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terça-feira, 8 de abril de 2014

Coimbra, 8 de Abril de 1981.

  
SONAMBULISMO

Não me perguntem pela alma, agora,
Que não sei responder.
Mesmo o poema tem de ser sucinto.
Nestes dias assim,
Baços, horizontais,
Em que a terra é de cinza e o céu de fumo,
Ou a vida me mente,
Ou eu lhe minto.
Sofro como que ausente
Da própria dor que sinto.

Miguel Torga

terça-feira, 11 de março de 2014

LUTA


O que eu sonho!
A fé que ponho
Na imaginação!
Digo à razão
Que sim, que desvario
Nesta humana aventura,
E ergo mais a lança em desafio
E desço mais o elmo da loucura.

Nada conquisto, porque são moinhos
Os gigantes que encontro nos caminhos
Das minhas digressões.
Mas combato,
Combato
E desbarato
As próprias ilusões.

Coimbra, 11 de Março de 1981.
DIÁRIO (XIII), Miguel Torga

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Coimbra, 27 de Dezembro de 1977.


SÍSIFO

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, DIÁRIO (XIII)

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1977

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1977 – A braços com os meus fantasmas, que nunca deixam de estar presentes nesta data, vou atiçando o lume na lareira. É meu Pai, é minha Mãe, é meu Avô… Estão sentados a meu lado, calados, num recolhimento letal. Vieram porque eu vim, e como há muito me disseram tudo o quem tinha a dizer, fazem-me apenas companhia. É uma consoada suplementar, consecutiva à outra, mas silenciosa e abstinente, de que não compartilha o resto da família, que já dorme. A noite é comprida, e nenhum de nós tem pressa. E vamos deixando correr as horas sacrais, à espera da luz da manhã. Nela, eles regressarão discretamente ao mundo tranquilo dos mortos e eu acordarei estremunhado no mundo inquietante dos vivos. Até que outro Natal nos junte de novo, aqui ainda, unidos pela minha memória, ou lá onde os imagino lembrados de mim no eterno esquecimento.
Miguel Torga, DIÁRIO (XIII)

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Coimbra, 8 de Julho de 1977.


VOZ ACTIVA

Canta, poeta, canta!
Violenta o silêncio conformado.
Cega com outra luz a luz do dia.
Desassossega o mundo sossegado.
Ensina a cada alma a sua rebeldia.


Miguel Torga

sábado, 30 de março de 2013

Coimbra, 30 de Março de 1981

A Árvore dos Tamancos, um filme italiano que podia e devia ser rodado em Portugal. Também entre nós existem ainda mundos rurais miraculosamente intactos, à espera de uma objectiva que os perpetue antes que desapareçam de vez na voragem do progresso. Mundos de humanidade, de imaginação, de pobreza, de injustiça e de lirismo, que mais tarde será preciso reconstituir para se saber que os houve, e que agora bastaria retratar escrupulosamente, sem retoques, como fez o realizador transalpino. Cingir-se à realidade e mostrá-la ao natural, palpitante, viva, cada personagem a ser, em vez de se representar. Mas quem nesta terra lusitana tem olhos virginais para ver o virginal? Aqui, apenas os poetas são capazes dessa pureza. Só eles atentam pu1cramente na nossa fisionomia individual e colectiva. Mas fazem-no metaforicamente, por sínteses desgarradas que, sendo relâmpagos de claridade, quase sempre deslumbram mais do que iluminam.
Miguel Torga

segunda-feira, 11 de março de 2013

Coimbra, 11 de Março de 1981


                                       LUTA


O que eu sonho!
A fé que ponho
Na imaginação!
Digo à razão
Que sim, que desvario
Nesta humana aventura,
E ergo mais a lança em desafio
E desço mais o elmo da loucura.

Nada conquisto, porque são moinhos
Os gigantes que encontro nos caminhos
Das minhas digressões.
Mas combato,
Combato
E desbarato
As próprias ilusões.
Miguel Torga

domingo, 10 de março de 2013

Lisboa, 10 de Março de 1981


O destino não me dá tréguas. Aqui fica a espada de pau com que o enfrentei mais uma vez.

«Quando fui informado de que o júri do prémio Montaigne me tinha atribuído o galardão fiquei em pânico. E ainda estou. Pela distinção em si e pelo nome que a tutela.
Receber um prémio é sempre um risco. Ou porque se não merece ou porque é muito difícil saber recebê-lo. Mas se ele é outorgado sob a égide do autor glorioso dos Ensaios, o caso torna-se ainda mais delicado. Montaigne foi um grande senhor do espírito, um dos divinos do renascimento, o mais paradigmático dos fundadores do pensamento moderno, que nele encontra o modelo de um incansável esforço de objectividade crítica. E o laureado de hoje é um atribulado poeta que, em vez de se recrear, isolado numa torre de marfim, a reflectir ociosamente sobre os mistérios da alma em longas análises sábias e cépticas, teve de pagar à vida todos os tributos e de lhe prestar contas, em cada página, dos passos rebeldes que deu. Daí a ironia perturbante desta hora que, apesar de lisonjeira, me não deixa em paz. É inseguro e confuso que aqui estou, obrigado por uma decisão que só acatei na medida em que me transcendia. Humilde servidor da literatura portuguesa, é sempre ela que me condiciona nestes momentos cruciais. Credora, pela sua riqueza singular, de uma atenção mais demorada e profunda da curiosidade do mundo, nunca me perdoaria se de alguma maneira contrariasse qualquer sinal de apreço que, mesmo através dos meus versos, ele lhe quisesse testemunhar. É minha velha convicção de que a cultura universal tem de ser o somatório de todas as culturas nacionais. E que basta que falte uma parcela na adição para que a conta esteja errada. Foi, de resto, Montaigne que assim no-lo ensinou, redigindo a sua obra monumental no idioma materno, ele que o aprendera só depois de conhecer o latim cosmopolita. A França primeiro, e o orbe depois. O geral, sim, mas a partir do particular. Ora o particular lusitano tem sido lamentavelmente ignorado, e génios seus, que podiam alargar a polifonia planetária, ou são meramente conhecidos de nome, ou nem isso. O próprio Camões merecia melhor sorte do que ser apenas lembrado em toda a Europa letrada por ocasião da efeméride multissecular da sua morte. Contemporâneo, neste extremo do Ocidente, do humanista gaulês, foi como ele uma consciência pioneira da imagem restaurada do homem universal. Acrescentando ao convívio erudito dos clássicos um saber de experiência feito, deixou-nos também o testemunho, decerto menos sereno, mas por isso mesmo mais patético, do fluxo e refluxo das paixões que fazem de cada criatura uma encruzilhada de perplexidades. Ambos legitimaram a originalidade da sua arte no culto da tradição greco-latina, que foi o esplendor matinal da nossa civilização. Mas enquanto que um é uma presença viva em qualquer latitude da inquietação intelectual, o outro, nessas mesmas paragens, está reduzido a um registo identificador nas folhas tumulares das enciclopédias. É, pois, movido por um indeclinável sentimento de dever que mais uma vez me submeto à dura prova de representar a voz criadora da língua pátria, enquanto ela não é ouvida em toda a sua plenitude. No caso presente, embora a responsabilidade seja pesada demais para os meus ombros, ajuda-me uma circunstância feliz. O patrono da honra que me é concedida amava, como deixou dito, l’allure poétique à sauts et gambades. Era também poeta à sua maneira. E essa particularidade do seu estio sossega-me um pouco. Ao fim e ao cabo, os poetas, grandes ou pequenos, estão sempre bem uns ao pé dos outros. Com mais ou menos sede, todos bebem nas mesmas fontes primordiais. E todos comungam na alegria de saber que nunca faltará quem vele pela pureza das nascentes e que sem a frescura limpa das suas águas não haveria vida nem esperança à tona árida dos tempos».
Miguel Torga

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Coimbra, 28 de Fevereiro de 1981

Há ocasiões em que os sentimentos valem como argumentos. E ca1ei-o assim: sabia perfeitamente que a liberdade não é a mola real do homem. Que outras forças mais poderosas o solicitam a todo o instante. O fanatismo religioso, os mecanismos económicos ou as paixões políticas, por exemplo. Que não ignorava a que extremos de servidão podem chegar nações inteiras, cegas pela fé ou rendidas a qualquer ideologia. Que a ideia de que a liberdade é uma força incoercível tem muito de romântico. Simplesmente acontecia que tal romantismo, mesmo exautorado, nunca deixou de fazer frente à opressão, até quando tudo parece perdido. E é essa vontade insofrível de quebrar todas as cadeias que desde rapaz sinto também no âmago da alma, embora tristemente convencido pela dura experiência da vida que este baixo mundo de ilusões não passa de uma redonda clausura. 
Miguel Torga

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Coimbra, 26 de Fevereiro de 1981

O Sexto Dia da Criação do Mundo finalmente nas montras. Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo! Era com estas palavras que meu Pai despegava das leiras, e não encontro outras mais apropriadas para esta hora. O Velho, como um Job do enxadão, crente e resignado, enxugava o suor da jorna a exaltar o Altíssimo; eu, Job da caneta, descrente e rebelde, imito-lhe a exclamação a dar apenas voz tutelar ao alívio que sinto. Acabei a longa vessada da minha vida. E quero que seja o honrado exemplo progenitor, assim trazido à lembrança, a autenticar a penitência que cumpri de ter metido setenta anos de sofrimento em mil páginas de disciplina.
Miguel Torga