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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1976

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1976 – São tantas da noite. Sentado à lareira, com o rádio aberto a transmitir os gorjeios de uma senhora que me parecem um comentário escarninho ao que escrevo, medito na minha vida, cada vez mais perto do fim. O que fiz e não fiz, o peso que tiveram em tudo quanto realizei literariamente, e até humanamente, esta paisagem e as sombras que a habitam, a distância a que fiquei da meta que me propus ou que as circunstâncias me iam propondo, a luta que travei para ser convivente até ao limite da dignidade, e como foram catastróficos certos desfechos afectivos. Poucos quiseram compreender que um poeta nem pode deixar de ser rebelde, nem ceder à tentação de se ver transformado em bandeira. Que o seu destino não é sentir-se identificado. Mas que, embora isolado do semelhante, não está obrigatoriamente separado dele. E que, faça o que fizer, fica sempre fora da expectativa dos outros e da sua própria. Tão desencontrado consigo mesmo, que só se encontra para se perder ainda mais.
E, a pôr destas achas na fogueira, aqui estou à espera que o Menino Jesus nasça e que o seu divino desamparo dê lenitivo ao meu. Só que ele tem mil Natais para recomeçar. E eu não.

DIÁRIO (XII), Miguel Torga

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1975.


NATAL

Outro Natal.
Outra comprida noite
De consoada,
Fria,
Vazia,
Bonita só de ser imaginada.

Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve,
Recitado
Pela neve
A cair, ao de leve,
No telhado.

Miguel Torga: DIÁRIO (XII)

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1973.


NATAL

Todos os anos, nesta data exacta,
Momentos antes
De fechar o cartório
De poeta
– Um registo civil ultra-real –,
O mago desse arquivo de presságios
Regista de antemão o mesmo nome
No seu livro de assentos:
– Jesus… – repete com melancolia,
A consumar a morte prematura
Do nascituro,
E a lamentar que a mãe, Virgem Maria,
Humana criatura,
Continue a ter filhos no futuro
Condenados à mesma desventura.

Miguel Torga, DIÁRIO (XII) 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Coimbra, 10 de Julho de 1975

Como o homem seria desgraçado se não tivesse o dom maravilhoso de imaginar, de fantasiar, de sonhar! O que teria sido de mim se todo eu estivesse amarrado a este quotidiano doméstico e social! Mas não. Desde criança que sei que há um reduto inexpugnável: a clandestinidade do espírito.

Miguel Torga

Coimbra, 10 de Julho de 1974

O afinco com que esta civilização se quer desacreditar e destruir! Envergonhada, no fundo, da consciência que tem dos próprios pergaminhos, morbidamente apostada na denúncia casuística das suas motivações originais, tanto se desmitificou, tanta psicanálise fez de si, que acabou por ficar sem mitos, sem crenças, sem valores e sem pé na vida.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Coimbra, 9 de Julho de 1975


EXPECTAÇÃO

Devolvo à tarde triste a luz que me entristece,
E vou entristecendo
O largo,
O rio,
O campo
E, mais além, a linha do horizonte.
Mas repreendo os olhos e regresso
À página vazia
Onde, possesso,
Aguardo que desponte
A luz de um novo dia.

Um dia alegre,
Limpo,
Singular,
De nenhuma semana,
De nenhum mês,
De nenhum ano,
Miraculosamente amanhecido
Nas sílabas de um verso enfeitiçado,
A ressoar, medido e desmedido,
Na concha do ouvido
Deslumbrado.

Miguel Torga

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Coimbra, 8 de Julho de 1974

É trágico ter de assumir este quotidiano pátrio condicionado por meia dúzia de primários. Morrer nas mãos de uns tantos que sacrificam o destino de todos a uma pirueta do seu pretenso destino.

domingo, 7 de julho de 2013

Coimbra, 7 de Julho de 1974


                        FALÊNCIA

Inicio o poema.
Mas não sei que dorido sentimento
Tolhe-me a inspiração.
Os beijos arrefecem
Na medida dos versos.
E os teus olhos parecem
Mortiços universos
Onde a vida agoniza.
Canto desencantado.
Ergo as velas à brisa
Num barco naufragado.


Carvoeiro, 7 de Julho de 1973

Carvoeiro, 7 de Julho de 1973 – Rondo por estas aldeias turísticas, invejo piscinas privadas, espreito jardins vedados, leio nomes estrangeiros à entrada das vivendas mais apetecidas, mas concluo com alívio que, afinal, os invasores não tomaram conta desta parcela da pátria, como certamente muitos julgam e eu temia. É em comunhão com os seus mortos, cercados pela mesma fronteira, que a comunidade dos vivos legitima a posse do território que povoa. E quantos dos que vieram expandir a mocidade ou aquecer a velhice ao nosso sol vão celebrar a um cemitério local o dia de finados?

Miguel Torga

sábado, 6 de julho de 2013

Coimbra, 6 de Julho de 1974

O Diário Íntimo de Manuel Laranjeira. E sinto remorsos de o ter depreciado quando da primeira leitura. Talvez que a idade me tenha tornado mais sensível àquela auto-crítica impiedosa, àquela lucidez inexorável, àquele desencanto total, àquele desespero sensual que só pode encontrar no suicídio não o seu paroxismo romântico, mas a sua redução existencial.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Carvoeiro, 5 de Julho de 1973

Carvoeiro, 5 de Julho de 1973 – Chego ao fim da vida sem saber ler correctamente à primeira vista o mais simples trecho do livro da natureza. Abre-se um panorama diante de mim, e o mais que consigo imediatamente é soletrá-lo. Só depois de muitas tentativas é que os olhos se habilitam a deslizar por ele sem tropeçar. Talvez porque entretanto entrou em cena um outro poder de apreensão: a força imperiosa da palavra. Um poeta vive em desequilíbrio enquanto a magia da letra não dá cobertura à lição dos sentidos. É a óptica do poema que organiza a paleta das percepções. Por isso, apenas quando começa a cantar começa a entender. Daí, certamente, essa minha lenta aprendizagem visual, e também o facto de nenhuma paisagem me cansar. Nunca consigo esgotá-la. O espanto renasce cada vez que um novo verso lhe revela uma nova aparência…

Miguel Torga

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Carvoeiro, 4 de Julho de 1973

Carvoeiro, 4 de Julho de 1973 – Não paro. As largas clareiras de silêncio, que parecem intervalos de sedentariedade nos meus dias, são apenas passadas que este diário não regista. No meu sangue há uma ancestralidade nómada pelo menos tão vigorosa como a atracção dos pólos nativo e adoptivo a que regresso sempre. É uma necessidade de caminhar, de devorar léguas, de conhecer terras, de perspectivar o mundo de todos os ângulos. Sinto-me bem a contemplar paisagens novas, a ouvir sotaques estranhos, a visitar monumentos ignorados. Tenho a impressão de ficar mais dentro da pele, mais de acordo comigo, mais senhor das minhas certezas. É como se cada horizonte, onde sou estranho, me devolvesse inteiro, despojado de todas as inevitáveis conivências que o hábito nos tece, virginalmente capaz de arriscar, sobre o que vejo, juízos tão temerários e irreprimíveis como declarações de amor.

Miguel Torga

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Miguel Torga, Coimbra, 3 de Julho de 1975

Coimbra, 3 de Julho de 1975 – Nunca li tantos jornais juntos na minha vida. Nem no tempo da Guerra Civil de Espanha e no da Mundial. Embora profundamente empenhado em cada lance dessas duas grandes tragédias, uma só gazeta da época punha-me ao corrente da situação. A carcaça dos factos era sempre a mesma, qualquer que fosse a agência noticiosa. Teruel conquistada ou um porta-aviões afundado não tinham duas versões. Além de que, por maior que fosse o meu interesse pelos acontecimentos, nem Teruel ficava em Portugal, nem o navio era português. Mas agora trata-se da pátria, da carne colectiva a que pertenço. E devoro carros de prosa diariamente, a mais contraditória e parcial, a vomitar as tripas quase sempre, mas sem arredar pé do tronco de tortura. E o pior é que não corro a maratona noticiosa à procura de vislumbrar qualquer milagre de salvação. Dou cabo dos olhos apenas na ânsia de encontrar uma desculpa que torne a vergonha menos dolorosa. Sou como aqueles doentes do coração que fazem electro-cardiogramas sucessivos, a ver se num deles não existem sinais de enfarte.

Miguel Torga

terça-feira, 2 de julho de 2013

Coimbra, 2 de Julho de 1974

Coimbra, 2 de Julho de 1974 – Não tenho paz. Rói-me não sei que desespero avesso a toda a consolação. As únicas horas suportáveis são aquelas em que espalho tinta no papel. Mas quando, à custa de esforços inauditos, acabo por escrever um livro, nem me sinto aliviado, nem o sinto meu. É como se todo aquele articulado fosse doutro entendimento, e todos aqueles gemidos fossem doutro penitente. Duplamente exilado dentro da realidade que sou e do acréscimo de realidade que criei, vejo-me desfigurado e opaco, igualmente fora de mim e da minha imagem estampada.

domingo, 30 de junho de 2013

Miguel Torga

S. Martinho de Anta, 30 de Junho de 1974 – Lá fui falar a Sabrosa, movido por um imperativo moral. No momento confuso que atravessamos, era um dever não fechar os ouvidos ao apelo que me vinha destes lados. Maldito seja quem se nega aos seus nas horas apertadas. Mas, enquanto arengava, por mais que iludisse os olhos, não consegui ressuscitar a figura inteiriça de meu pai e sentá-la entre os homens bons do concelho. E era ela que eu precisava que estivesse ali a ouvir-me, a aplaudir-me com as suas mãos terrosas ou a mandar-me calar. 

sábado, 29 de junho de 2013

Miguel Torga, Coimbra, 29 de Junho de 1974

Coimbra, 29 de Junho de 1974 – Como as pessoas são surdas e absurdas! Como são incapazes de entender ou pressentir o sofrimento dos outros, mesmo quando eles têm a franqueza e a fraqueza de se queixar! Poderia parecer que o desespero endémico da vida fosse uma razão suficiente de reciproca compreensão e solidariedade. Mas não. Até hoje, a humanidade ainda não criou nenhuma associação de angustiados. Nem podia. Porque, no fundo, a angústia é a íntima percepção da radical incomunicabilidade. 

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Miguel Torga, S. Martinho de Anta, 28 de Junho de 1976

S. Martinho de Anta, 28 de Junho de 1976 – Não tenho mão em mim. Trabalho excessivamente, sofro excessivamente, vivo excessivamente. Vou às do cabo em tudo, como se cada minuto fosse decisivo no meu destino. Durmo acordado, ando a galope, morro por antecipação. Vector de muitas forças, quando uma me trava, empurram-me as outras. E não tenho paz, não dou paz, nem quero paz. Sou um instrumento nas mãos de Deus, do diabo e da natureza. 

sábado, 22 de junho de 2013

Coimbra, 22 de Junho de 1977.


ESPERANÇA

Canto.
Mas o meu canto é triste.
Não sou capaz de nenhum outro, agora.
Em cada verso chora
Uma ilusão,
Tolhida na amplidão
Que lhe sonhei...
Felizmente, que sei
Cantar sem pressa.
Que sei recomeçar…
Que sei que há uma promessa
No acto de cantar…


Miguel Torga

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Coimbra, 20 de Junho de 1975

Coimbra, 20 de Junho de 1975 – Estranha revolução esta, que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou. A mais imunda vasa humana a vir à tona, as invejas mais sórdidas vingadas, o lugar imerecido e cobiçado tomado de assalto, a retórica balofa a fazer de inteligência. Mas teimo em crer que apesar de tudo valeu a pena assistir ao descalabro. Pelo menos não morro iludido, como os que partiram nas vésperas do terramoto. Cuidavam que combatiam pelo futuro e, na verdade, assim acontecia, mas apenas na medida em que o sonhavam como se ele tivesse de ser coerente com a dignidade do seu passado de lutadores. O trágico é que um futuro sonhado não passa de uma ficção. O tempo é o lugar do inédito. O futuro autêntico é sempre misterioso e autónomo das premissas de que partiu. Quando chega, traz os seus valores, as suas leis, a sua gente, nem boa, nem má. Traz os títeres que lhe convêm. Ou pior: os títeres a quem a hora convém.

Miguel Torga

Coimbra, 20 de Junho de 1974


                             FLECHA

Seta de um arco tenso disparado,
Vou cego e apontado
Ao alvo que o destino me destina.
Ali termina,
Inglória,
A curva trajectória
Da minha vida.
Insólita aventura,
Tão breve, tão impura,
Tão absurdamente acontecida!