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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ofélia e a eternidade


Quem amamos nasce antes de haver o tempo. Passou o tempo e Ofélia era ainda a única mulher no mundo. Eu a via passar na rua, afastava os cortinados e o universo ganhava súbita explicação. Ela parava no passeio, sentindo que estava sendo contemplada. Meus olhos a tornavam sagrada. E não havia palavra.
Passou o tempo mas a cintura dela se conservava menininha, convidando as mãos a circum-navegarem seu corpo.
– Você é linda, Ofélia.
Mas ela! Não eram essas as palavras que mexiam em sua alma.
– Diga que sou eterna – pedia.
Eu não era capaz de cumprir aquele pedido. Algum senão me desviava a voz. E nunca repeti tão solicitadas palavras.
Afinal, o destino nos separou. Único culpado dessa pequena morte: o tempo, esse animal que defeca memórias. Eu fui para a cidade, ela permaneceu onde sempre existira. No último momento, afastei a cortina e a vi sob a árvore. Saí para me despedir:
– Está apanhando sombra?
– Estou sendo sombra, eu.
Ela se entregava a enigmas, frases desfeitas. Anunciei:
– Vou para o litoral.
– Vai ver o mar?
– Certamente.
Antes de eu desaparecer ela me pediu outra vez. Não queria eu proclamar sua eternidade? Abanei a cabeça. Dessa vez até aceitei um esforço. Mas, debaldemente. Aquelas palavras me pareciam uma heresia, coisa demasiado excessiva. Eternidade é assunto divino. Mais sagrado que a morte.
Saí por anos. Foi mais a ausência que o afastamento. Regressei à pequena vila para a reencontrar. Ofélia já reeditara sua existência. Tivera seis filhos. Dois que já não constavam, vencidos por um correr das águas. Dizem. Naquelas mortes de seus meninos ela morrera também. Ela fora comeles. Para esse inominável lá.
– De lá já voltei ninguém – disse ela, pedindo desculpas de sua tristeza quando nos reencontrámos.
Atacada de incorrigível melancolia. Agora, ela se tinha toda convertido em sombra. E nenhuma luz lhe dava alento. O luto em seus olhos me avisou: os cortinados de meu quarto se fechariam sobre todas as ruas onde ela passasse.
Sugeri-lhe que nos déssemos encontro. Breve, sem consequência. Marcámos nas traseiras dos Correios. Cheguei-me e não soube que palavras escolher. O momento pedia-me um idioma que não há. Eu me faltava. Ela me olhou como se eu fosse quem tivesse demorado. Como se eu fosse culpado.
– Vou-lhe contar uma história – disse eu apenas para amachucar o silêncio.
Ela reagiu prontamente:
– Nunca, mas nunca, me conte histórias.
Era tanta a veemência que eu me atrapalhei com o sem-querer da minha ofensa.
– Odeio história – rematou ela.
Deixou uma pausa, esperando em pose e apelo. Aguardava, quem sabe, que eu perguntasse porquê. Como eu me mantivesse mudo, ela somou:
– História é contra a eternidade.
Acenei com a cabeça. Perdera os filhos, não perdera aquela viciada ideia.
– Sou eterna, não lembra?
Depois ela me segurou na mão e me perguntou:
– Me trouxe um mar?
– Sim.
Mentira. Eu só podia mentir perante o pedido. Ela ficou, imóvel, esperando. Esperava? Que mar lhe havia eu de dar, se nenhum me coubera, nem grão de areia, nem concha, nem búzio. E, no entanto, ela estava defronte a mim como se aquele momento resumisse toda nossa existência. Fiquei tão desarmado que uma lágrima desaflorou em meus olhos. Depois aconteceu, sem decisão pensada. Aquilo me saiu, à parte de minha vontade. De repente, quase impercetíveis, as palavras me afluíram:
– Você é eterna, Ofélia.
Ela levantou o rosto e me enfrentou como se me descobrisse em primeira vez. Se aproximou e me beijou. Estendeu os dedos e recolheu esse esboço de água em meus olhos. Depois, com voz sumida:
– Obrigada por este mar.
Desde aquele momento, nunca mais voltaram a morrer seus dois filhos falecidos. Que eu diria: meus dois filhos de lá. Porque sou Ofélia, eu mesmo que desfolho esta estória. Sim, sou a mulher a quem, certa vez, na ponta dos dedos, foi oferecido o mar. O resto é a minha eternidade contra a história. Pois nunca existiu homem nenhum que me tivesse amado e empreendesse, alguma vez, viagem alguma para além deste lugar.

Mia Couto | na berma de nenhuma estrada e outros contos

sábado, 19 de outubro de 2013

O menino no sapatinho

     Era uma vez o menino pequenito, tão minimozito que todos seus dedos eram mindinhos. Dito assim, fino modo, ele, quando nasceu, nem foi dado à luz mas a uma simples fresta de claridade.
De tão miserenta, a mãe se alegrou com o destamanho do rebento – assim pediria apenas os menores alimentos. A mulher, em si, deu graças: que é bom a criança nascer assim desprovida de peso que é para não chamar os maus espíritos. E suspirava, enquanto contemplava a diminuta criatura. Olhar de mãe, quem mais pode apagar as feiuras e defeitos nos viventes?
     Ao menino nem se lhe ouvia o choro. Sabia-se de sua tristeza pelas lágrimas. Mas estas, de tão leves, nem lhe desciam pelo rosto. As lagriminhas subiam pelo ar e vogavam suspensas. Depois, se fixavam no teto e ali se grutavam, missangas tremeluzentes.
     Ela pegava no menino, com uma só mão. E falava, mansinho, para essa concha. Na realidade, não falava: assobiava, feita uma ave. Dizia que o filho não tinha entendimento para palavra. Só língua de pássaro lhe tocaria o reduzido coração. Quem podia entender? Ele há dessas coisas tão subtis, incapazes mesmo de existir. Como essas estrelas que chegam até nós mesmo depois de terem morrido. A senhora não se importava com os dizquedizeres. Ela mesmo tinha aprendido a ser de outra dimensão, florindo como o capim: sem cor nem cheiro.
     A mãe só tinha fala na igreja. No resto, pouco falava. O marido, descrente de tudo, nem tinha tempo para ser desempregado. O homem era um fiorrapo, despacha-gargalos, entorna-fundos. Do bar para o quarto, de casa para a cervejaria.
     Pois, aconteceu o seguinte: dadas as dimensões de sua vida e não havendo berço à medida, a mãe colocou o menininho num sapato. E cujo era o esquerdo do único par, o do marido. De então em diante, o homem passou a calçar de um só pé. Só na ida isso o incomodava. Na volta, ele nem se apercebia de ter pés, dois na mesma direção.
     Em casa, na quentura da palmilha, o miúdo aprendia já o lugar do pobre: nos embaixos do mundo. Junto ao chão, tão rés e rasteiro que, em morrendo, dispensaria quase o ser enterrado. Uma peúga desirmandada lhe fazia de cobertor. O frio estreitasse e a mulher se levantava de noite para repuxar a trança dos atacadores. Assim lhe calçava um aconchego. Todas as manhãs, de prevenção, ela avisava os demais e demasiados:
     – Cuidado, já dentrei o menino no sapato.
     Que ninguém, por descuido, o calçasse. Muito-muito, o marido quando voltava bêbado e queria sair uma vez mais, desnoitado, sem distinguir o mais esquerdo do menos esquerdo. A mulher não deixava que o berço fugisse da vislembrança dela. Porque o marido já se outorgava, cheio de queixa:
     – Então, ando para aqui improvisar um coxinbo?
     – É seu filho, pois não?
     – O diabo que te descarregue!
     E apontava o filhote: o individuozito interrompia o seu calçado? Pois que, sendo aqueles seus exclusivos e únicos sapatos, ele se despromoveria para um chinelado?
     – Sim – respondeu a mulher. – Eu já lhe dei os meus chinelos.
     Mas não dava jeito naqueles areais do bairro. Ela devia saber: a pessoa pisa o chão e não sabe se há mais areia em baixo que em cima do pé.
     – Além disso, eu é que paguei os tais sapatos.
     Palavras. Porque a mãe respondia com sentimentos:
     – Veja o seu filho, parece o Jesuzinbo empalhado, todo embrulhadinho nos bichos de cabedal.
     Ainda o filho estava melhor que Cristo – ao menos um sapato já não é bicho em bruto. Era o argumento dela mas ele, nem querendo saber, subia de tom:
     – Cá se jazem, cá se apagam!
     O marido azedava e começou a ameaçar: se era para lhe desalojar o definitivo pé, então, o melhor seria desfazerem-se do vindouro. A mãe, estarrecida, fosse o fim de todos os mundos:
     – Vai o quê jazer?
     – Vou é desfazer.
     Ela prometia-lhe um tempo, na espera que o bebé graudasse. Mas o assunto azedava e até degenerou em soco, punhos ciscando o escuro. Os olhos dela, amendoídos ainda, continuaram espreitando o improvisado berço. Ela sabia que os anjos da guarda estão a preços que os pobres nem ousam.
     Até que o ano findou, esgotada a última folha do calendário. Vinda da igreja, a mãe descobriu-se do véu e anunciou que iria compor a árvore de Natal. Sem despesa nem sobrepeso. Tirou à lenha um tosco arbusto. Os enfeites eram tampinhas de cerveja, sobras da bebedeira do homem. Junto à árvore ela rezou com devoção de Eva antes de haver a macieira. Pediu a Deus que fosse dado ao seu menino o tamanho que lhe era devido. Só isso, mais nada. Talvez, depois, um adequado berço. Ou quem sabe, um calçado novo para o seu homem. Que aquele sapato já espreitava pelo umbigo, o buraco na frente autorizando o frio.
     Na sagrada antenoite, a mulher fez como aprendera dos brancos: deixou o sapatinho na árvore para uma qualquer improbabilíssima oferta que lhe miraculasse o lar.
     No escuro dessa noite, a mãe não dormiu, seus ouvidos não esmoreceram. Despontavam as primeiras horas quando lhe pareceu escutar passos na sala. E depois, o silêncio. Tão espesso que tudo se afundou e a mãe foi engolida pelo cansaço.
     Acordou cedo e foi direta ao arbusto de Natal. Dentro do sapato, porém, só o vago vazio, a redonda concavidade do nada. O filho desaparecera? Não para os olhos da mãe. Que ele tinha sido levado por Jesus, rumo aos céus, onde há um mundo apto para crianças. Descida em seus joelhos, agradeceu a bondade divina. De relance, ainda notou que lá no teto já não brilhavam as lágrimas do seu menino. Mas ela desviou o olhar, que essa é a competência de mãe: o não enxergar nunca a curva onde o escuro faz extinguir o mundo.
Mia Couto | na berma de nenhuma estrada

sábado, 25 de dezembro de 2010

A cidade sonhada

Quando eu tinha nove anos, a Beira era a maior cidade do mundo. As avenidas de minha terra natal eram as mais largas do universo e apenas se esperava que o futuro, triunfal, por ali desfilasse. Na Praça do Município cabiam os mais demorados domingos da História, e o Chiveve competia com os mais amazónicos estuários.
A estação ferroviária era de tal dimensão que ali poderia desembarcar Sophia Loren ou uma outra artista saída das matinés do Olympia. As mangas do Dondo eram comidas em todo o planeta e, do alto do farol do Macúti, se contemplavam extensões que fariam inveja aos astronautas.
De noite, enquanto nos chegavam os sons dos batuques do Chipangara, eu e o meu irmão discutíamos, especialistas em lonjuras. Ele assegurava que a floresta de Inhaminga era o lugar mais distante do planeta. Eu abria o mapa-mundo e a Beira se confirmava epicentro cósmico. Confortado, adormecia com pena dos meninos que nasciam noutros periféricos lugares.
Certa vez embarquei num avião para rumar a Lourenço Marques. A família veio despedir-se, em lágrimas, ao maior aeroporto do mundo e era como se eu partisse para além do último horizonte. A malta do bairro também foi ao aeroporto e lançou-me um derradeiro olhar, misto de inveja e raiva. Eu ia para território rival, para terra dos «laurentinos», contaminar-me de valores tribais alheios.
Regressei uma semana depois com a suspeita de que havia lugares mais distantes que Inhaminga e cidades maiores que a minha. Nos dias subsequentes, fui colocado em quarentena, punido por confessar que, afinal, outros poderiam haver.
Na altura, eu não sabia que as pequenas cidades vivem sempre o sonho de serem outra coisa. Sonham ser grandes cidades. A minha terra natal, era, afinal, um lugar acanhado, onde o mundo chegava em segunda mão. Talvez, por isso, o tamanho dos nossos sonhos fosse reforçado. Talvez, por isso, o meu lugar tivesse ficado maior quando o soube pequeno. Naquele momento, porém, eu estava sendo penalizado como Galileu que ousou descentrar o cosmos. Deixado em abandono pelos amigos, fui pescar para os lados do porto. Ao passar pelo Beira Terrace, uma multidão me alertou: num lugar onde nada sucedia algo trágico acontecera. Estavam retirando das águas os corpos de dois jovens que se tinham suicidado. Um detalhe me chamou a atenção: estavam amarrados pelos pulsos, um arame lhes prendia o fatal destino. Eram dois namorados, impedidos de exercer o seu amor porque pertenciam a raças diferentes.
Sentado na amurada do cais, sem nenhuma vontade de lançar a linha, olhei a cidade e ela, pela primeira vez, me pareceu pequena. Como poderia ser grande um lugar se nele não cabia o amor de dois anónimos adolescentes? Até àquela tarde eu era ainda um moço capaz de sonhar vidas e viver sonhos.
Naquele momento creio ter entendido: a cidade não é um lugar. É a moldura de uma vida, um chão para a memória. Enrolei a linha, e regressei a casa, o poente avermelhando a paisagem e os flamingos trazendo o céu para junto da terra. Então, ganhei certeza: a cidade em que nasci estava destinada a nascer de mim. Um arame invisível nos prendia os pulsos, a mim e à minha terra natal. Se alguma vez nos atirássemos sobre o abismo não seria para nos afundarmos mas para ganharmos voo, o mesmo voo dos flamingos cruzando os poentes sobre o rio Pungwé.

(Abril de 2007)


Mia Couto, PENSAGEIRO FREQUENTE

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Mia COUTO - PENSAGEIRO FREGUENTE (1)

Fintado por um verso

No meu bairro, o futebol era a grande celebração. Preparávamo-nos para esse momento, como os crentes se vestem para o dia santo. Aquele domingo era um tempo infinito. E o campo, aberto num descampado da Muchatazina, era um estádio maior que o mundo. O jogo ainda por começar e o coração no peito já cansado: não havia relógio onde coubessem aqueles noventa minutos.
Não era a sede de ganhar. Não quero parafrasear Pierre de Coubertin, mas o importante era estar lá, nesse jogo de infinitas representações que permite o futebol. De repente, o nosso lugar migrava e a nossa identidade transitava para mundos onde tudo era grande e brilhante. Esse era o segredo do atropelo no peito, desse vício que nos fazia fugir de casa, faltar à escola, e deixar a namorada à espera. Quando jogávamos deixávamos de ser nós. Deixávamos de ser. E éramos tudo, todos. Vivos e mortos se perfilavam no panteão dos que nunca perderam.
Na minha gloriosa equipa, eu era avançado de centro. Um eufemismo, talvez, designar-me desse modo. Porque eu apenas fintava. Nunca rematava. A minha alcunha em chissena já dizia dessa habilidade: eu era o «kiywa», o fintador. Um fintabolista, como chacoteavam outros. Faltava, porém, um nome para a minha inabilidade.
— Caraças, para ganhar é preciso marcar, pá! Esse gajo é um poeta. É o que ele é: um poeta.
Era Jujú Chuteirinho, o nosso mestre treinador. Talvez ele, o mister, tivesse razão. Talvez eu não fosse realmente um avançado. Talvez o meu terreno fosse realmente a poesia. Mas a beleza do futebol não está no golo. Como na arte do namoro: o fascínio está nos preparativos. O encanto está no que não pode ser traduzido nem em número nem em palavra. A partida de futebol é sempre mais que o resultado. O mais belo num jogo é o que não se converte em pontos de classificação, é aquilo que escapa ao relatador da rádio, são os suspiros e os silêncios, os olhares e os gestos mudos de quem joga dentro e fora das quatro linhas.
Voltemos a Chuteirinho. A frustração do treinador era, afinal, explicável: na Beira, minha cidade, os bairros eram territórios de fingido confronto. A guerra mundial era entre bairros da pequena urbe que desobedecia à própria lógica urbana. A Beira nasceu desobediente: eu mesmo nasci e cresci em zonas que tinham sido destinadas aos «asiáticos». E os futebóis se faziam de misturas que afrontavam as fronteiras raciais do momento. O Esturro era, nessa altura, o meu bairro, a minha tribo, a minha nação. Preparava-se o grande derby que opunha o Esturro à Ponta-Gea. O destino estava nas nossas mãos, melhor dizendo, nos nossos pés. Jujú Chuteirinho decidiu ensaiar em mim os seus melhores dotes psicológicos.
Naquela tarde, em véspera do jogo, Chuteirinho convocou-me. O seu semblante era sério, solene. Fez-me sentar no muro, frente à casa, enquanto manuseava um varapau como se fosse uma gigante lapiseira.
Estás a ver a pequena área?, perguntou, fazendo uns rabiscos na areia.
Os rabiscos se complicaram ilustrando, enquanto falava, a minha evolução caótica pelo relvado. Depois, voltou a reforçar o traço num pequeno quadrado:
— Faz de conta que a pequena área é uma miúda. Sim, uma miúda, uma gaja. É preciso descascá-la, acariciá-la, beijá-la. Mas, depois… depois…
— Sim, depois?, inquiri eu, meio adormecido pelo riscar da madeira na areia.
Depois…, depois pergunto eu: depois, no momento decisivo, é preciso o quê?
Era óbvia a alusão do mestre Jujú, o melhor treinador de todos os tempos. Para mim, porém, a metáfora tinha-me escapado. O amor não tem «depois». O amor é o tempo inteiro consumindo-se no instante. E vieram-me à cabeça as meninas que, nesses meus quinze anos, se acumulavam à porta dos mais platónicos sonhos. E veio a Alda, a Guida, a Isabel, a Martinha, a Leila, a Paula, a Mónica e mais do que todas, a Laura, a mais recente. E pensei, de repente: «Eu, no amor, só finto. Não remato.» Foi isso que pensei, naquele momento.
Jujú Chuteirinho não reparou no meu olhar distante, perdido em outros campeonatos. E continuou explanando as apuradas tácticas: a bola em rosca nos livres directos, a bola em arco nos cantos, a bola em bala nos penáltis. Se eu vivia o futebol em poesia, Chuteirinho era exímio prosador. O idioma dele era uma língua capinando relvados: os pontapés de «bicicleta», os «carrinhos», os «frangos», os «chapéus», a «força anímica», o «jogo jogado». Mas eu não o escutava. Dentro de mim soava apenas o conflito entre mim e a minha idade.
No dia seguinte, já em pleno estádio, envergando a farda da selecção mais famosa do universo, passei o olhar pela assistência. Imagino hoje, a vidas de distância, como se sente Cristiano Ronaldo perante o imenso clamor da multidão. No meu estádio, a multidão era a humanidade inteira. Principalmente, reparei nas miúdas, nos lugares da frente, espremendo-se para não perderem pitada do jogo. De repente, a realidade se sobrepôs ao devaneio e notei, entre a assistência: lá estavam elas, as miúdas. Verdadeiras, de corpo, alma e força anímica. Ali estavam elas, em distinta moldura, atrapalhando-me as rótulas. E estava, sobretudo, Laura, a mais bela de todas. Os meus olhos, por sabedoria instintiva, pousaram no treinador. O sorriso matreiro no rosto de Chuteirinho confirmava: era um plano arquitectado por ele. Frente ao friso das minhas paixões eu não tinha senão que marcar golos. Sem golos, ninguém ganha. Nesse jogo, uma vez mais, não marquei. Para tragédia do «mister», não ganhámos. Não sei porque escrevo «nós», no plural. Porque, no final, acabei vencendo. Não foi no jogo. Nem nos momentos que se seguiram. Foi mais tarde, quando tudo parece ter o sabor do irreversível. Já entenderão.
No dia seguinte, Laura me visitou. A voz dela era tão cheia de vozes, que por longos anos ainda a recordei apenas por essa imaterial presença. E ela me perguntou:
— Estás triste por causa do jogo?
— Estou triste por causa de mim.
Laura era mais velha, sabia de coisas que eu apenas suspeitava. Desembrulhou um papel garatujado por sua própria letra.
É um poema, sussurrou ela.
— É para mim?, perguntei.
E ela respondeu: Não, é para o Ademir. O nome do outro me atingiu como uma fisgada. Como se, de súbito, eu tivesse sido despromovido de avançado, interdito como jogador. Guardei o papel no bolso, amarrotado com fúria sem que ela percebesse. Mais do que a derrota me doía aquela atenção de Laura por um outro. E fui, dali para a minha solidão. Laura ainda ligou umas tantas vezes. Recusei atender. Depois, o telefone morreu.
Nunca li o tal poema. Voltei a encontrar Laura, anos depois, já ela sofria do peso de ser mãe de mãe. Não a reconheci. Apenas aquela voz de riachinho fluindo, me levou de regresso às fontes. Foi ela que me recordou o quanto me procurou após a última visita. Perguntei-lhe por Ademir. Que Ademir?, estranhou. Nunca conheci nenhum Ademir. A resposta era convincente, de tal modo sincera que desviei o assunto para outras ausências e deslembranças. Já regressado a casa, procurei o papel velho, ainda amarrotado. Laura tinha transcrito até o nome do autor. Era um verso de João Cabral Melo Neto e tinha por título: «Ademir da Guia». E dizia assim:
Ademir impõe com seu jogo / o ritmo do chumbo (e o peso), / da lesma, da câmara lenta, / do homem dentro do pesadelo. // Ritmo líquido se infiltrando / no adversário, grosso, de dentro, / impondo-lhe o que ele deseja, // mandando nele, apodrecendo-o / Ritmo morno, de andar na areia, / de água doente de alagados, / entorpecendo e então atando / o mais irrequieto adversário.
Atado a mim mesmo fiquei eu, depois de esclarecer o mistério do papelinho de Laura. Afinal, Ademir não era nenhum «outro». Bem vistas as contas, Ademir era eu mesmo, enredado na pequena área que é o momento da felicidade.

Voltei a guardar o velho papel, vencendo um triste sorriso. Uma vez mais, a poesia me tinha fintado. Pode haver um mister para as artes da bola. Mas o único treinador para as lides da Vida somos nós mesmos.

(Maio de 2010) 

domingo, 19 de dezembro de 2010

Mia COUTO - PENSAGEIRO FREGUENTE (0)



Nota introdutória

Desde 1999 que colaboro com a revista de bordo das Linhas Aéreas de Moçambique. Neste livro estão reunidos alguns dos textos que publiquei nessa revista, a Índico. São textos ligeiros, cujo destinatário não é exactamente um leitor «típico», mas um passageiro que pretende vencer o tempo e, tantas vezes, o medo.
Nas revistas de bordo sucede quase sempre o mesmo: passamos os olhos pela página, em busca de uma simples distracção, de modo a que nos desviemos do confronto com a janela, afastados da heresia que é contemplar o céu a partir dos céus. Por outro lado, a revista de bordo é uma hospedeira em página impressa, um porteiro de nações, um massagista de almas atingidas por desfasamento de fusos horários. Estas eram as balizas, os estranhos limites às palavras voadoras.
Durante todos estes anos de colaboração, contudo, o meu desejo foi o mesmo de todos os outros fazedores da Índico: fazer com que o meu país voasse pelos dedos do viajante, numa visita às múltiplas identidades que coexistem numa única nação. Esse era o serviço daquela escrita.
Agora, soltos desse contexto, a estes textos deve ser perdoado o terem tido uma função.
Acredito, no entanto, que estes contos e crónicas desobedeçam ao pecado original que marcou o seu nascimento. Espero que, no final, este livro dispense esta e qualquer outra explicação.


Mia Couto 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

"Pensageiro Frequente" de Mia Couto


Comecei hoje a ler “Pensageiro Frequente” de “Mia Couto que nasceu na Beira, Moçambique, em 1955. Foi jornalista. É professor, biólogo, escritor. Está traduzido em diversas línguas. Entre outros prémios e distinções (de que se destaca a nomeação, por um júri criado para o efeito pela Feira Internacional do Livro do Zimbabwe, de Terra Sonâmbula como um dos doze melhores livros africanos do século xx), foi galardoado, pelo conjunto da sua já vasta obra, com o Prémio Vergílio Ferreira 1999 e com o Prémio União Latina de Literaturas Românicas 2007. Ainda em 2007 Mia recebeu o Prémio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura pelo seu romance O Outro Pé da Sereia.”