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domingo, 20 de outubro de 2013

Coimbra, 20 de Outubro 1976.

ANÁTEMA

Não amas, e não podes
Ler o livro da vida.
Sem amor nenhuns olhos são videntes.
A tarde triste é o sol que não consentes
Ao coração.
Mundo de solidão,
O que atravessas,
É um deserto habitado
Onde apenas tropeças
Na sombra do teu eu desencantado.

DIÁRIO (XII), Miguel Torga

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Coimbra, 16 de Outubro de 1973

São duas ditaduras a crucificar o homem português. A política e a social. A mesquinhez do meio é aqui, pelo menos, tão tirânica como a prepotência do poder. A única coisa que as distingue é uma certa maceração. Os políticos ainda mostram de vez em quando, numa embrulhada comunicação ao país, numa entrevista ou num apelo, a sua má consciência. A sociedade nem isso. Esmaga sem dar conta e sem remorsos.
Miguel Torga

sábado, 12 de outubro de 2013

Coimbra, 12 de Outubro de 1974.


SE CANTASSE

Se cantasse, talvez o coração
Sossegasse no peito.
Mas vou perdendo o jeito
De cantar.
A vida, devagar,
Leva-nos tudo,
E deixa-nos na boca o gosto de ser mudo.

DIÁRIO (XII), Miguel Torga

domingo, 6 de outubro de 2013

Portalegre, 6 de Outubro de 1976

Há terras onde vão a carácter determinadas expressões. Certa ostentação, certa grandiloquência, certa retórica. Esta cidade de Portalegre, desde o nome, ao mausoléu monumental com que em vida um bispo nela se preveniu, à toada barroca em que um poeta a cantou, parece enfunada por não sei que vento hiperbólico. Mas a gente deixa-se arrastar por esse descomedimento. Gosta dos palácios majestosos, dos brazões flamejantes, dos mármores coloridos, dos ferros forjados. Gosta de testemunhar uma candura provinciana que se desconhece, presunçosamente escarolada ao parapeito da paisagem larga, a ver passar o tempo convencida de que tem um salvo conduto para a eternidade.
Miguel Torga

sábado, 5 de outubro de 2013

Estremoz, 5 de Outubro de 1977

Do dia de hoje, exaustivo, desde madrugada até ao pôr do sol a calcorrear charnecas, só quero recordar a hora em que, a arder de calor e morto de sede, emborquei sucessivos púcaros de água fresca arrancada das funduras de um poço. Tinha a impressão de que estava a fazer uma transfusão de sangue.
Miguel Torga, DIÁRIO (XIII)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Estremoz, 2 de Outubro de 1977

Este Alentejo podia muito bem ser meu. O que lhe falta em altura, sobra-lhe em largueza. E ambas as dimensões me empolgam igualmente. Escalar montanhas abruptas ou rasgar horizontes infindos foi sempre o grande afã da minha vida. Aproximar a alma do céu e calcar a sombra do corpo na terra.
DIÁRIO (XIII), Miguel Torga

sábado, 28 de setembro de 2013

Coimbra, 28 de Setembro de 1975

É uma pena que a barca de Caronte regresse sempre vazia ao cais da partida, e Ruben A. não possa voltar por momentos ao reino dos vivos para comentar a sua própria morte, anunciada hoje em tipo miúdo na vala necrológica dos jornais. É que ninguém melhor do que ele, a propósito dessa ausência de si mesmo no palco da existência, saberia transmitir-nos o que há de absurdo, de estúpido e de pungente no desaparecimento de certas criaturas que trazem à indiferença dos dias a singularidade de um estilo desabusado, emblematicamente vivido. Por ser precisamente uma delas, um desses entes raros e insólitos que nunca deveriam deixar-nos desamparados na pobreza da nossa vulgaridade, e porque tinha o humor negro, a lucidez e a fantasia que os imortais às vezes outorgam distraidamente aos mortais, era numa das suas Páginas que ficavam bem estas lágrimas, que só ali correriam eternamente salgadas e bufas, de uns olhos ao mesmo tempo irónicos e cordiais, bárbaros e civilizados, cândidos e demoníacos, sonâmbulos e acordados. Juiz póstumo da personagem que foi, sem lhe poder corrigir um gesto sequer, mal se imagina a que profundidades desceria a sua análise implacável, e que sibilina e justa sentença lavraria no fim. Mas o destino gosta pouco de se ver perspectivado pelos interessados. Mormente quando eles são senhores soberanos da palavra. E O Mundo À Minha Procura fica assim privado de um remate que nenhuma outra mão, desgraçadamente, lhe pode dar – remate inteligente e melancólico, apenas possível no espírito de quem acreditava sinceramente na glória, mas humanamente lhe sabia assobiar nas horas triunfais.
Miguel Torga: DIÁRIO (XII)

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Preservação

Chama-se liberdade o bem que sentes,
Águia que pairas sobre as serrainas;
Chamam-se tiranias
Os acenos que o mundo
Cá de baixo te faz;
Não desças do teu céu de solidão,
Pomba da verdadeira paz,
Imagem de nenhuma servidão!


(Miguel Torga, in Diário IX)

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Albufeira, 14 de Agosto de 1976.


TRANSFIGURAÇÃO

O sol e o mar deram à tua pele
O tom do bronze, a cor da eternidade.
E agora, nos meus olhos de poeta,
És uma deusa eterna a passear
Na praia iluminada.
Imaginada
Num poema despido,
Desafias o tempo, olímpica e sagrada,
Humana só na sombra de o teres sido.


Miguel Torga

domingo, 28 de julho de 2013

Nesta data e na anterior, escreveu Miguel Torga em 1977 e em Coimbra...

Às vezes fico-me a pensar se não irei por um caminho errado. Se, herdeiro da minha própria contestação, me não terei transformado num polícia de mim mesmo. Se não vivo a acautelar o verbo para me não desmentir.


Ainda a propósito da nota de ontem. No fundo, a sociedade e os respeitos humanos acabam por perder o artista, exigindo-lhe a coerência dos que vivem a rotina dos dias. Dos que dão hoje os mesmos passos de ontem, e que darão amanhã os mesmos passos de hoje. Se as vozes do mundo o deixassem ser só quem é, ele até podia ser um poço de contradições. Natureza imprevisível, o pior que se pode pedir a um poeta é que seja fiel às suas palavras. 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Coimbra, 10 de Julho de 1975

Como o homem seria desgraçado se não tivesse o dom maravilhoso de imaginar, de fantasiar, de sonhar! O que teria sido de mim se todo eu estivesse amarrado a este quotidiano doméstico e social! Mas não. Desde criança que sei que há um reduto inexpugnável: a clandestinidade do espírito.

Miguel Torga

Coimbra, 10 de Julho de 1974

O afinco com que esta civilização se quer desacreditar e destruir! Envergonhada, no fundo, da consciência que tem dos próprios pergaminhos, morbidamente apostada na denúncia casuística das suas motivações originais, tanto se desmitificou, tanta psicanálise fez de si, que acabou por ficar sem mitos, sem crenças, sem valores e sem pé na vida.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Coimbra, 9 de Julho de 1975


EXPECTAÇÃO

Devolvo à tarde triste a luz que me entristece,
E vou entristecendo
O largo,
O rio,
O campo
E, mais além, a linha do horizonte.
Mas repreendo os olhos e regresso
À página vazia
Onde, possesso,
Aguardo que desponte
A luz de um novo dia.

Um dia alegre,
Limpo,
Singular,
De nenhuma semana,
De nenhum mês,
De nenhum ano,
Miraculosamente amanhecido
Nas sílabas de um verso enfeitiçado,
A ressoar, medido e desmedido,
Na concha do ouvido
Deslumbrado.

Miguel Torga

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Coimbra, 8 de Julho de 1977.


VOZ ACTIVA

Canta, poeta, canta!
Violenta o silêncio conformado.
Cega com outra luz a luz do dia.
Desassossega o mundo sossegado.
Ensina a cada alma a sua rebeldia.


Miguel Torga

Coimbra, 8 de Julho de 1974

É trágico ter de assumir este quotidiano pátrio condicionado por meia dúzia de primários. Morrer nas mãos de uns tantos que sacrificam o destino de todos a uma pirueta do seu pretenso destino.

domingo, 7 de julho de 2013

Coimbra, 7 de Julho de 1974


                        FALÊNCIA

Inicio o poema.
Mas não sei que dorido sentimento
Tolhe-me a inspiração.
Os beijos arrefecem
Na medida dos versos.
E os teus olhos parecem
Mortiços universos
Onde a vida agoniza.
Canto desencantado.
Ergo as velas à brisa
Num barco naufragado.


Carvoeiro, 7 de Julho de 1973

Carvoeiro, 7 de Julho de 1973 – Rondo por estas aldeias turísticas, invejo piscinas privadas, espreito jardins vedados, leio nomes estrangeiros à entrada das vivendas mais apetecidas, mas concluo com alívio que, afinal, os invasores não tomaram conta desta parcela da pátria, como certamente muitos julgam e eu temia. É em comunhão com os seus mortos, cercados pela mesma fronteira, que a comunidade dos vivos legitima a posse do território que povoa. E quantos dos que vieram expandir a mocidade ou aquecer a velhice ao nosso sol vão celebrar a um cemitério local o dia de finados?

Miguel Torga

sábado, 6 de julho de 2013

Coimbra, 6 de Julho de 1974

O Diário Íntimo de Manuel Laranjeira. E sinto remorsos de o ter depreciado quando da primeira leitura. Talvez que a idade me tenha tornado mais sensível àquela auto-crítica impiedosa, àquela lucidez inexorável, àquele desencanto total, àquele desespero sensual que só pode encontrar no suicídio não o seu paroxismo romântico, mas a sua redução existencial.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Carvoeiro, 5 de Julho de 1973

Carvoeiro, 5 de Julho de 1973 – Chego ao fim da vida sem saber ler correctamente à primeira vista o mais simples trecho do livro da natureza. Abre-se um panorama diante de mim, e o mais que consigo imediatamente é soletrá-lo. Só depois de muitas tentativas é que os olhos se habilitam a deslizar por ele sem tropeçar. Talvez porque entretanto entrou em cena um outro poder de apreensão: a força imperiosa da palavra. Um poeta vive em desequilíbrio enquanto a magia da letra não dá cobertura à lição dos sentidos. É a óptica do poema que organiza a paleta das percepções. Por isso, apenas quando começa a cantar começa a entender. Daí, certamente, essa minha lenta aprendizagem visual, e também o facto de nenhuma paisagem me cansar. Nunca consigo esgotá-la. O espanto renasce cada vez que um novo verso lhe revela uma nova aparência…

Miguel Torga

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Carvoeiro, 4 de Julho de 1973

Carvoeiro, 4 de Julho de 1973 – Não paro. As largas clareiras de silêncio, que parecem intervalos de sedentariedade nos meus dias, são apenas passadas que este diário não regista. No meu sangue há uma ancestralidade nómada pelo menos tão vigorosa como a atracção dos pólos nativo e adoptivo a que regresso sempre. É uma necessidade de caminhar, de devorar léguas, de conhecer terras, de perspectivar o mundo de todos os ângulos. Sinto-me bem a contemplar paisagens novas, a ouvir sotaques estranhos, a visitar monumentos ignorados. Tenho a impressão de ficar mais dentro da pele, mais de acordo comigo, mais senhor das minhas certezas. É como se cada horizonte, onde sou estranho, me devolvesse inteiro, despojado de todas as inevitáveis conivências que o hábito nos tece, virginalmente capaz de arriscar, sobre o que vejo, juízos tão temerários e irreprimíveis como declarações de amor.

Miguel Torga