terça-feira, 21 de agosto de 2012

Dia 21 [Agosto de 2009]

Um terceiro deus
Creio que as teses de Huntington sobre o «choque de civilizações», atacadas por uns e celebradas por outros aquando do seu aparecimento, mereceriam agora um estudo mais atento e menos apaixonado. Temo-nos habituado à ideia de que a cultura é uma espécie de panaceia universal e de que os intercâmbios culturais são o melhor caminho para a solução dos conflitos. Sou menos optimista. Creio que só uma manifesta e activa vontade de paz poderia abrir a porta a esse fluxo cultural multidireccional, sem ânimo de domínio de qualquer das suas partes. Essa vontade talvez exista por aí, mas não os meios para a concretizar. Cristianismo e islamismo continuam a comportar-se como inconciliáveis irmãos inimigos incapazes de chegar ao desejado pacto de não agressão que talvez trouxesse alguma paz ao mundo. Ora, já que inventámos Deus e Alá, com os desastrosos resultados conhecidos, a solução talvez estivesse em criar um terceiro deus com poderes suficientes para obrigar os impertinentes desavindos a depor as armas e deixar a humanidade em paz. E que depois esse terceiro deus nos fizesse o favor de retirar-se do cenário onde se vem desenrolando a tragédia de um inventor, o homem, escravizado pela sua própria criação, deus. O mais provável, porém, é que isto não tenha remédio e que as civilizações continuem a chocar-se umas com as outras.
José Saramago, O CADERNO

Ilha de Armona, Olhão, 21 de Agosto de 1980

Ilha de Armona, Olhão, 21 de Agosto de 1980 – Não sei se haverá no mundo outro país tão pequeno como Portugal com tantos sítios remotos onde a solidão se possa refugiar. Redutos de areia ou de fraga que permitem a total nudez ao corpo e ao espírito, quando ambos precisam da mais ilimitada liberdade e do mais íntimo recato. Lugares que, além de propiciatoriamente isolados, são ainda excepções à lei agressiva da natureza. De tal modo isentos panoramicamente, que parece não darem sequer pela nossa presença.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Dia 20 [Agosto de 2009]

Tristeza
Uma irresistível e já automática associação de ideias faz-me sempre recordar a Melancolia de Dürer quando penso na obra de Eduardo Lourenço. Se o de António Nobre é o livro mais triste que alguma vez se escreveu em Portugal, faltava-nos quem sobre essa tristeza reflectisse e meditasse. Veio Eduardo Lourenço e explicou-nos quem somos e porque o somos. Abriu-nos os olhos, mas a luz era demasiado forte. Por isso, tornámos a fechá-los.
José Saramago, O CADERNO

domingo, 19 de agosto de 2012

Praia da Rocha, 19 de Agosto de 1980

Praia da Rocha, 19 de Agosto de 1980 – O difícil, num diálogo com a juventude, é manter o fiel da balança no equilíbrio exacto. Nem dar de mais nem de menos. Nem ficar credor nem devedor. Compreender os seus valores, que tem na conta de serem os únicos admissíveis, sem renegar os nossos, a que estamos também logicamente atados de pés e mãos, mesmo que nos roa já algum cepticismo. E como ela não cede e nós não podemos ceder, sob pena de ficarmos sem pé na vida – e até sujeitos a desprezos suplementares –, a conversa tem de ser uma obra-prima de sinceridade e de cautela. De um lado, uma enfiada de terminantes pontos finais; do outro, um rosário de pacientes reticências…

Dia 19 [Agosto de 2009]

O sangue em Chiapas
Todo o sangue tem a sua história. Corre sem descanso no interior labiríntico do corpo e não perde o rumo nem o sentido, enrubesce de súbito o rosto e empalidece-o fugindo dele, irrompe bruscamente de um rasgão da pele, torna-se capa protectora de uma ferida, encharca campos de batalha e lugares de tortura, transforma-se em rio sobre o asfalto de uma estrada. O sangue nos guia, o sangue nos levanta, com o sangue dormimos e com o sangue despertamos, com o sangue nos perdemos e salvamos, com o sangue vivemos, com o sangue morremos. Torna-se leite e alimenta as crianças ao colo das mães, torna-se lágrima e chora sobre os assassinados, torna-se revolta e levanta um punho fechado e uma arma. O sangue serve-se dos olhos para ver, entender e julgar, serve-se das mãos para o trabalho e para o afago, serve-se dos pés para ir aonde o dever o mandou. O sangue é homem e é mulher, cobre-se de luto ou de festa, põe uma flor na cintura, e quando toma nomes que não são os seus é porque esses nomes pertencem a todos os que são do mesmo sangue. O sangue sabe muito, o sangue sabe o sangue que tem. Às vezes o sangue monta a cavalo e fuma cachimbo, às vezes olha com olhos secos porque a dor lhos secou, às vezes sorri com uma boca de longe e um sorriso de perto, às vezes esconde a cara mas deixa que a alma se mostre, às vezes implora a misericórdia de um muro mudo e cego, às vezes é um menino sangrando que vai levado em braços, às vezes desenha figuras vigilantes nas paredes das casas, às vezes é o olhar fixo dessas figuras, às vezes atam-no, às vezes desata-se, às vezes faz-se gigante para subir às muralhas, às vezes ferve, às vezes acalma-se, às vezes é como um incêndio que tudo abrasa, às vezes é uma luz quase suave, um suspiro, um sonho, um descansar a cabeça no ombro do sangue que está ao lado. Há sangues que até quando estão frios queimam. Esses sangues são eternos como a esperança.
José Saramago, O CADERNO

sábado, 18 de agosto de 2012

Dia 18 [Agosto de 2009]

Carlos Paredes
Não o pensava antes, quando escutava a guitarra de Carlos Paredes, mas hoje, recordando-a, compreendo que aquela música era feita de alvoradas, canto de pássaros anunciando o sol. Ainda tivemos de esperar uma década antes que outra madrugada viesse abrir-se para a liberdade, mas o inesquecível tema de Verdes Anos, esse cantar de extática alegria que ao mesmo tempo se entretece em harpejos de uma surda e irreprimível melancolia, tornou-se para nós numa espécie de oração laica, um toque a reunir de esperanças e vontades. Já seria muito, mas ainda não era tudo. O resto que ainda faltava conhecer era o homem de dedos geniais, o homem que nos mostrava como podia ser belo e robusto o som de uma guitarra, e que era, a par de músico e intérprete excepcional, um exemplo extraordinário de simplicidade e grandeza de carácter. A Carlos Paredes não era preciso pedir que nos franqueasse as portas do seu coração. Estavam sempre abertas.
José Saramago, O CADERNO

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Dia 17 [Agosto de 2009]

Acteal
Quase doze anos são passados já sobre a matança de Acteal, no sudeste do Estado mexicano de Chiapas. No dia 22 de Dezembro de 1997, quando os membros da comunidade tzotzil de Las Abejas se encontravam reunidos para rezar na sua humilde capela, uma construção rústica de tábuas mal aparelhadas e sem pintura, noventa paramilitares do grupo Máscara Roja, expressamente levados ali, munidos de armas de fogo e machetes, num ataque que durou sete horas, deixaram no terreno, entre homens, crianças e mulheres, algumas delas grávidas, 45 mortos. A culpa destes mortos havia sido terem apoiado o Exército Zapatista de Libertação Nacional. A 200 metros do local, um controle de polícias não moveu um pé para ir ver o que se passava. Demasiado o saberiam eles. Estivemos em Acteal, Pilar e eu, pouco tempo depois, falámos e chorámos com alguns dos sobreviventes que tinham conseguido escapar, vimos os sinais das balas nas paredes da capela, os lugares das sepulturas, assomámos à entrada de uma cavidade na encosta onde umas quantas mulheres haviam tentado esconder-se com os filhos e onde foram assassinadas com eles a golpes de machete e rajadas à queima-roupa. Voltámos a Acteal uns meses mais tarde, o horror ainda se respirava no ar, mas justiça iria ser feita.
Afinal, não. Alegando erros de processo, o Supremo Tribunal de Justiça mexicano acaba de pôr em liberdade quase vinte dos membros de Máscara Roja que cumpriam pena (imagine-se) por porte ilegal de armas, deliberadamente se ignorando que essas armas tinham disparado e assassinado. À meia dúzia deles que ainda estão na prisão, não tardará muito que os soltem também. Mas aos 45 tzotiles mortos com extremos de crueldade, a esses é que não haverá maneira de os fazer ressuscitar. Ainda há poucos dias tinha escrito aqui que o problema de justiça não é a justiça, mas os juízes. Acteal é uma prova mais.
José Saramago, O CADERNO

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

PRAGAS VELHAS

Passei três quartos do século XX a olhar para o XXI como quem olha para uma miragem inacessível. Afinal, cá estou eu às portas de 2007.
Boa altura para uma pausa na jornada e uma vista de olhos ao balancete da minha vida. Que tristeza! Sonhei mundos e fundos e, contas feitas, acabo de mãos vazias.
Porque teria eu fracassado?
Pedi à minha amiga Cassilda, que só me leva cinco anos e passa por mulher de virtude, que me lesse o responso e me dissesse porque é que eu, que tanto prometia em rapaz, nada tenho para dar em velho.
A Cassilda, que estava sentada numa trípode em forma de mocho à lareira, saiote puxado para os joelhos e canelos nus manchados de murras, pôs as mãos ao alto e os olhos em branco, ou, melhor dizendo, em amarelo, porque sofre de triz crónica, e assim esteve por espaço de meia hora a bichanar o responso.
Por fim regressou do transe, toda ela estremeceu numa descarga cavernosa de flatulências gástricas e disse:
– Isso foi praga que te rogaram.
– E quem é que me ia rogar uma praga se eu nunca fiz mal a ninguém?
– Deixa ver se descubro.
E a menina Cassilda, porque ainda se mantém solteira, embora virgem não direi, nem ela, honra lhe seja, invocou de novo o oráculo e, com um novo alívio de flatulências encruadas, disse:
– Não foi só uma praga que te rogaram. Foram dúzias deias.
– De quem?
– De velhas. E olha que de velha que roga praga, «mulher que sabe latim, mula que faz him e ovelha que faz mé, libra nós e domine».
– Mas eu nunca fiz mal a velha nenhuma!
– Não. Tu alguma lhes fizeste. Há muitos anos, que isto são pragas velhas, as piores de todas.
– Quanto te devo, Cassilda?
– Nada. Fica em paga da roca que uma vez me deste.
– Não me lembro.
– Que te não lembras? Andávamos ambos com a rês no monte e tu passavas o tempo a fazer rocas que depois vendias na feira de Montalegre a cinco tostões cada. Um dia ofereceste-me uma com um coração varado por uma setra aberto a ponta de canivete no cabo, por sinal tinto de sangue porque tu, em vez de atirares a navalha ao pau, atiravas com ela aos dedos. Não te lembras?
– Estou a lembrar-me. Ainda tens essa roca, velha e querida amiga?
– Rais-ta parta! Desfez-se à segunda vez que tentei carregá-la…
– Não digas mais, Cassada. Já sei quem me rogou as pragas.
– Quem?
– As velhas que me compraram as rocas…
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 43 e s.)

Coimbra, 16 de Agosto de 1980

    ENCOMENDAÇÃO

Alma penada
Condenada
A vida,
Não paro de viver.
Sempre a acender
A luz interrompida,
Perturbo o sono de quem dorme ao lado.
Dia e noite acordado
E ofegante,
Lavro como um arado
Obstinado
Os pousios do tempo circunstante.

E, fora de sazão
E de razão,
Sem ouvir os gemidos
Dos sentidos,
Semeio e reverdeço a terra desolada
Da minha solidão.
Canto com emoção
Desencantada
Versos serôdios que a geada cresta.
Versos sem voz futura,
Mas que são, nesta hora de amargura,
A única certeza que me resta.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Coimbra, 15 de Agosto de 1980

Não consigo lê-lo sem forçar a natureza. Há em mim uma exigência instintiva de autenticidade que pressente, de longe, a impostura de um texto. Lançar ao papel uma só linha que seja que não obedeça àquele imperativo que faz a honra da literatura parece-me um atrevimento sacrílego e um ultraje à vocação. Imagino sempre o autor diante da página vazia numa atitude recolhida de professo, à espera da graça do verbo. Ora, no caso vertente, trata-se de um daqueles bem-aventurados que, seguros do seu talento, nem perdem tempo a merecê-lo nem ocasião de o exibir. Apenas sensíveis às variações do gosto e aos favores do aplauso, pouco lhes importa a essencialidade e a têmpera da obra. Mundanos das letras, tanto no oportunismo como no impudor, agentes de si próprios, não há promoção a que resistam. Dão-me sempre a impressão de que escrevem os livros na montra das livrarias.

O CÃO É UM FINGIDOR

O cão é um fingidor:
Finge tão completamente
Chega a fingir que é amor
A fome que deveras sente.
O dono não desconfia
Que está a ser enganado:
Julga que é afecto, alegria, 
A gula do bicho esfomeado!
E assim nas calhas da vida
Anda a fantasia na percepção:
A razão fica esquecida
Nos delírios do coração.

(inspirado em Fernando Pessoa)

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Dia 14 [Agosto de 2009]

Jean Giono
Imagino que Jean Giono haverá plantado não poucas árvores durante a sua vida. Só quem cavou a terra para acomodar uma raiz ou a esperança dela poderia ter escrito a singularíssima narrativa que é O homem que plantava árvores, uma indiscutível obra-prima da arte de contar. Claro que para que tal sucedesse era necessário que existisse um Jean Giono, mas essa condição básica, felizmente para todos nós, era já um dado adquirido e confirmado: o autor existia, só faltava que se pusesse a escrever a obra. Também faltava que o tempo decorresse, que a velhice se apresentasse para dizer: «Aqui estou», pois só talvez numa idade avançada, como já então era a de Giono, seria possível escrever com as cores do real físico, como ele o fez, uma história concebida no mais secreto da elaboração ficcional. O plantador de árvores Elzéard Bouffier, que nunca existiu, é simplesmente uma personagem feita com os dois ingredientes mágicos da criação literária, o papel e a tinta com que nele se escreve. E contudo, ficamos a conhecê-lo logo à primeira referência que se lhe faz, como alguém a quem estivéssemos esperando há muito tempo. Plantou milhares de árvores nos Alpes franceses, depois esses milhares, por acção da própria natureza assim ajudada, multiplicaram-se em milhões, com elas regressaram as aves, regressaram os animais dos bosques, regressou a água, ali onde não tinha havido mais que secura. Em verdade, estamos esperando o aparecimento de uns quantos Elzéard Bouffier reais. Antes que seja demasiado tarde para o mundo.

P.S. Tem razão o Sr. D. Duarte de Bragança, tratava-se do Evangelho, não do Memorial, mas já não a tem quando diz que eu atribuo a paternidade de Jesus a um soldado romano. Nenhum dos milhões de leitores que o livro teve até hoje lho confirmaria. Conheço a tese, mas, creio que por uma questão de bom gosto, não a utilizei na história que escrevi. Em compensação, dediquei umas quantas páginas à concepção de Jesus por José e Maria, seus pais. Permito-me sugerir ao Sr. D. Duarte de Bragança que leia o meu Evangelho. Atreva-se, não seja tímido, garanto-lhe que aproveitará com a leitura.
José Saramago, O CADERNO

Coimbra, 14 de Agosto de 1980

Tentei ajudá-lo com uma experiência já velha. Disse-lhe que sim, que continuasse a inventariar exaustivamente, como eu próprio fazia, a realidade geográfica, humana, cultural e social a que tivesse acesso no mundo, mesmo a saber que nunca chegaria ao fim. Mas que, entretanto, procurasse conhecer o mais paradigmático, e tirasse desse conhecimento as ilações devidas. Quem vê Versailles, vê a França. Quem vê o Escurial, vê a Espanha. Quem vê os Jerónimos, vê Portugal. Num pórtico, num quadro, num poema, espelha-se sempre um país inteiro. Depois, são mais pórticos, mais quadros, mais poemas. O génio de um povo está patente na primeira aldeia fronteiriça.
Miguel Torga

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Dia 13 [Agosto de 2009]

Guatemala
Cada dia se vai tornando mais claro em todo o mundo que o problema da justiça não é da justiça, mas dos juízes. A justiça está nas leis, nos códigos, portanto deveria ser fácil aplicá-la. Bastaria saber ler, entender o que está escrito, escutar de maneira isenta as alegações do acusador e do acusado, as testemunhas, se as houver, e finalmente, em consciência, julgar. A corrupção tem mil caras e a pior delas, neste particular, talvez seja, em qualquer sentido, a natureza da relação entre quem julga e quem é julgado. Um caso típico de perversão julgadora ocorreu muito recentemente na Guatemala onde o editor Raúl Figueroa Sarti da Casa F&G Editores foi condenado a um ano de prisão comutável à razão de 25 quetzales diários e ao pagamento de uma multa de cinquenta mil quetzales, mais as custas do processo. Qual foi o crime de Raúl Figueroa? Haver publicado, a solicitação e com o conhecimento do seu respectivo autor, Mardo Arturo Escobar, uma fotografia que veio a ser inserida em um livro editado por F&G. Desse livro foram entregues ao agora acusador alguns exemplares da obra em questão. Aos juízes não importou nada que o próprio Mardo Escobar tivesse reconhecido que havia entregado voluntariamente uma fotografia a Raúl Figueroa, a quem deu autorização verbal para a usar numa publicação. Importou, sim, que o acusador fosse seu colega: Mardo Arturo Escobar trabalha no Quarto Juízo de Sentença Penal, sendo, portanto, companheiro de actividades de juízes, oficiais e magistrados... Mas este caso não é um simples episódio de baixa corrupção. O acosso de que, desde há dois anos, tem sido alvo F&G Editores, enquadra-se na situação repressiva que se está vivendo na Guatemala, onde o poder oficial tem vindo a perseguir e a tentar calar as vozes discordantes, essas que, sem desânimo, continuam a denunciar as violações dos Direitos Humanos no país. Pelos vistos, tinha razão aquele já velho jogo de palavras entre Guatemala e Guatepior. Dos cidadãos guatemaltecos se espera que o inocente jogo não se transforme em triste realidade.
José Saramago, O CADERNO

domingo, 12 de agosto de 2012

Dia 12 [Agosto de 2009]

Um rei assim
O rei assim é o Sr. D. Duarte de Bragança, pessoa medianamente instruída graças aos preceptores que lhe puseram logo à nascença, mas que, não obstante, detesta a literatura em geral e o que escrevo em particular, primeiramente porque considera que no Memorial do Convento lhe insultei a família e em segundo lugar porque a dita obra é, de acordo com o seu requintado linguajar de pretendente ao trono, uma «grande merda». Não leu o livro, mas é evidente que o cheirou. Compreende-se, portanto, que, durante todos estes anos, eu não tenha incluído o Sr. D. Duarte, de Bragança, note-se, na escolhida lista dos meus amigos políticos. Não me importo de levar uma bofetada de vez em quando, mas a virtude cristã de oferecer ao agressor a outra face é virtude que não cultivo. Tenho-me desforrado apreciando devidamente as qualidades de humorista involuntário que este neto do senhor D. João V manifesta sempre que tem de abrir a boca. Devo-lhe algumas das mais saborosas gargalhadas da minha vida. Isso acabou, a monarquia foi restaurada e há que ter muito cuidado com as palavras, não vão aparecer por aí, redivivos, o intendente Pina Manique ou o inspector Rosa Casaco. Como que restaurada a monarquia?, perguntarão os meus leitores, estupefactos. Sim senhor, restaurada, afirmou-o quem tem as melhores razões para dizê-lo, o próprio pretendente. Que já não é pretendente, uma vez que a monarquia acaba de ser-nos restituída pelo drapejar da bandeira azul e branca na varanda da Câmara Municipal de Lisboa. Os moços do 31 da Armada (assim os escaladores se designam a si mesmos) têm já o seu lugar assegurado na História de Portugal, ao lado da padeira de Aljubarrota de quem se desconfia que afinal não matou castelhano nenhum. Não é o caso de agora, a bandeira esteve lá durante alguma horas (haverá um monárquico infiltrado na Câmara para ter impedido a retirada imediata?), pretende-se averiguar quem foram os autores da façanha, e isto acabará como sempre, em comédia, em farsa, em chacota. O Sr. D. Duarte não tem estaleca para exigir na praça pública, perante a população reunida, que lhe sejam entregues a coroa, o ceptro e o trono. É pena que uma tão gloriosa acção vá acabar assim. Mas como, no fundo, sou uma pessoa cordata, amiga de ajudar o próximo, deixo aqui uma sugestão para o Sr. D. Duarte de Bragança. Crie já uma equipa de futebol, uma equipa toda de jogadores monárquicos, treinador monárquico, massagista monárquico, todos monárquicos e, se possível, de sangue azul. Garanto-lhe que se chega a ganhar a liga, o país, este país que tão bem conhecemos se ajoelhará a seus pés.
José Saramago, O CADERNO

Coimbra, 12 de Agosto de 1980

Setenta e três anos. E já quase nem reajo à conta. Sei que é grande e aterradora, mas como sei que há vulcões e terramotos. Dantes, a data de hoje era sempre um toque a rebate. Todo eu ficava em pânico com menos alguns meses de existência. Os muitos e incessantes projectos que fazia pressupunham-me longevo, não admitiam limitações na minha duração. Agora, que não posso alimentar ilusões de nenhuma ordem, porque qualquer optimismo seria pueril, os aniversários parecem-me bónus da vida. Começo a sentir a impressão de que parei no tempo, de que marco passo em vez de caminhar, de que fiz o que tinha a fazer e tudo o que vier ainda à rede é por acréscimo. Olho o futuro, e vejo o passado. E como ele foi aventuroso e rico de mil experiências, com acenos dos quatro pontos cardeais do mundo e todas as apetências da curiosidade e da compreensão postas à prova, quando chega este dia, já nem o bendigo nem o maldigo. Remeto-me a um pragmatismo irónico e salutar: não dá esperança, mas é um bom pretexto para ter saudades…
Miguel Torga

sábado, 11 de agosto de 2012

Dia 11 [Agosto de 2009]

África
Em África, disse alguém, os mortos são negros e as armas são brancas. Seria difícil encontrar uma síntese mais perfeita da sucessão de desastres que foi e continua a ser, desde há séculos, a existência no continente africano. O lugar do mundo onde se crê que a humanidade nasceu não era certamente o paraíso terrestre quando os primeiros «descobridores» europeus ali desembarcaram (ao contrário do que diz o mito bíblico, Adão não foi expulso do éden, simplesmente nunca nele entrou), mas, com a chegada do homem branco abriram-se de par em par, para os negros, as portas do inferno. Essas portas continuam implacavelmente abertas, gerações e gerações de africanos têm sido lançados à fogueira perante a mal disfarçada indiferença ou a impudente cumplicidade da opinião pública mundial. Um milhão de negros mortos pela guerra, pela fome ou por doenças que poderiam ter sido curadas, pesará sempre na balança de qualquer país dominador e ocupará menos espaço nos noticiários que as quinze vítimas de um serial killer. Sabemos que o horror, em todas as suas manifestações, as mais cruéis, as mais atrozes e infames, varre e assombra todos os dias, como uma maldição, o nosso desgraçado planeta, mas África parece ter-se tornado no seu espaço preferido, no seu laboratório experimental, o lugar onde o horror mais à vontade se sente para cometer ofensas que julgaríamos inconcebíveis, como se as populações africanas tivessem sido assinaladas ao nascer com um destino de cobaias, sobre as quais, por definição, todas as violências seriam permitidas, todas as torturas justificadas, todos os crimes absolvidos. Contra o que ingenuamente muitos se obstinam em crer não haverá um tribunal de Deus ou da História para julgar as atrocidades cometidas por homens sobre outros homens. O futuro, sempre tão disponível para decretar essa modalidade de amnistia geral que é o esquecimento disfarçado de perdão, também é hábil em homologar, tácita ou explicitamente, quando tal convenha aos novos arranjos económicos, militares ou políticos, a impunidade por toda a vida aos autores directos e indirectos das mais monstruosas acções contra a carne e o espírito. É um erro entregar ao futuro o encargo de julgar os responsáveis pelo sofrimento das vítimas de agora, porque esse futuro não deixará de fazer também as suas vítimas e igualmente não resistirá à tentação de pospor para um outro futuro ainda mais longínquo o mirífico momento da justiça universal em que muitos de nós fingimos acreditar como a maneira mais fácil, e também a mais hipócrita, de eludir responsabilidades que só a nós nos cabem, a este presente que somos. Pode-se compreender que alguém se desculpe alegando: «Não sabia», mas é inaceitável que digamos: «Prefiro não saber». O funcionamento do mundo deixou de ser o completo mistério que foi, as alavancas do mal encontram-se à vista de todos, para as mãos que as manejam já não há luvas bastantes que lhes escondam as manchas de sangue. Deveria portanto ser fácil a qualquer um escolher entre o lado da verdade e o lado da mentira, entre o respeito humano e o desprezo pelo outro, entre os que são pela vida e os que estão contra ela. Infelizmente as coisas nem sempre se passam assim. O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses. Em tais casos não podemos desejar senão que a consciência nos venha sacudir urgentemente por um braço e nos pergunte à queima-roupa: «Aonde vais? Que fazes? Quem julgas tu que és?». Uma insurreição das consciências livres é o que necessitaríamos. Será ainda possível?
José Saramago, O CADERNO

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Dia 10 [Agosto de 2009]

Yemen
À escritora colombiana Laura Restrepo, nossa amiga pelo coração e pelas ideias, encarregou-a Médicos sem Fronteiras que viajasse ao Yemen para depois contar o que lá tivesse visto, ouvido e sentido. O relato dessa experiência foi agora publicado no El País semanal, uma reportagem impressionante como, em princípio, qualquer outra que se faça em África, mas que a arte de narrar de Laura, ao recusar, como é próprio da sua natureza de escritora, os efeitos emotivos de uma escrita que intencionalmente apelasse à sensibilidade do leitor, prefere expressar por uma obstinada procura de realidade directa ao alcance de poucos. As descrições da chegada dos barcos que vêm da Somália, sobrecarregados de fugitivos que esperam encontrar no Yemen a solução das dificuldades que os empurraram para o mar, são de uma rara eficácia informativa. Vêm neles os homens, as mulheres e as crianças do costume, mas Laura Restrepo não tarda a mostrar-nos como é possível falar de homens sem estar obrigado a falar das mulheres e das crianças que com eles vieram, mas que das crianças seria impossível falar se não se falasse também, e sobretudo, das mães que os trazem, às vezes ainda na barriga. As situações em que essas mulheres vão encontrar-se depois de desembarcarem no Yemen constituem um catálogo completo das humilhações morais e físicas a que estão sujeitas só pelo facto de terem nascido mulheres. Por trás de cada palavra escrita por Laura há lágrimas, gemidos e gritos que seriam capazes de nos tirar o sono se a nossa flexível consciência não se tivesse acomodado à ideia de que o mundo vai aonde querem os que o dominam e que para nós já será bastante cultivar o nosso quintal o melhor que soubermos, sem que tenhamos de preocupar-nos com o que se passa do outro lado do muro. Esta, sim, é a mais velha história do mundo.
José Saramago, O CADERNO

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A viagem

A minha rede de captura de borboletas está suspensa, espero apenas que a mariposa me instigue através dos seus recuos, das suas hesitações. Como ficaria feliz se me pudesse dissolver em luz e ar, apenas com o intuito de me aproximar e ser capaz de a dominar. Entre mim e a presa, agora, a velha lei da caça se instala: quanto mais eu, com todo o meu ser, tento obedecer ao animal, mais me converto, corpo e alma, em borboleta. Quanto mais perto estou de cumprir o desejo de caçador, mais esta borboleta ganha a forma da vontade humana. No final, é como se a captura fosse o preço que tenho que pagar para recuperar minha existência humana. […] No regresso da caça, o espírito da criatura condenada toma posse do caçador.
Tradução livre de excerto de A Caça à Borboleta,

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Dia 7 [Agosto de 2009]

A sombra do pai (2)
Poucas páginas antes, o escaravelho Gregório Samsa ainda havia articulado penosamente as últimas palavras que a sua boca de insecto fora capaz de pronunciar: «Mãe, mãe». Depois, como numa primeira morte, entrou na mudez de um silêncio voluntário, senão obrigado pela sua irremediável animalidade, como quem teve de resignar-se definitivamente a não ter pai, mãe e irmã no mundo das baratas. Quando por fim a criada varrer para o lixo a carcaça ressequida em que Gregório Samsa terminará transformado, a sua ausência, daí em diante, só servirá para confirmar o esquecimento a que os seus já o tinham votado. Numa carta de 28 de Agosto de 1913, Kafka irá escrever: «Vivo no meio da minha família, entre as melhores e mais amorosas pessoas que se pode imaginar, como alguém mais estranho que um estranho. Com a minha mãe, nos últimos anos, não falei, em média, mais que vinte palavras por dia, com o meu pai jamais troquei mais que as palavras de saudação». Será preciso estar muito desatento à leitura para não perceber a dolorosa e amarga ironia contida nas próprias palavras («Entre as melhores e mais amorosas pessoas que se pode imaginar») que parecem estar a negá-la. Desatenção igual, creio, seria não atribuir importância especial ao facto de Kafka haver proposto ao seu editor, em 4 de Abril de 1913, que os relatos O Fogueiro (primeiro capítulo do romance América), A Metamorfose e A Sentença fossem reunidos num único volume com o título de Os Filhos (o que, aliás, só muito recentemente, em 1989, viria a suceder). Em O Fogueiro, «o filho» é expulso pelos pais por ter ofendido a honra da família ao engravidar uma criada, em A Sentença «o filho» é condenado pelo pai a morrer por afogamento, em A Metamorfose «o filho» deixou simplesmente de existir, o seu lugar foi tomado por um insecto… Mais do que a Carta ao Pai, escrita em Novembro de 1919, mas que nunca viria a ser entregue ao destinatário, são estes relatos, segundo entendo, e em particular A Sentença e A Metamorfose, que, precisamente por serem transposições literárias em que o jogo de mostrar e esconder funciona como um espelho de ambiguidades e reversos, nos oferecem com mais precisão a dimensão da ferida incurável que o conflito com o pai abriu no espírito de Franz Kafka. A Carta assume, por assim dizer, a forma e o tom de um libelo acusatório, propõe-se como um ajuste de contas final, é um balanço entre o deve e o haver de duas existências enfrentadas, de duas mútuas repugnâncias, pelo que não se pode rejeitar a hipótese de que se encontrem nela exageros e deformações dos factos reais, sobretudo quando Kafka, no final do escrito, passa subitamente a usar a voz do pai para se acusar a si mesmo… Em O Processo, Kafka pôde desfazer-se da figura paterna, objectivamente considerada, mas não da sua lei. E tal como em A Sentença o filho se suicida porque assim o tinha determinado a lei do pai, em O Processo é o próprio acusado Josef K… que acabará por conduzir os seus algozes ao lugar onde será assassinado e que, nos últimos instantes, quando a morte já se vem acercando, ainda dará por si a pensar, como um derradeiro remorso, que não tinha sabido desempenhar o seu papel até ao fim, que não tinha conseguido poupar trabalho às autoridades… Isto é, ao Pai.
José Saramago, O CADERNO

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Dia 6 [Agosto de 2009]

A sombra do pai (1)
Mikhail Bahktine escreveu na sua Estética e Teoria do Romance: «O objecto principal do género romanesco, aquele que o “especifica”, aquele que cria a sua originalidade estilística, é o homem que fala e a sua palavra». Creio que raramente uma asserção de âmbito geral como esta é terá sido tão exacta como no caso humano e literário de Franz Kafka. Desrespeitando certos teóricos que, não destituídos de razão, se têm insurgido contra a tendência «romântica» de ir procurar à existência de um escritor os sinais da passagem do vivido para o escrito, o que, supostamente, seria a final explicação da obra, Kafka não esconde em nenhum momento (e parece fazer mesmo questão de que se note) o quadro de factores que determinaram a sua dramática vida e, em consequência, o seu trabalho de escritor: o conflito com o pai, o desentendimento com a comunidade judaica, a impossibilidade de deixar a vida celibatária pelo casamento, a enfermidade. Penso que o primeiro daqueles factores, isto é, o antagonismo nunca superado que opôs o pai ao filho e o filho ao pai, é o que constitui a trave mestra de toda a obra kafkiana, dele derivando, como os ramos de uma árvore derivam do tronco principal, o profundo desassossego íntimo que o levou à deriva metafísica, à visão de um mundo agonizando pelo absurdo, à mistificação da consciência.
A primeira referência a O Processo encontra-se nos Diários, foi escrita em 29 de Julho de 1914 (a guerra desencadeara-se no dia anterior) e começa com as seguintes palavras. «Uma noite, Josef K…, filho de um rico comerciante, depois de uma grande discussão que tinha tido com o pai…». Sabemos que não é assim que o romance irá principiar, mas o nome da personagem principal – Josef K…  já ficou anunciado, tal como em três rápidas linhas de A Metamorfose, escrito quase dois anos antes, já se anunciava o que viria a ser o núcleo temático central de O Processo. Quando, transformado da noite para o dia, sem qualquer explicação do narrador, num bicharoco nojento, misto de escaravelho e de barata, se queixa dos sofrimentos imerecidos que caem sobre o viajante de comércio em geral e sobre ele próprio em particular, Gregorio Samsa expressa-se de uma maneira que não deixa margem para dúvidas: «muitas vezes é vítima de uma simples murmuração, de um acaso, de uma reclamação gratuita, e é-lhe absolutamente impossível defender-se, uma vez que nem sequer sabe de que o acusam». Todo O Processo está contido nestas palavras. É certo que o pai, «rico comerciante», desapareceu da história, que a mãe só é mencionada em dois dos capítulos inacabados, e mesmo assim fugazmente e sem caridade filial, mas não me parece um excesso temerário, salvo se estou demasiado equivocado sobre as intenções do autor Kafka, imaginar que a omnipotente e ameaçadora autoridade paterna terá sido, pela estratégia da ficção, transferida para as alturas inacessíveis da Lei Última, essa que, sem precisar de enunciar uma culpa concreta recolhida nos códigos, será sempre implacável na aplicação do castigo. O angustiante e ao mesmo tempo grotesco episódio da agressão executada pelo pai de Gregorio Samsa para expulsar o filho da sala familiar, atirando-lhe com maçãs até que uma delas se lhe vai incrustar na carapaça, descreve uma agonia sem nome, a morte de qualquer esperança de comunicação.
José Saramago, O CADERNO

Coimbra, 6 de Agosto de 1980

A alma pequena dos pequenos! Ninguém aqui admira ninguém. Aplaudimo-nos, quando aplaudimos.
Miguel Torga

domingo, 5 de agosto de 2012

Dia 5 [Agosto de 2009]

Almodóvar
Cheguei tarde à «movida», quando ela já tinha deixado os seus trajes de arlequim urbano, as suas lágrimas falsas de rímel negro, os seus postiços, as suas perucas, os seus risos e a sua tristeza. Não quero dizer que as «movidas» sejam tristes por definição, o que digo é que têm de se esforçar muito para não deixar que lhes saia da boca, no meio da festa e da orgia, a pergunta definidora: «Que faço eu aqui?» Atenção, estou contando uma história que não é minha. Nunca fui homem para «movidas» e se alguma vez acontecesse deixar-me seduzir, estou certíssimo de que não faria melhor figura que D. Quixote no palácio dos duques. O ridículo existe de facto, não é unicamente um ponto de vista. Posto isto, creio não equivocar-me muito imaginando Pedro Almodóvar, referente por excelência da «movida» madrilena, a perguntar à sua pequena alma (as almas são todas pequenas, praticamente invisíveis): «Que faço eu aqui?» A resposta vem dando-a ele nos seus filmes, esses que nos fazem rir ao mesmo tempo que nos põem um nó na garganta, esses que nos insinuam que por trás das imagens há coisas a pedir que as nomeemos. Quando vi Volver enviei a Pedro uma mensagem em que lhe dizia: «Tocaste a beleza absoluta». Talvez (seguramente) por pudor, não me respondeu.
Devo concluir. De uma forma decerto inesperada para quem está mal gastando o seu tempo a ler estas linhas, e que resumo assim: a Pedro Almodóvar espera-o o grande filme sobre a morte que vem faltando ao cinema espanhol. Por mil razões, sobretudo porque essa seria a maneira de recuperar dos escombros o sentido último da «movida».
José Saramago, O CADERNO

sábado, 4 de agosto de 2012

Dia 4 [Agosto de 2009]

Pátio do Padeiro
Creio que foram doze anos o tempo que vivi na Penha de França, primeiro na Rua do Padre Sena Freitas, depois na Rua Carlos Ribeiro. Durante muitos mais, porém, até ao falecimento de minha mãe, o bairro foi para mim um prolongamento constante de todos os outros lugares onde depois morei. Dele tenho recordações que permaneceram vivas até hoje. Então ainda o Vale Escuro fazia honra ao seu nome, era um espaço de aventura e descobrimento para os rapazes, um resto de natureza que as primeiras construções já começavam a ameaçar, mas onde era possível saborear o gosto ácido das azedas e os tubérculos adocicados das raízes de uma planta cujo nome nunca cheguei a conhecer. E era também o campo de batalha de homéricas púrrias… E havia o Pátio do Padeiro (que não pertencia à Penha de França, mas ao Alto de S. João…), onde a gente «normal» não se atrevia a entrar e que, segundo se dizia, a própria polícia evitava, fazendo vista gorda aos supostos ou autênticos comportamentos ilícitos dos seus habitantes. O mais certo é que tanta desconfiança e temor fossem também causados pelo encerramento em si próprio daquele pequeno mundo que vivia segregado do resto do bairro e cujas palavras, gestos e atitudes chocavam com o pacato ramerrame da gente assustadiça que passava de largo. Um dia, quase da manhã para a noite, o Pátio do Padeiro desapareceu, talvez arrasado pelo camartelo municipal, mais provavelmente pelas escavadoras das empresas construtoras, e no seu lugar foram levantados prédios sem imaginação, copiados uns dos outros e que em poucos anos envelheceram. O Pátio do Padeiro, ao menos, tinha a sua originalidade, a sua fisionomia própria, embora suja e mal cheirosa. Se eu pudesse, se tivesse a coragem de partilhar a vida daquelas pessoas para informar-me, gostaria de reconstituir a vida do Pátio do Padeiro. Penas perdidas seriam. A gente que ali vivia dispersou-se, os seus descendentes, se se lhes melhorou a vida, ou esqueceram ou não quereriam recordar a dura existência dos que viveram antes. Na memória da Penha de França (ou do Alto de S. João) não se guardou um espaço para o Pátio do Padeiro. Há pessoas que nasceram e viveram sem sorte. Delas não ficou nem sequer a pedra da soleira da porta. Morreram e passaram.
José Saramago, O CADERNO

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Dia 3 [Agosto de 2009]

Gabo
Os escritores dividem-se (imaginando que aceitem ser assim divididos…) em dois grupos: o mais reduzido, daqueles que foram capazes de rasgar à literatura novos caminhos, o mais numeroso, o dos que vão atrás e se servem desses caminhos para a sua própria viagem. É assim desde o princípio do planeta e a (legítima?) vaidade dos autores nada pode contra as claridades da evidência. Gabriel García Márquez usou o seu engenho para abrir e consolidar a estrada do depois mal chamado “realismo mágico” por onde logo avançaram multidões de seguidores e, como sempre acontece, os detractores de turno. O primeiro livro seu que me veio às mãos foi Cem Anos de Solidão e o choque que me causou foi tal que tive de parar de ler ao fim de cinquenta páginas. Necessitava pôr alguma ordem na cabeça, alguma disciplina no coração, e, sobretudo, aprender a manejar a bússola com que tinha a esperança de orientar-me nas veredas do mundo novo que se apresentava aos meus olhos. Na minha vida de leitor foram pouquíssimas as ocasiões em que uma experiência como esta se produziu. Se a palavra traumatismo pudesse ter um significado positivo, de bom grado a aplicaria ao caso. Mas, já que foi escrita, aí a deixo ficar. Espero que se entenda.
José Saramago, O CADERNO

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

SARGACEIRO

Apúlia… Apúlia…
O mar, lá, entontece.
(E sofri tanto!)
   À noite, onde estarão

As ondas?
Rezo!
E, repetida, a prece
Em meus quadris desliza a sua mão!

Apúlia… Apúlia…
Aqui repouso a fronte
Nos flancos estendidos (verdadeiros
Templos de paz!) tendo por horizonte
As pernas brancas dos meus sargaceiros.

Apúlia… Apúlia…
         Sol. E Sol, perfeito
E a pino, luminoso na mentira;
Oiço um relógio, só! Oiço-o em meu peito:
- O mar! O mar da Apúlia que respira...

Apúlia… Apúlia…
De ancas opulentas,
Loiras meninas que já são mulheres
Afastam toda a imagem das tormentas…
Aprende a evitá-las se puderes!

Apúlia… Apúlia…
À custa das pupilas,
Bebi a luz das rochas e a do vento,
Ouvindo, longe, vozes! E, de ouvi-las,
O mundo pára, mais feliz, mais lento… 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O QUEBRA-NOZES

Há dias um familiar perguntou-me:
– Que queres de prenda de Natal?
– Um quebra-nozes para pinhões.
– Não sei o que é.
– Nem eu.
– Mau.
– Não te zangues. Eu explico.
Na minha infância aldeã não havia Árvores de Natal, sapatinhos na chaminé, ou coisas dessas de gente citadina.
A única prenda com que nós, os miúdos, podíamos contar, eram os pinhões.
Uma pinha por cabeça ou, em tempos de mais carestia, uma para dois, que nós éramos oito.
Um ano por outro, avezávamos um suprimento trazido pela tia Albertina, irmã de minha mãe, casada em Fírvidas, onde, ao tempo, havia o único pinheiro manso das sete léguas em redor.
E era um ver quem mais se aviava a esquentar a pinha ao lume, a virá-la dum lado e doutro, à espera que ela se risse e mostrasse os dentes, que nós lhe íamos extraindo e dispondo em eirado, na pedra do lar.
– Quantos pares rendeu a tua?
– Setenta e cinco!
– A minha, oitenta e três!
Debulha feita, começava a jogatina. O método mais vulgar era o par ou pernão. Estou a lembrar-me da história dum garoto que, bolso cheio de pinhões, saiu para a rua à procura de adversário. Apareceu-lhe um gargajola bastante mais velho que o desafiou para o par ou pernão. Mas o garoto ainda nem sequer sabia contar. Perguntava: «Para o par ou pernão?». O outro respondia par. Ele mostrava. Era ímpar. Mas o gargajola dizia: Par. Bota cá. Agora sou eu a perguntar. Par ou penão? O garoto respondia: par. Estava certo. Mas o gargajola enganava-o: pernão. Bota cá. Em breve o garoto estava sem pinhões. Foi para casa choramingar. A mãe deu-lhe outra pinha. Ele debulhou-a e desceu de novo à rua. O gargajola acorreu:
– Vamos jogar?
– Está bem. Mas ao bota cá, bota cá, não quero!
Além do par ou pernão, havia o rapa e o arrebindai-ma. O rapa, toda a gente sabe o que é. Arrebindai-ma, nem todos saberão.
Era assim. O primeiro jogador ocultava um certo número de pinhões entre a mão aberta e uma tábua e dizia:
Arrebindai-ma?
O segundo replicava:
Abri a mão e dai-ma.
Num gesto rápido, o primeiro levantava um pouco a mão e escondia de novo. O segundo tinha de adivinhar quantos pares eram. Se errasse, repunha a diferença.
Passei noites inteiras a disputar o arrebindai-ma com um meu vizinho e colega de instrução primária, mestre em trapaças.
Num dia em que estava a perder, ele colocou, num arreganho de vingança, todos os pinhões que tinha em cima do escano, cobriu-os com as mãos ambas e disse:
– Arrebindai-ma?
– Abri a mão e dai-ma!
Ele mexeu apenas os dedos.
– Cento e quarenta e quatro pares – disse eu.
Uma das trapaças mais frequentes do meu parceiro consistia em esconder um ou dois pinhões entre as pregas dos dedos e retê-los ou deixá-los cair conforme lhe conviesse.
Exige-lhe que mostrasse as mãos a ver se estavam limpas.
– Podes contar.
Ele começou a contagem, vagarosamente, sempre melúrias.
Ao aproximar-se dos cento e quarenta, apercebeu-se de que eu tinha acertado e perdeu a cor:
– Estou que me enganei. Volto atrás.
E, sub-repticiamente, com o cotovelo, ia rolando os pinhões para a borda do escano. Mas eu estava atento:
– Não sejas batoteiro!
– Batoteiro, eu?
– Julgas que eu não vejo? Apanha os pinhões, não te faças andrezo.
Havia uns quatro no chão.
– Oh! Estes não faziam parte da jogada…
– Faziam, que eu bem os ouvi cair.
– Estás maluquinho.
– Nunca estive tão fino. Conta direito.
A disputa foi renhida. Mas os cento e oitenta e oito pinhões vieram comigo.
Não é por me gabar, mas cheguei a ser imbatível na arrebindai-ma? De modo que, finda a safra, ficava sempre de saco cheio. E só me restavam duas saídas: guardá-los ou comê-los.
Nada fácil, quebrar um pinhão. Um dia, irritado com um mais refractário ao golpe duma pedra, fui-me a ele com um martelo. O lafrau furtou-se e eu esborrachei a cabeça do indicador esquerdo.
Quando me viu a escaincar, o tio António, irmão e afilhado do meu pai, fingiu-se muito condoído e consolou-me:
– Deixa estar, que hei-de trazer-te da feira um quebra-nozes para pinhões.
E eu fiquei à espera.
De vez em quando lembrava-lhe:
– Ó tio? O meu quebra-nozes para pinhões?
– Já o encomendei a um ourives de Chaves. Mas aquilo é objecto de muita obra e feitio. Aguarda.
E eu especulava para comigo: encomendado a um ourives? Então deve ser de prata… Ou de ouro?
Mas a encomenda nunca mais chegou.
Anda por aí uma peça de teatro em que dois indivíduos passam a vida «À Espera de Godot».
Eu passei a minha à espera dum quebra-nozes para pinhões.
Bento da Cruz, PROLEGÓMENOS II – Crónicas de Barroso (p. 40 e ss.)

Coimbra, 1 de Agosto de 1980

Já não tem cura. Há anos a tentar que se lhe faça luz no entendimento, e ainda não foi capaz de compreender a diferença que há entre os que se escandalizam e os que se indignam. Entre os que vivem a vida em ritos de convenção e os que a vivem em actos de convicção.
Miguel Torga

terça-feira, 31 de julho de 2012

Dia 31 [Julho de 2009]

Álvaro Cunhal
Não foi o santo que alguns louvavam nem o demónio que outros aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem. Chamou-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a ingerir os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos possíveis e prováveis do partido de que havia sido, por muitos anos, contínua e quase única referência. Quer no plano nacional quer no plano internacional, não duvido de que tenham sido de amargura as horas que Álvaro Cunhal viveu ainda. Não foi o único, e ele o sabia. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele era, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultados que se vissem, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Cunhal quando ele se retirou. Agora é demasiado tarde. O que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso. E compreendo, garanto que compreendo, o que um dia Graham Greene disse a Eduardo Lourenço: «O meu sonho, no que toca a Portugal, seria conhecer Álvaro Cunhal». O grande escritor britânico deu voz ao que tantos sentiam. Entende-se que lhe sintamos a falta.
José Saramago, O CADERNO

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Coimbra, 30 de Julho de 1980.

     REGISTO

Canto agora em surdina.
Se ergo a voz, desafino.
Em vão me desentranho e obstino:
Erro os versos agudos do poema.
Grave, a alma só sabe articular
Graves sons murmurados,
Prelúdios de silêncio dedilhados
Num alaúde lasso.
Soluços soluçados
A compasso…
Miguel Torga

Dia 30 [Julho de 2009]

A abjuração
A quem possa interessar:

Eu, Galileu Galilei, filho do falecido Vincenzo Galilei, de Florença, com 70 anos de idade, tendo sido trazido pessoalmente ao julgamento e ajoelhando-me diante de vós, eminentíssimos e reverendíssimos Cardeais Inquisidores-Gerais da Comunidade Cristã Universal contra a depravação herética, tendo frente a meus olhos os Santos Evangelhos, que toco com as minhas próprias mãos, juro que sempre acreditei e, com o auxílio de Deus, acreditarei de futuro, em cada artigo que a sagrada Igreja Católica de Roma sustenta, ensina e prega. Mas porque este Sagrado Ofício me ordenou que abandonasse completamente a falsa opinião, a qual sustenta que o Sol é o centro do mundo e imóvel, e proíbe abraçar, defender ou ensinar de qualquer modo a dita falsa doutrina. […] Eu desejo remover da mente de Vossas Eminências e da de cada cristão católico esta suspeita correctamente concebida contra mim; portanto, com sinceridade de coração e verdadeira fé, abjuro, maldigo e detesto os ditos erros e heresias, e em geral todos os outros erros e seitas contrários à dita Santa Igreja; e eu juro que nunca mais no futuro direi, ou afirmarei nada, verbalmente ou por escrito, que possa levantar semelhante suspeita contra mim, mas se eu vier a conhecer qualquer herege ou qualquer suspeito de heresia, eu o denunciarei a este Santo Ofício ou ao inquiridor Ordinário do lugar onde eu estiver. Juro, além disso, e prometo que cumprirei e observarei todas as penitências que me foram ou sejam impostas por este Santo Ofício. Mas se por acaso eu vier a violar qualquer uma de minhas ditas promessas, juramentos e protestos (o que Deus não permita), sujeitar-me-ei a todas as penas e punições que forem decretadas e promulgadas pelos sagrados cânones e outras constituições gerais e particulares contra delinquentes assim descritos. Portanto, com a ajuda de Deus e de seus Santos Evangelhos, que eu toco com as minhas mãos, eu, abaixo assinado, Galileu Galilei, abjurei, jurei, prometi e me obriguei moralmente ao que está acima escrito, e, em fé de que, com minha própria mão, assinei este manuscrito de minha abjuração, o qual eu recitei palavra por palavra.
José Saramago, O CADERNO

domingo, 29 de julho de 2012

Dia 29 [Julho de 2009]

E pur si muove
Com os dados da sondagem ainda quentes, o jornal El País já me estava a pedir um comentário sobre a eventual união dos povos que compõem a Península Ibérica. O que vem a seguir é o que enviei a Madrid acerca deste melindroso assunto. Melindroso, delicado, polémico e conflitivo assunto em que não tem sido impossível chegar a acordo ao menos para discuti-lo seriamente.
«E no entanto move-se». Estas palavras tê-las-ia dito num sussurro quase inaudível Galileu Galilei ao terminar a leitura da abjuração a que havia sido forçado pelos inquisidores-gerais da Igreja Católica em 22 de Junho de 1633. Tratou-se, como se sabe, de obrigá-lo a desmentir, condenar e repudiar publicamente o que tinha sido e continuava a ser sua profunda convicção, isto é, a verdade científica do sistema coperniciano, segundo o qual é a Terra que gira à volta do Sol e não o Sol à volta da Terra. O estudo do texto da abjuração de Galileu deveria fazer-se com a conveniente atenção em todos os estabelecimentos de ensino do planeta, fosse qual fosse a religião dominante, não tanto para confirmar o que hoje já é uma evidência para toda gente, que o Sol está parado e a Terra se move ao redor dele, mas como maneira de prevenir a formação de superstições, lavagens de cérebro, ideias feitas e outros atentados contra a inteligência e o senso comum.
Não é, porém, Galileu o objecto primeiro deste texto, mas algo mais próximo de nós no tempo e no espaço. Refiro-me ao Barómetro Hispano-Luso do Centro de Análise Social da Universidade de Salamanca, hoje publicado, sobre as eventuais possibilidades de criação de uma união entre os dois países da Ibéria com vista à formação de uma Federação hispano-portuguesa. Os leitores que acompanham regularmente estes e outros comentários meus estarão lembrados da polémica, adornada com uns quantos insultos escolhidos e umas quantas acusações de traição à pátria, que o meu prognóstico de uma união desse tipo suscitou há tempos. Ora, de acordo com a sondagem da Universidade de Salamanca, 39,9% dos portugueses e 30,3% dos espanhóis apoiariam essa união. As percentagens mostram um sensível avanço, quer num país quer no outro, em relação a cálculos feitos nessa altura. Os que rejeitam a ideia constituem um pouco mais de 30% das pessoas consultadas, isto é, 260 dos 876 cidadãos para o efeito entrevistados nos meses de Abril e Maio deste ano.
Ao contrário do que geralmente se diz, o futuro já está escrito, nós é que não temos ainda a ciência necessária para o ler. Os protestos de hoje podem tornar-se em concordâncias amanhã, também o contrário poderá suceder, mas uma coisa é certa e a frase de Galileu tem aqui perfeito cabimento. Sim, a Ibéria. E pur si muove.
José Saramago, O CADERNO