar camisas a ferro e ver o estendal da marquise cheio de peúgas a secarem sinceramente não me apetecia, um homem dá um trabalhão que não acaba, quando adoecem chás atrás de chás, moribundos, piegas, quando não estão doentes não param na sala, há sempre o velório do tio de um amigo, sempre um rapaz que precisa de uma mãozinha no carburador do automóvel à noite, chegadas de madrugada porque os carburadores complicados e além disso cheiram a perfume e deixam marcas de baton no colarinho, que esquisitos os carros, o teu cigarro já a meio, tu em silêncio, as últimas fumaças de pé
– Disse que até acabar o cigarro
e a chupá-lo como um danado, de bochechas côncavas, a cara de repente magrinha, uma argola de fumo, duas argolas de fumo, o filtro esmagado no cinzeiro
– Vou andando
enquanto eu gritava para dentro
– Fica comigo
embora calada, quer dizer ouvias de certeza as minhas súplicas caladas porque respondias
– Talvez volte amanhã
e quando um homem promete
– Volto amanhã
refere-se a daqui a um mês, isto com sorte, a desculpa ao telefone
– Tenho tido trabalho que nunca mais acaba
e o trabalho que nunca mais acaba a loira do cabeleireiro que, por ser gorda, exige tempo, mais segredinhos, mais cócegas naquela extensão toda, por acaso conheço-a
– Tudo bem Florbela?
brincos que são argolas enormes, vestido três números abaixo, o cãozinho, nota-se o soutien à transparência sustentando dois mundos, se te digo
– A Florbela
uma expressão de espanto
– Quem é?
mas os olhinhos alarmados que não enganam ninguém, a Florbela mais nova do que eu, vinte e sete, vinte e oito anos e eu quase quarenta, um princípio de papada, uma variz traiçoeira, um cabelo branco que encontrei ontem no espelho, não, três, qualquer dia vou à Florbela pintar isto, os cabelos brancos, palavra de honra, desanimam, a Florbela
– Não há quem te ponha a vista em cima
eu, para dentro
– E a ti não há quem te estrangule cabra acompanho-te à porta sem coragem de repetir
– Fica comigo
visto cá de cima, do patamar, uma rodela de calvície, já te agarras ao corrimão, já desces mais devagarinho, a porta da rua fecha-se quase sem barulho, isto é num estrondo insuportável, volto para dentro, sento-me no sofá, comparo o meu peito com o da Florbela e perco, comparo-me toda com a Florbela e perco, a minha mãe faleceu igualmente, há seis meses, sobra o seu nariz na minha cara, alguma coisa sua permanece, já viu e, à falta de melhor, sorrio. Não sei a quem se destina o sorriso mas alguém há-de encontra-lo um dia destes.  

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

APETECE-ME!

Sigo ao longo desta rua da Baixa, no tumulto da gente ociosa que vagueia e da gente apressada que regressa a casa, à hora em que o sol, já ruivo, se despede dos telhados mais altos e flameja no Castelo. Vou de nariz no ar, gozando a tépida alegria da minha segurança. Amo a cidade, as ruas alinhadas, o tráfego, o rumor, o formigueiro humano, o clarão eléctrico das montras, o asfalto que a rega deixou polido como um espelho. A cidade sorri nervosamente, e eu respondo-lhe com um sorriso de amor. Gosto dos gestos ritmados do agente de capacete claro, que rege a orquestra confusa e trepidante do trânsito. Olho, junto de um poste, os eléctricos que passam, as pernas das mulheres que se descobrem, a subir e a descer sem cessar, e os rostos felizes, sorridentes, calmos, os lábios vermelhos, os olhares lânguidos que se oferecem das vidraças dos autos reluzentes.
Apetece-me… Apetece-me… Nem sei o quê. E vibro de alegria, feliz de me sentir anónimo, arrastado, nesta hora calorosa e comovida, pela palpitação da vida urbana. Sou um burguês. Levo na mão direita, com a bengala de malaca, suspenso dum dedo enluvado, este pequeno embrulho. Sigo em frente, e paro junto duma frutaria que derrama na rua a complicada rescendência dos seus frutos dispostos em filas, em renques, em pilhas, em cestos e tabuleiros, ou suspensos de ráfias e de arames. Olho as uvas cristalinas, voluptuosas como seios minúsculos de virgens… Como a natureza perfuma a civilização e casa com ela os seus aromas para lhe dar um encanto maior! Detenho-me a aspirar a graça destes frutos, que o olhar das mulheres acarida de desejos. Frutos e mulheres, a luz do entardecer, os clarões da rua, o marulho do tráfego, tudo parece fundir-se num mesmo perfume que me dá um desejo, uma volúpia, uma euforia indefinível... Apetece-me! Apetece-me!
Nisto, vejo adiante de mim o vulto duma llIulher Nisto, vejo adiante de mim o vulto duma mulher humilde que passa, com mais pressa do que eu, em frente destas lojas, e sem as olhar. Leva uma criança ao colo, embrulhada no seu mesmo xaile, e na mão direita carrega um grande cabaz. É uma nota dissonante… Percebo-lhe as costas magras, abauladas e tímidas. De súbito escorrega perigosamente, oscila, e cai para a esquerda, sobre a criança! Correm pessoas alarmadas. Corro também, mas já não chego a tempo de a ajudar. Mãos solícitas levantam-na. Ficou vermelha – vejo-lhe o rosto magro, a expressão assustada – e o menino chora. Durante um segundo observo a angústia do seu olhar preso no filho. Depois foge à pressa, sem mesmo agradecer aos que a ergueram do chão. Leva a saia, as mãos e o xaile sujos da lama viscosa do passeio. Alguém murmura: «Foi uma casca, é um perigo!» Outros protestam: «Deviam ser obrigados a limpar os passeios!» E logo a onda rola, indiferente, ao seu destino. Cruzam-se no ar risos, murmúrios, retalhos de conversa. Uma cólera absurda ferve-me no peito. Mas porquê? Que lhe hei-de eu fazer? Partir-lhe a montra? Passo também, o incidente depressa se me funde na memória, e recaio na minha voluptuosa divagação.
Anoiteceu por completo, as lojas engolem e vomitam clientes, os transeuntes hesitam nos passeios, olham irresolutos as grandes montras que inundam de vivas claridades o pavimento escuro. Mais longe, noutra rua, um velho lívido e magro leva às costas, sobre uma saca de linhagem dobrada, um pesado tambor de ferro. Tem uma barbicha rala, cinzento-amarelada. Os seus olhos, baços e encovados, fitam o chão com o terror de o ver fugir. Doente? Cansado? Um velho. Arrasta a perna esquerda sob o peso, e pára a espaços como se esperasse cair subitamente fulminado. Sigo atrás dele, atraído, fascinado pela sua miséria, e a angústia contagia-me – sou eu que levo o peso enorme, sou eu que vou cair exausto! Sinto os músculos retesados do esforço, e arrasto já também a perna esquerda. Se ele pára, eu páro. Cada paragem me parece mais longa, e mais penoso o esforço de arrancar. O volume escorrega-lhe dos ombros, e o velho curva-se mais para ajeitá-lo melhor. Impossível!, vai cair, vai-se despedaçar, ficar esmagado, que será dele, depois? – A minha agonia é tamanha, que dir-se-ia aquele peso ir-me cair no peito. Levo a mão esquerda à cara, tapo a boca para não protestar. E não posso, não poso fazer nada! O meu embrulho, as luvas, a bengala… (Apetece-me! Apetece-me!) A multidão que passa, esta gente que trabalha e que goza, que é forte e juvenil, e nos habituámos pelos livros a supor que também sofre, nem sequer olha o velho, que lá segue o seu caminho, como os animais e os carros, no asfalto da rua. Ninguém repara nele.
Sinto de novo a cólera crescer em mim, desta vez surda, triste e impotente, contra o destino, contra mim próprio, contra este mundo egoísta. Os pequenos sofrimentos de cada dia deixam indiferente esta gente a um tempo simpática, brutal e singular. E eu sou tal qual assim… «É a nossa hora!», penso com cinismo, para me consolar. «Que fariam aos mais estes que sofrem, se pudessem também fazer sofrer!»
O velho decididamente oscila, procura firmar-se nas pernas frouxas, trôpegas, cambadas. A perna esquerda, esta minha perna esquerda que fraqueja! Adivinho-lhe a dor física, agravada pela consciência da velhice condenada, inútil, que a vida explora e calca. Crispo as mãos de raiva. Eu sou culpado! Somos todos culpados daquele sofrimento, daqueles farrapos, daque1a perna frouxa, daquele destino, da vala comum que um dia…
Dois homens detêm-se (enfim!) a olhá-lo, e os seus olhares fazem coro com os meus. Ficamos os três a distância, a avaliar o peso daquela desgraça, no meio da rua atroadora, num protesto inerte e por enquanto mudo. Qual de nós é que ousaria… Até que um diz: «Ladrões! Quem carrega assim um velho merecia que lhe dessem um tiro!» (Não sei qual deles falou.) Mas alguém sabe, porventura, o que significa esta cólera cega, inútil e cruel? Eles pararam e olharam. Eu parei e olhei. O velho recompôs-se não sei como. «Irá ele com uma pinga a mais?», diz um deles. Encolhem os ombros e afastam-se os dois a rir.
A minha raiva, depois do escape das palavras anónimas, sumiu-se. E como o velho já se perde no burburinho, sinto uma secreta advertência de que aquilo é um caso passado em julgado. Respiro aliviado, liberto do momentâneo pesadelo da responsabilidade, e afasto-me também, tão insensível ou prudente como os outros. São horas de me ir chegando à janta. No meu fundo há talvez uma certa alegria, que me vem de experimentar a piedade: a alegria de me sentir bom, de compreender a dor, de simpatizar, de me revoltar (em palavras ou pensamentos só) contra a injustiça… Parece que acabo eu de cumprir o meu dever!
Casos destes, todos nós os podemos contar. De que serve flagelar-me com o remorso do meu egoísmo, irmão de tantos outros? Julgamos cumprir o nosso sagrado dever, não é assim, só porque experimentamos a piedade que humilha, a cólera que cega. Mas os nossos braços caem inúteis, e as nossas mãos andam atadas às luvas, à bengala, aos embrulhinhos…
Sou um burguês, um burguês incorrigível!
(Seara Nova, 1927)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

La alternativa de las barricadas

" Durante las históricas rebeliones,
sin prisas ni delirios,
con frecuencia
la gente
en las barricadas,
no discierne su significado.

Barricadas de adoquines - contra el desamparo.
Barricadas de poesía - contra la imprudencia.
Barricadas de conciencia - contra la ligereza.
En las barricadas -
no se está por la vanagloria.

Ni por capricho, ni por venganza.
Brincar - es oficio de chimpancés.
La hombría no se deja deshonrar.
Nada mundano hay en el barroco de las barricadas.
¡Lanzan la sífilis los cupidos,
cuando rehíla la bala junto al oído!

Así que demoraos en el nicho,
peces atolondrados y resbaladizos,
primeramente los más excitables,
aquellos, en particular, que padecen escalofríos.
Y, en segundo lugar, que se aleje, por favor,
quien, como si fuera un bolo, teme ser derribado.
La muerte - no es una derrota.
En las batallas victoriosas
también existen los caídos.

Bajad de las barricadas, héroes hasta la primera carga,
y detened las maniobras de los filisteos.
En las barricadas tienen derecho a estar
los rebeldes,
enemigos
y enfermeros. "

(Ucrania, 1930) 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

S. Martinho de Anta, 17 de Setembro de 1980

S. Martinho de Anta, 17 de Setembro de 1980 – Ao alargar-me os horizontes do mundo, com necessidades de toda a ordem a que já não posso renunciar, a vida fez de mim um ser ubíquo. Tenho aqui as raízes de suporte e lá longe as pastadeiras…

domingo, 16 de setembro de 2012

S. Martinho de Anta, 16 de Setembro de 1980

S. Martinho de Anta, 16 de Setembro de 1980 – Começo a desconfiar da paz que aqui sinto. Dantes não era tanta…

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

SONETOS

I
A meu Pai doente

Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!

Que coisa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!

Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!

— Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!

II
A meu Pai morto

Madrugada de Treze de Janeiro.
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
“Acorda-o”! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!

E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!

III

Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Microrganismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!...

Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...

Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Roma, 1 de junho de 2012

Depois da visita a lugares de interesse vário, ao Teatro Valle Occupato, à livraria Fahrenheit do Campo de Fiori, à Casa Internazionale della Donna (antiga prisão de mulheres), às ruínas de Caracala, à Piazza Navona, fomos hoje visitar a casa do poeta John Keats e o cemitério protestante onde estão os túmulos de Shelley e Keats. Ali lemos, na tradução de Fernando Guimarães (Relógio d’Água), o poema Adonais de Shelley escrito em 1821 em honra do jovem Keats: “É por Adonais que choro – ele está morto!/ Chorai por Adonais, ainda que as lágrimas/ Não libertem do gelo essa cabeça amada!” 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Veneza, 29 de maio de 21012

Ninguém pode morrer sem visitar Veneza pelo menos uma vez. Encontrar os espaços de silêncio e de poesia nesta cidade sem carros é uma arte no meio de milhares de turistas. Mas consegue-se, a pé, por pontes, becos, ruas estreitas e canais. Instalámo-nos no velho Palazzo Mocenigo, o mesmo onde Byron viveu, perto da Ponte Accademia. Hoje é possível, embora difícil, alugar naquele edifício um estúdio no rés-do-chão encostado ao Grande Canal. Sai mais barato do que um hotel. Sente-se que se está em casa própria, vendo o espelho de água, os vaporettos, os cais, as gôndolas, as luzes, o movimento. Hoje de manhã fomos apanhados pelo terramoto e a casa dançou levemente como se estivesse em cima de uma jangada, sobre lamas e estacas. Ontem estivemos no caríssimo e emblemático café literário Florian, na Piazza S. Marco. Imperdível. 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Dia 11 [Setembro de 2009]

O regresso
A sessão de evocação da obra e da figura de Jorge de Sena, realizada no Teatro de São Carlos em 10 de Julho de 2008, teve um título que a esta distância facilmente parecerá premonitório: Jorge de Sena – Um regresso. Para falar do autor de Sinais de Fogo reunimos ali, além de um representante da Fundação, para o caso o seu patrono, algumas das pessoas mais qualificadas do pensamento literário e critico português: Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva, Jorge Fazenda Lourenço e António Mega Ferreira, cujas participações contaram com a inteligente moderação do ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro. A sala do São Carlos estava cheia até às torrinhas, o que mostra que a premonição, se o era, estava a ser partilhada por umas quantas centenas de pessoas. Houve leitura de poemas por Jorge Vaz de Carvalho e o pianista António Rosado interpretou composições sobre as quais Sena havia escrito. Quem esteve lá não esquecerá nunca. No final a Fundação ofereceu a cada um dos participantes um estojo com chaves: as que deveriam abrir as portas necessárias para que Jorge de Sena regressasse definitivamente ao seu país. Não, não foi premonição. Simplesmente, o que tem de ser, tem de ser e tem muita força. A força de todas aquelas pessoas, quase um milhar, unidas no mesmo pensamento: que volte Jorge de Sena, que volte já. Voltou, enfim. Não sei se ficámos mais ricos. Mais conscientes das nossas responsabilidades, sim. Poucas coisas agradariam tanto a Jorge de Sena. 
José Saramago, O CADERNO

Winifred (1927)

Descrição: Óleo e lápis sobre tela. 69 x 69 cm.
Localização: Coleção Particular

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Lucca, 20 de maio de 2012

Dia de chuva, para contentamento da Hélia. Uma pausa no calor de final de Maio. Estamos na bela Toscana dos bosques, das aldeias, dos vales, das Villas e dos Alpes Apuanos. Bom ar fresco, respiração aberta, paisagem verdíssima e forte, arvoredo denso que constrói túneis enormes. A natureza fascina-nos. Por alguma razão, para os italianos da classe média e para os estrangeiros ricos é “bem” ter uma casa na Toscana.
Lucca fica a poucas dezenas de quilómetros de Pisa. Conhecida pelas ruas estreitas e pela antiga praça principal de magnifica arquitectura – praça do Teatro Romano, redonda, pequena, com o casario cheio de janelas e portadas, com entradas em arco. Lucca possui também umas termas famosas, os Bagni de Lucca, igualmente frequentadas pelos Shelley.
Após umas corridas, já que dispenso chuva pesada e fria, chegamos ao antigo e lindíssimo Caffé Literário Caselli, hoje chamado Simo, na via Fillungo. Mantém a traça com balcões, vidraças, espelhos, cadeiras de madeira, salas, mesas de tampo de mármore, muitas luzes e um piano. Existe uma placa evocativa do senhor Caselli, amigo de escritores e pintores, e um mural onde se pode ver as caras de Quasimodo, Benedetti, Ungaretti, Mancini, Magri, entre outros. Uma foto de Puccini com a dedicatória a Caselli assinala no alto da parede a presença do músico.
Com a roupa num pingo, a Hélia percorreu o café deslumbrada. Pareceu-me que ia dançar. O empregado de mesa ia no seu encalço, mas era difícil escolher um lugar, tanta era a euforia. Pedida uma bebida quente, a Hélia protestou contra o preço invulgarmente alto dos bolinhos secos. Não havia mais nada para comer, o pão esgotara. Ficámos pelas bebidas. Passados minutos, o gerente do café presenteou-nos com um prato de bolinhos. Uma oferta da casa.
Deverá ter suposto – e acertaria – que éramos uns pobres escritores a viver um sonho qualquer, uma memória literária que ali está guardada, uma coisa de algum modo sagrada. Riu-se. Por momentos, os seus olhos pareceram felizes. 

domingo, 9 de setembro de 2012

Golfo dos Poetas, 19 de maio de 2012

Foi fácil chegar a Lerici, um pequeno porto com um imponente castelo empoleirado na ponta que inspirou o pintor Arnold Bocklin, o autor do quadro “A Ilha dos Mortos”. Bocklin viveu ao lado da Casa Magni, a casa branca onde habitavam os Shelley, uma mansão de dois andares e colunas, à beira-mar, que Mary odiava porque naquele tempo era tudo mato, escuro e lixo à volta e as pessoas eram extremamente pobres e sujas.
Esse local chama-se San Terenzo, um minúsculo porto de pesca com os barcos recolhidos nos passeios debaixo dos pinheiros e também com o seu pequeno castelo que contem memorabilia de Mary Shelley e se confunde com as casas em redor,
Shelley chamava à paisagem que avistava em frente à casa, a “Baía Divina de Lerici”. As casas em Lerici sobem pelas colinas, disfarçadas pelo arvoredo e rodeadas de laranjais. A paisagem é verde e azul, salpicada pelo amarelo e cor de tijolo das moradias.
Um passeio pedestre liga Lerici a San Terenzo, numa inesquecível viagem a pé de uma hora. Ao longe, para lá das águas, vê-se a aldeia de Portovenere onde vivia Byron e onde tinha a sua gruta pessoal na qual escreveu a peça The Corsair. Conta-se que Byron vinha visitar os Shelley a nado, assim como se fosse do Cais das Colunas ao Barreiro, o que para o exímio nadador não era nada. Uma horita para cada lado. Levaria certamente menos tempo do que se viesse em diligência ou a cavalo pela montanha até La Spezzia, seguindo depois em subidas e descidas para Lerici.