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domingo, 2 de dezembro de 2012

É PROIBIDO APONTAR


Domingo de manhã… À mesa do café quase deserto, o sujeito – lunetas de prudente funcionário da Fazenda – conversa com a menina, sete anos pálidos e tímidos. Tirante o caminho monótono da escola particular para ambos os sexos onde definha, aí num triste primeiro andar ao Bairro Camões, a menina goza apenas, vê-se à primeira vista, do privilégio de um passeio hebdomadário à Baixa. Observo-os do meu recanto pouco confortável (estas cadeiras de pau!), e posso imaginar o interior duma existência modesta, que se aguenta à custa de alfinetes em todas as costuras.
Conversam. E nisto a menina aponta para fora, para a estátua do Libertador, para o sol distante, as pombas da praça, talvez para uma janela onde qualquer coisa lhe atraiu a atenção: e a mão lívida, burocrática, pergaminácea do cidadão-papá estende-se num jeito de polvo a abaixar severamente o dedinho indiscreto. É proibido apontar!
O funcionário olha em redor, através das lunetas desconfiadas de azul, não tenha alguém reparado no gesto da filha (ou no dele?).
Era eu pequeno, para reprimirem em mim uma espontânea e justiceira tendência acusadora, o desejo de inquirir sem reservas, apontando, ensinaram-me que em certa igreja, ao erguer o dedo para um santo em seu nicho, ficara um homem com a mão sacrílega cortada resvés. Apontar é pecado, é tabu!
Até que ponto terá esta proibição geral destruído em mim as curiosidades naturais, o desejo de saber de fonte directa, e de acusar sem rebuço, forçando-me a uma atitude hipócrita de indiferença? Os meus dedos ficaram para sempre anquilosados, perderam a agilidade necessária para trespassar indiscretamente as pessoas e os factos que a minha consciência interroga ou condena. E no entanto, o homem que aponta assume a responsabilidade do seu gesto: porque há sempre na sombra da noite que nos envolve um cutelo pronto a cortar, como ao outro no templo, a mão que se ergue a inquirir, a acusar, a denunciar.
É de crer que a madre Eva tenha tentado Adão apontando-lhe candidamente os proibidos pomos da árvore da Sabedoria. Apontar um deus é destruí-lo. Os Hebreus não podem sequer erguer os olhos para o santo-dos-santos, não podem apontá-lo nem a olho. Apontar é um gesto revolucionário. Foi também apontando que Judas Iscariotes mostrou o Cristo, na noite mais que todas amarga, para o denunciar. No entanto, esse gesto, que valeu a morte e, na boa vontade de alguns simples, a ressurreição dum santo homem transbordante de imagens parabólicas e herméticas, foi o início de uma revolução nas ideias morais e religiosas, e recaiu sobre o próprio Judas, que se enforcou. E nós temos de aceitar esta conclusão cruel: o homem que anuncia a Verdade, melhor e mais concisamente do que o fizera o Baptista, e a aponta com o seu dedo adunco e sujo de pobre sem eira nem beira, sequioso de alguns dinheiros; o homem que propõe ao mundo, com o espectáculo de uma vulgar traição, o seu Deus mais humano e popular – paga com língua de palmo, numa figueira, a coragem de ter paraninfado a nascença da divindade! Judas apontou e pagou caro o seu gesto criador. O mundo continua povoado de símbolos e de contradições.
Os papás costumam punir os meninos que, à mesa, quando se pergunta: «Quem comeu a compota que estava na despensa?» – respondem vigorosamente, virando o dedinho rosado e severo sobre o culpado: «Foi o Nené!»
Como é sabido, só nos grandes apertos, ou sonhando em voz alta, os culpados dizem suas culpas; ou quando lhes convém, por exemplo para salvar a alma pela absolvição. De modo que, com os dedinhos contraídos e as orelhas ainda rubras da memória de algum remoto puxão, os meninos feitos homens, mesmo sendo altas coisas neste mundo, nunca mais se atrevem a dizer «Foi o Nené!», quando, nas assembleias, consistórios, conselhos, tribunais, comandos ou parlamentos, alguém se ergue indignado a indagar quem foi que comeu a compota que estava guardada na despensa do cofre ou do orçamento.
De resto, o silêncio, se nem sempre é de oiro, é pelo menos de papel-moeda ou títulos cotados. E quem o guarda não corre o perigo de ficar sem dedo – ou sem anéis, que importam mais.
 (Seara Nova, 1928) 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

«METROPOLIS» – ou A MORTE DO PROGRESSO

«Ora adeus!», dizia-me o engenheiro meu amigo. «A civilização? o progresso? um mito! um bluff!... O ideal, meu caro, é regressar à vida primitiva, despreocupada e simples das cavernas!»
Ergui-me de salto, num protesto veemente contra a boutade, mais do que paradoxal num homem que não só colabora permanentemente na complicação técnica das formas actuais do progresso, corno vive à custa deste. Na verdade, quem me demonstra todos os dias, copiosamente, que o rendimento da produção aumentará de forma prodigiosa no dia em que o trabalho obedecer a leis científicas, a uma metodização rigorosa, não tem o direito de sustentar que a minha felicidade está na razão inversa do progresso das técnicas.
Sim, protestei. Repugna-me pensar que a débil compleição e a miopia deste amigo lhe não permitiriam resistir a vinte dias de boa vida troglodítica. Bendita civilização, feliz progresso, que deixas aos fracos, aos doentes, aos mutilados, a alegria de se aquecer ao sol, de pensar, de sentir, e de amar! A todas as perguntas angustiosas sobre o problema e origem da existência e dos seus fins – Porque existimos nós? Vale a pena viver? Porque lutamos?, etc. – uma só resposta satisfaz: «Lutamos para viver, e vivemos para multiplicar a vida.» Instintivamente, prosseguimos o destino que a natureza (ou a Bíblia?) nos ditou – «Crescei e multiplicai-vos,»
Mais forte e poderoso do que lodos os obstáculos, dominando tudo, alimentando as formas mais subtis do nosso pensamento, e os actos mais comezinhos da nossa existência, inspirando-nos a inventiva que nos trouxe do Pamir ao canal de Panamá, obrigando-nos a afeiçoar o primeiro barco e a descobrir os deites rejuvenescentes da glândula do macaco (*) – esse instinto de conservação e de engrandecimento da espécie, esse orgulho animal de sermos e de espalharmos a vida persistente, preside a toda a nossa actividade.
A experiência assegurou-nos que a invenção, pondo a natureza ao serviço das nossas necessidades, realiza milagres que valem, proporcionalmente, o da Criação. À medida que aprisionámos o fogo, que aprendemos a dominar as feras, que descobrimos a orientação e a navegação, que aplicámos os minerais, os animais e os vegetais à nossa defesa e à manutenção da nossa bárbara família primitiva, mais gostoso nos ia sendo o pomo do pecado.
O amor, menos feroz e mais tranquilo, purificou-se lentamente: e os nossos pais antigos olharam com enlevo e esperança os seios ásperos das filhas, que despertavam para o amor, para a sofreguidão das bocas vindouras, num ambiente de calma e segurança. Proteger as vidas futuras, eis o intuito que domina o homem, sem que ele mesmo o perceba.
Mas imaginamos nós, porventura, o que era a vida nas cavernas? Escuridão, fumo, terror, silêncio defensivo? O homem não arrisca um passo através da floresta sem abraçar angustiosamente a fêmea que vem, entre a prole nua, dizer-lhe adeus à porta do abrigo, menos calma do que a esposa de hoje pode dizê-lo ao marido que, solitário numa avioneta, vai tentar a volta ao mundo. Por toda a parte a natureza impenetrável lhe estende, então, a sua perigosa armadilha. As feras fulvas espreitam-lhe os passos. Outros homens, mais inimigos do que irmãos, mal distintos dos monstros que saltam de ramo em ramo e de rochedo em rochedo, surgem de outras cavernas escondidas, armam-lhe esperas entre os arbustos para roubar-lhe as armas, as peles, a vida, a mulher, e, quiçá, comer-lhe a tenra descendência.
A população de um continente inteiro não chegaria então para povoar qualquer pequeno estado da moderna Europa. A insegurança, o incêndio, a luta, os vendavais, as feras, as inundações, mil implacáveis inimigos rodeiam o pobre ser cabeludo e espantado que nós fomos, tornam-lhe amargas as horas de amor, fazem-no olhar com medo supersticioso a morte que lhe arrebata as crias débeis.
Desde então até que o moderno pai de família, percorrido à pressa o jornal da manhã e engolido o pequeno-almoço, possa levar pela mão os meninos à escola, ou tome tranquilamente o carro que o vai deixar à porta do seu banco, para recolher à tarde a uma casa donde nem o senhorio o poderá expulsar – que longo caminho percorrido!
Ainda que chova, podes ir ao teatro abrigado num impermeável; ou ficas em casa à noite, a ler o teu jornal, o teu romance, com a certeza de que o mundo em volta de ti é uma coisa estável, onde se ama e se trabalha, luta e goza, chora e ri, mas sob a protecção da ciência e da lei.
Mas não te vou contar a história da civilização, que daria um grande folhetim!
Louvado seja Marte, a própria guerra progrediu, melhorou: são tão engenhosos, tão perfeitos os instrumentos de morte destes nossos dias, que a percentagem das vítimas da guerra é hoje vinte ou trinta vezes menor que no tempo de Ciro ou de Artaxerxes. Repara que a guerra, no tempo das cavernas, é de família a família, e por isso de extermínio: vencer ou morrer. Depois é de clã, de tribo, de cidade ou feudo. Ainda então ela é de aniquilamento: quem não morre em combate é passado à espada, se velho; vendido como escravo ou concubina, se homem válido ou mulher. E as cidades arrasadas, incendiadas, apagadas muitas vezes da face da terra.
Compara-a, amigo, com a guerra moderna: que sossego, que doce segurança! Enquanto os soldados se batem na frente, bebe-se e dança-se nos cabarés, investiga-se nos laboratórios e nas bibliotecas, ama-se em lugares discretos, pinta-se nos atelieres, discorre-se nas cátedras, ri-se nas plateias, festejam-se aniversários natalícios, e os telescópios seguem atentos a marcha irresistível dos astros… E até se fazem fortunas fabulosas! Acabou-se a guerra? A Alemanha vencida recompõe-se a três anos da derrota. Multiplicam-se as vidas, o amor, as invenções. Novas formas subtis criam-se para gozo dos sentidos. As libras rolam, tinindo, sobre o mundo. Aviões retalham o céu azul (ou de outra cor); anda-se de automóvel para cima, para os lados, para baixo… (Para baixo da terra, sobretudo.)
Oh céus! Pensa agora na Idade Média, tecida de guerras e lutas de extremo a extremo. Na desolação das planícies do Danúbio à passagem dos Hunos, no terror da Sibéria sob as hostes bárbaras da Mongólia, na tristeza despovoada das costas da França, que as incursões dos Normandos ameaçavam.
Chegámos a esta coisa espantosa: a curar a mordedura do cão com o pêlo do mesmo cão. Não são isso as vacinas? Em laboratórios límpidos e brancos, os sábios traçam planos de campanha contra os agentes das pestes que enchiam a Europa medieval de lágrimas, luto, preces ardentes e chamaradas purificadoras, tornando desertas as florestas da Alemanha, quando as populações fugiam em massa aos flagelos misteriosos.
Eu sei: vais-me dizer que o «espírito» nada ganhou desde o cidadão ateniense do tempo de Péricles, eloquente e subtil na graça do seu manto, irradiando finura intelectual, embora ignorante das aplicações dos raios ultravioletas, do rádio ou das ondas hertzianas, até ao técnico moderno, quer este fenda os ares num voo de centenas de quilómetros à hora, quer rasgue um ventre para recompor-nos as vísceras atrapalha das ou salvar um bebé. Concordo que estarão entre si como um botão de brilhantes do peitilho e um modesto botão de cuecas. O homem não terá talvez melhorado a alma, ao melhorar a máquina e a técnica: mas melhorou a vida. E o bom do Sócrates, se vivesse neste nosso tempo de progresso, em lugar de cicuta, teria muito naturalmente tomado um avião que em poucas horas o deixaria em Paris, onde o seu espírito resplandeceria mais do que num forçado exílio entre Citas ou Persas. Dir-me-ás que a cultura espiritual sobreleva ao progresso: mas que me contas da «espiritualidade» de Abel e Caim? Não olhes apenas à qualidade: enquanto, no tempo de Platão, era bem reduzido o número de homens que gozavam do contacto com as ideias superiores – os «discípulos» apenas –, hoje, pela telefonia sem fios, pelo telefone, pelo fonógrafo, pelo cinema, pelo jornal, a revista, e o livro sobretudo, e pela viagem cómoda e barata, qualquer homem sequioso de cultura pode ouvir, ler, ver ou palpar as obras do pensamento humano (**). Ah, tu que vais ao cinema e compraste um toca-discos ou um radiorreceptor para ouvir à noite, em casa, o Menano ou o Fleta, ou os acordes de algum jazz de Nova Orleães, tu que aspiras a um apartamento com aquecimento central, ascensor, telefone, canalização decente e banho, não podes pregar, não tens o direito de pregar contra o progresso! (***)
E tu foste aplaudir a sua destruição brutal na Metropolis de Fritz Lang, esse filme que H. G. Wells (sempre os odiados racionalistas!) classificou de «o mais estúpido do mundo»: porque, vítima que és dum preconceito sobre a civilização, cuidas que a máquina, o motor, o cimento armado, escravizam e aniquilam a humanidade, como se houvesse algum progresso que, a par disso, pudesse fundar-se num princípio que não fosse o da liberdade, o da saúde, o da alegria de viver dos homens!
Não, se os homens ainda hoje caminham por vezes de cabeça curvada, o ano 2000 vê-los-á talvez erguê-la altivamente. As máquinas, aliás absurdas e monstruosas, que nesse filme te figuram escravizado, desumanizado, regimentado, serão precisamente os instrumentos da tua definitiva libertação. O ano 2000 não será de sombra, mas de luz. E pensa, tu que hesitas, como a burra de Buridã, entre a negação e a exaltação do progresso, embora vivas desafogadamente à sua custa, que dele resultará a definitiva emancipação do homem, quando os povos, sem precisar de destruir cidades nem motores, entrarem na usufruição pacífica e definitiva dos produtos de um penoso trabalho de milénios.
(A Notícia, 1928)


(*) Sabe-se que o famigerado Voronoff se enganava e nos enganava.
(**) E sobretudo as do antipensamento – teria acrescentado hoje o ingénuo Artur.
(***) Os avanços da Medicina podem não ter melhorado o homem: mas não será um progresso ético e espiritual o sabermos que as vidas humanas, as das crianças em particular, estão hoje muito mais ao abrigo da morte e da dor? (1962)

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

PUNIR

Ali ao Rato, o carro estaca inesperadamente. Há um instante de silêncio e, como a paragem se prolonga, as cabeças voltam-se, de sobrecenhos carregados, e ouvem-se os primeiros murmúrios de impaciência: «Então que há? Isto anda ou não anda?», etc. Há movimento, perguntas, convívio, curiosidade em todas as fisionomias. Alguns passageiros soerguem-se no assento para ver melhor.
É cedo. Está uma linda manhã, e eu sinto-me bem neste eléctrico. Em todo o caso, olho também, sem pressa, numa solidariedade instintiva com a vizinhado lado, bonita, narizito friorento num rosto de Primavera. Em baixo, no pavimento, está um pequeno grupo, donde, contra o hábito, não saem gritos, insultos nem protestos: o condutor, um agente de polícia, um rapazote e outros comparsas anónimos. O rapaz, ar de empregado sem categoria, orelhas transparentes e dobradas no rebordo superior (sinal de degenerescência?), olhos hesitantes e descoloridos de espanto, a boiar como cortiças na água, deve ter dezassete anos. Pálido, horrivelmente branco! É o «vilão».
Percebo agora que o condutor, embaraçado com a mala, e com mais alguma coisa que não se vê de fora, e nem ele próprio percebe o que seja, fala em tom de queixa para o agente. Apuro o meu ouvido de burguês curioso destes casos de rua, desta crónica viva que acidade escreve a cada hora. O rapazito, viajante assíduo nesta linha, fez-se passar durante muito tempo, fraudulentamente, por «assinante». Fingia que tinha passe, como qualquer pessoa de bem, com fundos, afazeres, vejam lá que esperteza! Desta vez caiu: «Há tempos que eu andava desconfiado… Mas a gente, na boa-fé!»
Uma pequena burla, hã? Isto diverte-me. A vida anda cheia destas mínimas fraudes, quase sempre impuníveis. E ele tem um ar de timidez honrada. Vão-se lá fiar! Quem lhe ensinaria a manha? Talvez ninguém. A natureza põe nas almas dos homens incoercíveis fermentos de maldade, germes invisíveis de pecado e transgressão. Concebeu solitariamente o seu delito, e vivia feliz de o praticar em segredo, como um bruxo ou alquimista. Tem a palidez dos responsáveis, a consciência morde-o com certeza, talvez o medo, e esboça uma tímida defesa.
O polícia, entretanto, vai tomando notas severas e definitivas, molha laboriosamente o lápis curto, mal aparado, nos beiços grossos. Não encara com o rapaz, que tem agora o ar dum passarito apanhado na rede. Interroga-o, pede nomes, moradas, elementos seguros para a complexidade dos autos. Ao virar-se, avisto-lhe os olhos negros, convergentes, congestivos, e penso involuntariamente se não serão talvez assim os olhos da Justiça, por isso lhos vendaram…
Vai-se juntando gente. Indiferentes como eu às origens secretas do drama, os passageiros protestam mais alto: «Não temos nada com isso! Levem-no prà esquadra, e acabou-se. Toca a andar!» (Há mesmo um que se ergue e puxa com decisão a campainha.)
Nem todos percebem o que se passa. Travam-se conversas entre desconhecidos, que o interesse de chegar a horas solidariza. E depois, não há como um acidente, um pequeno drama, para aproximar os homens, de outro modo alheios entre si. Um de cabelos brancos, vermelho (presumo que seja cobrador), diz assim: «Os condutores andam agora como cães em cima da gente!» E outro diz: «São ordens que eles têm!» Alguém, numa voz em que adivinho uma satisfação, relembra a morte daquele condutor, há tempos, agredido com um pontapé no baixo-ventre por um passageiro exaltado… Somos todos da «classe média», território social e economicamente indefinido: apesar disso, sinto em torno de mim um vago aplauso às violências contra estes homens de farda correcta, cor de pinhão, e boné agaloado, tão incapazes como nós de reagir contra as injustiças e as prepotências. O delito paira, anda disperso. Um fundo de maldade inconsciente em cada homem! E por fora, a indiferença. Porque foi que este rapaz burlou? porque mentiu? Olho-o de novo, e a palidez, a expressão dele impressionam-me. Implora, tem lágrimas nos olhos. É destes rapazolas que frequentam os cinemas baratos, de bairro excêntrico, onde a chuva canta num telheiro de zinco.
– Não foi por mal...
Desculpa tola! O agente acabou de tomar notas, importante, e o grupo movimenta-se. Afinal o rapaz vai preso. Segue connosco, e o condutor, pálido e trémulo do esforço de ser mau (segundo ele crê: de ser justo), trepa ao carro e dá duas violentas campainhadas. Partimos. O rapazote, de pé no estribo, suspenso dum balaústre ao lado do cívico imponente, agarra o sofretudo safado pelos ombros, contra o vento, e continua a implorar com os olhos lacrimejantes, a tartamudear súplicas incompreensíveis. E de repente, este público até agora indiferente começa a erguer os seus lamentos! Imaginem que o rapaz tem de estar no escritório daqui a dez minutos, quando não, adeus emprego! O condutor passa por nós e procura evitar o nosso olhar. Já pensaram no que é para ele a cadeia? A perda do salário, o desgosto da mãe… Que tremendo castigo! Não lhe basta a vergonha, o susto que apanhou? Sim, mas se amanhã recomeça? – Sentindo a nossa solidariedade, ele volta-se para o condutor, e este, horrorizado com a responsabilidade, pensa no dever, na Companhia, desvia os olhos e diz: «Isso agora é com o senhor guarda, não é comigo! Um homem tem que cumprir com a sua obrigação!» E o senhor guarda, olhando por cima das cabeças do público, compõe o cinturão com dignidade: «Isso não é comigo. Lá na esquadra veremos!»
O eléctrico larga-os numa paragem qualquer, e despede a nove. Não posso evitar um aperto na garganta e uma quase lágrima indiscreta. A minha vizinha da esquerda empalideceu, e os seus olhitos negros, abertos e espantados, não param. Todos os passageiros comentam agora, tardiamente condoídos, a sorte do pequeno. Amanhã, noutro carro, hei-de ouvi-los protestar, indignados, quando o tribunal, impotente para castigar este delito entre tantos, mandar em paz o empregadito sem emprego, mais amarelo e mais magro: «A Justiça é uma capa de ladrões!»
O que há de instável e contraditório nas nossas almas! Temos ao mesmo tempo o desejo colérico de punir, e o temor de punir. Queremos a repressão do crime, e a nossa vida está cheia de grandes e pequenos delitos escondidos. Se o condutor se esquece de nos cortar o bilhete, viajamos de graça, contentíssimos com a fraude (todos gostamos de fazer uma pirraça aos ingleses!), e aterrados com a ideia do vexame que seria se ele nos descobrisse. Chegamos a apear-nos antes do nosso destino, com uma amargura que anula o gozo da burla. No dia seguinte pagamos prontamente o bilhete, para apaziguar a consciência, e é o vizinho do lado que se «esquece», ou vira a cara a olhar as montras, ou mergulha na leitura do jornal. Então é que é ver a minha raiva: lanço-lhe de revés um olhar irónico, intencional, denunciante: «Bem te percebo o jogo, meu melro!» Ponho bem em evidência o meu bilhete (até lhe decoro o número, para evitar confusões), e, como ele continua impassível, cada vez que o condutor se detém a percorrer com um olhar de dúvida o nosso banco, fito-o com força magnética, a dizer intimamente: «Aqui à minha esquerda… Sim, aqui vai um!» E tenho a certeza de que raros entregam desinteressadamente à polícia a pulseira de brilhantes que encontraram a noite passada, ao sair do teatro. (Brilhantes, que exagero! Eu nunca tive a sorte de achar nada.) É por medo, é por medo. Se fosse uma nota de cem escudos…
Por isso eu nunca gostei de ser jurado. Já o fui duas vezes, e não me lembro de ter ajudado a condenar senão dois ou três criminosos repugnantes e um assassino. Condenar para quê, e com que direito? A Umbelina, então, diz-me assim: «Tu és agora algum anarquista?! Que ideia! Cumpre o teu dever, e deixa-te de esquisitices!» Para ela tudo são esquisitices.
Mas eu tenho cá as minhas razões. Imaginem que uma tarde, ao escurecer, entrei no Serras a comprar um charutinho para depois do jantar. Ainda não tinham acendido as luzes, por espírito de economia, suponho eu. O vendedor, muito solícito, abriu-me meia dúzia de caixas em cima do balcão, e virou-se a atender outro freguês. Naquela penumbra, oh senhor, não sei que vontade me deu de tirar três ou quatro charutos, e no fim pagar um só. Felizmente o patrão acendeu os lampiões (era no tempo do gás) e eu respirei fundo, e fiquei muito contente de continuar a ser um homem honrado. Paguei, vou a dar volta para sair, e que vejo eu? Um raio dum fedelho que me deita a mão à bengala de castão de prata, que eu tinha pendurado na borda do balcão, e abala a fugir pela rua abaixo! Largo atrás dele, agarra agarra, e se os populares mo não tiram das unhas partia-lhe o pau-ferro de estimação (presente do meu sogro) nos lombos.
Levaram-no preso. Nessa noite, acreditem, o charuto amargou-me como fel. Dormi mal e, logo pela manhã, fui à esquadra pedir que o pusessem em liberdade. Tinha sido uma tentação, disse eu, e eu estava na posse da bengala, e coisa e tal. Impossível: era um flagrante delito, e o preso já tinha ido para o Governo Civil, agora a Lei seguia os seus trâmites. O rapaz não se pôde afiançar, esteve meses no Limoeiro à espera de julgamento, e eu consegui esquecê-lo. Quando me chamaram a depor, no dia da audiência, declarei muito simplesmente que nada queria do réu, nem sequer o reconhecia, e que me parecia um exagero mandar um fedelho daquela idade para a cadeia por causa duma tentação gorada. O meritíssimo juiz nem me deu ouvidos: cascou-lhe quinze dias de prisão e multa (porque era a «primeira vez!») para lhe ficar de lembrança, levando em conta o tempo de prisão já sofrida, e eu, eu fiquei com o remorso de o ter precipitado no caminho do crime, só Deus sabe. Nunca hei-de esquecer o olhar de ódio que ele me lançou: já era o dum profissional!
E aqui está como nós somos.
Fracos perante a necessidade irremediável de punir, impotentes para prevenir os males que nos afligem colectivamente, somos duma ferocidade implacável quando estamos a sós. Condenaríamos à morte se não tivéssemos de suportar o olhar de censura do condenado. Cobardes!
De jornal aberto em frente e guardanapo ao pescoço, curvado sobre a cebolada do almoço, eu reclamo em família a pena capital, a prisão perpétua, o degredo, os trabalhos forçados, para os criminosos de que os faits-divers me dão todos os dias o rosário longo: quero sossego, quero ordem, quero decência. Burguês tímido, reverente, acobardado, por necessidade, imposição, conformismo ou medo, por uma transmissão atávica de humildade, incapaz de me revoltar abertamente contra o mal que me fazem, contra o mal que faço – sou duro no íntimo, e cruel. Quero Justiça intransigente, rectilínea e fria – e o meu coração dilui-se na piedade, como um torrão de açúcar no chá quente.
Punir (Seara Nova, 1928)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O FATO COÇADO

Tenho destes hábitos antigos e modestos, que contrastam com o tempo em que vivo: pura sair à noite, a dar o meu giro digestivo, nada me agrada tanto como envergar um fato de há cinco ou seis anos, que as exigências do ofício e os rogos da Umbelina relegaram para um canto do nosso guarda-roupa. Assenta-me como uma luva, nunca me pareceu tão bem cortado, tão despretensioso, tão cómodo e discreto. «Já hoje se não faz disto!», digo eu contente. E não. O próprio facto de estar um tanto fora da moda (na gola, sobretudo) lhe dá não sei que apuro e distinção. Traz mesmo uma pontinha de cheiro a naftalina, que lisonjeia o meu olfacto amigo da conservação. Dois ou três anos que passou a bom recato, ao abrigo da traça, desenrugaram-lhe as mangas e quase desvaneceram os vestígios do uso. Parece outro, repousado. «Parece novo!», diz a Umbelina, regalada, a acaricia-lo com a escova sedosa. E com esta vantagem sobre as coisas novas: não me exige nenhum esforço de adaptação, sinto-me nele à vontade, sem este ar de novidade que sempre me embaraça. As coisas usadas parecem mais familiares, mais pessoais, menos cerimoniosas ou exibicionistas. Nem os amigos e conhecidos (o Almeida!) que encontro na rua param a cumprimentar-me com a habitual discrição lusitana: «Bravo, seu Artur! Com que então, farpela nova, hã? Donde é que lhe veio a herança?»  e tal. Como se eu não o tivesse bem ganho com o suor do rosto. Positivamente, estes nossos amigos não nos perdoam o que se chama uma camisa lavada. Mas conseguem intimidar-me, dar-me um remorso do privilégio. Além disso, há três coisas que, entre outras, eu detesto soberanamente: provar um fato, cortar as unhas, ir ao barbeiro ou ao dentista. Chego a preferir este último, palavra de honra.
Saio de casa muito senhor de mim, gozando, de mãos nos bolsos e cigarro na boca, e penso: «Quero eu cá saber que eles reparem? (Reparar, dar nas vistas, o que irão dizer, etc., são formas da minha imensa boa educação, do meu senso lusíada das «maneiras».) Saibam que tenho lá em casa, para as ocasiões, um belo fato novo cor de mosto, às riscas, que desejo poupar como se poupam as raras horas de alegria!» Compreenderiam eles?
De mim para mim, orgulho-me deste nobre sentido da poupança. A certeza de que um rasgão aberto na manga pela aresta duma chapa de zinco traiçoeira ou a mancha de ripolin duma porta pintada de fresco me não impossibilitarão de sair amanhã de manhã às minhas ocupações, dá-me uma sensação de conforto e bem-estar, quase de felicidade. Chegar a casa e dizer assim à patroa: «Olha lá se fosse o novo, hã? Que sorte!» Ou então ouvi-la: «Se não tivéssemos outro, estavas bem arranjado!» (Tudo o que temos, incluindo as minhas roupas, temos em comum, na dela.)
Aqui entre nós, chega-me a apetecer dar-lhe uma tesourada, só para experimentar a inefável alegria das dores irremediáveis. Mas nem pensar nisso! Sempre me pareceu abominável destruir só pelo prazer de. Um crime anti-social. Não, que este paletó (por sinal trago-o hoje vestido), no dia em que eu não precisar mais dele, ainda pode fazer o agasalho de um pobre. E então agora, que vêm tantos bater a esta porta, novos e velhos, desempregados, a pedir um trapo usado para se aquecer! Mas vou adiando sempre o acto generoso. E espicaça-me um remorso: Para que diabo é que eu hei-de conservar tão ciosamente a roupa velha? Não é porque nós poupamos que falta aos pobres: é pelo que lhes não damos, ou lhes tiramos… Já me tem acontecido ela dar uma coisa minha a um pedinte: o meu primeiro impulso, ao sabê-lo, é de irritação; depois compreendo-a, e chegamos os dois às lágrimas…
Continuo a matutar: «Que me importa a mim molhar hoje os pés, dentro deste par de sapatos velhos, se eu sei que amanhã poderei confortavelmente encaixá-los no forro quente e espesso das botas de calf inglês, soda dupla, que me esperam lá em casa, sólidas, impermeáveis, imponentes como dois granadeiros de S. M. Britânica, e como ela indestrutíveis? Ah, não há nada, para saber o que vale um par de botas novas, como andar um dia inteiro à chuva e na lama, com um par de sapatos rotos nos pés!» ([i]) Se eu sei... E a ideia surge-me assim, com toda a nitidez: o que verdadeiramente importa, nestes dias de Inverno, não é andar de calçado gasto e com pés alagados: é não ter lá em casa um par de sapatos novos para mudar.
Isto até me sugere uma teoria nova (com sua licença) da Dor: a Dor é em geral um sentimento relativo e social, quase uma abstracção. O que me faz sofrer, o que me fere e magoa, não é a dor das fibras e dos ossos, mas as suas causas e condições, a privação relativa, os contrastes, o ridículo, o orgulho ferido, a humilhação em que o desastre ou o acidente me colocam. Sem isso, a Dor seria muito mais tolerável, quase indiferente. Chego a ter vontade de dizer: a Dor (esta maiúscula está-me a parecer um bocado retórica, mas enfim!) pertence ao domínio da Sociologia. Mas cautela aí com o paradoxo! Creiam que até já deixei de acreditar nos cidadãos bem cuidados, bem nutridos, mimados, que me vêm falar da sua Dor (vá lá outra vez com D), da Angústia, e coisas parecidas. No fundo, talvez não passe de remorso.
Vejam por exemplo o Albino, coitado: o Albino chegou outro dia ao escritório com cinco minutos de atraso. (Ê muito pontual.) Daí a pouco ninguém parava com o fedor a benzina. Todos se queixavam, menos ele. Estava com o nariz enterrado no Borrador. Até foi preciso abrir as janelas. «Que raio de pivete a benzina!», disse o Ponce. «Algum de vocês matou hoje o bicho com benzina?» Risota geral… O Albino, coitado, moita. Vermelho até à raiz do cabelo.
Compreendo bem a sua humilhação: teria de confessar que não tem outro casaco. A benzina o denuncia. Vida de estreiteza, de poupança. É a mãe, velhota e viúva, com quem ele mora por não ter meios (ou ter medo) de casar, que lhe inspeciona as roupas e lhe tira as nódoas. Estou a vê-lo nessa manhã, em mangas de camisa, em pé no meio da casa, a bater os queixos com frio, cheio de impaciência: «Então, mãe, não me demore, criatura! Por sua causa vou chegar tarde ao emprego!» E pela tarde, ao voltar a casa: «Não me torne a limpar a roupa com essa bodega! Foi uma chuchadeira pegada no escritório!» E a velhota: «Mas ó filho, tu não hás-de andar agora com a roupinha cheia de nódoas, como um moço de taberna! Deixá-los rir. Ao menos, porco ninguém te pode chamar.»
Há pessoas assim, foram criadas na «decência», no «parece-mal», e o sonho delas é ir ali para o Alto-do-se-m’intendes com uma camisa lavada e uma roupinha decente. Perca-se tudo menos a vergonha. É quanto a vida lhes oferece, contra os sacrifícios que por ela fazem.
Está visto que o fedor da benzina, em si, pode incomodar, mas não deprime. (A mim dá-me volta ao estômago, são idiossincrasias. A civilização do petróleo, do motor Diesel, arrasa-me! Mas há quem goste, e até quem beba o pitrolino misturado com cachaça!) O que humilha, o que dói – cá estou na minha teoria – e a sensação de acanhamento que ele produz. Anda um homem pela rua, ou seja onde for, a espiar os outros, encolhido, vexado, a ver se lhes descobre nos olhos, nas ventas arreganhadas, algum sinal de percepção irritada. É como ter uma doença repugnante à vista, ou ter praticado um acto menos limpo. É corno ter comido, por exemplo, açorda de alho, e passar o dia a restituir a alma dele na cara do parceiro. Vexames!
É o fato, o fato único, esta espiga. Isso é que dói. Quando os outros têm quatro ou cinco – ou cem. Não é tanto o não ter que dói, como sentir que outros têm, ou têm demais, o que nos falta. Mas não vamos nós além da Bota!
Ninguém teria ousado perguntar àquele cavalheiro de idade, tão sereno e composto, o que é que ele levava embrulhado debaixo do braço com tanto cuidado. Algum jarrão da Índia, quem sabe lá. Ou um cache-pot de faiança. Quase elegante que ele ia, com o seu embrulho sobraçado. E de repente – nem sei como aquilo foi, acho que me distraí a olhar um par de meias de seda que passou com pernas dentro – sei que ouvi um estoiro, e que o vi estendido ao comprido, lorpamente chapado no passeio. Parece que andamos sempre à procura de acidentes que nos tornem solidários: mais uma vez corremos uns quantos a ajudá-lo, pusemo-lo em pé, apanhámos-lhe o chapéu, sacudimos-lhe o pó da roupa. Magoou-se? Não foi nada. Só o susto… E o embrulho? A guita tinha-se partido, o papel rebentara, e descobrimos o que ele levava dentro: um objecto redondo, para uso íntimo e nocturno, com uma asa, feito em mil cacos! Mas não é tudo: dentro da faiança barata iam bem um quilo de cebolas, que rebolaram alegremente ao longo da valeta, em liberdade. Cebolas! (Dá vontade de dizer Cebolório!) Era impossível apanhá-las uma por uma e metê-las no vaso escavacado. O vexame do sujeito foi tão grande que eu até virei a cara, envergonhado. Se fosse comigo tinha chorado, podem ter a certeza; tinha fugido, eu sei lá, capaz até de me divorciar como protesto contra tais obrigações matrimoniais. Se fosse um jarrão de porcelana! E cheio de bolas de ténis ou golf! Mas de cebolas! Em volta do pobre homem foi um escarcéu de risota. E os garotos a trazer-lhe as cebolas uma por uma. Com ar de troça…
Estas humilhações é que doem. A dor é isso. A da pobreza envergonhada, ou da que se quer fazer passar por outra coisa. Os dentes só nos doem verdadeiramente quando sabemos que não podemos ir ao dentista.
Ainda outro dia, nas corridas de obstáculos da Matinha: o visconde de Pregalhos levou um tombo de alto lá com ele. Milagre foi não ter partido aquele espinhaço, que além de ser o cabide onde traz suspenso o canastro de heráldica elegância, é hoje a derradeira esperança legítima de continuidade das ancestrais virtudes da Casa.
Muitos ais, algum sangue, delíquios, correrias, gritinhos, ajuntamento em volta da automaca… Mas qual, as costelas partidas não lhe doeram absolutamente nada. Portou-se – dizem os círculos selectos – «com a estóica serenidade com que os seus Maiores aguentavam os golpes dos Infiéis nas rudes Batalhas de Antanho». (Gosto imenso destas palavras arcaicas. E então em maiúsculas! Oxalá não venham por aí abaixo outros infiéis com outras batalhas menos de antanho.) Noite e dia velam-no, além das zelosas irmãzinhas dos enfermos, anjos-da-guarda que Deus põe à cabeceira dos cavaleiros caídos, as mais delicadas e nervosas flores da aristocracia e da elegância. Grandes nomes. Herdeiras. Embaixatrizes. Umas santas! (Também se fala em cenas de ciúmes.)
É muito provável que, a tardar a soldadura das costelas felizmente fracturadas, se restaure por um bom casório aquela espinha que os embaraços financeiros, também históricos na Casa, traziam algo desviada do primitivo aprumo.
Foi uma honra, uma distinção, um reclamo. O visconde, sistematicamente um dos últimos classificados do steeple-chase, viu-se de um instante para o outro guindado a herói do dia, e apalpa agradecido os lombos equimosados. Acredito mesmo que os vencedores, abandonados e esquecidos, com as suas taças de prata e diplomas de honra, se torcem de inveja diante das objectivas pressurosas da imprensa. Aquele triunfo na derrota, ou ascensão na queda, nunca eles o hão-de perdoar ao venturoso enfermo.
E o visconde, na cama, todo envolto em ligaduras e adesivos, aromas, desinfectantes e sorrisos de mel, põe os olhos no Crucificado e agradece-lhe a imperícia com que Ele o dotou para os saltos de barreira e cancela. Abençoada fractura, dor bendita! – Não tarda muito que um elegante casamento…
(Resolvi agora mesmo dar o tal fato usado a um pobre.)
(Inédita, 1926-27)


[i] O Artur devia ter lido, ao tempo, Este Drama dos Sapatos, de H. G. Wells. (J.R.M.)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

APETECE-ME!

Sigo ao longo desta rua da Baixa, no tumulto da gente ociosa que vagueia e da gente apressada que regressa a casa, à hora em que o sol, já ruivo, se despede dos telhados mais altos e flameja no Castelo. Vou de nariz no ar, gozando a tépida alegria da minha segurança. Amo a cidade, as ruas alinhadas, o tráfego, o rumor, o formigueiro humano, o clarão eléctrico das montras, o asfalto que a rega deixou polido como um espelho. A cidade sorri nervosamente, e eu respondo-lhe com um sorriso de amor. Gosto dos gestos ritmados do agente de capacete claro, que rege a orquestra confusa e trepidante do trânsito. Olho, junto de um poste, os eléctricos que passam, as pernas das mulheres que se descobrem, a subir e a descer sem cessar, e os rostos felizes, sorridentes, calmos, os lábios vermelhos, os olhares lânguidos que se oferecem das vidraças dos autos reluzentes.
Apetece-me… Apetece-me… Nem sei o quê. E vibro de alegria, feliz de me sentir anónimo, arrastado, nesta hora calorosa e comovida, pela palpitação da vida urbana. Sou um burguês. Levo na mão direita, com a bengala de malaca, suspenso dum dedo enluvado, este pequeno embrulho. Sigo em frente, e paro junto duma frutaria que derrama na rua a complicada rescendência dos seus frutos dispostos em filas, em renques, em pilhas, em cestos e tabuleiros, ou suspensos de ráfias e de arames. Olho as uvas cristalinas, voluptuosas como seios minúsculos de virgens… Como a natureza perfuma a civilização e casa com ela os seus aromas para lhe dar um encanto maior! Detenho-me a aspirar a graça destes frutos, que o olhar das mulheres acarida de desejos. Frutos e mulheres, a luz do entardecer, os clarões da rua, o marulho do tráfego, tudo parece fundir-se num mesmo perfume que me dá um desejo, uma volúpia, uma euforia indefinível... Apetece-me! Apetece-me!
Nisto, vejo adiante de mim o vulto duma llIulher Nisto, vejo adiante de mim o vulto duma mulher humilde que passa, com mais pressa do que eu, em frente destas lojas, e sem as olhar. Leva uma criança ao colo, embrulhada no seu mesmo xaile, e na mão direita carrega um grande cabaz. É uma nota dissonante… Percebo-lhe as costas magras, abauladas e tímidas. De súbito escorrega perigosamente, oscila, e cai para a esquerda, sobre a criança! Correm pessoas alarmadas. Corro também, mas já não chego a tempo de a ajudar. Mãos solícitas levantam-na. Ficou vermelha – vejo-lhe o rosto magro, a expressão assustada – e o menino chora. Durante um segundo observo a angústia do seu olhar preso no filho. Depois foge à pressa, sem mesmo agradecer aos que a ergueram do chão. Leva a saia, as mãos e o xaile sujos da lama viscosa do passeio. Alguém murmura: «Foi uma casca, é um perigo!» Outros protestam: «Deviam ser obrigados a limpar os passeios!» E logo a onda rola, indiferente, ao seu destino. Cruzam-se no ar risos, murmúrios, retalhos de conversa. Uma cólera absurda ferve-me no peito. Mas porquê? Que lhe hei-de eu fazer? Partir-lhe a montra? Passo também, o incidente depressa se me funde na memória, e recaio na minha voluptuosa divagação.
Anoiteceu por completo, as lojas engolem e vomitam clientes, os transeuntes hesitam nos passeios, olham irresolutos as grandes montras que inundam de vivas claridades o pavimento escuro. Mais longe, noutra rua, um velho lívido e magro leva às costas, sobre uma saca de linhagem dobrada, um pesado tambor de ferro. Tem uma barbicha rala, cinzento-amarelada. Os seus olhos, baços e encovados, fitam o chão com o terror de o ver fugir. Doente? Cansado? Um velho. Arrasta a perna esquerda sob o peso, e pára a espaços como se esperasse cair subitamente fulminado. Sigo atrás dele, atraído, fascinado pela sua miséria, e a angústia contagia-me – sou eu que levo o peso enorme, sou eu que vou cair exausto! Sinto os músculos retesados do esforço, e arrasto já também a perna esquerda. Se ele pára, eu páro. Cada paragem me parece mais longa, e mais penoso o esforço de arrancar. O volume escorrega-lhe dos ombros, e o velho curva-se mais para ajeitá-lo melhor. Impossível!, vai cair, vai-se despedaçar, ficar esmagado, que será dele, depois? – A minha agonia é tamanha, que dir-se-ia aquele peso ir-me cair no peito. Levo a mão esquerda à cara, tapo a boca para não protestar. E não posso, não poso fazer nada! O meu embrulho, as luvas, a bengala… (Apetece-me! Apetece-me!) A multidão que passa, esta gente que trabalha e que goza, que é forte e juvenil, e nos habituámos pelos livros a supor que também sofre, nem sequer olha o velho, que lá segue o seu caminho, como os animais e os carros, no asfalto da rua. Ninguém repara nele.
Sinto de novo a cólera crescer em mim, desta vez surda, triste e impotente, contra o destino, contra mim próprio, contra este mundo egoísta. Os pequenos sofrimentos de cada dia deixam indiferente esta gente a um tempo simpática, brutal e singular. E eu sou tal qual assim… «É a nossa hora!», penso com cinismo, para me consolar. «Que fariam aos mais estes que sofrem, se pudessem também fazer sofrer!»
O velho decididamente oscila, procura firmar-se nas pernas frouxas, trôpegas, cambadas. A perna esquerda, esta minha perna esquerda que fraqueja! Adivinho-lhe a dor física, agravada pela consciência da velhice condenada, inútil, que a vida explora e calca. Crispo as mãos de raiva. Eu sou culpado! Somos todos culpados daquele sofrimento, daqueles farrapos, daque1a perna frouxa, daquele destino, da vala comum que um dia…
Dois homens detêm-se (enfim!) a olhá-lo, e os seus olhares fazem coro com os meus. Ficamos os três a distância, a avaliar o peso daquela desgraça, no meio da rua atroadora, num protesto inerte e por enquanto mudo. Qual de nós é que ousaria… Até que um diz: «Ladrões! Quem carrega assim um velho merecia que lhe dessem um tiro!» (Não sei qual deles falou.) Mas alguém sabe, porventura, o que significa esta cólera cega, inútil e cruel? Eles pararam e olharam. Eu parei e olhei. O velho recompôs-se não sei como. «Irá ele com uma pinga a mais?», diz um deles. Encolhem os ombros e afastam-se os dois a rir.
A minha raiva, depois do escape das palavras anónimas, sumiu-se. E como o velho já se perde no burburinho, sinto uma secreta advertência de que aquilo é um caso passado em julgado. Respiro aliviado, liberto do momentâneo pesadelo da responsabilidade, e afasto-me também, tão insensível ou prudente como os outros. São horas de me ir chegando à janta. No meu fundo há talvez uma certa alegria, que me vem de experimentar a piedade: a alegria de me sentir bom, de compreender a dor, de simpatizar, de me revoltar (em palavras ou pensamentos só) contra a injustiça… Parece que acabo eu de cumprir o meu dever!
Casos destes, todos nós os podemos contar. De que serve flagelar-me com o remorso do meu egoísmo, irmão de tantos outros? Julgamos cumprir o nosso sagrado dever, não é assim, só porque experimentamos a piedade que humilha, a cólera que cega. Mas os nossos braços caem inúteis, e as nossas mãos andam atadas às luvas, à bengala, aos embrulhinhos…
Sou um burguês, um burguês incorrigível!
(Seara Nova, 1927)

sábado, 3 de dezembro de 2011

Aforismos & desaforismos de Aparício

Eles precisam dos meios de comunicação (dos média!) como as rãs precisam do charco para coaxar.
[JRM, 15/2/1977]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Aforismos & desaforismos de Aparício

Certo tirano (foi isto na Itália) condenou à morte um seu bobo, por motivo fútil e só para lhe pregar um susto. Chegada a hora, ele de joelhos e cabeça no cepo, em vez do cutelo, deram-lhe um esguicho de água fria no pescoço. O desgraçado morreu instantaneamente.
[JRM, 15/2/1977]

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Aforismos & desaforismos de Aparício

«Você não passa de um Dom João frustrado e despeitado!», disse alguém ao misógino, que embatucou.
[JRM, 15/2/1977]

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Aforismos & desaforismos de Aparício

Não lhes peço nada, senão que me reconheçam como sendo a encarnação do espírito contestatário: de tudo e todos.
[JRM, 15/2/1977]

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Aforismos & desaforismos de Aparício

Temos o culto do Cadáver: não só o dos mortos enterrados, ou que o deviam estar, mas o dos mortos que por aí andam a fingir de vivos! (Mas quando se trata dos vivos de verdade, tratamo-los como se fossem mortos... esquecidos!)
[JRM, 12/2/1977]

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Aforismos & desaforismos de Aparício

O Teatro é, essencialmente, situação (modo ou clima), evento, a actualização (ou actualidade). E nunca, a narrativa do, ou referência ao, que acontece ou aconteceu fora de cena. O próprio passado deve ser dado como actual, presente – em evento. Tudo o que não for isso poderá ser entretenimento ou diversão, mas não é Teatro.
[JRM, 8/2/1977]

domingo, 27 de novembro de 2011

Aforismos & desaforismos de Aparício

Encontro numa rua Lúcio, que berra, encabulado:
– O que eu queria era um voto esmagador das direitas!
– Ora essa! Porquê? – espanto-me eu.
– Para eu poder voltar a ser da extrema-esquerda! Nunca pude gramar os vencedores! Detesto o Muhamad Ali! O único que eu sempre amei foi o Joe Louis, que não fazia mal a uma mosca!
[JRM, 8/2/1977]

sábado, 26 de novembro de 2011

Aforismos & desaforismos de Aparício

É tradição que o famoso pintor grego Apeles (IV séc. a. C.), tendo pintado um quadro que lhe agradava, o expôs em público, como era, parece, hábito seu. Muita gente desfilou a admirá-lo e a comentá-lo, até que apareceu ali um sapateiro que, não contente de criticar a feitura dos coturnos dos personagens («Eu cá teria feito muito melhor!» – e assim), desatou a apontar outros defeitos na obra. Apeles que, postado atrás do quadro, escutava os comentários, saiu do esconderijo e disse ao crítico:
   – ORA NÃO VÁ O SAPATEIRO ALÉM DA BOTA!
   É sabido que na Grécia os sapateiros eram em grande número, ao passo que os Apeles não chegavam a meia dúzia. De facto, havia só um. Apliquem agora el cuento aos dias de hoje, e digam-se depois se não há por aí multidões de sapateiros (a maioria!) a dar sentenças deliberativas e cominatórias aos raros Apeles que pensam e agem em nome de algo que está acima das botas!
[JRM, 8/2/1977]

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Aforismos & desaforismos de Aparício

Há bem cinquenta anos, encontrei num night club europeu a amiga russa dum qualquer adido diplomático português, mulher culta, que me disse: «Quando saí da Rússia passei alguns meses em Lisboa. Gostei muito da gente. Queria lá ficar. Mas os fados que ouvia, sobretudo de noite, nas ruas vizinhas, davam-me uma tal melancolia, uma tão grande nostalgia da Rússia, que não tive remédio senão fugir para Madrid...» Sim, melancolia, nostalgia. Mas o autêntico Fado (esqueçamos o das boîtes para turista ver e ouvir!) tinha mais do que isso: um tom «marinheiro» de provocação ou desafio, que veiculava (inconscientemente talvez para o próprio cantor, e decerto para os «intelectuais» e os estrangeiros que o escutavam) o sofrimento, a condenação e o anseio de revolta do povo português contra um «destino histórico» que buscava remédio.
«Que é feito de Ivan!» «Ivan? Ivan Ivanished!» (He vanished – sumiu-se. Com perdão do inglês...)
[JRM, 4/2/1977]

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Aforismos & desaforismos de Aparício

A cultura dos muito lidos (ou como acumulação de leituras) assemelha-se à gastronomia dos empanzinados de iguarias escolhidas. É um privilégio e um ócio perdido.
Não me escrevam cartas! Não esperem carta minha! Tudo o que eu tenho a dizer – não: o pouco que me é dado escrever – ponho-o nestas desalinhadas prosas. O resto, que é o muito, seria tão gritantemente pessoal, tão penoso e pungente que levantaria as pedras da calçada!
[JRM, 4/2/1977]

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Aforismos & desaforismos de Aparício

Há mais cultura (isto é, carácter, forma ou estrutura mental) neste camponês iletrado da meseta ibérica do que em sete sábios de livraria ou de lombada.
Nos últimos tempos da sua vida, que foram de grave crise de autojuízo, interrogado sobre o futuro da sua obra, António Sérgio teria respondido: «A minha obra só me interessa na medida em que eu a devia rever toda.» O que já lhe não era possível. 
[JRM, 4/2/1977]

domingo, 20 de novembro de 2011

Aforismos & desaforismos de Aparício

• Fugir, sim, deste mundo empolgante e insensato, ou de algo de mais fundo, para outro mundo, alheio, um não-mundo onde lhe fosse possível viver como não-pessoa... [JRM, 25/1/1977]

quinta-feira, 21 de julho de 2011

“Tablóides” – 21 de Junho de 1976

• Como as autoridades lhe proibiram usar, para uma colecção de Erótica, o título geral de A Novela Pornográfica, o nosso Herodias resolveu modificá-lo para A NOVEAL ORA-PORNOBIS  que ofende o latim e o sentimento religioso, mas lhe permite vender a mercadoria com bastante lucro.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

“Tablóides” – 20 de Junho de 1976

• Este casalinho lisboeta, de «boa» família, como não podia deixar de ser, chegado havia pouco a Nova Iorque, resolveu comprar fiado no luxuoso supermercado da esquina: «Temos de habituar estes gajos», dizia o marido, esperto e experto em calote. Encheu o cabaz de mercearias e, no fim, diz-lhe o gerente da loja: «Temos aqui uma continha em atraso, da semana passada.» «Estou à espera do cheque», torna o compatriota, «e para a semana, sem falta...» «Muito bem, quando tiver pago o atrasado voltaremos a fazer negócio!» E delicadamente tirou-lhe o pacote dos braços.
   Contraste da cultura!
• O mais estranho ou curioso do caso era que ele recusasse a si próprio o direito de envelhecer, que estava pronto a reconhecer aos outros  mesmo quando dez ou vinte anos mais novos que ele...
• Vico (1668-1774), o famoso filósofo napolitano (Ciência Nova, Princípios da Filosofia da História, etc.), aprendeu o latim pela gramática de um padre português, Gonçalves, se não erro. Quando voltaremos nós a ouvir dizer de um estrangeiro, sábio e criador, que tenha aprendido no livro de um português?

sexta-feira, 15 de julho de 2011

“Tablóides” – 14-15 de Junho de 1976

• O Poeta regressou, alta noite, a sua casa com dois copos a mais, meteu-se na cama nu e, às escuras, acendeu o cigarro e pôs-se a divagar, como era seu hábito. Teria adormecido? Viu-se de repente envolto em chamas. A cama ardia! Pulou ao chão e correu para a rua, alucinado, fumegante de atrozes queimaduras, a gritar: «Eu sou Prometeu! Roubei o fogo sagrado dos deuses! Sou a Fénix imortal das próprias cinzas renascida!» Levado com mil cautelas ao hospital, faleceu pouco depois, famoso, mas inédito. Ao invés de Camões, que, segundo a lenda, salvou do naufrágio, a nado, o seu Poema imortal, ele não pôde salvar do fogo a sua obra, que estava metida no colchão e ardeu com este.