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sábado, 26 de janeiro de 2013

DIAS COMUNS de José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira nasceu no Porto a 9 de Julho de 1900. Licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa, exerceu o cargo de cônsul de Portugal na Noruega, de onde voltou em 1930. Regressado a Portugal dedicou-se ao jornalismo e à escrita.
Poeta e ficcionista, é um dos grandes nomes das letras portuguesas.
Faleceu em Lisboa, em 1985.
Proximamente, passarei a transcrever também o 1.º Diário, os DIAS COMUNS - I. PASSOS EFÉMEROS, iniciado em 1 de Outubro de 1965.
Proximamente, será divulgado o sexto e último volume dos Dias Comuns - Memória Possível.

[1968], 22 de novembro

O João José (Cochofel), no Café do Sr. Cunha:
O Namora, o Rebelo, o Palla e Carmo e o David Mourão-Ferreira foram recebidos pelo Marcelo numa entrevista que teve momentos tempestuosos de discussão taco a taco. Sobretudo quando se tratou da Censura – que o Marcelo desculpou com o argumento da sua existência em todos os países do mundo. – Além disso – acrescentou – em Portugal só se censuravam e proibiam obras subversivas ou que ofendessem a moral pública. Nunca por motivos políticos.
A primeira parte da defesa rebateu-a o Namora facilmente com os exemplos óbvios dos nossos parceiros na Nato: Inglaterra, França, etc. Quanto à segunda parte lembrou dois casos: a proibição do livro de Luandino Vieira, que não era subversivo nem amoral, e a de O Barão, adaptação teatral de Sttau Monteiro da novela de Branquinho da Fonseca. “Tenhamos a coragem de dizer que esta última peça foi proibida apenas porque o antigo Presidente do Conselho não gostava do autor.” O Marcelo calou-se, não sem que dissesse primeiro, com acrimónia, que os escritores eram uns seres impossíveis que não cediam a coisa alguma.
“É essa a nossa missão”, responderam. E então, por fim, o Marcelo confidenciou-lhes que não tinha gente que o ajudasse… “Nem para substituir os governadores civis!...” 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

[1968], 14 de novembro

O Redol enviou-me os Avieiros, reescritos recentemente com carinho de querer salvar do naufrágio um sonho velho. Desfolhei-o e, mais uma vez, senti esta verdade dominante na obra de Redol: o amor pelo povo-povo de pele verdadeira e suor real, bem diferente do que nós inventamos para os nossos livros pequeno-burgueses.
Basta ler-lhe uma página para se perceber logo que conviveu intimamente com os camponeses, não se enojou com o cheiro a carne de trabalho das carruagens de 3.ª classe, bebeu pelos copos das tabernas da malta, comeu do mesmo alguidar comum dos ganhões.
Isto é: Redol conhece-os em profundidade suficiente para poder dá-los como ninguém em superfície. Artisticamente falha, claro. Muitas vezes. (Não tem o sortilégio nem o talento literário de um Carlos de Oliveira ou de um Manuel da Fonseca.) E ninguém lhe poupa as fraquezas – como se provou quando lhe negaram o prémio Camilo Castelo Branco ao seu notabilíssimo romance Barranco de Cegos

domingo, 20 de janeiro de 2013

[1968], 7 de novembro

Ontem, dia de aniversário da Gi Nemésio, lá nos reunimos todos-os-do-costume no 6.º andar da Avenida de Roma. Para só falar de literatos: o Cochofel, o Fafe e o Vitorino Nemésio… Sim, o malandro do Nemésio que, conforme verifiquei com avidez de olhos de inveja, continua a usar uma magnífica cabeleira preta.
– Não pintará o cabelo? – pergunto, insidioso.
– Não, não… – garantem-me.
– Não tem um cabelo branco.
Inclino-me, desconfiado e contrafeito. Como é possível que eu, com a mesma idade, tenha os cabelos totalmente brancos – de lua descida? E ele…
Então, para me confortar, desabafo de mim para mim, com este calorzinho tão consolador da vaidade:
– Pois sim. Mas não sou surdo… Ao passo que o Nemésio é surdo como uma porta dum palácio habitado por fantasmas. 

sábado, 19 de janeiro de 2013

[1968], 5 de novembro

De vez em quando, sangrento de crimes cometidos e por cometer, chamo-me pulha, bandido, miserável, indigno, infame, hediondo… Mas – coisa curiosa! – depois deste jogo de insultos ao espelho, em vez de me sentir envergonhado de tanta miséria podre, fico pelo contrário mais leve, perdoado – como os católicos depois da confissão… Que sou eu, no fim de contas, senão uma espécie de católico agnóstico? 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

[1968], 26 de outubro

Ao passo que vou envelhecendo, vou sentindo cada vez mais a tentação de não aturar padres… Sejam eles medianeiros, fiscais, pregadores de céus velhos ou de mundos novos… Padres religiosos ou ateus… Padres… Bocas de musgo vaidoso. Limitadores de liberdade. (Obsessão.) 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

[1968], 25 de outubro

Nos grupos de amigos acontece muitas vezes que um deles mostra tendência para sacerdote… E insensivelmente passa a influir, por fiscalização involuntária, nas ações e pensamentos dos restantes componentes do grupo. Das formas que conheço de coartar a liberdade, é a que mais odeio, porque se exerce geralmente em nome de um sentimento que não merece caricatura: a fraternidade.
. . .
Uma nota oficiosa da PIDE comunica ao mundo que um estudante preso sob a acusação de pertencer à LUAR morreu… de asma! Digam-me: é possível que alguém acredite que o pobre Daniel Joaquim Campos de Sousa Teixeira, aluno da Universidade Católica de Lovaina, tenha morrido de asma sem o auxílio substancial da tortura do sono?
. . .
Arrepio trágico:
Passaram dois meses sem que ninguém visse os presos da LUAR. Corre com insistência que o Palma, chefe do grupo, apareceu enforcado… 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

[1968], 15 de outubro


Eis a frase que anda na boca de toda a gente a respeito do Marcelo:
– É o administrador da falência.
É uma daquelas gracinhas que toda a gente inventou ao mesmo tempo.
. . .
Contou-me o meu irmão que as misturas com que a Sr.a Maria alimenta o Salazar através dos tubos são feitas com água de Fátima.
Também já lhe levaram para o quarto várias relíquias de santos.
Um certo setor ainda espera o milagre de vê-lo levantar do leito e expulsar os vendilhões da Pátria. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

[1968], 29 de setembro

De manhã cedo, através da porta entreaberta do quarto, surgiu a cabeça metediça da Maria, a informar-nos:
– Afinal, o velho não morreu… Ouvi agora a Emissora.
Parece que vendeu mas está em crise…
E fechou o suspiro com a frase habitual:
– É feito da pele do diabo!
. . .
Durante a sua oposição tática, para se apoderar da Presidência do Conselho assim que o Salazar morresse, o Marcello foi muitas vezes obrigado a tomar atitudes que possivelmente no futuro lhe criarão alguns amargos de boca. A extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores, por exemplo, não mereceu a aprovação incondicional do atual Presidente do Conselho. Chegou até a manifestar-nos a sua solidariedade. O mais teórico possível, claro. Pois quando lhe pedimos que assinasse o nosso protesto, furtou-se com um cartão ao David Mourão-Ferreira. Desse cartão recordo-me que constava esta frase: “Não é com vinagre que se apanham moscas.”
Não. É com gestos doces. Preparemo-nos, pois, para gramar uma ditadura de açúcar – que acabará por nos enjoar a todos. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

[1968], 27 de setembro

No Café, deixei desfiar de pérolas de fumo:
– Apesar de tudo, custa-me a crer que o Marcelo despreze a grande zona da opinião pública intelectual e pequeno-burguesa, que se opõe ao regime, e não tente sequer conquista-la com ilusões. É o único toque que poderia dar novidade e abertura ao seu consulado…
. . .
Mas no discurso inicial pouco tempo perdeu connosco, claro. Nem admira, preocupado com a vigilância do Argus dos mil olhos dos “ultras”. Falou, sobretudo, para essa gente desejosa de escutar os chavões tranquilizadores do costume, que ele utilizou como quem recapitula lugares-comuns necessários: o “génio” do Moribundo, a continuação da guerra em África, o olho posto nos perturbadores da retaguarda e a defesa da Ordem pública para gozo das “pessoas honestas”, sem esquecer a inevitável condenação do comunismo, “sepultura da liberdade dos Indivíduos”, etc.
E só, em certa altura, para nos passar um vago sabor a mel na boca, se referiu timidamente a “algumas liberdades que se desejaria ver restauradas” (portanto, independentemente suprimidas, ou não?)…
Por enquanto, a subida ao trono de Marcello Caetano trouxe-nos apenas esta vantagem (e não pequena, sejamos justos): o desaparecimento de cena do sinistro Paulo Rodrigues, fascista-nazi de costumes dúbios que, à sombra do ex-primeiro Ministro meio gágá, e sob o pretexto de defender a retaguarda (talvez para consolo da própria “retaguarda”), impunha uma censura infame a todas as manifestações de espírito: teatro, cinema, literatura, jornalismo… Com a supressão desse bistre, vai poder respirar-se se um pouco mais. Não muito, talvez. Mas imenso, para quem vivia com os lábios “por lei cosidos na face”.
. . .
Agora mesmo, sintonizei por acaso a estação clandestina “Portugal Livre” (oriunda de Praga, suponho), onde uma rapariga com voz de exaltação quase histérica incitava aos gritos os portugueses a virem para a rua combater, lutar, morrer, construir barricadas…
Mas isto é connosco? – perguntei a mim mesmo, pasmado com esses heroicos revolucionários emigrados que ignoram o facto comezinho da despolitização geral do nosso povo, que não quer bater-se por coisa nenhuma.
Liberdade, sim – mas oferecida numa bandeja. E mesmo assim com a condição de saber a tirania disfarçada!

sábado, 12 de janeiro de 2013

1968, 26 de setembro

Hoje, dia histórico.
Às 9.30 da noite o Presidente da República, com voz aos tropeços nos soluços, anunciou a exoneração do Salazar e o advento do Marcelo à Presidência do Conselho. E assim o Carmona III nomeou o Salazar II.