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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

ANTES DA CRÓNICA

Interrogo-me muitas vezes sobre o que será uma crónica de jornal. No meio das dispersas solicitações e emoções de cada dia, arrastado, como toda a gente, no rio da vida tumultuosamente correndo fora de si e dentro de si, revoltado, enternecido, surpreendido, ou tão-só, também ele, vencido ou resignado, é natural que o cronista em certos dias se detenha e que os seus olhos e o seu coração (e as suas palavras) hesitem: que escrever e para quê? Em muitas ocasiões, diante do papel ou do perplexo «écran» do computador, me pergunto isso mesmo: que escrever e para quê? E cada uma destas crónicas é talvez uma resposta – indecisa e inconclusa, eu sei – a essa pergunta elementar.
Os jornais cansam-me: o primeiro-ministro faz promessas num comício; o presidente passa férias no Algarve; os partidos da oposição promovem conferências de Imprensa; o secretário de Estado da Cultura diz que não disse e o ministro das Finanças não diz; os maus bombardeiam Sarajevo e matam os bons; o Papa convalesce de uma operação; um grupo «rock» canta em Lisboa... Estou sentado na sala, olhando o gato que brinca aos meus pés, e penso que nenhuma coisa que possa vir em jornais é tão séria e tão essencial como o seu grave e ruidoso conflito com o saco de plástico.
Tenho tentado transformar os monótonos títulos de todas as primeiras páginas em decassílabos e compor com eles díspares inventários surrealistas. A verdade é que um verso (fosse eu capaz de escrever um bom verso!), ou um poema, têm certamente mais e mais óbvias hipóteses de durar do que um primeiro-ministro ou um presidente! Verifique você mesmo, leitor: faça as contas aos primeiros-ministros e aos presidentes – das centenas que têm sido, ao longo dos tempos e dos lugares, «manchette» nas gazetas e nos jornais – de que é ainda capaz de se lembrar, e compare-os com os versos, os poemas, os poetas, que – mesmo sem ser um letrado, mesmo que apenas vagamente – lhe virão à cabeça ...
Outro dia caiu-me nas mãos um velho exemplar do Diário de Notícias, também ele cheio de nomes de gente importante (ministros, deputados, militares, comerciantes), de tragédias, de «faits divers». E, todavia, o único acontecimento que, em todo o jornal, me dizia ainda alguma coisa, umas poucas dezenas de anos depois, era uma pequena nota de duas ou três linhas numa página interior: um certo «sr. Mário de Sá-Carneiro» tinha publicado um livro de versos! Daqui a 50 ou 100 anos, o mais que algum rato de Universidade conseguirá provavelmente dizer sobre Cavaco Silva, depois de ter vasculhado em todos os arquivos, é que foi um primeiro-ministro do tempo de Eugénio de Andrade...
As páginas dos jornais são feitas da matéria da morte e do esquecimento. E as crónicas de jornal, filhas de Cronos, o tempo que passa, como também nós, homens que passamos, são pobres seres insubstanciais e irrisórios, provavelmente sem sentido, provavelmente inúteis. Que escrever, pois? E para quê?
Mas da Rua de Santo Ildefonso e da Rua de Ceuta chegam-me cartas de amigos; outra, comovente (eu é que sei!), chega-me da Rua de Nove de Abril; um desconhecido aborda-me no café; outro manda-me um velho recorte e uma fotografia; outro ainda escreve-me longamente falando das frágeis e inseguras palavras de que um dia a crónica aqui se fez e que irremediavelmente se perderam. E eu penso: talvez, afinal, alguma forma de efémera eternidade possa (quem sabe?) animar a furtiva vida de um jornal, um breve reflexo, uma fugaz emoção, possa, com um pouco de sorte, pulsar na notícia, na reportagem, na crónica e, por um instante, bater unanimemente no coração de outro homem, uma anónima identidade misteriosamente gerar-se entre desconhecidos pelo milagre de um verbo ou de um adjectivo, um clandestino sangue transbordar da página impressa e contagiar a inúmera vida que, lá fora, incertamente vive.
O gato, cansado de brincar, adormece no parapeito da janela. E a crónica, subitamente e injustificadamente feliz, começa então a escrever-se em mim.


Manuel António Pina - JN, 02/09/1992

domingo, 1 de setembro de 2013

APRESENTAÇÃO SOB A FORMA DE CRÓNICA

Provavelmente está tudo dito. Mesmo o sentimento da ociosidade e da inutilidade das palavras é uma sensação infinitamente cansada. E, no entanto, temos que dizer tudo de novo todos os dias, de juntar os pedaços dispersos do mundo e, com eles, descobrir para nós um lugar do nosso tamanho ou, ao menos, uma forma de sentido para aquilo a que chamamos a nossa vida. E, para isso, tudo o que temos são palavras. O que sabemos: palavras; o que sonhamos: palavras; o que sentimos: palavras; e a nossa própria boca que fala é, também ela, só uma frágil e insegura palavra.
O cronista é filho de Cronos, o tempo que passa, e a crónica vive o mesmo redundante destino do jornal que, como os velhos tipógrafos diziam, no dia seguinte serve apenas para embrulhar peixe (e que outro destino tem tudo senão o esquecimento?).
Está então o cronista diante do mundo e de si próprio. E só pode repetir (na melhor das hipóteses por outras palavras, donde o título genérico destas crónicas) aquilo que cada homem imemorialmente repete: o amor e a morte, o medo e a esperança, a alegria e a decepção.
Acontece assim nos sonhos. Temos medo e sonhamos com a esfinge. A verdade, porém, não é a esfinge, a verdade é o medo; a esfinge é só a imprecisa forma do nosso medo. Também a crónica aqui falará, a partir de hoje, de gente, de factos, de acontecimentos, mas o que dirá é outra coisa. E essa coisa é que é a verdadeira.


Manuel António Pina - JN, 01/09/2005

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

EDUARDO

Acusavam-no de escrever sobre amigos, e ele dizia que se tornava amigo daqueles, pessoas ou livros, sobre quem escrevia. Ler e escrever sobre o que se lê é uma árdua tarefa quando se lê com amor, quando a leitura é encontro connosco mesmos e com aquilo (mundo e existência) que, em nós, é fundamentalmente impartilhável. E é também uma tarefa generosa e um exercício arriscado; falamos sempre de mais quando falamos de outros, de pessoas ou de livros. Porque, nesse momento, estamos sós e, por muito que chamemos por companhia, memórias, nomes, outros livros (e as crónicas literárias de Eduardo Prado Coelho faziam-no insistentemente), a companhia nunca vem.
Acho que é imprudente, e se calhar injusto, falar em crítica literária a propósito do que Eduardo Prado Coelho escrevia sobre livros nos jornais (crítica haverá talvez no seu ensaísmo). Criticar é pôr em crise e se algo ele punha em crise nessas crónicas era principalmente ele próprio. Eram textos, embora transmissíveis, pessoais, às vezes dir-se-ia que privados. Mas, de um modo ou doutro, não falamos sempre de nós, que é o que temos mais à mão?
Muitos acusavam-no justamente disso, clamando por «objectividade» como se ele estivesse constituído em alguma espécie de «serviço público» e lhe coubesse, não amar ou desamar, mas separar o «bom» do «mau» e a «culpa» da «inocência». Mas nem a crítica literária (chamemos-lhe assim) é um processo judiciário nem o crítico, pelo menos na prática de Eduardo Prado Coelho, um juiz, mas uma parte interessada. Pedia-se-lhe o que ele não podia dar, justiça. A vida, no caso a vida literária, é injusta, e merecemos sempre mais do que ela está disposta a dar-nos. O que alguns exigiam a Eduardo Prado Coelho era que ele reparasse os males da nossa pobre existência literária (da nossa e da de cada um). Ora ninguém tem poder para tanto.
Eduardo Prado Coelho escreveu excessivamente sobre alguns dos meus livros. A minha amizade com ele começou com a sua singular e injustificada amizade por esses livros (a certa altura até já escrevia sobre os meus gatos), e não ao contrário; e, tivesse sido ao contrário, a coisa iria dar ao mesmo, pois, como os do Senhor, são misteriosos os caminhos da amizade. Um dia, no bar da Biblioteca Nacional, disse-lhe que ele não era juiz fiável. E não era. Porque não era (felizmente não era!) um juiz, mas um leitor de livros, que amava, como todos amamos, alguns deles (vá lá perceber-se porquê, e eu frequentemente não percebia) e a quem outros eram indiferentes. E que escrevia sobre isso sem se dar ao cuidado de adiar o coração (víscera incómoda). Morreu do coração, de que outra coisa poderia ter sido?
Sei o que é escrever todos os dias ou todas as semanas (contar para vivirla e não vivir para contarla). Por isso queria que isto fosse, agora que ele está morto, uma espécie de louvor e simplificação de Eduardo Prado Coelho e da sua relação com a literatura (e com o cinema, e com a música, e com cada dia que passa, isto é, com a vida). E não acabei, também eu, a falar de mim?

Manuel António Pina - Visão, 30/08/2007

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

AGOSTO

Visão, 22/08/2002

Em Agosto, as águas da cidade correm lentamente e parecem, de súbito, lavadas da sujidade de todos os dias. As tardes espreguiçam-se como as de um longo e infindável domingo e o trânsito flui sem destino que se veja. Os cafés bocejam; as ruas, ainda há pouco febris, tornaram-se inesperadamente amplas e luminosas; e nem os últimos saldos, promoções e «rebajas» conseguem agitar a sonolência das grandes superfícies e dos prontos-a-vestir.
Sem filas, sem disputas de lugares de estacionamento, sem querelas futebolísticas, a cidade é outra cidade em Agosto, amistosa, paciente, razoável. Dir-se-ia que um imenso anjo condescendente pousou nos corações e os limpou de toda a ansiedade. É verdade que, aqui e ali, em algum centro comercial periférico ou em alguma auto-estrada recém-inaugurada, sobrevivem, como fiapos sujos, vestígios da pressa do resto do ano, mas a cidade, indiferente, passa, entregue a um moroso vagar improdutivo que, fosse ele em Janeiro ou Fevereiro, seria motivo de escândalo e decerto levaria o Dr. Bagão Félix e o patronato a ponderarem a imposição do trabalho forçado no desenvolto projecto de Código actualmente (quem o diria?) em discussão pública.
O cronista está ao computador em mangas de camisa, rodeado de Agosto por todos os lados, excepto pelo lado da crónica. De longe, como um rumor, chegam-lhe, misturados com os gritos das gaivotas e a vozearia das crianças brincando na rua, dispersos ecos do Mundo: a dislexia da princesa herdeira da Suécia; o divórcio de Jardel; o emigrante que veio de Paris a pedalar até à aldeia natal.
A crónica hesita: um elefante do Zoo de Praga levado pelas cheias; Dresden, a mártir, afogada no Elba; as contas da Dra. Manuela Ferreira Leite que, afinal, estavam furadas; a bonificação de juros negada, em nome do rigor orçamental, aos jovens que pedem um empréstimo para comprar um T1 e concedida aos clubes de futebol para a construção de estádios milionários...
Mas pela janela aberta da sala entra subitamente uma brisa morna que agita as cortinas e o Mundo desvanece-se. O gato adormecido em cima do jornal sobre uma foto do Papa a dizer missa em Cracóvia, um raio de Sol na estante iluminando a lombada azul de Todos os poemas, de Ruy Belo, tornam-se acontecimentos tão próximos e tão reais, e tão imperativos, que a crónica, para desgraça do cronista, perde o fio ao Mundo.
O cronista levanta-se e liga a TV. É domingo. O Sporting disputa a Supertaça com o Leixões; Bush, que não tem armas de destruição maciça nem ameaça outros povos, diz que é imoral o Iraque ter armas de destruição maciça e ameaçar outros povos; segundo a US Weekly, Angelina Jolie acabou o seu «casamento profundo» com Billy Bob Thornton e já não o vê desde o dia 3 de Julho. Alheio à Supertaça, a Bush e a Angelina Jolie, o gato dorme e, quem sabe?, sonha.

Pobre crónica, desamparadamente só entre tanto Agosto e tanto Mundo! Que pode ela fazer senão deixar-se ociosamente ir? Talvez, convenhamos, lhe fosse exigível mais, talvez devesse sair de casa e de si, e ser forte, e ser firme, e ser memorável; denunciar, interrogar, sorrir, enternecer-se; convocar verbos e adjectivos, sentidos e sentimentos; viver e morrer. Mas em Agosto, senhores?
M. A. Pina

sábado, 17 de agosto de 2013

«O POETA É UMA ÁRVORE»

Aquele que pediu «Quando eu morrer / deixai a varanda aberta» foi assassinado por pistoleiros franquistas há 75 anos, a 17 de Agosto de 1936, exactamente um mês após a rebelião fascista contra a República que, com a cumplicidade activa da Igreja – «Benditos sejam os canhões», a proclamação do primaz de Madrid continua a ser uma das mais graves injúrias contra os Evangelhos alguma vez proferida por um bispo católico afogou Espanha num mar de sangue e ignomínia.
Federico Garcia Lorca tinha regressado a Granada poucos dias antes. Os esquadrões da morte andavam pelas ruas e procurou refúgio em casa do poeta Luis Rosales, falangista e seu amigo. Foi aí que, no dia 16, militantes da Falange o prenderam. Nessa mesma noite foi levado para os campos de Viznar e, às 4 da madrugada, assassinado a tiro juntamente com um professor primário e dois bandarilheiros anarquistas.
A sua morte («De la cueva salen / largos sollozos») continua envolta em mistério. Não lhe eram conhecidas posições políticas, além de se assumir como republicano e de um dia ter dito: «Estou e estarei sempre do lado dos que têm fome». E, crime maior ainda para os seus algozes, era homossexual.
«Aqui fuzila-se como se desbastam árvores», escreveu Saint-Exupéry sobre a Guerra Civil. Lorca foi só mais uma árvore, frondosa e frágil: «O meu coração está aqui (...) / funde o teu ceptro nele, Senhor. / É um fruto / demasiado outonal / e apodreceu».


M. A. Pina JN, 17/08/2011

terça-feira, 30 de julho de 2013

Constituição a pedido


Constituição a pedido

Publicado em 2012-07-30


O presidente do BPI, Fernando Ulrich, já classificara a decisão do TC que confirmou a inconstitucionalidade dos confiscos dos subsídios de férias e Natal a funcionários públicos e pensionistas de "negativa", "perigosa" e "inaceitável". Agora é o presidente do BCP, Nuno Amado, a clamar que foi "uma decisão muitíssimo infeliz".
A banca (falta conhecer a opinião de Ricardo Salgado, do omnipresente BES, para o ramalhete ficar completo) não só tem enormes responsabilidades na crise como tem sido beneficiária da maior parte dos sacrifícios que, a pretexto dela, vêm sendo impostos aos portugueses. Mas a banca quer mais do que o seu financiamento com a "ajuda" que a 'troika' cobra ao país em desemprego, fome e miséria ou do que a destruição do SNS que alimenta os seus negócios na Saúde, a banca quer também uma Constituição "sua", já que a Constituição da República se revela, pelos vistos, "negativa", "perigosa", "inaceitável" e "muitíssimo infeliz" para os seus interesses.
Nem Ulrich nem Amado o escondem: "É premente alguma revisão da Constituição" (Amado), e a decisão do TC pode "justificar a discussão de uma revisão constitucional, o que até seria positivo" (Ulrich).
Numa democracia que cumprisse os serviços mínimos, os desejos de dois banqueiros valeriam apenas dois votos. Não tardará que vejamos quanto valem num regime do género "que se lixem as eleições".

terça-feira, 16 de julho de 2013

A "vida fácil" dos outros


Os números são relativos a 2010, ainda antes do PEC 1, PEC 2 e PEC 3, do memorando da "troika" e do Governo PSD/CDS: 18% dos portugueses, segundo o INE, e 25,3%, segundo o Eurostat, estavam em "risco de pobreza", eufemismo estatístico que significa que viviam com menos de 421 euros/mês, ou seja, que eram pobres.

Entretanto, Passos Coelho chegou a primeiro-ministro, clamando que "os portugueses não podem suportar mais sacrifícios". Afinal, podiam: em pouco mais de um ano, o desemprego subiu de 10,8% para 15,2%, foram drasticamente reduzidas as prestações sociais, confiscados, contra todas as promessas eleitorais, os subsídios de férias e Natal a funcionários públicos e pensionistas e aumentado o IVA para 23%, subiram para valores incomportáveis as taxas moderadoras no SNS, reduziram-se até à irrelevância as deduções no IRS e IRC e as isenções no IMI, aumentaram brutalmente os transportes, a electricidade e o gás, despedir tornou-se fácil e barato, multiplicou-se o trabalho precário e sem direitos, regressou o trabalho infantil...

Hoje há 1,4 milhões de pensionistas a viver com menos de 500 euros/mês, 550 mil trabalhadores com 485 euros (431,6 após os descontos) e 416 mil desempregados não recebem subsídio de desemprego. Tudo isto, como explicou Cavaco Silva a um jornal holandês, porque foram "demasiado negligentes e estão hoje a sofrer as consequências de "uma vida fácil".

JN, 16/07/2012 – M. A. Pina

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O valor das palavras

Os jovens candidatos a "boys" do PSD ouviram da boca do homem que assegurou, jurou, afiançou, afirmou, asseverou, prometeu, garantiu que não aumentaria o IVA e que "do nosso lado, não contem com mais impostos" e ainda que acusá-lo de tencionar confiscar os subsídios de férias e Natal era um "disparate", que é "perverso" "o recurso à via do trabalho temporário para resolver necessidades permanentes" do SNS e que o país não pode aceitar a "proletarização da juventude portuguesa baseada em recibos verdes, em que as pessoas são obrigadas a pagar com os recibos verdes aquilo que as entidades que as contratam não estão disponíveis para pagar".

As afirmações foram proferidas por Passos Coelho na festa do 38.º aniversário da JSD em resposta a uma questão do presidente desta estrutura, Duarte Marques, sobre o caso dos enfermeiros do SNS contratados a empresas de trabalho temporário a 3,96 euros por hora.

Fixemos este nome, Duarte Marques, porque, com tal capacidade para dar, no momento certo, a deixa certa para que o líder possa dizer o que os eleitores querem ouvir, o rapaz irá decerto longe.

Os futuros "boys" aprenderam ainda uma lição fundamental: em política faz-se o que se quer mas diz-se o que, em cada momento, convém. Se for necessário até, como o mestre, que "precisamos de valorizar a palavra para que, quando ela é proferida, possamos acreditar nela".

JN, 10/07/2012 – M. A. Pina

terça-feira, 9 de julho de 2013

A letra escarlate

Quis o acaso objectivo que o debate na AR de uma petição da chamada Federação Portuguesa pela Vida tenha sido marcado para dias antes da data de nascimento de Calvino. E a Fé Reformada que anima hoje a desamparada social-democracia que sobrevive no nome do PSD não se fez rogada à predestinada coincidência.

Por insondável determinação divina (se não do próprio Calvino), foi a deputada Conceição Ruão a eleita para ser a voz da Verdade Moral no Parlamento: às mulheres levadas a abortar deve ser imposta a "obrigatoriedade da assinatura da ecografia da idade do feto" (pressupõe-se que depois de obrigadas também a olhar longamente a ecografia repetindo "minha culpa, minha tão grande culpa", enquanto no sistema áudio do hospital se escutam hinos religiosos e "slogans" da tal Federação pela Vida). Tudo indica que Deus terá assim querido castigar as mulheres que abortam com a pior das humilhações: receber lições de moral do PSD.

Seguir-se-á a letra "A" de "Aborto" bordada a vermelho no peito, para os mesmos elevados fins morais do "A" de "Adúltera" do romance de Hawthorne.

Obviamente, a auto-estigmatização das mulheres defendida pelo PSD aplica-se às que recorrem ao SNS e a médicos e enfermeiros pagos a 4 euros à hora (na sua grande maioria, segundo as estatísticas, trabalhadoras fabris, camponesas ou desempregadas) e não às que recorrem a médicos privados e clínicas de luxo.

JN, 09/07/2012 – M. A. Pina

sábado, 6 de julho de 2013

A letra escarlate

Publicado em 2012-07-09


Quis o acaso objectivo que o debate na AR de uma petição da chamada Federação Portuguesa pela Vida tenha sido marcado para dias antes da data de nascimento de Calvino. E a Fé Reformada que anima hoje a desamparada social-democracia que sobrevive no nome do PSD não se fez rogada à predestinada coincidência.

Por insondável determinação divina (se não do próprio Calvino), foi a deputada Conceição Ruão a eleita para ser a voz da Verdade Moral no Parlamento: às mulheres levadas a abortar deve ser imposta a "obrigatoriedade da assinatura da ecografia da idade do feto" (pressupõe-se que depois de obrigadas também a olhar longamente a ecografia repetindo "minha culpa, minha tão grande culpa", enquanto no sistema áudio do hospital se escutam hinos religiosos e "slogans" da tal Federação pela Vida). Tudo indica que Deus terá assim querido castigar as mulheres que abortam com a pior das humilhações: receber lições de moral do PSD.

Seguir-se-á a letra "A" de "Aborto" bordada a vermelho no peito, para os mesmos elevados fins morais do "A" de "Adúltera" do romance de Hawthorne.

Obviamente, a auto-estigmatização das mulheres defendida pelo PSD aplica-se às que recorrem ao SNS e a médicos e enfermeiros pagos a 4 euros à hora (na sua grande maioria, segundo as estatísticas, trabalhadoras fabris, camponesas ou desempregadas) e não às que recorrem a médicos privados e clínicas de luxo.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

De super a mini num ano



Publicado em 2012-07-05

O Ministério da Economia e Emprego é uma espécie de pedreira em que todos os outros ministérios vêm há um ano escavando competências, de tal modo que o "super-ministério" que, segundo um deslumbrado Álvaro Santos Pereira, equivalia a "dois ministérios e meio" já a pouco mais equivale hoje que a meio ministério.

Primeiro foram-se as privatizações e as PPP para o omnipresente Borges; depois o emprego jovem para Relvas; depois a economia externa para o Ministério dos Negócios Estrangeiros e Paulo Portas; depois as verbas do QREN para o Ministério das Finanças...

Agora, quando as réplicas do terramoto pareciam ter finalmente, uff!, terminado, Álvaro vê-se a contas com novo sismo (ou novo cisma): o longo braço de Vítor Gaspar volta a entrar-lhe casa dentro e fica-lhe com mais um dossiê: o do concurso para escolha do prestador do serviço universal de telecomunicações, e ainda o do respectivo fundo de compensação e das negociações com a PT.

Não tarda que as competências do ministro Álvaro fiquem reduzidas ao dossiê dos pastéis de nata (isto enquanto Passos Coelho não concluir que os pastéis de nata são também coisa importante de mais para continuarem ao seu cuidado). Não será altura de o ex-super-ministro, agora miniministro, considerar se os contribuintes devem continuar a pagar o super-salário da sua, como ele dizia, "super chefe de gabinete"?

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Intriga e mistério

Manuel António Pina: Publicado em 2012-07-04

Fosse - como, visto de fora, parece ser - um programa de entretenimento, o circo em que se tornou a eleição da administração da Metro do Porto seria uma novela de intriga e mistério sem qualidade, com um argumentista sem qualidade (aparentemente tão surpreendido com a sucessão de acontecimentos quanto os próprios espectadores) e com actores sem qualidade. E deveria ser exibido com bolinha no canto superior direito e aviso de que pode impressionar pessoas sensíveis e confiantes nos seus eleitos.

Apesar de tal novela se arrastar há ano e meio, só horas antes da assembleia geral eleitoral foram escolhidas as pessoas a eleger. O episódio terminou, como é de regra, em suspensão emocional, com Rui Rio a acusar incertos membros do Governo ("Quem serão eles? Que pérfidas intenções os terão movido? Não perca o próximo episódio!") de conspirarem contra o seu colega da Economia.

No episódio seguinte, o "volte face": o administrador executivo indicado por Rio não tem, concluiu a CRESAP, currículo q.b.. Porque terá Rio, "an honourable man", escolhido para um cargo uma pessoa sem competência específica para o exercer? Será irmã de alguém, como a engenheira alimentar que, a 3790 euros por mês mais IVA, Rio contratou em 2008 para "acompanhar, supervisionar e garantir o cumprimento (...) dos contratos de ocupação do Rivoli"?

Novo episódio na 6ª-feira, 13. Tenhamos medo, muito medo.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

"Custe o que custar"


Publicado em 2012-07-03
Revela o DN que os enfermeiros contratados a partir de ontem para os centros de saúde de Lisboa e Vale do Tejo irão ganhar 3,96 euros à hora, isto é, 555 euros por mês (250 a 300 líquidos). São, diz uma das empresas contratantes, as novas regras de pagamento aos "colaboradores" do SNS: a qualidade não conta, é escolhido quem cobrar menos.

Paulo Macedo chegou ao Governo com a incumbência de "poupar na saúde" e, para isso, terá adoptado como estratégia o abandalhamento do SNS, empurrando quem não for totalmente indigente para as clínicas privadas de bancos e seguradoras. Ficam os pobres, e na saúde dos pobres pode poupar-se à vontade.

Pelo menos assim parecem pensar os "boys" de algumas ARS e administrações hospitalares. E, se em Lisboa poupam prescindindo da qualidade da enfermagem, no Hospital Central Tondela-Viseu poupam, como noticiou o JN, no copo de leite e nas bolachas de água e sal com que, durante a noite, se estabilizavam antes os níveis de glicémia dos diabéticos, deixando estes 12 horas sem comer e em risco de morte por hipoglicemia, do mesmo modo que, em outros hospitais públicos, a lei, em relação aos doentes oncológicos, parece ser agora a de "poupar nos medicamentos caros e deixar morrer".

Porque é preciso poupar em algum lado o que não se poupa nas PPPs e nas rendas pagas às grandes empresas do sector energético.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Entaipe-se a realidade


Publicado em 2012-07-02
Após um ano de empobrecimento do país com medidas recessivas de "austeridade", de destruição da economia, das classes médias e do Estado social, o resultado está à vista: o défice, nos três primeiros meses do ano, aumentou 4,8% em relação a igual período do ano anterior, atingindo os 7,9% do PIB, muito acima dos 4,5% que o Governo prometeu aos "mercados" no final do ano.
As receitas fiscais que, segundo a convicção orçamental do Governo, iriam crescer 2,9%, desceram até Maio 3,5%, apesar dos brutais aumentos dos impostos que o PSD, em campanha eleitoral, tinha garantido que não aumentaria. E, do lado da despesa, as "gorduras", "pneus" e "celulite" dessa "zona de conforto" de tudo quanto é "boy" que são as empresas públicas não só não diminuíram como, em vez disso, aumentaram 89,4%.
Vítor Gaspar, que anunciou que 2012 seria o "ano da viragem", já reconhece que as metas do défice estão, apesar dos dramáticos custos sociais impostos ao país, "mais longe". Entretanto, os desempregados já são da ordem de um milhão, as falências sucedem-se ao ritmo de 30 por dia e 70 000 portugueses são forçados a emigrar todos os anos.
Como aconteceu com a subida em flecha do desemprego, o Governo está perplexo: segundo a Bíblia neoliberal, nada disto devia estar a acontecer. Lamentavelmente, a realidade não lê pela Bíblia do Governo. Fosse no Porto e Rui Rio já teria entaipado a realidade.

sábado, 29 de junho de 2013

O descalabro da UE

Angela Merkel também é das que nunca se enganam e raramente têm dúvidas: "Enquanto eu for viva", não haverá 'eurobonds', assegurou ela em vésperas da cimeira de Bruxelas.
A insolente afirmação não surpreende. A UE deixou há muito de funcionar democraticamente e "construção europeia" tornou-se sinónimo de alargamento e aprofundamento de uma espécie de "Lebensraum" dos interesses económicos e financeiros da Alemanha (e, subalternamente, dos da França) em que os restantes estados membros não contam. O famoso "poder de iniciativa" da Comissão está reduzido a declarações e tomadas de posição avulsas e sem consequências, e ao impotente Conselho Europeu não cabe senão ratificar o que já vem decidido das reuniões bilaterais entre Berlim e Paris que invariavelmente precedem as reuniões.
Bem podem o escorregadio Barroso, presidente da Comissão, Mário Draghi do BCE, Van Rompuy do Conselho e Juncker do Eurogrupo, anunciar planos sobre mutualização das dívidas soberanas ou sobre a integração bancária. O papel de todos eles no Conselho Europeu de ontem e hoje é o de Durão Barroso na cimeira dos Açores que decidiu a invasão do Iraque: ficar na fotografia. No que toca a decisões, Merkel já decidiu; e mais ou menos do que ela decidiu só por cima do seu cadáver.
Talvez já seja tempo de concluir que só sem a Alemanha UE e euro sobreviverão.
JN, 29/06/2012 – M. A. Pina

sexta-feira, 28 de junho de 2013

"Zona de conforto"

A crer na OCDE, os portugueses, sobretudo os mais jovens e qualificados, estão-se nas tintas para o apelo feito por Cavaco Silva em Sydney: "Fiquem em Portugal". E é a debandada geral: todos os anos 70 000 de nós, a maior parte com menos de 29 anos, abandonam o país que os abandonou.
Muitos são engenheiros, arquitectos, professores, cientistas, que levam na bagagem conhecimento técnico, doutoramentos, mestrados, licenciaturas, e a frustração por terem nascido num país que os enjeita, castigando-os por terem perdido anos a estudar e qualificar-se em vez de, como outros, se arrebanharem numa "jota" a colar cartazes e a aprender as florentinas artes da intriga, do servilismo e da ausência de pensamento próprio. E, por cima de tudo isto, são ainda alguns destes últimos, "emigrados" hoje nos cadeirões da AR ou do Governo e amanhã nos de alguma empresa pública, quem lhes aponta a porta de saída: "Deixem a vossa 'zona de conforto' e ponham-se a andar".
O "conforto" de que falam governantes e deputados da maioria é a humilhação diária do desemprego ou de empregos precários (mais ou menos como o de Eduardo Catroga) como aquele que recentemente oferecia o IEFP do ministro Álvaro a arquitectos com, no mínimo, mestrado, domínio do inglês e francês e conhecimentos de design de interiores, desenho 3d e autoCad: um horário de trabalho das 9.30 às 19.30 e salário mensal de 500 euros.

JN, 28/06/2012 – M. A. Pina

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Sem gastar milhões

Num país em que tanto se fala em "inovação" e se gastam milhões em programas de estímulo à "inovação", continuando, em geral, a repetir-se apenas velhas receitas, a ideia do "mercado social de arrendamento" ontem formalizada em protocolo entre o Governo e sete bancos dir-se-ia um ovo de Colombo.
Além dos portugueses mais pobres, têm sido as classes médias as principais vítimas das políticas de austeridade (aí está uma velhíssima receita repetida, a da austeridade, que tem dado os resultados que se conhecem, da Alemanha de Weimar à Grécia actual). Ora os bancos estão a braços com um património imobiliário de centenas ou milhares de fogos devolutos, resultante da impossibilidade de muitas famílias continuarem a pagar os empréstimos à habitação. E igualmente o Estado tem prédios devolutos. Porque não colocar todos esses prédios num mercado de arrendamento a preços inferiores aos do mercado livre? Para mais, se experiência semelhante resultou antes em Gaia com o Programa Arco Íris?
Assim, estarão a partir de hoje disponíveis, a rendas inferiores em pelo menos 30% às do mercado, 800 fogos (1000 daqui a mês e meio, 2000 até ao fim do ano), destinados a famílias sem condições de acesso a habitação social. A solução não resolve tudo, mas resolverá decerto alguma coisa. Sem gastar milhões e sem se limitar a repetir, com maquilhagem nova, uma receita velha.

JN, 27/06/2012 – M. A. Pina

quarta-feira, 26 de junho de 2013

"O ovo da serpente"

Um dos momentos mais tocantes da entrevista a Edward Witten (que formulou a chamada "M-teoria" das supercordas, até agora a mais perfeita conjectura matemática de uma "teoria do tudo" e é considerado pela generalidade dos seus pares o maior físico teórico vivo) na série "Da beleza e consolação" é quando o entrevistador lhe pergunta o que pensa ele da "Shoah" e dos campos de extermínio nazis onde perdeu grande parte da sua família.
Witten ficou de olhos baixos e em silêncio durante intermináveis segundos. No fim, só conseguiu dizer: "Não sou capaz de compreender".
Ocorreu-me este episódio ao conhecer notícias recentes sobre a amnésia generalizada em que se gera o regresso da irracionalidade racista. Na Hungria, ao mesmo tempo que escritores nazis são hoje de leitura obrigatória nos curricula escolares, erguem-se estátuas ao "herói nacional" Miklós Horthy, regente do país entre as duas guerras e autor das primeiras leis anti-semitas da Europa Ocidental, responsável pelo envio de 450 mil judeus para campos de extermínio. Mais chocante ainda é o que se passa por estes dias em... Israel: imigrantes negros vítimas de ataques – casas queimadas, espancamentos e outras agressões – e classificados pelo próprio primeiro-ministro de "praga" e de "cancro". O governo de Direita israelita parece ter esquecido os insultos semelhantes dirigidos aos judeus que precederam o Holocausto.

JN, 26/06/2012 – M. A. Pina

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Queremos a vossa soberania

Há 25 anos, pouco depois de Portugal ter aderido à então CEE, eu teria aplaudido as palavras do ministro alemão das Finanças em entrevista a "Der Spiegel" no sentido da necessidade de "mais Europa". Lera alguns dos chamados "pais fundadores" e acreditava que a já mais ou menos evidente corrupção dos valores que haviam presidido, em plena Guerra Fria, à utopia dos "Estados Unidos da Europa" fossem apenas conjunturais.
Já então os membros da Comissão raramente honravam as funções que lhes atribuíam os Tratados e quase sempre agiam, menos ainda do que como representantes de interesses nacionais, como meros agentes dos partidos que, nos governos de cada país, os designavam. Com a transformação da CEE em União Europeia (e com o desmoronamento, a Leste, do "inimigo comum"), a situação piorou e, hoje, a Comissão perdeu toda e qualquer autonomia em relação ao Conselho, com as próprias cimeiras reduzidas a encontros bilaterais entre a Alemanha e a França onde tudo é decidido.
Em tal contexto, "mais Europa" e mais transferências de "competências para Bruxelas em domínios políticos importantes, sem que cada Estado nacional possa bloquear decisões" defendidas, depois Merkel, também por Schäuble, significaria a transferência do que ainda resta das soberanias nacionais para Berlim (e, subalternamente, para Paris) através do mero entreposto que Bruxelas actualmente é.
JN, 24/06/2012 – M. A. Pina

sábado, 22 de junho de 2013

"E não se pode exterminá-los?"

A montanha de audições dedicada pela ERC a averiguar o caso das "alegadas pressões ilícitas" do ministro Miguel Relvas sobre o "Público" pariu, como não poderia deixar de ter parido, um tíbio rato: o anúncio de que a ERC formou a convicção de que não formou convicção alguma acerca das tais "pressões ilícitas" e não as deu como "provadas".
Formou, contudo, a convicção de que a actuação do ministro "poderá ser objecto de um juízo negativo no plano ético e institucional". Mas, antecipando-se a interpretações maldosas, rapidamente se pôs de fora, como também não poderia deixar de se pôr: "não [cabe] à ERC pronunciar-se sobre tal juízo".
O actual Conselho Regulador da ERC é constituído por membros indicados pelo PSD (três) e pelo PS (dois). E, mais significativo do que as convicções que formou ou não formou ou do teor da deliberação que aprovou é o facto de essa deliberação ter tido votos a favor dos membros indicados pelo PSD e contra dos indicados pelo PS. O previsível, num caso envolvendo um ministro do PSD. E que tutela... a ERC.
A partidarização de organismos como a ERC ou o Tribunal Constitucional retira-lhes qualquer credibilidade e fere de morte a independência com que deveriam exercer as suas funções, tornando-os inúteis. Perguntarão justificadamente os contribuintes: "E não se pode exterminá-los? Não. Porque quem poderia exterminá-los seriam o PSD e o PS.

JN, 22/06/2012 – M. A. Pina