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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Coimbra, 25 de Outubro de 1980

Coimbra, 25 de Outubro de 1980 – Entrei no autocarro e, quando ia a comprar o bilhete, o cobrador mandou-me passar adiante. Obedeci e sentei-me, intrigado. O homem, se calhar, recebera de mim algum favor clínico e queria corresponder assim. O que eu não podia consentir de maneira nenhuma. E resolvi teimar. Só que, mal fiz menção de me erguer, alguém disse a meu lado:
– Hoje é o dia dos velhos...
E fiquei esclarecido.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Óbidos, 19 de Outubro de 1980

Óbidos, 19 de Outubro de 1980 – Sabe bem passar algumas horas nestas terras bonitas e preservadas de Portugal. Tem-se a impressão de que estamos a viver no tempo sedimentado da pátria, em coerência intima com tudo o que nos rodeia – pessoas, ruas, casas, monumentos. Que, anonimamente, fazemos parte de um grande retábulo mágico, onde os figurantes se movem sem alterar a composição.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Coimbra, 17 de Outubro de 1980

Coimbra, 17 de Outubro de 1980 – Curvada e encarquilhada, cuidei que a trazia a esperança de que lhe desse qualquer alento à velhice. Mas não. Andava a preparar-se para morrer e vinha liquidar uma consulta que tinha em débito há mais de quarenta anos. Nunca pudera pagar-me. Mas agora, que a vida dera uma volta...
Esquecido dela e da dívida, tentei de todas as maneiras dissuadi-la do propósito. Nada consegui.
– É que nem sequer me lembro!
– Lembro-me eu. E quem vai prestar contas a Deus não é vossemecê...
– Ele não trata dessas ninharias...
– Trata de tudo o que esteja na nossa consciência.
E não tive remédio senão aceitar os vinte escudos de então, a invejar aquela alma simples que se podia desobrigar com tão pouco. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

S. Martinho de Anta, 8 de Outubro de 1980

S. Martinho de Anta, 8 de Outubro de 1980 Homem de muitas letras, não sei se suspeitoso de que a flagrância do natural fique sempre aquém da literatura que o reflecte, quis ver para crer. E veio de Paris passear a suspicácia cartesiana nesta realidade agreste que pintei nos livros e agora lhe escancarei sem a mediação das palavras. Creio que regressa rendido e que leva que contar. A serra, de tão celta, parecia enfeitiçada; o Doiro, pasmado aos pés de S. Leonardo, era um espelho de eternidade; e o roncão que bebeu nunca mais lhe vai sair do paladar. Nisso, ninguém me bate. Quando aqui recebo alguém, sou um anfitrião de êxito seguro. Graças aos recursos em que este chão é pródigo, os meus hóspedes partem duplamente obsequiados. Fascino-lhes os sentidos e embriago-lhes a memória.

sábado, 29 de setembro de 2012

Coimbra, 29 de Setembro de 1980

Coimbra, 29 de Setembro de 1980 – Mais uma campanha eleitoral. Mais um aturdimento retórico e falacioso de ponta a ponta de Portugal. Não há praça sem alto-falante, rua sem bandeira, parede sem cartaz, poste ou tronco de árvore sem símbolo partidário. A televisão e a rádio não dão tréguas aos olhos e aos ouvidos. E os jornais vêm cheios de discursos para todas as paixões. É um derrame de palavras a que nenhum fastio se pode esquivar e em que no fundo ninguém acredita, de tal modo é flagrante a sua inautenticidade. Mas a projecção do amordaçamento passado e traumatismos ainda recentes juntam-se no retraimento colectivo. E a euforia prosélita, sem cuidar dessas feridas, entende a passividade circundante como simpatia. Não há facção, por insignificante que seja, que não celebre antecipadamente o triunfo. Reduzidos a um chorrilho de estribilhos, os programas mais antagónicos parecem iguais na obsessão sonora. O sonho primaveril de um país renascido, lúcido, saudavelmente apostado em dignificar os seus padrões de liberdade, sem confundir a abertura de espírito com a ausência de critério, deu nisto: a tirania silenciosa de outrora a vingar-se na demagogia ruidosa de agora. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

S. Martinho de Anta, 27 de Setembro de 1980


QUIETUDE

Que poema de paz agora me apetece!
Sereno,
Transparente,
A sugerir somente
Um rio já cansado de correr,
Um doce entardecer,
Um fim de sementeira.
Versos como cordeiros a pastar,
Sem o meu nome, em baixo, a recordar
Os outros que cantei a vida inteira. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

S. Martinho de Anta, 26 de Setembro de 1980

        S. Martinho de Anta, 26 de Setembro de 1980 – Apanha da fruta. É dos poucos gostos que ainda tenho na vida. Trepar por elas acima e fazer prodígios de equilíbrio na crista das macieiras e pereiras. Volto de repente à infância, mas agora a depenar cada pernada sem medo que o dono do pomar me venha puxar as orelhas. 

domingo, 23 de setembro de 2012

S. Martinho de Anta, 23 de Setembro de 1980

S. Martinho de Anta, 23 de Setembro de 1980 – A aflição de ver fugir o tempo quando necessitamos dele para levar a cabo a tarefa de o perpetuar! 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

S. Martinho de Anta, 17 de Setembro de 1980

S. Martinho de Anta, 17 de Setembro de 1980 – Ao alargar-me os horizontes do mundo, com necessidades de toda a ordem a que já não posso renunciar, a vida fez de mim um ser ubíquo. Tenho aqui as raízes de suporte e lá longe as pastadeiras…

domingo, 16 de setembro de 2012

S. Martinho de Anta, 16 de Setembro de 1980

S. Martinho de Anta, 16 de Setembro de 1980 – Começo a desconfiar da paz que aqui sinto. Dantes não era tanta…

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Chaves, 4 de Setembro de 1980


Chaves, 4 de Setembro de 1980 – Bem gostava de o ouvir com outros ouvidos e acreditar nas suas apreciações generosas. Mas não. Infelizmente, em matéria literária, ninguém me pode dar segurança. Insegurança, sim. Agora tirar-me deste inferno em que me deixa cada obra editada, só a morte. A publicação de um livro é um jogo em que o autor se arrisca eternamente numa roleta diabólica, sem nunca chegar a saber se ganhou ou perdeu. E como precisamente desafio neste momento, mais uma vez, os azares do prelo, é já esse sentimento de réu em perpétuo julgado que me dilacera. Cada palavra propícia que eventualmente chega até mim, em vez de consolo, dá-me a impressão de ficar com a sorte agravada. À mercê do futuro e empenhado ao presente.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Funchal, 31 de Agosto de 1980

Funchal, 31 de Agosto de 1980 – Acabaram-se os sete dias de sortilégio. Antes de partir, encho os olhos até onde posso desta realidade geológica que tanto me faz lembrar o meu Doiro amado, pela graça suplementar da cultura que foi acrescentada à beleza silvestre. Aqui como lá, a mão laboriosa soube humanizar a rude paisagem natural sem a desfigurar. O que era majestoso e belo de origem, ficou ainda mais majestoso e belo depois de granjeado.
Já quase esquecido dos tapetes persas que pisei com pés de caçador, dos criados portugueses que só queriam entender inglês, da futilidade dos casinos e do folclorismo turístico, é o milagre dos abismos povoados, das levas de água conduzidas, das grandes ravinas amanhadas que levo na retina maravilhada e agradecida à tenacidade epopeica de irmãos de sangue que transformaram, e continuam a transformar dia a dia, uma ilha de lava convulsionada num presépio de vida florido de esperança.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cabo Girão, 30 de Agosto de 1980.


ATLANTES

Teve de se afundar um continente
Para que um dos seus cumes,
Magicamente emerso,
Fosse por nós achado,
Loucos descobridores
De terras que faltavam
Na imaginação.
Povoámo-lo, então,
Da nossa portuguesa
Vitalidade,
A renovar presenças do passado.
E agora, alcandorados
Nesta gávea de pedra,
A navegar parados,
Perguntamos ao mar
E aos pontos cardeais
Se seremos gigantes encantados
Em homens naturais.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Porto Moniz, 29 de Agosto de 1980

Porto Moniz, 29 de Agosto de 1980 – Lembrar-me eu que poderia ter morrido sem conhecer os caminhos de assombro que vêm dar a esta terra! E pensar depois que é quase certo que nunca mais os tornarei a ver… 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Pico do Areeiro, 28 de Agosto de 1980

Pico do Areeiro, 28 de Agosto de 1980 – A Madeira que eu amo verdadeiramente, que não me canso de admirar, que não tem comparação com outra qualquer realidade geográfica minha conhecida. Que se não deixou corromper por nenhum turismo, que se mantém ciclópica, abissal, rebeldemente estéril e inacessível. Que transmite aos sentidos o espanto e o calafrio que despertam as coisas primordiais. Que não cabe nos olhos que a vêem e nas palavras que a descrevem. Que é uma espécie de alucinação da natureza.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Funchal, 27 de Agosto de 1980

Funchal, 27 de Agosto de 1980 – Felizes, estes ingleses. Conseguem ter a arte de se instalar e estar sempre de visita nos melhores sítios do mundo.

domingo, 26 de agosto de 2012

Eira do Serrado, Curral das Freiras, 26 de Agosto de 1980


Eira do Serrado, Curral das Freiras, 26 de Agosto de 1980 – Escreveu Nietzsche que para amar o abismo é preciso ter asas. Eu diria que basta apenas ser homem. Mas madeirense…

sábado, 25 de agosto de 2012

Funchal, 25 de Agosto de 1980

Funchal, 25 de Agosto de 1980 – Cá estou de novo, depois dum salto que juntou numa só duas aflições. A que sentia no Algarve e a que sinto aqui. Guardião mico da identidade nacional, padeço tormentos sempre que a vejo ameaçada. E em ambos os sítios isso acontece. Chega a meter raiva. Nos lugares cosmopolitas lá de fora, nenhuma invasão estrangeira altera o perfil nativo. Veneza é a mais italiana das terras italianas. Nas nossas estâncias turísticas, pelo contrário, o alheio sobrepõe-se de tal modo ao caseiro que o configura. É um mimetismo trágico, que nos põe a falar, a pensar e a sentir como o invasor. Sei que há uma eternidade na criatura para além de todas as circunstâncias exógenas. Os pescadores de Câmara de Lobos ou de Lagos, como tais, hão-de ter sempre a mesma têmpera de homens do mar. Mas gosto mais deles com os estigmas portugueses bem à vista. Dão-me outras garantias de irmandade.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Ilha de Armona, Olhão, 21 de Agosto de 1980

Ilha de Armona, Olhão, 21 de Agosto de 1980 – Não sei se haverá no mundo outro país tão pequeno como Portugal com tantos sítios remotos onde a solidão se possa refugiar. Redutos de areia ou de fraga que permitem a total nudez ao corpo e ao espírito, quando ambos precisam da mais ilimitada liberdade e do mais íntimo recato. Lugares que, além de propiciatoriamente isolados, são ainda excepções à lei agressiva da natureza. De tal modo isentos panoramicamente, que parece não darem sequer pela nossa presença.

domingo, 19 de agosto de 2012

Praia da Rocha, 19 de Agosto de 1980

Praia da Rocha, 19 de Agosto de 1980 – O difícil, num diálogo com a juventude, é manter o fiel da balança no equilíbrio exacto. Nem dar de mais nem de menos. Nem ficar credor nem devedor. Compreender os seus valores, que tem na conta de serem os únicos admissíveis, sem renegar os nossos, a que estamos também logicamente atados de pés e mãos, mesmo que nos roa já algum cepticismo. E como ela não cede e nós não podemos ceder, sob pena de ficarmos sem pé na vida – e até sujeitos a desprezos suplementares –, a conversa tem de ser uma obra-prima de sinceridade e de cautela. De um lado, uma enfiada de terminantes pontos finais; do outro, um rosário de pacientes reticências…