quinta-feira, 26 de julho de 2012

O riso das baleias

Quer ver baleias?
Nem esperou pela resposta. Fazendo dançar os dedos, o homem enunciava o preçário:
«Uma baleia são duzentos, duas são quatrocentos…»
Na realidade, ele não dizia exactamente assim. Transcrito à letra, soava antes assim: «Uma paleia são tuzendos…» Essa é a pronúncia macua do português, entoado com um mavioso e sedutor embalo.
O negócio ficou feito. Aliás, nas praias de Fernão Veloso, junto à cidade de Nacala, o negócio já está feito de antemão. Porque o visitante fica conquistado perante a beleza de uma das maiores baías do mundo. Os pescadores que se acumulam na praia estão demasiado ocupados com os seus assuntos. As redes de múltiplas cores parecem cumprir um fim mais estético que funcional. O destino de toda aquela agitação parece ser o de criar beleza. Sim, o negócio está já antecipadamente feito. Muito antes de entrarmos para o dow, embarcação árabe usada em todo o Norte de Moçambique. As velas foram costuradas e remendadas dezenas de vezes. Tantas quantas as monções. E aguardamos no barco, à espera que o pescador reúna uns tantos turistas mais para percorrer a baía. As baleias são um aliciante extra. Porque bastava a paisagem, os indescritíveis cenários em redor de Nacala. Não existe nome para a cor daquelas águas. Nem para dizer do branco das areias que a mão divina peneirou em todo o litoral.
No barco, aguardamos mais do que me agrada. Alguma coisa sucede na praia que faz demorar a tripulação. Sabemos do que se trata quando um deles faz uso de uma raiz para escovar os dentes. Estão-se preparando para as orações. Sapatos colocados à parte, como se houvesse uma invisível parede de mesquita, os pescadores se dobram em direcção a Meca.
A devoção com que se entregam às orações contrasta com a agitação que, ao mesmo tempo, anima a praia. Há barcos chegando de longe, de Memba, trazendo maçanica, galinhas, mandioca. Uma mulher oferece-me uma mão-cheia de maçanica. O sabor dos frutos me faz regressar à infância. Um grupo de jovens me acena com colares de missangas. São estudantes de manhã, vendedores à tarde. Mas já é tarde, já a embarcação se está fazendo à viagem. Quando o dow se adentra pelas águas, apercebemo-nos dos caprichos da configuração da baía que, em curta distância, afunda centenas de metros. A tonalidade da água acompanha a batometria: torna-se mais escura, de um azul mais grave e menos aberto à luz. E não tarda que um grito nos alerte:
«Vejam, as baleias!»
A excitação fez ver no plural. É apenas uma baleia. Parece exibir vaidades, emergindo com espalhafato bem próximo da nossa embarcação. O dow toma-se, subitamente, minúsculo. A baleia volta a saltar, afirmando o seu domínio sobre os mares. O pescador ao leme faz-me sinal a lembrar o combinado:
«Já mudou de preço: são mais duzentos!»
Confirmo com um acenar de cabeça. Qualquer coisa me diz que dispenso mais encontros com as baleias. Será porque não sei nadar? E aponto a outra margem, sugerindo que o barco à vela se desloque no sentido oposto ao da cidade. Não tarda que se abra a nossos olhos um desses lugares que ainda guarda a tranquilidade do princípio do mundo. Os mangais ali ocorrem no fundo límpido, em transparências poucos usuais. Aqueles que conheço instalaram-se todos em lodos sujos e águas barrentas. Mas aqui tudo parece lavado pela luz.
Parte dos turistas toma banho, outros se ocupam a apanhar conchas e búzios. O meu afazer é não me ocupar de nada. A minha felicidade é perder pensamento, deixar-me ocupar por aquela leveza, esquecendo-me de que, perto, existe algo chamado «realidade». As garças cinzentas passam com lentidão de barco e parecem dar-me razão: o paraíso não é um lugar, é um breve momento que conquistamos dentro de nós. É a hora do regresso. Escolhemos o fim da tarde, sabedores do encanto dos poentes naquela baía. Observo os turistas e noto o encantamento no seu rosto. Estão calados, encostados à amurada do dow, olhar flutuando no horizonte. Há no seu silêncio uma espécie de oração, não muito diversa daquela que fez os pescadores cabecear na praia.
Aproximo-me do chefe da embarcação e, vencendo o receio de ser mal-entendido, pergunto:
– Acha que ainda veremos mais baleias?
– A esta hora já não circulam. Só na parte da manhã…
Quase suspiro de alívio. E me envergonho: como posso recuar perante o poderoso fascínio que os grandes animais provocam em mim? Um dia destes tenho que aprender a nadar. Ou terei que nascer de novo. De repente, uma sombra gigante irrompe das águas. É uma baleia. Diverte-se em enormes saltos, chapinhando sobre as ondas. Não sei se é ela, a baleia, que se ri, se sou eu que amarelo um sorriso quando o pescador me avisa:
– São mais duzentos. Ou melhor, mais trezentos, que agora ela está a fazer horas extraordinárias!
(Abril de 2004)
Mia Couto

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Coimbra, 25 de Julho de 1980

Jogos Olímpicos. O que o homem é capaz de fazer do homem! Até onde se pode levar o desrespeito pela sua condição! Aquelas medalhas de oiro, prata e cobre, em vez de honrarem a espécie, celebram apenas a desumanidade do nosso tempo, que confunde a mecânica com a fisiologia, e põe no mesmo pé de igualdade a máquina que sai de uma oficina e um corpo que nasce dum ventre. Que exige, com igual insensibilidade, mil rotações a um motor e outras tantas pulsações a um coração.
Miguel Torga 

terça-feira, 24 de julho de 2012

Dia 24 [Julho de 2009]

Um capítulo para o Evangelho
De mim se há-de dizer que depois da morte de Jesus me arrependi do que chamavam os meus infames pecados de prostituta e me converti em penitente até ao fim da vida, e isso não é verdade. Subiram-me despida aos altares, coberta unicamente pela cabeleira que me desce até aos joelhos, com os seios murchos e a boca desdentada, e se é certo que os anos acabaram por ressequir a lisa tersura da minha pele, isso só sucedeu porque neste mundo nada pode prevalecer contra o tempo, não porque eu tivesse desprezado e ofendido o mesmo corpo que Jesus desejou e possuiu. Quem aquelas falsidades vier a dizer de mim nada sabe de amor. Deixei de ser prostituta no dia em que Jesus entrou na minha casa trazendo-me a ferida do seu pé para que eu a curasse, mas dessas obras humanas a que chamam pecados de luxúria não teria eu que me arrepender se foi como prostituta que o meu amado me conheceu e, tendo provado o meu corpo e sabido de que vivia, não me virou as costas. Quando diante de todos os discípulos Jesus me beijava uma e muitas vezes, eles perguntaram-lhe porque me queria mais a mim que a eles, e Jesus respondeu: «A que se deve que eu não vos queira tanto como a ela?» Eles não souberam que dizer porque nunca seriam capazes de amar Jesus com o mesmo absoluto amor com que eu o amava. Depois de Lázaro ter morrido, o desgosto e a tristeza de Jesus foram tais que, uma noite, debaixo do lençol que tapava a nossa nudez, eu lhe disse: «Não posso alcançar-te onde estás porque te fechaste atrás de uma porta que não é para forças humanas», e ele disse, queixa e gemido de animal que se escondeu para sofrer: «Ainda que não possas entrar, não te afastes de mim, tem-me sempre estendida a tua mão mesmo quando não puderes ver-me, se não o fizeres esquecer-me-ei da vida, ou ela me esquecerá». E quando, alguns dias passados, Jesus foi reunir-se com os discípulos, eu, que caminhava a seu lado, disse-lhe: «Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti», e ele respondeu: «Quero estar onde estiver a minha sombra se lá é que estiverem os teus olhos». Amávamo-nos e dizíamos palavras como estas, não apenas por serem belas e verdadeiras, se é possível serem uma coisa e outra ao mesmo tempo, mas porque pressentíamos que o tempo das sombras estava a chegar e era preciso que começássemos a acostumar-nos, ainda juntos, à escuridão da ausência definitiva. Vi Jesus ressuscitado e no primeiro momento julguei que aquele homem era o cuidador do jardim onde o túmulo se encontrava, mas hoje sei que não o verei nunca dos altares onde me puseram, por mais altos que eles sejam, por mais perto do céu que alcancem, por mais adornados de flores e olorosos de perfumes. A morte não foi o que nos separou, separou-nos para todo o sempre a eternidade. Naquele tempo, abraçados um ao outro, unidas pelo espírito e pela carne as nossas bocas, nem Jesus era então o que dele se proclamava, nem eu era o que de mim se escarnecia. Jesus, comigo, não foi o Filho de Deus, e eu, com ele, não fui a prostituta Maria de Magdala, fomos unicamente aquele homem e esta mulher, ambos estremecidos de amor e a quem o mundo rodeava como um abutre babado de sangue. Disseram alguns que Jesus havia expulsado sete demónios das minhas entranhas, mas também isso não é verdade. O que Jesus fez, sim, foi despertar os sete anjos que dentro da minha alma dormiam à espera que ele me viesse pedir socorro: «Ajuda-me». Foram os anjos que lhe curaram o pé, eles foram os que me guiaram as mãos trementes e limparam o pus da ferida, foram os que me puseram nos lábios a pergunta sem a qual Jesus não poderia ajudar-me a mim: «Sabes quem eu sou, o que faço, de que vivo», e ele respondeu: «Sei», «Não tiveste que olhar e ficaste a saber tudo», disse eu, e ele respondeu: «Não sei nada», e eu insisti: «Que sou prostituta», «Isso sei», «Que me deito com homens por dinheiro», «Sim», «Então sabes tudo de mim» e ele, com voz tranquila, como a lisa superfície de um lago murmurando, disse: «Sei só isso». Então, eu ainda ignorava que ele fosse o filho de Deus, nem sequer imaginava que Deus quisesse ter um filho, mas, nesse instante, com a luz deslumbrante do entendimento pelo espírito, percebi que somente um verdadeiro Filho do Homem poderia ter pronunciado aquelas três palavras simples: «Sei só isso». Ficámos a olhar um para o outro, nem tínhamos dado por que os anjos se tinham retirado já, e a partir dessa hora, pela palavra e pelo silêncio, pela noite e pelo dia, pelo sol e pela lua, pela presença e pela ausência, comecei a dizer a Jesus quem eu era, e ainda me faltava muito para chegar ao fundo de mim mesma quando o mataram. Sou Maria de Magdala e amei. Não há mais nada para dizer.
José Saramago, O CADERNO

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Dia 23 [Julho de 2009]

Cinco filmes
Cinco filmes me foi pedido que recordasse. Não teria de preocupar-me se seriam ou não os melhores, os mais famosos, os mais citados. Bastaria que me tivessem impressionado de maneira particular, como nos impressiona um olhar, um gesto, uma intonação de voz. Escolhê-los não foi difícil, pelo contrário, apresentaram-se-me com toda a naturalidade, como se não tivesse andado a pensar noutra coisa. Ei-los, então, mas a ordem por que os menciono não é nem deve ser tomada como uma classificação por mérito. Em primeiro lugar (algum teria de abrir a lista), O sal da terra de Herbert Biberman, que vi em Paris no final dos anos 70 e que me comoveu até às lágrimas: a história da greve dos mineiros chicanos e das suas corajosas mulheres abalou-me até ao mais profundo do espírito. Cito a seguir Blade runner de Ridley Scott, visto também em Paris num pequeno cinema do Quartier Latin pouco tempo depois da sua estreia mundial e que, nessa altura, não parecia prometer um grande futuro. Sobre Amarcord de Fellini, desse, ninguém teve nunca dúvidas, estava ali uma obra-prima absoluta, para mim talvez o melhor dos filmes do mestre italiano. E agora vem A regra do jogo de Jean Renoir, que me deslumbrou pela montagem impecável, pela direcção de actores, pelo ritmo, pela finura, pelo «tempo», enfim. E, para terminar, um filme que me acode à memória como se viesse da primeira noite da história dos contos à lareira, Pat & Patachon Moleiros, aqueles sublimes (não exagero) actores dinamarqueses que me fizeram rir (tinha então seis ou sete anos) como nenhum outro. Nem Chaplin, nem Buster Keaton, nem Harold Lloyd, nem Laurel e Hardy. Quem não viu Pat & Patachon não pode saber o que perdeu…
José Saramago, O CADERNO

domingo, 22 de julho de 2012

Dia 22 [Julho de 2009]

Montaña Blanca
Agora que as minhas pernas vão recuperando pouco a pouco a resistência e a andadura normal graças aos esforços conjuntos do dono delas e de Juan, meu dedicado fisioterapeuta, apetece-me recordar aquela tarde de Maio em que, sem havê-lo pensado antes, me pus a subir a Montaña Blanca, nada confiante, ao princípio, em que conseguiria chegar lá acima. Foi isto há 16 anos, em 1993, e eu tinha então exactamente 70. A Montaña Blanca, que se ergue a uns dois quilómetros da casa, é a mais alta de Lanzarote, o que em todo o caso não quer dizer grande coisa, porquanto a ilha, ainda que acidentadíssima, com as suas centenas de vulcões apagados, não goza de nada que possa pôr-se ao lado do Teide de Tenerife. Tem de altura, em relação ao nível do mar, um pouco mais de 600 metros e a forma de um cone quase perfeito. Se eu a subi, qualquer um poderá subi-la também, não é preciso ser-se montanheiro consumado. Convirá, porém, calçar botas apropriadas, dessas com pontas metálicas nas solas, dado que as encostas são muito resvaladiças. Em cada três passos, perde-se um. Que o diga eu, com os meus sapatos de sola alisada pelas alcatifas domésticas… Chegado ao sopé do monte, tinha perguntado a mim mesmo: «E se eu subisse isto?» Subir aquilo era, na minha cabeça, trepar uns vinte ou trinta metros, só para poder dizer à família que havia estado na Montaña Blanca. Mas quando os vinte metros primeiros foram vencidos eu já sabia que teria de chegar ao alto, custasse o que custasse. E assim foi. A ascensão necessitou de mais de uma hora para levar-me aos afloramentos rochosos que coroam o monte e que devem ser o que resta dos bordos da antiga cratera do vulcão. «Valeu a pena?», perguntar-se-á por aí. Tivesse eu as minhas pernas de então e deixaria agora mesmo esta escrita no ponto em que está para subir outra vez e contemplar a ilha, toda ela, desde o vulcão da Coroa, no Norte, até às planuras do Rubicón, no Sul, o vale de La Geria, Timanfaya, o ondular das inúmeras colinas que o fogo deixou órfãs e, ao redor de tudo, o mar. O vento batia-me na cara, secava-me o suor do corpo, fazia-me sentir feliz. Foi em 1993 e eu tinha 70 anos.
José Saramago, O CADERNO

sábado, 21 de julho de 2012

Dia 21 [Julho de 2009]

Lua
Há quarenta anos ainda não tinha aparelho de televisão em casa. Só o comprei, pequeníssimo, cinco anos depois, em 1974, para seguir as notícias dessa outra espécie de descida na Lua que foi para nós a revolução de Abril. Recorri portanto a amigos mais adiantados em tecnologias de ponta, e assim, bebendo talvez uma cerveja e mastigando uns frutos secos, assisti à alunagem e ao desembarque. Por essas alturas andava eu escrevendo umas crónicas no recém-recuperado jornal da tarde A Capital, tempo depois reunidas num livro com o título de Deste Mundo e do Outro. Dois desses textos dediquei-os a comentar a proeza dos norte-americanos num tom nem ditirâmbico nem céptico como não tardaria muito a tornar-se moda. Reli-os agora para chegar à desconsolada conclusão de que afinal nenhum grande passo para a humanidade foi dado e que o nosso futuro não está nas estrelas, mas sempre e somente na terra em que assentamos os pés. Como já dizia na primeira dessas crónicas: «Não percamos nós a terra, que ainda será a única maneira de não perdermos a lua». Na segunda crónica, a que chamei «Um salto no tempo», imaginando a terra futura como a lua é agora, comecei por escrever que «Tudo aquilo me aparecera como um simples episódio de filme de ficção científica tecnicamente primário. Os próprios movimentos dos astronautas tinham flagrante semelhança com os gestos das marionetas, como se braços e pernas fossem puxados por invisíveis fios, uns fios longuíssimos presos aos dedos dos técnicos de Houston e que, através do espaço, moviam lá em cima os gestos necessários. Tudo estava cronometrado até o perigo se incluía no esquema. Na maior aventura da história não houve lugar para a aventura».
E foi aí que a imaginação me apanhou em cheio. Decidiu ela que a viagem à lua não havia sido um salto no espaço, mas um salto no tempo. Segundo ela, os astronautas, lançados no seu voo, haviam caminhado ao longo de uma linha temporal e pousado outra vez na terra, não esta que conhecemos, branca, verde, morena e azul, mas na terra futura, uma terra que ocupará ainda a mesma órbita, circulando à volta de um sol apagado, morta ela também, deserta de homens, de aves, de flores, sem um riso, sem uma palavra de amor. Um planeta inútil, com uma história antiga e sem ninguém para a contar. A terra morrerá, será o que a lua é hoje, dizia eu para terminar. Ao menos que não seja para todo o sempre o estendal de misérias, guerras, fome e torturas que veio sendo até agora. Para que não comecemos a dizer, já hoje, que o homem, afinal, não mereceu a pena.
O leitor concordará que, para o bem e para o mal, não pareço ter mudado muito de ideias em quarenta anos. Sinceramente, não sei se me deverei felicitar ou corrigir.
José Saramago, O CADERNO

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dia 20 [Julho de 2009]

Jardinices
A anunciada proposta de lei de revisão constitucional do inefável Alberto João, como carinhosamente o tratam os seus amigos e seguidores, tendo claramente um gato dentro, não perde tempo a esconder-lhe o rabo. Louvemos-lhe a franqueza. Jardim quer ser, com direito a veto por causa das moscas, presidente da região, e é lícito pensar que já alimentava tal ideia na cabeça quando deixou antever, tempos atrás, ainda que com um cauteloso grau de nebulosidade vocabular, o seu abandono da política, dando-nos um gosto que afinal, como as rosas de Malherbes, viria a durar pouco. A inteligência de Jardim não é nada do outro mundo, mas, em compensação, a sua esperteza parece não ter limites. Como limites parece não ter a nossa ingenuidade. Imaginar aquele Berlusconi madeirense fora dos salões e dos gabinetes reservados do poder era o que se poderá chamar um não-ser absoluto, uma contradição em termos. Jardim nasceu para mandar e mandará até ao seu último suspiro. Detestando Portugal como detesta, nunca aceitaria ser presidente da República, bastar-lhe-á sê-lo de Madeira, Porto Santo e Selvagens. No fundo, o que a proposta de lei pretende é estabelecer em Portugal uma constituição configurada à sua própria medida, isto é, curta, redonda, sem bicos.
Uma das pontas incómodas que o querido leader madeirense desejaria capar é o negregado comunismo. Receio bem que venha a partir os dentes no intento. Os comunistas têm uma longa e dura experiência de vida na clandestinidade, ilegalizá-los equivaleria a ter de levantar todas as pedras espalhadas por esse Portugal fora para ver se haveria algum escondido debaixo delas. O mais interessante nas próximas horas será o festival de falsos patriotismos que explodirá na Assembleia Regional, com os oradores abraçados às insígnias locais e algum possível espezinhamento e queima da bandeira das quinas por causa dos dois terços de cor vermelha que congestionam ainda mais as rubicundas faces de Jardim. Também será interessante ver como Manuela Ferreira Leite, esse lince da política continental, descalçará esta bota. Recomendo aos meus quatro leitores que estejam atentos aos acontecimentos. Vão ter algo que contar aos seus netos.
José Saramago, O CADERNO

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Por José Luís Peixoto

Paraty, 5 de julho 2012
Escrevo o seu nome num grão de arroz
Não importam as 9 horas entre Lisboa e São Paulo ao lado de um menino de três ou quatro anos a gritar, não importam as 5 horas entre São Paulo e Paraty, mil curvas lentas atrás de camiões com pára-lamas a dizerem que Deus é fiel. Após uma noite em Paraty, só o som dos passarinhos e do frigorífico do minibar, acordar é muito parecido com ressuscitar. Nas manhãs desta cidade, nada agride um escritor publicado: o sol está à temperatura certa, ouvem-se galos ao longe, o café da manhã está pronto, esperando.
A festa começa mais logo. Nas ruas, há homens a pintarem os últimos detalhes com pincéis pequenos. A cidade está terminando de se preparar. Os carrinhos de pipocas, de churros e de bolos chegam aos seus postos. Toda a gente tem esperança de vender alguma coisa à multidão que aí vem. Num dos carros de bolos está escrito: aqui só tem delícias. Passo por um grupo de crianças pequenas, em fila, agarradas a uma corda. Reencontro-as na Praça da Matriz, entre livros pendurados dos ramos das árvores por fios invisíveis, entre personagens da Alice no País das Maravilhas ou do Sítio do Picapau Amarelo. O Gulliver ainda está levando os retoques finais. Já está estendido no chão, rodeado de liliputianos de cartão, mas um senhor paciente ainda está a desembaraçar os cordéis que não o deixam levantar-se. Para as crianças, a Flip já começou. Na tenda da Flipinha, ouve-se um coro de meninos a responder um sim arrastado. Aproximo-me, no palco, sete crianças vestidas de letra soletram a palavra DESEJOS.
Ao início da tarde, numa pousada do centro, há o almoço de boas-vindas. Chego tarde, mas toda a gente ainda está à espera de qualquer coisa. Afinal, não cheguei tarde. A piscina no centro, as palmeiras a levantarem-se na direcção do céu e os autores convidados na fila para encherem o prato. Amigos que conheci aqui, amigos que conheci noutros pontos do mundo, amigos futuros que acabo de conhecer, caipirinha de maracujá e caipirinha de frutos vermelhos. São as duas muito boas mas a de frutos vermelhos entope o canudinho.
Anoitece cedo. Com este bom tempo, esqueço-me de que é inverno. Saio pela cidade, acompanho as luzes foscas que se vão acendendo. Reparo em dois barcos no rio, um chama-se Amor Eterno I e o outro, mais pequeno, chama-se Sonho de Arte. Os dois estão disponíveis para aluguer.
Às 7 da tarde, começa a mesa de abertura. Luís Fernando Veríssimo, António Cícero e Silviano Santiago falam sobre Drummond. Assisto ao início na tenda do telão, como são grandes os seus rostos a falar, como são altas e correctas as suas vozes.
Gosto do que dizem mas, a essa hora, estou já irremediavelmente melancólico e decido voltar às ruas da cidade. No caminho, por cinco reais, compro um pequeno livro de espiritualidade e receitas vegetarianas a um hare krishna que me pergunta se sou argentino. Cruzo-me também com um homem de cara pintada; por um real, declama poemas, que podem ser escolhidos de um cardápio. Compro um pastel de palmito e, na outra margem do rio, escolho um lugar mal iluminado para me sentar a comê-lo. Sem que seja possível distinguir as palavras, as vozes amplificadas que chegam da tenda dos autores têm um ritmo sereno. Em momentos assinalados, ouve-se o público todo a aplaudir. Aqui, mais perto, há uma mistura de vozes que só é perturbada por uma gargalhada ocasional, mais alta e distante. A pouca distância de mim, está outro autor. Trabalha sob um letreiro que diz: escrevo o seu nome num grão de arroz. As pessoas param e assistem ao seu trabalho com admiração.
Mais logo, à hora do jogo entre o Corinthians e o Boca Juniors para a Taça Libertadores, haverá show de abertura pelo Lenine. Continuo olhando a noite. Ainda não sei se vou, ainda não sei se fui.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Dia 17 [Julho de 2009]

Histórias da emigração
Que atire a primeira pedra quem nunca teve nódoas de emigração a manchar-lhe a árvore genealógica… Tal como na fábula do lobo mau que acusava o inocente cordeirinho de lhe turvar a água do regato onde ambos bebiam, se tu não emigraste, emigrou o teu pai, e se o teu pai não precisou de mudar de sítio foi porque o teu avô, antes dele, não teve outro remédio que ir, de vida às costas, à procura do pão que a sua terra lhe negava. Muitos portugueses morreram afogados no rio Bidassoa quando, noite escura, tentavam alcançar a nado a margem de lá, onde se dizia que o paraíso de França começava. Centenas de milhares de portugueses tiveram de submeter-se, na chamada culta e civilizada Europa de além-Pirinéus, a condições de trabalho infames e a salários indignos. Os que conseguiram suportar as violências de sempre e as novas privações, os sobreviventes, desorientados no meio de sociedades que os desprezavam e humilhavam, perdidos em línguas que não podiam entender, foram a pouco e pouco construindo, com renúncias e sacrifícios quase heróicos, moeda a moeda, centavo a centavo, o futuro dos seus descendentes. Alguns desses homens, algumas dessas mulheres, não perderam nem querem perder a memória do tempo em que tiveram de padecer todos os vexames do trabalho mal pago e todas as amarguras do isolamento social. Graças lhes sejam dadas por terem sido capazes de preservar o respeito que deviam ao seu passado. Outros muitos, a maioria, cortaram as pontes que os ligavam àquelas horas sombrias, envergonham-se de terem sido ignorantes, pobres, às vezes miseráveis, comportam-se, enfim, como se uma vida decente, para eles, só tivesse começado verdadeiramente no dia felicíssimo em que puderam comprar o seu primeiro automóvel. Esses são os que estarão sempre prontos a tratar com idêntica crueldade e idêntico desprezo os emigrantes que atravessam esse outro Bidassoa, mais largo e mais fundo, que é o Mediterrâneo, onde os afogados abundam e servem de pasto aos peixes, se a maré e o vento não preferiram empurrá-los para a praia, enquanto a guarda civil não aparece para levantar os cadáveres. Os sobreviventes dos novos naufrágios, os que puseram pé em terra e não foram expulsos, terão à sua espera o eterno calvário da exploração, da intolerância, do racismo, do ódio à pele, da suspeita, do rebaixamento moral. Aquele que antes havia sido explorado e perdeu a memória de o ter sido, explorará. Aquele que foi desprezado e finge tê-lo esquecido, refinará o seu próprio desprezar. Aquele a quem ontem rebaixaram, rebaixará hoje com mais rancor. E ei-los, todos juntos, a atirar pedras a quem chega à margem de cá do Bidassoa, como se nunca tivessem eles emigrado, ou os pais, ou os avós, como se nunca tivessem sofrido de fome e de desespero, de angústia e de medo. Em verdade, em verdade vos digo, há certas maneiras de ser feliz que são simplesmente odiosas.
José Saramago, O CADERNO

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Dia 16 [Julho de 2009]

As cores da terra
As mãos, quando trabalham a terra, confundem-se com ela. Há pintores que se acercam à superfície do suporte com as mãos manchadas das cores da terra. Há pintores que não podem nem nunca quereriam esquecer as cores da terra quando se preparam para pintar um rosto, um corpo despido, o brilho de um cristal, ou nada mais que duas rosas brancas numa jarra. A luz também existe para esses pintores, mas apreendem-na como se ela lhes tivesse subido do interior da terra obscura. Ao distribuí-la na tela, ou no papel, ou numa parede, o que eles fazem aparecer são os tons surdos e quentes dos barros, os negrumes do húmus, o pardo das raízes, o sangue do almagre. Pintam o humano e a sua contingência com as cores da terra porque essas é que são as cores fundamentais, não as outras. De um retrato que tenha sido pintado pelas cores da terra (como os pintava Cézanne) nunca se diga que está parecido, diga-se, sim, que é idêntico, idêntico ao original, idêntico na sua última substância: neste caso, a maior ou menor semelhança que seja capaz de oferecer-nos será o que menos deva importar. Uma figura pintada com as cores da terra terá sempre no rosto a inteireza áspera do sílex, nos cabelos os redemoinhos que o vento desenha e move nas searas, e as mãos aparecer-nos-ão como se tivessem acabado de erguer do chão os seus frutos mais profundos. As cores, todas as cores, as da terra e as do ar, sempre procuraram as formas de que precisavam para serem percebidas mais além da sua primeira manifestação. As cores foram sempre o que desafiou ou conteve o ímpeto contraditório que se encontra implícito nas formas, campo eterno de um conflito entre as agitações caóticas da rebeldia e as passividades da submissão ao costume. Tudo isto será certamente menos perceptível nas pinturas que, havendo-se proposto como miméticas transposições do «real» aparente, aspiram, acima de tudo, a ser «reconhecidas», «identificadas», «classificadas», porém, essas, mais tarde ou mais cedo, acabam por ser presas da acção desgastadora de um olhar que pouco a pouco as vai «neutralizando». Pelo contrário, ao defender-se de formas facilmente identificáveis com as representações comuns da realidade circundante, a arte abstracta, quer directa, quer de opção tendencial, «resguarda» e «liberta», em princípio, a independência relativa da cor, não a «estrangula» no aperto constringente de configurações mais ou menos previsíveis ou de modelos social e consensualmente correctos. Não foi por mera casualidade que utilizei a palavra «tendencial» como característica de uma certa prática pictórica que, apesar de instalada sem equívocos naquilo que, generalizando demasiado, chamamos arte abstracta, se recusa a cortar completamente as pontes com o mundo dos signos e dos símbolos, quer arquetípicos, quer modernos. Ela brotou espontaneamente no meu espírito enquanto contemplava, de olhos deslumbrados e tomado por uma emoção poucas vezes experimentada antes, as pinturas murais com que Jesús Mateo cobria as paredes frias da igreja de San Juan Bautista de Alarcón. Era Jesús Mateo um pintor abstracto «tendencialmente» realista? Ou, pelo contrário, um pintor realista «tendencialmente» abstracto? E essas pontes de ligação a que acima fiz referência seriam somente praticáveis para comunicar a arte «abstracta» com os signos e os símbolos gerados nas diversas indagações de que a realidade tem sido objecto, ou existiriam igualmente para comunicar a arte «realista» com um universo de abstracções em contínua expansão? Pensei então que Jesús Mateo, ao mesmo tempo que se havia libertado das ataduras condicionadoras de um realismo estrito para se entregar a um trabalho sobre formas também elas «tendencialmente» livres, embora em meu entender acatando sempre a lógica cromática, havia logrado, graças à introdução inteligente e criteriosamente medida de signos e símbolos sem custo identificáveis, fundir em uma expressão única, e quase diria uníssona, como um coro a plenas vozes simultâneas, como um políptico perspectivamente reunido em um só ponto de fuga, as enormes paredes que subiam do chão arrastando consigo toda as cores surdas da terra para ir ao encontro das cores luminosas do ar. Perante o ciclópico assombro, conceitos como abstraccionismo e realismo perdem algo do seu significado autónomo corrente, tornam-se mão esquerda e mão direita modelando em harmonia o mesmo barro. Não sei se a igreja de San Juan Bautista de Alarcón virá a ser olhada como a Capela Sixtina do nosso tempo, mas sei, tanto por ciência que creio certa como por intuição divinatória, que o pintor Jesús Mateo nasceu da mesma árvore genealógica que deu os seus melhores frutos em Hyeronimus Bosch e Brugel, o Velho. Tal como eles, Jesús Mateo explicou o homem. Pelo visível e pelo invisível.
José Saramago, O CADERNO

domingo, 15 de julho de 2012

Dia 15 [Julho de 2009]

Siza Vieira
Toda a arquitectura pressupõe uma determinada relação entre a opacidade natural da maioria dos materiais empregados e a luz exterior. Os grossos muros românicos abriam-se dificilmente para que a claridade do dia movesse, num espaço que parecia recusá-las, as sombras que precisamente iriam dar-lhe sentido. A sombra é o que permite fazer a leitura da luz. O gótico rasgava-se verticalmente em vitrais que, dando passagem à claridade, ao mesmo tempo a matizavam para resgatar no último instante o efeito misterioso da penumbra. Mesmo nos modernos tempos, quando a parede é, em grande parte, substituída por aberturas que quase a anulam, que a fazem desaparecer em absurdos revestimentos de vidro que diluem os seus próprios volumes num processo de caleidoscópicas reflexões e projecções, a necessidade de apoio de que o olho humano não pode prescindir procura ansiosamente um ponto sólido onde possa descansar e contemplar. Não conheço na arquitectura moderna uma expressão plástica em que o primórdio da parede seja tão importante como na obra de Siza Vieira. Esses muros longos e fechados surgem, à primeira vista, como inimigos inconciliáveis da luz, e, ao deixarem-se finalmente perfurar, fazem-no como se obedecessem contrariados às inadiáveis exigências da funcionalidade do edifício. A verdade, porém, segundo entendo, é outra. A parede, em Siza Vieira, não é um obstáculo à luz, mas sim um espaço de contemplação em que a claridade exterior não se detém na superfície. Temos a ilusão de que os materiais se tornaram porosos à luz, de que o olhar vai penetrar a parede maciça e reunir, em uma mesma consciência estética e emocional, o que está fora e o que está dentro. Aqui, a opacidade torna-se transparência. Só um génio seria capaz de fundir tão harmoniosamente estes dois irredutíveis contrários. Siza Vieira é esse taumaturgo.
José Saramago, O CADERNO

Coimbra, 15 de Julho de 1980

Portugal. Toda a sua vitalidade de hoje me lembra a de um pântano. Uma podridão a fervilhar.

sábado, 14 de julho de 2012

Dia 14 [Julho de 2009]

Aquilino
A obra romanesca de Aquilino Ribeiro foi o primeiro e talvez o único olhar sem ilusões lançado sobre o mundo rural português, na sua parcela beiroa. Sem ilusões, porém com paixão, se por paixão quisermos entender, como no caso de Aquilino sucedeu, não a exibição sem recato de um enternecimento, não a suave lágrima facilmente enxugável, não as simples complacências do sentir, mas uma certa emoção áspera que preferiu ocultar-se por trás da brusquidão do gesto e da voz. Aquilino não teve continuadores, ainda que não poucos se tenham declarado ou proposto como seus discípulos. Creio que não passou de um equívoco bem intencionado essa pretendida relação discipular, Aquilino é um enorme barroco, solitário e enorme, que irrompeu do chão no meio da álea principal da nossa florida e não raro deliquescente literatura da primeira metade do século. Nisso não foi o único desmancha-prazeres, mas, artisticamente falando, e também pelas virtudes e defeitos da sua própria pessoa, terá sido o mais coerente e perseverante. Não o souberam geralmente compreender os neo-realistas, aturdidos pela exuberância verbal de algum modo arcaizante do Mestre, desorientados pelo comportamento «instintivo» de muitas das suas personagens, tão competentes no bem como no mal, e mais competentes ainda quando se tratava de trocar os sentidos do mal e do bem, numa espécie de jogo conjuntamente jovial e assustador, mas, sobretudo, descaradamente humano. Talvez a obra de Aquilino tenha sido, na história da língua portuguesa, um ponto extremo, um ápice, porventura suspenso, porventura interrompido no seu impulso profundo, mas expectante de novas leituras que voltem a pô-lo em movimento. Surgirão essas leituras novas? Mais exactamente, surgirão os leitores para esse ler novo? Sobreviverá Aquilino, sobreviveremos os que hoje escrevemos à perda da memória, não só colectiva, mas individual, dos portugueses, de cada português, a essa insidiosa e no fundo pacóvia bebedeira de modernice que anda a confundir-nos o sistema circulatório das ideias e a intoxicar de novos enganos os miolos da Lusitânia? O tempo, que tudo sabe, o dirá. Não percebemos que, desleixando a nossa memória própria, esquecendo, por renúncia ou preguiça mental, aquilo que fomos, o vácuo por esse modo gerado será (já o está a ser) ocupado por memórias alheias que passaremos a considerar nossas e que acabaremos por tornar únicas, assim nos convertendo em cúmplices, ao mesmo tempo que vítimas, de uma colonização histórica e cultural sem retorno. Dir-se-á que os mundos real e ficcional de Aquilino morreram. Talvez seja assim, mas esses mundos foram nossos, e essa deveria ser a melhor razão para que continuassem a sê-lo. Ao menos pela leitura.
José Saramago, O CADERNO

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Dia 13 [Julho de 2009]

Académico
Que se me perdoe a vaidade de o vir anunciar aqui: sou académico correspondente da Academia Brasileira de Letras na vaga deixada pelo falecimento do escritor francês Maurice Druon, de quem recordo haver lido, há incontáveis anos, em edição portuguesa da Arcádia se a memória não me falha, um romance intitulado As grandes famílias, na tradição da melhor ficção novecentista. Deu-me a agradável notícia Alberto da Costa e Silva, poeta de excelência, também embaixador, que o foi em vários países, entre os quais Portugal, historiador competente de temas africanos, leia, quem o ignore, por exemplo, essa obra notabilíssima que é A enxada e a lança: a África antes dos portugueses. Eis-me portanto académico no país que mais amo depois do meu, o Brasil. É como estar em casa, com a diferença, nada despicienda, do afecto de que nos rodeiam, sentimento que a pátria às vezes se esquece de manifestar, como se ter-nos feito nascer em Lisboa ou na Azinhaga já fosse honra suficiente. Em Outubro lá irei, a apresentar um novo livro e a sentar-me à sombra da estátua de Machado de Assis. E ainda dizem que a vida não tem coisas boas…
José Saramago, O CADERNO

terça-feira, 10 de julho de 2012

Dia 10 [Julho de 2009]

Leituras para o Verão
Com os primeiros calores, já se sabe, é fatal como o destino, jornais e revistas, e uma vez por outra alguma televisão de gostos excêntricos, vêm perguntar ao autor destas linhas que livros recomendaria ele para ler no Verão. Tenho-me furtado sempre a responder, porquanto considero a leitura actividade suficientemente importante para dever ocupar-nos durante todo o ano, este em que estamos e todos os que vierem. Um dia, perante a insistência de um jornalista teimoso que não me largava a porta, resolvi ladear a questão de uma vez por todas, definindo o que então chamei a minha «família de espírito», na qual, escusado será dizer, faria figura de último dos primos. Não foi uma simples lista de nomes, cada um deles levava a sua pequena justificação para que melhor se entendesse a escolha dos parentes. Incluí nos Cadernos de Lanzarote a imagem final da «árvore genealógica» que me tinha atrevido a esboçar e repito-a aqui para ilustração dos curiosos. Em primeiro lugar vinha Camões porque, como escrevi em O Ano da Morte de Ricardo Reis, todos os caminhos portugueses a ele vão dar. Seguiam-se depois o Padre António Vieira, porque a língua portuguesa nunca foi mais bela que quando a escreveu esse jesuíta, Cervantes, porque sem o autor do Quixote a Península Ibérica seria uma casa sem telhado, Montaigne, porque não precisou de Freud para saber quem era, Voltaire, porque perdeu as ilusões sobre a humanidade e sobreviveu ao desgosto, Raul Brandão, porque não é necessário ser um génio para escrever um livro genial, o Húmus, Fernando Pessoa, porque a porta por onde se chega a ele é a porta por onde se chega a Portugal (já tínhamos Camões, mas ainda nos faltava um Pessoa), Kafka, porque demonstrou que o homem é um coleóptero, Eça de Queiroz, porque ensinou a ironia aos portugueses, Jorge Luis Borges, porque inventou a literatura virtual, e, finalmente, Gogol, porque contemplou a vida humana e achou-a triste. Que tal? Permitam-me agora os leitores uma sugestão. Organizem também a sua lista, definam a «família de espírito» literária a que mais se sentem ligados. Será uma boa ocupação para uma tarde na praia ou no campo. Ou em casa, se o dinheiro não deu para férias este ano.
José Saramago, O CADERNO

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Dia 9 [Julho de 2009]

A risca do cabelo
Estávamos, o José Manuel Mendes e eu, a chorar sobre as incuráveis debilidades da pátria, neste costume de sermos, um para o outro, uma espécie de muro das lamentações, não de Jerusalém, mas do Bairro do Arco do Cego, quando, depois de darmos a volta ao espectro e aos espectros da política nacional e rematarmos a sorte com adequados comentários aos chifres (salvo seja) de Manuel Pinho, um pesado silêncio se instalou entre nós. Ainda pensei em lembrar que o Zeus de Miguel Ângelo, que em Roma está, também tem cornos, mas achei que seria misturar alhos com bugalhos e calei-me antes de abrir a boca. Suponho que em desespero de causa, só para romper o molesto silêncio que parecia querer esmagar-nos, o José Manuel Mendes fez uma observação, mais casual que verdadeiramente interessada, sobre o uso generalizado das expressões centro-direita e centro-esquerda e sobre a dificuldade para encontrar reais diferenças entre os partidos, grupos e pessoas que a si mesmos assim se definem e classificam. Foi então que se me apresentou a piada do dia, que em verdade já estava a tardar. Disse eu: «Meu caro Zé Manel, a política é como a risca do cabelo, umas vezes ao meio, outras vezes aos lados. Riscas mesmo ao lado da risca do meio denunciam curteza de vistas em quem as traçou. A vida política da nossa querida terra é toda assim: riscas do cabelo e miopias, miopias e riscas do cabelo. Só o penteado não muda.» Rimo-nos os dois e mudámos de assunto. Foi uma boa tarde de cavaco.
José Saramago, O CADERNO

domingo, 8 de julho de 2012

Dia 8 [Julho de 2009]

Castril
O rio que passa por Lisboa não se chama Lisboa, chama-se Tejo, o rio que passa por Roma não se chama Roma, chama-se Tibre, e aquele outro que passa por Sevilha também não se chama Sevilha, chama-se Guadalquivir… Mas o rio que passa por Castril, esse, chama-se Castril. Qualquer lugar habitado receberá logo o nome por que virá a ser conhecido, mas não assim os rios. Durante milhares e milhares de anos, pacientemente, todos os rios do mundo tiveram de esperar que alguém aparecesse por ali a baptizá-los para que depois pudessem figurar nos mapas com algo mais que um traço sinuoso e anónimo. Durante séculos e séculos as águas de um rio até aí sem nome passaram tumultuosas pelo sítio onde um dia haveria de levantar-se Castril e, enquanto iam passando, olhavam para cima, para a montanha, e diziam umas às outras: «Ainda cá não está». E seguiam o seu caminho até ao mar pensando, com a mesma paciência, que atrás de tempo, tempo vem, e que novas águas hão-de chegar que já encontrarão mulheres batendo a roupa contra as pedras, crianças inventando a natação, homens pescando trutas e o mais que ao anzol viesse. Nesse momento as águas ficarão a saber que lhes foi dado um nome, que daí em diante serão, não o rio Castril, mas o rio de Castril, tão forte será o pacto de vida que passará a uni-lo à gente que está levantando as suas primeiras e rústicas moradas nos socalcos da encosta, e que depois construirá segundas e terceiras moradas, uma ao lado de outras, umas sobre os restos de outras, gerações após gerações, até hoje. Amansadas, retidas pelo muro gigantesco que fez com elas um lago, as águas do rio de Castril já não saltam furiosas sobre as pedras, já não rugem como antes entre as altas e apertadas paredes de rocha com que, durante milénios, a montanha, inutilmente, quis estrangulá-las. O mesmo desenvolvimento que iria fazer crescer e prosperar Castril domesticou a corrente. As contas entre o que se terá ganho e o que se terá perdido, fá-las-ão melhor que ninguém os castrilenses de raiz, eu só sou aquele português calado e discreto que um dia apareceu por ali levado pela mão da pessoa a quem mais quer no mundo e que, desde então, honrado algum tempo depois com o título de filho adoptivo da terra, sobe e desce da povoação ao rio e do rio à povoação, passeia ao longo das margens e pelos carreiros arcaicos que ainda conservam a memória dos pés descalços que os pisaram, como se estivesse percorrendo outra vez, descalço ele também, os caminhos da sua própria infância vivida em terras diferentes destas, não de montanhas e de um rio capaz de cavalgar rochedos, mas de planícies e de cursos de água vagarosos, o Tejo, o Almonda, toalhas de água que reflectiam por um breve momento as nuvens que passavam no céu e logo as deixavam porque outras vinham. Apesar do tempo, tanto, tanto, o velho que hoje sou contempla com os mesmos olhos inocentes as montanhas e o rio de Castril, as ruas estreitas e empinadas da povoação, as casas baixas, as oliveiras que lhe recordam outras a cuja sombra se acolheu no passado e cujos frutos apanhou, os caminhos entre ervas e flores, algum bicho assustado que corre a esconder-se, deixando atrás o rápido estremecimento de uma planta roçada à passagem. Algumas pessoas levam a vida à procura da infância que perderam. Creio que sou uma delas.
José Saramago, O CADERNO

sábado, 7 de julho de 2012

Dia 7 [Julho de 2009]

Do sujeito sobre si mesmo
Como escritor, creio não me ter separado jamais da minha consciência de cidadão. Considero que aonde vai um, deverá ir o outro. Não recordo ter escrito uma só palavra que estivesse em contradição com as convicções políticas que defendo, mas isso não significa que tenha posto alguma vez a literatura ao serviço directo da ideologia que é a minha. Quer dizer, isso sim, que ao escrever procuro, em cada palavra, exprimir a totalidade do homem que sou. Repito: não separo a condição de escritor da do cidadão, mas não confundo a condição de escritor com a do militante político. É certo que as pessoas me conhecem mais como escritor, mas também há aquelas que, com independência da maior ou menor relevância que reconheçam nas obras que escrevo, pensem que o que digo como cidadão comum lhes interessa e lhes importa. Ainda que seja o escritor, e só ele, quem leva aos ombros a responsabilidade de ser essa voz. O escritor, se é pessoa do seu tempo, se não ficou ancorado no passado, há-de conhecer os problemas do tempo que lhe calhou viver. E que problemas são esses hoje? Que não estamos num mundo aceitável, bem pelo contrário, vivemos num mundo que está a ir de mal a pior e que humanamente não serve. Atenção, porém: que não se confunda o que reclamo com qualquer tipo de expressão moralizante, com uma literatura que viesse dizer às pessoas como deveriam comportar-se. Estou a falar doutra coisa, da necessidade de conteúdos éticos sem nenhum traço de demagogia. E, condição fundamental, que não se separasse nunca da exigência de um ponto de vista crítico.
José Saramago, O CADERNO

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Dia 6 [Julho de 2009]


Crítica
Diz José Mário Silva na crítica a O Caderno, publicada no «Actual» do último Expresso que não sou um verdadeiro bloguer. Di-lo e demonstra-o: não faço links, não dialogo directamente com os leitores, não interajo com a restante blogosfera. Já o sabia eu, mas a partir de agora, se mo perguntarem, tomarei como minhas as razões de José Mário Silva e arrumarei definitivamente o assunto. De todo o modo, não venho queixar-me de uma crítica que é bem-educada, pertinente, elucidativa. Dois pontos, porém, me levam a sair à estacada, quebrando, pela primeira vez, uma decisão que até hoje foi por mim cumprida à risca, a de não responder nem sequer comentar qualquer apreciação feita ao meu trabalho. O primeiro ponto tem que ver com um suposto simplismo das análises dos problemas que me caracterizaria. Poderia responder que o espaço não dá para mais, mas quem, de verdade, não dá para mais sou eu próprio, uma vez que me faltam as habilitações indispensáveis a um analista profundo, como os da Escola de Chicago, que, apesar de tão dotados, deram com os burrinhos na água, pois nunca passou pelos seus privilegiados cérebros a hipótese de uma crise arrasadora que qualquer análise simplista seria capacíssima de prever. O outro ponto é mais sério e justifica, só por si, esta em alguns aspectos inopinada intervenção. Refiro-me aos meus alegados excessos de indignação. De uma pessoa inteligente como José Mário Silva esperaria eu tudo menos isto. A minha pergunta será portanto tão simples como as minhas análises: há limites para a indignação? E mais: como se pode falar de excessos de indignação num país em que precisamente, com as consequências que estão à vista, ela vem faltando? Meu caro José Mário, pense nisto e ilustre-me com a sua opinião. Por favor.
José Saramago, O CADERNO

terça-feira, 3 de julho de 2012

Dia 3 [Julho de 2009]

Aparências
Suponho que no princípio dos princípios, antes de havermos inventado a fala, que é, como sabemos, a suprema criadora de incertezas, não nos atormentaria nenhuma dúvida séria sobre quem éramos e sobre a nossa relação pessoal e colectiva com o lugar em que nos encontrávamos. O mundo, obviamente, só podia ser o que os nossos olhos viam em cada momento, e também, como informação complementar não menos importante, aquilo que os restantes sentidos – o ouvido, o tacto, o olfacto, o gosto – conseguissem perceber dele. Nessa hora inicial, o mundo foi pura aparência e pura superfície. A matéria era simplesmente áspera ou lisa, amarga ou doce, azeda ou insípida, sonora ou silenciosa, com cheiro ou sem cheiro. Todas as coisas eram o que pareciam ser pelo único motivo de que não havia qualquer razão para que parecessem e fossem outra coisa. Naquelas antiquíssimas eras não nos passava pela cabeça que a matéria fosse «porosa». Hoje, porém, embora sabedores de que desde o último dos vírus até ao universo, não somos mais do que organizações de átomos e que no interior deles, além da massa que lhes é própria, ainda sobra espaço para o vácuo (o compacto absoluto não existe, tudo é penetrável), continuamos, tal como o haviam feito os nossos antepassados das cavernas, a apreender, identificar e reconhecer o mundo segundo a aparência com que se nos apresenta. Imagino que o espírito filosófico e o espírito científico, coincidentes na sua origem, deverão ter-se manifestado no dia em que alguém teve a intuição de que essa aparência, ao mesmo tempo que imagem exterior capturável pela consciência e por ela utilizada, podia ser, também, uma ilusão dos sentidos. Se bem que habitualmente mais referida ao mundo moral que ao mundo físico, é conhecida a expressão popular em que aquela intuição veio a plasmar-se: «As aparências iludem.» Ou enganam, que vem a dar no mesmo.
José Saramago, O CADERNO

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Cartoon


Autor: Hart Ford

Dia 2 [Julho de 2009]

Traduzir
Escrever é traduzir. Sempre o será. Mesmo quando estivermos a utilizar a nossa própria língua. Transportamos o que vemos e o que sentimos (supondo que o ver e o sentir, como em geral os entendemos, sejam algo mais que as palavras com o que nos vem sendo relativamente possível expressar o visto e o sentido...) para um código convencional de signos, a escrita, e deixamos às circunstâncias e aos acasos da comunicação a responsabilidade de fazer chegar à inteligência do leitor, não a integridade da experiência que nos propusemos transmitir (inevitavelmente parcelar em relação à realidade de que se havia alimentado), mas ao menos uma sombra do que no fundo do nosso espírito sabemos ser intraduzível, por exemplo, a emoção pura de um encontro, o deslumbramento de uma descoberta, esse instante fugaz de silêncio anterior à palavra que vai ficar na memória como o resto de um sonho que o tempo não apagará por completo.
O trabalho de quem traduz consistirá, portanto, em passar a outro idioma (em princípio, o seu próprio) aquilo que na obra e no idioma originais já havia sido «tradução», isto é, uma determinada percepção de uma realidade social, histórica, ideológica e cultural que não é a do tradutor, substanciada, essa percepção, num entramado linguístico e semântico que igualmente não é o seu. O texto original representa unicamente uma das «traduções» possíveis da experiência da realidade do autor, estando o tradutor obrigado a converter o «texto-tradução» em «tradução-texto», inevitavelmente ambivalente, porquanto, depois de ter começado por captar a experiência da realidade objecto da sua atenção, o tradutor realiza o trabalho maior de transportá-la intacta para o entramado linguístico e semântico da realidade (outra) para que está encarregado de traduzir, respeitando, ao mesmo tempo, o lugar de onde veio e o lugar para onde vai. Para o tradutor, o instante do silêncio anterior à palavra é pois como o limiar de uma passagem «alquímica» em que o que é precisa de se transformar noutra coisa para continuar a ser o que havia sido. O diálogo entre o autor e o tradutor, na relação entre o texto que é e o texto a ser, não é apenas entre duas personalidades particulares que hão-de completar-se, é sobretudo um encontro entre duas culturas colectivas que devem reconhecer-se.
José Saramago, O CADERNO

domingo, 1 de julho de 2012

Dia 1 [Julho de 2009]

Agustina
Há uns quarenta anos, por espaço de alguns meses, exerci de crítico literário na Seara Nova, actividade para a qual obviamente não tinha nascido, mas que a benévola generosidade de dois amigos considerou poder estar ao meu alcance. Foram eles o Augusto Costa Dias, que teve a ideia, e Rogério Fernandes, então director da (a todos os títulos) saudosa Revista. No geral, suponho não ter cometido injustiças graves, salvo o pouco cuidado com que opinei sobre O Delfim de José Cardoso Pires. Muitas vezes, depois, me perguntei onde teria estado a minha cabeça naquele dia. Diz-se que um tropeção pode acontecer a qualquer, mas aquilo não foi um tropeção, foi (perdoe-se a vulgaridade da palavra) um estampanço. Quando, anos depois, com a preciosa ajuda de Jorge Amado na peleja, lutei a braço partido em Roma para que o Prémio da União Latina fosse atribuído a Cardoso Pires, é bem possível que estivesse a ser impelido, nas escaramuças argumentativas do júri, por essa penosa recordação do passado. E a competidora de Cardoso Pires era nada mais nada menos que Marguerite Duras
Há que reconhecer que os créditos com que eu tinha ido à apresentação na Seara Nova não valiam grande coisa: havia publicado Terra do Pecado em 1947 e Os Poemas Possíveis em 1966. Nada mais. Não existia um só escritor em Portugal que não tivesse feito muito mais e muito melhor que o José Saramago. Compreendo que alguns tenham visto como uma petulância sem desculpa ter eu (um quase anónimo) decidido aceitar o convite dos meus imprudentes amigos. E isso foi, provavelmente, o que Agustina Bessa-Luís deve ter pensado quando, folheando a Seara Nova (lia Agustina Bessa-Luís a Seara Nova?), deu de caras com uma crítica de um livro seu assinada por mim. Não a censurarei se o pensou, tanto mais que o seu ego pôde ter encontrado uma rápida compensação nas linhas que vinham logo a seguir. Cito de memória: «Se há em Portugal um escritor que participe da natureza do génio, esse é Agustina Bessa-Luís». Disse-o e repito-o hoje. É certo que mais adiante escrevia: «Oxalá ela não venha a adormecer ao som da sua própria música». Havia uma pontinha de malícia nesta observação? É possível, mas bastante perdoável, tratando-se de um crítico neófito à procura de um lugar próprio na praça literária…
Adormeceu? Não adormeceu? Penso que não. Que alguns dos seus leitores tivessem desejado que Agustina, com a sua inesgotável liberdade de espírito (que a tinha) se lançasse por outros roteiros e outras aventuras literárias, é compreensível, mas aquilo que a Agustina mais parece ter interessado, a comédia humana de Entre-Douro-e-Minho, isso foi exemplarmente cumprido. Não é diminuí-la dizer que a vastíssima e poderosa obra de Agustina Bessa-Luís tem, entre todas as mais leituras, uma leitura sociológica. Cada um no seu terreno, cada um no seu tempo, cada um segundo as suas especificidades pessoais e artísticas, Balzac e Agustina Bessa-Luís fizeram o mesmo: observar e relatar. O século XIX francês compreender-se-á melhor lendo Balzac. A luz que irradia da obra de Agustina ajudar-nos-á a ver com mais nitidez o que foi a mentalidade de certa classe social no século XX. E também, já agora, a do final do nosso século XIX. Em verdade, em verdade, não era trabalho para alguém que tivesse adormecido…
José Saramago, O CADERNO

Coimbra, 1 de Julho de 1980

O Ganges poluído, e milhões de indianos a purificarem-se nele. Assim nós, europeus, soubéssemos ser fiéis ao espírito e fôssemos também capazes de um banho lustral na torrente conspurcada da nossa civilização.